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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Impulsos


Aula de iniciantes em zazen, Florianópolis

Pergunta – De onde vêm os agregados que compõem a nossa existência? E qual a diferença entre a percepção e a consciência?

Professor Sasaki - Essa é uma pergunta padrão, ela sempre é feita nas palestras.

Aluno - Mas é que não me senti ainda satisfeita, queria algo mais.

Monge Genshô – Ela está merecendo uma resposta Zen. Os agregados surgem da sua mente. Assim surgem seus agregados, de sua mente. Você ficou com olhos inquietos, vou explicar um pouquinho mais.

Os agregados só estão se manifestando sob a forma do corpo dela porque sua mente guarda impulsos de desejos e apegos tais que, obrigatoriamente, se manifestam no mundo sob a forma dela. Então os agregados surgem do carma, da energia cármica que faz com que haja uma manifestação. Esta manifestação que surge, em última análise, da ignorância, tem energia suficiente para juntar e manter juntos os agregados. Mas não se preocupe, em absoluto, porque tudo que é sujeito, tudo que é composto, tudo que é agregado, está sujeito à desagregação e decomposição. Você irá morrer e se decomporá, portanto, não precisa se preocupar.

Pergunta – Mas e quando surge novamente outra existência, quando os agregados se dissolvem...

Monge Gensho – Se os impulsos continuarem farão, obrigatoriamente, surgir uma nova manifestação.

Pergunta - E o que faz os impulsos não continuarem?

Monge Genshô - Muito boa pergunta. Como fazer para os impulsos não continuarem? Se você conseguir fazer com que sua mente esgote seu carma e você se vir livre de todos os desejos, de todos os apegos, de todas as paixões, se você conseguir extinguir isso através da iluminação, não haverá energia para uma nova manifestação cármica. Somente então, você estará realmente livre dos ciclos de nascimento e morte. Estará liberada.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Paciência


Akiba Roshi

Pergunta – Falando um pouco mais sobre compaixão, terminei de ler um livro que se chama Budismo e Ensinamentos Profundos, em que o autor fala muito sobre a paciência. Na minha vida, por exemplo, eu percebo, a esse respeito, que posso falar de uma certa evolução, mas sempre falta mais. Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a paciência no caminho budista para alcançar, ou para minimizar ou diminuir o sofrimento.

Monge Genshô – Essa questão passa pelos mesmos caminhos de que já falamos. Quem é que se irrita? Quem é este que está irritado? Às vezes, a pessoa não entende a pergunta, mas essa pergunta pretende iluminar a mente. Entenda que é o mero fato de você não aceitar que irrita. Por que nós nos irritaríamos com foguetes e bombinhas? Só porque nós imaginamos que existe uma intenção ou um agente por trás. Porque se fosse um trovão, um acontecimento natural, não tendo um ser humano por trás, não nos sentimos irritados. Irritamo-nos porque imaginamos, porque nossa mente pensa: “tem alguém estourando foguetes”. Constate, está na mente. A mente acredita que existe uma entidade chamada “Atlético” ou “Cruzeiro”. Alguém se comprometeu com isso, e se você examinar como surgiram essas entidades, trata-se de um grupo de pessoas que se reúne, cria uma bandeira, uma cor, entre outras características definidoras de identidade, cria os símbolos, e as mentes olham para tudo aquilo e transformam em um significado. A cruz suástica sempre foi um símbolo magnífico, e em muitas tradições é usada até hoje. Hitler se apropriou dela, inverteu-a, e os acontecimentos da segunda guerra mundial juntamente com o que decorreu das ações do nazismo, transformaram-na em um símbolo de ódio. Somos nós que olhamos e vemos um símbolo de ódio, porque ele em si, nunca foi nada mais que alguns traços. Nossa paciência é alterada pelo que nós acreditamos, apenas por isso. Devemos exercitar em nossa mente a compreensão da raiz de onde surgem as coisas. Por exemplo, na meditação, você se senta, surge um pensamento, o pensamento mobiliza você e você pode se perguntar, “Porque me mobiliza, porque isso me irrita? De onde veio, de onde surgiu?” Você rapidamente irá descobrir que ele surge de algumas raízes como vaidade, orgulho, crença no seu ego, ou seja, de algo em que você acreditou. Se você apagar isso, evitando julgar e considerar, se continuar sentado calmamente, você adquire serenidade. Quando na vida surgem os acontecimentos, você pode, com simples treinamento, ver que eles não têm substância real, que é você que atribui a eles a força de mobilizá-lo. Então, para cultivar a paciência deve-se, em primeiro lugar, praticar a meditação. Naturalmente surge uma mente pacífica, naturalmente surge uma mente paciente. Em absoluto, não é o controle, porque mesmo que o controle tenha a virtude de não provocar carmas, ações e reações, ele não é a solução final, porque sempre vai falhar. Você está sendo arrastado pelo seu carma e diz: “Vou ser paciente, de agora em diante não me irrito mais.” Mas acontece um evento acima de sua capacidade de controle, e você perde a paciência. O correto é que a impaciência não surja, devendo ocorrer somente a compreensão de como as coisas estão se manifestando.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A amplitude na compaixão


Hanamatsuri 2011

Pergunta – (...) O que é a compaixão?

Monge Genshô – A compaixão depende do esquecimento de nosso próprio ego. As pessoas têm um eu que, normalmente, nas mais primitivas pessoas, termina na sua pele. Tais pessoas cospem e jogam lixo no chão porque não enxergam que o mundo vai além de sua pele. Há pessoas cujo “eu” termina na superfície da tinta de seu automóvel, então jogam latas pelas janelas do carro, porque fora do automóvel já não é mais seu mundo. Paulatinamente, podemos ver de que tamanho é o mundo de alguém. Se o mundo vai até a pele, até o carro, aos limites de sua casa. Nunca me esqueço do dia em que vi uma mulher na Alemanha varrendo a rua na frente de sua casa, porque há pessoas que varrem um pouco além de sua casa. Neste caso, esse “eu” estava mais ampliado. Outros pensam que o mundo tem fronteiras, às vezes é sua raça, seu time de futebol ou a fronteira de seu país e os que estão além dessas fronteiras podem ser considerados inimigos. Outros, ainda, pensam assim em relação a sua religião. Tudo depende de como é seu ego. A compaixão surge à medida que você amplia os limites de si mesmo, se estendendo para chegar a abranger todo o universo. Se abranger todos os seres humanos, todos os animais, todos seres vegetais, será difícil quebrar uma pedra, porque não matar, como preceito, inclui não quebrar uma pedra quando não há necessidade, não destruir nada. Porque o mundo é mais amplo, a compaixão se expande. O crescimento da compaixão então compreende esquecer-se de si mesmo, o que significa morrer para si mesmo. Assim fazendo, podemos, então, abarcar tudo, e ao acontecer isso, existe a libertação, porque quando nós manifestamos a ignorância de nos acreditarmos separados de tudo - e os venenos da mente como o apego, a aversão, a raiva, enfim, todos eles dependem de eu acreditar em mim mesmo como ser separado – não temos compaixão. Esta é a ignorância fundamental, a de acreditar que somos um “eu” separado. Porque acreditamos que somos um ser separado de todos os outros, não temos compaixão. Quando morremos para nós mesmos, nasce um ser muito mais amplo e esse ser é naturalmente compassivo, porque a dor do outro dói nele. Na realidade, essa ideia – e isso nos mostra abrangência do Dharma – ela existe nos escritos de Paulo dos evangelhos, “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo que vive em mim”. Isso significa morte do “eu”. Também encontramos o Dharma nos poemas de São João da Cruz, “Morro porque não morro”. Ou seja, morro porque não consigo morrer para mim, e por isso eu não consigo conhecer Deus. Em termos budistas, porque não consigo morrer para mim mesmo, não me ilumino. É a mesma coisa, em outras palavras.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O zen e as palavras


Aluno – No vocábulo Zen, existe a palavra Chan, que significa concentração. Existe algum foco especial no budismo a respeito da meditação/concentração, ou é apenas uma coincidência?

