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sexta-feira, 29 de março de 2013

Engolindo a eternidade



(texto) “Precisamente nesse sentido, se chama mente comum, a flâmula ou desabrochar das flores na primavera, podem ser considerados acontecimentos interiores também, e unicamente nesse sentido. Entendido dessa maneira, nada existe de fato fora da mente e nada acontece fora da mente. Tudo que existe como fenômeno no chamado mundo exterior, não é nada mais que uma forma que manifesta na mente, o noumênico.” (T. Izutsu)

(comentário) Então, a mente se manifesta como fenômeno, todo o mundo exterior se manifesta como fenômeno e só a mente percebe os fenômenos. Tudo que sucede no exterior é um movimento da mente do noumênico, das coisas em si antes das suas interpretações. Isso é o que nós entendemos como Mente.

(texto) “A estrutura da mente assim entendida é de uma natureza aparentemente contraditória, por um lado é inteiramente distinta da consciência empírica no que se refere a dimensão supra sensível e supra racional do ser. Por outro lado se identifica completa e indissoluvelmente com a consciência empírica. A formula de Nan Huang, a mente comum, este é o caminho, se relaciona precisamente com esse último aspecto da mente. Há um antigo adágio Zen que diz “As montanhas, rios, a terra, tudo quanto existe, tudo, sem a mínima exceção é vossa própria mente”.

(comentário) Repetindo esse parágrafo que encerra nossa palestra “A estrutura da mente assim entendida é de uma natureza aparentemente contraditória, por um lado é inteiramente distinta da consciência empírica no que se refere a dimensão supra sensível e supra racional do ser.”

(texto) “Por outro lado se identifica completa e indissoluvelmente com a consciência empírica.”

(comentário) Porque ela  só existe porque existe uma consciência empírica que enxerga os fenômenos. Portanto  esse algo que a gente declara além da declaração de existir ou não existir,  é a vacuidade ou mente,  no momento que eu as classifico ou digo  que  existe, eu a estou diminuindo, por isso não dou atributos à ela, não declaro coisas sobre ela. Nossa mente particular vê os fenômenos e os interpreta, porque interpreta de uma forma particular, gera um mundo de ilusões e sonhos. Porque o mundo real não é esse mundo de ilusões e sonhos, é um mundo que esta além disso.  Nem existência nem não-existência,  é que estamos nos limites das palavras. Nos limites que as palavras permitem. Mas quando nossa mente olha o mundo o interpreta de acordo com nossa cultura, nosso pensamento, nosso carma. E como operamos como seres, nós, para podermos operar nesse mundo, assumimos uma identidade e dizemos eu sou. Agora, quando eu faço isso, eu me restrinjo a ser apenas esse fenômeno e ignoro o restante do universo inteiro, porque só consigo olhar uma particularidade do universo, aquela que é visível com esses olhos, com essa interpretação.

É um mundo infinitamente pequeno em relação a grandiosidade de todo o universo. Se conseguirmos tirar esses olhos e colocar os olhos de Buda, então todo universo simultaneamente se manifesta de outra forma não interpretável. E essa forma da não-mente, não interpretável, é a realidade última. Nesse estado não existe nem nascimento nem morte. Porque nascimento e morte são fenômenos a que estamos submetidos como fenômenos temporários, esse ego transitório evidentemente nasce e morre. Mas a realidade ultima não está sujeita ao ciclo de nascimento e morte. Portanto aquele que alcança esse estado libertou-se dos ciclos de nascimento e morte e dessa prisão pequena, infinitamente minúscula e mesquinha de um eu particular. Por isso, quando estamos ensinando o budismo, parece negativo o budismo, mas na realidade é infinitamente abrangente no sentido de que morrendo esse pequeno eu, engolimos a eternidade, todo o universo, ampliamos nosso ser a um ponto inimaginavelmente grande. Saímos dessa pequena prisão. É que em geral, todos adoram essa pequena prisão e não querem sair dela. Uma aluna disse uma frase esses dias, “estou praticando, quero melhorar, mas quero me libertar só um pouquinho do meu eu”. É uma frase de grande honestidade. Acho que esse seja o problema de todos, todos querem tranqüilidade, serenidade, escapar do sofrimento, mas não de seus pequenos eus particulares.
(continuação dos comentários de M.Genshô sobre texto de T. Izutsu)

quinta-feira, 28 de março de 2013

O Vazio e o Nada



Eu gosto muito de uma pequena história que me foi contada no Viazen. Uma mulher havia se separado e foi falar com o Mestre. Contou sua história, um drama emocional. Ele ficou ouvindo atentamente e quando ela acabou ele disse – Tem que trabalhar agora, né? Ela recebeu aquilo como um choque, pois ao contar seu drama esperava outro tipo de resposta. Mas nesse momento, separada, antes não trabalhava, então – Agora, tem que trabalhar - foi sua resposta. Para resolver seu problema a atitude a ser tomada era essa. Todas as outras considerações sobre emoções, traições, traumas, eram inúteis. Eram somente agitações da mente, auto estima, ego, vaidade etc., coisas sem importância. Agora ela teria que conseguir emprego e trabalhar.

A medida que o tempo passa a mente vai se esvaziando. É claro que se você colocar continuamente mais alimento para sua mente dentro de um problema, ele poderá durar bastante. Conheço a história de um psiquiatra que recebeu um homem, e o homem falou também de uma separação. Estava magoado com traição. Começou a falar com ódio e raiva da ex-esposa. O psiquiatra considerou que a recente separação era a causa de tanto ódio, isso era normal. E perguntou – Há quanto tempo faz que você se separou? – e o homem respondeu – Quatorze anos! Isso significa que uma pessoa pode mergulhar num inferno e ficar lá por muito tempo, basta que ele continue com palavras, atos e pensamentos colocando lenha na fogueira.

