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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Jamais tente impor seu ponto de vista


Monge Genshô: A opção budista é fazer um trabalho para mudar a própria mente, ampliar a visão e mudar o olhar. Um homem uma vez disse para mim: “você é um estratosférico” e eu compreendo que para ele eu seja assim. Nós tivemos essa discussão porque ele matou o gato da vizinha. O gato estava matando os passarinhos do jardim dele e a menina dona do gato o chamou de assassino. Eu lhe disse que o mundo podia ser diferente e que ele não tinha direito de interferir na relação entre o gato e os pássaros e foi nesse momento que ele me chamou disso. O que o budismo propõe é mudar a mente, mas se você quiser mudar a sociedade porque você sabe o que é bom para a sociedade também haverá um problema. Se eu chegasse e dissesse: “ninguém mais pode derrubar floresta e colocar boi, ninguém mais pode comer churrasco e quem fizer essas coisas eu fuzilo”, pronto, eu viro Che Guevara tentando impor minha visão de sociedade boa matando todo mundo que não concorde comigo. Temos que ter cuidado com o pensamento e como ele transcorre. A opção budista é: mudar as mentes, para mudar as pessoas e a sociedade, mas não imporei sobre ninguém, nem sobre nenhuma sociedade, a minha visão. Tenho que olhar para os ignorantes como eu olho para um pássaro que desce e come uma minhoca. Como eu vou dizer para o pássaro não comer minhocas? Não posso, essa é a natureza dele. Eu tenho que olhar para um homem ignorante e fazer o mesmo, não dizer nada, não cabe a mim dizer aos outros como eles devem viver. Isso é delicado e importante. O grande problema é acreditar que você sabe o que é certo e querer que a sociedade se comporte dessa forma.

Aluno: Posso influir?

Monge Genshô:
Você pode influir e fazer o seu discurso moderadamente, mas jamais tente impor, porque todos que tentam impor acabam recorrendo à violência. Já tivemos muito disso. Gente que queima livros, que fuzila, que tortura, etc, porque querem convencer os outros de qualquer jeito. As próprias religiões fazem isso. Se você não concorda, se torna um herege e será queimado na fogueira. Pensam: “podemos não te convencer, mas se isso acontecer você será calado”.(continua)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Metáforas





Joseph Campbell:   "A metade das pessoas do mundo pensa que as metáforas de suas tradições religiosas, por exemplo, são fatos. E a outra metade sustenta que não são, de modo algum, fatos. O resultado é que temos pessoas que se consideram crentes porque aceitam metáforas como fatos, e temos outros indivíduos que se classificam como ateus porque acham que as metáforas religiosas são mentiras. […] Há um perigo real quando as instituições sociais inculcam nas pessoas estruturas mitológicas que não combinam mais com sua experiência humana. Por exemplo, quando se insiste em certas interpretações religiosas ou políticas da vida humana, pode ocorrer uma dissociação mítica. Pela dissociação mítica, pessoas rejeitam ou são apartadas de efetivas noções explicativas a respeito da ordem de suas vidas. […] Como, no período contemporâneo, podemos evocar o imaginário que comunique o mais profundo e mais ricamente desenvolvido sentido de experiência de vida? Essas imagens devem apontar além de si mesmas para aquela verdade definitiva que é imperioso exprimir: que a vida não possui nenhum significado absolutamente fixo. Essas imagens têm de apontar para além de todos os significados dados, além de todas as definições e relações, para aquele mistério realmente inefável que é justamente a existência, o ser de nós mesmos e de nosso mundo. Se atribuímos a esse mistério um significado exato, reduzimos a experiência de sua real profundidade. Mas quando um poeta transporta a mente para um contexto de significados e a arremessa adiante deles, conhece-se o maravilhoso arrebatamento que advém de ir além de todas as categorias de definição." http://monomito.org/2013/11/17/joseph-campbell/

Temos que usar os olhos de Buda

 
Aluno: Nós vivemos em uma sociedade que já possui algumas estruturas estabelecidas. É como se no rio do carma houvessem barreiras que não podemos desviar, quando comemos, por exemplo, por mais que nós tenhamos preferência por comer alimentos de cultivo e não animais, mesmo esses alimentos causam sofrimentos, existem pessoas que morrem, que são exploradas e tudo mais. Não há como fugir disso.

Monge Genshô:
Acontece que a iluminação não é resolver os problemas do mundo. A iluminação é um despertar para ter lucidez, se você vê com clareza como as coisas são, essa mudança de olhar te permite ver sem distinção, ver os erros e tentar melhorar o mundo, mas você não vai conseguir fazer este mundo ser perfeito porque ele já é uma manifestação cármica de imperfeição. Você precisa tirar os seus olhos e colocar os de Buda. O mundo é imperfeito por sua própria condição, os problemas são muito complexos. Se você tirasse a agricultura e dissesse: “vamos viver somente com coleta e vamos causar o menor impacto possível”, tudo bem, mas quantas pessoas iriam conseguir viver dessa forma? Muito poucas. Se fôssemos optar por viver de outra forma neste momento, não seria possível alimentar toda a população da Terra, teríamos que diminuir a população para 2 bilhões. Então o discurso da inconformidade cai no vazio por conta da falta de praticidade. Não é para a humanidade recuar para tempos primitivos, o que falta é desenvolvermos mais e melhores tecnologias que possibilitem diminuir esse impacto de outras formas.

