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terça-feira, 30 de abril de 2013

A loucura do mundo I



Nós praticantes, temos que enfrentar uma coisa chamada A loucura do Mundo. Nesse sesshin tivemos a oportunidade de sentir esse contraste, durante toda a noite e pedaço da manhã, ouvimos o som de uma festa rave, uma festa que ocorre a quilômetros de onde estamos. Podemos imaginar o espírito que anima essa festa, todos nós já estivemos em alguma festa com som alto.

Quais são as características das festas? Nos embriagamos, tentamos não pensar, tudo é feito para que as pessoas escapem da clareza e percepção da vida como ela é, de como sentimos e percebemos a vida na sua natureza intrínseca, sua finitude, a questão dos desejos e prazeres, daquilo que nós procuramos e que normalmente embrutece os homens. Em geral os prazeres exigem certa cegueira, exigem que você ignore o sofrimento alheio, quando comemos algo prazeroso, esquecemos que mesmo quando comemos arroz grande sofrimento aconteceu para que ele chegasse até nós, foi necessário que muitos seres, pequenos seres na terra fossem sacrificados. Foi necessário, inundar campos, usar herbicidas, ou seja, mesmo quando comemos algo que nos parece inocente, não é assim.

Então, quando fazemos a pratica do Oryoki, (refeição ritual zen) a fazemos com grande respeito e não desperdiçamos nem um grão, pois temos que pensar no sofrimento que acontece por existirmos. Nas festas as pessoas bebem, ou mesmo usam drogas. Ao fazerem isso elas embrutecem suas mentes e tentam não enxergar nada, perdendo desta forma, algo muito difícil de conseguir, a clareza. Esquecemos também, o resto do mundo, o sofrimento que irá causar a alguma pessoa o fato de estarmos ali.

Nas festas há também grande procura pelo prazer sensual, uma das grandes motivações das festas é o desejo de encontrar parceiros para a sensualidade. Nessa mera procura, há sofrimento. Pois há escolha, há a recusa, há traição, uma série de coisas. E também porque essa procura pode ser de um prazer momentâneo, que começa agora e logo que se realiza as pessoas querem se afastar, porque o impulso que levou àquele prazer era momentâneo, não era profundo. Milan Kundera, no seu livro “A insustentável leveza do ser”, diz “amar não é fazer sexo, amar é querer dormir abraçado depois”. Esse é o significado de não estar a procura do mero prazer sensual, mas sim de estar junto, de compartilhar. Então esse é um significado totalmente diferente da fugacidade que normalmente se procura nas festas.

Outra coisa que acontece numa festa como a que ouvimos, são os sons muito altos, eles significam, “Não estamos aqui para conversar, para entender o outro, não estamos aqui para ouvir alguém, queremos abafar todo pensamento racional e mergulhar na pura sensualidade”, e o ritmo também é muito forte, por quê? Porque é para apressar o batimento cardíaco, para pular e ficar como um louco, então, essas são as loucuras do mundo, o embrutecimento pelas drogas, o som alto, a procura do prazer sensual, sacudir-se, suar e o esquecimento do que aconteceu. Ou seja, o que acontece aqui e agora não tem importância pois vou esquecer amanhã. As pessoas até dizem as vezes, “Eu estava muito louco” como se isso fosse glorioso.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O construtor da jaula



Pergunta - Estou vivendo um certo conflito. Normalmente eu consigo meditar. E através de minha técnica consigo alcançar um estado que me traz serenidade, que me coloca num estado de melhor consciência do que se passa comigo ou ao meu redor, os fenômenos começam a se esclarecer. O choque desse processo zen com minha técnica, tem impedido que eu consiga alcançar o que alcanço normalmente. E segundo o que foi colocado, isso é feito de propósito, a fome, o cansaço, as dores do sentar imóvel. Sei que isso tem um objetivo, embora ainda não tenha entendido qual, vim para cá com objetivo de melhorar minha meditação e não estou conseguindo. Talvez isso seja um aprendizado mais profundo do que eu possa compreender.

Monge Genshô – Quem está tentando conseguir algo?

Aluno – Aquele que busca alguma coisa.

Monge Genshô – Quem é este que busca alguma coisa?

Aluno – É esse que tem o sentido da existência.

Monge Genshô – Quem é esse que tem o sentido da existência?

Aluno – É o ser.

Monge Genshô – Quem é esse ser?

Aluno – É esse processo de busca através da introspecção.

Monge Genshô – Quem está sendo introspectivo?

Aluno – Esse ser que tem a vontade da libertação pois se sente preso.

Monge Genshô – E quem o prendeu?

Aluno – Eu mesmo. Através de meus pensamentos, da minha mente me tornei um escravo...onde se forma esse ego...

Monge Genshô – Se foi você quem se prendeu, onde está esse “se libertar”? Quem construiu a gaiola e quem faz com que a gaiola exista?

Aluno (Guimarães)– Exatamente esse estado de ilusão e ignorância que me faz viver esse sonho.

Monge Genshô – Se você percebe que seu eu construiu a prisão, se você simplesmente abandona-lo, desistir dele, o que significa desistir de procurar, desistir de se libertar, desistir de alcançar algo, desistir de ganhar alguma coisa, você estará no caminho. O problema é que você sentou para conseguir melhorar a sua meditação. Meditação de quem? De Guimarães. Você tem que esquecer Guimarães, se você conseguir esquecer e sentar sem nenhum objetivo, no momento que você desistir, e talvez esse sesshin não seja suficiente pois você fica sofrendo dores e cansaço. Normalmente não se explica as coisas, esperamos que a dor e o cansaço vençam você de tal forma que você desanime e desista. Essa é uma experiência real. Quando você desistir e só não sair da sala pois não pode abandonar seus colegas, quando estiver derrotado estará perto de se livrar do construtor de sua jaula, e o nome dele é Guimarães, livre-se dele.

Decupada da gravação por Chudô San, palestra em Sesshin na Reserva Passarin.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Consciente, inconsciente, mantras



Pergunta – Mas o inconsciente também não seria um instrumento do ego?

Monge Genshô – Não usamos no zen, como se usa na psicologia, essa nomenclatura. É um pouco diverso. Não usamos inconsciente ou consciente, dizemos a mente, está tudo junto, seu inconsciente é acessível através da prática, da técnica. Sua mente está integrada. Pode ser útil usar as palavras inconsciente ou consciente dentro do terreno da psicologia ou até mesmo numa análise do zen. Mas na verdade estamos falando de “a mente”. Para os mestres do zen consciente e inconsciente são acessáveis. Como expliquei sobre o surgimento de imagens e coisas desse tipo dentro do zazen, isso acontece pois está acessível.

Pergunta – Vou reformular a pergunta então. A mente, que é o foco do zazen, não vem a ser o ego, ela é um instrumento, que pode ser do ego ou da essência? E vez ou outra pode haver esse conflito interno onde a mente é só o campo de batalha?

Monge Genshô – O ego é uma construção assim como o eu é uma construção. Por que ele está operando? Porque ele lida com memórias, com um corpo, com sentidos, então ele cria a noção de um eu. Mas temos pessoas hoje aqui com mais experiência nessa área, pessoas formadas em psicologia, mais acostumadas com esses termos e podem falar melhor sobre as diferenças entre eu e ego. Seigaku san, como você definiria essa diferença entre eu e ego sob o ponto de vista da psicanálise?

Seigaku San – Bom, posso falar sob a ótica da psicanálise. Não existe diferença entre eu e ego. O eu é uma construção imaginária que tem base inconsciente.

Monge Genshô – E o que seria ego?

Seigsaku San – O ego é uma tradução para o eu.

Monge Genshô – Alguém de outra linha que queira falar sobre isso?

Pablo San – Sou formado em Gestalt terapia. Para a Gestalt o que se entende por ego envolve a questão de personalidade. A Gestalt divide o ser em ID, ego e personalidade. Personalidade é o personagem social, eu tenho um nome, uma idade e tudo que envolve minha pessoa para agir no mundo. Para a Gestalt o ego são as ações no mundo, ações sensório-motoras. O foco da terapia é fazer o ego se desenvolver. Quando o ego se desenvolve a personalidade oscila. O ID seria o mais primitivo, as apetites, a fome, os desejos.

Monge Genshô – Como podemos observar, a linguagem é uma forma de tentar organizar e compreender uma coisa complexa. Vemos então, a psicanálise com uma determinada visão, a Gestalt terapia com outra, outras palavras e outras classificações, mas essas classificações não mudaram o homem. O homem continua sendo o mesmo. Só a linguagem tentou compreender colocando em escaninhos, dividindo e classificando, isso é o que fazemos com a linguagem.

Por isso o zen tantas vezes recusa o uso da linguagem ou usa de paradoxos para quebrar a mente conceitual. Por isso tantas respostas completamente delirantes dos mestres. Na verdade o que eles desejam é isso, quebrar. Antigamente não existiam banheiros nos mosteiros, usavam-se latrinas, que deveriam ser limpas constantemente, e para isso usava-se pás. Uma vez um mestre zen saía do banheiro e um monge lhe pergunta, “O que é Buda?”. Ele então olha para o lado e vê a pá que era usada para limpar as latrinas e responde, “esterco seco na pá”. O que ele tentou nesse momento? Detonar essa mente classificatória do discípulo.

