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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Cada Cabeça Uma Sentença


Pergunta: Então essa frase que “toda realidade é uma realidade subjetiva” não se aplica no budismo?

Monge Genshô: O mar existe independentemente de você existir. Você pode desaparecer, e o mar vai continuar. Seria um pouco absurdo pensar o contrário. Essa seria exatamente a postura dessa escola que citei, que defende a consciência apenas. Parece meio espetacular a gente dizer isso, dizer que toda existência é subjetiva, é como se pensássemos que se eu não existir todos vocês vão desaparecer porque são criações da minha mente, são criações subjetivas. Vocês sentem assim? Não sentem, porque não faz sentido. Nós desaparecemos e tudo continua.

Pergunta: Acho assim: o mar que você enxerga desaparece quando você desaparece.

Monge Genshô: Sim, isso é verdade. O mar que você pensa, aquilo que você atribui ao mar, isso sim desaparece, mas o mar em si não. Porque toda percepção, isso é inclusive um problema da semiótica, é única. Eu digo “o mar” e aí surge uma imagem de mar na cabeça de cada um, e se eu perguntar a cada um qual foi o mar que imaginaram as respostas serão distintas. Cada um tem um mar dentro da cabeça. Então no fundo a minha comunicação também é falha. Eu digo coisas e cada um aqui tem uma interpretação, de modo que é até milagroso que nó sejamos capazes de ler poesia e entender o sentimento de quem escreveu. Mas existe gente que lê poesia e não entende o que está lendo, porque simplesmente lhe falta referencial para casar com aquilo que foi dito, ou ele entende as palavras de forma diversa, para ele é como se fosse outra língua. Então existe uma comunicação possível, mas ela não é perfeita, assim como as nossas percepções de tudo são distorcidas, tudo que nós ouvimos também é distorcido. Cada um está ouvindo uma palestra diferente, não tem jeito. Por isso, em ultima análise, a experiência é intransmissível. Você não consegue transmiti-la. Só existe uma maneira: experimentar.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O Pensamento Crítico




Pergunta: Como o Zen vê esses escritos que foram deixados?

Monge Genshô: O Zen vê de forma diferente. Algumas escolas budistas veem como escritos que expressam uma realidade, uma verdade. O Zen vê com olhos críticos. Como professor do Zen eu posso ver um texto que é atribuído a Buda e não estar de acordo com ele. Por ser professor do Zen, já sou um herege, então apenas continuo essa ideia.

Por exemplo, há escritos do tempo de Buda que dizem assim: “a vida surge de um ventre, um ovo ou da umidade”. Da umidade? Nós estamos falando de séculos antes de Cristo; Pasteur estava muito longe dessa época e ninguém sabia nada sobre geração espontânea, sobre microbiologia, sobre como surge a vida microbiana, de modo que achavam que se houvesse umidade era possível criar vida. Muita gente ainda diz hoje: “não deixe sujeira aqui na pia porque cria barata”. Ora, não cria barata! As baratas que estão por aí vão vir atrás da comida, só isso. Mas ainda no nosso linguajar está essa ideia distorcida. Nós sabemos que não é assim, então o Sutra está errado. Qual é o problema de eu dizer que o Sutra está errado e que Buda não entendia de microbiologia? É natural que não entendesse. Buda existiu 2.300 anos antes dessa descoberta.

Então não vou abdicar da minha mente crítica e vou repetir as próprias palavras de Buda: não acreditem em mim, testem e experimentem. Eu não trago uma verdade que vocês têm que aceitar. Não é isso. Eu como professor do Zen tenho que mostrar o que sei, ajudá-los a raciocinar, mas vocês têm que testar e experimentar, não podem aceitar nada pelo argumento de autoridade ou porque o Mestre tem título. Isso não é razoável, não é inteligente.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Verdadeiro Zen




Nesse tipo de tema que estamos entrando começa a ficar difícil na própria palestra transmitir exatamente o que é dito. Para isso tem um ditado no Zen: quando você fala sobre o Zen, o Zen não está ali. Estou falando sobre o Zen, então ele não está aqui, ele está além do que eu posso me expressar, por melhor que eu me esforce. Por isso tantas vezes os professores dizem: “volte para a sua almofada e sente”, só você sentado vai conseguir alguma coisa. Portanto assistir palestra sobre o Zen pode até ajudar, mas não é a experiência do Zen. A experiência do Zen é ir ao sesshin e sentar no zafu de frente para a parede.