Esses dias que ficamos aqui, nós não comemos carne. 70% do território brasileiro destinado para produção de alimentos tem gado. Agora se você determinar que ninguém mais come carne, então 70% do território pode ser devolvido para a floresta, mas para isso precisamos tomar a decisão e isso parte de dentro. Não há suficiente clareza mental para as pessoas entenderem esse impacto, elas vão dizer que não, que é impossível, que não dá, etc. Embora nós, passo a passo, venhamos melhorando a nossa visão e as nossas condutas, ainda estamos muito longe de um mundo justo e sem maldade.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A desconstrução do eu

 
Pergunta: A prática diária que se faz no mosteiro, além do trabalho, representa uma vantagem dos japoneses com relação a nós? Ter desde sempre influências budistas, como na arte, por exemplo, faz alguma diferença?
Monge Genshô: Existe uma influência importante nas artes, mas isso não substitui a prática do Zen e também não substitui o conhecimento do ensinamento. Eu diria que nossos alunos aqui no Brasil fazem mais meditação e sabem mais sobre o budismo do que os leigos budistas japoneses. Eles estão acostumados com o folclore do budismo e isso ajuda no comportamento. Eles sabem desde pequenos, por exemplo, como se comportar junto ao professor, junto com senpai e eles têm  orgulho de ter um senpai durão. Aqui no Brasil ninguém suporta um professor durão. Quando começa a dureza, o aluno acha que não é mais amado. No Japão a interpretação é outra, é contrária. Se ele é duro é porque ele está investindo em mim e se importa, se ele para de me corrigir é porque ele desistiu de mim e eu não presto, então é melhor eu ir embora. Esse é o raciocínio. Aqui nós queremos ser amados o tempo todo, é por isso que lá ainda, nos monastérios masculinos pelo menos, existem muitos castigos físicos. Se cometeu um erro, o superior logo vem para corrigir e você tem que ouvir de joelhos, não é em posição de seiza, é ajoelhado, dizendo “hai”, sem olhar no rosto, apenas olhando para baixo. O superior pode sair dali e você continua, só sai da posição quando ele voltar e liberar.

Quando eu fui entrar em Sojiji Soin me colocaram de frente para uma porta. Era início de primavera, estava frio e eu com roupas que não protegem bem, calçando sandália de palha e segurando um zafu embaixo do braço. Veio um Monge e perguntou: “por que você veio para cá? Aqui é um mosteiro japonês tradicional”, e eu disse: “ah, porque eu queria um treinamento duro”. Ele me disse: “se você quer um treinamento duro, vou te dar um treinamento duro então!”, e foi embora. Ele me deixou lá. Fiquei com frio, congelando e não podia fazer nada. Fiquei pensando: “que besteira minha, por que fui dizer isso?”, mas não tinha saída. De qualquer jeito eu ficaria de castigo. E vocês veem que eu contando isso agora parece legal, nós rimos, o que é ruim de passar é bom de contar. O que é bom de passar não tem graça. Então o treinamento monástico tem muito disso no Japão, ele te desconsidera, diz que você não é ninguém e te reduz a nada. Mas tudo com o objetivo de apagar esse ego. Não interessa se vim do Brasil, se tenho quase 70 anos, idade não conta e o que eu fazia aqui não interessa lá. Ali sou pessoa nova, não sei de nada, não usei meu manto, usei manto preto porque lá eu era noviço. Então todo o processo é criado com a intenção de destruir tudo que você pensa que é. Você não é o que você pensa. Você é ninguém. Depois disso você é levado para uma sala de espera que possui apenas nove tatames e trazem as refeições para você. Lá não há banho, só tem um sanitário perto e tudo que você tem é confiscado. Nessa sala você fica sem nada para fazer, só uma pessoa vem falar com você, seu instrutor, cada vez que ele abre a porta você faz gasshô. Ele dá textos e refeições, vai embora e novamente você se despede com gasshô. Você fica ali esperando. Cinco dias. É interessante para descobrir o que sente alguém numa cela sem nada para fazer e sem contato com o exterior.

Pergunta: Ficava fazendo zazen?

Monge Genshô:
Sim, você tem o zafu. Esse processo pretende fazer com que se você for desistir, desista naquele momento. Você tem que estar armado de muita motivação para continuar. É inevitável que chegue um momento em que você diz: “eu estou com vontade de desistir” e então o superior pergunta: “como você vai embora? Eu estou com seu passaporte, seus documentos, vai como e para onde?”.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Por que não gosto de ser corrigido?

 
Pergunta: Por que surgem tantas coisas na mente? Por que é tão difícil fazer frutificar bons pensamentos?

Monge Genshô: 
Muito conforto não funciona bem, mas doença atinge a mente, porque quando você está doente a sua mente também adoece junto. Por isso nós temos que cuidar do corpo também, ele é precioso e temos que ser saudáveis.