Uma vez eu estava fazendo uma palestra sobre o zen para um grupo de praticantes tibetanos. E eles costumam recitar mantras. Nós também temos mantras no zen, como o do final do Sutra do Coração da Sabedoria em que dizemos Gyate Gyate, hara gyate, hara so gyate, bodi sowaka. Que quer dizer, “Idos, ou chegados à outra margem, todos juntos, o despertar, salve” que é a margem da sabedoria ou iluminação. Os tibetanos ao usarem os mantras acreditam que estão influenciando o mundo com esses sons. Então um aluno perguntou, “qual o mantra mais sagrado?”. Eu poderia dizer que é o do final do sutra do coração. Mas como ele fazia a pergunta preso a essa questão de sons sagrados e rezas, eu lhe respondi, “quando você vai ao banheiro e usa o vaso sanitário e ouve o ruído...Pluf...esse é o mantra mais sagrado”. Como todos ficaram congelados eu expliquei, veja bem, o universo é uno, todos os sons são a voz de Buda, são voz búdica, é o universo se manifestando. A manifestação do universo. Quando você pensa esse som é sagrado e esse não é, é sua mente classificatória que está funcionando, uma mente que separa bom e ruim, bonito e feio. Quando você for ao banheiro e ouvir esse som como se fosse a voz de Buda então você superou sua mente classificatória, sua mente conceitual e realmente viu tudo, então, esse é o mantra mais sagrado. Por isso as respostas dos mestres podem parecer aparentemente malucas, mas tem sentido.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Os ingredientes constroem a mente



Pergunta – Monge, gostaria de saber sobre a prática, as vezes e aqui mesmo no retiro, sinto muito sono, as vezes sinto que estou consciente mas não estou, sempre vem palavras ou imagens...elas vem e vão o tempo todo...isso é um sonho?

Monge Genshô – Você está quase dormindo, está muito cansado. Basta você fechar os olhos e as imagens virão. Você está com um déficit de sono, ora, isso é proposital, nós acordamos cedo para que todos fiquem com um déficit de sono, isso ajuda a crise. A cozinha tem ordem de fazer comida simples. Um oryoki faz com quem você coma pouco. Em geral em sesshin todos emagrecem, existe um déficit de alimentação também. Passamos muitas horas sentados, quietos, não precisamos de muita comida. A sexualidade é diminuída ao máximo. Embora sentado em zazen você possa ter fantasias, tentamos nos distanciar de tudo isso. Essas fantasias estragarão seu zazen, pois são invasivas e ficarão rodando na sua cabeça, mesmo com esse tipo de pensamentos, devemos voltar sempre para o momento presente, não se trata de ser bom ou ruim, é simplesmente natural do ser humano. Essas imagens que vão surgindo por que você está no limiar do sono, são interessantes, pois você tem acesso ao seu inconsciente, que normalmente em vigília você não tem. Como você está prestes a adormecer, mas não se pode permitir, tem que ficar presente. Por isso a instrução, não feche os olhos, fique atento, se você fechar os olhos é mais fácil adormecer.

Esclarecimentos ou respostas para Koans podem surgir nesse tipo de situação, problemas que você não consegue resolve, de repente, por ter acesso ao seu inconsciente, você pode alcançar a solução. Técnicas como associação livre já foram tentadas na psicologia, mas você, com esse déficit de sono no zazen, tem acesso ao seu inconsciente de forma direta. Qual o conteúdo do seu inconsciente? É o que esta surgindo agora, é o retrato de sua mente agora. Quem fez essa mente? Você, sempre surgem as coisas que você colocou pra dentro. A receita do bolo sai de seus ingredientes, e os ingredientes são coisas que você assiste, lê, pensa, escuta ou pensamentos que você costuma cultivar. Agora você tem a oportunidade de limpar e reconstruir sua mente. Essa é uma instrução de Buda, “cultive o bem, evite o mal e seja senhor de sua mente”. Estamos tentando uma coisa que a maioria das pessoas não é, senhores de suas mentes. Você pode até ser senhor de seus próprios sonhos, você pode governar isso. Essa é uma habilidade que pode ser treinada e desenvolvida. Muito útil, tanto para resolver problemas como para enxergar o resultado de seu treinamento.

Pergunta – O senhor poderia comentar sobre as técnicas de contagem. Contagem de respiração, elas ajudam bastante, mas é problemático ficar um zazen inteiro contando?

Monge Genshô – Mestre Dogen dizia que contar ou qualquer outra técnica não é a prática essencial dos Budas. Nós temos hoje uma abordagem um pouco mais tolerante, se você tem grande dificuldade, pode começar contando, conte as respirações até dez. Pode recomeçar sempre que necessário. O problema é que isso não é zazen. Isso não é shikantaza, isso é uma técnica para ficar sentado e focado em alguma coisa. Mas porque não é shikantaza? Porque não é zazen? Por que tem alguém contando, tem um observador que conta, tem alguém que se perde e diz, vou voltar ao numero um, tem alguém que diz, agora é sete, depois oito e assim por diante. Tem alguém que diz, cheguei ao dez, volto ao um. Existe um observador e enquanto ele existir você não pode mergulhar na unidade, pois na unidade não existe observador. Não veto, como no tempo de Dogen, o uso de técnicas de contagem para auxiliar a meditação, mas insisto, zazen não é contagem, não é isso. Shikantaza significa apenas sentar, sentar junto com todos os seres. Alguém espirra na sala durante o zazen, Quem espirrou? A Sangha espirrou, o grupo espirrou, o grupo se mexeu. É o nosso zazen, não existe meu zazen. Alguém quebrou uma xícara, nós quebramos uma xícara. Todos esses pensamentos do tipo, não fui eu, foi o outro, fui elogiado, fui criticado, são pensamentos de ego.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A maravilhosa linguagem é insuficiente




Pergunta – Eu gostaria de saber se o budismo tem alguma explicação para o pensamento, por que tenho pensamentos que eu quero ter ou não gostaria de ter? Pensamentos dualísticos, ao mesmo tempo em que quero pensar o bem, penso em coisas ruins.

Monge Genshô – Nós organizamos o mundo através da linguagem e ela é uma ferramenta muito útil, tanto que construímos toda tecnologia e todas as coisas usando a linguagem. Mas a linguagem tem um mecanismo dual. Desde pequeno você aprende entre certo e errado, em cima e embaixo, direita e esquerda. Embora isso no fundo não tenha muito sentido, essa é minha esquerda, mas aí pra você é sua direita. Aqui, agora é em cima, mas para os japoneses do outro lado do mundo é embaixo. Nós usamos a linguagem e organizamos o mundo, dessa forma podemos entendê-lo. Os homens para entender o mundo costumam classifica-lo. Você sempre encontrará as pessoas divididas em tipos, coisas como horóscopos onde se separam as pessoas conforme personalidades supostas, essas coisas são um esforço da mente para tentar colocar ordem numa coisa na qual ela não consegue ver ordem.

Na verdade as pessoas são todas diferentes. Você coloca-las em prateleiras e dividi-las em escaninhos pode ajudar a entendê-las. Mesmo numa fantasia, como é o caso dos horóscopos, mas não ajuda você a olhar a realidade de que cada pessoa a sua frente é um indivíduo maravilhosamente diverso de todos os outros. A sua mente faz isso, pois ela foi treinada para fazer isso, pois ela só consegue pensar com esse instrumento, a linguagem e a classificação. Mas quando peço para você sentar, eu digo não elabore, não julgue, não existe certo ou errado, deixe os pensamentos virem e irem, não o analise, não o agarre, não raciocine sobre ele, você só pode fazer isso com a linguagem e a ela não vai dar a você a percepção pura do universo. Essa percepção não pode ser alcançada com as palavras. As palavras são insuficientes.

Um dia desses na Sangha, uma mulher me perguntou, “como é a iluminação?”. Então perguntei quem já havia comido lichia. Perguntei se ela já havia comido lichia, ela respondeu que não, então pedi à outra pessoa que já havia comido que explicasse o gosto da fruta. A linguagem é absolutamente insuficiente para explicar algo aparentemente tão simples, você consegue colocar a fruta na boca e automaticamente saber o gosto, mas uma descrição disso não é nada. O samadhi que acabei de descrever, quando vocês experimentarem, saberão o que é, aí poderão falar com outra pessoa que já experimentou. Se alguém já teve uma experiência iluminada, poderá sentar com alguém que também já teve a experiência, um instantaneamente sabe do que o outro está falando, mas as pessoas que não tiveram essa experiência não conseguem conversar sobre isso, se está fora de sua experiência a linguagem é inútil.

Estamos procurando algo mais fundo que pensamentos. Mas então por que os professores do zen acabam falando, por que o senhor está dando uma palestra? Porque é a única coisa que tenho para me comunicar com vocês, ainda bem que temos a maravilhosa linguagem, mas ela é insuficiente.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A vida é como é



Pergunta – Como um psicólogo pode lidar com o que é levado até ele?

