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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O que realmente importa




Um jovem uma vez me apareceu com o cabelo pintado de azul elétrico, uma coisa assim, e ele perguntou-me: “o que o senhor acha?”. Eu disse: “eu não acho nada. Isso não me impressiona”.

Agora se você viesse aqui e dissesse que havia treinado 10 anos e tocava piano muito bem, aí eu realmente respeitaria, mas pela cor de seu cabelo no máximo podemos cumprimentar o cabeleireiro, pois o detentor não fez nada. Nós procuramos coisas fáceis demais para fazer, quando na realidade deveríamos fazer as coisas difíceis, como sentar para meditar, estudar e investigar nossa mente. Um trabalho muito grande, difícil, esse merece respeito. É como alguém que disse: “eu li 50 livros esse ano” - isso merece meu respeito, mas as coisas fáceis que as pessoas fazem, como comprar uma roupa, isso não é nada. Por isso no Zen nós dizemos para que os praticantes vistam roupas discretas. Muitos preferem preto porque é tradicional, mas na verdade o que queremos  dizer é que não venham para a sangha com uma roupa da moda para mostrar aos outros como você é especial, porque aqui isto não é especial. 

[N.E.: trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei] 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Símbolos e Rituais




Aluno: O zen mostra uma visão desiludida das coisas (desiludida de sem ilusões). Eu comprei isso aqui (um colar com símbolo), e gostaria na verdade de uma leitura sobre os símbolos ou signos.

Monge Genshô: Como você mesmo disse, não é relevante. Os símbolos e os rituais são linguagem para o inconsciente. Nós sonhamos com signos, e eles nos atingem de alguma forma. Nós montamos um altar, colocamos uma estátua, colocamos flores porque é bonito. Colocamos vela, que é o símbolo da iluminação. Acendemos incenso, etc. Nós fazemos essas coisas, mas elas não são o budismo. São o que nós chamamos de upaya, meios hábeis: são meios para criar um clima, para ajudar as pessoas que se sentem impactadas pelo ambiente, mas não são realidade alguma e não são essenciais. 

Por isso nós contamos a história do monge Zen que estava com frio, pegou a estátua de madeira de Buda, partiu em pedaços, fez lenha e fez uma fogueira. Daí os outros monges que apareceram de manhã disseram: “oh, você queimou o Buda!”, e ele retrucou: “é mesmo? Cadê os ossos? (sariras)". O que ele quis dizer é que era só madeira; naquele momento era madeira: eu estava precisando e pronto, acabou. 

Então, o símbolo ou qualquer coisa que você goste e use pode ser inspirador, mas se alguém me pergunta e diz: “ah, eu queria fazer uma tatuagem de Buda para mostrar que sou budista”, eu digo: “não faça isso! Você quer ser diferente das outras pessoas?”. Tudo o que fazemos para nos diferenciar, nos atrapalha. É um reforço egóico.

[N.E.: trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei] 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Quem é Você? (parte final)


Nós nos achamos muito importantes, muito relevantes. Por isso a pergunta é: “já que nós atingimos tal nível de consciência, quem somos nós, verdadeiramente, além disto?”. Essa pergunta precisa ser resolvida com a experiência, com a visão pessoal. Isso se chama Kenshô, as primeiras experiências que querem dizer "ver sua verdadeira natureza" (KEN = ver; SHO = verdadeira natureza). 

Só que tal experiência precisa ser aprofundada muitas vezes até nós dizermos: “ah, esta é uma iluminação relevante". Embora o kenshô seja uma experiência iluminada, ela é curta, evanescente, que fica só como uma lembrança. O kenshô não é uma experiência tão difícil de ser obtida.

No Zen, é disso que estamos falando e é para isso que estamos trabalhando. Nós estamos jogando fora todos os deuses, todas as almas, todos os espíritos, todas as crenças sobrenaturais. No Zen não há espaço para isso. Para o Zen, já é sobrenatural o suficiente nós estarmos sentados aqui nesta sala, com corpos feitos de átomos antiquíssimos, mais velhos que a Terra; estarmos organizados como seres viventes; estarmos conseguindo conversar sobre este assunto - isso tudo é profundamente sobrenatural, e as pessoas mesmo assim ficam procurando homenzinhos verdes, ou fantasmas, ou milagres, ou poderes especiais... 

O milagre está disponível aqui e agora. É incrivelmente milagroso! Como nós não enxergamos isso?

[N.E.: trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei] 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Quem é Você? (parte 2)


Quem é você?” Depois de quatro ou cinco perguntas, geralmente uma pessoa diz: “eu não sei”, porque ninguém sabe quem é. Quando Buda ilumina-se, ele diz para si mesmo: “tu não me enganarás mais"; ele vê a si mesmo e diz “tu não me enganarás mais”. 

Todos nós nos enganamos a todo tempo - olhamo-nos no espelho e dizemos: “aí estou eu”. Mas a consistência, a realidade do seu ser é tão sólida quanto aquela que você vê no espelho, ou seja, é consistência zero. Não existe uma solidez no que você vê. O que você vê na realidade é o reflexo da luz visível em uma parte do espectro eletromagnético batendo nos átomos do seu rosto. Não é real, é só uma fração muito pequena da realidade: o espectro da luz visível no espectro eletromagnético é equivalente a um fotograma em um filme com três mil quilômetros de comprimento - de Florianópolis até Salvador. Este espectro da luz visível é um fotograma, e o resto todo nós não vemos. E você acha que vê a realidade? 

Pensem: agora, através de nossos corpos estão passando todas as mensagens de celulares que os satélites em cima de nós estão transmitindo. Se você pegar um celular e sincronizar um determinado número, você vai ver aquela mensagem. Essas mensagens estão passando por nós todo o tempo, e se as víssemos ficaríamos arrasados pela quantidade de informações que está passando aqui nesta sala neste instante, mas vocês estão ouvindo só e somente só a minha voz. Todo o resto não está sendo visto. 

Então, o que estamos vendo é uma fração infinitesimal da realidade disponível, e nós acreditamos que isso aqui é a realidade. Por qualquer aspecto que nós olhemos, tudo o que está aqui são conjuntos de átomos, códigos genéticos em operação, funcionamentos extremamente frágeis. É muito fácil que nosso planeta desapareça, que todos os seres humanos desapareçam, etc. A terra já passou por cinco grandes extinções em que morreram 70 ou 90% de toda a vida que aqui habitou. Portanto, que ocorra uma outra extinção e que nos faça desaparecer é bastante plausível. 

(CONTINUA)

[N.E.: trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]