Monge Gensho – Não, não é coincidência. O Zen budismo se vê como budismo contemplativo, ele enfatiza, e a diferença entre os budismos, é essa a ênfase. A escola Theravada enfatiza o estudo dos sutras, embora meu mestre fale constantemente para eu ler os sutras do Cannon Pali. O budismo Zen enfatiza a prática da meditação, sempre digo que essa prática no Zen deve ser feita em quantidades industriais, mas a mesma coisa acontece na prática do Theravada, pois existe grande similaridade nessa ênfase. Embora se diga frequentemente no budismo, que as escrituras e os textos são o dedo que aponta para a lua, mas que não são a lua, são mapas para que se possa seguir um caminho. Não são o caminho. São indicações, você tem que trilhar o caminho por seus próprios pés para chegar lá. Não basta ler ou ouvir ensinamentos. Costuma-se dizer no Zen que enquanto nele se falar, ele não estará presente. Quando estávamos calados experimentando a prática da meditação, o Zen estava presente. Agora é só conversa a respeito. A palavra chan vem do sânscrito dhyanna que significa meditação, então, o budismo Zen significa o budismo que enfatiza a prática da meditação. Na verdade, no Zen, embora diga-se frequentemente, como acabei de dizer, que os ensinamentos são apenas o mapa, dificilmente você encontrará tantos textos quanto existem sobre o Zen, e os professores estão sempre escrevendo. Aqui, por exemplo, tem um gravador para documentar a palestra, porque Moryama Roshi aconselhou: “grave as palestras”. Por quê? Porque acabarão virando texto. Na realidade, existe estudo no Zen e Dogen Zen Ji diz que o estudo dos sutras é a base do caminho. Não se chega à outra margem sem saber, e mesmo que Hui Neng seja declarado um patriarca analfabeto, leia seu o texto e você verá quantas citações nele há; ele parece um erudito. Mesmo que ele guardasse de memória por não saber ler, ele ouvia, guardava, sabia citar e raciocinar. Sem esse instrumento não vamos longe. A ênfase do Zen é mais do tipo, “não me diga as palavras de Buda, me diga as suas”. É a verdade que você está praticando, e essa é a verdade do Zen, e não as indicações ou os textos. Como você está vivendo, como está sua mente agora, essa é a verdade. Mas existem três portas de acesso: emoção, estudo e ação. São três portas de acesso para o caminho. As pessoas são diferentes, existem pessoas que naturalmente estão preparadas para o caminho intelectual, outras para o caminho da emoção e outras para o caminho da ação. Cada uma deve praticar com a escola mais adequada para o seu coração, para o seu sentimento, devendo praticar naquele lugar com o qual ela sinta que tem conexão. Por isso, é tão importante escolher o seu mestre e sua escola.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Existem muitas doenças diferentes


Túmulo de Allan Kardec

Pergunta – Tem uma história Zen que também não consegui entender. É sobre as bandeiras. Um monge diz que a bandeira treme, outro diz que é o vento que treme, então vem o mestre e diz que é a mente que treme. O senhor poderia me ajudar a entender essa história?

Monge Genshô –. Essa história consta no sutra da Plataforma de Hui Neng. Quando eles olham para a bandeira, os monges estão discutindo uma perspectiva, uma opinião. Um diz que é o vento que se move, o outro diz que é a bandeira. Hui Neng diz: “Não, é a mente que se move”. Ou seja, é a mente de vocês que se move e interpreta coisas tão simples. Uma mente iluminada não pensaria sobre o assunto, veria apenas a beleza da bandeira tremulando, mais nada.

Pergunta – Existem hoje muitas práticas que visam misturar ou agregar práticas budistas com, por exemplo, práticas cristãs. Temos, aí, entre outros, Thomas Merton. No entanto, são filosofias diferentes, com objetivos diferentes e ideologias diferentes. Na sua opinião, nessa intersecção de filosofias e teologias diferentes, pode haver inter-relação? Poderíamos dizer, por exemplo, que o cristianismo melhore com as práticas Zen ou vice-versa?

Monge Genshô – As crenças em si não são muito importantes. O que é importante sob o ponto de vista budista é se existe liberação. A prática de meditação está renascendo no ocidente através das mãos de John Main, Laurence Freeman entre outros. A prática da contemplação não é ignorada no cristianismo. Ela existiu fortemente dentro do cristianismo em seus primórdios, mas, de certa maneira, foi esquecida. Existe um renascimento das práticas de meditação, em especial, dentro do Cristianismo católico, porque ali há uma vertente monástica maravilhosa que começa com São Bento, o fundador de Monte Cassino, e que se aprofundou muito. Quando você lê os escritos de grandes místicos cristãos como Santa Tereza D’Ávila, São João da Cruz ou Mestre Eckhart, você verá, nesses escritos, um cristianismo com Dharma. O importante é dizermos que Dharma, lei, sabedoria, não é propriedade do budismo. O Dharma existe e pode ser acessado por diferentes caminhos. Não muito tempo atrás, assisti um filme, Uma amizade sem fronteiras, com Omar Sharif no papel de um professor Sufi. Nesse filme, as intervenções dele, as coisas que ele diz, são como frases de um mestre Zen. Esse assunto não é novidade. Em livros como Filosofia Perene, Aldous Huxley mostrou as similaridades entre o Budismo, os Sufis, os Hassídicos judeus e o misticismo Cristão. Thomas Merton escreveu sobre o assunto em livros como Místicos e Mestres Zen. Ele era um frade trapista, católico, brilhante. O Dharma está presente, é fácil de ver isso. O budismo tem uma vantagem posicional, pois não se vê como um caminho único, não se coloca como proprietário de uma verdade particular, ou como o único caminho para a salvação. Na verdade, nem usa esta palavra no sentido de “salvar os condenados”, porque não crê que os homens estejam condenados. Assim, para o budismo não há a necessidade de converter pessoas, como, por exemplo, um mestre sufi a tornar-se Zen Budista; isso não faz sentido para o Zen. Ele já está vivendo o Dharma, o budismo é apenas um método, um caminho, e ele inclui uma coisa de que normalmente não se fala num caminho religioso, pois o budismo aponta uma porta de saída para o budismo ao contar a história do veículo para atravessar o rio. Nós falamos em atravessar o rio para atingir a outra margem. Lá, na outra margem, está a sabedoria. No final do sutra do coração, cantamos, “todos juntos para a outra margem, a iluminação, salve”. Então, o budismo vê-se como um barco para atravessar um rio, existem muitos barcos e jangadas, mas o budismo diz, “Você atravessou o rio, mas não vai sair carregando o barco nas costas, deixe o barco e vá embora”. O budismo é um método para a libertação e não precisa ser carregado depois. Se for um bom método, podemos ensiná-lo às pessoas para quem o método seja adequado. Mas existem outras pessoas para quem, talvez, um outro seja melhor. E é bom que existam muitos remédios, porque existem muitos doentes com doenças diferentes.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Head Priest of Sotoshu

