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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Eu quero, eu não quero


O sofrimento é causado pela ignorância.
Ignorância é a ilusão do "eu".
A ilusão do eu é alimentada pelo desejo de que as coisas sejam diferentes do que são nesse exato momento.

A raiva ocorre quando algo não é como eu quero.
A cobiça ocorre quando eu quero algo que não tenho.

"Isso eu quero", "isso eu não quero", essas são as origens do sofrimento.

Zazen é a imediata cessação do sofrimento e das causas do sofrimento.
"Deixe vir, deixe ir", essa é a regra do Zazen. Deixar ser tal como é.

Buddha é aquele que é tal como é. Zazen é a prática de Buddha.
Sentando sem nada querer e sem nada buscar, experimenta-se pela primeira vez o gosto da liberdade.

Cada coisa tem seu lugar no contexto de todas as coisas.
Querer algo diferente daquilo que é nesse exato momento é criar a ilusão do eu, desequilibrar o que estava equilibrado, a origem do sofrimento.
Ser tal como é nesse exato momento é estar no lugar correto no contexto de todas as coisas. É unir-se com todas as coisas.

Postado por João Jōken

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Minha Promessa


"Minha Promessa"
(Sensei Jiyo Agacki)


Sempre refleti sobre o nascimento e a morte. Aqueles mistérios a partir dos quais se desenvolvem inteiros movimentos religiosos... para explicar, para tentar entender.

Ainda penso sobre tais eventos que nos trazem para a vida, que põem um fim nela. Observei-os se aproximarem muitas vezes desde que me tornei consciente deles. O nascimento é sempre visto como uma alegria… a morte como um pesar.

Mas parece a mim, à medida que ando nessas misteriosas sombras, segurando as mãos desta figura indistinta que sempre parece estar lá: para ver através... parece-me que de certa forma entendemos as coisas um pouco erroneamente.

Os cristãos captaram um aspecto da morte quando disseram que ela é uma ocasião de ALEGRIA, afinal de contas, os mortos vão ao encontro dos braços acolhedores de Jesus, e ele tomará conta deles até chegarmos lá. Claro, SOMENTE se você se lembrar de viver de uma maneira CRISTÃ. Isso confere uma amortecida na ideia, no entanto.

Ainda assim, há tanto para se entristecer. Há uma loucura do partir, o pensamento de um amor que nunca voltará, que nos envolve... que nos consome. Alguns são devorados, submergem nisso, e nunca retornam de sua tristeza. Mesma se a morte chega rapidamente, cedo demais, isso não deveria ser assim. Que possamos nos entristecer com a retirada, carregar a tristeza de nosso amor conosco para sempre... isso é importante. Isso é AMOR, e o amor somente morre quando o matamos. Soa difícil para mim dizer isso, mas é VERDADE. Não deveria fazer isso. Mas possamos também sorrir, até rir, sabendo aquilo que eles nos deram, e que, verdadeiramente, suas vidas significaram algo, nos tocaram de uma forma que nos aqueceu por tê-los conhecido.

E que a alegria sempre esteja presente no nascimento. A alegria na novidade dele, em sua esperança. Mas que a tristeza sempre esteja presente também. Uma tristeza no reconhecimento desta pequena criança que terá dores e pesares que você não será capaz de fazer nada a respeito, por mais que tente. Que a cada novo nascimento neste mundo possamos fazer uma promessa solene, uma promessa que sua chegada nesta vida significará algo, que estaremos lá para ajudá-los o melhor que pudermos.

Sempre digo que todos os filhos são meus filhos.
Digo isso sinceramente.
E todas as mortes são minha morte.
Digo isso sinceramente, também.
Cada momento: eu choro, e sorrio, apenas por eles."

(Copiado da lista Nalanda do Prof. Ricardo Sasaki)

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Sensei Jiyo Agacki
A UU for over 2 decades, Sensei Jiyo (Andy) Agacki has been a practicing Buddhist as well for more than 16 of those years. An annual Pulpit guest, both in the regular church year, or during the Summer, Andy has also conducted Adult RE classes in Buddhist Thought, and talked to RE Youth about Buddhism. On May 25th, 2008 he was Inducted as a Buddhist Lay Minister, after completing 2 years training under the Rev. Koyo Kubose and the Bright Dawn Institute for American Buddhism. Currently President (first) of the international Bright Dawn Lay Minister's Association, The Trailblazers. Jiyo is Andy's given Dharma Name.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Zuise - Isshin Sensei



Texto de Isshin Sensei em seu blog

Qual o significado de Zuise?

Nyoi - cetro de oficiante, Sojiji
No caso de já ter completado o seu treinamento em mosteiro oficial, ao receber a Transmissão de Darma, o monge, agora na graduação de Rikishô, pode marcar as datas para se apresentar nos dois templos-sede da escola (Eiheiji e Sôjiji) para a realização de uma série de formalidades chamada Zuise (瑞世). Os caracteres chineses desta palavra atualmente significam “auspicioso” (zui) e “o mundo” (se), mas aparentemente esta palavra significava, antigamente, “receber promoção” ou “tomar um passo na carreira”.

Estas formalidades representam a oportunidade do monge recém-formado prestar homenagem e gratidão aos fundadores da nossa escola, Mestre Dogen (fundador do templo-mosteiro Eiheiji) e Mestre Keizan (fundador do templo-mosteiro Sôjiji).

Passa a possuir, agora, a graduação monástica de Oshô (和尚). O ato de oficiar cerimônias de recitação de sutras no papel de “abade por uma noite”, como parte das formalidades de Zuise em cada um dos dois templos-sede, Eiheiji (fundado pelo Mestre Dogen) e Sôjiji (fundado pelo Mestre Keizan), também demonstra simbolicamente que o novo Oshô recebeu a autorização necessária para se tornar abade (Jûshoku 住職, Monge Titular) de um templo oficialmente reconhecido.

Recebe, ao mesmo tempo, autorização oficial como Professor de Darma (Sensei), com o seu nível de graduação como professor dependendo do seu tempo de prática em mosteiro de treinamento oficialmente reconhecido. Está habilitado a transmitir os preceitos para leigos (Zaike Tokudo ou Jukai) e ordenar novos monges (Shukke Tokudo), bem como realizar todas as outras funções de um sacerdote, como oficiar casamentos, batizados, benções em geral, enterros, e outras cerimônias religiosas.

Na chegada ao templo-sede, na data marcada, é recebido por um atendente e convidado a usar chinelos vermelhos especiais de abade. Depois de tomar chá, recebe ensinamento sobre os procedimentos específicos do templo, uma vez que há detalhes na forma de oficiar cerimônias que são diferentes de um templo para outro. Terminado este ensaio, que pode levar três horas, recebe um jantar finíssimo, toma banho de o-furô (banheira japonesa) e dorme.

Levanta cedo no dia seguinte, às 03:30 hs e faz o início do zazen no “gaitan” (lado de fora do zendô) próximo à entrada do abade. Mas logo é chamado para o início das formalidades de Zuise.

Vai primeiro prestar homenagem ao fundador e primeiros abades do templo. Para isto, entra, talvez pela única vez na vida, numa área reservada, fechada, que fica atrás do altar da Sala dos Fundadores. Oferece incenso e faz uma série de prostrações.

Em seguida, vai para a sala de recepção do abade do templo-sede (Zenji), onde se encontra com um grupo de seis ou oito monges formados que tomarão parte do “ryôban”(as duas fileiras de monges na área cerimonial principal) para as cerimônias a seguir. Depois de fazer prostrações, ouve a leitura do certificado de Zuise e o recebe das mãos do Abade do templo-sede ou seu representante. Assim que o Abade saia da sala, recebe o chá honorário – primeiro é servida água doce com umeboshi (ameixa em conserva). Em seguida é servido um doce – mas em lugar de comer o doce agora, coloca-se o certificado que acabou de receber em cima do doce e o devolve. Imagino (mas não sei ao certo) que talvez este doce, com o certificado, vai para o altar durante as recitações de sutras que fazem parte das formalidades de Zuise. Termina esta etapa das formalidades com chá verde.


Hossu - cetro de oficiante, Eiheiji
Nesta hora, o atendente traz o “nyoi” (払子, no Sojiji) ou o “hossu” (払子, no Eiheiji), cetros cerimoniais de oficiante. Acompanhado pelo grupo de monges do “ryôban”, vai agora oficiar duas cerimônias de recitação de sutras. A primeira (Zuise Shukutô) é a recitação do Maka Hannya Haramitta Shingyô (Sutra do Coração da Grande Sabedoria) na Sala de Buda e a segunda (Zuise Jôgu) é a recitação do Daihishin Darani (Mantra da Grande Mente de Compaixão) na Sala dos Fundadores.

Não há palavras para descrever a emoção deste momento – oficiando a cerimônia num templo-sede da escola, ouvindo o som da recitação pelas vozes dos aproximadamente 200 monges-em-treinamento e professores do templo-sede. E a plena atenção, mesmo com lágrimas de emoção nos olhos, no esforço de lembrar os “timings” das prostrações e ofertas de incenso e para acertar os detalhes dos movimentos, tais como aproximar-se ao altar e, ao afastar-se do altar lembrar-se de virar em direção horário (no Eiheiji) ou em sentido anti-horário (Sojiji). E o cuidado com a maneira de segurar o “nyoi” (Sojiji) ou de segurar e movimentar o “hossu” (Eiheiji) (os “cetros” de oficiante).

Terminadas as duas cerimônias, o novo “Oshô” retorna à sala de recepção. Depois de devolver o “nyoi” ou “hossu” ao atendente, recebe os parabéns dos monges que tomaram parte como “ryôban” – e os responde agradecendo a colaboração de todos nas cerimônias. Todos se reverenciem mutuamente com prostrações.

Depois de um momento para a fotografia oficial (se esta foi encomendada), há um encontro com o “Kannin” (Administrador Chefe) do mosteiro (ou seu representante) para um chá e pequeno bate-papo.

Por fim, recebe um café de manhã “espectacular” – com uma quantidade de comida impossível de se comer… .