Então, estávamos falando dessa não-mente, que se realiza em um espaço espiritual anterior a distinção sujeito-objeto. O que transcende?

(texto) “A mente estendida até os limites extremos de todo o universo. Não se trata da mente comum como lugar de nossa consciência empírica, é a realidade, o fundamento mesmo do ser eternamente presente ante si mesmo. Um fato insólito que concerne a essa mente é que não funciona, nem pode funcionar de modo concreto, enquanto não se identifica plenamente com nossa consciência empírica.”

(comentário) Primeiro é necessário que nossa consciência empírica tenha existido para que nossa mente, repetindo a frase ” Um fato insólito que concerne a essa mente é que não funciona, nem pode funcionar de modo concreto enquanto não se identifica plenamente com nossa consciência empírica.” Portanto é necessário uma consciência empírica para que essa mente posso funcionar.

(texto) “A mente é uma entidade noumênica.”

(comentário)Noumeno é um termo introduzido por Kant para indicar o objeto do conhecimento intelectual puro, a coisa em si, é o oposto de fenômeno que conhecemos através de nossa mente empírica.

(texto) “ A mente é uma entidade noumênica que unicamente funciona no fenomênico. Precisamente nesse sentido se chama, –mente comum.”

(comentário) Por isso as vezes as respostas dos mestres para a pergunta – O que é Buda?- Buda é a mente. Estamos falando da mente noumênica que está antes dos fenômenos ou em outras palavras, a própria vacuidade. Porque a vacuidade contem a potência de tudo, não é vazia neste sentido. As vezes as pessoas dizem vazio e pensam que o budismo é nihilista por causa dessa palavra. São problemas com as palavras. O vazio budista não é o nada, as vezes eu vejo pessoas escrevendo sobre budismo e confundindo o vazio com o nada. O vazio budista não é nada, pelo contrario, o vazio budista é tudo e se manifesta como fenômeno. Prestem atenção no sutra do coração.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Para quem quer respostas



Aluno – Me vem uns pensamentos, por exemplo, antes de vir já começo a separá-los, o que seria bom, o que seria ruim e por que sentiria aversão ao teu inimigo, antes mesmo de ser inundado por essa maré incessante de pensamentos conseguir distinguir o que é bom e o que não é...

Monge Genshô - Enquanto houver essa distinção entre o que é bom e o que não é, ainda estou com aquela mente primeira, a mente classificatória. Aquela mente que aceita integralmente, que vê como no terceiro passo, as montanhas como montanhas e os rios como rios, ela não tem classificações. Se ela classifica em bom ou ruim, ela não é não-mente. É uma mente classificatória, discriminativa, normal, comum.

Aluno – O bom e o ruim, em parte é cultural, né?

Monge Gensho – Sim. Não podemos dizer que algo esta certo ou errado, toda situação é particular dentro de uma determinada circunstância. Se você perguntar – Em tese, o suicídio é certo ou errado para o budismo? – normalmente está errado. Daí contamos a historia do mestre se auto-imolando. As coisas não são bem assim como parecem. Tem uma célebre história, que se conta para crianças no budismo, que Buda era um príncipe no passado e encontra uma tigresa com seus filhotes morrendo de fome. Sem forças até para se levantar. Então ele corta seu braço e deixa que ela beba seu sangue, para que ela recupere suas forças, possa matá-lo, come-lo e alimentar seus filhotes. Essa é uma típica história budista de ato de bodhisatva. Em vidas passadas etc. e através de atos assim ele chegou ao seu carma de ser um Buda. São atos sempre compassivos. Então os julgamentos de certo ou errado, bom ou ruim é uma coisa que não podemos fazer no budismo. Eu estava no Vesak agora e tinha um fórum e uma mulher fez uma pergunta e queria uma resposta. Então o Lama Padma Samten deu uma resposta, outro mestre deu outra resposta e um terceiro deu outra resposta, quando o microfone chegou em mim eu disse – O grande problema no budismo é as pessoas quererem respostas.

O que estava acontecendo? Ninguém respondia, faziam-se considerações, mas ninguém respondia, nem eu podia responder sobre a situação familiar dela. Esse é um problema que ela tem que resolver e tem miríades de possibilidades. Então, se você tem um problema e vai falar com um bom professor budista, como os que falaram antes de mim, para que ele lhe dê uma solução, do tipo “faça isso ou faça aquilo”, você não obterá essa resposta. Você vai chegar com um problema e quando sair terá mais problemas. Porque essa é a tarefa do professor, colocar mais problemas para você – Considere isso, considere aquilo e considere aquilo outro - essa será sua resposta. As vezes dá uma chacoalhada para que a pessoa veja que há outras considerações a serem feitas.

terça-feira, 26 de março de 2013

A não mente



(texto)”Qual pode ser, pois, essa mente comum em que se abrem as flores da primavera? Estes dados característicos das quatro estações são apresentados por Wu Neng como a paisagem interior da mente comum. O mesmo que o tremular da flâmula era para Hui Neng o tremular da mente. Está claro em primeira instância que a mente de que aqui se trata é de um ser humano num estado de iluminação, a mente iluminada. A mente comum de Nang Huang não é, nesse sentido, uma mente realmente comum, ao contrário, longe de constituir a consciência empírica da substância ego normalmente designada com essa palavra, o que se entende por mente é A Mente, chamada tecnicamente não-mente, que se realiza em um estado espiritual anterior a distinção sujeito-objeto ou que transcende a essa distinção.”

(comentário, M. Genshô) Não mente é aquela que não conspurca os objetos e seres todos no universo com suas opiniões. A não mente aceita sem nenhuma interpretação. Completa equanimidade.

Aluno – Uma mente anterior ao pensamento?

