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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Meu apoio, a comunidade


É comum as pessoas me escreverem quando começam a praticar dizendo estarem perdidas e sentindo um grande desconforto. Outro dia recebi um email em que a pessoa dizia ter um vazio dentro de si que não sabia como preencher. O que acontece é que o budismo é um método que começa com uma desconstrução completa daquilo que as pessoas costumam usar como bengala ou apoio. Quando começamos a ensinar o Dharma, as pessoas perdem seus referenciais tais como: “A quem pedirei algo? Quem pode me ajudar, Buda? Existem anjos ou seres celestiais que possam me ajudar?” A mensagem do Zen é que não há ninguém lá fora para quem você possa pedir ajuda, nem à Buda, que foi um homem com nós.

As escolas budistas às vezes são mais piedosas, o zen não é exceção, e dão ao praticante algo a que se agarrar, como por exemplo, o Bodhisattva da Compaixão ou Buda Amida. Muito embora se formos fundo no estudo, veremos que esses seres não são exatamente alguém lá fora. Isso é muito bonito no sentido de existir uma fé e este processo é bastante consolador. Mas em última análise o método do Zen não é consolador e é chamado de “O Caminho Direto”, pulando todos os estágios de prática, levando diretamente a um confronto consigo mesmo e com a vacuidade do “eu”. A única coisa oferecida pelo Zen na qual o praticante pode se apoiar são suas próprias ações.

São com as suas ações que um praticante Zen budista pavimenta o caminho que ele irá percorrer. A cada pedra colocada, o praticante pode avançar no caminho. Ele pavimenta o caminho com a construção de seu próprio carma, portanto, ele altera seu carma e com isso tiramos a responsabilidade ou o poder sobrenatural de qualquer outro ser lá fora. Nós temos os poderes sobrenaturais para a construção de nossas próprias vidas. Desta e das futuras. Como? Através de seus pensamentos, atos e palavras, através da construção de seu carma.

Alguns praticantes, quando lhes tiramos as ilusões, sentem-se desapoiados. Onde me apoio? Porém, mesmo no Zen existe um apoio e esse apoio chama-se Sangha. Apoiando-se na Sangha ele não está só e, além disso, ele tem ainda pais, irmãos e amigos. Quando ele diz que sente um vazio dentro de si difícil de preencher, lhe falta engolir o universo, pois ainda vê as coisas de forma separada e dual. “Eu estou separado, eu sinto um vazio”! O sentimento de solidão irá acabar quando ele conseguir pôr fim à dualidade, quando não mais enxergar o “outro” e “eu”. A solidão só existe com a separação. Vocês percebem que com frequência falo de meu Mestre, Saikawa Roshi? Por quê? Porque ele me é precioso. A última vez que esteve em Florianópolis fomos caminhar na praia e cada concha, cada pequeno peixe ou água viva que ele encontrava na areia, devolvia ao mar. Acredito que este seja verdadeiramente o sentimento de estar junto com todos os seres. Esta é também uma marca constante no praticante, a referência ao Mestre, porque quando fala no Mestre está dizendo “minha família”. Essa ligação que temos com o templo sede, com nosso Mestre e até mesmo com templos de fora do Brasil, nos coloca na sensação de unicidade, desta forma nunca estamos sós.

Aqueles que se sentem desamparados quando iniciam a prática, ainda não perceberam o quão acompanhados estamos. Mas é necessário vir à Comunidade, sentir a prática coletiva e escutar seu professor. Isso é muito importante.

A igualdade pregada por Buda


5) Mas, por exemplo, as regras sociais são ditadas por uma maioria, um grupo.

Monge Genshô – Você tem certeza? Moisés, por exemplo. Existiam as regras sociais da época e todos viviam de acordo com elas. O que ele fez? Desceu do Monte Sinai com os Dez Mandamentos e disse: “As regras agora são essas”. Foi a maioria de pessoas que decidiu ou foi somente ele? Quando Jesus Cristo surgiu, apresentou idéias muito revolucionárias para sua época e não foram idéias de um grupo, mas seu ensinamento. Em todos os lugares vemos isso, por exemplo, andando pelas ruas vemos as casas numeradas, mas antes de 1805 não eram assim. Quem mandou numerar as casas? Napoleão, mas essa não foi sua única contribuição, ele mudou todo um código civil que alterou o comportamento da sociedade. Antes dele somente os filhos mais velhos tinham direito a herança e essa mudança foi adotada por toda a Europa.  Se dependesse da maioria, as casas seriam numeradas por ordem de construção, como até hoje é no Japão, onde para encontrar uma casa tem que se ter um mapa. Por que os Estados Unidos e a Inglaterra têm um sistema de medidas diferente do resto do mundo? Porque o sistema métrico foi criado na revolução francesa por um pequeno grupo de sábios e como na Inglaterra não queriam usar o mesmo método, ficaram com medidas que representam um verdadeiro atraso como, por exemplo, um pé que era a medida do pé de Henrique VIII, uma polegada, uma jarda.

Buda também foi assim, ele disse que homens e mulheres são iguais espiritualmente, ambos podem  ser monges, oficiar cerimônias, ser mestres, castas são bobagens, os monges podem ser de qualquer casta, de qualquer sexo, a iluminação é igual para todos. Num mundo cheio de deuses deixou de falar neles, onde se falava em almas e espíritos os negou. Quantas religiões existem ainda hoje que dizem que homens e mulheres são diferentes para o sacerdócio? 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Dúvidas e certezas


3) Mesmo porque, não existem verdades absolutas.

Monge Genshô – Exato e todas as verdades que possamos declarar não passam de aproximações, são sempre relativas. Alunos do Zen não têm uma grande fé e sim uma grande dúvida. Ele vem para a Sangha porque tem uma grande dúvida. Se ele vem para a Sangha e diz que tem uma grande fé e certeza das coisas, este não é o lugar para ele. Aqui é o lugar para dúvidas e incertezas.

Aluno – Mas a pessoa vai viver sempre com dúvidas?

Monge Genshô – Bom isso, não é?

Aluno – Não, não penso que seja bom. É horrível.

Monge Genshô – Bom, isso é muito bom. A vida se mostra a cada passo e se você tiver certezas, estas irão conduzi-la a enganos.  O melhor é não ter certezas e ir caminhando para ver como a vida se mostra. Aquilo que você planejou pode ou não dar certo, e se não der? Você poderá mudar? Esta capacidade de mudar com as circunstâncias é o que a água tem, a mais sabia das substâncias, nunca resiste, nunca enfrenta, tudo que ela faz é escorrer e sempre pelo caminho mais fácil. Não cria resistência nem para evaporar-se, vira nuvem, chove e novamente está de volta ao solo. Esta deveria ser nossa atitude na vida, pois os que são duros sofrem muito. A pessoa que fica presa a um relacionamento que acabou, por exemplo, acabará com sua vida. Perdeu um emprego, arrume outro. Está ruim em um país, tente uma migração. Se você olhar a vida com essa flexibilidade poderá fazer muitas coisas, mas se olhar com rigidez fica muito difícil. Você é pedagoga, me diga, as teorias da pedagogia são fixas? Não, estão sempre mudando.

4) Então qual o primeiro passo para uma pessoa que pensa que nada vai mudar?

Monge Genshô – Esse é na realidade um desejo dos seres humanos, que as coisas fiquem estáveis, é o que chamamos de pensamento linear. É muito comum isso nos investimentos, por exemplo, o preço dos imóveis sobe e as pessoas então compram imóveis. Acontece que todas as pessoas têm o mesmo pensamento, mas chega um determinado momento que surge uma desconfiança, porque subiu tanto? O valor então desaba. Quantas vezes isso acontece? Há séculos que isso vem acontecendo. Somente algumas pessoas ganham com investimentos, seja na bolsa de valores ou em imóveis. Por quê? Porque a maioria pensa linearmente, ou seja, o que está acontecendo vai continuar acontecendo sempre.