Termina as formalidades com uma pequena cerimonial de agradecimento e despedida do atendente (zuian) e assistente do atendente (zuiji) que o cuidaram durante todo este processo. Acabaram-se as formalidades – são oito horas da manhã, mais ou menos. Foi um dia muito cheio… .

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Arahant e Buddha


P: Qual a diferença entre os termos Arahant e Buddha?

O Prof. Ricardo Sasaki, respondeu na lista Shin:

R: Esta é uma questão bem complexa pois tem a ver com as mudanças de significado que certas palavras sofreram no decorrer da história buddhista. Originariamente Arahant e Buddha eram dois estados bem próximos, todo Buddha é um Arahant (Roberto, o Buddha não era um Arahant "antes" de se tornar Buddha), enquanto que nem todos os Arahants são Buddhas. Mas a diferença originariamente era apenas de que o Buddha é aquele que "abria" o caminho da Iluminação, e os Arahants era aqueles que, utilizando do ensinamento (caminho) mostrado pelo Buddha, atingiam o mesmo nível de libertação.

Com o tempo os dois termos foram se tornando mais distantes, a palavra Buddha foi sendo mais e mais exaltada e distante do estado de Arahant. Isso chegou num ponto em que a palavra Arahant sofreu uma modificação, significando não mais a libertação completa (tal como aparece definida nas escrituras antigas) mas uma libertação parcial, apenas de kleshas da cobiça e da raiva, mas não do klesha da ingnorância. Então uma vez atingido o estado de Arahant, haveria mais ainda a se fazer até atingir o estado de Buddha, algo que não tem sentido na estrutura doutrinária e hermenêutica dos ensinamentos antigos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Em que se concentrar


P: No zazen devo me concentrar em que?

R: No zazen não se concentre na respiração nem em coisa alguma, deixe que esta torne-se natural, conserve os olhos abertos para ficar presente a este lugar e momento, fechados é mais fácil deixar-se levar por fantasias. Não observe nada, quando há um observador existe alguem aqui e um objeto de observação, portanto um eu que se sente separado , fique no momento sendo um com todas as coisas.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Dinheiro


Dom Timóteo

P: Como lidar com dinheiro?

R: Creio que criamos freqüentemente uma visão ascética a respeito do dinheiro. Na verdade os mestres não têm idéias desse tipo. O dinheiro é um meio hábil como qualquer outro, serve para agir no mundo.

É bom que que seja assim. O sistema de trocas, o escambo, é muito ineficiente. Os mestres que conheci têm facilidade em receber grandes quantias e lidar com elas, construindo. Quando não tinham dinheiro, eles simplesmente jejuavam alegremente...Aceite o dinheiro com esta alegria e descompromisso.

Vi Dom Timóteo (Abade Beneditino em Salvador, falecido em 1994) comentar o quanto D. Bernardo, o monge administrador, o havia ajudado com sua visão clara da mecânica do mundo, é tudo a mesma coisa: não existe sagrado nem profano; essas divisões estão apenas em nossa mente.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Budismo e ideologia


P: Os budistas seguem alguma ideologia? O budismo deve se engajar em lutas políticas?

R: Aconteceram muitas vezes ligações com o poder político, mas invariavelmente redundaram em decadência do Dharma. Concordo que os budistas, como indivíduos, devem tentar ser ativos, mas o Budismo como religião não o deve ser.

Um fato que marcou a história japonesa foi o que sucedeu com o Rinzai, que se tornou ligado ao império e a corte. Um mestre Rinzai, de dentro da carruagem imperial, apontou a seu discípulo em direção os monges camponeses da Soto, trabalhando no campo:

- Veja, em algumas gerações eles terão crescido e
nosso poder e orgulho se esvairá.

Aquela humildade tinha mais força que as ligações políticas que o Rinzai havia estabelecido, a predição se confirmou. Mais tarde a riqueza, a hereditariedade e conforto dos monges Soto se tornou motivo, por sua vez, para seu enfraquecimento.

Concordo com você que os budistas devem se esforçar para diminuir o sofrimento e, naturalmente, usarão as doutrinas e ideologias que acreditarem válidas. Infelizmente nenhuma delas, até hoje, sobreviveu muito tempo. As diferentes utopias vão tropeçando pela história.

Assim devem agir civilmente como pensam certo, um marxista crendo na centralização das decisões, outro liberal acreditando na liberdade mais ampla possível, o socialista crendo na intervenção estatal, e assim por diante. O que não se deve fazer é misturar o Dharma com as doutrinas políticas, usando este para atacar a globalização e a tecnologia, ou opostamente preconizar um mundo unificado e conectado.

Em qualquer hipótese, a associação fará do Dharma instrumento político de propaganda, o que diminui sua universalidade e a isenção de suas propostas.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Primeiro Zazen


"Sou uma pessoa muito ansiosa e impaciente, por isso pensei que quando fosse me sentar para a prática teria que me segurar para ficar quieta e não contar o tempo. E isso não aconteceu, pelo contrário quando terminei os quarenta minutos jurava que tinham passado no máximo vinte!
Costumo sentar e fazer rápidas meditações e visualizações sozinha, por isso quando ouvi a monja dizer “deixe os seus pensamentos irem e virem” eu já tinha idéia de como seria. É comum ter algumas visões enquanto medito, mas o que mais gostei e me deixou impressionada foi o fato de que, em determinado momento, a sensação do meu corpo mudou completamente. Geralmente quando sento de pernas cruzadas, em alguns minutos começa um formigamento e logo a perna dorme, mas para a minha surpresa isso não acontecia e eu achava curioso... em certo momento eu comecei a não sentir o meu corpo, era uma sensação estranha porque em partes eu não sabia onde terminavam ou começavam braços, pernas, dedos, no entanto eu tinha noção da extensão deles... eu sentia uma sensação estranha como se o meu corpo estivesse ao contrário, por vezes virado como se os membros estivessem trocados de lugar, outras como se as costas estivessem na frente e vice-versa... em si, eu tinha noção do meu corpo e dos membros separadamente, mas ao mesmo tempo (mesmo soando paradoxal) eu sentia o meu corpo fundido, membros todos unos e na base, eu sentia uma imobilidade incrível, como se a parte inferior do meu corpo fosse uma raiz.
... "
Do blog Zen Planalto

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Carma e justiça


Resposta numero 25 no site www.daissen.org.br secção perguntas, opção reencarnação/renascimento.


P: Não há um carma individual para anular? Se nada do indivíduo, nenhuma memória no cerne do ser se perpetua, então que diferença faz ser assassino ou não? Então tudo depende do desenvolvimento de uma consciência social, ou compreensão da lei universal do carma? Assim, um individuo com impulsos egoístas e violentos poderia matar, roubar, trapacear, etc. sem medo e sem conseqüências?

R:Parece evidente que apesar de não haver individualidade que se perpetue, o sofrimento causado por um mau ato voltará. Mesmo que não saibas quem foi teu antecessor no universo, a sutil onda que ocasionou tua manifestação atual, estás vivendo suas consequências. É como se tivesses quando criança de dois anos feito algo errado e perdido um dedo, não adianta dizer que não te lembras, que eras pequeno, inocente, o que quiseres, o dedo estará faltando. O criminoso pode dizer que sabe que o carma continuará, mas que "ele" não estará mais aqui, o que ocorre é que o "ele" é que é ilusão, a onda cármica não, e um outro "ele" que É E NÃO É ELE MESMO, estará vivendo os frutos daquelas ações.(Assim como quando adulto não és mais aquela criança). Isto quer dizer que há grande continuidade individual de carma, (mas não de eu) , menor de grupo social, menor de país, menor da humanidade, e assim sucessivamente, diminuindo a medida que se amplia o círculo, mas o mais importante é a onda que eras anteriormente a esta.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ZAZENKAI DE FIM DE ANO


ZAZENKAI DE FIM DE ANO
SÁBADO (17/12)
A Comunidade Zen Budista de Florianópolis convida à todos para o "Zazenkai de Fim de Ano" que será realizado na sede de sua comunidade em Florianópolis, no dia 17 de dezembro (próximo sábado).
O Zazenkai é um retiro curto e está aberto a todas as pessoas, inclusive iniciantes. Zazenkai literalmente quer dizer "vir junto para meditação". É uma reunião de praticantes leigos, aberto à todos. Neste zazenkai de confraternização, teremos um "SAMU" para organizar a sede da comunidade.

O almoço será comunitário, tragam algo saudável para compartilhar. Cada um deve contribuir com um prato doce e/ou salgado (vegetariano), além de suco natural.

Data: 17/12

Horário: 08hs às 17:30hs

Local: Sede da Comunidade - Praça Getúlio Vargas, 126 centro Florianópolis.

Inscrições e informações com Rosana (48) 8824.1022 ou rosana@daissen.org.br

Apoio: Daissen Restaurante Vegetariano
Comunidade Zen Budista de Florianópolis
www.daissen.org.br

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Baruch Spinoza


Este é o Deus ou Natureza de Espinoza:

Se Deus tivesse falado:

“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.
O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti. Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro.
Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.
E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?
Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações?
Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti.”
Baruch Spinoza.
Postado por Rev. Wagner

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O eu diferente a cada vida


Noviços abraçados após ordenação, o zen brasileiro em Florianópolis.

P: Se Buddha lembrou-se de vidas passadas isto significa que era a mesma pessoa nestas vidas?

R: Um ser iluminado completamente desenvolve acesso a alaya vijnana, a consciência depósito de todo o universo, onde tudo permanece, o fato de a cada vida termos um novo eu não quer dizer que não haja continuidade de nosso carma, somos nós mesmos de certa forma, os mesmos impulsos, o mesmo tipo de mente, somente o eu a cada vez é que é outra ilusão momentânea, uma construção diferente a cada vida, elaborado com memórias e experiências.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Como não se decepcionar ?


P: Como funciona a relação mestre discípulo no budismo? Como não se decepcionar com as possíveis falhas de um mestre humano como cada um de nós?