Monge Genshô – Não é isso que ocorre, uma mente anterior ao pensamento. Normalmente o que ocorre é no sentido exatamente oposto. Primeiro você pensa, depois compreende que o pensamento objetivo que atribui às coisas qualidades, está errado. E depois todos os objetos deixam de ter as qualidades que seu pensamento atribuía, depois que você faz tudo isso é que você pode chegar a uma não-mente, que passou por esse processo. Porque a mente que não pensa inicialmente, não passou por esse processo, ela não se ilumina pois é obscura. Igual aquela história de que falamos antes. Quando eu conheci o zen as montanhas eram montanhas e os rios eram rios. Aí eu comecei a praticar e as montanhas não eram montanhas e os rios não eram rios. Porque antes eram montanhas e rios a que eu dava minhas interpretações. Quando abandonei tudo isso então voltei a ver que as montanhas são só montanhas e os rios são só rios. Mas eram montanhas que eram montanhas por si mesmas, independente de minha interpretação. Eu estava vendo a verdadeira montanha e não a que minha mente pensante via. Como exemplo que dei do inimigo que vem na rua, a pessoa de quem não gostamos. Dou à ele uma porção de atributos da minha mente, não gosto dele e por isso ele é, então, uma montanha agora. Preciso desconstruí-lo e ver que ele não é uma montanha, não, nem um ser separado. Depois que eu vir que ele não é um ser separado, então eu posso de novo voltar a ver um ser que está ali e que é uma manifestação, mas aí à ele não atribuo nada. Ele é por si mesmo e assim sendo por si mesmo é eu mesmo e portanto dedico à ele completo amor, compaixão etc.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sem lembrar do passado


O comentário importante é que nós estamos sentados aqui e as mentes estão agitadas, ainda que sentados os pensamentos ficam retornando. E se vocês pensarem sobre o sentido, vejam se não é assim – Pensei isso, considerei isso. E a medida que o sesshin (retiro) vai avançando esses pensamentos vão sumindo. São bobagens, considerações sobre o futuro ou passado e são nossa perdição. Não somos felizes porque não conseguimos ficar completamente no momento presente. Se conseguíssemos agarrar esse momento presente com nitidez, obteríamos uma presença perfeita e uma felicidade perfeita. Nossa mente não estaria turbada com as considerações passadas. 
É como encontrar um inimigo na rua,  um inimigo do passado, mas com uma mente nova que surgiu da prática, olhar para o inimigo e ver apenas um ser por quem você sente compaixão, afeto e que no fundo é você mesmo, você sente isso. Olhar para essa pessoa e ter todos esses sentimentos de irmandade perfeita, de unicidade perfeita, sem nenhum sentimento de ódio, nenhum mau sentimento. É claro, nossa maneira de sorrir e cumprimentar parece absurda e incompreensível para aquela pessoa, mas seu sentimento é puro, completamente puro, não está conspurcado por pensamentos quaisquer de aversões que você cultivou. 
Se você conseguir ter essa visão das pessoas com quem você teve algum atrito ou qualquer sentimento negativo, então aí você esta realmente conseguindo ser um praticante Zen. Caso contrario você será apenas alguém brincando de fazer meditação. Senta e quando está sentado pensa – Eu ainda me vingo. O que você tem que fazer? Olhar essa mente de dizer – Por que é que eu me perturbo, porque é que me incomodo com essa pessoa? De onde vem isso? Você irá descobrir que vem de sua vaidade, seu apego, da sua possessividade, do seu desejo de retaliar, quaisquer desses sentimentos menores todos baseados numa única pedra fundamental, a pedra do ego, do egoísmo, do eu separado. Eu não sou o outro, não compreendo o outro, não perdôo o outro, não tenho compaixão pelo outro etc. 
 Noto que as pessoas tem grande amor, sentem amor por filhotes de animais, são inocentes, não agressivos, são carinhosos, todos querem pegar filhotinhos de cães e gatos. Mas basta que eles tenham algo mais, uma personalidade qualquer ou se tornem adultos que isso desaparece, porque passam a ser ameaçadores para nossos próprios egos. Nossos egos não querem egos que venham a competir conosco. Somos carinhosos com quem é muito frágil, mas não com aqueles que são como nós. Nossos desafetos são sempre pessoas como nós, em quem nós vemos alguma rivalidade. Aí que estão as manifestações de nosso ego. A verdadeira prática é a modificação dessas atitudes, desses pensamentos.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Lições sobre como morrer



Quem assistiu o filme Primavera, Verão, Outono, Inferno e Primavera? Há uma cena em que o mestre sente que vai morrer, então ele vai para o meio do lago, prepara sua própria pira funerária dentro do barco, mas para que o barco não queime ele tira uma tampa do fundo do barco para que ele se inunde lentamente. Coloca uma vela para acender uma fogueira e senta em meditação em cima da fogueira e deixa que o fogo o consuma. Não é, na realidade, um suicídio. É um pensamento do tipo, “esse é o momento da minha morte, sei disso, para não deixar problemas para os outros, providencio minha incineração, uma vez que estou sozinho e não há ninguém para fazer isso”. Mas a questão que nos toca é, Como é que alguém se auto-imola sem nenhum gesto. Vocês já devem ter visto na televisão pessoas que jogam fogo em si mesmas. Mas qual é a reação normal dessas pessoas? Gritam, correm, rolam, entram em desespero enquanto as chamas os consomem. Talvez por arrependimento. No Vietnam foi filmado varias vezes, monges zen budistas se auto-imolando em praça publica, e sempre a cena, a pessoa sentada em meditação enquanto as chamas o consumiam e o corpo carbonizado fica sentado. Como fazer isso? Como estar acima da dor e do desespero? Como é isso? Que mente é essa? Qual o pensamento central? A resposta é, “Eu sou um com o fogo!” Entre mim, o fogo, o calor da chamas, não há distância nenhuma.

