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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O multiverso


Pergunta: As colocações que o senhor fez são bastante válidas, até porque nós que estamos nessa sala, na realidade não estamos na sala. Cada um na sua mente criou uma sala dessa, colocou um monte de bonecos que representam as pessoas, colocou outro boneco representando a si próprio e a informação dos nossos olhos, ouvidos e sensores é usada para alimentar e deixar essa sala mais verdadeira. E vivemos ali dentro. Na realidade não estou vendo nenhum de vocês, meus olhos captam uma informação louca e essa informação é usada pela nossa mente para montar a sala e o meu boneco que é o Policarpo, enxerga o boneco Monge. Inclusive coloca cores e sabores que na realidade não existem. Isso para mim é bem claro. Mas quanto a essa questão do vazio dos agregados, das formações mentais... se alguém toma uma droga, pode ver surgir um elefante cor de rosa, e nos sonhos também criamos coisas. Sob determinado aspecto estamos vivendo dentro de uma simulação que nossa mente cria e compartilhamos a mesma simulação, porque essa informação sensorial é usada para fazer coisas parecidas. Isso tudo é difícil de entender, mas uma vez chegado nesse estágio, conseguimos compreender que tudo é criado pela mente. Além de tudo ser criado pela mente, o que seria o real, também seria vazio, conforme o que o Senhor falou, que os átomos são noventa e nove por cento vazios. E se olharmos mais profundamente, mesmo aquela matéria que gerou o átomo também é vazia, na realidade poderíamos considerar isso como não existente, como sendo gerado por um computador, até mesmo o Big Bang que coloca as partículas juntas para funcionar e dali sai alguma coisa é uma inicialização de computador. Agora essa coisa que processa a informação, essa mente maior que o Senhor fala, de alguma forma é como se fosse um oceano de vazio que no momento era tudo zero, uma coisa que está ali, mas que não tem contexto nenhum e, em determinado momento, se organiza e gera esse nosso universo, que estamos vendo mas que foi só uma organização diferente do vazio como o Senhor mesmo coloca às vezes, onde a onda do mar de alguma forma gera outras ondas cada vez mais complexas. Agora, a gente vendo desse mar, desse vazio, emergindo nossas formas, todo esse universo, a princípio poderíamos ter emergido dele coisas mais simples, por exemplo um universo com formas geométricas que se atravessavam, se compararmos essa nossa realidade com uma simulação de computador, talvez pudessem ter existido simulações mais simples. Mas e se aqui nessa nossa simulação surge uma consciência, surge uma inteligência, nessa simulação é mais simples e poderiam surgir outras consciências, consciências muito maiores que essa, sem limitação e que talvez estivesse associada a esse grande ser, essa mente Búdica e que de alguma forma ela tenha contribuído pra que isso aqui ocorra. O que eu quero dizer é que temos o vazio e temos o nosso nível de existência. Não abriria espaço nesse modelo para outras formas de existência que não essa, assim como outras mentes e isso não poderia ser associado às figuras mitológicas?

Monge Genshô – É essa sua pergunta? Bom, dois pontos importantes: Primeiro, não falamos em criação e não falamos em criador. Quando dizemos “a mente” ou “o grande ser”, estamos nos referindo ao conjunto de todas as coisas, mas não a uma entidade planejadora ou criadora. Segundo, nós poderíamos, do ponto de vista Budista, conceber uma espécie de multiverso ou muitos níveis diferentes de existência. Não é necessário crer nesse tipo de coisa, pois o Budismo não tem uma cosmologia ou uma descrição na qual devemos colocar nossa crença, nossa fé. Para nós, basta o método, a prática e a noção de que podemos despertar. Mas a literatura Budista está repleta de noções de múltiplos universos, formas de existência e de consciência. Uma das descrições lista trinta e dois diferentes reinos.

Começa com um reino infernal, cuja característica é a raiva; em seguida o reino dos fantasmas famintos, cuja caraterística é a avareza e a ganância; depois o reino animal, cuja característica é a ignorância, a pouca percepção e a falta de clareza; depois, em quarto, vem o reino humano, que mescla sofrimento e felicidade e que já permite esse tipo de discussão. Depois semideuses, onde existe poder e disputas por mais poder.

Fazendo um paralelo com os seres humanos, quando você tem raiva, está no mundo dos infernos; quando é avarento, está no mundo dos fantasmas famintos; quando é ignorante, é como um animal, sem pensar em mais nada a não ser na satisfação de seus desejos, da sua urgência; se você é humano, está ora feliz e ora triste, sempre variando entre dor e sofrimento. Se é um semideus, é provavelmente um executivo rico e poderoso que consegue tudo o que deseja com grande facilidade, porém, não pára de lutar e está sempre na perspectiva de perder tudo. Se é do reino dos Deuses, tudo é muito fácil: a riqueza vem fácil, mas às vezes sente-se perdido com toda a glória e poder e facilmente você cai em um mundo de prazeres e não consegue se livrar, podendo perder tudo e morrer, pois os Deuses na cosmologia Budista morrem.

Depois disso ainda há dezenas de outros níveis de consciências cada vez mais sutis, consciências sem forma no universo, seres profundamente iluminados, sábios, Budas, cada vez níveis mais sutis de mais domínio e conhecimento vivendo em universos completamente diferentes do nosso.

O Policarpo, que é físico teórico, disse que do ponto de vista da física somos “nuvens de átomos e aparências”, estou vendo vocês em uma faixa muito estreita do espectro eletro magnético, chamado “luz visível” e nele eu vejo cor, é como se nessa faixa de frequência como enxergo existisse um filme que iniciasse em Porto Alegre e fosse até Salvador, cada quadrado representa um pedaço do espectro eletro magnético. Um fotograma de um centímetro é a faixa que nós vemos, todo o resto é invisível. Abaixo do infravermelho, acima do violeta não enxergamos. Mas essa quantidade de percepção é equivalente a um fotograma de um filme de três mil quilômetros de comprimento. É só isso que eu vejo de vocês e que vocês vêem. Só vemos essas cores e esse pequeno pedaço, o resto todo se perde, ninguém enxerga o calor que emana dos corpos, ninguém vê os raios gama ou os neutrinos que passam aos milhões através de nossos corpos. É imenso o universo que existe à nossa volta, complexo, invisível e não seríamos capazes de lidar com essa quantidade de informação.

Todas as transmissões de rádio e televisão do planeta inteiro passam por nossos corpos nesse exato momento. É necessário um aparelho para podermos captar esses sinais pois são invisíveis para nossos sentidos. Não é absurdo que exista uma quantidade imensa de outras formas de existência simultaneamente aqui conosco e que não somos capazes de perceber. A resposta é “sim, pode ser”, mas não ajuda o despertar de ninguém saber isso. Saber tudo isso que o Policarpo sabe sobre física não ajuda nada no despertar, só faz com que a pergunta dele seja mais comprida. Por isso os mestres Zen acabam dando repostas, como falei ontem, curtas e paradoxais que sirvam para o despertar das ilusões.