Fukuyama Taiho Zenji, Head Priest of Daihonzan Eiheiji, Appointed Head Priest of Sotoshu

With the term of Egawa Shinzan Zenji (Head Priest of Daihonzan Sojiji) as Head Priest of Sotoshu ending on January 21, 2012, Head Priest of Daihonzan Eiheiji, Fukuyama Taiho Zenji, was appointed Head Priest of Sotoshu as of January 22, 2012.
The Head Priest of Sotoshu is a position that is alternately held by the Head Priests of Daihonzan Eiheiji and Daihonzan Sojiji every two years. This is the second time Fukuyama Zenji has been appointed Head Priest, following his previous term from January 2008 to January 2010.
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Homens inquietos


Moriyamma Roshi

Pergunta – Gostaria que o Senhor falasse um pouco sobre a transformação da mente. Nesse processo existe sofrimento, porque algumas vezes, teoricamente, a gente sabe e entende, mas a grande questão - me corrija se estiver errada - é a prática, a convivência, a atitude da pessoa. Entre a teoria e a prática há um sofrimento de, talvez, querer e desejar chegar a esse ponto.

Monge Genshô – O simples fato de haver desejo - o desejo de se libertar - implica nesse sofrimento. Na realidade, todos os professores que eu conheci foram homens inquietos, com grandes desejos de se libertar que se entregaram a uma profunda e sofrida busca. Você tem toda a razão. Meu mestre, Moryama Roshi, ficou vinte anos dentro de um mosteiro e passou alguns anos, completamente sozinho nas montanhas, sem energia elétrica e tendo que carregar água. Ele costuma dizer que tomar banho era uma tarefa de três horas, pois tinha que carregar a água e fazer uma fogueira para aquecê-la. Nós estávamos em uma palestra e alguém perguntou a ele, “Mestre, o que o senhor aprendeu com tantos anos de retiro solitário?” ao que ele respondeu, “Bem, na primeira noite em que fiquei sozinho, na hora de dormir, eu não conseguia, porque sentia medo. Pensava que poderia ser surpreendido por um assaltante ou por um animal selvagem, visto estar em um local deserto, então, não conseguia dormir por medo. Depois desses anos sozinho, descobri que essa era a grande lição que tinha que aprender: eu tenho medo”.

Aluno – Eu queria entender um pouco a diferença entre esse estado de iluminação e o estado de adormecimento. Porque para vocês esse estado de iluminação, teoricamente, seria um estágio onde nada ocorre, onde a mente está obliterada, mas...

Monge Gensho – Eu acredito que essa visão não seja bem correta. Não se trata de uma obliteração da mente, em absoluto. Trata-se de um estado em que você tem clareza, ou seja, você pensa, raciocina e age, mas com clareza. Você vê claramente o resultado de suas ações, porque deve agir de determinada forma e toma decisões com clareza. A diferença da mente iluminada para a mente deludida é a clareza. Quando alguém está iluminado, sabe o que deve fazer, quando, como e de que maneira, sempre, limpidamente. Mas não significa que não aja no mundo, que não fale, que não lhe ocorram pensamentos; o que acontece é que estes não o levam de um lado para outro. Não é que não lhe surgem pensamentos, é que nenhum pensamento o arrasta. Se nós nos sentarmos e ficarmos com a mente completamente vazia, sem nenhum pensamento, Hui Neng, famoso mestre Zen do século sete depois de Cristo, chamaria isso de quietismo, e ficaria furioso. Vou lhes contar uma pequena historia Zen. Um monge chegou num mosteiro de um grande mestre Zen e pediu, “O senhor pode me ensinar, pode me aceitar?” “Pode ser - disse o mestre. “O que você já fez?” “Já treinei muito meditação, vou lhe mostrar”. Sentou-se rapidamente em posição de lótus com as pernas cruzadas e entrou, em segundos, em profundo samadhi. O mestre pegou um bastão e começou a surrá-lo expulsando-o do mosteiro e dizendo:”Budas de pedra já tenho muitos, nesse mosteiro”. Portanto, não é isso que é desejável, a libertação não é apagar-se, não é morrer, é outra coisa completamente diversa disso. A libertação tem dentro de si a ação, mas ação iluminada.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O desejo de se libertar


Pergunta – Mas tem que haver o desejo de sentar, ou não?

Monge Gensho – Muito interessante, pois começamos sempre assim, a partir da insatisfação com a vida. Essa é a história do próprio Buda. Ele vê o sofrimento, e porque se sente angustiado com isso, deixa todas as coisas e vai procurar uma solução. Mas isso não é iluminação.

Observação – Mas é um desejo.

Monge Gensho – Sim. A palavra desejo causa alguns problemas. Porque a usamos em português para uma série de significados que em sânscrito são palavras diferentes. Desejo que causa sofrimento é tanha, um desejo apegado, teimoso, adquirente. Existem outros desejos, por exemplo, ditti, que é o desejo de ter uma opinião, de defendê-la, de manifestá-la, agarrado a suas próprias opiniões. E existe o impulso de conseguir se libertar, ele é benéfico, mas quando começamos ele é aquisitivo, é materialismo espiritual. Todos praticamos assim, começamos sempre assim. Viemos a um centro do Dharma procurando adquirir algo, como uma palavra que o professor nos diga e que nos salve, procurando tranqüilidade, serenidade através da meditação. Alguma coisa sempre queremos adquirir. Isso está bem segundo o caminho do Dharma, porque a pessoa vai se sentar e começar assim, procurando por algo através desse materialismo espiritual. Mas à medida que você vai crescendo e amadurecendo no Dharma, percebe que tem que sair desse estágio e partir para um outro, no qual o aluno, ao ser perguntado pelo professor “porque você está praticando?”, ele responda: “não sei mais!”. Nesse momento foi dado um grande passo. Esse passo é maravilhoso, porque é uma libertação do materialismo espiritual de querer obter algo para si. A trajetória de Buda também é assim. Ele parte à procura de mestres de yoga, pratica duramente, faz jejum, medita, martiriza seu corpo, fica magro e sofre durante anos, sem encontrar a saída. Quando, finalmente, ele senta-se embaixo de uma árvore e diz “eu desisto” do ascetismo, depois de sete dias, se ilumina. O que faz ele então? Fica com a iluminação para si? Não, ele se levanta, sai para o mundo e durante quarenta anos ensina sem parar. Ele faz isso por compaixão. Nesse momento é que ele é Buda, até o momento anterior ao da iluminação, ele era Sidharta Shakyamuni que estava tentando se libertar do samsara, como todos nós.