Aluno – Mas não é possível fazer nada por estas pessoas?

Monge Genshô – Sim. Podemos tentar explicar, mas este comportamento de manada é comum. Os homens costumam fazer coisas de determinada maneira e se prendem a elas. Pegando como exemplo a sua área, se entrarmos na sala de aula hoje e virmos as crianças sentadas e o professor na frente dando aula e andarmos cento e cinquenta anos para trás quando La Salle começou as classes dessa maneira, imitando o sistema de formação industrial, no qual todos tinham a mesma formação, as classes parecem as mesmas, embora tenhamos ferramentas maravilhosas para educar as pessoas de forma diferente. O pensamento humano costuma seguir em trilhos.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Não acredite, experimente


2) Seria correto fazer uma analogia com uma peça de teatro? Sabemos que não é real, mesmo assim nos emocionamos.

Monge Genshô – Você pode se permitir, sabe que é fantasia, mas pode se permitir. Você pode cortar a emoção partindo para um lado crítico e apenas analisar a atuação dos atores, mas pode resolver entrar na emoção. O importante é saber disso e ter a liberdade de escolher. A maioria das pessoas não têm nenhuma liberdade, são arrastadas pelas circunstâncias, acontecimentos e pelas emoções sem poder olhar para fora. Para alguns de nós o ciúme pode ser uma coisa tola, outras simplesmente não conseguem sair deste sentimento, não têm liberdade. 

Aluno – E como saber no dia a dia o que é ou não fantasia e realidade?

Monge Genshô – O que é real?

Aluno – Talvez o certo.

Monge Genshô – Existe algo que você possa chamar de certo?

Aluno – O que a maioria concorda.

Monge Genshô – Se a maioria concorda provavelmente é bobagem. A opinião da maioria por lógica é média e a opinião média é medíocre. Aquilo que a maioria das pessoas pensa sobre algo provavelmente não é verdadeiro, se todos concordam com alguma coisa você deve desconfiar. Este é um dos motivos da dificuldade de se governar um país com democracia, pois você depende da opinião da maioria. As opiniões mais geniais não estão nas mãos da maioria, por exemplo, perguntaram para Steve Jobs porque ele não fazia uma pesquisa de mercado para saber que tipo de produto lançar. “As pessoas não sabem o que querem”, ele respondeu. Se o inventor do automóvel fosse perguntar para as pessoas o que elas queriam, certamente a resposta seria um cavalo mais rápido. Elas não tinham idéia do que era ou viria a ser um automóvel.

A opinião da maioria das pessoas é assim, linear e localizada no tempo. A maioria dos ensinamentos de Buda é desconfortável e as pessoas não querem este tipo de opinião. É muito bom ter alguém a quem rezar para nos socorrer. Seria ótimo chegar como Monge, dizer-se conhecedor da verdade e indicar o caminho para as pessoas seguirem, mas no Budismo não é assim. A palavra “fé” no budismo, “Saddam”, significa uma espécie de confiança e não uma crença inabalável em alguma coisa. No budismo dizemos para as pessoas experimentarem, dizemos para não acreditarem nos professores, não estamos vendendo uma fé. Eu digo à vocês que existe um treinamento que leva à um caminho, se vocês confiam que leva, então pratiquem desta forma e testem para ver se obtém os mesmos resultados. Talvez vá funcionar para alguns e para outros não. Como monge budista não desejo adoradores e seguidores que digam que o que eu falo é a mais pura verdade.

Existe a história daquele monge que aceitava só a metade do que seu mestre dizia, a outra metade ele rejeitava. Quando perguntado do porque disso, ele dizia que se aceitasse tudo não seria digno de seu mestre. Se você pensa que a opinião da maioria é provavelmente correta, sem problemas, você pode pensar desta forma, mas veja no que daria: - A maioria das pessoas antigamente pensava que a terra era chata e quem declarou que a terra era redonda foi perseguido. Existem vários exemplos que comprovam isso e cada vez que alguém foi contra a maioria, foi perseguido. A maioria pensa que seja mais natural acreditar num deus criador, essas coisas são tão complexas que só podem ter sido criadas por uma entidade superior, elas dizem. O budismo não considera a idéia de um deus criador e isso vai contra o senso comum. É praticamente axiomático, se vocês me mostrarem algo que a maioria das pessoas acredita poderemos colocar alguma dúvida.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Se estiver triste, chore, se feliz, sorria



Bia Gonzaga perde os cabelos e torna-se a noviça Jikihô San.

1) Na palestra o Roshi disse que mesmo depois de iluminado Buda ficava triste e feliz. Não consigo entender muito bem isso, uma vez iluminado ele não atinge uma serenidade tal que lhe permite não sentir mais esse tipo de coisa?

Monge Genshô – Isso é uma ilusão sobre a iluminação e sobre o próprio Zen. O que é a vida senão alegrias e tristezas? Com certeza não é somente serenidade e tranquilidade. Então se você morresse nós deveríamos dar de ombros e continuar com nosso encontro sob a alegação de que vida e morte são perfeitamente naturais? Você chega com a notícia de que sua namorada que você tanto amava acabou de morrer, então deveríamos dizer que tudo bem, afinal de contas sob o ponto de vista absoluto vida e morte não existem? É essa a atitude que você esperaria de nós ou você desejaria ser tratado de outra forma? Eu diria a você que sei o que é perder alguém que se ama, então você choraria e eu choraria junto com você.

Aluno – Ainda não compreendi muito bem, o ser que se iluminou por completo, como Buda, sente exatamente igual a nós?

Monge Genshô – Ele despertou, ele sabe. Sabe o que é fantasia, mesmo assim ele está vivo, fica doente, sofre, se entristece porque morreu Shariputra seu grande aluno.

Aluno – A diferença é que ele consegue ver o outro lado da moeda?

Monge Genshô – Ele consegue ver os dois lados da moeda. Se não visse um dos lados seria como se estivesse morto. Se você está vivo os dois lados existem. 

Aluno – Apesar de estar triste ou feliz ele consegue olhar também o outro lado. Estava conversando com meu marido e achei reconfortante o que o Roshi disse - “Se estiver triste, chore, se estiver feliz sorria”. Nós somos humanos e estamos nesse mundo cheio de emoções, então foi um alívio escutar isso, pois não preciso abrir mão dos meus sentimentos.

Monge Genshô – Aquele que não sente é como se estivesse morto. Quando você conhece o Roshi percebe o quão emotivo ele é. Em minha experiência percebo que com o tempo de prática no Zen, as pessoas não vão ficando desligadas do mundo e sim muito mais emotivas.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A UNICIDADE DE TODAS AS COISAS



Nós ouvimos frequentemente as pessoas dizerem que devemos ser “um com todos os seres”, no entanto, todo o tempo que andamos no mundo vemos coisas diferentes, pessoas diferentes, nossos sentimentos são diferentes e mudam, nossas experiências são diferentes, então nos perguntamos onde está essa tal “unicidade de todas as coisas”.

Na verdade a diversidade é a unicidade, ela apenas é a múltipla manifestação das coisas. Nós, os outros e todas as coisas apenas nos manifestamos de formas diferentes. Em toda unidade há diversidade e toda diversidade é a própria unidade, nós é que queremos separar uma coisa da outra, mas nossa vida diária é toda diversa. Quando pedimos as pessoas para que sejam um com todos os seres não implica que deixemos de ver a diversidade e não significa também que nossa vida não tenha diferentes aspectos como alegria e tristeza, pois ela tem.