Porque na mente dele não existe distância entre o fogo e suas próprias sensações. Ele simplesmente queima completamente. Toda dualidade está superada. Se vacilar um único segundo, produz mau carma e a situação muda. Esse é o problema do suicídio. Aquele que morre para os outros e consegue manter sua mente inabalável ou una, gera um bom impulso cármico. Mas se houver um vacilo ou arrependimento naquele momento, é essa mente, a mente que temos no momento da nossa morte que determinará a próxima manifestação cármica. Morrer bem, com uma mente correta é muito importante. Por isso no Zen se diz que uma boa morte é aquela em estado meditativo. Muitos mestres morreram assim.

Não faz muito tempo um mestre da Escola Vajrayana, Chagdud Rinpoche, fez exatamente isso no RGS. Chamou seus alunos para uma palestra sobre a morte e lhes disse que era sua ultima palestra naquele curso. A palestra programada para acabar as 18:00h, estendeu-se até as 22:00h. Então ele foi para seu quarto e morreu sentado e seu corpo não caiu. Foi necessário chamar a secretaria da saúde para obter uma autorização para não mexer no corpo. Seus discípulos ficaram meditando junto ao seu corpo até que ele caísse no sexto dia. Os médicos não entendiam como o corpo não perdia a cor apesar de estar morto. Nós não temos no Zen esses tipos de histórias. As historias no Zen são um pouco diversas. Essa história é tipicamente tibetana, mas é um exemplo do que é possível fazer com uma mente treinada. Com a grande influência que a mente tem sobre os próprios fenômenos. As histórias de mestres Zen, são histórias em que o mestre anuncia, ou mesmo tem uma morte surpreendente. Como o mestre que chamou seus alunos, e estes perguntaram sobre a morte e ele disse – Vou ditar um poema. Então chamou seu secretario e começou a ditar o poema de oito silabas. Ditou a sétima silaba e ficou quieto. Era um poema de despedida. Um poema que se escreve quando se morre. Então o secretario disse – Mestre, falta a ultima palavra. E a resposta do mestre foi –Ah sim!. Deu então um tradicional grito do zen (katz!) e morreu. Era a sílaba que faltava. Muitas histórias desse tipo são contadas de mestres que simplesmente anunciam. Então como o Mestre que deu aquele poema e disse que “Se a mente não se turva ante perguntas banais, cada dia será um instante feliz na vida dos homens”.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A mente que se agita



(texto) “O celebre koan da flâmula batida pelo vento de Hui Neng, é uma clara ilustração do tema. Um dia, quando escutava uma leitura sobre o budismo em outros tempos, se levantou subitamente um vento que começou a tremular a flâmula da porta do templo, então teve lugar um incidente relatado no koan. Quando estava ali o sexto patriarca. “

(comentário) O sexto patriarca chinês, o sexto patriarca depois de Bodhidharma, nós o recitamos pela manhã, na linhagem, o nome de Hui Neng.

(texto)“O vento começou a tremular a flâmula, dois monges começaram a discutir sobre aquele fato. Um apontou e disse – Olhe, a flâmula se agita! – respondeu o outro – Não, é o vento que agita! - discutiram interminavelmente sem poder alcançar a verdade. Bruscamente Huing Neng pôs fim a estéril discussão – Não é o vento que se agita, tão pouco a flâmula, honoráveis irmãos, são vossas mentes que se agitam! – e os monges calaram-se. A meu ver, aqui temos o caso mais claro de interiorização do exterior. O vento sopra na mente, a flâmula tremula na mente, tudo sucede na mente, nada fica no exterior da mente. A flâmula batendo ao vento, deixa de constituir um acontecimento que sucede no mundo exterior, o acontecimento inteiro e, implicitamente, o universo inteiro, se interioriza e se representa como constitutivo do espaço interior.

Tao Shu perguntou ao seu Mestre Nan Chuan quando ainda era um noviço – Qual é o caminho? – ou - Qual é a realidade absoluta? – o mestre respondeu – A mente comum, este é o caminho. – desta celebre formula o Mestre Wu Neng deu uma interpretação poética em seu comentário ao koan – As flores perfumadas na primavera, a lua prateada no outono, a brisa fresca no verão, a branca neve no inverno, se a mente não se turva perante perguntas banais, cada dia será um instante feliz na vida dos homens.”

(comentário) Nós podemos, agora, pensar sobre o que tem acontecido nesses zazen que vocês tem feito aqui. Zazen de uma hora e meia, duros, cansativos, doloridos. Eles são propositais, fazem parte do treinamento de sesshin. Não é para ser fácil, é para ser duro, porque se for agradável e fácil, mais espaço ainda tem a mente. Por que nós usamos costumeiramente essas palavras, “vamos nos divertir”, “vamos nos distrair", não é? Divertir significa diversificar, fazer coisa diferente do que você esta acostumado a fazer. Estou acostumado a trabalhar no escritório, então vou me divertir fazendo jardinagem, isso chama-se divertir. E vamos nos distrair é exatamente o contrário de vamos nos concentrar. Vamos nos distrair e deixar nossa mente voar. É necessário alguma coisa para ocupar nossa mente senão ficamos entediados, chateados, não sabemos mais o que fazer. O sesshin é o contrário disso tudo. Tudo é propositalmente feito de forma a ser entediante. Andar em kihin é meio passo cada vez, para, respira. Se o ritmo da respiração estiver correto, serão quatro a seis passos, de 20 cm por minuto. A meditação é imóvel, corpo parado, a instrução é “tente não se mover” para que a mente não se distraia com nada, para que o corpo não informe nada à mente. Um cheiro uniforme de incenso na sala, nada de música, nem instrumentos musicais, nem revistas, nem livros. Essa distração nos é roubada no sesshin, quando sentamos para comer as refeições são iguais, vocês ainda não sentiram isso exatamente, mas imaginem repetir as refeições com o mesmo ritual do oryoki, exatamente o mesmo, semanas. A comida tem menos sabor, são só três pratos e muitas vezes está fria. Se a gente não pensa, não interrompe, colocam comida demais para nós e nos arrependemos de ter tanta comida, porque nada se pode deixar. Não há líquidos durante a refeição. Não esqueçam de beber água ou chá durante os intervalos para evitar desidratação. A ausência de líquidos tem o objetivo de manter a atenção no mastigar, depois de lavar as tigelas você pode beber a água. E essa água tem o sabor “do alimento dos deuses”. Por que? Por que nossa mente pode fazer com que tenha. Se dissermos – Essa água com que lavamos nossas tigelas tem o sabor do néctar celestial! – então, tem. Por isso tem uma lição inclusa, que está contida nisso que estamos falando, que é que nossa mente tem a capacidade de transformar todo o mundo, basta que nós queiramos fazer essa transformação.