Monge Genshô – Bom, o psicólogo tem suas próprias técnicas. Ele trabalha num outro âmbito. Ele trabalha com “eus”, com a relação de um indivíduo com o mundo, tenta construir um ego estruturado que possa se relacionar bem no mundo. Mas não é assim que o zen trabalha. O objetivo de um mestre zen é na verdade destruir. É tirar o tapete de baixo do eu. Deixa-lo solto, sem nada onde se agarrar. É um processo completamente diverso e não é para ser aplicado para qualquer um, somente para aqueles que queiram se libertar, para uma pessoa que já apresente algum tipo de problema pode ser perigoso.

Então a prática do zen é uma prática para pessoas que estejam razoavelmente equilibradas, pois serão apresentadas à uma crise onde você não tem suporte. De repente você perde os deuses aos quais os homens sempre se agarraram. Se você tentar se apoiar no seu professor, ele não o apoiará, ele o apresentará à uma crise ainda mais aguda, colocando você em problemas mais difíceis, ou mesmo fazendo perguntas que você tem muitas dificuldades em responder.

Esses dias um homem me escreveu perguntando sobre a ordem subjacente do universo. Porque a matéria se organizava de maneira a fazer vidas, “eus” e coisas assim, um mundo como o nosso perdido dentro de uma imensa galáxia, que é apenas uma dentro de bilhões de galáxias, parece tudo sem sentido, ele queria uma ordem subjacente, e eu lhe perguntei, “uma ordem criada por quem, com qual objetivo?” Na verdade ele não vai encontrar o sentido ou objetivo, porque afinal esse próprio universo irá se dissolver com o tempo em entropia, as estrelas se apagarão, a matéria irá se desorganizando, a energia vai se espalhando de formas não aproveitáveis de modo que um dia esse universo se apagará, e você quer um sentido? Uma resposta zen é, “a vida é como ela é e as coisas são como são”.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Seja aquele que canta lá fora



As experiências místicas muito provavelmente não acontecem no zazen, as melhores experiências acontecem fora, depois quando estamos caminhando, ou em outra situação e percebemos que nossos sentimentos estão mudando, se fizermos tempo suficiente de prática nossos próprios sonhos mudam, nosso sono muda, mas nossos sonhos melhoram, porque nosso inconsciente muda. Agora temos apenas um dia mais ou menos de sesshin, esses primeiros zazen do primeiro dia é como se fossem uma limpeza, muitos pensamentos já vieram e se foram, muitos pensamentos que surgiram nos primeiros zazen já não tem mais sentido. Talvez agora estejam retornando imagens ou pensamentos que não são dos últimos dias, mas sim coisas mais básicas e também elas se tornarão cinzas, mas não se importem, não mexam com elas, apenas retornem para cá, para essa imensa dificuldade que é viver o momento presente, a verdadeira vida.

É necessário esquecer de si mesmo. Esquecer de mim, este que sempre quer explicar tudo, que sempre quer ter sucesso, que sempre vai procurar culpas, ou para se martirizar ou nos outros, esqueçam este eu, joguem fora, ele também é uma construção, também é imaginário. Por isso fazemos tudo junto, nunca separem-se do grupo para fazer algo sozinhos. Nós fazemos tudo juntos. Porque não somos ”eus” separados, somos participantes de um grande ser. Esse eu separado que nós tanto prezamos e acreditamos, esse é que nasce e morre, se nos livrarmos dele, nos livramos também de nascimento e morte. Isso é iluminação. Por isso a iluminação é um acontecimento de grande alegria, felicidade imensa, porque morte e nascimento desparecem e de repente você ganhou vida eterna.

Não sentimos nossa eternidade porque somos indivíduos, porque acreditamos em nós mesmo como pessoas separadas e até criamos religiões que querem que nós continuemos existindo iguais para sempre. E não existe nada igual para sempre, só existe um imenso universo do qual nós somos ondas participantes. Estamos nesse imenso fluxo. Somos como as pedras ou árvores lá fora, somos fenômenos no universo. Nós temos que nos sentir como o universo e para isso é necessário esquecermos de nós mesmos. E isso é imensamente difícil, a prática começa com “esqueça passado e futuro, sente-se e mergulhe e seja um com todas as coisas em volta”. Se você conseguir ser um, nem que seja por algum lapso de tempo, se por alguns segundos você for aquele que canta lá fora, mesmo que por um pequeno instante você terá enxergado o que é iluminação. Iluminação é sentir-se assim sempre.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Samadhi



Devemos confiar nos sons dos instrumentos. Cada som significa que algo irá ocorrer, não espere, dirija-se rapidamente para o local. Nos horários de zazen, sempre temos dois sinais, o primeiro é para chamar, “atenção, haverá zazen!” o segundo é para que todos entrem no zendô. Devemos entrar, sentar, ajeitar-nos na posição, respirar e nos propormos a fazer um zazen verdadeiro. O sesshin é sofrido e cansativo, é assim de propósito. O sesshin é uma crise. Sem comunicação, pouca comida, pouco sono e sozinhos. Mas o sesshin está longe de ser uma lavagem cerebral, ninguém lhe dirá o que você deve sentir e pensar. As instruções são, observe sua mente, traga-a de volta para cá. Essa é sua prática, seu treinamento. É um método. O professor não é um Deus, um profeta, um ser perfeito e nem tem nenhuma comunicação direta com algo superior. Ele simplesmente é mais antigo na prática.

Em japonês, sensei , professor, significa aquele que veio antes. Mas não é necessário aceitar irrestritamente o que o professor diz. O budismo ou zen, não são doutrinas baseadas na fé ou crença, é necessário apenas experimentar, treinar, vivenciar. Quando conseguimos a vivência, podemos experimentar algo. O que seria a experiência? A primeira experiência que estamos procurando é samadhi. Samadhi é um estado de profunda concentração em que você está além do pensar e não pensar e está realmente aqui. Se você mergulhar apenas nesse sentimento, estou sentado e ouço os sons, não estou longe por um fio de cabelo, não penso em ontem nem amanhã, só em agora. Se conseguir ficar nesse agora completamente, é samadhi, é isso que temos que cultivar no zazen. Não caiam na tentação de sentar e dizer, “estou cansado e por isso irei criar uma fantasia e rodar um filme na minha mente”. Isso seria um completo desperdício desse sacrifício no sesshin, cada vez que você se vir viajando, volte para cá. Retorne simplesmente, retorne para esse momento. Não se culpe, não se julgue, não pense que esta fazendo um zazen horrível, volte mil vezes. Acalme-se. Se você conseguir não viajar para passado ou futuro e conseguir ficar somente no agora, isso é profundamente sereno. Não existe nenhuma ameaça, nada. No máximo você sentirá cansaço, sono, dor, aproveite, é o cansaço do agora, o sono do agora, a dor do agora, apenas aproveite, o sino irá tocar, vai terminar.

Embora pensemos, “o jikidô deve estar dormindo, esqueceu de tocar o sino”, isso deve ocorrer na cabeça de todos. A função dele é ser responsável por cuidar do tempo do zazen, isso é um sacrifico enorme, pois atrapalha o seu zazen. Apesar de estar de frente para vocês e poder observar e saber que ele já olhou no relógio, também penso, “deve ter passado, ele esqueceu”. Mas também já penso em outro momento, “o que aconteceu, faz só dez minutos que sentamos e o sino já tocou!” . Isso mostra como foi o zazen. O melhor zazen é assim, você sentou e plim...acabou. Guarde esse zazen, esse foi precioso. O tempo não existe. Quando acontece isso você percebe como o tempo pode ser relativo, elástico, como os quarenta minutos podem ser muito longos e sofridos, mas também podem ser muito curtos.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O silêncio no retiro



Por isso, no zazen, as instruções, “não pense no passado”, “não pense no futuro”, “não viaje para suas memórias”, as memórias são fantasias, “não viaje para o futuro”, o futuro também é imaginação, só existe na nossa mente. Nossos sofrimentos só existem na nossa mente. Nós os criamos. No sesshin (retiro) escolhemos não conversar, não falar, porque quando falamos invariavelmente produzimos movimento no mundo, ondas de sentimento nos outros. Podem ser coisas boas, podemos fazer um elogio, produzir um sentimento caloroso, mas mesmo esse sentimento, no fundo, tem uma relação de afago ao ego, ao orgulho, à vaidade.