Saikawa Roshi em uma de suas palestras falou sobre uma moeda que tem em seus lados nossa vida diária - 100% dualidade de um lado e do outro o absoluto, completa unidade, nada de bom ou ruim, certo ou errado. Tudo está na mesma moeda, mas quando você olha um dos lados não consegue enxergar o outro. Como podemos estar conscientes de que uma ou outra coisa é a mesma coisa, é a mesma moeda? Pois quando você anda, a vida diária é 100% dualidade. Você tem que ser capaz de virar a moeda a cada instante, quando você conseguir isso, será capaz de integrar os dois lados e saberá que um lado é fantasia e o outro é como as coisas realmente são. Isso pode parecer confuso porque as coisas são diversas e ao mesmo tempo unas. Ao mesmo tempo em que vida e morte existem, não existem, são apenas um pequeno aspecto das manifestações, do ponto de vista absoluto não existe vida e morte, tudo sempre esteve, está e de alguma forma sempre estará aqui. Universos surgem e desaparecem e tudo sempre está aqui.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Pacifismo e militarismo


4) Uma vez vi em uma entrevista, um repórter perguntar ao Dalai Lama o por quê do Tibete, sendo um país tão pacífico, sofrer tanto nas mãos dos Chineses e o Dalai Lama respondeu que o Tibete tem carma para isso. Esse é um exemplo de carma coletivo?

Monge Genshô – Exatamente. Se você renascer no Tibete, é porque tem carma para isso. Com tudo o que o Tibete já foi, ele já teve um povo guerreiro e conquistador. Transformou-se em povo pacífico? Sim. Mas carma de povo pacifico é ser dominado por povos agressivos. Uma coisa interessante que acontece na história humana é que nenhuma cultura de fundo matriarcal sobreviveu, com exceção feita àquelas isoladas em ilhas. Porque as características dessas culturas é não serem guerreiras. As culturas guerreiras patriarcais destruíam as matriarcais. Isso aconteceu também na história Budista, como por exemplo, o Tibete.

O Budismo nunca sobreviveu aos confrontos armados. No século XIII os islâmicos invadiram a Índia e destruíram o Budismo, universidades muito mais antigas que as da Europa, como a Universidade Nalanda com 10 mil alunos que foram queimadas e os monges mortos. Na China, o budismo também foi destruído e no Tibete atual o budismo está em processo de destruição, tudo através da força. Como o budismo tem uma marca pacífica e tende a fazer com que seus povos sejam pacíficos e não militares, no confronto, é destruído.

As pessoas dizem que no Japão foi diferente e o Budismo sobreviveu. No Japão houve certa associação com o Shintoísmo e durante um período de paz foi possível esse crescimento. Foi no período “Tokugawa”, durante trezentos anos de isolamento. Quando o império japonês foi se militarizando e entrando em confrontos com o ocidente, na restauração “Meiji” em 1868, surgiu uma pressão para restaurar o Shintoísmo como religião nacional, porque ela fazia do imperador um Deus e permitia o militarismo. O budismo havia transformado os samurais, que eram guerreiros, em pessoas sensíveis capazes de escrever poesias, pintar e fazer arranjos de flores. O imperador, com o objetivo de enfraquecer o budismo, tratou de baixar éditos. Muitos destes éditos tiveram efeito positivo em seu objetivo de fazer renascer o Shintoísmo enfraquecendo o budismo, o resultado foi um Japão militarizado que se lançou em guerras, primeiro contra a Rússia, na década de trinta contra a China e depois a Segunda Guerra Mundial.

Bom, voltando à origem de nossa discussão, o pacifismo não sobrevive aos confrontos com o militarismo. Doutrinas como a Budista só sobrevivem em locais pacíficos, democráticos e com liberdade. É muito provável que o que está acontecendo agora em Bangladesh, onde os budistas são minorias e os templos estão sendo queimados é que o budismo vá desaparecer, talvez não totalmente, mas nesse confronto o lado pacifista, no caso o budismo, irá perder. Com certeza não leremos noticias de um grupo de budistas queimando templos muçulmanos, não existe um suporte doutrinário que torne os budistas guerreiros, melhor morrer que matar.

5) Dentro desse tema, melhor morrer que matar, não seria legítimo eu lutar pela minha vida?

Monge Genshô – Sim, é legítimo que você lute por sua vida. Mas carmicamente é melhor morrer. Nagarjuna, grande mestre do século I que pertence à nossa linhagem, foi assassinado. Ele foi esfaqueado e seus discípulos que o encontraram sangrando, perguntaram quem havia feito aquilo. Sua resposta foi - “eu mesmo”. Seus discípulos sabendo da impossibilidade de Nagarjuna ter cometido tal ato, perguntaram novamente. “Fui eu através de meu carma, se eu disser quem fez isso, vocês odiarão e irão querer vingança e esse carma não terá fim”. Ninguém jamais ficou sabendo quem matou Nagarjuna e também ninguém foi perseguido ou morto por causa disso.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Causalidade, história, carma.


3) O senhor poderia explicar a diferença entre causalidade história e carma?

Monge Genshô – Literalmente carma significa ação, ação intencional que produz efeitos e que retornam para você. A ação não intencional não causa um efeito que você incorpore. Aquilo que você elabora, planeja, age ou fala é que causa retorno. Os outros acontecimentos no mundo são causalidades que ocorrem porque você é um ser humano. Porque você manifestou-se nesse mundo, em um país onde tem terremoto, você está sujeito ao tremor, mas isso não é causado por seu carma. Essa é a diferença entre causalidade e carma.

Acontecem coisas boas ou ruins conosco dependendo do que semeamos, mas isso pode levar muito tempo para frutificar, pode até mesmo não frutificar agora, mas como você pertence ao universo e isso irá  frutificar no universo, como você faz parte dele, será atingido por aqueles resultados.

Somos atingidos por resultados culturais, econômicos etc., causados por nossos antepassados. Muita coisa do que acontece faz parte do nosso “carma coletivo” e não necessariamente daquele que eu causei pessoalmente. Podemos pensar - “eu não mereço” - no entanto, esse “eu” é ilusório e como eu pertenço ao todo e como o todo reage aos acontecimentos, então o que acontece comigo eu mereço, pois sou ser humano e estou aqui. Não adianta dizer “não fui eu quem fez”. Um bom exemplo é o de quando se é criança e se faz um travessura e perde-se um dedo com quatro anos. Agora, já adulto, olho para minha mão e não me lembro do que fiz nem de como perdi o dedo. Porque o “eu” adulto está pagando pela criança que fez a travessura e perdeu o dedo? Mesmo que você não lembre, você tem as consequências. Isso acontece vida após vida.

Pertencemos a um grande universo, não era meu “eu” na vida anterior, era outro indivíduo que fez coisas que provocaram um carma que se manifesta nessa vida e que tem determinadas marcas. Como sou herdeiro disso, sofro as consequências boas ou ruins. Temos consequências de doenças em nossas vidas de que pensamos: “por que mereço isso”? Você não está ausente de todo o mal do mundo, nem de todo o bem; você pertence ao universo e por isso acontecem essas coisas com você. Você participa de tudo que é bom ou ruim, mesmo que você pense que não tem nada a ver com isso.

Meu eu construído


2) O Senhor poderia falar um pouco sobre o ego, como o budismo vê o ego?