R: Sua pergunta é sobre como funciona o budismo. Na verdade o aluno deve escolher cuidadosamente o professor com quem tem conexão, isto não significa nenhum envolvimento maior do que uma relação de ensino, portanto não se devem alimentar expectativas superiores que levem a um sentimento de injustiça, se aconteceu isto é porque houve expectativa, só ela pode levar a desilusão, pois a desilusão é justamente a falta de acontecer o que se espera e portanto daquilo com que nos iludimos.
Assim o budismo não tem um funcionamento neste sentido e sim a relação mestre aluno é uma escolha particular sujeita a todo tipo de evento. Veja que os mestres do passado peregrinavam para procurar quem lhes merecesse confiança, esta é mesmo a história de Dogen, que foi procurar ensino na China e depois de muitas peripécias encontrou seu mestre Tendo Nyojo.
Espero que você possa praticar com denodo e manter sua mente livre das ilusões. Se houver merecimento encontrará ao fim um mestre. Um ditado antigo diz " more dois vales distante de seu mestre" o que quer dizer mantenha-se tão distante que sua mente não crie expectativas sobre ele.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Visita em Março



Dai-En Bennage Roshi, uma importante professora nos EUA, vice abadessa no angô de Yokoji, onde estive, está agendando uma visita à nossa Sangha no início de março de 2012, com a anuência de Saikawa Roshi. Estamos planejando aproveitar sua estada de alguns dias para começar o ano de 2012 com os melhores impulsos.
Na foto sua última estada no Japão após o tsunami, sua visita ao local é descrita aqui: http://juneinjapan.wordpress.com/2011/11/07/dai-en-in-japan/

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Inconformidade


P: O personagem fugiu,não enfrentou os problemas colocados. Este tipo de atitude vem de encontro aos preceitos budistas?

R: Sim, vai de encontro, se opõe, mas nestas histórias sempre devemos levar em conta que ainda não havia iluminação, assim quando Buda saiu de casa ainda não era Buda , era Sidharta. Isto mostra sua inconformidade não seu despertar.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Querer ou não querer



O sofrimento é causado pela ignorância.
Ignorância é a ilusão do "eu".
A ilusão do eu é alimentada pelo desejo de que as coisas sejam diferentes do que são nesse exato momento.

A raiva ocorre quando algo não é como eu quero.
A cobiça ocorre quando eu quero algo que não tenho.

"Isso eu quero", "isso eu não quero", essas são as origens do sofrimento.

Zazen é a imediata cessação do sofrimento e das causas do sofrimento.
"Deixe vir, deixe ir", essa é a regra do Zazen. Deixar ser tal como é.

Buddha é aquele que é tal como é. Zazen é a prática de Buddha.
Sentando sem nada querer e sem nada buscar, experimenta-se pela primeira vez o gosto da liberdade.

Cada coisa tem seu lugar no contexto de todas as coisas.
Querer algo diferente daquilo que é nesse exato momento é criar a ilusão do eu, desequilibrar o que estava equilibrado, a origem do sofrimento.
Ser tal como é nesse exato momento é estar no lugar correto no contexto de todas as coisas. É unir-se com todas as coisas.

Jouken San
Blog Tentando não fugir

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Tudo está na mente


Nyoshul Khen Rinpoche (Tibete, 1932 – França, 1999):
Todos os pensamentos, sentimentos, emoções, percepções, sensações, estados da mente, conceitos e tudo mais são como nuvens no céu, momentaneamente se reunindo e depois dispersando, se dissolvendo de volta exatamente nesse mesmo espaço. Que bem pode haver em se apegar a isso? Que bem pode haver em tentar se afastar disso?
Tudo é a exibição ilusória, milagrosa, como um sonho, da própria mente de alguém. Não há nada especial a se fazer sobre isso, exceto reconhecer sua natureza verdadeira, sua vacuidade, e ser livre dentro do que quer que pareça surgir.
Não é necessário julgar experiências e pensamentos como bons ou ruins, como desejáveis ou indesejáveis, proveitosos ou improveitosos. Deixe apenas ir e vir do modo como é, sem se envolver demais, sem se identificar com nada, nem cedendo nem seguindo, nem suprimindo nem inibindo. Simplesmente deixe todas as coisas internas e externas aparecerem e desaparecerem à sua própria maneira, apenas como nuvens no céu, e permaneça acima e além disso tudo, mesmo no meio das atividades e responsabilidades diárias.
Há tantas coisas para se fazer neste mundo, mas há apenas uma coisa que uma pessoa precisa conhecer, e isso é a sua própria natureza. Esse é o medicamento universal, a panaceia que cura todos os males e doenças. O que quer que vem, também vai. A própria natureza, o ser fundamental de alguém, está além — não se afeta pelas manchas que surgem ou por fenômenos temporários. Não vem nem vai: permanece imutável. Ao reconhecer isso, a transcendência inata é vivenciada. Então, samsara e nirvana não significam nem esperança nem medo para o praticante; a dualidade não mais prevalece. Não há nada a esperar, nenhuma queda a temer.
Como Guru Rinpoche, Tilopa e Naropa, e o Mahasidda Saraha disseram: “Com objetos externos, não se preocupe. Como objetos internos (o próprio sujeito), não se preocupe. Sem olhar para fora ou dentro, deixe como é: vazio, livre e aberto. Não são os objetos externos que nos prendem, mas sim o apego interno que nos amarra.”
Essa é a instrução essencial dos mahasiddas da India e dos yogues realizados do Tibet. Ela é baseada nas palavras do próprio Buda Shakyamuni, que disse que a raiz de todo sofrimento é se agarrar, se apegar. Não há outro ensinamento além deste. Isso é a raiz de tudo. Esse é o princípio por trás de todas as diferentes explicações.
A sensualidade não está nos objetos, está na mente que deseja, no próprio desejo. O desejo preenche os objetos com a qualidade de serem desejáveis, com sensualidade e valor. De outro modo, o que é desejável de modo absoluto? Tudo depende da mente, do próprio condicionamento da pessoa; o que uma pessoa deseja e aspira, a outra pode repudiar e evitar a todo custo. Não é óbvio isso?
“Natural Great Perfection”, cap. 7

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Não cometa tal erro


Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete, 1910 – Butão, 1991)
Um explorador que descobre uma ilha de tesouros pode encher seu navio de ouro, diamantes, safiras, rubis e esmeraldas. Mas sua boa fortuna nem se compara com a vida humana, que nos oferece algo muito mais precioso que qualquer ouro ou pedras preciosas — a chance de refletir e praticar o Dharma, dando sentido a nossas vidas. [...]
É agora, enquanto você desfruta de todas as condições favoráveis da vida humana, que você tem a liberdade necessária para praticar o Dharma. Ignorar tal oportunidade seria como um mendigo que pega uma jóia e, tomando-a como um pedaço de vidro, joga-a de volta na sujeira.
Pior ainda seria realmente compreender o valor da vida humana e desperdiçá-la conscientemente em distrações e a perseguição de ambições mundanas — essa é a epítome da ilusão. O explorador que retorna da ilha de tesouros de mãos vazias teria cruzado os oceanos em vão. Não cometa tal erro.
“The Hundred Verses of Advice”, v. 78
(Os Cem Conselhos de Padampa Sangye)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Vazio


"Conclusão do “Sutra do coração”: Os cinco agregados são os cinco fatores que compõe o corpo e a mente humanos. Expresso de uma forma mais detalhada significa que “a forma é o vazio”. O “vazio” significa que não existe um centro ou uma substância imperecível e é também expresso como a “impermanência’ ou a “ausência de características”. Nossa realidade atual é vazia. Ou seja: o vazio é a prova da emancipação. "
Saikawa Roshi

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Versos sobre a Fé na Mente


Hsin Hsin Ming – Versos sobre a Fé na Mente
escrito por Jianzhi Sengcan (Kanchi Sôsan Daioshô)
3º ancestral da linhagem chinesa

O Grande Caminho não é difícil
Para aqueles que não têm preferências.
Quando o amor e o ódio estão ambos ausentes
Tudo se torna claro e sincero.

Fazendo-se a menor distinção entretanto
O céu e a terra são colocados infinitamente distantes.
Se queres ver a verdade,
Então não tenha opiniões a favor ou contra coisa alguma.
Quando o profundo significado das coisas não é compreendido
A essencial paz da mente é perturbada inutilmente.

O Caminho é perfeito como o vasto espaço
Onde nada falta e nada está em excesso.
Na verdade, é devido à nossa opção em aceitar ou rejeitar
Que não vemos a verdadeira natureza das coisas.

Não vivas enredado pelas coisas externas,
Nem preso às sensações interiores de vazio.
Seja sereno na unidade de todas as coisas
E tais idéias errôneas irão desaparecer por si mesmas.

Quando tentas parar a atividade para alcançar a passividade,
O teu próprio esforço irá te devolver à atividade.
Enquanto permaneceres num extremo ou no outro
Nunca conhecerás a Unidade.

Aqueles que não vivem no Caminho Único
Falham tanto na atividade quanto na passividade,
Tanto na afirmação quanto na negação.

Negar a realidade das coisas é perder sua realidade.
Afirmar o vazio das coisas é perder sua realidade.
Quanto mais falares e pensares sobre isso,
Mais te desviarás para longe da verdade.
Pare de falar e de pensar,
E nada haverá que não possas conhecer.

Retornar à raiz é encontrar o significado,
Mas perseguir as aparências é perder a fonte.
No momento da iluminação interior
Há um caminho além da aparência e do vazio.

Às mudanças que parecem ocorrer no mundo vazio
Chamamos de reais somente porque somos ignorantes.
Não busques a verdade;
Apenas deixe de acalentar opiniões.

Não permaneças no estado dualístico;
Evite cuidadosamente tais investidas.
Se houver, mesmo que seja um traço,
Disto ou daquilo, do certo e do errado,
A essência da Mente se perderá na confusão.
Muito embora todas as dualidades provenham do Um,
Não fiques apegado a este Um.
Quando a mente existe impertubável no caminho,
Nada no mundo pode ofender,
E quando uma coisa não pode mais ofender,
Ela cessa de existir no velho modo.

Quando não surgem mais pensamentos discriminatórios,
A velha mente cessa de existir.
Quando os objetos do pensamento desaparecem,
O motivo do pensamento desaparece;
Assim, quando a mente desaparece, os objetos desaparecem

As coisas são objetos devido ao sujeito (mente):
A mente (sujeito) é assim devido às coisas (objeto).
Compreenda a relatividade de ambos
E a realidade básica: a unidade do Vazio.