17/2 Hoon Sesshin no Templo Busshinji



Hoon Sesshin 2012
Retiro da Gratidão no período do carnaval
Inscrições abertas. O Templo Busshinji de São Paulo realizará no período de 17 à 20 de fevereiro de 2012 o Hoon Sesshin - Retiro da Gratidão. Direção do retiro Saikawa Roshi

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entrevista com Thich Nhat Hanh


Revista: É muito doloroso ver alguém que amamos enfrentando sérias dificuldades, como
doença mental, transtorno do estresse pós-traumático, ou vícios. Às vezes os problemas parecem tão grandes que não nos sentimos capazes de ajudar. Acabamos tendo vontade de nos afastar dessas pessoas e de seus problemas. Outras vezes, tentamos ajudá-las e depois nos sentimos consumidos por suas dificuldades. O que fazer para ajudar em situações difíceis assim sem ficarmos saturados?

Thich Nhat Hanh: SE VOCÊ SE SENTE SOBRECARREGADO, é porque está se esforçando
demais. Esse tipo de energia não ajuda o outro e não o ajuda também. Não fique ansioso demais, querendo ajudar imediatamente. Há duas coisas diferentes: ser e fazer. Não pense muito no que fazer – seja primeiro. Seja a paz. Seja a alegria. Seja a felicidade. E, só depois disso, faça a alegria, faça a felicidade – com base no ser. Primeiro, você precisa se concentrar na prática do ser/estar. Estar cheio de vida, estar em paz. Estar atento. Ser generoso. Ser compassivo. Esta é a base da prática. É como se a outra pessoa estivesse sentada ao pé de uma árvore. A árvore não faz nada, mas está cheia de energia, está viva. Se você ficar como
essa árvore, emanando ondas cheias de vida, ajudará a acalmar o sofrimento do outro.

Sua presença deve ser agradável, calma, e você deve estar presente para ajudar essa pessoa. Isso, por si só, já é muito. Quando as crianças gostam de vir e sentar perto de você, não é porque você tem um montão de biscoitos para distribuir, mas porque é gostoso ficar ao seu lado, é revigorante. Portanto, sente-se perto de alguém que está sofrendo e faça o melhor para ser você mesmo – agradável, atento, cheio de vida.

Revista: Se eu estiver sentindo uma emoção muito difícil - como raiva ou tristeza profunda - e tentar me concentrar em minha respiração, não estaria evitando minhas emoções?

Thich Nhat Hanh: As pessoas tendem a se perder em fortes emoções e ficam
sobrecarregadas. Esta não é a forma de lidar com as emoções, pois quando isso acontece você se torna vítima da emoção. Para não se tornar vítima, respire, mantenha a calma e terá o insight de que uma emoção é apenas uma emoção, nada mais do que isso. Este insight é muito importante, pois a partir dele você não sentirá mais medo. Estará calmo, sem tentar fugir, e poderá lidar melhor com a emoção. Sua respiração é você, e você precisa formar uma aliança com sua respiração para ser mais você, para ser mais forte. Isso lhe permitirá lidar melhor com sua emoção. Não tente se esquecer de suas emoções: em vez disso, tente ser mais você mesmo, tornando-se suficientemente sólido para lidar com elas.

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Revista: Viver no momento presente e divertir-se com a mídia são aspectos conflitantes? É possível estar em plena consciência e desfrutar da internet, da TV, de filmes e livros?

Thich Nhat Hanh: Há bons livros e filmes por aí. Tudo bem, é bom desfrutar deles. No entanto, às vezes a qualidade do filme ou do livro não é nada boa e, mesmo assim, você não deixa de assistir ou ler porque, se parar, terá que voltar para o sofrimento que está dentro de você. Esta é a prática de muitas pessoas em nossa sociedade. Muitas pessoas não conseguem ficar com si mesmas. Sentem dor, tristeza, preocupações internas e lêem, vêem filmes ou escutam música para encobrir tudo, para fugirem de si mesmas.

Consumir mídia dessa forma é simplesmente uma fuga e não tem um efeito duradouro. Você pode se esquecer do sofrimento por um tempo, mas no final terá que voltar para dentro de si. O Buda recomendou que devemos nos esforçar para não fugirmos de nós mesmos. Em vez disso, devemos aprender a nos cuidar e a transformar nosso sofrimento.

Revista: O que você diria a alguém que acha a meditação sentada dolorosa, difícil e que lutam para praticar?

Eu diria para parar.

Revista: Verdade?

Thich Nhat Hanh: Sim, sim. Se você não acha agradável, então não pratique meditação
sentada. Você precisa aprender o espírito correto do sentar. Se você tiver que se esforçar muito ao sentar, ficará tenso e isso produzirá dor em todo o corpo. Sentar deve ser algo agradável. Quando você liga a TV na sala da sua casa, pode ficar lá horas a fio, sem sofrer.
Mas, ao sentar para meditar, você sofre. Por quê? Porque você precisa lutar. Você quer ter êxito na meditação, então acaba brigando. Ao assistir TV, você não luta. É preciso aprender a sentar sem brigar. Se você souber se sentar dessa forma, a meditação será muito agradável.

Em uma das visitas de Nelson Mandela à França, um jornalista lhe perguntou o que ele mais gostava de fazer. Ele respondeu que, por estar sempre ocupado, o que ele mais gostava de fazer era simplesmente sentar e não fazer nada. Porque sentar e não fazer nada é um prazer – restaura as energias. É por isso que o Buda fala de sentar-se em uma flor de lótus. Quando você se senta para meditar, deve se sentir leve, cheio de vida, livre. E, se não sentir isso, a meditação sentada se tornará um trabalho forçado.

Às vezes não dormimos o suficiente ou estamos resfriados, algo assim. Neste caso, talvez a meditação sentada não seja tão agradável como você gostaria. Mas se você estiver normal, é sempre possível sentir o prazer de sentar. O problema não é sentar ou não sentar, mas como sentar. Como sentar para que você possa se beneficiar ao máximo – caso contrário, estará perdendo tempo.

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Revista: Gostei muito da meditação caminhando ao ar livre que fizemos neste retiro.

Thich Nhat Hanh: Em geral, na tradição budista, você se senta, depois se levanta, caminha lentamente na sala de meditação e depois se senta de novo. Não fazemos assim aqui. Em vez disso, caminhamos ao ar livre. Essa prática ajuda muito, pois você pode aplicá-la na vida diária. Você caminha normalmente – não excessivamente devagar – assim as pessoas nem percebem que você está praticando e vêem isso como algo normal. E, ao voltar para casa, ou ao andar do estacionamento para o escritório, você pode desfrutar desse caminhar também.

A base da prática consiste em gostar do que você está fazendo – gostar de caminhar, de sentar, de se alimentar e tomar banho. É possível desfrutar de tudo isso, mas nossa sociedade está organizada de tal forma que não temos tempo para desfrutar. Temos que fazer tudo rápido demais.

Revista: Na sua opinião, o que faz com que uma pessoa seja budista?

Thich Nhat Hnah: Uma pessoa pode não ser chamada de budista, mas pode ser mais budista que um budista. O budismo é composto por plena consciência, concentração e insight. Se você tiver todos eles, você é budista. Se não tiver, não é budista. Se você olha para uma pessoa e vê que ela tem plena consciência, compaixão, é compreensiva e tem insight, então saberá que ela é budista. Pode até ser um monástico mas, se não tiver essas energias e qualidades, terá a aparência de budista, mas não o conteúdo de um budista.

Revista: Existe alguma cerimônia para se tornar budista?