Monge Genshô – O ego também é uma construção de nossa mente. Porque temos sucessões de pensamentos, sensações, formações mentais e percepções, formamos uma consciência e dizemos a nós mesmos, “Eu existo”. Esse “eu existo” é absolutamente construído e por ser construído por um funcionamento da mente, é uma ilusão que cessa quando a mente para de funcionar. Não precisa ser necessariamente com a morte, pode ser através de uma doença. Ele existe e é necessário para nosso funcionamento na dimensão histórica. Eu tenho meu “eu” de monge, estou vestido com meu manto de monge, estou fantasiado de monge, o que me ajuda a desempenhar um papel nesse mundo - isso é uma construção.

Um dia desses eu estava num local e aproximou-se um frade franciscano vestido com seu hábito e seu cíngulo e, ao vê-lo foi impossível não ter uma sensação de respeito por ele. Mesmo sabendo que isso é uma construção da mente, o respeito não desapareceu, é bom que ele exista, isso permite atuar no mundo. Usamos nossas fantasias de nossos “eus” para poder atuar no mundo, o problema é pensar que somos as fantasias, que eu sou meu nome, meus títulos, minhas roupas, que eu sou aquele personagem que inventei para atuar no mundo. Agarramo-nos ao personagem e sofremos quando ele é ofendido. Se entendermos que o “eu” é construído, ele não poderá mais ser ofendido, se for entendido como uma mera fantasia, não tem importância. Se você coloca uma fantasia de palhaço, sai pelas ruas e as pessoas o chamam de palhaço, você não se importa. Mas se você não se vê como palhaço e é chamado de palhaço, sente-se ofendido. O correto é na hora de um insulto você se perguntar: “Quem está sendo insultado”? Se meu “eu” é completamente construído, não existe ninguém para ser insultado, não preciso me importar. Somente quando me agarro ao meu “eu” é que me importo. Por isso descartar-se do “eu” é tão importante. A maior parte dos sofrimentos desaparece no instante em que compreendermos o “eu” como uma construção da mente, não sólido, não permanente e evanescente.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Impermanência e os eruditos de bar


1) O senhor poderia falar sobre a  impermanência?

Monge Genshô – Impermanência em sânscrito é “Anitya”, que é uma das marcas da existência. Toda existência é impermanente, não existe nada permanente e sólido no mundo. Nós, seres humanos, colocamos nossa felicidade na permanência, desejamos que nossos amores durem para sempre, não é assim que terminam os contos de fadas? “E foram felizes para sempre...” Temos o desejo pela estabilidade, gostaríamos de um emprego público com salário excelente e zero possibilidade de demissão. Gostaríamos de viver em um país de contos de fadas onde uma pessoa que cometesse um grave erro fosse aposentada compulsoriamente com salário integral. O problema é que colocamos nossa felicidade na estabilidade, estabilidade de todas as coisas, inclusive, como acontece em alguns contos de fadas, uma fonte da juventude onde pudéssemos beber de sua água e jamais envelhecer. O sonho da vida eterna.

Esse sonho de vida eterna é recorrente nas fantasias religiosas, onde teremos uma vida eterna em um corpo perfeito. Outras religiões têm o sonho de um “eu” sobrevivente com uma alma eterna que igualmente não envelhece ou morre. Um paraíso que dure para sempre, imutável. Do ponto de vista do Zen, talvez fosse isso um castigo, estar eternamente na mesma situação sem nunca ela se alterar.

A experiência mostra que quando uma pessoa se vê nessa situação ela sente-se mal. Imaginem uma pessoa em uma prisão. Ninguém poderá incomodá-lo, lhe será fornecida comida duas ou três vezes ao dia, essa pessoa terá cama, banheiro e comida para sempre. Uma prisão perpétua em solitária. Para o Zen isso seria um castigo inumano. É a situação da estabilidade perfeita: a pessoa recebe tudo, não tem contas para pagar, ninguém para incomodar, nenhuma situação que comece e termine, tudo perfeito.

Parece que a impermanência tem dois lados: de um, é a fonte de todo o sofrimento humano, pois ele coloca a felicidade na estabilidade mas, por outro lado, se você propicia a uma pessoa a estabilidade perfeita, ela poderá encarar como um castigo, pois é a vida sem aventura. Nunca me esqueço de quando estive em Andorra, um Principado que fica entre a França e a Espanha. Não existe moeda local, eles usam o Euro; não tem exército, vivem do turismo; todos os habitantes possuem casa, habitação e tudo funciona perfeitamente bem. Em Andorra os jovens se queixam que não existe nada para fazer, nada acontece no país, eles já sabem onde irão morar, com quem se casarão, onde trabalharão, não existe serviço militar, vivem de receber os turistas, sabem que terão a vida igual a de seus pais. Aposto que o pensamento deles é - “como eu gostaria de morar em um lugar como o Brasil, onde as coisas mudam constantemente”.

“Anitya”, a marca da impermanência, é ao mesmo tempo benção e maldição. Que bom que a gente envelhece e morre. Se fôssemos todos eternamente jovens não poderíamos amar e ter filhos, pois não haveria lugar no mundo para tanta gente. Para que haja lugar para os filhos temos que ir embora. Esse é o fluxo da vida e a impermanência.

Na semana passada falamos sobre os três corpos, o “Tri Kaya”, que é uma construção, é conveniente para raciocinar e pensar, mas não nos ajuda necessariamente no caminho da iluminação. A teoria budista pode construir outro tipo de ilusão, do erudito budista que imagina que saiba muito sobre o budismo, conhece muitos termos, mas não sabe viver. Esse tipo é ótimo para sentar em mesas de bar para tomar uma cerveja e impressionar os amigos com seus conhecimentos profundos.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Um homem como nós


Após esse momento histórico surge um movimento chamado Mahasanghika, que começa a modificar a figura de Buda. De acordo com esse movimento Buda teria uma luz dourada, poderia prever o futuro, seria capaz de ler as mentes, poderia manifestar vários Budas para estar em diferentes lugares, teria excrementos perfumados, etc. Após esse período surge então o Movimento Mahayana. Nos primeiros sutras conta-se que quando Buda senta-se para ensinar ele teria quatro alunos. Nos sutras Mahayana que começam a ser redigidos por volta do Século I a.C., Buda senta-se no Pico do Abutre para ensinar para centenas de milhares de alunos. À medida que o tempo passa Buda vai transformando-se num ser divino. O Zen adotou muitos sutras Mahayana onde aparecem essas narrativas milagrosas, mas para a transmissão oral dos mestres Zen, Buda é um homem como nós. Comeu talvez comida estragada, ou talvez já estivesse doente, teve um distúrbio intestinal, uma violenta disenteria sanguinolenta e morreu desidratado com 84 anos. Ele foi cremado e suas cinzas divididas entre os reis da época. Para nós, transformar Buda em uma entidade divina é o mesmo que diminuí-lo e diminuir a nós e a nossa capacidade de despertar, pois todos somos Budas em potencial e temos a capacidade de despertar por nós mesmos. Somos, assim como Buda, seres com corpos e com todos os defeitos e problemas dos corpos, seres perfeitamente capazes de morrer de disenteria.

Quando Buda morreu os céus não tremeram e nem trombetas soaram, ele simplesmente morreu. Dizem que no momento de sua morte, Ananda, que era um de seus discípulos, chorava copiosamente e Buda lhe perguntou: “Por que você chora”? “Porque o senhor é minha luz”, respondeu Ananda. Buda então o repreendeu e disse: “Seja você a sua luz, não dependa de mim, pratique diligentemente”. Essas teriam sido as últimas palavras de Buda.

