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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Sem Distinção




Como nós estamos num treinamento Zen, eu aconselho meus alunos: não façam coisas para se distinguirem dos outros, nós tentamos praticar assim, vestindo cores sóbrias para participar dos retiros, para sentirmos essa noção de 'não quero ser diferente', distinguido, melhor, mais bem vestido, não quero ser especial por aquilo que eu coloquei sobre o meu corpo. No sesshin, não usamos joias, não usamos nada para nos distinguir. Eu digo para os meus alunos: “você tem uma tatuagem?” e respondem “tenho”. Se quer ser meu aluno, não faça mais nenhuma, porque elas são uma maneira fácil de querer mudar algo em si para que você se torne diferente dos outros, e esse não é o objetivo do treinamento espiritual. Pode ser uma linda tatuagem, mas a quem deveríamos cumprimentar? O tatuador, não o tatuado. Porque ele que desenvolveu a técnica ou a arte para fazer aquilo. O tatuado só pagou.


Se você quer se aperfeiçoar, aprenda a tocar um instrumento, aprenda a pintar, aprenda algo interno, desenvolva algo interno seu, não tente ser melhor por algo sem mérito. Não estou dizendo que uma operação plástica está errada. Se houver uma necessidade qualquer, se for por motivos de saúde, está certo é legítimo. Isso não é uma coisa vedada. Mas se você envelhece, envelheça. Envelheça com dignidade, não tente se esticar, porque você vai negar o verdadeiro fluxo da vida. Integre-se ao fluxo da vida. 

[Trecho extraído de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Esquecer-se de Si Mesmo




A iluminação é possível agora, e nela não há nenhuma sensação de sofrimento. Contudo, enquanto você ambicionar continuidades, haverá angústia e sofrimento, haverá ambições, coisas que você quer agregar a si mesmo. Isso acontece até para os santos. Os santos são uma maravilhosa tradição espiritual, tão perdida às vezes, porque só olhamos as crenças e não vemos a grande tradição por trás, porque não lemos sobre ela, mas existe uma grande e profunda tradição. Mas mesmo assim, essa tradição tem como seu mais alto objetivo a formação de um indivíduo que é santo, que é puro, que deixou Deus se manifestar dentro dele, que abdicou de si mesmo para ser ele mesmo o habitáculo divino. Nesta imagem ainda restou individualidade, então o santo sofre, pois deseja sua pureza para ser o habitáculo correto da divindade. Ele obtém um grau de espiritualidade muito alto, sem dúvida, mas esse não é o objetivo do Zen. O Zen não quer fazer santos, não quer fazer pessoas que lutam constantemente para esmagar a si mesmos e suas paixões, seus desejos, que veem a continuidade da existência como indivíduo, ainda separado, como um objetivo. Só aquele que esqueceu de si mesmo e tornou-se ele próprio uno com a divindade fica próximo do objetivo do Zen.

[Trecho extraído de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O Sentido de sua Existência




Se alguém perguntar: para o Zen, qual é o sentido da minha existência? A resposta é: não há nenhum sentido na sua existência, a sua existência é um engano. Você quer dar um sentido para a sua existência, mas não há sentido. O grande sentido é um todo universal que não nasce e nem morre. Esse "você" que nasce e morre é um fenômeno ilusório, é uma manifestação do universo com tanto sentido quanto as formigas, as abelhas ou a grama que nasce no solo. Daí vem você e corta a grama, empilha e faz dela húmus, e acharia um absurdo se a gente perguntasse: qual é o sentido da vida de uma folha de grama? Mas nós não somos muito diferentes de uma folha, nossa importância para o universo é idêntica a dessa folha. Ela nasce, morre, se desfaz, vira adubo, nasce mais, está num grande fluxo universal de movimento, e nós também fazemos parte desse grande fluxo de movimento, mas começamos a nos dar importância como indivíduos, e por isso geramos sofrimento. Por isso geramos uma crença em nós mesmos, que é o oposto da iluminação.




A iluminação é o oposto dessa noção de que eu tenho sentido e um valor especial ou uma missão para realizar nesta vida e nesta Terra. Tudo isso que todos tanto acreditam, que querem viver e deixar uma marca especial de suas vidas na Terra, é pura ilusão. Quem deixa marcas importantes ao longo do tempo? Ao longo do tempo todos seremos esquecidos, civilizações inteiras serão esquecidas. As civilizações que não deixaram livros foram esquecidas; as que deixaram são relativamente recentes, mas dado tempo suficiente também serão esquecidas. 

[Trecho extraído de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]