Assistir palestras e ler livros é ser intelectual Zen. Um antigo professor meu dizia: “esse é o Zen do cafezinho”. O sujeito lê 5 livros sobre o Zen, depois ele senta num café e explica para os amigos koans, ideias elaboradas, tomando um cafezinho e se acha brilhante, mas ele não é. Muitas histórias do Zen mostram acontecimentos assim.

Tem uma história que conta de um aluno que chega em frente ao Mestre que está fumando um longo cachimbo. Fumar é o hábito dele. O aluno senta-se e diz: “eu entendi o vazio, eu entendi todas as paixões, me livrei de tudo isso”. O Mestre fica ouvindo. De repente o Mestre pega o cachimbo e “pá!”, bate na testa dele. O aluno diz: “o que é isso?”, indignado. E o Mestre pergunta: “se não existe nada de onde é que vem essa raiva?”. Isso mostra a falsidade daquilo tudo que o discípulo estava falando, todo aquele fingimento bonito das palavras.

Isso acontece bastante, alunos vêm falar com o Mestre e tentam impressionar contando experiências maravilhosas, mas como o Mestre já sabe como são as experiências, ele facilmente distingue aquele que está fingindo, daquele que está narrando alguma coisa verdadeira.

Essa é a tarefa do Mestre: mostrar ao aluno o seu engano. O Zen não é psicoterapia, você vai à frente do terapeuta e tenta enganá-lo, porque é isso que as pessoas fazem, todos querem passar uma imagem. No Zen não tem essa oportunidade, porque você só pode enganar a parede, sente-se de frente para ela e tente enganá-la. Inevitavelmente você olha para a parede e se dá conta de que você é uma fraude. Então essa é a sua primeira oportunidade de reconhecer que você é na verdade um idiota. Esse é o início do caminho.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A Compreensão Verdadeira




A melhor definição para mim do budismo não é que o budismo seja uma forma de filosofia, ou religião, mas um pragmatismo dialético de métodos psicológicos, que é a definição de Edward Conze. Nós discutimos de forma prática e temos métodos psicológicos para chegar a determinado fim, ou estados mentais de maior clareza e lucidez. É isso que nós estamos pretendendo, mas nós estamos dando um salto por cima da proposta da linguagem para alcançar uma percepção da realidade.

A percepção da realidade do mar, que era o nosso exemplo, é levar uma pessoa até a frente do mar, mandá-la abrir os olhos e dizer assim “você vê, veja! O que você acha?”, “é lindo”, “está bem, então agora você sabe o que é mar”. É isto. Não é a palavra “mar”, essa palavra é só um intermediário que cria uma distância entre a minha percepção e a dele, mas nós dois olhando o mar podemos ter uma sensação que nos aproxima, mas ela não é o fim da compreensão. Então a verdadeira compreensão é um salto por cima de toda a forma expressa. Talvez a melhor expressão sobre isso seja a anedota: você conta uma anedota e as pessoas riem, se alguém não entende e você explica não há mais riso, porque a explicação, mesmo que dê uma compreensão intelectual, não permite aquele salto, então não tem graça. Por isso nunca devemos explicar uma piada. Quem entendeu, entendeu. Quem não entendeu, deixe assim.

A anedota é um salto por cima de toda a linguagem por uma compreensão mais pura. Esta compreensão pura provoca uma explosão dentro da pessoa e ela se traduz em riso, que é uma forma não verbal de compreensão, mas é a verdadeira compreensão.

Isso aparece de múltiplas formas nas expressões do Zen, nos haikai, nos poemas que pretendem transmitir um momento puro. Na pintura, em várias formas de artes marciais em que você não explica, mas tem a experiência pura, tem a compreensão verdadeira.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]