A tradição oral do Zen não encoraja a transformação de Buda em um ser divino e sim o reconhecimento dele como um Mestre, alguém com sabedoria,  não sabendo todas as coisas do mundo, um homem comum.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Pergunte ao ferreiro


Quando Buda andou pelo mundo ele era um homem comum, normal, sendo assim a forma como os primeiros Sutras o tratam. Esse conjunto de Sutras chama-se “O primeiro cesto”. Existe então, um conjunto de escrituras que se chama “Tripitaka”, que significa “Os três cestos”. “Tri” em sânscrito quer dizer três e não por acaso se parece com o nosso três, pois o sânscrito é parente do português, como vimos na palestra de sábado sobre o “Trikaya”, os três corpos.

O primeiro cesto são os “Sutras” - os discursos de Buda. Sutra literalmente quer dizer “fio” e dele derivou a palavra Sutura, que significa “costura que é feita com fio”. Por que então Sutra? Porque podemos seguir a linha do ensinamento como seguimos um fio.

O segundo cesto chama-se “Vinaya” - o cesto das regras monásticas. À medida que o tempo ia passando iam sendo criadas novas regras, exemplo, quantos mantos os monges podem ter? Definiu-se que quatro mantos seriam suficientes e, assim por diante, foram sendo criadas regras de conduta e regras para ordenação monástica, como por exemplo, a de que um monge não poderia ser ordenado sem a anuência de sua família. Os jovens monges só poderiam ser ordenados se os pais concordassem. O homem casado que resolvesse ser monge só poderia o ser, com a anuência da esposa e um monge só poderia ser ordenado na presença de outros cinco monges. Com isso temos mais de trezentas regras para as mulheres e duzentos e cinquenta e poucas para os homens. Por que essa discriminação com as mulheres? Porque os homens não menstruam e nem engravidam, essas regras eram ligadas a ter que cuidar dos filhos e coisas típicas da condição feminina.

O terceiro cesto chama-se “Abhidharma” -  os comentários feitos por seguidores de Buda sobre os ensinamentos. O mais interessante desse processo todo é que congelou-se no Tripitaka, o cânone mais antigo, os discursos em que Buda aparece como um homem que vem e senta, passa os ensinamentos e que, eventualmente, alguém lhe faz perguntas ou discorda. Ele responde e nunca se furta a um debate. Algumas vezes recusa-se a responder dizendo que o assunto em questão não interessa ao que ele se propõe a ensinar. Perguntas do tipo, “Qual a origem do mundo?”, “O que acontece após a morte?”, “Deus existe?”, não eram respondidas sob o argumento de que não eram verificáveis. Ele dizia que seu ensinamento era sobre a origem do sofrimento, sua cessação, felicidade, iluminação e o despertar. Esse é o assunto que tem real importância, dizia Buda. Outros assuntos não interessavam ou não eram de sua alçada, eram de responsabilidade de oleiros, cientistas ou guerreiros. “Qual a melhor maneira para se fazer uma ferradura”? “Não sei, pergunte ao ferreiro” era sua resposta.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A iluminação de Buda


Aluno: Então um texto de Dogen seria, no Dharma, como se fosse o mesmo de Buda, são dois seres iluminados que estão transmitindo uma verdade... 

Monge Genshô: É uma visão correta, no budismo a realização não é única. A realização é permanente e um mestre iluminado é uma manifestação de Buda.

Aluno: A iluminação de Sidharta foi igual a qualquer outra e Sidharta teve uma relevância e importância por codificar os sutras?

Monge Genshô: É um pouco mais porque primeiro ele fez isto sem que alguém iluminado tivesse ajudado e, segundo, nós dizemos “Samma Sambudha” - completamente iluminado - não é uma realização parcial, uma iluminação parcial, mas uma iluminação tão completa que não sobra nenhuma energia para manifestação posterior dele.

Então Buda quando morreu, se extinguiu, ele não retorna mais. Iluminações parciais ele pode ter tido em manifestações anteriores, em vidas anteriores, mas naquela realização de Buda, isto é axiomático para o budismo, ele teve uma realização completa, plena, se manifestou na vida dele final, o que não quer dizer que outras pessoas não tenham este mesmo tipo de realização ou que venham a ter, mas em todo o caso, eles se beneficiam do fato de ter um modelo anterior.

Por isso é que nós sempre fazemos aquela cerimônia de refúgio, nós tomamos refúgio em três jóias - primeiro no Buda, nosso modelo que ele conseguiu fazer..., nos trouxe um ensinamento de uma forma que ninguém tinha feito antes, pelo menos não que fosse lembrada e, se foi feita antes, foi feita e nós recitamos estes Budas míticos para nos lembrar disto. Buda não é uma divindade, um profeta, não é isto; ele é o Buda, o realizado, alguém que se realizou completamente e nós podemos fazer a mesma coisa, segundo o Dharma, que é o ensinamento que é “a jóia”. O Dharma nos permite compreender e nos dá também a técnica com a meditação, como sentar, etc, técnicas que vieram de culturas anteriores também, mas que o budismo aproveita e Buda aproveitou como caminho. Depois temos a Sangha, que é o grupo de pessoas que tem problemas e que se atritam, atrapalham os outros e que nós temos que aprender a tolerar na nossa prática. Por isto esta imagem tão constante no Zen do arroz com casca sendo batido com um pilão, isto é a Sangha - através do atrito um com o outro, dos problemas que a gente enxerga nos outros, é que nós podemos aprender e realizar o nosso caminho espiritual.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Fazemos para os vivos






Pergunta – O budismo tem a lei do carma e tudo está sujeito a ele?

Monge Genshô – Sim, pensamos que a natureza tenha a lei do carma. Carma significa ação e toda ação tem uma consequência. Pensar que não seja dessa forma seria contrariar as evidências.

Pergunta – Sim, mas quero dizer não somente carma do que fazemos agora e que irá repercutir no futuro, mas também o que trazemos de outras vidas.

Monge Genshô – Se todo efeito tem uma causa, você não pode pensar que um efeito vem de graça. Não necessariamente o que acontece agora nessa vida tem uma causa também nessa vida, pode vir de outras. Não era eu, até por isso não usamos a palavra reencarnação, mas foi um passado que me gerou e sou herdeiro desses efeitos. A personalidade de cada um tem uma causa, mesmo que não nos pareça lógico, ela tem uma causa. Digamos que uma pessoa tem pavor do doar sangue. De onde vem essa marca cármica? De onde vem essa idéia de medo de doar sangue? Não é gratuito, nada é do nada. A maior indicação de que existe um passado é que temos marcas cármicas diferentes, caso contrário,  seríamos como tábuas em branco. Mas não adianta nos preocuparmos em como isso funciona ou quem você foi na vida passada. Temos que nos preocupar com o agora.

Pergunta – Quando morremos só sobra a ação, certo? O carma. Gostaria de entender porque fazemos a cerimônia dos mortos, se nada mais pode salvar além do carma?

Monge Genshô – Fazemos para os vivos.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Sobre o discordar


No trabalho e em reuniões jamais diga "discordo" , apresente uma pergunta para que o outro possa se estender sobre o ponto, uma pergunta que faça com que o assunto a que você se opõe seja esclarecido, você evitará o confronto, a oposição natural do outro quando você discorda, ou diz "não penso assim". Esta simples conduta educada facilita tudo, pois não cria a sensação de campos opostos, de eu aqui e você ali.
Quando você fala com uma pessoa que provavelmente , por formação, conhece mais do que você sobre um assunto, isto é ainda mais importante. É natural que, por vaidade, quando expressamos uma opinião nos agarramos a ela e a defendemos acirradamente mesmo quando está claro que estamos errados.
Este tema é ainda mais relevante numa lista budista, é recomendável que não digamos "discordo" para ninguém, afinal ideias diferentes existem, peça esclarecimento, pergunte, apresente seu argumento como se fora uma dúvida, a conversa será mais produtiva e você mesmo não precisará defender uma posição porque se colocou nela por antecipação antes de saber absolutamente tudo sobre o tema, coisa praticamente impossível no budismo. (Rev. Genshô)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Um criador e o agora


Pergunta – Eu vi um vídeo de uma palestra sua juntamente com um grupo espírita em que o Senhor dizia que o budismo é uma religião sem Deus, o senhor poderia esclarecer isso?