A humanidade progrediu economicamente, em termos morais, em ética e na verdade o movimento é para melhor, só que nós estamos muito perto de muitos horrores, então não conseguimos enxergar a melhora. Precisamos de um distanciamento histórico para conseguir enxergar. Quando vamos para um país que está melhor que o nosso, sentimos um verdadeiro choque. Eu já trabalhei na Europa, já fiquei em monastério nos Estados Unidos e estive no Japão este ano. O Japão é um choque para nós, porque o simples fato de você estar numa sociedade que não considera insegurança como fator muda tudo. A sociedade fica mais rica. O Japão foi muito influenciado pelo budismo, isso está dentro da arte, dentro de tudo. Quando você pega uma cidade antiga como Kyoto, que tem dois ou três templos por quarteirão, vê isso claramente. O budismo está muito presente na cultura, então ninguém estranha que todas as pessoas sejam chamadas a limpar como nós fazemos aqui no samu. Todos lá fazem isso e foram ensinados nas escolas a fazer também. Nos hospitais os médicos também limpam, as pessoas não ficam paradas, não dizem “esse trabalho é meu e aquele outro não é digno”, não existe a noção de que lixo é um problema da prefeitura, as pessoas é que recolhem seus próprios lixos. No monastério em que nós estávamos, nós incinerávamos nosso próprio lixo. A prefeitura só buscava aquilo que era reciclado.

Há uma palavra muito utilizada no Japão que é motainai, que significa desperdício. Desperdício é algo muito feio. Temos que fazer como fazemos com o oryoki, não pode sobrar nem um grão de arroz. Todo mundo tem que comer tudo porque não se concebe a ideia de que algo vá sobrar. Então você se serve menos, não é uma cultura de abundância, é uma cultura de poupar, de se manter restrito com relação ao que faz, de manter tudo imaculadamente limpo, de todos poderem confiar no resto da sociedade e o resultado é que não existem muros, não existem câmeras de segurança e eu nunca vi a polícia. A nação gasta muito pouco nisso, basta nós vermos as estatísticas, são 130 milhões de habitantes. No Brasil nós temos por volta de 160 assassinatos por dia. No Japão tem por volta de meia dúzia por ano. Teve um ano que eles tiveram 4 assassinatos, no país inteiro, em um ano. Aqui nós contamos o número de outra forma. São 160 por dia. Eles estão vivendo num outro planeta comportamental.

Não estou dizendo que nós não vejamos defeitos na sociedade japonesa. Os defeitos também existem, a pressão social é muito grande, as pessoas se sentem muito cobradas para serem perfeitas e por isso existe um índice de suicídio significativo, não é o maior do mundo, os maiores estão em países do leste europeu, Hungria, Estônia, Rússia e Escandinávia, o Japão está em oitavo lugar, senão me engano.  Brasileiro não se mata facilmente, nem quando está morrendo de vergonha. No Japão é diferente, é uma sociedade da vergonha. Passar vergonha lá é muito feio, então essas pessoas se esforçam muito porque existe uma pressão imensa que faz com que o comportamento social seja muito diferente do nosso.

Seria bom misturar algumas qualidades brasileiras, como calorosidade e relaxamento, com algumas qualidades japonesas. De certa maneira é isso que nós temos aqui, no nosso sesshin. Os comportamentos com relação ao horário, às regras, etc., tudo isso é japonês. Nós somos individualistas demais e isso é bem europeu, americano, sul-americano, nós achamos que o indivíduo é muito importante, mas no Japão não é assim. Lá quem é mais antigo na organização budista, por exemplo, tem autoridade sobre quem é mais novo. Ela entrou dois dias depois de mim no monastério então eu sou senpai e ela é kohai. Eu, toda vida, vou ser superior dela. Se ela estiver fazendo algo errado eu posso corrigi-la e o que ela responde é “hai”, que significa: “sim, obrigado”. Normalmente você diz: “obrigado por se importar comigo”, por gastar seu tempo me ajudando. Essa é uma atitude que ajuda muito no monastério, porque você está sempre nessa posição, sempre tem um grupo de pessoas que é mais antigo que você e estão te ajudando, mas tem também aquelas pessoas que entraram depois de você que são seus kohais e você tem obrigação de chamar a atenção por tudo que fizerem de errado. Não é que eles não tenham orgulho, mas as regras são estas. Então nós também temos que trabalhar isso dentro de nós, por que eu não gosto de ser corrigido? Porque sou vaidoso, orgulhoso, pretensioso, por isso. Se eu fosse humilde eu aceitaria a correção do mais antigo e isso sim seria a prática correta.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Agressores também merecem compaixão

Aluno: Cotidianamente eu lido com crianças que sofrem violências de diferentes formas e isso tem se tornado algo que me causa profundo sofrimento, porque eu me vejo cada vez mais intolerante com quem provoca essas injustiças, mas ao mesmo tempo não quero me afastar disso porque acho que ajudar é importante. Tenho duas perguntas sobre isso, a primeira é como lidar com essa intolerância que cresce dentro de mim? E a segunda é como reconhecer o momento de aceitar e o momento de agir contra?

Monge Genshô:
A segunda pergunta eu não posso responder porque você vai ter que solucionar caso a caso para saber como e em que medida reagir. Nós não estamos no mundo para não reagir, nós temos que agir determinadamente contra a agressão.

Sobre a primeira pergunta: os agressores também merecem compaixão, isso é difícil de ver, mas aqueles que cometem os crimes também têm péssimo carma e vão viver enormes sofrimentos pela frente, eles só não percebem isso ainda. Ele vai nessa vida causar sofrimento e na próxima vai ser vítima, porque vai vir para um mundo que é assim, que tem essas características e ele não pode escapar disso.