Dentro do sesshin não conversamos para evitar todos esses fenômenos do ego e poderemos perceber que os atritos são infinitamente menores do que se as conversas fossem permitidas. Se houvesse conversas se formariam grupos e com esses grupos com certeza desconforto. No sesshin tudo é ritualizado para que prestemos atenção e ficarmos mais presentes nesse mundo, nesse momento. A grande prática chama-se Grande Atenção, existe um Sutra, o Sutra Da Plena Atenção, que fala sobre as técnicas de praticar a atenção. Quando você caminha, sinta o chão sob seus pés. Quando sentado em meditação, ouça os sons, não se afaste, fique aqui e ouça o riacho sem parar, não deixe que o som desapareça, esteja atento. Seu olhar deve enxergar a maravilha do mundo, não vemos a maravilha do mundo pois estamos perdidos em nossos pensamentos. Mas a maravilha está presente em todos os instantes, nossa vida é extremamente preciosa, é única. Devemos vive-la como uma grande oportunidade, não sabemos exatamente quando e como ela vai terminar, mas irá terminar para cada um de nós, então esse momento é muito importante, no fundo fazemos sesshin para aprendermos a viver, para nos distanciarmos da embriaguez do mundo. Não devemos ouvir música no sesshin porque ela nos distancia desse momento, do aqui e agora. Existe o momento de ouvir musica, e nesse momento deveríamos realmente ouvir musica, mas agora optamos por não ouvir ou fazer música, para que possamos ouvir outras coisas que estão perdidas durante a maior parte do tempo.

Algumas pessoas ouvem música como forma de apagar sua própria mente e sua percepção, muito alto, não escutam mais nada. Música para embriagar. Estamos aqui para fazer justamente o oposto, longe de toda embriaguez, de tudo que obscurece, de tudo que apaga, para vermos um mundo nítido, tal como ele surge. Por isso, no retiro, evitamos falar, explicar, justificar, pois todas essas coisas são manifestações de nosso ego. Não pedimos desculpas, nem dizemos obrigado, nem bom dia, isso tudo é desnecessário. Se dizemos bom dia e a outra pessoa não nos responder, logo podemos ficar ofendidos, “mas por que ele não me respondeu?” a situação fica resolvida com o silêncio. Nada a dizer.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Vestem mortalhas e vivem como se fossem morrer



O que é sesshin? O ideograma SE tem o sentido de consertar ou reunir e SHIN significa mente. Nossa mente no mundo, com todos os acontecimentos que sucedem, acaba ficando espalhada, então tem que ser reunida, juntada. Também nossa mente está perturbada, somos arrastados como folhas levadas pelo vento, os ventos das paixões e dos acontecimentos nos jogam de um lado para o outro, não temos domínio sobre o que está acontecendo e somos jogados pelos sentimentos, sentimentos mais variados, amores, culpas, remorsos, desejos, aversões, raivas, que nos empurram de um lado para o outro como se fossemos folhas.

Uma outra boa imagem é como se fossemos cavalos sem rédeas correndo pelo campo desembestadamente. Outra bem característica do que vocês sentem no zazen, é de nossa mente como um macaco bêbado pulando de galho em galho, ele agarra um galho, um sentimento, um pensamento e logo vê outro, pula e se agarra, quando você percebe passou o zazen inteiro viajando, perdido, não conseguiu ficar aqui nesse lugar, que é nosso objetivo.

Para que sentamos em zazen? Para consertarmos nossa mente e verdadeiramente viver uma realidade. Essa realidade é aqui. Temos um imenso privilégio, pois esse local é um paraíso distante de todo o mundo. Lá fora hoje o mundo é carnaval. As pessoas se vestem de fantasias. Na Bahia as pessoas tem uma fantasia que chama-se mortalha. Uma fantasia com a qual pode acontecer de tudo, sujar, rasgar, não tem importância, é uma mortalha, e as pessoas vivem como se fossem morrer, como se nada importasse, não tivesse mais sentido qualquer a vida, essa frase é bem interessante, “vestem mortalhas e vivem como se fossem morrer”. Logo os sons são muito altos, a musica é inebriante e todos os desejos vem a tona e podem ser vividos livremente, por que os outros também não estão se importando pois também irão morrer.

Originalmente no carnaval se usavam fantasias que cobriam também os rostos das pessoas e você não sabia com quem se relacionava. Carnaval tem esse nome de origem, carne, pois era a festa que antecedia a quaresma. Durante os quarenta dias antes da Páscoa, os cristãos antigamente não comiam carne, então o carnaval eram os últimos dias em que era permitido comer livremente a carne dos animais, depois disso, pela noção de que Cristo era o cordeiro de Deus, não se podia fazer isso. Ao mesmo tempo, essa festa tem origem nas antigas festas romanas como as saturnais e as bacanais, festas estas, que lembravam deuses como Baco, o Deus do vinho e portanto do inebriar-se, portanto você bebia o vinho e esquecia suas reponsabilidades e as consequências dos seus atos podendo agir livremente. A palavra em português bacanal tem origem nessas festas ao deus Baco.

Nós escolhemos ficar distantes deste tipo de viver. Ele tem a característica do esquecimento da realidade e o mergulho no mundo da ilusão. Usa-se fantasia, a música é para inebriar, a bebida é para entontecer e as consequências não existem. Aqui estamos no mundo do Dharma, nós escolhemos. Temos o céu, as árvores, o som do riacho, mas nossa escolha é nos tornarmos profundamente conscientes desse momento, completamente presentes e trazermos sempre nossa mente de volta para o aqui e o agora, inteiramente.

terça-feira, 16 de abril de 2013

A vida é que nos vive



Pergunta – Eu ouvi quando estive no ROHATSU, que mesmo estando em voto de silêncio, quando o ROSHI passa, nós devemos cumprimentar. Fazemos isso ou não?

Monge Genshô - Sim. Mesmo em SASSHU faça a reverência, mas nada diga. Quando estiver no ZENDÔ e for passar por uma fileira onde se encontra um professor, faça reverência e nunca se aproxime muito do professor. Quando estiver servindo, por exemplo, faça a reverência um pouco afastado do professor e depois aproxime-se para servir. Nunca cruzamos na sua frente, no lugar onde senta, jamais, fazemos o mesmo com relação ao altar, ele representa Buda, então o tratamos como se fosse Buda. É você que faz o mestre, não é ele que se faz, ele só é mestre porque tem discípulo. Não é uma via de mão única, é uma via de mão dupla. Você só consegue ter um mestre se você o vir como mestre. Se você não o vir como mestre ele será uma pessoa comum.

Pergunta – Uma coisa que o Senhor disse lá dentro eu achei muito bonito, “não vivemos a vida, é a vida que nos vive”.

Monge Genshô – Isso tem muito a ver com a noção de eu. Porque temos um eu imaginamos que vivemos a vida. Se tivermos uma visão integrada do absoluto, veremos que somos uma manifestação, um fenômeno da própria vacuidade, nós somos a vacuidade. Então é a vida que nos vive. Você só pensa, eu vivo a vida, porque você olha da sua perspectiva, mas a vida é ampla, grande, imensa, contínua, sempre se perpetuando. Você tem sua filha, para a vida você não cessa, você tem filhos. Nossas mãos são nossos ancestrais, eles estão aqui. Quando sua filha olha para a mão dela, você está presente. Mesmo quando você for embora, você continua, porque a vida é que vive você. Nós pensamos que nascemos e morremos, essa é nossa ilusão, se nascêssemos e morressemos não seriamos praticamente nada, é a mesma ilusão de ondas no mar pensando que elas são algo, são só manifestação do mar, as ondas são o mar, é a mesma coisa, nós somos a vida, não somos “eus”, somos algo muito maior perdidos e estamos perdidos em nossos “eus”, por isso pensamos que vivemos a vida e não é assim, é a vida que nos vive. É o mar que tem ondas que fazem rumor, é o rumor do mar, não das ondas, é o mar que faz rumor.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Durante vinte anos peguei seus chinelos



Não resistente aparece frequentemente nos mosteiros porque a palavra mais freqüente é HAI, que significa, sim. A palavra que mais se ouve, porque a todo o momento que um veterano ou um mestre diz algo você responde “HAI”. E você diz sim para mil coisas, sempre sem protestar, sem apresentar uma nova consideração ou uma opinião. Uma ordem é dada, “Faça isso!”, não existe espaço para, “Mas por quê eu de novo, por quê não Fulano?” isso é freqüente em muitas situações da vida, mas no mosteiro você aprende a dizer somente HAI e simplesmente realizar sua tarefa sem pensar, por exemplo, “amanhã é esperada, segundo a previsão, muita neve, precisamos que alguém acorde as três horas da manhã para tirar a neve do caminho para podermos chegar à sala de meditação, os monges fulano, fulano e fulano farão isso”. Qualquer um poderia ter vontade de se dizer resfriado, ou que é velho, ou que já fez ontem ou ainda que é fraco, mil desculpas poderiam ser dadas, mas nada disso pode ser feito, você simplesmente levanta as três horas e vai tirar a neve do caminho, outro dia outros farão a tarefa e pode ser que neve de novo justamente quando você estiver na equipe de caminhos, isso significa que de novo você fará a mesma coisa.