Monge Genshô – O budismo não fala em deuses, mas tão pouco se dedica a negar sua existência, apenas não pensa que seja útil ficar se referindo a coisas não verificáveis. A idéia de um deus criador é completamente absurda para o budismo. O deus criador tem três grandes atributos, veja bem, isso é uma discussão e visão minha para responder sua pergunta, pois o budismo não se dá a esse trabalho.

Um deus criador é onisciente, onipotente e infinitamente bom. Se ele é onipotente poderia ter feito um mundo perfeito e bem feito. Não fez. Algumas pessoas poderão dizer: “mas há o livre arbítrio”. Mas veja bem, se eu colocar um cachorro, uma criança ou um macaco dentro de uma loja de cristais eu não sei o que irá acontecer? Então ele coloca um homem e uma mulher num local e avisa que daquele fruto é absolutamente proibido comer. Ele sabia o que iria acontecer, pois ele é onisciente, conhece passado, presente e futuro. Agora, ele fez algo sabendo qual seria o resultado, pois é onipresente e onisciente, então provavelmente não seja infinitamente bom. No caso deste Deus criador esses atributos são paradoxais, de modo que esse deus criador é uma contradição que filosoficamente é inaceitável. 

Esse assunto é extensamente discutido no livro de um Jesuíta que abandonou a fé, Tomás Antônio da Fonseca, “Doze Provas da Inexistência de Deus”. Ele se refere a este Deus, com um plano, um ser pensante, com uma intenção e que fez algo. Essa idéia desse tipo de deus é completamente estranha para o budismo. Mas se pensarmos como uma inteligência que perpassa todo o universo, não interferente, não criador e sem planos, então é uma idéia admissível e não contraditaria o budismo. O budismo não chega a ser ateu, não se dedica a negação, mas é “não teísta”, ou seja, não fala sobre deuses. Falar em um deus criador é diminuí-lo em razão das contradições, pois lhe damos responsabilidades que mostram que obviamente algo não deu certo. Não adianta colocar a culpa no homem e no livre arbítrio, isso é uma tentativa de jogar no homem a culpa de algo que o antecede. Nós somos imperfeitos, mas quem nos fez dessa forma?  Mas o budismo não perde tempo com isso, o que preocupa o budismo é a mente, o sofrimento e o agora.

Pergunta – Essa nossa criação para o bem e para o mal tem a ver com passado e futuro?

Monge Genshô – Não, essa questão de passado e futuro faz parte de nossas imaginações sobre coisas que nós mesmos criamos, são falsidades. O passado sobre o qual pensamos é uma construção e não aconteceu exatamente como pensamos. Um bom exemplo disso é esse exato momento. Se amanhã alguém perguntar sobre o que foi dito na palestra, teremos vários relatos diferentes e a medida que o tempo passa a memória também será alterada. O futuro é imaginação. Não adianta ficarmos pensando em como resolver hoje os problemas de amanhã. Os problemas de amanhã só serão resolvidos amanhã. Faz sentido imaginar o futuro frente à um tabuleiro de xadrez, posso pensar na probabilidade das quatro jogadas seguintes e calcular suas conseqüências, mas esse é um jogo de informação perfeita e muito simples se comparado com a vida.

A vida está sempre cheia de “cisnes negros”. Cisne negro é um evento que ninguém previu. Em 1986 estava na Alemanha e perguntei para um amigo sobre o muro de Berlim e se ele nunca iria ser derrubado. Sua resposta foi que não, isso sempre fora assim e nunca iria mudar. Três anos depois o muro foi demolido. Três meses atrás quem imaginaria que o povo brasileiro sairia às ruas para fazer reivindicações? Esses eventos são chamados “cisnes negros” porque em geral os cisnes são brancos, mas de repente aparece um cisne negro. Então, o futuro é imprevisível, mas sentamos para meditar e ficamos fantasiando sobre o futuro. O Zen sempre fala sobre isso, temos algo com o que lidar que é extremamente importante - o agora. Omar Kayyãm dizia, “dois dias me são particularmente indiferentes, o ontem e o amanhã”. É isso que o Zen ensina, olhe para o agora, é isso que você está perdendo.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Benevolência e doações


TEXTO (cont. de Shushogi)
Palavras amáveis são a fonte para superar o ódio de amargos inimigos e cultivar a harmonia entre os amigos. Ouvir diretamente palavras amorosas ilumina a face e aquece o coração. Uma impressão ainda mais profunda é feita ao ouvir palavras amáveis que foram ditas na sua ausência. Lembre-se de que palavras amáveis têm o poder de mover os céus. “Ações bondosas” significam encontrar um meio de ajudar os outros, sem se importar com sua posição social. Aqueles que ajudaram a tartaruga aprisionada ou o pássaro ferido não esperavam nada em retorno por sua ajuda; eles simplesmente agiram por benevolência. Os tolos pensam que seus interesses próprios irão sofrer se colocarem o beneficio alheio em primeiro lugar. Entretanto estão errados. Benevolência é como um círculo, beneficiando igualmente a nós mesmos e aos outros. “Identificação” significa não-diferenciação, não fazer diferença entre os outros seres. Por exemplo, é como um humano Tathagata que viveu a mesma vida que todos nós humanos. Identificamos os outros conosco mesmos e identificamos a nós mesmos com os outros. Nestes momentos os “nós mesmos” e os “outros” se tornarão um. Identificação é como o oceano, que não declina nenhuma água, sem importar qual a origem, todas as águas se juntando para formar o mar. Quietamente reflitam sobre o fato de que os ensinamentos precedentes são a prática de um Bodhisatva. Não a tratem levemente, venerem e respeitem seus méritos, que permitem libertar todos os seres.

Pergunta – É possível atingir a iluminação sem a preocupação de ajudar os outros a atravessar o rio da ignorância?

Monge Genshô – Sim, existem os que vencem solitariamente e atingem a iluminação.

Pergunta – Esses méritos que a pessoa acumula com a compaixão poderão ser creditados mais à frente, por exemplo, uma pessoa que acumulou muitos méritos e mais à frente na vida se depara com uma situação crítica, seja de qual natureza for, poderá se perguntar do porque de estar nessa situação se acumulou muito mérito com a compaixão.

Monge Genshô – Os méritos não são uma conta corrente e se você fizer com a intenção de acumular um tesouro é como um materialismo espiritual. Você não passará de um “ricaço de bens de mérito”.  É como a pessoa que vai anotando cada boa ação e num futuro se acontecer de ser mal tratado pela pessoa alvo de sua boa ação, ele irá questionar o porquê disso se no passado, está anotado no seu caderno, ele só fez o bem. Onde está meu retorno cármico? Acontece algumas vezes de você fazer um bem sem saber e ele retornar em um agradecimento que você não esperava. Um acontecimento que para você foi tão pequeno a ponto de passar despercebido, mas para quem recebeu foi muito significativo. Você deve fazer as coisas sem esperar retorno.

Pergunta – A nossa tradição judaico-cristã trabalha nesse sentido de acúmulo de méritos para no futuro ter uma vida mais feliz.