Thich Nhat Hanh: Não, não é através de uma cerimônia que alguém se torna budista. É através do compromisso com a prática. Os budistas se apegam a muitos rituais e cerimônias, mas o Buda não gosta disso. Nos sutras, principalmente no ensinamento dado pelo Buda logo após sua iluminação, ele disse que devemos nos libertar de rituais. Você não se ilumina nem se liberta por fazer rituais, mas as pessoas acabaram tornando o Budismo excessivamente ritualístico. Não estamos sendo muito bonzinhos com o Buda ao agirmos dessa forma.

Revista: É preciso acreditar em reencarnação para ser budista?

Thich Nhat Hanh: Reencarnação significa que há uma alma que sai do seu corpo e entra em outro corpo. Essa é uma idéia muito popular e muito errônea da continuação no Budismo. Se você acredita que existe uma alma, um self que habita um corpo e que se vai quando o corpo se desintegra e assume outra forma, isso não é budismo.

Ao olhar para uma pessoa, você vê cinco skandhas, ou elementos: forma, sentimentos,
percepções, formações mentais e consciência. Não há alma, não há self fora desses cinco, portanto quando os cinco elementos se dissolvem, o karma, as ações que você fez ao longo da vida são sua continuação. O que você fez ou pensou ainda continua existindo como energia.
Você não precisa de uma alma, ou de um self para continuar. É como uma nuvem. Mesmo
quando a nuvem não está ali, ela sempre continua existindo como neve ou chuva. A nuvem não precisa ter alma para ter continuidade.

Não há início nem fim. Você não precisa esperar até que este corpo se dissolva totalmente para ter continuidade – você continua a cada momento. Vamos supor que eu transmita minha energia a centenas de pessoas; essas pessoas serão minha continuação. Se você olhar para elas, poderá me ver nelas. Se você acha que sou isso [Thay aponta para si], então você não me viu. Mas se você me vir em minhas palavras e minhas ações, verá que elas são minha continuação. Ao olhar para meus discípulos, meus alunos, meus livros e meus amigos, você vê minha continuação. Nunca morrerei. Este corpo se dissolverá, mas isso não significa que morrerei. Continuarei, para sempre.

E isso é verdade para todos nós. Você é mais do que este corpo porque os cinco skandhas estão sempre produzindo energia. Isto se chama karma ou ação. No entanto, não há ator – você não precisa de um ator. A ação já é suficiente. Isto pode ser entendido em termos de física. Massa e energia, e força e matéria – não são duas coisas separadas. São a mesma coisa.

Revista: O que fazer com o grau de materialismo em nossa cultura?

Thich Nhat Hanh: Podemos organizar um ambiente onde as pessoas vivam felizes, com
simplicidade, e convidar outras para vir e observar. É a única coisa que as convencerá a abandonar sua idéia materialista de felicidade. Acham que serão felizes somente quando tiverem muito para consumir, mas muitas pessoas são muito ricas e infelizes. E há aquelas que consomem bem menos e são mais felizes.

Precisamos mostrar que viver com simplicidade, com a prática do dharma, pode ser algo que nos realiza muito. As pessoas precisam ver e vivenciar isso primeiro para se convencerem. Em Plum Village, rimos o tempo todo e, ainda assim, nenhum de nós tem uma conta no banco.
Ninguém tem um carro particular ou seu próprio celular. Só consumimos alimentos
vegetarianos. E não sofremos por não comermos ovos ou carne. Na realidade, isso nos deixa mais felizes, pois sabemos que não estamos consumindo seres vivos e protegemos nosso planeta. Isso traz muita alegria. Temos a sorte de conseguirmos viver assim e de nos alimentarmos dessa forma.

Muita gente acha que, se não tiver muito dinheiro, se não conquistar uma alta posição na sociedade, não poderá ser feliz de verdade. É duro desapegar-se de uma crença, mas é possível quando você vê a verdade e percebe que pode ser feliz de outra forma. Ver esta verdade possibilitará o futuro de nossos filhos, portanto acho que nos círculos budistas precisamos nos reorganizar e mostrar às pessoas uma forma de viver feliz com base na compreensão mútua, não no materialismo. Não basta ouvir uma palestra do dharma, pois uma palestra do dharma é só uma palestra. As pessoas precisam ver uma comunidade não-materialista. Somente quando virem as pessoas vivendo assim, poderão se convencer de que isso é possível.

( Trechos de entrevista exclusiva feita por Andrea Miller para a Revista Shambala Sun
(Tradução: Denise Kato) Comente esse texto em http://sangavirtual.blogspot.com

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Novo grupo em Joinville


Pessoal,

Estou iniciando um grupo de prática aos domingos de manhã, sob a orientação do Monge Genshô. Vamos começar neste domingo, dia 22. Todos estão convidados a sentar conosco.

Os encontros ocorrerão todos os domingos, das 10:00 às 12:00 horas, na rua Lages, 375, sala 3, Centro (em frente ao estacionamento do Habib’s, na mesma sala do Grupo de Estudos Kalachakra e do CEBB).
É recomendável o uso de roupas confortáveis que cubram joelhos e ombros, e de cores discretas.

Gasshô
Felipe Izuka

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Tudo como sempre


Pergunta – Se a maioria absoluta dos seres vivem nesse estado de inconsciência, e o estado de consciência, o despertar é tão bom, quem é o responsável por esse estado de ilusão? No filme Matrix, que tinha uma base filosófica grande, haviam as máquinas que eram responsáveis por esse estado, pela ilusão, existia um motivo por trás disso. Entendo a questão do ego, do eu, não entendo quem me boicota, quem não quer que eu desperte e por que, se é o ego, com qual intenção ele me mantem nesse estado de ilusão?

Monge Gensho – Ele é um surgimento natural, na verdade nós somos uma coisa magnífica. De um lado é plena ilusão, de outro é a grande consciência se manifestando, o grande ser se manifestando. De um lado você é onda individual, mas porque é onda e tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, percepção, formação mental, você é como se fosse o olho do universo, você vê e isso é maravilhoso, porque a vida é maravilhosa e você é um fenômeno do universo, fantástico, lindo. Infelizmente esse fenômeno, por ver as coisas, ouvir e perceber, sente-se separado de todo o resto, é só por isso. É como se olho estivesse separado de você e visse, não tivesse o resto do corpo para conduzi-lo e o olho então pensasse, “eu vejo” e perdesse todo o
resto, pois nítidamente ele enxerga e pensa, “eu sou”. Mas esse olho, não consegue ver a si mesmo, o ouvido não ouve a si mesmo, sua mente não vê a si mesma. Você inteiro é como se fosse uma partícula que se pensasse só, isso é uma grande solidão, uma solidão imensa que nós temos, e pensamos que porque estamos sentindo, pensando e vendo, somos só nós, estamos profundamente presos a essa noção e assim perdemos todo o resto.
Os sutras dizem, “a verdade do não nascimento”, nós não podemos deixar de pensar que nascemos, nós sentimos, “eu nasci, eu sou, eu penso, não quero morrer” e assim nos perdemos, porque somos muito mais que isso, nós somos o grande ser e perdemos o grande ser, perdemos tudo na ilusão de um pequeno ser, um pequeno ínfimo ser que se pensa e que se percebe sozinho, esse é o grande drama, o grande despertar é perder-se de si mesmo para mergulhar no grande ser, ser o grande Ser e não uma pequena partícula pensando em si mesma, é difícil de explicar, mas se em algum momento você sentir, mesmo que em um pequeno instante, que você é o grande ser, naquele instante não há nascimento e não há morte, essa fugaz existência que vocês têm, perdidos em prazeres tolos dessa vida, em dores deste pequeno ser, estas pernas e joelhos que doem por ficar tanto tempo parados, esse é o nosso engano, como despertar? Primeiro é necessário abandonar nossa maior ilusão que é nossa mente, uma mente que não para, se essa mente ao menos pudesse parar um instante de conceber, poder sentir tudo, como é parte do grande ser, se nós abandonamos a noção individual, o grande ser pode tomar conta de nós, perceber isso é libertar-se de tudo, é despertar, não é algo extraordinário, fantástico, é tudo como sempre, só que completamente diferente.
(trecho de resposta em palestra de retiro, decupada da gravação por Ápio San)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O rato branco e o preto