Neste Vazio os dois são indistinguíveis
E cada um contém em si mesmo todo o mundo.
Se não discriminares o áspero do fino
Não serás tentado ao preconceito e à opinião.

Viver no Grande Caminho não é fácil nem difícil,
Mas aqueles com visões limitadas são temerosos e irresolutos;
Quanto mais se apressam, mais devagar eles vão,
E o apego não pode ser limitado;
Mesmo o apego à idéia de iluminação é andar sem rumo.

Deixe que as coisas sigam o seu próprio caminho
E não haverá mais o vir ou o ir.
Obedeça à natureza das coisas (tua própria natureza),
E caminharás livremente sem seres perturbado.

Quando o pensamento está escravizado, a verdade está oculta,
Pois tudo é indistinto e nada está claro
E a cansativa prática de julgar traz aborrecimento e cansaço.
Que benefício pode nos trazer a distinção e a separação?

Se queres te movimentar no Caminho Único
Não desgostes nem mesmo do mundo dos sentidos e das idéias.
Na verdade, aceitá-lo plenamente
É identificar-se com a verdadeira Iluminação.
O homem sábio não se esforça para alcançar qualquer meta,
Mas o homem tolo é escravo e ele mesmo se escraviza.

Há somente um darma, uma verdade, uma lei e não muitas.
As distinções surgem das aferradas necessidades do ignorante.
Buscar a Mente com a mente que discrimina é o maior de todos os erros.

O repouso e a intranquilidade derivam da ilusão;
Com a Iluminação não há o gostar e o desgostar.
Todas as dualidades surgem da dedução ignorante.
Elas são como sonhos ou flores no ar,
É tolice tentar capturá-las
O ganho e a perda, o certo e o errado:
Tais pensamentos têm que ser abolidos completamente.

Se o olho nunca dorme, todos os sonhos naturalmente cessarão.
Se a mente não fizer qualquer discriminação,
As dez mil coisas são o que elas são, uma única essência.

Compreender o mistério desta Única Essência
É ser liberado de todas as malhas a que estamos presos.
Quando todas as coisas são vistas igualmente
Alcançamos a atemporal Auto-essência.
Não são mais possíveis comparações ou analogias
Neste estado em que não há nem causas nem relações.

Considere o movimento estacionário e o estacionário em movimento
E ambos, o movimento e o repouso, desaparecerão.
Quando tais dualidades deixam de existir
A Unidade em si mesma não pode existir.
A esta finalidade última, nenhuma lei ou descrição pode ser aplicada.

Para a mente unificada de acordo com o Caminho
Cessam todos os esforços autocentrados.
As dúvidas e irresoluções desaparecem
E a vida na verdadeira fé é possível.
Com um simples golpe estamos livres da escravidão;
Nada nos prende e nós não nos prendemos à nada.

Tudo é vazio, claro, auto-iluminante,
Sem qualquer esforço do poder da mente.
Aqui o pensamento, o sentimento, o conhecimento e a imaginação
Não têm qualquer valor.
Neste mundo da Essencialidade
Não há nem ser nem outra coisa que seja o não-ser.
Para entrar diretamente em harmonia com esta realidade
Diga simplesmente quando a dúvida surgir: " não dois".
Neste " não dois" nada é separado, nada é excluído.
Não importa quando ou onde,
A Iluminação significa entrar nesta verdade.
E esta verdade está além do aumento ou diminuição no tempo e no espaço;
Num simples pensamento estão dez mil anos.

O Vazio aqui, o Vazio lá,
Mas o universo infinito permanece sempre diante dos teus olhos.
Infinitamente grande e infinitamente pequeno;
Sem diferença, pois a definições desaparecem
E nenhum limite é visto.
Isso também ocorre com o Ser e o não-Ser.
Não perca tempo com dúvidas e argumentos que nada têm que ver com isso.

Uma coisa, todas as coisas;
Movem-se e se mesclam sem distinção.
Viver nesta realização
É não ter ansiedade acerca da não-perfeição
Viver nesta fé é a estrada para a não-dualidade,
Porque o não-dual é uno com a mente confiante.

Palavras!
O Caminho está além da linguagem,
Pois nele não há nem o ontem, nem o amanhã, nem o hoje.

- Tradução para o inglês de Richard B. Clarke
- Tradução para o português de Murillo Nunes de Azevedo

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

É a mesma coisa


SONHO E REALIDADE
Nida Chalegre

Do sonho resta a memória

Da realidade também

Quando passa

o momento real

como no sonho

fica apenas a

lembrança


Sonhar e viver

é a mesma coisa

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Espíritos que se manifestam


P: O que o zen budismo diz sobre manifestações de espíritos ?

R: Kodo Sawaki Roshi disse:

"Sobre estes que me perguntam sobre fantasmas, eles são fantasmas..."

"Se existem espíritos que se manifestam aqui eles estão tão perdidos quanto nós..."

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Ego que não desaparece


P: Apesar de praticar zazen meu ego continua aí, forte, o que devo fazer para livrar-me de meu egocentrismo?

R: Você quer atingir algo, este é um desejo de seu eu, uma mente aquisitiva e materialista que deseja alcançar alguma coisa, abandone estes objetivos completamente. Quanto mais você quiser algo, mais seu eu estará empenhado nisso.
Desista, mas continue, sem objetivos nem propósitos.

sábado, 26 de novembro de 2011

Prof. Sasaki hoje em Florianópolis


Hoje, na reunião regular da Sangha de Florianópolis, estará presente o Prof Ricardo Sasaki, da escola Theravada, partilhará uma palestra com o Monge Genshô

Dhammacariya Dhanapala (Ricardo Sasaki) começou sua prática no Buddhismo no começo dos anos 80 com o Zen e o Jodo, paralelamente ao estudo de religiões comparadas e simbolismo religioso na cidade de São Paulo, Brasil. Mudou-se para os Estados Unidos a fim de se aprofundar no Buddhismo Zen/Jodo, acabando por entrar em contato com a escola Theravada, a mais antiga das linhagens buddhistas, através do Ven. Maha Ghosananda (Sanghanayaka do Buddhismo cambojano) e de Satya Narayan Goenka (vipassana birmanês). Mais tarde foi morar na Thailândia, onde prosseguiu seus estudos no Theravada sob o Ven. Ajahn (Acariya) Buddhadasa, que se torna seu principal professor. Estudou sob alguns dos mais renomados professores buddhistas na Índia, Thailândia, Sri Lanka, Nepal e Malásia. De volta ao Brasil, fundou a Comunidade Buddhista Nalanda com grupos em várias cidades do Brasil; e o Nalandarama (Floresta da Generosidade Sem Fim) em Minas Gerais, o primeiro centro Theravada da América do Sul dedicado exclusivamente a retiros de meditação intensiva na tradição das florestas.

Ricardo Sasaki recebeu a certificação como "Dhammacariya" (professor de Dharma) do Aggamahapandita Rewata Dhamma Sayadaw, um dos mais respeitados monges e mestres de meditação e Abhidhamma (a psicologia buddhista), pela linhagem birmanesa do Buddhismo Theravada. Em 2010, recebeu da sangha birmanesa o título de “mahasadhammajotikadhaja” por serviços significativos para a purificação, perpetuação e desenvolvimento do Buddha Sasana (tradição buddhista) em Pariyatti (estudo) e Patipatti (prática). É também ministro laico e professor de Dharma (sensei) autorizado na linhagem Mahayana de Sensei Gyomay Kubose, com o nome de Dharma 'Shaku Ryushin', e é o responsável na América do Sul pela veiculação dos ensinamentos do Venerável Ajahn Buddhadasa da linhagem thailandesa das florestas do Buddhismo Theravada.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Trechos de carta


" Estou ainda "sob o efeito" do sesshin. :o) Devo lhe dizer que
nunca me senti tão bem, tão leve e lúcido.
É realmente como se eu estivesse feito um ano de zazen... :o)

O mais interessante nisso, é que os resultados vieram depois, ou
quase depois, quando começamos o ante-penúltimo zazen
Até então, confesso que havia questionado até mesmo minha própria
permanência no Budismo. Não estava vendo sentido algum nisso
tudo... Pensei que na verdade só estava complicando minha vida
buscando um "caminho espiritual".
Mas finalmente, esses sentimentos (que me ensinaram muita coisa)
se exauriram juntamente com a grande solidão que eu estava sentindo.
o que mais me marcou foi a força da sangha, mas acabei esquecendo
de falar de um profundo sentimento de solidão que me abateu devido
ao silêncio e a distância de casa...estava só, comigo mesmo. Não gostei muito do que vi e tbm percebi o quanto sou dependente das pessoas que me cercam.
O sesshin me ensinou muito sobre meus relacionamentos tbm...

Mas agora, feliz com os "resultados" do sesshin, me surge uma dúvida:

Há muito tempo, penso que antes mesmo de conhecer o Budismo e talvez tenha sido este o motivo que me levou a buscar um caminho espiritual (pois minha busca começou por motivos positivos, não foi devido a um trauma ou coisa parecida), vivo em constante contemplação. Algo como um kenshô,segundo o que o sr explicou no retiro. Cerca de 30 a 40% do meu dia, normalmente são acompanhados de um profundo sentimento de unidade com a natureza e com as pessoas. Quando estou indo para ......................................, estou sempre atento as flores do caminho, as nuvens e pessoas... quando está chovendo, contemplo a chuva sobre o guarda-chuva e o céu cinza. Isto para mim é natural, me sinto até estranho por não dar muita bola para a chuva, diferente dos outros que sempre reclamam dela (ou do sol forte).

Em meu zazen, mesmo quando ele é péssimo, ao menos por alguns
segundos, sempre sinto a vacuidade e alguma unidade...
Agora, com o sesshin, acredito que este período tenha aumentado
durante o dia...
O que mais noto, é a lucidez de pensamento e ação...

Mas sei que isso não vai durar muito. Que a média vai cair
novamente para os 30 ou 40% (ou até menos)... Sei que quando os problemas maiores e o cansaço do dia-a-dia começar a aumentar, será difícil manter a média.

