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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A Compreensão Verdadeira




A melhor definição para mim do budismo não é que o budismo seja uma forma de filosofia, ou religião, mas um pragmatismo dialético de métodos psicológicos, que é a definição de Edward Conze. Nós discutimos de forma prática e temos métodos psicológicos para chegar a determinado fim, ou estados mentais de maior clareza e lucidez. É isso que nós estamos pretendendo, mas nós estamos dando um salto por cima da proposta da linguagem para alcançar uma percepção da realidade.

A percepção da realidade do mar, que era o nosso exemplo, é levar uma pessoa até a frente do mar, mandá-la abrir os olhos e dizer assim “você vê, veja! O que você acha?”, “é lindo”, “está bem, então agora você sabe o que é mar”. É isto. Não é a palavra “mar”, essa palavra é só um intermediário que cria uma distância entre a minha percepção e a dele, mas nós dois olhando o mar podemos ter uma sensação que nos aproxima, mas ela não é o fim da compreensão. Então a verdadeira compreensão é um salto por cima de toda a forma expressa. Talvez a melhor expressão sobre isso seja a anedota: você conta uma anedota e as pessoas riem, se alguém não entende e você explica não há mais riso, porque a explicação, mesmo que dê uma compreensão intelectual, não permite aquele salto, então não tem graça. Por isso nunca devemos explicar uma piada. Quem entendeu, entendeu. Quem não entendeu, deixe assim.

A anedota é um salto por cima de toda a linguagem por uma compreensão mais pura. Esta compreensão pura provoca uma explosão dentro da pessoa e ela se traduz em riso, que é uma forma não verbal de compreensão, mas é a verdadeira compreensão.

Isso aparece de múltiplas formas nas expressões do Zen, nos haikai, nos poemas que pretendem transmitir um momento puro. Na pintura, em várias formas de artes marciais em que você não explica, mas tem a experiência pura, tem a compreensão verdadeira.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Nem Existir, Nem Não-Existir




Pergunta: Isso que o senhor falou sobre trabalhar no mundo e na sangha me remeteu àquela frase: “estar no mundo sem ser o mundo”. A gente está nele, mas nós não podemos pertencer a esse mundo de ilusão.

Monge Genshô: Ele é um mundo de ilusão aos nossos olhos deludidos, mas para os olhos de Buda é o mundo tal como ele é. Ele é como é. Nós olhamos o mundo de forma distorcida, como se usássemos óculos que distorcem a realidade. Se nós tirarmos os nossos olhos e colocarmos os olhos de Buda, o mundo é real, ele não é ilusório. É a nossa percepção que é ilusória. Isso é bem importante de lembrarmos, porque não é como se o mundo fosse um sonho, ele existe. Mesmo que você desapareça, ele existe.

Existe uma escola chamada Yogachara, que propôs que só existia consciência e que éramos nós que fazíamos surgir o mundo com a nossa consciência. Isso implicaria que desaparecendo você, desapareceria todo o universo. Essa escola, embora sua estética tenha sobrevivido dentro de outras escolas, não sobreviveu de forma pura por causa do radicalismo dessa postura. Compreende? Então o budismo não é niilista, nada existe, nem eternalista, tudo existe para sempre. O budismo é madhyamika: caminho do meio, nem um extremo, nem outro.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

As Manifestações Budistas (2 de 2)


Mas mesmo que nós façamos um esforço para ensinar um zen puro, nós estamos carregando características que vieram do budismo através dos templos do budismo japonês, do budismo chinês. Até as roupas que eu estou vestindo são assim. O juban é japonês. O kimono é japonês. O koromo é chinês. E esse aqui é o único do tempo de Buda, o kesa, o manto, que é da Índia. Todos os outros são acréscimos posteriores porque era muito frio. Porque na China eles usavam koromo, mas os japoneses não colocavam o koromo sobre o corpo, então tem roupas embaixo. O kimono, uma roupa mais íntima, que é essa que a gente vê embaixo do koromo, esta colorida. E juban vem de uma palavra portuguesa, gibão, que era uma roupa que os portugueses usavam lá por 1600. Está vendo? Estou vestido de história, de cultura. E agora quando chegamos aqui no Brasil e quando chega no verão a gente diz o quê?

Aluna: Liga o ar-condicionado [risos].


Monge: Será que não dá para voltar para o sistema indiano e usar só o kesa por cima do corpo? Como os monges Theravada. Na Tailândia, no Sri Lanka, eles usam só o manto. Então nós estamos carregando história junto, mas nós não temos coragem de jogar fora as coisas apressadamente, porque corremos o risco de jogar fora a criança junto com a água do banho. Então nós temos de ser muito cuidadosos nas mudanças culturais. Nós já estamos fazendo grandes revoluções aqui. No Japão, isto ainda não aconteceu. O Centro de Dharma para os leigos com ensinamentos que só são dados para os monges. Isto aqui é uma manifestação do budismo ocidental. Nós não estamos enxergando, mas não é aquele budismo que você vai ver lá no oriente. Não é assim, de irmos para o oriente e ficarmos maravilhados. É o contrário. Eles que vêm aqui e dizem “Ah, que maravilha o budismo aqui”. 

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

As Manifestações Budistas (1 de 2)




O budismo em cada lugar se liga às manifestações locais. No Japão isso também aconteceu. O Japão não é bem zen budista. É shinto-zen budista. Está misturado com uma religião xamânica shintoísta. Há umas coisas que você percebe que não tem nada a ver com o que você aprendeu sobre o zen no Brasil. No budismo tibetano, eles estão ligados à religião Bon, que era uma religião xamânica anterior de lá. E é isso que você vê que é tão diferente no budismo tibetano. Mas para os tibetanos não é estranho.

Agora, aqui no ocidente, está surgindo um zen mais puro. Porque eu estou ensinando aqui e não preciso misturar o zen com nada. E isso só está acontecendo no ocidente porque o aluno que vem aqui não quer isso. Ele quer lógica. Ele não quer deuses nem coisas assim. Mesmo que quando você anda aqui no zendô veja estátua de Kannon ali na sala, Bodhisatva da compaixão. Lá na cozinha uma estátua de Idaten, que é na realidade uma divindade incorporada. Mas é tradicional estar na cozinha, porque ele rapidamente corre pelo mundo para juntar os alimentos para alimentar a sangha. Então é uma divindade mítica. Não tem a ver com o budismo original, tem a ver com o budismo que adaptamos através dos tempos para melhor chegar as pessoas de cada cultura.

(Continua) 

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]