quarta-feira, 20 de março de 2013

O mundo fora de mim sou eu mesmo






COMENTÁRIOS SOBRE TEXTO DE TOSHIHIRO IZUTSU PARTE II

Na primeira palestra, nós examinamos o primeiro ponto, o interior se converte em exterior ou, exteriorização do interior. E agora vamos ao segundo ponto.

(Texto) “No caso da interiorização do exterior, pelo contrário, o ser humano experimenta subitamente que aquele que pensava que era exterior a si mesmo, é na realidade, interior. O mundo que existe fora de mim, está em mim mesmo, sou eu mesmo. Tudo aquilo que o ser humano havia imaginado até esse instante que se desenvolvia no exterior dele, se produziu na realidade em um espaço interior.”

(comentário) Esse é aquele ponto da Escola Yogachara, que enfatiza esse aspecto de que o mundo é produzido interiormente. Na visão mais consolidada no Zen, ele é produzido no seu significado, não é que ele deixa de existir se não houver meu olhar, mas deixa de existir com os significados que tem, porque todos os significados que tem dependem do meu olhar. Por exemplo, esse é um par de óculos, esse par de óculos para um besouro não tem mais significado do que uma espécie de estrutura qualquer no mundo, ele não pode ver nisso, óculos. Só quem pode ver nisso, óculos, é um ser humano, e até particularmente o ser humano que tenha, como no meu caso, presbiopia da idade e que tenha necessidade desse tipo de óculos, porque se, por exemplo, eu der para o meu filho de oito anos, esses mesmos óculos perdem a finalidade. Então, é meu olhar particular que faz que cada objeto ganhe o significado que tem. Vocês podem imaginar, por exemplo, que a terra seja visitada por seres de outros planetas depois que a humanidade tenha se extinguido. E esses alienígenas cheguem aqui e ao encontrar as ruínas da cidade de Florianópolis, verifiquem que existem casas com portas, cadeiras etc e podem calcular o tamanho de todas as pessoas. Mas eles chegam na praça da Matriz e encontram uma enorme estrutura, com portas gigantes, eles poderão imaginar que nossa sociedade era composta por dois tipos de seres, uns com tamanho médio de um metro e setenta e outros de tamanho médio de oito metros mais ou menos. Porque somente seres de oito metros necessitariam de portas de dez metros de altura, ou prédios daquele tamanho para viver. Aos nossos olhos isso poderia parecer absurdo, mas aos olhos dos alienígenas seria uma conclusão lógica.

Nossa maneira de ver as coisas é que constrói as catedrais e dá à elas um significado que não é utilitário e sim uma utilidade de uma obra do espírito humano. Isso que estamos falando da catedral de Florianópolis. A catedral de Colônia impressiona muito porque quando a gente sai da rua Hohe e entra na praça há um intervalo de poucos metros, a igreja está oculta pelos prédios, e quando você sai na praça, as torres da catedral de pedra tem 160 metros de altura. Parece uma montanha, e os homens levaram setecentos anos a construí-la. E por que os homens fazem essas coisas? Por significados que estão dentro deles. Eles emprestam as coisas significados e as transformam com seu olhar. Nesse sentido bem particular nós transformamos e damos significados ao mundo de uma maneira que seria incompreensível em outra cultura.

terça-feira, 19 de março de 2013

O conhecimento



Pergunta: - E o conhecimento? E universos paralelos?

Monge Genshô – O conhecimento em si, você tem sentado ao seu lado um professor de física, mas esse conhecimento não produz a realização espiritual, aliás Nem o conhecimento sobre o Zen produz a realização. A iluminação em si é uma visão que é produzida através da meditação, é sofrendo sentado na almofada que podemos obter a libertação. A realização puramente através de algum conhecimento, pode vamos dizer, aproximar, melhorar as visões da humanidade mas não produz realização espiritual.

 O conhecimento produz o poder do próprio conhecimento. E que, pode, sim, dependendo da mente que usou, ser maravilhoso ou não. Eu sempre explico isso, facas são armas, mas também instrumentos para passar manteiga no pão. Uma faca não é uma coisa ruim. Pode ser uma arma para a mente que a veja como arma e um instrumento de alimentação para a mente que a olhe dessa forma. O significado é produzido pela mente que vê. Então, a existência ou não de universos paralelos é irrelevante para nós. Buda responderia assim – Para nós agora do Dharma, como as perguntas de causas primeiras, esses conceitos não ajudam e o budismo se concentra naquilo que ajuda para diminuir o sofrimento. Por isso o budismo jamais se comprometeu com qualquer coisa como ideologias políticas, sistemas econômicos ou confessar e aprovar idéias científicas, isso é irrelevante para o budismo. O budismo tem um foco, a libertação dos homens.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Marcas cármicas



Pergunta – Se ao sair do sesshin, ao chegar em casa, eu comece a praticar a compaixão com o único objetivo de acumular carma, estarei sendo egoísta, por que estou buscando algo em troca para teoricamente me melhorar?

