quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O Budismo é Experiencial




A Índia era um país particularmente rico, e ainda  é, nas mais diferentes crenças e formas de prática religiosa. Eles tinham ascetas, a antiga religião dos vedas, e, como se diz, tinham 300 milhões de deuses.
Havia também as mais diferentes formas de filósofos, com ideias das mais diversas, inclusive um caleidoscópio de posições conflitantes, e a Índia foi particularmente tolerante quanto a isso. Todas as religiões que surgiam tinham suas particularidades, e todo mundo aceitava.

Buda era provavelmente um rapaz muito inteligente, pois ele teve o privilégio de ter uma educação esmerada para o seu tempo - era príncipe. Ele era da classe xátria, os governantes. O pai dele era rico, posto que rei de um pequeno principado, e pôde dar a Siddharta Gautama Shakyamuni (da tribo dos Shakya), boa educação, tanto filosoficamente como nas artes da guerra, pois era da classe dos guerreiros. Então Buda teve treinamento na espada, no arco e flecha, e existem várias histórias em torno das suas habilidades. Provavelmente parte dessas histórias são míticas, pois a medida que o tempo passa, mitifica-se um personagem.

Agora, Shakyamuni era naturalmente cético. Percebemos isso em seus raciocínios: ele não aceitou nada gratuitamente. Ele chega ao radicalismo de dizer que ninguém deve aceitar as coisas só porque alguém disse. No fundo, vocês não são obrigados a aceitar nada que o Sensei [Professor] disse, não existe nenhum dogma. A estrutura do budismo é experiencial, você  tem que ir lá e experimentar.


A função do Professor no Zen é dizer: "Zazen é assim, faça assim que você também vai ter uma experiência". Se você a tiver, não precisa mais acreditar, pois tem sua própria experiência, e, portanto, seu saber próprio. Sabedoria substitui qualquer crença. No fundo, a palavra fé no budismo refere-se mais a confiança no ensinamento do que fé propriamente dita. 

[Trecho extraído de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O Zen não é para os Curiosos




Uma vez veio um homem aqui que queria assistir as palestras. Então ele dava um jeito de chegar depois do zazen. Ele veio duas vezes, chegou duas vezes e perguntou se podia ver a palestra. Eu disse que sim.

Na terceira vez eu disse “Não pode. Se você não vier sentar e praticar zazen não pode assistir à palestra”. Porque é só curiosidade. Só debate. Só “mas”, “eu acho que”, “eu penso que”, “eu não concordei com aquilo”. Porque não é essa a postura do aluno. A postura do aluno no zen é outra coisa muito diferente. A experiência mostra que se você sentar alguém lá por 40 minutos já é diferente. A aula já é diferente. A maneira e as perguntas que surgem são diferentes, tudo é diferente. Mas quem vem só por curiosidade… 



Eu me lembro muito bem do meu primeiro professor. Eu conto esse episódio naquele livro O Pico da Montanha. Foi um episódio real. Eu estava numa aula de karatê em Porto Alegre e chegou um monge zen. Eu tinha vinte e poucos anos e pensei: “poxa, todo mundo vai querer ouvir esse monge Igarashi Roshi”. Fui até Igarashi Roshi e perguntei: “o senhor pode falar para os alunos?”, e ele disse: “posso”. Fui até uma sala de aula do karatê que tinha naquele momento e disse para os alunos: “tem um monge zen aqui e agora, e o zen é a base filosófica do karate do, o caminho das mãos vazias. Se vocês quiserem ouvir, passem para a sala ao lado”. Foram umas vinte pessoas. Sentaram-se em seiza (ajoelhadas) no chão. Igarashi Roshi olhou para todo mundo e disse: “por favor, virem-se para a parede”. Pegou o sino e anunciou 20 minutos. Ficou todo mundo lá ajoelhado por 20 minutos, exceto quatro que se levantaram e saíram. Aí bateu o sino, todo mundo se virou, olhou para o centro da sala e ele correu os olhos por todos. Virou-se para a parede de novo: “mais vinte minutos”. Todo mundo saiu. Sobraram eu, o Professor João Graff, que já morreu, que era faixa preta de karatê, e dois alunos daqueles vinte. Aí ele fez uma palestra. Uma bonita palestra com o português errado que ele tinha, mas ele se esforçava. E ele disse: “eu não vim aqui falar para os que têm curiosidade. Eu vim falar para quem estava disposto a sofrer para ouvir”. 

Por isso que o zen é ensinado assim como ensinamos aqui. Se não estiver disposto a sofrer para ouvir, não tem jeito. Então, sobre levar tanto tempo: é tão difícil de encontrar, mas também é tão difícil de ensinar.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei em Florianópolis, 23/08/2016]