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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Sobre o Vazio (Parte 01)



Um texto diz assim: porque existe o inominado, o inconcebível, o não-nascido, e porque existe o não nascido, é por isso que pode existir tudo. Normalmente nós chamamos esse inominado, esse inconcebível, de vazio. E usamos “n” metáforas para explicar o vazio. Por exemplo, todo mundo já deve estar cansado de ouvir sobre “nós somos ondas na superfície de um oceano”; nós somos ondas cármicas, o oceano é, nessa analogia, o vazio. Em sânscrito, shunya. O vazio só se manifesta como forma. Quando você olha o vazio, você só pode ver o vazio quando ele se manifesta como formas, então você olha para esse oceano e vê a superfície do mar e as suas ondas. Se você retira toda a superfície do mar e todas as ondas, o que tem embaixo? Água. Como a água se manifesta? De novo, com ondas, irregularidades, etc. E se você retirar essa superfície de novo, vai ter a mesma coisa embaixo que só se manifesta daquela forma. Então o Sutra do Coração trata desse assunto e ele diz: “O vazio é forma e a forma é o próprio vazio. O vazio nada mais é do que forma. E a forma nada mais é do que vazio.” O vazio é aquilo que o Sutra se refere como inominado, inconcebível, aquilo que não pode ser nomeado, por isso dizemos que é vazio. Mas não é vazio no sentido de “nada”. 


Eu já vi budistas dizerem: “A ciência está provando que tudo é vazio”. Isso é uma incompreensão profunda daquilo que nós estamos nos referindo como vazio. Eu sei que os átomos são praticamente 99,99% de vazio. É tão vazio, tão vazio, que um neutrino, uma partícula de neutrino, passa através de toda a Terra e sai do outro lado sem bater em nada. Alguns raros neutrinos, da chuva de neutrinos que passa através de nós, bate em algum núcleo atômico e então nós os podemos identificar. Para ver um neutrino você tem que fazer uma piscina no fundo de uma caverna, para identificar alguns lampejos de neutrinos que por acaso bateram num núcleo atômico, porque nem notamos quando um neutrino passa através de toda a massa da Terra e sai do outro lado sem bater em coisa alguma, tão vazia é de matéria, e tão vazios de matéria são os átomos. Mas isso não tem nada a ver com o chamado vazio budista que nós estamos usando. Então essa palavra, o vazio budista, também é uma palavra que confunde na nossa tradução.

(Continua)

 [Trecho de palestra proferida por Meihō Genshō Sensei]


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O Movimento Mahayana (Parte 03)



Daí surge um Sutra muito importante que é o Sutra de Vimalakirti, que é sobre um comerciante. Esse é um Sutra do Séc. I e marca o momento em que o budismo mahayana se distancia do movimento anterior, porque transforma em herói, em iluminado, em melhor que os monges, um comerciante. O Sutra diz que todos podem ser Bodhisattvas, inclusive os deputados, senadores, etc. Se quiserem, se tiverem a conduta adequada podem ser Bodhisattvas e beneficiar todos os seres. Não é intrínseco ao papel de leigo uma dificuldade, mas o que importa é a sua atitude.

Vimalakirti diz aos discípulos de Buda: “meu mosteiro é na cidade, o seu é na montanha, mas o meu é lá onde estão as pessoas que precisam de dinheiro e de comida, é lá que eu trabalho”. Ao fazer isso, ele acusa implicitamente os discípulos de Buda, os monges, de serem parasitas sociais e de estarem apenas recebendo da comunidade sem alimentá-la, sem retribuir a ela com o seu trabalho, o que é diferente do que ele faz. Esse é o grande momento do Sutra.

Então é um Sutra combativo na sua declaração, e depois dele vem uma conciliação, através do Sutra do Lótus, que tenta acalmar essa situação dizendo que os monges têm um papel, que os leigos têm outro papel e que nós podemos conciliar isto. Esse Sutra também se torna muito importante dentro do movimento mahayana.


A essência de tudo isso que estamos falando é de que a prática budista é possível dentro do mundo, dentro do trabalho, e isto é uma marca da nossa própria comunidade budista Daissen-Ji, porque eu mesmo, que a fundei, ainda trabalho hoje. Trabalho como monge e trabalho como consultor de empresas para poder viver, então não vivo do que a sangha dá, e sim baseio a minha sobrevivência num trabalho profissional. Estou inserido no mundo, então o nosso modelo é o de Vimalakirti, esse grande personagem deste Sutra histórico.

Ao mesmo tempo, nós tentamos conciliar o trabalho dos monges com o trabalho dos leigos, que é um trabalho importantíssimo, porque sem os leigos nós não conseguimos fazer as sanghas funcionarem. Os monges são muito poucos dentro de um modelo como esse e isso exige um enorme sacrifício, que é o de trabalhar duplamente.
 



[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]