Monge Genshô – Isso chama-se materialismo espiritual. Enquanto você tem esse objetivo, não que esse objetivo seja ruim, nós chamamos no budismo de caminho  pequeno, desprezível, você pratica para você, no Mahayana você pratica para todos os seres.  Hoje, aqui, praticante Mahayana é Giovanni, porque ele tinha um problema, não poderia vir e eu disse à ele – Mas todos te esperam. Então ele veio. Provavelmente todos os outros estão praticando para obter alguma coisa para si, mas é assim que a gente começa. Não acho ruim como motivação, porque todos quando começam a prática no zendo, vão para si mesmos. Todos começamos como prática egoísta e que bom se conseguirmos fazer alguma prática  durante a vida, focada nos outros, Maha quer dizer grande, que abrange tudo, aquele que pratica para os outros. Sim , é verdade, mas não se envergonhem com sua motivação.

(O uso do termo Hinayana causa confusões devido ao fato de não existirem escolas Hinayana no budismo, os termos Mahayana e Hinayana foram usados para embates sectários no passado)

Observação – Podemos mudar o carma?

Monge Genshô – Com certeza, porque a cada pequeno ato compassivo, mesmo motivado egoistamente, acumulando essas circunstâncias um dia você agirá compassivamente sem querer, porque não pode evitar agir compassivamente. São marcas que as pessoas tem. Há gente que quando vê outras pessoas brigando, vai lá e fica torcendo e estimulando para que a briga continue. Semelhante a uma tourada ou outro ambiente com essa motivação de ver o sofrimento. Também existem aquelas que na mesma situação,  automaticamente querem afastar. Qual é a marca cármica dessas pessoas? A pessoa que quer separar, simplesmente sente, ela não pensa em separar, nem pensa em produzir bom carma, boa marca. Ela sente vontade de separar.

Pergunta – Acho que o problema é o conceito de eu, quando tu fazes algo pra ti mesmo, na verdade isso é ruim pra ti mesmo. Mas quando tu te aprofundas e começas a ver que esse “ti mesmo”não é alguma coisa para que valha a pena batalhar, então tu perdes o interesse em fazer coisas para esse ti mesmo. Não é que pense em deixar de fazer para ti e faça para os outros, com o tempo isso se torna natural. Está certo?

Monge Genshô - Ou seja, nós construímos nossas marcas cármicas e essas são sólidas, essas que nascem de impulsos naturais. Porque quando você morrer, o seu carma, o que continua, essa autoconstrução sutil que quer se manifestar, vai procurar manifestação no lugar onde ela se sinta adequada. Como expliquei, se você tem marcas infernais, você só será atraído pelos mundos de vingança. É natural isso. Existem pessoas hoje, no fim de semana, que estão num boteco, bebendo, jogando, fumando ou falando da vida alheia, qualquer coisa desse tipo, nada produtivo, nada bom. Mas eles só se sentem bem ali, já saem de casa direto para o boteco. Existem outros que dizem – Vou pagar para sentar de frente para uma parede em um sesshin (retiro). Tem que ter marca cármica para estar num sesshin. Senão não estaria aqui, tem que ter marca para isso.

sexta-feira, 15 de março de 2013

As montanhas e os rios



(texto) “Está claro que uma identificação espiritual profunda com todas as coisas da natureza é precisamente o que caracteriza a exteriorização do interior. “No domínio mais ilimitado, prazer estético, essa espécie de identificação é normalmente vivida quando, por exemplo, se escuta intensamente uma bela música. Música tão profundamente escutada que já não a escutamos, posto que nós mesmos somos música enquanto dura”. Esse é um poema de Eliot. Tal como observa o professor Willian Johnson “esse intenso momento tão característico, a musica escutada tão profundamente que já não existe uma pessoa determinada que escuta nem música escutada, já não há um eu oposto a musica, existe simplesmente música, sem sujeito nem objeto. Em outras palavras, o universo inteiro esta pleno de música, é música, nesse estado espiritual de unificação absoluta que é, psicologicamente falando, uma espécie de inconsciência, implica o total desaparecimento da música como também o total desaparecimento do eu.” O que aqui se aplicou é algo absurdamente indiferenciado e indivisível, uma pura consciência sem sujeito nem objeto. Para que haja experiência de iluminação, o ser humano deve despertar essa consciência pura. O algo absurdamente indivisível se divide em eu , e por exemplo, flor.”

(comentário)Vamos prestar atenção que isso é uma experiência, mas não é realmente iluminação. Tornar-se um não é o final.

(texto)” E nesse preciso instante dessa divisão, a flor emerge de modo súbito como flor absoluta. É uma flor que se abre em uma atmosfera espiritual essencialmente diferente daquela em se abre uma flor comum ,e no entanto, ambas são uma só e única flor. Nada pode apresentar melhor e de modo mais típico o processo de instauração dessa visão Zen do mundo que as reflexões do Mestre Thing Yo. “Faz trinta anos antes que esse velho monge, quer dizer eu mesmo, começou a praticar o Zen. Eu contemplava uma montanha com se fosse uma montanha e um rio como se fosse um rio. Depois tive a sorte de encontrar mestres iluminados e pude, sob sua direção, alcançar certo grau de despertar. Em tal estado quando contemplava uma montanha, já não era uma montanha, e quando via um rio, já não se tratava de um rio. Agora me encontro num estado de quietude última, igualmente a meus primeiros anos, vejo uma montanha simplesmente como uma montanha e um rio como um rio”. Examinemos agora o processo inverso, quer dizer, interiorização do exterior, no qual o mundo da natureza, chamado mundo exterior, se interioriza e se põe enquanto paisagem interior.”

