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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Os Dogmas e os Erros



Quando se critica textos de outras tradições, temos que lembrar que os textos budistas também são assim, a única diferença é que ninguém diz que está certo porque é a palavra de Deus e quem disser alguma coisa contra a gente queima na fogueira. Isto é que salva o budismo, porque a confiabilidade dos textos é tão frágil num lugar quanto no outro.
 Por isso o Zen apareceu como um movimento que considerava poucos textos e enfatizava uma outra coisa, que tem outro perigo: o Mestre. A transmissão tem que ser de Mestre para discípulo, de coração para coração, de mente para mente, e teoricamente isso garante a pureza do ensinamento. Contudo, podemos deduzir que não garante, porque, por exemplo, eu digo isso aqui e daqui há 200 anos alguém vai dizer: “Monge Genshô que falou, e se ele que falou isso, então é a verdade" - e pronto, alguma coisa já estará distorcida. Compreendem? Há o endeusamento das pessoas, o culto à personalidade. Os erros perduram através do tempo, e eventualmente você tem um aluno que distorce o que você diz. O Zen é um ensinamento baseado na experiência, e não no texto. O mestre é um guia para a sua experiência. É isto.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Entrevista: O Zen e o Engajamento Social




5) O Dharma, desde sua origem até os dias atuais, foi se adaptando às necessidades de cada época e cada país. Ações sociais deveriam ser mais incentivadas na sangha brasileira, visto que somos de um país com problemas sociais tão complexos? Nós, praticantes brasileiros, temos uma responsabilidade ainda maior com o compromisso social em comparação com praticantes de países mais desenvolvidos?

Cada grupo de praticantes e cada pessoa escolhe sua atividade inspirada pelos ensinamentos nas Sanghas. Não é preciso um programa de incentivo. Desde que no momento em que alguém começa a descartar seu eu autocentrado, volta-se naturalmente para os outros, aqui e em qualquer lugar do mundo. Quando alguém vem sugerir um programa na Sangha, sempre respondo: - "Excelente! Você, que tem esta ideia e motivação, pode começar este projeto, nós o apoiaremos! “  Infelizmente os que trazem estas idéias na maioria dos casos desaparecem assim que a perspectiva de trabalhar surge.
Os que realizam fazem sem vir sugerir que outros o façam.

Uma coisa importante que precisamos evitar é que as Sanghas, ou as instituições budistas, sejam cooptadas pelos que desejam instrumentalizar o budismo para defender objetivos ideológicos ou de fundo partidário. Este tipo de tentativa, vez por outra ressurgente por tendências extremistas de qualquer cor, tende a criar debates, facções e cisão nas comunidades budistas. O objetivo essencial de despertar não pode ser abandonado em favor de ideologias transitórias: é o ensinamento de Buda, este permanente, que precisa ser preservado.


[Entrevista concedida à Revista Bodisatva, nº 30, por Genshô Sensei]