Monge Genshô – Esse é um sentido, no meu modo de ver, muito primitivo, pois considera os méritos espirituais como se fossem capital acumulado, a tal ponto de esperar que Deus dê uma recompensa àquele que fez uma doação. É como uma negociação, se eu der recebo de volta, se não der nada recebo. Há uma passagem no Antigo Testamento, no Livro de Malaquias que diz o seguinte: “em que me roubais?”, diz o Senhor, “nos dízimos e nas ofertas”. “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes.”

O que significa isso? Se você pagar o dízimo Deus lhe concederá bênçãos de riqueza. Mas no Zen não é assim, temos um caixinha ali fora e você ajuda se quiser, mesmo que ajude ninguém saberá. Qual bênção irá receber? Apenas a satisfação de ajudar outras pessoas. Foi essa a resposta de Bodhidharma para o imperador Wu quando este lhe pergunta que méritos acumulou por construir templos e mosteiros para o budismo. “Mérito nenhum majestade”. Não se trata de um negócio, você deve fazer o bem pela satisfação do bem.

Você encontra uma pessoa na rua e lhe dá um prato de comida e depois sai à procura de uma divindade para cobrar seu mérito? Isso é vergonhoso. Vejam essa organização “Médicos sem Fronteiras”, pessoas que saem pelo mundo para ajudar pessoas miseráveis que nunca irão pagar. Esses são verdadeiros Bodhisattvas, nós é que não os enxergamos, mas existem muito mais Bodhisattvas no mundo do que imaginamos.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Mente Bodhi


TEXTO
Após ter acordado para a mente Bodhi, mesmo vagabundear pelos seis planos da existência e pelas quatro formas de vida se torna uma oportunidade para praticar o voto altruísta. Logo, mesmo que até agora vocês tenham passado o tempo em vão, devem rapidamente fazer esses votos, enquanto é tempo. Embora vocês tenham adquirido mérito suficiente para realizar o Caminho de Buddha, vocês devem coloca-lo à disposição de todos os seres a fim de que eles realizem o Caminho. Há alguns que praticam durante eons incontáveis sacrificando sua própria iluminação a fim de eu todos os seres se beneficiem, ajudando-os primeiramente a cruzar para a outra margem. Há quatro espécies de sabedoria que beneficiam outros seres: doações, palavras amáveis, ações bondosas e identificação, todas sendo praticas do Voto de um Bodhisatva. Doação significa não cobiçar. Embora seja verdade que em essência nada pertença ao ser, isto não deve nos restringir de fazer ofertas. O tamanho da oferta não importa: é a sinceridade com qual é dada. Logo, a pessoa deve estar pronta a compartilhar até mesmo uma frase ou verso do Dharma, pois isto se torna a semente do bem, tanto nesta vida como na próxima. Este também é o caso ao dar de seus bens pessoais, seja uma só moeda ou uma folha de grama, pois a lei é o tesouro e o tesouro é a lei. Sem esperar recompensa ou agradecimentos, devemos compartilhar com os outros. Fornecer um barco transportador ou uma ponte também são atos de doação, assim como ganhar seu sustento e produzir bens.

Comentário
Aquele que se esforça e produz ou transporta bens, também está fazendo um ato de doação, assim como ganhar seu sustento e produzir bens. Por exemplo, um artesão como Stradivarius, há duzentos e cinquenta anos produziu instrumentos de grande beleza que são tocados até hoje, instrumentos de grande valor e que trazem bons sentimentos. O seu trabalho produziu uma riqueza inefável para o mundo.

TEXTO
O significado de “palavras amáveis” é o de que ao observar todos os seres, a pessoa deve se encher de compaixão por eles, dirigindo-se a eles afetuosamente. Isto quer dizer, falar com um sentimento de doçura e vê-los como seus próprios filhos. O virtuoso deve ser elogiado e o sem virtude apiedado.

Comentário
Devemos ter piedade daqueles que não têm virtude e cometem erros. Devemos esclarecê-los e ensiná-los, tentando ajudá-los. Recusar ajudar porque eles são desagradáveis é um erro. É claro que existem limites e quando não pudermos ajudar uma pessoa, o melhor que fazemos é nos afastar.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A outra margem e homens e mulheres


TEXTO (continuação de comentários sobre o texto clássico  Shushogi)
Acordar a mente Bodhi significa fazer voto de não atravessar para a outra margem antes que todos os seres o tenham feito. Tanto leigo como monge, vivendo nesse mundo de seres celestiais ou humanos, sujeito à dor ou prazer, todos rapidamente devem fazer esse voto.

Comentário
Atravessar para a outra margem significa sair da margem de cá, que é o Samsara, o mundo do sofrimento, atravessar o rio e chegar à margem Prajna Paramitha, a margem da sabedoria e do despertar. Mente Bodhi significa a mente compassiva, é quando chegamos à outra margem ao olharmos para trás vemos todos os outros seres sofrendo. Em vez de abandonar o barco e ir embora, voltamos e ajudamos as pessoas a atravessar o rio. Essa é a mente Bodhi, a mente que deseja ajudar as pessoas a saírem do sofrimento. A pessoa faz o voto de só entrar no Nirvana quando todos os seres tiverem atravessado o rio, isso significa renunciar à felicidade perfeita e ficar nesse mundo de sofrimento. Nosso mestre, Saikawa Roshi, pediu que fizéssemos esse voto no final do zazen, “Seres são inumeráveis, faço votos de libertá-los”.

TEXTO
Embora de aparência humilde, uma pessoa que tenha acordado para a mente Bodhi já é um professor de toda a humanidade. Até mesmo uma menina de sete anos pode se tornar uma professora budista e ser mãe compadecida de todos os seres, pois homens e mulheres são completamente iguais. Esse é um dos mais altos princípios do Caminho.

Comentário
Isso é realmente impressionante sobre o budismo. Há dois mil e seiscentos anos Buda teve a coragem de dizer que homens e mulheres são completamente iguais. Em nossos dias, em muitos lugares, homens e mulheres não são considerados iguais. Em algumas sociedades, principalmente as patriarcais, os homens podem ser sacerdotes, as mulheres não. Em algumas seitas islâmicas homens podem ir para o paraíso, as mulheres não, pois não têm alma, “são como os cães”. Também existem sociedades onde as mulheres ocupam posições privilegiadas e os homens são subalternos do ponto de vista religioso.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Reinos a verdade e o totalitarismo


Pergunta – O mundo dos espíritos seria então um mundo sem forma?

Monge Genshô – Que mundo dos espíritos?

Pergunta – Esses que o senhor citou, espíritos infernais, famintos etc.

Monge Genshô – Sim, é um mundo sem forma, mas todos esses mundos podem ser vistos como meramente didáticos, pois há diferentes listas para diferentes escolas. Não se trata de um artigo de fé. Você pode ver como uma realidade ou como uma alegoria. Durante o dia vivemos todos esses mundos, por exemplo, quando está com raiva você está no mundo dos infernos. Quando você é egoísta, um espírito faminto. Quando você bebe e come demais ou segue unicamente seus instintos, é como um animal. Quando você raciocina, pensa e pondera, você está no mundo dos homens. Quando se torna ambicioso e se mete em disputas pelo poder, é um semi-deus. Quando a vida pra você é muito fácil e há grande abundância, é um deus. Todos esses estágios podem ser vividos durante seu dia.

Pergunta – Durante o caminho, se acontece algo que você pensa que é um insight e que crê que isso seja uma verdade, a atitude correta é conversar com seu professor?