O sentido disso é aceitação, nós temos que aceitar a vida como ela se apresenta, sem tentar mudar as coisas que não podemos mudar, devemos simplesmente aceitar. Então, a relação mestre/discípulo é uma relação muito diferente da relação professor/aluno. Quando o mestre está presente nós nos comportamos com infinito respeito. Lembro-me e uma pergunta feita à Moriyama Roshi, sobre sua relação com seu professor de mais de vinte anos, “Como foi isso?”, foi a pergunta. “Durante vinte anos eu peguei seus chinelos!”. Quando o mestre sai da sala, o aluno principal, o JISHA, pega seu chinelo e coloca na frente da porta, para que quando ele saia seja mais fácil de calçá-los. Não há gentileza que você não faça e isso faz parte da prática espiritual, você ouve todas as coisas com completa aceitação e também você tem a postura respeitosa, na presença do mestre sempre deve estar em SASHU, jamais estar sentado se ele estiver de pé e não deve ensinar nada para alguém na presença do mestre, você só ensinará algo se ele pedir.

Também não tomamos intimidades com o mestre, principalmente não beijamos ou abraçamos, principalmente mestres de outras culturas onde isso não é bem visto. Os mestres brasileiros não se sentem assim, mas Saikawa Roshi veio do Japão e lá não há esse tipo de costume e é constrangedor ser abraçado ou beijado, por favor não façam isso. (No Brasil, em momentos mais informais, abraçar é aceitável, mas você tem que ter discernimento, no final de eventos pode ser)

Para nós é um extremo privilégio recebê-lo. Apesar de falar tudo isso vocês olharão para Saikawa Roshi e o verão sempre muito gentil, sorridente e a pessoa mais doce do mundo, mesmo assim sigam essas regras por favor. Os que farão RAKUSU, farão votos e ele lhes dará então, um nome no DHARMA. Esse nome é um guia e fazer os votos e portar o RAKUSUé na realidade se tornar um praticante do Zen oficialmente, é portar o manto de Buda e tem que ser portado com grande respeito e isso tem que ser sentido internamente.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Energias de hábito



Pergunta – Mas então eu poderia falar que a sabedoria seria uma forma de manipular o ego, pois mesmo após a iluminação ainda possuo um eu.

Monge Genshô – Sim, é claro, você o usa. Você precisa de seu “eu”, não é que ele seja ruim ou bom, ele é necessário, você precisa dele para transitar no mundo. O que você não pode fazer é confundir-se com seu “eu”. Você não é seu “eu”. O “eu” é uma fantasia que você veste para viver no mundo. Quando você tira a fantasia, pendura num cabide olha para ela e diz, “Ali estou “eu”?”, isso está errado. Vivemos pensando que temos identidades e fantasias. Usamos fantasias diariamente, bancário, advogado, monge, policial, capitalista, comunista etc., todas são fantasias que podem inclusive ser trocadas. Todas as coisas que formam o “eu” são como fantasias.

Pergunta – Então por que ou como se caracteriza uma experiência de kenshô onde essa natureza se manifesta...

Monge Genshô – Não, ela não se manifesta, você a vê. Ela está aqui, você só não a vê porque está com óculos coloridos de sua fantasia, sua fantasia inclui óculos coloridos que fazem com que você veja o mundo com aquela cor. Se em sua fantasia você vê os outros como inimigos é porque você usa óculos que torna os outros seus inimigos.

Pergunta – O que leva uma pessoa a ficar presa numa determinada fantasia?

Monge Genshô – Marcas cármicas. Energias de hábito. Você começa usar uma fantasia e ela cria energia de hábito, essa energia faz com que você volte sempre para a mesma fantasia. Quanto mais você repete, mais forte fica e mais difícil de sair daquela posição. Isso acontece tanto para o mal quanto para o bem. Quando você se torna monge começa a vestir a fantasia de monge, incorpora esse papel e começa a comportar-se como monge, quanto mais você acentua esse comportamento, mais ele o marca. O mal também é assim, se você começar a viver uma vida com maldade, ela também irá marcando você. Eu vi uma vez o testemunho de um assassino onde ele dizia, “Ah, a primeira pessoa que a gente mata sente sede, ansiedade. A segunda pessoa a reação muda um pouco, depois da oitava ou nona, não se sente mais nada”. Todos vocês são assim. Se você está habituado a sentar-se à mesa e colocar um bife sangrento no prato e corta-lo e comer, você em momento algum pensa no boi que sofreu, foi morto e arrancado um pedaço para que você pudesse comer. Você nem pensa sobre isso. Você não se dá conta que está envolvido num processo de sofrimento.

Essas energias de hábito podem ser mudadas. Como? Repetindo atos bons, evitando os maus, isso vai por si só mudando os hábitos, os hábitos me marcam, a marca me muda e é essa mudança que levo comigo. Mesmo após minha morte o carma que provoquei no universo continua e quando outra vida se manifestar levará consigo esses sentimentos, apegos e desejos. Para tornar-se monge precisa marca cármica, vocês estão aqui porque tem marca cármica, para ouvir o Dharma precisa ter marca cármica.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Quem cria movimento é o carma



Pergunta – Como lutar contra a violência sem promover mais violência?

Monge Genshô – Em algumas situações não há outra solução. Isso já foi perguntado à Buda há dois mil e seiscentos anos, policiais, soldados etc., como devem agir? Em determinadas circunstâncias você tem que lutar, não tem como escapar. O que interessa para o Budista é mudar a si próprio, se mudarmos suficientemente bem, nossa próxima manifestação poderá ser num mundo melhor ou em um país melhor.

Pergunta – Como diferenciar ações e pensamentos egóicos de um pensamento que venha de nossa essência e que tenha uma intenção verdadeira de fazer o bem?

Monge Genshô – Não tem nada que venha de nossa essência pura, nossa essência pura é perfeitamente livre e pode manifestar qualquer coisa, ela não é bondosa ou maldosa, pense na analogia do mar, a água do mar é só água. Mas em um movimento como um tsunami ela é destruidora e pode matar. Em um processo de dessalinização ela pode transformar-se em água pura e boa para beber e salvar vidas. A água em si não possui intenção ou propósito. Assim é a vacuidade, quem cria movimento no universo é o carma. Com seus pensamentos, palavras e ações é que você cria os movimentos de sua mente. Não existe um lugar chamado essência pura onde você vai buscar uma bondade ou amor fundamental, no Budismo não existe isso. Esse é um problema teórico interessante para o Budismo, porque no fundo desse pensamento está a idéia de um Deus bondoso por trás de tudo.

Pergunta – Mas então eu poderia falar que a sabedoria seria uma forma de manipular o ego, pois mesmo após a iluminação ainda possuo um eu.

Monge Genshô – Sim, é claro, você o usa. Você precisa de seu “eu”, não é que ele seja ruim ou bom, ele é necessário, você precisa dele para transitar no mundo. O que você não pode fazer é confundir-se com seu “eu”. Você não é seu “eu”. O “eu” é uma fantasia que você veste para viver no mundo. Quando você tira a fantasia, pendura num cabide olha para ela e diz, “Ali estou “eu”?”, isso está errado. Vivemos pensando que temos identidades e fantasias. Usamos fantasias diariamente, bancário, advogado, monge, policial, capitalista, comunista etc., todas são fantasias que podem inclusive ser trocadas. Todas as coisas que formam o “eu” são como fantasias.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O ódio só cessa com o amor



Pergunta – O senhor poderia falar um pouco sobre a violência?

Monge Genshô – A violência é a continuação da palavra por outros meios, e a palavra é a continuação dos pensamentos por outros meios. Onde nasce a violência? O grande teórico da guerra Clausewitz escreveu que “A guerra é a continuação da política por outros meios”, ou seja, quando os homens não conseguem o que desejam apelam para meios que lhes pareçam satisfazer suas ambições e isso sempre começa com o pensamento do desejo. Quando se tem desejos e não se consegue realiza-los a primeira tentativa é pela palavra com pedidos ou ameaças. Se com as palavras não der resultado então parte-se para ações, então, pode surgir daí a violência.

O que interessa sob o ponto de vista Budista é que em qualquer desses estágios há consequências. Os pensamentos geram consequências ao formar uma mente ambiciosa e violenta. Uma mente assim produz palavras do mesmo tipo, palavras e teses para justificar-se ambicioso ou violento. Após isso vem então as ações e mesmo para estas conseguem-se justificativas. Normalmente justifica-se o uso da violência para combater a violência, como uma pessoa foi violenta com outra ela acha-se no direito de reagir também de forma violenta e isso cresce sem limites. A cada passo dado parece um caminho sem volta, cada degrau escalado, você só sobe, vai cada vez mais alto. Mas isso não é só de pessoa para pessoa, as nações também justificam-se da mesma forma.

Não faz tanto tempo que nações iniciaram uma guerra por quererem o território de outras. A tese e justificativa nazista para a Segunda Guerra foi o “Espaço vital” e para ter aquele território valia matar todos seus ocupantes. Se formos olhar na Bíblia, Livro de Números, capítulo trinta, está escrito que o Senhor Deus de Israel manda que seja tomada uma cidade e que sejam mortos todos os homens, mulheres, animais, crianças com uma única exceção, as meninas com menos de doze anos que deveriam ser poupadas para usufruto dos conquistadores. Isso foi bem antes de Jesus Cristo, mas mostra como é a mentalidade de conquista do ser humano. Houve tempo que isso era tão legitimo que estava nos livros sagrados. Ora, para Buda, 2 600 anos atrás, a consideração era "o ódio não cessa com o ódio, o ódio só cessa com o amor".