(comentário) O mais interessante disto, é que é tema recorrente entre os mestres Zen. Nós já estudamos um texto semelhante, com outro tipo de abordagem. Quanto mais lemos sobre isso, mais nos clarifica. Hoje vejo muitas pessoas perguntarem : – O que que eu posso obter com a meditação, posso ficar mais tranqüilo? – a resposta é sim. Mas isso não quer dizer nada sobre o Zen. É um subproduto da prática meditativa e que pode ser obtida em muitas diferentes metodologias meditativas. Esse não é um objetivo do Zen. O objetivo de nossa prática aqui e agora, é uma realização espiritual. Que, tranqüilidade e serenidade são um primeiro passo para isso, é certo. Acalmar-se é um primeiro passo necessário? Sim. Prestem atenção nos seus corpos também. Eles doem quando ficamos sentados muito tempo, e por que existe sofrimento nos nossos corpos e nas nossas mentes por ficarmos tão parados? Porque não conseguimos alcançar ainda um estado de serenidade. Então nossos corpo e mente protestam, estão profundamente ligados. Então, se protestam é porque tem coisas em nós que estão instáveis, ou que não querem ser eliminados. Acontecem até outros tipos de eventos em nós nos sesshins, embora a alimentação seja correta, embora tudo esteja calmo, há pessoas que ficam doentes, sistema digestivo, ficam com sérios problemas. Há pessoas que vomitam. Poderíamos fazer a interpretação de que a pessoa não quer largar nada, ou quer colocar para fora algo que está dentro e não consegue suportar. Cada dor física tem um significado. Mestres experientes podem dizer muito somente tocando nas costas. Então nesse momento temos uma grande experiência de investigação pessoal. E já que entramos nisso e, provavelmente já nos arrependemos algumas vezes - Que estou fazendo aqui, por que vim para o sesshin? (retiro) – já que entramos, não desistimos enquanto não solucionarmos. É assim que tem que ser, não desistirmos enquanto não solucionarmos. Alguma experiência tem que sair desse sacrifício. Algum insight tem que sair, não pode ser desperdiçado. Então, não sentem viajando, voltem sempre para cá. Insistam em colocar rédeas nesse touro desembestado. Como nos Dez Passos do Boi. Se você conseguir nesse sesshin, ver sua mente, porque ela se esconde o tempo todo de você, já é grande realização. Mas esse tempo é impreciso, alguém pode despertar agora nesse sesshin ou daqui a quinhentas vidas. Não há como medir, vai depender de como você conduz sua vida e como você trabalha seu carma. Se você, através da meditação, mudar seu carma, sua mente, seus impulsos e conseguir ser uma pessoa com outro tipo de impulso, então esse carma produzirá um ser numa situação melhor, por exemplo, onde o Dharma exista desde a infância.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Renascimentos


Pergunta – Nós somos obrigados a passar por todos os Reinos?

Monge Genshô – Não. Se você tem a oportunidade de um precioso nascimento humano pode tornar-se um Buda diretamente. Essas são só situações cíclicas. Se você tiver uma vida muito generosa, com muita bondade, acumular muitos méritos, você pode ter um nascimento num Reino Divino de grande felicidade e vai viver assim no Reino Divino até que esse carma se esgote e você recaia. Você tanto pode subir quanto descer. Você tem um precioso nascimento humano agora. Mas você pode executar atos de grande violência e ter um renascimento numa condição infernal. Você pode nascer numa família de terroristas e ser educado para ser um homem bomba, esse seria típicamente um renascimento infernal.
Pergunta – Como estaria nossa caminhada hoje como ser?
Monge Genshô – Essa pergunta não é respondível. Essa seria uma pergunta injusta. Uma pergunta injusta, por exemplo, seria – Já que todas as coisas tem causas, qual é a causa primeira? – então você aponta uma causa e já que todas as coisas tem causa, qual seria a causa dessa causa?
Um imperador perguntou para um mestre Zen onde estava apoiado o mundo. E o mestre respondeu – Sobre os ombros de um grande elefante. E este elefante, onde está? A resposta foi – Em cima de quatro grandes colunas. E essas colunas? Essas colunas estão sobre as costas de uma grande tartaruga. E essa tartaruga? Bom, rei, vamos parar por aqui, daí em diante são só tartarugas! Na realidade essas perguntas não tem resposta filosófica, não são objetos de investigação no budismo, como outra pergunta – Qual era o tempo antes do início dos tempos? – são perguntas não respondíveis.
Pergunta – Existe a possibilidade de antes de ser humano, ser animal, por exemplo?
Monge Genshô – Com certeza. Dei todas as explicações sobre os reinos, mas isso não significa que os reinos sejam assim. Quer apenas dizer que como meio hábil, que se diz em sânscrito, upaya, foi criada uma maneira alegórica de explicar. Não podemos confundir as palavras ou a própria mitologia budista com a verdade em si. O budismo não pretende ensinar uma verdade sobre o universo alem da lei do carma. O budismo é somente um método e não se diz o único método, ou “a verdade”. Mesmo a escola (Yogachara), é uma perspectiva do sistema, uma forma filosófica de explicar. Nela é a mente que produz o universo, simultaneamente, mas para a escola citada existem tantos universos quanto os observadores. Então mesmo dentro do budismo vamos encontrar diferentes apreciações desse tipo. Talvez a escola filosófica mais sólida, que resistiu a todos os embates até agora, é uma escola de 1900 anos, do patriarca da nossa Escola Nagyaharajuna, que é o criador da Escola Madhyamika, a Escola do caminho do meio. E ela não aceita nenhuma afirmação como absoluta. Ele diz – Eu não digo que é, ou que não é, nem que é e não é ao mesmo tempo e nem que nem é e nem não é simultaneamente, e se em algum momento for entendido que eu afirmei alguma coisa, trata-se de um engano. Eu recomendo a vocês que assim que se sentirem mais preparados, leiam atentamente Nagyaharajuna. Temos dois livros publicados em português de Nagyaharajuna, Carta à um Amigo e A Guirlanda Preciosa.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Os reinos