Há uma famosa história zen de um homem que caí em um precipício, ele estava sendo perseguido por um tigre. Ao cair ele se agarra à um arbusto que havia na beira,olha para baixo e vê outro tigre.
Percebe, então, dois ratos roendo a raiz do arbusto, um rato preto e outro branco. Ele observa que no arbusto existem umas frutas vermelhas. Então ele segura-se firmemente com uma das mãos, com a outra pega uma das frutinhas e coloca na boca. “Que gostoso” ele diz.
Alguém arrisca me dizer o que representam os ratos preto e branco? O rato branco é o dia, o rato preto a noite. A cada momento, dia e noite, roem a raiz de nossa vida. O arbusto irá se romper e nós vamos cair com ele, lá onde o tigre nos espera. O que nos resta fazer senão comer as frutas doces da vida? Existe a frequente pergunta, “qual o sentido de existir?”, “para que tudo isso?”, a resposta é, “Porque há frutos vermelhos doces para serem saboreados”.
Nós corremos dos sofrimentos, porque fugimos dos sofrimentos, do tigre, caímos em um
precipício. Nos agarramos tenazmente à vida, mas se prestarmos atenção, o dia e a noite, roem as raízes da existência e nós vamos cair, é só uma questão de tempo. Na verdade a vida é doce e bela se soubermos aproveitarmos o momento.
Percebam, é muito bom estarmos sentados nas cadeiras agora, não é maravilhoso? Sintam essa maravilha, agora os joelhos não doem, como quando sentamos em zazen muito tempo, e podemos nos encostar, não é uma felicidade isso? Então, o sofrimento que nós enxergamos na vida é temporário, impermanente e é construído por nós. Como? Ele é construído como Buda nos ensinou dentro das Quatro Nobres Verdades. Existe uma causa, a causa é nosso apego, é o nos agarrarmos as coisa flutuantes querendo que elas sejam estáveis,nos agarramos ao arbusto querendo que ele seja firme e sólido e nunca caia. Mas isso é impossível, pois não é a natureza da vida, a natureza da vida é ser instável, nada é certo. Para sabermos viver temos que olhar nossos projetos como instáveis, nossos negócios como vendáveis, como falíveis, nossos empregos como passiveis de se perder, nossa saúde como passível de estragar. Se virmos que a vida é toda instável e não sólida, então, não poderemos construir nossa felicidade nos agarrando a estabilidade dela, a fantasia de uma estabilidade.
Temos que considerar todas as coisas como findáveis, amores, pessoas, filhos, casas,
empregos, negócios, empresas, todas as coisas são flutuantes, e a felicidade não está em esperar que elas sejam boas, estáveis e firmes, elas não serão. A vida é um fluxo e um fluxo cheio de coisas boas e ruins acontecendo.

(Trecho de palestra ministrada pelo Monge Genshô para a Sangha de Florianópolis,decupada por Ápio San)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Teoria de brasileiro sobre velocidade dos neutrinos é citada pelo MIT


O trabalho de física teórica de Policarpo Ulianov, membro da comunidade zen budista de Florianópolis, é citado com relevância pelo MIT, Policarpo relata que não teria chegado às suas conclusões sem o seu mergulho no pensamento zen budista.

"Lista elaborada pelo MIT coloca a teoria Witte-Ulianov como um dos trinta trabalhos que explicam a velocidade dos neutrinos:

http://web.mit.edu/redingtn/www/netadv/ftlNuSlow.html
No mundo existem milhares de teorias explicando a velocidade do neutrinos.
De 30 artigos nesta linha do MIT o trabalho de Ulianov é o único citado 2 vezes...

The Witte Effect: the Neutrino Speed and the Anisotropy of the Light Speed, as Defined in the General Theory of Relativity by Policarpo Yōshin Ulianov [2012/01]
Witte-Ulianov Rotation Anisotropy Effect.rotating the Einstein's Light Clock, to Show that the Neutrinos Travel at the Light Speed in Opera and Minos Experiments. by Policarpo Yōshin Ulianov [2012/01]

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Combate do Dharma de SHUSSÔ WAHÔ DEGENSZAJN



COMBATE DO DARMA – 18/12/2011
TENZUIZENJI COMUNIDADE ZEN BUDISTA
HOSSENSHIKI
SHUSSÔ WAHÔ DEGENSZAJN

Nesta data a Monja WAHÔ DEGENSZAJN, aluna da abadessa Coen Sensei, graduou-se zagen (monge aprendiz)na cerimônia do combate do Dharma, presentes eminentes professores que deixaram poemas de congratulações como vemos abaixo.
(Fotos e textos extraídos do site do Zendo Brasil SP)




“Eu não pude compreender o conteúdo do combate do Darma, mas soou muito vivo e agradável.
Minhas palavras congratulatórias para você são estas:
No Grande caminho não há dificuldades, mas ele não gosta de preferências.
Quando a primavera chega, entre a primavera.
Quando o verão chega, aprecie o verão
Assim aprecie sua vida profundamente.
Congratulações, você fez um bom trabalho.” (Isshô Fujita Rôshi)



“Embora a via láctea seja clara no céu de outono
Como pode-se compará-la com a enevoada lua na noite de outono?
Congratulações.” (Doshô Saikawa Soôkan Rôshi)



“ O sabre brilha e
Na grande harmonia
O Darma se manifesta em pureza.
Congratulações, congratulações, grandes congratulações.” (Shinguetsu Coen Roshi)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Livro "Zazen"



Tive o prazer de receber, das mãos de Coen Sensei, um exemplar deste novo livro do qual posto o cartaz de lançamento mês passado. Um trabalho essencial para auxílio dos que iniciam a prática, com explicações resumidas e textos tradicionais dos grandes mestres Dogen Zenji e Keizan Zenji.
Já solicitamos exemplares para a loja física da comunidade de Florianópolis.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Voluntários para investigar sobre meditação


A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), conhecida pelo desenvolvimento de pesquisas e estudos científicos, oferece vagas para voluntários nas seguintes áreas:

Meditação e TDAH - O Departamento de Psicobiologia recruta pacientes com diagnóstico médico de Transtorno do Déficit de Atenção (TDAH) para participarem de Pesquisa com duração de dez semanas que visa investigar os efeitos da prática da meditação com atenção plena e de tratamento psicoterápico cognitivo-comportamental (TCC) sobre a atenção, o humor e a qualidade de vida.