Eu conheci uma Mestre budista da África do Sul com quem eu fiz um retiro que incluía  24 horas sem dormir. Era um retiro da escola Son coreana. O pai dela foi assassinado com catorze facadas e ela foi ao julgamento ver os rostos das pessoas que o esfaquearam. Me contando depois, ela disse: “não conseguia ver nada, nenhuma consciência do que faziam”, então ela foi trabalhar na penitenciária para acordar essas pessoas que estão nesse sonho, nesse pesadelo. Eles sequer veem os sofrimentos que causam. Existem mães que batem nos filhos, que maltratam, que estão mergulhadas numa cultura de sofrimento e acham que é assim que as coisas devem ser.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

As falsas citações de Buddha na internet




"Elas estão em todos os lugares que você olha: Twitter, Facebook, blogs, - mesmo em livros  budistas bem conhecidos. Falsas citações de Buda abundam.

Para aqueles que estão familiarizados com as escrituras budistas, estas citações são claramente apócrifas, mas parece que muitas pessoas são preferencialmente atraídas pela variedade falsa.

É difícil às vezes identificar por que soam falso. Geralmente é a língua, que pode ser muito florida e poética. Às vezes é o assunto, que soa muito contemporâneo. A coisa é, que, embora as escrituras budistas sejam vastas (bem maiores do que a Bíblia) muitas vezes não são muito citáveis, ou pelo menos elas não tendem a ter o recurso imediato que a variedade falsa tem.

Uma questão que se coloca, porém, é se há uma coisa como genuínas citações. E num certo sentido não há. As primeiras escrituras que temos foram passadas oralmente por centenas de anos antes de serem escritas. O que foi passado foi, sem dúvida simplificado, editado e mais fácil de memorizar através do canto por ser repetitivo. Daí o tédio entorpecente de grande parte do Cânone Pali. Parte do que foi passado como as palavras do Buda, provavelmente, não eram mesmo suas palavras para começar. Após algumas gerações, não se seria capaz de dizer se uma frase em particular era apenas um pedaço popular de folk-sabedoria, ou algo que o Buda realmente disse.

E depois há escrituras budistas posteriores que definitivamente não tem nada literal da palavra do Buda, embora possam ser de grande profundidade espiritual. Estas escrituras Mahayana são todas citações de Buda indiscutivelmente recriadas por mestres posteriores..

Então, como pode haver tal coisa como uma citação falsa de Buda? Bem, se algo está sendo passado no Facebook que remete a uma fonte que não é Gautama Buda, então isso é uma falsa atribuição óbvia, e definitivamente não é uma genuína citação. Se as origens de um provérbio ainda não pode ser rastreada, mas o idioma e assunto são  distantes das escrituras budistas reconhecidas, então isso é (quase certamente) falso.

Depois, há outra categoria. Alguns tradutores de textos budistas criativamente tornam as palavras do Buda uma melhorada versão que expressa seus pontos de vista da espiritualidade, mas estão tão longe do significado original que eles são essencialmente falsos ."   ( Tradução livre de monge Genshô de texto do site http://www.allpathsdivinityschool.org/fake-buddha-quotes/ )

Relação Mestre-discípulo

Aluno: Eu tenho curiosidade de saber como se dá a dinâmica entre o professor e o aluno do Zen?
Monge Genshô:
No primeiro estágio não tem essa relação de professor e aluno, quando fazemos dokusan é um amigo que se senta na minha frente e que compartilha experiências. Tornar-se aluno é quando você adota a seguinte postura: “ele é meu professor e eu estou aqui para aprender, se ele disse algo que não concordo vou pensar que eu estou errado até eu entender, mesmo que levem anos”. Formalmente, no nosso caso aqui, é quando você faz o rakusu, assim como a Rachel. Já que ela é minha aluna, ela me escreve como tal, me trata como senhor e a atitude é diferente. O professor também cuida do aluno como se fosse um filho.

Tem um outro nível mais alto que é quando você recebe a transmissão do seu Mestre e então você é reconhecido pelo seu Mestre como uma pessoa que tem a mente dele. A cerimônia dura sete dias e tem uma ocasião em que ele diz exatamente isso: “você tem a minha mente” e isso vem desde Buda. Alguns Mestres tiveram só um discípulo, ou seja, transmitiram para apenas uma pessoa, assim como há Mestres que não transmitiram para nenhum aluno e nesse caso a linhagem desaparece. Saikawa Roshi é Monge há mais de 40 anos e transmitiu para seis Monges. Mas mesmo que você seja Monge e tenha se graduado para receber a transmissão, você só a receberá se o Mestre decidir passar essa herança para você, como se transferisse o Dharma.

Quando eu estava no Japão, Saikawa Roshi me instruiu os lugares que eu deveria ir, como eu deveria fazer as cerimônias e depois me disse que eu deveria fazer uma doação de 50 mil ienes em cada templo. Eu disse: “não tenho esse dinheiro, não me preveni para isso” e no dia seguinte recebi pelo correio um envelope com 150 mil ienes e mais instruções. É assim que o Mestre age. Você recebe tanta coisa que fica difícil retribuir. Você é o continuador da obra dele, dessa forma é como se vocês aqui fossem os netos de Saikawa Roshi.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Como desligar os impulsos negativos?