No sesshin achei estranho que muitas pessoas não tenham esta experiência constantemente... muitos a tiveram pela primeira vez. Na verdade, foi esta experiência que me "provou" ser o Budismo aquilo que, ao menos agora, eu "desejo". Foi isso que me provou através de uma pequena demonstração, onde a prática pode me levar... É isso que me provou, e prova, a "existência" de algo "além", que na verdade não está em lugar nenhum e está em todos, está sempre aqui. A existência daquilo que não pode ser dito... só provado. Que me mostrou o verdadeiro sentido do termo "liberdade".


Como disse, sinto isso quase que diariamente, de forma diferenciada e em intensidades que variam tbm. Principalmente quando tudo está bem. Quando os estudos estão em dia, quando o trabalho não exige muito (sobra tempo para escrever e-mails), quando o cansaço não bate e principalmente quando estou em harmonia com as pessoas, ..................................... Mas quando os problemas começam a surgir, a intensidade vai baixando e em alguns dias, vivo como uma "pessoa normal".

(Trechos de carta de um aluno sobre um retiro zen budista.)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Para seguir o caminho de Buda


"No buddhismo Zen há um ritual para se entrar no caminho de Buddha.
Consiste em expressar o arrependimento informal, em buscar refúgio no tesouro triplo e em jurar praticar os três preceitos coletivos puros e os dez preceitos proibitivos. Esse ritual baseia-se na idéia de arrependimento, que significa, no buddhismo, total abertura de coração. se nos abrirmos completamente, consciente ou
inconscientemente, estamos prontos para ouvir a voz silenciosa do universo. [...]

No ritual de arrependimento informal, cantam-se os seguintes versos:
"Todo o karma negativo continuamente criado por mim desde os tempos antigos, por meio da cobiça, da raiva e da auto-ilusão que não tem princípio, nascido de meu corpo, de minha fala e de minha mente, agora eu o confesso, com toda a sinceridade." No buddhismo, arrependimento não significa pedir desculpas a alguém por algum erro ou engano. O arrependimento não é um estágio preliminar para entrar no mundo de Buddha ou para se tornar uma boa pessoa.
Se o arrependimento for interpretado desse modo, caímos, simplesmente, na armadilha do dualismo; uma grande lacuna é criada entre nós e o objeto, seja ele qual for, de que estamos tentando nos arrepender, e isso sempre causará certa confusão. A paz verdadeira não pode ser encontrada no dualismo.
No buddhismo, arrependimento significa nós mesmos nos deixarmos conduzir para estarmos presentes bem no centro da paz e da harmonia.
Ele é a abertura total de nosso coração, que nos permite ouvir a voz dos limites de irradiação de nossa consciência. O próprio arrependimento torna nossa vida perfeitamente pacífica. [...]

O tesouro triplo - "busco refúgio no Buddha, busco refúgio no Dharma,
busco refúgio na Sangha" - é a base dos preceitos buddhistas. Os preceitos, no buddhismo, não são um código moral que alguém ou alguma coisa exterior a nós mesmos nos obriga a seguir. Os preceitos são a natureza de Buddha.
[...]
Os três preceitos coletivos puros, abstenção de tudo o que é mau, de tudo o que é bom, purificação da mente, são os ensinamentos de todos os buddhas.
As duas primeiras normas, abster-se de tudo o que é mau e praticar tudo o que é bom, são preceitos. A terceira norma, purificação da mente, consiste em ter fé sincera no tesouro triplo. Buscar refúgio no Buddha, no Dharma e na sangha significa purificar a mente. [...]

Os dez preceitos proibitivos são: abstenção de tirar a vida; abstenção do roubo; abstenção do adultério; abstenção da mentira; abstenção do tóxico; abstenção da fala enganosa; abstenção do auto-elogio por meio da calúnia contra os outros; abstenção da avareza na outorga do Dharma; abstenção da ira; abstenção de injúria contra o tesouro triplo."

(Dainin Katagiri, Retornando ao Silêncio)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Rohatsu Sesshin - SP


Rohatsu Sesshin 2011
Retiro da Iluminação no Templo Busshinji

Inscrições abertas.

O Templo Busshinji de São Paulo realizará no período de 11 à 17 de dezembro de 2011 o Rohatsu Sesshin - Retiro da Iluminação.

Palestras com o Rev. Issho Fujita
Diretor do Centro Internacional do Budismo Zen Soto
Tema: Fukan Zazengi

Direção do retiro: Dosho Saikawa Roshi
Abade do Templo Busshinji e Superior da
Comunidade Budista Soto Zenshu da
América do Sul

O Templo Busshinji dispõe de 30 vagas para acomodação que serão disponibilizadas de acordo com a ordem de efetivação das inscrições.

Aos interessados solicitamos que encaminhem as informações abaixo por email para o seguinte endereço:

busshinji_sp@hotmail.co.jp

Nome :
Email:
Tel.
Cel.
Restrições Alimentares:
Nome Búdico:
Mestre:
Data da Ordenação:
Templo ou Dojo:
Número de vezes que participou de Sesshin no Templo Busshinji de São Paulo:


Regras Fundamentais:
1 - O Rohatsu Sesshin 2011 inicia no dia 11 de dezembro às 10h da manhã e vai até o dia 17 de dezembro às 14h - Cerimônia de abertura do retiro às 13h30 do dia 11;
2 - O valor é de R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais);
3 - Os inscritos devem ingressar até as 10 horas da manhã do dia 11 de dezembro;
4 - Após o ingresso no Sesshin, a permanência é obrigatória até o dia e hora de encerramento no dia 17 de dezembro;
5 - Em caso de desistência, após a inscrição ou no decorrer do Sesshin, o valor pago não será devolvido;
6 - Não há a possibilidade de participação intercalada durante o Sesshin;
7 - Convidamos a todos os praticantes a participarem do Sesshin. Mas, desestimulamos àqueles que não tenham treinado zazen suficientemente;
8 - É obrigatório manter silêncio durante o Sesshin, inclusive nos momentos de outras atividades;
9 - Não será permitido utilizar o telefone, inclusive os celulares (Em casos de extrema necessidade, o templo fará o recebimento das ligações e o devido encaminhamento);
10 - O alimento oferecido durante o sesshin é fresco e vegetariano, todos devem aceita-lo sem discriminação;
11 - Durante o período do Sesshin, não será permitido deixar o local para cuidar de assuntos pessoais;
12 - Recomendamos o uso de roupas pretas com calças mais largas, dogui ou similar;
13 - O templo não disponibilizará roupas de cama, portanto recomendamos que tragam lençóis e manta (as temperaturas costumam cair bastante à noite). Recomendamos também, para uso pessoal, toalhas, um par de sandálias de borracha, produtos de higiene pessoal e outros de sua necessidade;
14 - Com exceção do dia 11 de dezembro, as atividades terão início às 5h45 e término às 19h30;
15 - O despertar será às 5h30 e o recolhimento às 22h00.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Nishida Kitaro


Nishida Kitaro – O fundador da filosofia no Japão
( copiado do site: http://projetophronesis.wordpress.com/2010/04/19/nishida-kitaro-o-fundador-da-filosofia-no-japao/
O Japão de Nishida

Nishida Kitaro (1870-1945) nasceu no começo da Era Meiji (1868-1912), quando o Japão abriu suas portas para o Ocidente depois de dois séculos e meio de isolamento. Neste momento, o Japão estava em uma situação difícil causada pelos outros países, pois os Estados Unidos estavam se expandindo a oeste de seu continente, a França e a Inglaterra estavam se expandindo na Ásia e na África e seus mais próximos vizinhos eram a China e a Rússia, países de proporções continentais, assim só havia dois destinos para o povo japonês: se tornar um peão do imperialismo europeu e americano ou se tornar um império asiático à sua forma, através de uma enorme reconstrução social, política, econômica e científica. E, como sabemos, a segunda opção foi a tomada.

Já no incipiente século XX, não havia mais volta desta decisão. Pois, os japoneses haviam derrotado a China (1894-1895) e a Rússia (1904-1905) em duas guerras e feito um grande pacto com a Inglaterra. Pelo crescimento da sociedade industrial do Japão, foi necessário cada vez mais expandir sua influência e poder pela Ásia e Pacífico por matérias-primas. Desta forma, reforçou seu poder imperialista e se envolvendo em várias seqüências de eventos iria desencadear na Segunda Guerra Mundial.

Os primeiros intelectuais da era Meiji esperavam ser possível desenvolver o país, ou seja, modernizá-lo sem mudar seu sistema de valor cultura, como Sakuma Shosan (1811-1864) expressava em sua famosa frase: “técnicas ocidentais, moral oriental”. Mas, quanto mais se aprofundava os estudos sobre o pensamento ocidental, mais os estudiosos ficavam céticos quanto a questão de a moral e da religião não acompanharem as mudanças sócio-político-econômicas.


O problema do Japão e a solução de Nishida

Neste momento da história do Japão, não se há resposta para a questão de o que se fazer com a moral e a religião japonesa, uns pensavam ainda como Sakuma Shosan, outros ainda diziam para o Japão se cristianizar, pois, no Ocidente, cristianismo e ciência se desenvolveram tão intimamente que já estariam interligados. Fato é que o Japão não poderia mais ter uma face da ciência e tecnologia e outra para os valores tradicionais japoneses, pois sofreria de uma esquizofrenia cultural, a “Terra do Sol Nascente” precisava ter um rosto apenas, mas não uma mera escolha de lados e exclusão do outro e, sim, um rosto que abraçasse a ambos os lados, a ambas as idéias. E este rosto foi mostrado primeiramente em “A Study of Good” (1911) por Nishida Kitaro.

Em seu livro, se viu deparado não com um problema cultural, mas um problema fundamental para a filosofia, o Japão não teria que se tornar cristão para se desenvolver melhor, isto mesmo seria um erro ocidental em relação ao fato e o valor, respectivamente, a como vê seu empirismo e sua moralidade (religião e arte).