Monge Genshô – A palavra verdade não é muito usada pelo budismo. Eu prefiro chamar de uma “experiência legitima” ou uma “compreensão”. Sim, o correto é conversar com seu professor e se ele confirmar, significa que a experiência dele é igual à sua, mas jamais colocaremos um carimbo atestando ser uma verdade, algo que sirva para todos, algo universal. Significa apenas que foi legítima para você e para seu Mestre. A palavra verdade cria um conceito de exclusão. Esse é o problema maior das religiões, cada uma tem a verdade única e todas as demais estão erradas.
O Zen, que é o método que seguimos, é bom para nós e pode não ser para outras pessoas. Coletivamente somos a soma de muitas verdades diferentes, não existe a verdade de um grupo que possa ser imposta a todos. Essa é a idéia do totalitarismo, minha interpretação do mundo é a verdadeira e todos têm que aceitá-la. Esse tipo de pensamento é exclusivo, de forma que qualquer pessoa que não pense da mesma maneira deverá ser preso, morto ou calado de alguma maneira, pois sua opinião prejudica a totalidade da minha verdade.

O budismo vai no sentido contrário, ele é libertário e constantemente vocês me ouvem dizer que o que eu falo não é para ser acreditado, não desejo seguidores e não sou um guru. O budismo não sobrevive em sistemas totalitários, pois esse regime sempre irá tentar calar a boca de quem pense diferente. O budismo sofreu extermínios em países como China e no Japão do final do século XIX quando a religião oficial era o Shintoísmo e o imperador era descendente direto de Amaterasu-ômikami. Na China as únicas escolas que sobreviveram ao massacre de budistas foram a Escola Chan, da qual descende o Zen, e a Terra Pura outras tiveram que ser refundadas. Na Índia também os budistas foram aniquilados com a invasão muçulmana. Como eles não aceitavam mulheres mestres, destruíram os templos e mataram todas as monjas, acabando com a linhagem feminina de Prajnapathi que vinha desde os tempos de Buda, por isso hoje as mulheres tomam refúgio em linhagens masculinas.

Todos os lugares onde o budismo foi fortemente combatido deve-se ao fato de ser pacifista e pôr em risco a idéia de conquistas e lutas destes governos. Esse discurso todo foi para mostrar que a idéia de que alguém tenha a verdade e que esta deva ser imposta aos outros, não condiz com o pensamento budista. Temos que cultivar uma mente tolerante e compassiva.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pensamento, palavra, ato


Pergunta – Isso significa que existe carma sem forma.

Monge Genshô – Existe o carma. Não importa se tem forma física ou não. Mesmo em seu mundo mental você cria carma quando pensa. Quando você alimenta um desejo, cria carma. Você não sofre com um desejo não realizado?

Pergunta – Mas aí tem forma, não é?

Monge Genshô – Sim, mas todo esse desejo está dentro de sua mente e não tem forma.

Pergunta – Não tem forma física.

Monge Genshô – Exato, não tem forma física, pois está dentro de sua mente, mas não cria sofrimento por não ser realizado? Quando você me diz que desejou uma coisa e não conseguiu e depois ficou pensando, isso é um desejo realizado que ocorre somente dentro de sua mente. Sua mente também produz carma e sofre as consequências. Não é tão agudo e concreto como quando falamos ou realizamos algo. Um ato realizado com o corpo é mais forte e pode ter consequências muito maiores. Uma coisa é você pensar em roubar algo, está somente dentro de sua mente, outra é dizer algo que pode desencadear uma sequência de acontecimentos, por exemplo, na passeata você grita: “Vamos quebrar!”, isso pode gerar grandes acontecimentos, porém, se você for o agente do ato, isso terá uma consequência física, mas todas são consequências cármicas em três níveis distintos.  Pensamento, palavra e ato. Não agir já é um grande feito, não falar melhor ainda, agora não pensar e não sentir, isso seria a perfeição.

Pergunta – Se não houver pensamento, em consequência não haverá carma ?

Monge Genshô – Sim, quando você morre leva consigo carma que é a forma de sua consciência mental. Esse quantum de energia que confundimos conosco mesmo e que se manifesta novamente em um novo corpo, não é você no sentido de um “eu”, mas é você em outro sentido. É e não é você mesmo. Não é o mesmo “eu”, mas é você no sentido de ter suas características.

Pergunta – Nesse caso seria sem forma?

Monge Genshô – Naquele momento é sem forma, mas tem tanta energia que se manifesta como forma. Quando nasce uma criança a consciência adquire forma e começa a operar no mundo. Todos somos assim, já nascemos com determinado caráter, personalidade, desejos, todas essas inclinações trazemos das vidas passadas. 

Pergunta – A família em que nascemos também?

Monge Genshô – Tudo. Você nasceu nesse lugar e nessa família porque tinha carma para isso, sentiu-se atraído para se manifestar nesse lugar, não poderia ser em outro lugar.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Mundos melhores que o humano


Pergunta – O senhor falou do mundo animal e da falta de compaixão, mas como explicar, por exemplo, quando um animal morre e seu companheiro fica ao seu lado aparentemente sofrendo junto com ele?

Monge Genshô – Eles também tem compaixão e socorrem seus pares, não são seres sem sentimentos.

Pergunta – Mas então a ignorância a que o Senhor se refere, como explicar?

Monge Genshô – Sim, existe a ignorância, mas esta não é completa e absoluta. Existe mais ignorância do que em um ser humano, por exemplo. O fato dele sofrer junto com seu semelhante nao significa que ele tenha uma consciência parecida com a de um ser humano. Deixar de ser um gato para ser um ser humano é um grande salto. Existem muitos seres com a oportunidade de um nascimento humano, mas existem muitos homens que para ser um animal falta pouco.

Pergunta – Do ponto de vista budista, o ser humano pode regredir para se tornar um animal?

Monge Genshô – Sim. Sempre digo que posso imaginar perfeitamente Hitler renascendo como cachorro sarnento em uma aldeia na África sendo chutado por todos e se perguntando: “Mas por quê isso está acontecendo comigo”?

Pergunta – Mas esse personagem teria algum lado positivo apesar de tudo que ele fez?

Monge Genshô – Claro, sem dúvida. De alguma forma, por algum motivo, ele nasceu como ser humano. Talvez o carma que ele desencadeou tenha sido terrível, mas talvez não tão ruim como o de um torturador que executa diretamente o ato. Qualquer tipo de julgamento é sempre muito difícil.

Pergunta – Claro, não o estou defendendo tampouco, só que para nascer humano algum mérito havia, certo?

Monge Genshô – Sim, sem dúvidas, acumulou méritos para nascer como humano, mas o que fazemos com nossas vidas humanas já é outra coisa, isso é que vai determinar nosso futuro. Você pode acumular um carma tão maravilhoso que renasça num mundo além desse nosso humano, muito melhor que esse. Existem muitos mundos melhores que o humano na cosmologia Budista e alguns são tão bons e maravilhosos que apesar do bom carma, você não se esforça mais, pois sua vida fica muito fácil.

Pergunta – Em algum destes mundos é necessário o físico?

Monge Genshô – Existem mundos sem forma, sem meio físico. Existem mundos da forma e mundos além da forma, mas vocês não precisam acreditar, isso faz parte da tradição cosmológica budista. Alguns concordam outros não. Na realidade, acima da nossa existem vinte e seis condições melhores e que não são dos Budas, ou seja, estão abaixo dos Budas. Mesmo assim existe decadência e morte. Esses mundos são todos de sonhos, são mundos imaginários que nos parecem sólidos.

Pergunta – Em um mundo sem forma não existe carma?

Monge Genshô – Sim, existe. Mesmo num mundo que seja de consciência e pensamentos também  há carma, pois os pensamentos produzem carma.