Aluno: A necessidade de mudança só se tornou consciente em mim há pouco tempo, quando algo acontece e eu percebo que poderia estar reagindo de uma forma diferente. Mas mesmo percebendo isso, ainda existe um primeiro impulso negativo que não é consciente. Como eu faço para desligar esses impulsos negativos?
Monge Genshô:
Todos esses impulsos reforçam os sentimentos que surgiram, sejam eles bons ou ruins. Eu fico irritado, então manifesto a minha irritação e nesse momento ela se reforça. Uma vez eu estava sentado num banco de avião muitos anos atrás e nunca gostei de gente que bate na minha poltrona. Eu estava sentado e um homem começou a batucar na mesinha que era ligada à minha poltrona. Na época eu não era Monge Zen e sim praticante de karatê, então me levantei disse: “você sabe que está batendo na minha cadeira e que quando bate na minha cadeira bate em mim?”, o homem me pediu desculpas e bateu logo em seguida. Foi sem querer, eu entendi. Ele estava tão condicionado que não percebeu e logo depois parou. Agora recentemente eu me sentei novamente numa poltrona de avião e a pessoa de trás colocou os joelhos nas costas da minha cadeira e eu pensei “como posso tratar essa situação?”, então me lembrei que meu genro tem uma cadeira que faz massagem, fechei os olhos e pensei que na realidade eu tinha um massagista gratuito na poltrona de trás, me acomodei bem e deixei. Ele foi massageando e eu usufruí. Então qual a diferença? A diferença é todinha no mecanismo da sua cabeça que é capaz de transformar aquilo que era ruim em bom.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A mudança exige esforço


Aluno: Tenho uma dúvida sobre a prática. Por mais que eu pratique e consiga ter insights é muito difícil promover mudanças na minha vida.
Monge Genshô:
Essa é a dificuldade de todo mundo. Nós comparamos o carma com um rio correndo e no centro a correnteza é mais forte. Se você está num barco no centro do rio, a correnteza vai arrastar você e na maior parte do tempo você não vai conseguir fazer nada. Você precisa esperar um momento mais calmo para tentar desesperadamente sair da correnteza. Nesse momento você tem que se esforçar para mudar a direção na qual você já está embarcado, tão bem embarcado que nasceu aqui com esse corpo, esses desejos, esses impulsos, nessa cultura, tudo isso aconteceu porque já tem carma para isso. Escapar disso é interessante, porque todo mundo quer continuar com seu eu e não quer morrer nunca. Quer ressuscitar, ir para o paraíso, enfim, quer permanecer. No budismo não é esse o objetivo, na realidade essa repetição de estar aqui, nesse tipo de vida, é a prisão. Repetir a mesma vida como castigo é a prisão. Acaba esse a começa outra igual. A repetição desse igual é um castigo incrivelmente pesado.

Tem um filme chamado “Feitiço do tempo” e nele o personagem repete o mesmo dia. Todos os dias que ele acorda e está tudo igual, o mesmo despertador, a mesma cidadezinha onde ele se hospedou, as pessoas o cumprimenta do mesmo jeito e todo o resto. Primeiro ele acha ótimo, depois começa a fazer coisas para aproveitar a situação, repetindo dia após dia ele aprende sobre uma mulher e a tenta conquistar 20 vezes diferentes, corrigindo cada erro até obter sucesso. Depois ele se desilude com aquelas repetições constantes e tenta se matar, mas então toca a campainha e amanhece novamente no mesmo dia. Até que ele desiste e vai indo. Na realidade essa é uma metáfora das nossas vidas, repetindo o tempo todo, a diferença é que ele se lembra e vocês não lembram. Como ele lembra, ele busca a saída daquela situação e só encontra a saída quando muda sua forma de ser, quando muda como pessoa. O filme é uma metáfora do que é se manifestar novamente.

Nesse mesmo filme ele começa a se dedicar a alguns projetos. Procura uma professora de piano e começa a ter aulas, no fim do filme ele é um grande pianista, mas o processo de aprendizado é longo e trabalhoso, assim como o processo de mudança da vida. Você precisa reforçar os pontos bons e enfraquecer os negativos. Existem mil estratégias, eu acabei de falar sobre como você ocupa seu tempo, mas temos mil outras mudanças possíveis. Como comer, por exemplo? Você não precisa comer tanto, pode comer mais devagar, não precisa desperdiçar, pode entender aquela comida como remédio para continuar a praticar, sem avidez, sem ganância, tentando respeitar cada coisa, até a água com a qual você lavou sua tigela. Imagine que se todo mundo se alimentasse com oryoki não precisaríamos de detergente e não existiriam rios com espumas. Pensem.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Novos Rakusus


Estes são os novos alunos do Monge Genshô, que após alguns anos de prática efetiva nas Sanghas, receberam autorização para costurarem seus rakusus e fizeram os votos formais na linhagem de Buda.

1ª Cerimônia de Jukai celebrada pelo Monge Genshô. 

Florianópolis, fevereiro de 2016.