Nishida viu que esta separação entre fato e valor, empirismo e moralidade era já uma grande divergência entre o pensamento japonês e o ocidental. Assim, bastava, como solução, juntá-las de volta, mas, para isto, Nishida usou a noção de “experiência pura”, que achou nos escritos de William James, para “articular a fluência da experiência comum através da unidade que está sob ambas as empresas da experiência e dos valores”[1]. No fundo, ciência e moralidade compartilham o mesmo caminho (“a vontade”) para a unidade, o que Nishida chama de “intuição intelectual”.

Desta maneira, o dilema fato/valor também satisfez às idéias do Zen budismo, pois traz a unidade original da experiência de volta. Ou seja, “A Study of Good

” conseguiu satisfazer a muitos unindo tais extremos, acabou por se tornar popular entre os intelectuais japoneses, pois fez da filosofia algo japonês e, assim, nasceu a Escola de Kyoto.


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[1]KASULIS, Thomas in: CARTER, Robert E. The nothingness beyond god. Paragon house. 1997. P. 13


Citações:
Despertar para o nosso si-mesmo, no saber da nossa própria morte, significa que precisamos morrer eternamente, entrar no nada eterno, para viver a Grande Vida, isto é, para romper o eterno retorno, o circuito perene do nascimento da morte, que é precisamente a morte eterna.

O mundo da Grande Vida, da Consciência Desperta e Iluminada – que vive no seu agir cotidiano a simultaneidade do 'samsara' e do 'nirvana' – é o resultado da expressividade autocriadora do mundo como autodeterminação do presente absoluto.

Apreender o Caminho do Buddha é apreender a se conhecer. Conhecer-se a si mesmo é apreender a se esquecer de si mesmo; e se esquecer de si mesmo significa ser Illuminado por todas as coisas, trazer todas as coisas à manifestação.

Kitaro Nishida

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Colegiado Buddhista Brasileiro


Manifestação do CBB no Templo Busshinji, sobre a perseguição a budistas no Myanmar.


P: O que é o colegiado?

R: Por definição um colegiado é apenas a reunião de um grupo de pessoas que se consideram colegas, irmãos em um determinado interesse. O CBB é uma reunião de pessoas, não de instituições, que assim tem um forum onde podem partilhar seus interesses. O CBB não é um orgão executivo dedicado a fazer seminários, retiros ou quaisquer coisas do gênero, estas são atividades dos centros do Dharma ou outras instituições. Pertencem ao CBB os professores que, por interesse em convivência harmônica desejam se filiar e são aceitos por seus pares. Não pertencer aos quadros do CBB não significa demérito mas simplesmente dificuldade associativa com a diversidade de escolas/pessoas.

P: A cartilha do CBB é um documento doutrinário?

R: A cartilha budista publicada pelo colegiado é um esforço de compatibilização entre as definições de várias escolas diferentes, destina-se ao uso da imprensa e não ao estudo sectário.

P: O CBB representa o budismo brasileiro?

R: Representa a associação dos indivíduos que a ele se filiam. Como estes representam
a grande maioria das escolas e lideram ou participam das instituições mais numerosas, tem um peso que lhe permite algumas ações. Portanto não representa o "budismo" mas sim este conjunto de pessoas.

Monge Genshô

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Felicidade


Matthieu Ricard ( Monge budista Vajrayana, França, 1946 ~):
Muitas receitas para a felicidade insistem que, por natureza, somos uma mistura de luz e sombra, portanto devemos aprender a aceitar os nossos erros e as nossas qualidades positivas. Elas afirmam que podemos resolver a maior parte dos nossos conflitos interiores e viver cada dia com confiança e bem-estar se desistirmos de lutar contra as nossas próprias limitações. O nosso melhor caminho seria liberar a própria natureza, já que tentar contê-la só agravaria os problemas. [...] Mas todas essas receitas não seriam apenas uma maneira de embalar os nossos hábitos num pacote bonito?
Pode até ser que “expressar-se naturalmente”, dar liberdade aos próprios impulsos “naturais”, traga alívio momentâneo para as tensões interiores, mas continuaremos presos à armadilha do círculo sem fim dos nossos hábitos. Uma atitude como essa não resolve nenhum problema sério, já que ao sermos ordinariamente nós mesmos, permanecemos ordinários. Como escreveu o filósofo francês Alain: “Não é preciso ser feiticeiro para rogar uma praga sobre si mesmo, basta dizer: ‘Sou assim e não posso fazer nada’”.
Somos muito parecidos com aqueles pássaros que passaram tanto tempo na gaiola que mesmo quando têm a possibilidade de voar para a liberdade voltam a ela. Estamos tão acostumados com nossos erros que mal podemos imaginar como seria a vida sem eles. A perspectiva de mudança nos dá vertigens.
E isso não é falta de energia. Como dissemos, fazemos esforços consideráveis em um sem-número de direções, empreendendo incontáveis projetos. [...] Mas se nos ocorre pensar: “Eu deveria tentar desenvolver o altruísmo, a paciência, a humildade”, hesitamos, e dizemos a nós mesmos que essas qualidades virão naturalmente a longo prazo, ou que não são grande coisa e que, até agora, passamos perfeitamente bem sem elas.
Quem, sem esforços metódicos e determinados, pode interpretar Mozart? Certamente isso não é possível se ficamos martelando o teclado com dois dedos. A felicidade é um modo de ser, é uma habilidade, mas para desenvolvê-la é necessário aprendizado. Como diz o provérbio persa: “A paciência transforma a folha de amora em seda”.
“Felicidade”, cap. 3
Cortesia de Aluízio Laranjeira

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Guerra e budismo


Sobre o credo de compaixão do Buddha, H. Fielding Hall escreve em The Soul of a People: “Não pode nunca haver uma guerra do Buddhismo. Nenhum país arrasado já foi testemunha do poderio dos seguidores do Buddha; nenhum homem assassinado jorrou sangue em seus lares, matou em seus nomes; jamais mulheres arruinadas amaldiçoaram seu nome aos céus. Ele e sua fé estão livres da mancha de sangue. Era o pregador da Grande Paz, do amor e da caridade, da compaixão, e tão claro em seu ensinamento que não pode jamais ser incompreendido”.

Texto de Piyadassi Thera citado pelo Prof. Sasaki

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Eutanásia


Recomendado pelo Rev. Wagner o artigo abaixo examina, mais do que o budismo, o efeito dele sobre o comportamento na sociedade japonesa. Certos pontos, como a doação de orgãos tem visões diversas em outros pensadores budistas, sobrepondo-se a compaixão as considerações sobre a integridade corporal.
Devido a extensão posto apenas a parte sobre o budismo.

A Eutanásia na Visão das Grandes Religiões Mundiais
(Budismo, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo)
Léo Pessini

Este artigo aborda a questão da eutanásia no âmbito das quatro grandes religiões mundiais, ou seja, o budismo, o islamismo, o judaísmo e o cristianismo. Parte de alguns conceitos fundamentais, tais como vida humana, morte, sofrimento, ser humano e direitos humanos, entre outros, com as matizações específicas dadas pelo patrimônio de valores e crenças de cada religião. Com exceção do budismo, que vê a vida como preciosa, mas não divina, pois não existe um deus criador nesta religião, em todas as outras a vida é considerada sagrada, dom de um ser transcendente, onfiado ao ser humano para torná-la plena. Recusá-la ou cortá-la é uma grande ofensa contra os "céus"
("Não matarás"). Uma tensão crescente surge em relação às verdades tradicionais e às novas realidades trazidas pelas ciências da vida e da saúde (conceito de morte encefálica, transplantes e doação de órgãos, entre outras novidades), provocando os pensadores religiosos a irem para além do mimetismo fundamentalista, ousarem criativamente na interpretação e resgate do "espírito da lei". Existe um sim fundamental pela preservação da vida até o seu final natural, manifestado
no cuidado dos moribundos, procurando proporcionar dignidade no adeus à vida,
evitando-se o prolongamento artificial e penoso do processo do morrer.

UNITERMOS - Eutanásia-religiões; bioética-eutanásia; bioética teológica -eutanásia

Introdução

Ao olhar e refletir sobre o futuro da bioética, o eminente bioeticista norte-americano Edmund Pellegrino, do Instituto Kennedy de Bioética (Washington, D.C.), aponta a religião e a bioética teológica como uma das três questões mais proeminentes que a bioética terá de trabalhar no primeiro quarto do próximo século. As outras duas questões levantadas referem-se à diversidade de opiniões sobre o que é bioética (busca de consenso possível?) e o relacionamento dos vários conceitos sobre ética e bioética.

Até agora, a bioética religiosa ficou na penumbra da bioética filosófica. À medida que nossa consciência da diversidade e diferenças culturais cresce, prevê-se que os valores religiosos que embasam o diálogo público virão à superfície. Até o momento, não temos uma metodologia adequada para lidar com a crescente polarização que as convicções trazem ao debate. Precisamos ser capazes de viver e trabalhar juntos, mesmo quando nossas mais profundas convicções filosóficas e religiosas, sobre o que é certo e errado, estejam em conflito (1,2).

As religiões, segundo Hans Kung, são todas mensagens de salvação que procuram responder às mesmas perguntas básicas das pessoas. As perguntas sobre os eternos problemas do amor e sofrimento, culpa e reparação, vida e morte: donde vêm o mundo e suas leis? Por que nascemos e por que devemos morrer? O que governa o destino do indivíduo e da humanidade? Como se fundamentam a consciência moral e a existência de normas éticas? Todas oferecem caminhos semelhantes de salvação: caminhos nas situações de penúria, sofrimento e culpa da vida terrena; indicação de caminhos para um procedimento correto e conscientemente responsável nesta vida, a fim de alcançar uma felicidade duradoura, constante e eterna, a libertação de todo sofrimento, culpa e morte (3,4).

Mas tudo isso também significa que mesmo quem rejeita as religiões tem que levá-las a sério, como realidade social e existencial básica. Elas têm a ver com o sentido e não-sentido da vida, com a liberdade e escravidão das pessoas, com a justiça e opressão dos povos, com a guerra e paz na história e no presente.

As religiões podem dar às pessoas uma norma superior de consciência, aquele imperativo categórico tão importante para a atual sociedade e que obriga numa outra profundidade e firmeza. Pois todas as grandes religiões exigem uma espécie de "regra de ouro" - não se trata de uma norma hipotética, condicional, mas de uma norma incondicional, categórica e apodítica - totalmente praticável diante das mais complexas situações que os indivíduos ou mesmo grupos possam apresentar.