continue lendo: www.reporterdiario.com.br/Noticia/326899/unifesp-recruta-voluntarios-para-investigar-os-efeitos-da-pratica-da-meditacao/

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Velocidade dos neutrinos segundo Ulianov


( O cientista citado no artigo é praticante do zen budismo, ligado à Comunidade de Florianópolis, e líder do grupo de prática do zen em Rio do Sul SC, diz ele que não chegaria as suas conclusões sem o aprendizado do zen)

Cientista Brasileiro calcula tempo teórico de chegada dos neutrinos no experimento OPERA e propõe a realização de um novo experimento de medição de velocidade em Portugal, a fim de comprovar que os neutrinos se movem a velocidade da luz.
O Cientista Brasileiro Policarpo Yōshin Ulianov apresentou em 07/01/2012 um trabalho teórico no qual calcula o tempo de chegada dos neutrinos no experimento OPERA, obtendo um valor do tempo de antecipação de chegada dos neutrinos igual a 77ns, que está bastante próximo do valor de 60ns observado no experimento OPERA.
Devido a esta antecipação de 60ns na chegada dos neutrinos no OPERA foi cogitada a hipótese deles estarem viajando mais rápido que a luz, o que gerou uma grande polêmica na comunidade científica mundial, pois este resultado vai contra a Teoria da Relatividade Restrita (TRR) formulada por Albert Einstein em 1905.
Segundo Ulianov os neutrinos se deslocam a velocidade da Luz, mas no esquema de medição de tempo utilizado no experimento OPERA, ocorre um erro sistemático que surge em função da rotação da Terra aliada a seu deslocamento no espaço em alta velocidade (cerca de 400k/s, ou seja, um pouco mais que um milésimo da velocidade da luz).
Para validar sua hipótese Ulianov propôs a realização em Portugal de um experimento
denominado IPD-WURA (Investigating Positive Delays in Witte-Ulianov Rotation Anisotropy),que deve apresentar como resultado um atraso no tempo de chegada dos neutrinos (ou seja um efeito oposto ao observado no OPERA) da ordem de 112ns.
Figura 1 – Trajetória dos neutrinos no experimento IPD-WURA.
O experimento IPD-WURA poderia ser realizado perto de Lisboa, gerando uma trajetória ótima para a comparação com o OPERA. Isto ocorre, pois o caminho dos neutrinos no IPD-WURA (mostrado na Figura 1 como uma linha vermelha pontilhada), esta acima do equador indo até o limite oeste do continente Europeu, mas na direção de deslocamento leste-oeste. O IPDWURA teria também uma inclinação menor e percurso maior que o OPERA, gerando assim um atraso positivo, cerca de 2 vezes maior que o tempo de antecipação dos neutrinos observado no OPERA, ou seja na faixa de 110 a 120ns.
O trabalho de Ulianov deve gerar bastante polêmica nos meios acadêmicos, pois apesar de mostrar que os neutrinos estão viajando na velocidade da luz, confirmando assim o limite imposto pela TRR, ele está baseado no efeito Witte, que define uma variação de tempo entre dois relógios perfeitamente sincronizados que surge em função da Terra estar se deslocando no espaço em uma alta velocidade. Os atrasos previstos no efeito Witte variam em função da IPD-WURA OPERA
t ns
N
Δ = −60
t ns
N
Δ = 112
hora sideral, o que indica que os mesmos estão relacionadas à rotação da Terra enquanto ela percorre o espaço em uma velocidade de 400km/s.
Desta forma, o trabalho de Ulianov, ao mesmo tempo em que elimina o problema da
velocidade dos neutrinos utiliza em seus cálculos a velocidade absoluta da Terra, o que também não foi previsto nas teorias de Einstein. Segundo Ulianov:
“A analise realizada no meu trabalho mostra claramente que a matemática básica da
TRR de Einstein pode ser utilizada para explicar o efeito Witte. Alem disso alguns
experimentos baseados em relógios atômicos em rotação, podem ser utilizados para
medir velocidades absolutas, como por exemplo a velocidade da Terra em relação ao
espaço que a cerca. Desta forma a efetiva “relatividade” da TRR deve ser mais bem
avaliada, pois existe “algo lá fora” gerando um referencial absoluto de velocidade.
Por outro lado o fato do efeito Witte não afetar diretamente a velocidade dos
neutrinos, leva a instigante conclusão de que a Terra (e tudo que existe nela) se
deslocar no espaço em uma alta velocidade (400km/s) e sofre uma variação de
tamanho (da ordem de uma parte por milhão) ao longo do dia, conforme previsto na
TRR. Assim tudo que nos cerca muda constantemente de tamanho, mesmo sem termos
nenhum noção sensorial de que isto esta de fato acontecendo.”
Assim o resultado apresentado por Ulianov aponta para a existência de um espaço absoluto, um tipo de Éter que atualmente não é aceito nos modelos padrão da física, mas que há mais de cem anos vem gerando grande polêmica.
Para Ulianov a matemática de Einstein, definida na TRR esta 100% correta, mas a princípio Einstein não percebeu que o giro de relógios atômicos permite que a velocidade absoluta de um sistema seja diretamente observada.
Segundo Ulianov:
“A Teoria da Relatividade Restrita de Einstein, mesmo tendo mais de 100 anos de idade
tem uma construção matemática impecável e está totalmente correta. Assim Einstein
foi um cientista tão genial, que se de fato existe um erro na TRR, trata-se apenas de um erro de semântica: Acredito que Einstein deveria ter denominado a TRR de como uma “Teoria do Absoluto” ao invés de usar o tempo “Relatividade”, em todos os demais
aspectos a TRR é perfeitamente certa.”
Neste contexto o experimento IPD-WURA tem uma grande importância, pois não de trata
apenas de saber se os neutrinos andam um pouco mais rápidos ou mais devagar, mas sim de determinar se, em nosso universo, existem de fato referencias absolutas de velocidade, o que pode gerar impactos profundo sobre toda a física moderna.
O trabalho de Ulianov esta disponível em:
http://www.atomlig.com.br/poli/WURA-PT.pdfUma versão em inglês pode ser obtida em: http://www.atomlig.com.br/poli/WURA-IG.pdf

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Comentário


Islan Alex Triumpho da Conceição Lex deixou um novo comentário sobre a postagem "A loucura da identidade humana":

"Umas poucas vezes me deparei com uma questão de alguns amigos religiosos de outra cultura: Mas como você vai passar a"deixar" de viver em um mundo onde "Deus" (ou Cristo, ou Alá ou outra Entidade... em fim) "não é"o eixo de sua vida? Como você "passa" a viver em um mundo "sem" Deus?

Mas estas pessoas não percebem que ELAS sempre viveram em um mundo assim. Não passamos a viver em um mundo sem Deus. TODOS JÁ VIVEM ASSIM. Apenas esqueceram.

Vou dar um exemplo simples:

Uma bailarina ou um dançarino sufi... quando eles giram eles giram em torno de um eixo. Eles mesmos. Porém se tentarem imita-los, sem o devido treino todos nós caímos tontos... não é. Então oque mantêm a bailarina e o dançarino em pé e GIRANDO?

A questão é igual para eles. Se para girar eles OLHASSEM para tudo que gira em torno deles eles ficariam tontos e cairiam também.