Não podemos nos admirar que hoje exista violência, até bem pouco tempo, setenta anos atrás era o instrumento de conquista da Alemanha na Europa. Toda a história de invasão do Tibete nos anos cinquenta pela China nada mais é do que a tentativa de apoderar-se de um território, não interessa seus moradores, isso é de tal forma poderoso, que hoje existem mais chineses que tibetanos no Tibete. Os tibetanos insatisfeitos foram expulsos ou mortos e oito milhões de chineses deslocados para dentro do país. Na verdade o uso de violência com fins de conquista territorial ou de bens materiais continua até nossos tempos. Isso é tão forte que os países, no caso da China, que são seus aliados comerciais, não se pronunciam contra essa violência.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Aluno não é discípulo

                   Mestre raspa os últimos fios de cabelo em cerimônia de ordenação de monge

A relação professor/aluno é uma relação de certa maneira simples. É a relação que temos nesse momento. Admitimos que haja um professor dando uma aula e nós o ouvimos. Não significa uma escolha profunda, mas uma situação momentânea que acontece nas escolas, nas universidades e em “n” situações.

Podemos ouvir o professor com bastante reserva e não somos obrigados a aceitar nada. Uma relação mestre/discípulo, não é uma relação professor/aluno, ela é, no Zen, uma relação em que escolhemos alguém para ser nosso mestre na vida e essa escolha deve demorar, não deve ser apressada.

Normalmente os alunos visitam vários lugares, ouvem diferentes pessoas até encontrar um local onde se sentem conectados, se sentem bem, sentem que aquele lugar fala ao seu coração, que aquele professor específicamente está falando ao seu coração. Depois de um tempo bastante variável, pode ser que se estabeleça uma relação mestre/discípulo e nessa relação não existe uma atitude crítica e sim uma aceitação ampla daquilo que esta sendo ensinado, com um mínimo de resistência.

Três características definem o discípulo, silente, obediente e não resistente. Significa, eu ouço e fecho minha boca, sou silencioso, mesmo que eu não concorde, fecho minha boca na esperança de que mais tarde eu entenda aquele ensinamento, agora não entendo, mas não protesto, fico silente. Obediente, o mestre diz, “Faça isso!”, eu vou e faço, não importa se parece coerente ou não. As vezes os mestres pedem coisas que parecem sem sentido, por exemplo, “limpe essa sala”, e você olha e a sala está imaculadamente limpa, mas você vai lá limpar. Significa que não protesto nem penso se tem sentido ou não fazer aquela prática que o mestre está me pedindo.

 Em algumas escolas o mestre pode dizer ao seu discípulo, ”faça cem mil prostrações” isso significa que terei que fazer no mínimo cem prostrações por dia durante três anos para poder acumular as cem mil prostrações. O discípulo não contesta isso, ele simplesmente assume a tarefa. Existem histórias de mestres do passado mandando o discípulo construir uma torre e depois de pronta, desmontá-la, e depois construa a torre novamente. Numa célebre história isso acontece oito vezes.

Isso não é exclusivo do budismo, nos monastérios cristãos também existem esses tipos de práticas. Está chovendo e o Abade ordena aos monges que vão regar o jardim. É preciso ter plena consciência do que é obediência não resistente para pegar o regador e ir na chuva regar o jardim. Evidentemente todos podem se dar conta que tem que haver absoluta confiança na relação mestre/discípulo para se fazer esse tipo de prática, porque ela, dentro de si mesma, tem riscos.

Normalmente no Zen as instruções são de práticas gerais, ou seja, todos os dias levantamos num horário determinado, como acontece num sesshin, vinte minutos depois sentados para fazer zazen. São instruções de prática ritual, “faça assim!”, não há um espaço para questionamentos do tipo, “Por quê quando o professor passa atrás eu faço gasshô?”. Você tem que descobrir sozinho.

Uma vez eu estava no mosteiro e passou o mestre atrás e por acaso naquele instante eu pensava em outra coisa, como minha mente viajou, ele passou, eu ouvi o ruído dos chinelos, mas não fiz gasshô. Ele simplesmente tocou no meu ombro e continuou adiante. No mesmo instante, percebi, ele sabe que embora aqui sentado imóvel de frente para a parede, estou distraído. Ele tocou no meu ombro para me dizer, “Volte para cá!”.

Então, a forma do Zen nos dá muitas informações. Nós podemos ficar atrás dos alunos e saber, por exemplo, ele está entrando na sala, e entra com o pé direito, posso saber facilmente através desse pequeno ato, “Ele não está atento!” e isso se repetirá em todos os momentos, na maneira de comer, na maneira de sentar, na maneira de andar, cada pequeno gesto, como está o mudra, podemos saber muito apenas observando o aluno. Na relação mestre/discípulo, a obediência ocupa um lugar central, porque exige o abandono do pensamento centrado em si mesmo, seu ego.

(Os posts são trechos de palestras de Monge Genshô decupadas da gravação por Chudô San e revisadas por Rachel San)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Uma bola de ferro incandescente para ser engolida



Pergunta – Na recitação da linhagem Shakyamuni Buda não aparece em primeiro, por quê?

Monge Genshô – Os seis Budas que o antecedem são Budas míticos. Isso significa que Shakyamuni Buda não foi o único Buda, não é o único possível, não é um deus nem filho de deuses e tão pouco um salvador. Ele é apenas mais um Buda, o Buda de nossa era. Ele foi um homem e a história de sua morte é maravilhosa. Buda morreu com diarréia, comeu na casa de um ferreiro, teve uma indisposição intestinal em razão da idade avançada e dos problemas de saúde que já tinha e morreu desidratado. Nós colocamos água em frente à estátua de Buda com a intenção de lembrar esse fato e também é como se disséssemos, “Se eu estivesse lá eu lhe daria água”.

 A pergunta que sempre faço é, “Vocês já tiveram diarréia?” Se já tiveram são como Buda e podem despertar. É a historia de um homem comum e é muito importante que seja assim. Nada de histórias miraculosas do tipo, subiu aos céus ou anjos vieram busca-lo no dia de sua morte. Essa história conservou-se assim durante dois mil e seiscentos anos o que quer dizer muito sobre o Budismo.

 Um aluno perguntou ao mestre, “Mestre, no Dharma de Buda o que senhor pode me oferecer?” ao que o mestre respondeu, “Gostaria muito de lhe dar alguma coisa, mas no Zen só há uma bola de ferro incandescente pra ser engolida”. A primeira coisa a ser dita à um aluno é, “Você sabe que está condenado a morte? Eu posso salvá-lo desta angústia existencial, mas somente através da clareza e lucidez. Não através de alguma crença, fantasia ou promessa maravilhosa para depois da morte”. Como as pessoas estão atrás dessas promessas de reencarnações, espíritos permanentes, almas e paraíso, não ficam. Elas desejam crenças, não sabedoria. Por isso uma Sangha com mais de 20 pessoas é muito raro, altíssimo nível. 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

ANANDA ARRANCA O MANTO DE SHŌNĂWĂSHŬ

                                             Jizo Bosatsu protetor de crianças e viajantes

Os homens sofrem porque desejam a permanência, desejam ser sempre jovens, bonitos e que seus amores sejam eternos. Ao casarem-se os casais juram amor eterno, mas isso não acontece, pois mesmo que seja pela morte de um dos dois, o amor irá acabar. Sempre alguém me liga ou manda email pedindo conselhos sobre relacionamentos, a única coisa que posso dizer é que sejam coerentes com seus pensamentos e sentimentos, mas não é isso que as pessoas querem ouvir, elas desejam soluções para seus problemas, querem alguém que assuma seus atos, isso eu não posso fazer. As pessoas não querem ouvir sobre a realidade, por exemplo, todos se julgam importantes e que seus antepassados são importantes. Já fiz essa pergunta milhares de vezes, “Você pensa que seus pais e antepassados são importantes?”, todos respondem que sim, claro. Mas quando eu pergunto o nome dos oito bisavós, ninguém sabe responder. Em cem anos seus bisnetos, sangue de seu sangue, descendentes de seus genes, frutos de seus amores, não se lembrarão dos nomes de vocês, que dirá de seus atos, humilhações e vitórias, eles não terão a menor idéia de quem vocês foram. E vocês se dando tanta importância, vocês serão esquecidos. Aqueles que não forem esquecidos terão biografias mentirosas, cheias de inverdades, não é assim? Se é assim por que nos damos tanta importância? A coisa mais importante e maravilhosa sobre a vida é viver.

