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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Espíritos Famintos



Espíritos famintos são os seres insaciáveis, que por mais que você dê, eles nunca estão satisfeitos. Existem pessoas assim, que têm essa característica que por mais que ganhem, por exemplo, dinheiro, elas precisam de mais; ou alguém que rouba, mas precisa roubar mais, roubar mais, e quando você vê, ele roubou uma quantidade inimaginável de dinheiro que não poderia gastar nem na vida toda, mas ele não parou, ele continuou. Esse é um espírito faminto. Eles também são representados figurativa e pictoricamente no budismo como seres com grandes corpos e gargantas muito finas, ou seja, os corpos demandam muito, mas a garganta não permite a ele engolir tudo o que quer - sua ambição é desenfreada, infinita. 

Este é um dos planos de existência inferiores ao plano humano na cosmogonia budista, porque Buda também falou em outros planos de existência mais elevados do que este aqui onde nós estamos, inclusive planos de existência de puras consciências sem forma - reinos, normalmente chamamos isso de reinos -. Não é um artigo de fé, mas é bastante citado na literatura budista.

Quando nós dizemos "partilhamos isto com os espíritos famintos, porque eles são insaciáveis", e nós pegamos aquela oferta de arroz da refeição, levamos para o jardim e deixamos os pássaros e os outros animais comerem, o significado na prática do oryoki é servir-se mas não guardar tudo para si mesmo. É partilhar algo ainda com outros seres.

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada por Meihô Genshô Oshô] 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Diferença entre Aluno e Discípulo




Aluno é uma posição: você está aqui ouvindo uma aula, então você é aluno. Você se dispôs a ouvir, mas dentro de você existe crítica, existe reação e tudo o mais. Ser um discípulo é diferente, porque você tem que passar um bom tempo observando seu professor para ser capaz de aceitá-lo, integralmente, e dizer assim: “eu vou aceitar”, e se eu não entender alguma coisa, simplesmente vou colocar em reserva, porque para o discípulo o mestre diz: “essa parede, ( que é de alvenaria), isto aqui é madeira”, e o discípulo diz: “Hai, sim senhor, é madeira” - e de agora em diante é madeira, alvenaria é madeira. Eu vou pensar sobre o assunto dois anos, três anos, cinco anos, dez anos, para entender o que ele quis me dizer. 

Então o discípulo tem que ter três atitudes: obediente, não resistente e silente. Então ele cala a boca, ele não dá instruções para outras pessoas quando o mestre está presente. Por exemplo, ele evita parecer que sabe, ele não fica dando suas opiniões: “eu acho isso”, “eu penso aquilo” e etc. e tal, “o senhor está errado naquilo outro” - o discípulo não faz isso. Ele fica silente, e não é que a sua opinião não esteja possivelmente certa, é que isso é expressão de vaidade, ego, orgulho... ter orgulho da sua própria opinião. Tem até um nome próprio em sânscrito para esse defeito: chama-se ditti - o desejo de impor sua opinião. 

O discípulo é obediente, pois o mestre diz: “você vai praticar assim”. Ele não entende, mas vai lá e faz. Se o aluno diz: “eu não gosto de prostrações, acho absurdo a gente ficar fazendo prostrações”, o mestre lhe fala: "bem, agora eu vou lhe dar uma prática: você tem que ir todos os dias fazer 30 prostrações na frente da estátua de Buda", e vai embora. E o aluno, todos os dias, obedientemente, vai lá e faz 30 prostrações na frente da estátua de Buda, até ele perder toda a resistência às prostrações, e descobrir que elas eram remédio para o seu orgulho, que ele não fazia isso porque tinha dificuldade, ou porque estava olhando a estátua de Buda como se fosse Buda,  o que não é.

Ser não resistente é quando você diz uma coisa para o discípulo, e ele não faz nenhuma expressão facial, ele não diz “mas”, ele não argumenta nada, ele simplesmente faz. Essas são as qualidades do discípulo: silente, obediente, não resistente.


Por isso eu sempre digo que alunos eu tenho muitos, mas discípulos são muito raros. É natural. É natural que seja assim. Uma vez eu estava com uma dificuldade financeira quando Saikawa Roshi ligou de São Paulo e disse: “você tem que vir aqui ficar uma semana no templo Busshinji”. Eu falei para minha esposa: “olha, ele me chamou”, e ela disse: “mas nós não temos dinheiro para passagem”. “Bem… nem que eu vá à pé, de carona... eu tenho que ir porque ele me chamou”. É claro que apareceu uma solução qualquer lá, eu consegui ir sem precisar ficar na estrada pedindo carona para os caminhoneiros. É assim que tem que se comportar o discípulo.

[N.E.: trecho de transcrição da palestra realizada por Meihô Genshô Oshô, em novembro de 2016.]