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Paulo Go Dō - Senda da iluminação
Lucas Jun Dō - Senda da Obediência
Camilla Shō Dō - Senda da Aquiescência
Valéria Tai Dō - Senda da Persistência
César Riki Dō - Senda da Força

Devemos nos direcionar para o que é bom



Aluno: O senhor estava falando para a gente tomar cuidado com o que come e eu quero saber se isso vale também para outras coisas, como a televisão. É certo a pessoa se abster de ver televisão, já que a mídia publica tanta coisa ruim? Assim como procurar conviver com pessoas que transmitem algo melhor.
Monge Genshô:
Sim, é certo, mas tenho várias considerações a respeito. Eu fui diretor do Zero Hora na época em que ele era o quarto maior jornal do País e conheço a mídia por dentro. Muitas vezes vejo essa consideração a respeito de como a mídia trabalha, mas a verdade é que a mídia vive de audiência. Se tem notícia de violência é porque as pessoas adoram ver isso. Se você fizer um jornal e colocar: “grupo de 30 pessoas se reúnem para meditar” será uma notícia sem audiência, só ganharia atenção pela estranheza. Então se todas as pessoas desligassem a televisão quando vissem notícia de violência, essas notícias desapareceriam em 24 horas de todos os canais. O que ocorre é que estão sempre medindo o que as pessoas mais assistem, não adianta criar um programa que fale de outros esportes se todos querem ver sobre futebol, não adianta colocar um concerto de Brahms se todos vão mudar de canal. Mas se você quiser ver isso poderá pagar um canal específico e assistir. Hoje existem coisas maravilhosas disponíveis na televisão, só que é necessário pagar por isso. Semana passada eu assisti um documentário de três horas sobre o barroco europeu, mas tive que pagar para assistir porque essa é a demanda. Vi pelo Philos, um canal que tem como lema “penso, logo assisto”. Lá acho aulas, concertos, documentários, coisas ótimas, mas que não estão na televisão aberta. A televisão aberta se formou justamente colocando no ar o que atrai a maioria e isso não é de nível alto. Se você chega em outro país, no Japão mesmo, e liga a televisão aberta vai ver grandes porcarias, talvez até piores do que as que vemos aqui. Isso significa que há uma massa de povo inculto que procura o que é escandaloso, esse problema é bem antigo.

O sangue, a violência e o crime atraem o público por um fenômeno cerebral, as pessoas se sentem atraídas pelo que é assim porque apela ao perigo e existe uma parte do cérebro programada para prestar atenção no que é perigo. Usamos isso também quando colocamos o jisha sempre à frente do professor, porque se vier um tigre o jisha é comido e o professor se salva.

Mas, indo para a segunda parte da sua pergunta, o que nós devemos fazer é sermos cuidadosos e nos direcionarmos para o que é bom. Se você assistir algo traumático, isso fica na sua mente com muito mais força do que se você assistir algo belo. Nosso cérebro funciona assim. É por isso que a televisão chama a atenção das pessoas justamente com o que é ruim. Não é culpa da mídia, ela reflete a sociedade e se a sociedade muda, então a mídia muda. Por isso eu faço propaganda desse canal para que as pessoas vejam e ele sobreviva. Há um outro também chamado Arte 1. Então selecionem, tomem a decisão de procurar e isso vale para revistas, leituras e tudo mais na vida. Em algumas situações nós não podemos fazer isso, eu, por exemplo, trabalho como consultor então tenho que ler certas coisas. Se chego numa empresa e me perguntam sobre algum fato, eu preciso estar informado para responder. Mas isso não significa que vou ligar a televisão e vou me comprazer com os crimes mais horrorosos, eu não preciso fazer isso, já sei que eles existem, mais importante que ver é saber as estatísticas de como está a criminalidade, saber se ela cresceu, onde e por que diminuiu, se é possível mudar a mente de um presidiário, etc. Nós temos uma líder zen budista fazendo um trabalho assim numa penitenciária de Joinville e esse é um exemplo de trabalho que pode mudar o mundo. Se você direcionar a mente para um outro sentido poderá mudar o mundo.

O budismo já existe há 2600 anos e tem pouca gente ainda. Sempre que houve conflitos ele saiu perdendo. Infelizmente a invasão muçulmana na Índia contribuiu para destruir o budismo lá. A Universidade de Nalanda, na época era a mais antiga universidade do mundo, muito anterior às universidades europeias, foi destruída, com dez mil alunos, só sobrou os alicerces e havia uma preferência inclusive de matar as Monjas, porque achavam absurdo os budistas terem dado às mulheres autoridade religiosa. A linhagem feminina desapareceu no século XIII e por isso as mulheres são ordenadas hoje na linhagem masculina em muitos lugares. Na China o budismo também foi perseguido e destruído, renasceu das cinzas, mas foi destruído principalmente porque ele era ruim para o império. Havia uma acusação de que os homens, para fugir de serem soldados, iam para os mosteiros. No Japão, no século XIX, houve uma campanha contra o budismo. Para que o imperador fosse considerado Deus, assim como acredita o xintoísmo, o budismo precisava ser eliminado. A campanha feita em 1872 influiu até na minha vida, porque foi quando o imperador assinou uma lei permitindo que os Monges casassem para que assim o budismo fosse desmoralizado e perdesse o prestígio. Essa estratégia não deu certo e inclusive facilitou ter mais Monges, porque pessoas casadas também se tornaram Monjas e Monges. Apenas no budismo japonês os Monges casam. Mas é importante saber que isso foi uma tentativa de destruir o budismo, porque ele era pacifista e o império queria guerras. O Japão fez guerras horríveis nessa época e hoje escondem, diferente dos alemães que têm museus e ensinam toda a história para as crianças para que elas não cometam o mesmo erro. No Japão não há um único museu das atrocidades cometidas.