Esta "regra de ouro" já foi atestada por Confúcio: "O que não desejas para ti, também não o faças aos outros" (Confúcio, cerca de 551-489 aC); também no judaísmo, em formulação negativa: "Não faças aos outros, o que não queres que te façam a ti" (Rabi Hillel, 60 aC-10dC); com Jesus de Nazaré, em forma positiva: "O que quereis que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles" (Mt 7,12;Lc6,31); no budismo: "Um estado que não é agradável ou prazeroso para mim não o será para o outro; e como posso impor ao outro um estado que não é agradável ou prazeroso para mim?" (Samyutta Nikaya V, 353.3-342.2); e no islamismo: "Ninguém de vocês é um crente a não ser que deseje para seu irmão o que deseja para si mesmo".

Esta "regra de ouro" poderia opor-se a uma crua ética de resultados que não é ética nenhuma; também não precisaria ser entendida como pura ética de intenções, que não percebe a realidade. Poderia, sim, ser o centro de uma ética de responsabilidade (Max Weber, Hans Jonas) que sempre leva em consideração as conseqüências de nosso agir e omitir.

Ao contrário das filosofias, as religiões não apresentam apenas modelos de vida abstratos, mas "pessoas modelares". Por isso, as figuras líderes das religiões mundiais são da maior importância: Buda, Jesus de Nazaré, Confúcio, Lao-Tse ou Maomé. Existe uma grande diferença entre ensinar abstratamente às pessoas uma nova forma de vida e poder apresentar-lhes um modelo concreto de vida comprometida com a nova forma para a qual se deseja convidar alguém: seguir Buda, Jesus Cristo, Confúcio, Lao-Tse ou o profeta Maomé. Para o cristão, Jesus de Nazaré é o caminho, a verdade e a vida, mas "o caminho, a verdade e a vida" para o judeu crente é a Torá; para o muçulmano, o Corão; e para outras religiões, alguma outra pessoa ou coisa.

Isto posto, não duvidamos da pertinência de se abordar a questão da eutanásia e o que as maiores religiões mundiais dizem a respeito. Abalizados pensadores na área da bioética, dizem que, assim como o aborto foi o tema do século XX, com liberalização em muitos países do globo, a eutanásia certamente será a grande questão do século XXI. Nos condicionamentos de um texto introdutório, que tem como objetivo apresentar de forma simples, objetiva e sucinta, consciente de correr o risco de ser simplista, uma questão polêmica tal como a visão da eutanásia das quatro maiores religiões mundiais, a saber: budismo (I), islamismo (II), judaísmo (III) e cristianismo (IV).

I - O budismo

O budismo é uma das maiores religiões mundiais, contando, hoje, com aproximadamente 500 milhões de adeptos. Foi fundado na Índia, por Siddharatha Gautama (480-400 aC), que foi iluminado aos 35 anos e desde então passou a ser conhecido com o título honorífico de Budda, que significa o iluminado. Buda é mais que um personagem histórico a ser reverenciado. Lembremos que a palavra Buddha vem da raiz Buddh, que significa despertar, conhecer, ir às profundezas. Buda é o desperto, estado que todos devemos aspirar e realizar.

Buda não deixou sucessores e não existe uma autoridade central em questões de doutrina e ética, embora a ordem dos monges (sangha) por ele instituída é reconhecida por muitos budistas como a instância autoritativa e intérprete dos seus ensinamentos. O objetivo de todos os budistas é a iluminação (nirvana), um estado de espírito e perfeição moral que pode ser conseguido por qualquer ser humano que viva de acordo com os ensinamentos de Buda. O budismo não acredita num ser superior ou num deus criador (uma religião sem Deus?). Buda não foi Deus ou um deus. Ele foi um ser humano que obteve iluminação completa por meio da meditação e mostrou o caminho do despertar espiritual e da liberdade. Portanto, o budismo não é uma religião de Deus, mas uma via não-teísta, o que não quer dizer o mesmo que ateísta. O budismo simplesmente não entra na questão da existência ou não de Deus, de um criador e sua natureza. Daí que muitos estudiosos ocidentais o encaram mais como uma "filosofia de vida", caminho de sabedoria, iluminação e compaixão. Como os adoradores de Deus que acreditam que a salvação pode ser obtida para todos através da confissão dos pecados e uma vida de oração, os budistas acreditam que a salvação e a iluminação são conquistadas pela remoção das impurezas e ilusões por meio de uma vida de meditação.

Os preceitos e ensinamentos éticos budistas, conseqüentemente, são vistos não como mandamentos divinos, mas como princípios racionais que, se seguidos, promoverão o florescimento e o bem-estar de si próprio e dos outros. Freqüentemente, os documentos budistas se referem a Buda como sendo o "grande médico". Assim como o médico cuida das doenças do corpo, Buda cuida das doenças do espírito (5,6,7).

Conceito de morte e transplantes no budismo

A questão da morte encefálica e a conveniência de transplantes de órgãos criaram grande preocupação. A controvérsia está ligada ao sentido da vida e da morte. Recentemente (12.1.98) o Comitê de Bioética da Associação Médica Japonesa (instância consultiva) emitiu um parecer a respeito da morte encefálica e transplantes de órgãos. É significativo que estas recomendações exigem o consentimento informado. O paciente ou a família podem recusar o uso do critério do encéfalo na determinação da morte. Segundo Rihito Kimura, um expoente da bioética no Japão, o público japonês gradualmente aceitará o uso do critério do cérebro para determinar a morte e transplantes de órgãos, embora com sérias restrições. A história mostra que a mudança de atitudes públicas no Japão é possível. Há muito tempo atrás, os japoneses tinham forte objeção em relação à doação de sangue. Isso foi superado e eles hoje apresentam um dos mais altos índices de doação de sangue do mundo (8,9).

Os budistas, tradicionalmente, associaram a vida com a sensibilidade e, num sentido amplo, esta concepção engloba também os animais e plantas. A sensibilidade inclui consciência e sentimento. Uma vez que o sentimento é parte da sensibilidade, muitos budistas não apóiam transplantes de órgãos, especialmente os transplantes de coração. A morte da mente não é a morte da pessoa. Baseado na doutrina da interdependência, a morte é entendida como sendo a dissolução da mente e do corpo. Contudo, a definição comum de morte é a morte de todo o corpo. A "morte" é causada pelo "cortar a respiração de um ser vivente".

A crença budista na temporalidade também ressalta uma preocupação com os transplantes de órgãos. Uma vez que a vida é transitória e a morte inevitável, e uma vez que a missão espiritual é transcender este mundo, existe uma percepção comum de que a vida e a morte devem seguir seu curso natural. Conseqüentemente, o transplante de órgãos é freqüentemente possível somente às custas da vida de outrem. Tal procedimento viola o preceito que proíbe tirar a vida, diminuindo o valor da mesma. Por isso, alguns budistas advogam o desenvolvimento e uso de órgãos artificiais. Em lugar de prolongar a vida utilizando medidas heróicas, esses budistas dispensam as suas vidas ao cuidado dos moribundos.

Os budistas apelam para a noção de interdependência ao abordar os dilemas éticos. Em relação ao suicídio assistido e assuntos relacionados, a perspectiva budista enfatiza o processo de decisão. Eles procuram levar em consideração todos os aspectos do sofrimento, equilibrando o desejo do indivíduo por uma morte suave com o dever do médico de não causar dano e o desejo da sociedade de preservar a vida.

Os dilemas gerados pelos avanços da moderna tecnologia desafiaram os preceitos do budismo tradicional. Buda estava consciente das limitações da Vinaya (normas monásticas seguidas pelos monges budistas) e de sua capacidade de responder aos novos problemas. Buda sempre enfatizou que ele era um guia, não uma autoridade, e criou um método para determinar a conduta correta. Se a Vinaya, seus comentários e intérpretes atuais não oferecem um curso de ação satisfatório, Buda pediu aos seus discípulos para tomarem suas próprias decisões, baseadas na sabedoria e compaixão. Este ceticismo benevolente de Buda estimula a imaginação moral em relação às difíceis questões éticas.

A resistência em apressar a morte e sua relação com a doação de órgãos provém da imagem tradicional japonesa de se considerar o ser humano como unidade integral de corpo e espírito, mais que aspectos distintos e separados de mente, corpo e espírito. A unidade continua após a morte, de maneira que remover um órgão de um cadáver é visto como perturbador dessa unidade espiritual e corporal. Isto também explica porque as autópsias são rejeitadas no Japão. A unidade vai além do indivíduo. O destino essencial da vida humana envolve um ritmo em que todas as coisas viventes - plantas e animais - vivem juntas no mesmo nível. Esse ensinamento shintanista e budista difere da ética judaico-cristã, que considera os humanos como imagem de Deus, e conseqüentemente estão numa relação diferente com os outros seres viventes. Para o japonês, a morte perturba o ritmo de todas as coisas viventes e, portanto, não deve ser apressada. Contrastando com as preocupações atuais na área da saúde nos Estados Unidos, em não prolongar o processo do morrer indevidamente, o povo japonês está mais preocupado em realizar os rituais do processo do morrer e não em terminar a vida prematuramente (8,10).

Em relação à morte, os budistas japoneses já há muito reconheceram o que os ocidentais estão redescobrindo só recentemente: que a forma de morrer, o momento preciso da morte, é muito importante. Essa premissa fundamental provavelmente é anterior ao próprio budismo, mas se torna bem explícita nos ensinamentos de Buda. Em suas meditações, Buda declarou que a variável crucial que governa o renascimento é a natureza da consciência no momento da morte. Por isso, os budistas atribuíram grande importância ao fato de ter pensamentos apropriados no momento da morte. Em duas obras do Cânon theravada (escola do budismo mais antiga sobrevivente, prevalente no sul da Ásia), o Pwetanvatthu e o Vimanavatthu (histórias dos defuntos), podemos encontrar muitos exemplos desta idéia. Certamente, em muitos sutras os monges visitam leigos em seus leitos de morte para assegurar que os pensamentos dos moribundos sejam salutares e Buda recomenda que os seguidores leigos também se animem reciprocamente em tais ocasiões.

