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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O Reconhecimento da Realização




Outro caso interessante é o caso de Punyayasas (Funayasha Daioshô em japonês), que é o 11º patriarca na nossa recitação. Ele se achava de pé com as mãos unidas, frente ao venerável Parsva (Barishiba Daioshô em japonês):

-          De onde vens? - perguntou-lhe Parsva.
-          Minha mente não vai nem vem.
-          Onde moras então? - perguntou o venerável.
-          Minha mente não se move, nem tampouco permanece quieta.
-          Estás seguro disso? - Insistiu o patriarca.
-          Em isso coincidem todos os Budas, contestou Punyayasas.
-       Mas tu não és todos os Budas, e por outra parte a expressão “todos os Budas” é um erro.   Asseverou Parsva.

Ao escutar isso, Punyayasas empreendeu uma prática ininterrupta durante 21 dias: ele retirou-se e foi sentar-se por 21 dias até chegar a alcançar a compreensão do estado não originado de todas as coisas. Estado não originado de todas as coisas o é porque todas as coisas dependem umas das outras: isso existe porque aquilo existe; todas as coisas estão conectadas como num círculo sem fim. Não existe uma coisa que você diga: “ah, esse é o início de todas as coisas”. E então ele dirigiu-se ao venerável e disse-lhe:
          
- “Todos os Budas” é uma expressão equivocada, mas eles não são o venerável.  Eles não são o  senhor.

Então Parsva reconheceu sua iluminação e transmitiu-lhe o verdadeiro Dharma. 

Eu estou contando essas histórias para que entendamos a transmissão. Houve um diálogo e uma luta, e o aluno sentiu que não estava preparado para enfrentar o patriarca, o mestre. Então ele volta, pratica mais 21 dias sem parar, e, seguro da sua capacidade de responder, visto o estado não originado de todas as coisas, ele vai até o mestre e aí lhe diz o que tem que ser dito, com certeza.



Existe uma grande diferença em dizer, “Eu penso que…”, e dizer com certeza absoluta uma coisa. Punyayasas vai até o mestre e diz que ele não é todos os Budas, e o mestre não só ouve as palavras, porque não adianta só repetir essas palavras. Ele vê o discípulo e o reconhece, reconhece sua realização.

N.E.: transcrição de palestra realizada por Monge Genshô Oshô em Florianópolis, novembro/2016. 

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

As Falsas Iluminações




Gostaria de falar sobre o caso da transmissão de Shakyamuni Buda para Mahakashyapa, que historicamente inaugura o Zen.  Mahakashyapa, portanto, foi o primeiro patriarca.

Em certa ocasião, o Venerado por Todo o Mundo - uma maneira de se referir a Buda - levantou uma flor e pestanejou. Surgiu um sorriso no rosto de Mahakashyapa, e então o Venerado disse:

 - Tenho comigo o tesouro do olho do verdadeiro Dharma e a maravilhosa mente do nirvana, e o transmiti a Mahakashyapa.

Em outras versões desta história, Buda levanta a flor, Mahakashyapa sorri e Shakyamuni Buda diz: “Mahakashyapa foi o único que entendeu”. E isto é a certeza de Buda sobre a realização espiritual de Mahakashyapa, a certeza de que Mahakashyapa já havia se iluminado. 

Então, essa questão da transmissão, que é o cerne dessa palestra de hoje, é que a transmissão é um reconhecimento, por parte do mestre, da realização espiritual do aluno. O mestre não dá a transmissão, ou dá a iluminação a um aluno. Não é isto. O aluno tem que trabalhar sozinho, sentado na sua almofada negra. Ele tem que trabalhar, fazer a sua mente como eu descrevi ontem, naqueles passos de samadhi, kenshô e satori, e quando ele atinge alguma compreensão ou tem alguma experiência significativa, ele vai até o mestre e mostra, descreve a sua experiência. E cabe ao mestre chancelar ou não; dizer: “ah, isto é só ilusão”, ou “isso é fisiológico”, ou qualquer coisa assim. 

Uma vez Moriyama Roshi contou-me que estava sentado em zazen no monastério e viu nascer uma flor na frente dele. Nasceu uma flor na frente dele e ele: “estou iluminado”.  Foi até o mestre, na época. Contou para ele a história, e o mestre gritou com ele: “seu idiota! Vá embora daqui com sua ilusão! Volte lá para o seu zafu!”, e o mandou embora, porque era uma fantasia dele; isso não é experiência espiritual. Às vezes, algumas pessoas vêm me contar que viram na parede manchas coloridas, etc. e tal, e eu digo: “cansaço na retina... Você cansou os olhos, e, quando muda o olhar de um lugar para o outro, vê manchas coloridas. Isso não é nada senão os seus olhos cansados; não é coisa alguma.

N.E.: transcrição de palestra realizada por Monge Genshô Oshô em Florianópolis, novembro/2016.