Muitas especulações são completamente sem sentido, ficar pedindo para alguém lá de cima lhe ajudar, ou colocar as decisões de sua vida nas mãos de um monge é pura ilusão. Mas se a pessoa não pode viver sem isso, nós deixamos, por exemplo, a pessoa acredita muito que Buda lhe ajudará, nós deixamos que ela faça uma oferta de incenso para a estátua de Buda. As pessoas desejam muito se agarrar a algo ou alguém que possa lhes ajudar. Os rituais que realizamos não tem um sentido devocional ou de pedidos, eles existem para criar um clima e para aprendermos as formas. Nós recitamos os nomes dos mestres ancestrais porque existem muitas histórias nas transmissões que podem servir de exemplo e de estudo para nós, por exemplo, Shonawashu vai até Ananda e pergunta-lhe, “qual é a natureza de todas as coisas?”, E Ananda mostra a ele seu manto, o manto é feito de retalhos, todos costurados uns aos outros, ele está querendo ensinar que todas as coisas são interconectadas e interdependentes. Shonawashu então pergunta, “Mas então qual é a natureza última de todas as coisas?”. Ananda então arranca o manto de Shonawashu  nesse momento ele desperta, pois entende com clareza e com seus sentimentos, não com seu intelecto, que todas as coisas são vazias.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Quem chora as ondas que morrem na praia?



Pergunta – O significa a cerimônia que a gente fez hoje?

Monge Genshô – As cerimônias são meios hábeis. Se for de nosso desejo podemos inventar um cerimônia. Mas nesse caso especifico, esses textos têm por volta de dois mil anos, não são de nenhuma língua falada atualmente, mas tem significado. O primeiro, Maka Hannya Shingyo, significa Sutra do Coração da Sabedoria, sua frase principal é “Vazio é forma, forma é vazio, vazio nada mais é do que forma, forma nada mais é do que vazio”. Após isso ele começa uma espécie de desconstrução, não existe sensação, não existe percepção, não existe concepção, não existem formações mentais e consciência. Vendo então o vazio de todos os agregados o Bodisatva desperta e livra-se de toda a agonia e sofrimento. Esse vazio não significa que não há nada, não é niilismo, não se trata de uma declaração de que tudo é nada. É simplesmente a declaração de que todas as coisas são vazias de um “eu”, nenhuma coisa tem um “eu” inerente, um “eu” próprio, nenhuma coisa existe por si mesma, isso que eu quis dizer quando falei que o guardanapo não possui um “eu”, ele é só um agregado de coisas, tudo é assim, a xícara em sua mão é também assim, alias ela só surge como xícara porque você a olha e a vê como xícara, então, tudo é coemergente com o observador, o universo também é coemergente com o observador. Se você conseguisse trocar seus olhos pelos olhos de Buda veria tudo completamente diferente. Há uma analogia que sempre uso e que penso ser muito apropriada, é das ondas do mar, as ondas são formas surgindo sobre o mar, cada onda parece ter um individualidade, mas não passa de energia na água, não é a água que se move, é a energia que dá forma as ondas e na areia as ondas quebram e morrem. Mas não vemos ninguém na areia lamentando a morte das ondas, não existe tristeza por ver as ondas quebrarem na praia. As pessoas olham para o mar e dizem, Que lindo! Por quê? Porque vêem o mar.

As vidas dos seres são como as ondas, mas mergulhados em nossos sonhos não enxergamos a vida, enxergamos as ondas, então, se um amigo morre, choramos sua morte. Por que não enxergamos o mar, enxergamos a onda. Parcialmente sabemos, quando olhamos o mar temos os olhos de Buda e o vemos como mar, não nos importamos com a morte das ondas na areia. Quando olhamos uma floresta não choramos pelos troncos apodrecidos e pelas folhas que caem, até achamos bonito as folhas amarelas no outono caindo, mas todas estão morrendo. Para os olhos de Buda as vidas e mortes da humanidade são lindas, porque é um olhar desperto sobre o que é a vida. O nosso olhar sobre a vida dos homens, seus nascimentos e mortes é tão enganado como o olhar de alguém que chorasse cada folha que cai e não percebesse que na primavera todas as folhas nascem novamente verdes e lindas. Não há problema, todas as folhas que caem viram húmus e é assim que as florestas se formam e sobrevivem.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Acreditar que somos separados



Pergunta – Fiquei pensando no que o senhor disse semana passada, que somos atmosfera...Mas então me veio a idéia do carma, eu me identifico perfeitamente quando dizes que somos iguais e feitos da mesma substância, mas e o carma? O senhor falou do banco de plástico e do cabide, mas o tempo de decomposição de um é diferente do outro, eu tentei imaginar que somos atmosfera, mas onde entra o carma de cada um, como vai se formando ou de onde originou?

Monge Genshô – O budismo não responde esse tipo de pergunta, por exemplo, “qual a origem do universo?”, ou ainda, “Como surgiu o primeiro carma?”. O objetivo do Budismo não é dar explicações sobre coisas não verificáveis. Há uma história nos sutras que ilustra bem isso, adaptando: - Um homem levou uma flechada e um amigo chega perto e lhe pergunta, “quem atirou a flecha era alto ou baixo, magro ou gordo?” O homem então lhe responde, “qual a importância disso, apenas tire a flecha”, ou seja, todos estamos sofrendo mergulhados em nossas ilusões, que utilidade teria para nós saber a origem do universo? Sabemos que o carma surgiu em algum momento e de alguma forma, pronto. Explicações são objeto da ciência. Provavelmente tenha surgido naturalmente pelas irregularidades da vida e do universo. Há o primeiro ato e qualquer ato provoca um efeito. Tudo tem consequência. Todo e qualquer efeito tem uma causa anterior. Se você pergunta qual a primeira causa pode cair numa regressão sem fim e sem sentido. Há outra história também muito interessante sobre isso. Um rei perguntou à um Monge: “A Terra está apoiada sobre o que?”, e o Monge respondeu: “Sobre um grande elefante”. “E em baixo do elefante o que tem?”, “Uma tartaruga” respondeu o Monge. “E em baixo da tartaruga, o que tem?”, “Outra tartaruga, Majestade é melhor pararmos por aqui por aí em diante são só tartarugas”.

Pergunta – O senhor falou da mente que se engana, como eu sei que estou enganado?

Monge Genshô - O que você pensa sobre isso, como você sabe que sua mente está enganada? Como você sabe que está separada das outras pessoas? Você olha para todas essas pessoas e as vê separadas de você. Mas você não vive sem elas. Não vive sem nada que existe, sem sol, sem chuva, árvores, pássaros, na realidade você é tudo isso misturado. Se você pensar sobre o que é esse guardanapo de papel em sua mão, do que ele é formado? Chuva, sol, árvore, carbono, tudo igual a você. Você é tudo isso junto, no entanto você olha para tudo e diz: “Eu estou separado”. Isso em si só já é uma grande ilusão. Por acreditar nessa ilusão é que você nasce e morre. Chamamos isso de ignorância. Por sermos ignorantes nascemos e morremos e acreditamos estar separados.

O carbono presente nessa folha de guardanapo em sua mão é muito antigo, bilhões de anos, os resíduos de bilhões de anos e de resto de estrelas estão todos contidos aí nessa folha na sua mão. O que você diria se essa folha dissesse: “Eu sou um guardanapo separado”? Você não diria para esse guardanapo, para esse carbono que ele está enganado? Claro que diria, no entanto olhando para sua mão você pode dizer que ela é predominantemente carbono. É tão evidente que estamos mergulhados em uma ilusão, o simples fato de você estar vivo e dizer “eu sou” é uma grande ilusão. É um sonho. Eu sou um ser de sonho falando para seres de sonho. Se acordarmos veremos que é tudo igual, mas tudo diferente. “Antes de estudar o Zen, pensava que as montanhas eram montanhas e os rios eram rios. Quando comecei a estudar o Zen percebi que as montanhas não são montanhas e os rios não são rios. Agora que despertei, as montanhas são montanhas e rios são rios”, essa é uma famosa história Zen. São as mesmas montanhas e os mesmo rios, só que é tudo diferente. Por isso os mestres Zen dão tantas risadas. Em um diálogo com Shariputra, um homem da Escola de Zoroastro, que acreditava num Deus único e criador do universo, diz à Shariputra, “Nós temos a verdade e acreditamos em um Deus único”, então Shariputra ri e responde: “Ah, temos muito de deuses únicos aqui na Índia também”. (Gore Vidal)

Os homens criam muitas histórias para acreditar, todas são ilusórias. As crenças são ilusões, quando você chega no Budismo ele não lhe oferece nada em que crer ou algo do tipo, acredite no que o professor está dizendo. O Budismo é experiencial. Teste e experimente, se funciona pra você é bom se não funciona, desista. Se você não gosta do professor porque ele é muito desagradável dizendo coisas desoladoras, pode ir embora. O Budismo não faz força para atrair pessoas, mais ainda, costuma dizer coisas para as pessoas irem embora. O Zen Budismo é para despertar, não para acreditar. Uma pergunta que sempre surge é: “Em que que o Budismo acredita?”, a resposta, não sei, isso é problema seu que acha que é preciso alguma crença.

Sempre conto essa historinha ilustrativa, se vem alguém na Sangha dizendo que acredita em homenzinhos verdes de uma galáxia distante, não há problema algum nisso, podem sentar e meditar. Agora, se os homenzinhos falarem com você então o caso é grave e é melhor procurar tratamento. O zen tem sempre muitas histórias. Conta-se uma história de um monge que sentado em meditação dizia estar vendo os discípulos de Buda em seu redor cantando mantras. O mestre então mandou que os outros monges lhe dessem um banho de água gelada e dessa forma resolveu o problema.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Sobre traduções de Dogen.