O budismo não vê a morte como o fim da vida, mas simplesmente como uma transição: o suicídio não é, portanto, um escape. Assim, no sangha (comunidade dos seguidores de Buda) inicial, o suicídio foi condenado, em princípio, como uma ação imprópria. Mas os textos budistas mais recentes incluem muitos casos de suicídio que o próprio Buda aceitou e perdoou. Por exemplo, os suicídios de Vakkali e de Channa foram cometidos por causa de enfermidades dolorosas e irreversíveis. Mas é importante observar que a aceitação de Buda aos suicidas não se baseia no fato de eles estarem em estado terminal, mas porque estavam com as mentes livres de egoísmo e de desejos e iluminadas no momento da morte.

O budismo reconheceu há tempos o direito de as pessoas determinarem quando deveriam passar desta existência para a seguinte. O importante, aqui, não é se o corpo vive ou morre, mas se a mente pode permanecer em paz e harmonia consigo mesma. A tradição Jodo (a terra pura) tende a dar ênfase à continuidade da vida, enquanto a tradição Zen tende a sublinhar a importância do momento e a maneira de morrer. Os budistas japoneses demonstraram uma despreocupação com a morte, inclusive maior que a de seus vizinhos. Os japoneses valorizavam mais a paz da mente e a honra da vida do que uma vida longa.

A eutanásia e o código samurai do suicídio

Não por mera coincidência a palavra correspondente a eutanásia em japonês é anrakushi, um termo que tem um significado budista. Na terminologia budista, anrakukoku é outro nome para a Terra Pura, o mundo do Bodhisattva Amida, ao qual esperam ir os japoneses depois da morte. A lei japonesa não penaliza o suicídio; entretanto, considera um crime auxiliar um suicida ou incentivá-lo. Em situações normais, não pode haver nada mais sábio e prudente que isso, pois a pessoa saudável deveria ser incentivada a viver e fazer o máximo possível com sua vida. Mas, nas situações em que se exige songenshi (morte com dignidade), o fato de uma pessoa estar enfrentando uma morte iminente é que faz com que seja moralmente aceitável assisti-la em seu suicídio, em particular se o motivo for a compaixão.

É importante assinalar que o código samurai do suicídio incluía uma disposição para a eutanásia: o kaishakunin (assistente). O simples corte do hara (abdome) era muito doloroso e não provocava uma morte rápida. Depois de cortar o hara, poucos samurais tinham forças suficientes para degolar-se ou cortar a espinha dorsal. Mas sem cortar o pescoço a dor do hara aberto continuaria durante minutos e até horas antes da morte. Portanto, o samurai combinava com um ou mais kaishakunin para que o assistissem em seu suicídio. Enquanto o samurai tranqüilizava sua mente e se preparava para morrer em paz, o kaishakunin permaneceria a seu lado. Se o samurai falasse ao kaishakunin antes ou durante a cerimônia seppuku, a resposta padrão era "go anshin" (mantém tua mente em paz). Todas as interações e conversações que rodeavam um seppuku ordenado oficialmente também estavam fixadas pela tradição, de modo que o suicida pudesse morrer com a menor tensão e a maior paz mental. Depois que o samurai terminasse de abrir o ponto prees-tabelecido ou desse qualquer outro sinal, o kaishakunin tinha o dever de cortar-lhe o pescoço para terminar com sua dor, dando-lhe o golpe de misericórdia.

Muitos suicídios samurai eram de fato o equivalente moral da eutanásia. As razões para o suicídio do samurai eram:

evitar a morte inevitável por mãos de outros;

escapar de um período mais prolongado de dor insuportável ou de sofrimento psicológico, pois não podiam continuar a ser membros ativos e úteis para a sociedade.

São justamente estas as situações em que atualmente se deseja a eutanásia:

para evitar uma morte inevitável por mãos de outros;

para evitar um longo período de dor ou de sofrimento, por não poder ser mais um membro ativo e útil para a sociedade.

Persiste, hoje, uma pergunta importante para os budistas: existe diferença entre o suicídio e a eutanásia? Uma diferença essencial é saber se a pessoa sujeita à eutanásia está consciente. Neste caso, a não ser que tenha feito um testamento em vida (living will), não temos como saber se o paciente quer de fato a eutanásia. Por outro lado, uma vez que a consciência se dissociou permanentemente do corpo, o budismo não vê razão para continuar nutrindo ou estimulando o corpo, que não é mais uma pessoa.

Marco legal da eutanásia no Japão

Um dos mais importantes precedentes legais relacionado às questões da morte e do morrer até o momento nunca foi aplicado desde seu estabelecimento em 1962. O caso é usualmente citado como sendo a "Decisão da Corte Suprema de Nagoya de 1962". Diz respeito a um jovem que atendendo ao pedido do pai em estado terminal, para poupá-lo da dor e sofrimento, lhe preparou leite envenenado para beber. Este jovem incentivou sua mãe, que não sabia que o leite estava envenenado, a administrá-lo ao marido. No julgamento, a corte identificou seis condições que devem ser preenchidas para se ter permissão legal para a prática da eutanásia:

a enfermidade é considerada terminal e incurável pela medicina atual e a morte é iminente;

o paciente deve estar sofrendo de uma dor intolerável, que não pode ser aliviada;

o ato de matar deve ser executado com o objetivo de aliviar a dor do paciente;

o ato deve ser executado somente se o próprio paciente fez um pedido explícito;

cabe ao médico realizar a eutanásia; caso isto não seja possível, em situações especiais será permitido receber assistência de outra pessoa;

a eutanásia deve ser realizada utilizando-se métodos eticamente aceitáveis (22 December 1962, Nagoya Court, Collected Criminal Cases At High Court, vol.15, n. 9, p. 674).

Se essas condições forem cumpridas, parece não haver razão moral para se opor à prática da eutanásia. Nesse caso, a Suprema Corte de Nagoya decidiu que os quatro primeiros critérios foram honrados, mas os dois últimos não. O jovem foi condenado a quatro anos de prisão. O código penal japonês prevê punições severas, pena de morte ou prisão perpétua, para o homicídio de ascendentes; contudo, no caso específico, a Corte sentiu que o desejo de honrar seu dever filial de seguir as diretrizes verbalizadas pelo pai era evidente, e aplicou-lhe uma sentença mais leve.

À luz dos avanços médicos e tecnológicos, as decorrências da decisão da Corte Suprema de Nagoya mudaram de muitas maneiras. Doenças antes consideradas fatais, agora podem ser efetivamente tratadas ou curadas. Foram desenvolvidos métodos mais eficazes de controle da dor; cerca de 25 hospitais mantêm unidades de cuidados paliativos, incluindo hospices, que são oficialmente reconhecidos no Japão desde 1990 (8).

Utilização de drogas para aliviar a dor

Outra questão é a relação entre as drogas que suprimem a dor e o prolongamento da vida e a aceleração da própria morte. A Associação para a Morte com Dignidade, do Japão, sugere a administração das drogas que suprimem a dor, mesmo que acelerem a morte do paciente. Os budistas concordam com o seguinte: é desejável o alívio da dor e a questão primordial não é se a morte é acelerada ou não. No caso em que a dor seja extrema e só drogas fortíssimas poderiam suprimi-la, teríamos que decidir entre:

não fazer qualquer tratamento;

administrar drogas contra a dor que só turvam ou confundem a mente do paciente;

aplicar um tratamento que acelere o fim, mantendo lúcida a mente.

Nessa situação, o budista preferiria a primeira, a via mais natural: não tentar qualquer tratamento. Caso a mente do paciente seja incapaz de concentrar-se ou de estar em paz por causa da dor, o budista escolheria a alternativa c antes de b, porque a lucidez de consciência no momento da morte é muito importante para o budismo.

Os médicos que não gostam da idéia de interromper a vida de uma pessoa prefeririam prolongar os processos biológicos físicos da vida, sem se preocupar com a qualidade mental dessa vida. É justamente nesse ponto que os budistas estão em desacordo com a medicina ocidental materialista. Mas não é necessária a existência de conflito entre o budismo e a medicina. Não há razão para atribuir ao médico a "responsabilidade" da morte do paciente. Segundo as diretrizes da Corte Suprema de Nagoya, os pacientes potencialmente elegíveis para a eutanásia morreriam de qualquer forma em pouco tempo, e o médico não tem culpa alguma.

O que importa para os budistas é conceder ou não à pessoa a responsabilidade por sua vida e destino. Toda a tradição budista, e em particular a do suicídio no Japão, valoriza sobremaneira a decisão pessoal quanto ao tempo e a forma de morrer. Tudo que os outros fizerem para obscurecer a mente de quem está morrendo ou para impedi-lo de fazer a escolha, constitui uma violação de princípios budistas (5).

Resumindo, a perspectiva budista em relação à eutanásia é: no budismo, embora a vida seja preciosa, não é considerada divina, pois não existe a crença em um ser supremo ou deus criador. No capítulo dos valores básicos do budismo, além da sabedoria e preocupação moral , que andam juntas, existe o valor básico da vida, que diz respeito não somente aos seres humanos, como é comum nas outras religiões mundiais, mas inclui também a vida animal e até mesmo os insetos. A crença no Karma e renascimento tem uma profunda influência na atitude budista em relação à natureza vivente. É o que faz com que os budistas não tenham uma separação entre vida humana e outras formas de vida.

Muitos budistas japoneses acreditam que a diminuição gradual do calor corporal deve ser sentida no processo do morrer, e que apressar isso e remover órgãos de um corpo ainda quente não é um fim de vida esperado. A resistência em apressar a morte e remoção de órgãos deriva da imagem tradicional que vê os seres humanos como unidades completamente integradas mente e corpo, antes que distintas e separadas unidades de mente, corpo e espírito. Essa unidade continua após a morte e, assim, a remoção de um órgão do corpo quebra esta unidade espírito-corpo - o que explica porque as autópsias não são populares no Japão.

Grande ênfase é dada ao estado de consciência e paz no momento da morte. Não existe uma oposição ferrenha à eutanásia ativa e passiva, que podem ser aplicadas em determinadas circunstâncias.