Infelizmente isso em parte aconteceu porque o budismo foi reprimido. Mas o que eu quero dizer é que pelo budismo nunca reagir, muitas vezes ele acaba desaparecendo. É o que aconteceu no Tibete, por exemplo, mas foi por isso que o budismo tibetano se espalhou pelo mundo. Hoje a maioria dos moradores do Tibete é chinesa, a etnia tibetana se tornou minoritária no próprio país. Seis mil templos e monastérios existiam, hoje existem apenas oito. Todos os outros foram incendiados.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Não dualidade


Aluno: A ênfase do mahayana é qual?
Monge Genshô: A ênfase do mahayana é a não dualidade. Todas as grandes escolas budistas têm esses três estágios, em um patamar ou em outro. O Zen enfatiza muito a não dualidade, porque os Mestres acabam falando nela, só que muitos alunos querem pensar na não dualidade sem pensar sequer na virtude. Por exemplo, dizer que não precisa limpar o prato porque afinal de contas eu e a pessoa que vai limpar somos um. Alguns praticantes do Zen começam a usar esses truques, nós dizemos: “não faça isso ou aquilo” e eles dizem: “não tem certo nem errado, está tudo ok” e então embaralham as coisas, porque na verdade nem passaram pelo primeiro estágio e usam a teoria do terceiro para justificar os seus egoísmos, por isso falo pouco na não dualidade. Isso não é muito útil ainda, é necessário chegar num nível bem mais alto para chegar nesse assunto.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

As três formas de caminho


Aluno: É certo dizer que o vazio é amor?
Monge Genshô: Não está certo dizer que “o vazio é”, porque isso seria dar a ele uma realidade. Amor é um sentimento que, mesmo que seja uma forma muito elevada, ainda inclui eu aqui e o outro lá. “Eu amo você”, eu estou aqui e você está lá. Isso ainda é dualidade, assim como se compadecer. Tem três formas de caminho: o primeiro é o da virtude, que vemos frequentemente nas religiões e no budismo também. Os preceitos têm essa forma de virtude e são caminhos virtuosos, se você os segue sofre menos. O segundo é o estágio de bodhicitta, estágio da compaixão, quando você se compadece, mas ainda neste estágio há a separação. Nesse segundo estágio você não precisa dos preceitos, porque aquele que se compadece já não pode matar e já não pode enganar, isso tudo já não está na natureza dele, então você já pode ignorar o caminho da virtude e ficar com o caminho da compaixão. Mas o caminho da compaixão está cheio de dualidade também. O terceiro estágio é o da não dualidade. Nesse estágio não existe mais eu. Eu e todos os outros seres somos um. Se é assim, não se trata mais de compaixão, na realidade a dor dele é a minha dor, eu a sinto em mim, a felicidade dele é a minha felicidade, eu a sinto em mim. Se prestarem atenção todos que conhecemos na sangha estão no primeiro estágio. Dizemos: “não faça isso assim”, “não deixe lixo no chão”, “limpe seu prato para não dar trabalho a outro” e etc. Estamos sempre chamando a atenção para as questões da virtude. Tem-se esperança de que a pessoa chegue pelo menos no segundo estágio, mas o terceiro é a iluminação, é esquecer de si mesmo e se tornar uno com todos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Não se pode reificar o Vazio



Aluno: Eu percebo que muita gente confunde o vazio do eu com insubstancialidade.
Monge Genshô:
Boa pergunta. Este termo “vazio” não é bom, mas nós não achamos nada para traduzir do japonês. Quando a gente lê o Sutra do Coração tem lá: “forma é vazio e vazio é forma”, esse vazio não significa não existência e também não significa um algo. Você não pode reificar o vazio, ou seja, dar a ele uma realidade. O que o Sutra do Coração diz é que o vazio se manifesta como forma e a forma nada mais é do que o vazio, mas o vazio nada mais é do que a forma. Todos nós aqui somos manifestações cármicas do vazio, o vazio permite que isso exista, mas ele não é algo.

Uma analogia para exemplificar. Nós olhamos o mar e vemos todas as ondas. Quando você olha o mar, você está vendo nada mais do que ondas, agora imaginem que nós pegamos uma lâmina e cortamos toda a superfície do mar para tirar toda essa manifestação de onda, de modo que seja possível ver o mar real. Tiro todas as ondas, a espuma, a agitação e imediatamente a superfície que resta se ondula e se agita. Quando você vê de novo: é forma. Por mais que você corte a forma para tentar ver o vazio embaixo, a única coisa que pode aparecer é a forma. Toda forma nada mais é que agitação no vazio. O vazio é forma e a forma é vazio.

Isso me lembra a primeira estrofe de um poema do Gonçalves Dias chamado “A tempestade”. Ele começa assim: “um raio/ fulgura/ no espaço/ esparso/ de luz/ e trêmulo/ e puro/ se aviva/ se esquiva/ rutila/ seduz”. É isso que a forma faz: surge, seduz, rutila e se agita. Depois o poema continua com versos de mais sílabas e vai indo até versos de doze silabas, até que reduz de novo para estrofes cada vez menores e termina com versos de duas sílabas. É uma obra-prima e é toda sobre a forma. A forma surge e desaparece, mas o que resta? Nada, só a base na qual ela se manifesta. Esse ensinamento é bastante difícil.