Recebi uma carta com comentários sobre as traduções de Dogen, de meu dileto amigo e budista histórico Prof. Celso Marques (Prof de filosofia da UFRGS), como é uma carta primorosa divido com todos os interessados nos textos do grande mestre Dogen Zenji:


"Meu velho e querido amigo Chalegre-Genshô ! Gasshô !
É um prazer e uma honra atender ao teu pedido. 
 A tradução inglesa do Shôbôgenzô, texto integral em quatro volumes, do mestre Sotô Zen Gudo Nishijima e seu discípulo Chodo Cross. Até 2010 era considerada a melhor tradução inglesa. Nishijima passou a maior parte da sua longa vida estudando Dôgen. É uma tradução valiosa devido à autoridade espiritual do mestre zen e pelo perfeccionismo do Chodo Cross. Além da tradução temos aí o resultado de todo um imenso trabalho exegético e interpretativo com abundantes notas de rodapé que tornam a sua leitura muito rica e significativa. Chodo Cross declarou publicamente, ao mundo inteiro, em comentário na Amazon.com, que estava ainda muito insatisfeito com a tradução. Uma lição de humildade, grandeza e de respeito pela obra de Dôgen. Eu disse que até 2010 esta tradução era considerada a melhor. Saiu uma tradução notável do Shôbôguenzô em 2010 que hoje é obra de referencia obrigatória. Trata-se de um trabalho coletivo produzido pela nata do Sotô Zen nos Estados Unidos. Uma publicação primorosa em dois volumes encadernados dentro de um estojo. Edição da Shambala. Coisa de 280 dólares. As minhas primeiras impressões de leitura foram ótimas e esta tradução é um marco do budismo ocidental.  Estas duas traduções são importantíssimas para os estudiosos e praticantes do Sotô Zen. Outro tradutor e comentador notável de Dôgen é Masao Abe. Junto com Norman Waddell ele publicou The Heart of Dogen's Shobogenzo, uma tradução anotada primorosa de nove capítulos desta obra. Existem cinco traduções inglesas do Shobogenzo. Mas estou sem tempo para fazer comentários sobre elas. Existe uma tradução notável em francês, realizada por Yoko Orimo que já está no sexto volume, publicado em 2012. É uma tradução requintada, extremamente erudita e copiosamente comentada. No entanto eu discordo de algumas comparações do pensamento de Dogen com a dialética de Hegel, detalhe filosófico ínfimo que, absolutamente, não invalida o seu prodigioso trabalho. Existem outras traduções em francês que poderei comentar em outra oportunidade, caso haja interesse. Para finalizar temos em português duas obras insubstituíveis de budistas brasileiros históricos. As traduções parciais de Dogen e de textos clássicos do zen, feitas por Ricardo Mário Gonçalves na antologia Textos Budistas e Zen-budistas (Cultrix), e o livro O Mestre Zen Dôguen, tese de doutorado do meu amigo e companheiro de muitos anos de prática e de convivência, o monge Sotô Eduardo Basto de Albuquerque. Fico emocionado ao evocar estas duas pessoas que foram marcantes na minha formação budista, especialmente o Eduardo por já não estar mais entre nós. Receba um grande abraço. No Dharma, Gasshô, Celso Marques."  

O que é Buda?



Pergunta - O que é Buda?

Monge Genshô – Buda é mente. Essa é uma das respostas possíveis, outras respostas seriam, Buda significa acordado, não é o nome de uma pessoa, foi um título dado a Sidharta Gauthama porque ele acordou, despertou, logo, ele é O Buda. Tradicionalmente um grande professor, mas um homem não diferente de nós. Por Buda também podemos entender nossa natureza búdica. Todos temos a natureza dos seres que sonham, ou seja, temos a possibilidade de despertar. Buda também é um ideal, o ideal de ter uma mente lúcida e clara sem se deixar enganar por nenhuma ilusão. Em absoluto não é uma estátua, as estátuas existem porque as pessoas gostam de estátuas. Buda também não ajuda ninguém, não adianta lhe pedir nada. Se Buda pudesse ajudar e visse o sofrimento dos seres, ele ajudaria.

Pergunta – Buda então é uma mente acordada e inativa?

Monge Genshô – Não, uma mente desperta não é inativa. Uma mente acordada realiza ações lúcidas e despertas. Uma mente perdida na ilusão realiza ações deludidas. Aqueles que estão enganados agem como pessoas enganadas. Uma pessoa que visse as coisas com absoluta clareza realizaria uma ação perfeita. Esse é um dos motivos de as artes serem tão importantes para o Zen e para o Budismo, na forma do Zen, ter sido tão influente nas artes nos países onde ele frutificou. Uma ação perfeita é uma ação que não é mais pensada, pra mim é mais fácil falar sobre música porque fui violinista, por exemplo, quando você vê alguém tocando um concerto, ele tem que decorar a peça que está executando. Na hora de interpretar não tem como pensar na forma do acorde executado e em qual virá depois, tudo tem que estar pronto, é como recitar uma poesia, ela tem que ser decorada e sair de sua boca sem pensar para que a interpretação seja perfeita. Só dessa forma é possível colocar sentimentos.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Práticas diferentes para diferentes pessoas



Pergunta – Essa Mente é vida eterna?

Monge Genshô – Sim, é isso, é eterna, mas talvez a palavra vida aqui não seja adequada, porque vida está conspurcada pela idéia de eu ter uma vida. É como normalmente essa expressão “vida eterna”, sempre foi entendida no ocidente, todas as religiões teístas do ocidente pretendem responder essa pergunta – O que acontece depois da morte? E querem dar uma boa solução para depois. Por exemplo, os adventistas do sétimo dia crêem que os justos ressuscitarão, os Testemunhas de Jeová também. Ressuscitarão e ganharão novos corpos. Os mórmons também, suas almas são permanentes. Os adventistas crêem na ressurreição do corpo e na vida eterna com um corpo. Não só alma num mundo espiritual mas o corpo com tudo que um corpo tem. Isso é um desejo de permanência. No islamismo é ir para o paraíso, morrer e ter o que o sultão tem,  muitas mulheres. Uma vida paradisíaca dentro do imaginário dos nômades da época em que o islamismo foi criado, qual era o mundo perfeito? Viver como um sultão, ter um harem. Já que estavam no deserto, um mundo com água corrente em abundância. No paraíso cristão normalmente, os justos vendo à Deus, conservando a si mesmos e tendo prêmios de acordo com sua conduta na terra. Diferentes graus de felicidade dentro do paraíso. Pelo menos na mítica discrição de Dante em A Divina Comédia. O que eu queria demonstrar é que o que as religiões teístas tentam é dar ao homem uma esperança de continuidade de seu eu particular para uma eternidade feliz, dando à ele aquilo que ele ambicionaria.

A única grande religião que retira isso é o budismo ao dizer que a alma não existe e o grande engano é sua crença num eu particular. Mas o raciocínio todo, quando se lê um texto como esse, acaba sendo bastante complexo. O ensinamento do Dharma é difícil  de ser explicado. Por isso o budismo acabou desenvolvendo diferentes estratégias. Esse tipo de ensinamento aberto, não é secreto, mas de certa maneira auto secreto, porque você não consegue transmitir facilmente. Você explica e não é entendido. E a prática também é muito difícil. O budismo acabou tendo diferentes escolas, níveis de prática para diferentes tipos de pessoas. O budismo tibetano, por exemplo, é bem abrangente nesse aspecto, porque é o budismo de um país inteiro, então precisava solucionar esse problema, então qual é a prática que se dá para um camponês analfabeto? Dou uma repetição de mantras. Pode se iluminar assim? Por que não? Você dá essa prática que está dentro do alcance desse praticante. No caso do Zen, nós estamos aqui no sesshin fazendo uma prática que no oriente é quase privativa dos monges. Porque havia profundo interesse no ocidente, os mestres que chegaram começaram a ensinar aos alunos, a prática dos monges. E os leigos todos puderam praticar.

Pergunta – (...) Seria mais ou menos assim, as diferentes escolas, as diferentes formas de compreender, vão chegar num nível desses...

Monge Genshô – Você vai encontrar isso como no exemplo que dei do budismo tibetano, quando você chega no Dzogchen. O tipo de ensinamento é igual ao Zen, mas na prática normal, no Tibete você levaria vinte anos para chegar lá, fazendo passo a passo, subindo passo a passo num caminho programado. A essência, para nós entendermos, é que as diferentes escolas budistas foram construídas pelos mestres para atender as diferentes necessidades de diferentes culturas de diferentes povos de diferentes pessoas, portanto é necessário que existam. É necessário que existam os diferentes veículos. Num pensamento mais abrangente também é necessário que existam outras religiões para atender pessoas dentro daquelas necessidades.

Fim

Palestra ministrada em retiro (sesshin). Decupada da gravação por Chudô San.