Mas há um truque.

Se eles "criarem" um ponto que se mova junto com eles, eles recuperam o equilíbrio. Mesmo sendo o ponto IMAGINÁRIO. Alguns chamam este ponto imaginário de ÂNCORA.

Tanto as bailarinas quando tos aprendizes Sufis aprendem a olhar a própria mão quando COMEÇAM a dançar... e a medida que firmam o "truque" passam a IMAGINAR a mão (ou o ponto de apoio fictício) em um lugar "x" do horizonte para poder girar sem olhar para a mão... (o que é importante para bailarinas que precisam girar com os braços junto ao corpo, por exemplo).

Em todos os casos a bailarina gira sobre um eixo real: ela mesma, mas "se ancora" em um ponto de apoio IMAGINÁRIO, que o sustenta... o ponto de apoio NÃO EXISTE. Portanto NÃO APOIA. Quem se sustenta é a PRÓPRIA bailarina que gera em sua mente soluções para o problema da tontura.

Crer em Deus (ou precisar de Deus) é similar. É crer em um ponto de apoio criado no imaginário para dar nome para soluções (ou problemas, ja que o mesmo vale para o "azar" ou "demônios" ou entidades do mal) criadas pela própria mente.

Então a questão nem é como se vive em um mundo SEM Deus... Já que sempre vivemos em um mundo assim diariamente.

A questão é COMO ATIVAR AS SOLUÇÕES PODEROSAS QUE OCORREM NA PRESENÇA DO PONTO DE APOIO QUE CRIEI E NOMINEI DE DEUS."

Postado por Islan Alex Triumpho da Conceição Lex no blog O Pico da Montanha é onde estão os meus pés. em 6 de janeiro de 2012 10:46

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A loucura da identidade humana


P: O senhor diz que devemos nos entregar para um universo que não tem dó, amor, compreensão, ou plano. Por quê? Não seria uma loucura maior ser absorvido por um universo assim?

R: Não é loucura. A única coisa real é a vacuidade; só ela é liberadora. A vida que temos é um sonho produzido pelo nosso apego. O apego gera a condição humana. Este apego é tão forte que não queremos despertar para a realidade. Você só é homem por causa dos seus apegos. Se não despertar, continuará se manifestando como homem sem cessar, e isto é o sofrimento.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Todos os dias


Em certa ocasião eu perguntei ao Roshi:
- Quem inventou essa Grande Prática do Sesshin?

O Roshi respondeu:
- Eu não sei. Mas talvez no tempo de Shakyamuni Buddha eles tenham praticado assim, todos os dias.

Postado por João Jōken

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O líder ocidental do Soto Zen na América do Norte


Alto e anguloso, seu nome mesmo, como me contou quando fui seu aluno nos EUA, significa grande montanha. Perfeitamente fluente em japonês é um tradutor excelente e um professor severo embora afável, pede desculpas por esta aparência dura com um sorriso pesaroso. Sua liderança é um marco pois é o primeiro norte americano a ocupar esta posição, seu antecessor, Akiba Roshi, atualmente se aposentou permanecendo em Oakland onde tem um templo.

Daigaku Rumme Roshi é o Sookan atual na Soto Zen na América do Norte e abade do Soto Zen International Center em San Francisco, California. Ordenado por Sekkei Harada Roshi, Rumme nasceu em Mason City, Iowa e esteve pela primeira vez no Japão com dez anos com seus pais, que eram missionários luteranos. A família viveu em Tokyo por dois anos.

Daigaku Rumme foi ordenado na Soto Zen em Abril de 1978 em Hosshinji que fica ao norte de Kyoto em Obama. Hosshinji foi a casa de Rumme Roshi por mais de trinta anos. Ele acompanhou seu mestre, Sekkei Harada Roshi, em viagens para a América do Norte e Europa, servindo como tradutor. Hoje, Sekkei Harada é o representante oficial da Soto Zen na Europa e Daigaku Rumme Roshi é o primeiro ocidental nesta posição na América do Norte, ele retornou aos EUA em 2003.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Dana


Generosidade (Dana)
Sabemos que a segunda Nobre Verdade define a origem do sofrimento como cobiça e apego, o desejo desenfreado. Por causa disso, uma das principais práticas do Dhamma é chamada de Dana. Dana significa a prática da generosidade ou o ato de compartir com os outros. É um antídoto contra o apego, a esse agarrar-se com desespero às coisas, ao apego desmedido às nossas coisas. Encontramos essa cobiça e apego em todos os lugares. Agarramo-nos às nossas posses e não queremos nos soltar delas. O problema é que, quanto mais possuirmos, maior será o fardo. A prática da generosidade pode ser de grande ajuda, pois ela é um antídoto contra a mesquinharia. Além disso, o ato de compartilhar as nosas posses com os outros, ou o abandono do nosso egoísmo, ajuda a abrir as nossas mentes para o amor bondade e a compaixão. E estes são um antídoto contra o apego e o desejo.

A generosidade possui formas distintas. Pode-se dizer que existem três níveis de generosidade. O primeiro se chama dar com u’a mão. Com esse tipo de generosidade você dá porque as pessoas pedem ou porque você é pressionado a fazê-lo, ou ainda porque as pessoas estão olhando. Mas você continua segurando com u’a mão. Você, na verdade não quer dar e assim o faz com relutância. Digamos que um mendigo o importune. Para livrar-se dele, você lhe dá algo. Se você já esteve na Índia, provavelmente enfrentou situações em que os mendigos o seguem como uma sombra e não o abandonam até que finalmente você lhes dê algo. Essa é uma forma de generosidade, de compartir com os outros. Mas ela possui um valor limitado, porque o verdadeiro espírito imbuído no ato de dar é de realmente se soltar do que é doado, abandonar as coisas. Esse tipo de generosidade é abandono até certo ponto, e portanto, incompleto.

O segundo nível de generosidade é dar amistosamente. Quer dizer, você dá porque gosta de dar. Você se sente bem. Não é necessário pressão para que você o faça. Sempre que você vê alguém numa situação de necessidade, se você tem o suficiente para si mesmo, e possui o objeto da doação em dobro, você o dá com um sentimento de amizade. Se você tem duas bananas e alguém está com fome, você habitualmente dará uma. Essa é uma forma mais elevada de generosidade porque você não é pressionado a fazê-la – ela vem do seu próprio sentimento de amizade e você não está desesperado e firmemente agarrado às coisas.

O terceiro nível de generosidade é dar como um rei. Ao dar como um rei, você dá qualquer coisa em qualquer momento. Você dá a sua camisa. Você dá o seu último alimento para alguém que esteja com mais fome. Como não existe o pensamento precedendo a ação, você dá o melhor que tiver. Não existe nenhum apego, nem mesmo a idéia de um “eu” envolvido no ato generoso.

Bhante Yogavacara Rahula

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ubuntu


UBUNTU
A jornalista e filosofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em Floripa (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu .
Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.
Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito, com laço de fita e tudo, e colocou debaixo de uma árvore. Aí­ ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "Já!", elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.
As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e comeram felizes.
O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.
Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"
Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição daquelas!

Ubuntu significa: "SOU QUEM SOU, PORQUE SOMOS TODOS NÓS!".

(copiado de publicação em vários blogs na web, autor não localizado)