O Sutra do Coração no início diz que o Bodhisattva meditava profundamente e então viu claramente o vazio dos cinco agregados. Nesse momento ele viu que todas as coisas na verdade são vazias e o Sutra continua com: “óh, Shariputra, forma é vazio e vazio é forma, forma nada mais é que vazio e vazio nada mais é que forma”. Quando compreende isso, o Bodhisattva livra-se instantaneamente de toda dor e sofrimento, mas para ver isso com imensa clareza você precisaria entender que é manifestação da forma e seus filhos também. Todos são temporários. Surgem e desaparecem. Não existe início e nem cessação. Não existe olho, ouvido, nariz, mente, etc.

O ensinamento do Sutra do Coração sintetiza os ensinamentos de 600 Sutras chamados Sutras Prajna Paramita, ou Sutras da compreensão da outra margem. Essa é uma ideia de que existe um rio da ignorância e você está nessa margem. Quando consegue atravessar, chega na margem da sabedoria. Você usa o budismo para atravessar o rio, o budismo é então um barco e quando você chega na outra margem pode abandoná-lo, porque ele era só um veículo. O que acontece com o Bodhisattva é que quando ele chega do outro lado, olha para trás e vê na margem da ignorância muitos seres em sofrimento, então volta e vem buscar os outros. Ele não desiste e fica atravessando inúmeras vezes para levar pessoas para a outra margem, agindo com compaixão. Por isso no fim da noite nós recitamos os votos do Bodhisattva e o primeiro deles é: os seres são inumeráveis e eu faço voto de libertá-los todos. Libertá-los do quê? Do sofrimento. Eu faço o voto e ele é impossível, eu nunca vou parar de atravessar o rio, porque os seres são inumeráveis. Esse é o sentido de vazio e forma; o sentido de ignorância e sabedoria; isso é que é o budismo: um veículo. Existem muitos veículos possíveis para atravessar um rio, não há um que seja melhor. Pode ser que o Zen seja melhor para você, mas não é necessariamente melhor para as outras pessoas, por isso não dizemos que temos a verdade ou que temos o melhor caminho. Isso seria tolice. Seria mais uma forma de vaidade.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ligação e apego entre pais e filhos


Aluno: Sensei, eu sinto momentos de muita angústia pensando nos meus filhos (durante o sesshin). Existe solução para o apego entre pais e filhos?
Monge Genshô:
Nós seres humanos queremos nos conectar com a eternidade e a nossa compreensão é que os filhos fazem essa ligação. No fundo o apego com os filhos vem de um amor ao eu. A ideia é: “eu quero permanecer, mas eu sei que este corpo vai morrer, então eu olho para o filho como minha ligação com a eternidade”. Disso surge uma diferença importante entre homens e mulheres. Através do tempo eu tenho notado que os homens são mais angustiados e as mulheres menos, porque por uma condição biológica as mulheres se sentem mais ligadas à vida. Na verdade, biologicamente acontece o contrário das lendas, não é a mulher que saiu da costela de Adão, nós homens é que viemos depois, porque a separação dos sexos acontece depois na biologia. Primeiro há um ser único e depois ocorre a separação para ter um ser que faça a fecundação, ou seja, um macho, mas ele sai da fêmea, então é ela quem representa a espécie. Além disso, como o filho nasce da fêmea, ela o sente como dela. O homem não sabe, ele foi informado, alguém diz “esse filho é seu” e você acredita. Então a realização do filho no homem é intelectual e na mulher é física. Vemos homens desesperados querendo escrever sinfonias, livros e realizar grandes obras porque tentam se eternizar de alguma forma, na verdade essa busca vem do medo do desaparecimento. As mulheres não sentem tanto isso, mesmo quando não têm filhos elas ainda se sentem mais ligadas à vida pela sua natureza.

Esse esforço dos homens explica de certa forma a angústia criadora, que também é medo do desaparecimento. Então essa ligação com os filhos é a manifestação do nosso desejo de permanência, por isso às vezes é tão difícil abrir as mãos e deixar os filhos seguirem seus próprios caminhos. Muitas vezes os pais querem que os filhos sejam aquilo que eles são e isso é um grave erro. Só uma ampliação de consciência pode aliviar esse tipo de angústia. Se você se ilumina e desperta das desilusões do eu isso também desaparece. Mas por outro lado que bom que existe amor, que existe sexo, que existem filhos, porque são partes integrantes da vida. Se você perguntasse qual é o sentido da vida eu responderia que é justamente viver. E viver também é sofrer, se você dedica amor, tem que aceitar a perda, você só precisa se dar conta de que o preço é o sofrimento. É natural que existam as preocupações e os medos, mas tudo isso é o preço que se paga. Tem alguma maneira de viver sem isso? Não. Nós temos sangha e na medida em que você conhece, conversa e entrevista as pessoas, também vai criando amor por elas. De repente um fica doente, outro sofre uma tragédia e tudo isso vem para você também, mas esse é o preço. Se você não quiser nenhum sofrimento tem que se isolar numa montanha e não ter relação com nada.

Existe uma anedota Zen em que um Monge estava numa montanha e sentiu que estava iluminado. Então ele resolveu descer até a cidade e entrou no mercado. Nesse momento alguém pisou no pé dele, ele sentiu raiva e percebeu que a sua iluminação era pura ilusão. Então só é possível dentro da turbulência da vida você acordar. O que você prefere: ter amor e sofrimento ou não ter amor nenhum? É isso.