Sobre a pergunta, a cosmogonia budista divide o mundo em reinos e estes são os Reinos dos Infernos, dos Fantasmas Famintos, dos Animais, dos Humanos, dos Semideuses e dos Deuses, esses reinos estão presentes no nosso mundo e podemos vê-los com certa facilidade. Se abrirmos nossos olhos veremos pessoas vivendo no Mundo dos Infernos, o que caracteriza o Mundo dos Infernos? A raiva, o ódio, nenhuma compaixão. Os lugares onde se matam pessoas, os nossos dias. O terrorista está no mundo dos infernos, compaixão zero, ele mata crianças, adultos, pode inclusive se matar junto. Para realizar sua tarefa não existe compaixão pelos outros. Então a primeira maneira para sair do Mundo dos Infernos é ter compaixão. Uma imagem é um mundo infernal todos sendo torturados, empurrando uma carroça na lama e ninguém sai dali, daquele inferno. Mas um dia um cai, e outro em vez de simplesmente pisar em cima do corpo caído, larga tudo e ajuda o caído. Nesse momento ele sai do mundo dos infernos, no exercício da compaixão é que o Mundo dos Infernos é abandonado.

O segundo mundo, o dos Fantasmas Famintos, a imagem é de seres com corpos do tamanho de montanhas e gargantas como fios de cabelos, eles morrem de fome e de sede e não conseguem comer ou beber. Esse é o mundo dos insaciáveis, pessoas que não conseguem saciar sua fome ou sede de qualquer coisa. Esse dois mundos podem ser vistos diariamente na TV. É o mundo do crime. Aquele que vive e pratica o crime e morre com aquela mente, novamente se manifestará num mundo infernal, num mundo de ódios e de raiva, onde só existe isso. Ele nasce num lugar de guerra, onde seu carma só consegue se manifestar, um lugar onde haja crimes, armas, mortes, sangue, ele quer vingança, que é uma característica do Mundo dos Infernos. O Mundo dos Fantasmas Famintos, lugar de pessoas insaciáveis, pode ser visto, por exemplo, num bingo ou cassino. Pessoas que dia e noite jogam se parar, querendo ganhar algo, ambiente com fumaça, bebidas, sem relógios para que não se perceba o tempo passar, lugar onde todos querem ganhar algo para si, não existe nada sobre partilhar. A máxima do Mundo dos Fantasmas Famintos é não partilhar, é querer tudo para si e ao querer tudo para si, nada será satisfatório. Um mundo de grande infelicidade, grande angústia.

Essas pessoas sempre tem renascimentos em situação de privação, pois não possuem mérito suficiente para que seu carma se manifeste em mundo onde exista abundância e facilidades. Como ele possui grande ambição só consegue se manifestar nos lugares de privação. Mesmo que você dê para uma pessoa com essa marca cármica, uma grande quantidade de dinheiro ou prêmio, esse valor desaparecerá de suas mãos, pois ela não consegue operar de forma a produzir abundância.

O Mundo Animal é caracterizado pela obscuridade, pela não compreensão, não clareza. As pessoas que tem essas marcas cármicas operam num mundo onde as soluções são buscadas através de magias. As pessoas acreditam que irão conseguir determinada coisa através de simpatia, de uma formula mágica, através de uma oferenda, doação para uma divindade obscura qualquer, todas criadas pela mente. Sempre com a tentativa de alcançar alguma coisa de uma forma não operativa, que não funciona na realidade, e é apenas imaginária. Essa é a característica da obscuridade, não compreensão, uma sensação de individualidade, grande egoísmo, como um cão que rosna quando alguém vai pegar seu osso, mesmo que você queira ajudá-lo tirando-lhe um osso envenenado, ele irá rosnar, pois não pode entender o que está acontecendo, pois opera no mundo de forma reativa.

O quarto reino é o Mundo dos Homens, no qual nós estamos, é caracterizado pelo apego, pelo desejo, e também por situações mistas. Dentro do Reino Humano existem características dos outros reinos e também dos reinos mais elevados e você tem como escolher. Você pode, como manifestação humana, escolher ser egoísta ou generoso, vingativo ou compassivo, você tem escolhas. Você pode transitar em ambos os mundos, essa é uma característica do Mundo dos Homens. E o mundo humano tem sofrimentos justamente por causa dessa característica. Como ele tem sofrimento, ele sacode as pessoas e dá oportunidades para as pessoas se realizarem. Então no Mundo dos Homens o Dharma surge e é ouvido com mais facilidade até do que em reinos superiores. O mundo humano, por ter sofrimento, é o mais precioso nascimento, porque permite a libertação das condições anteriores e permite uma realização direta.

Vamos examinar os reinos acima do reino humano. O Reino dos Semideuses pela luta, é sempre competitivo, e por grande poder. Ao mesmo tempo eles tem meios, tem armas para obter suas coisas. O Mundo dos Semideuses pode ser observado, no mundo humano, naquelas pessoas que tem jatos particulares, muito dinheiro e podem realizar coisas com facilidade, o Dharma fica difícil para eles, a realização espiritual fica difícil porque tudo está disponível e eles tem sensação de grande poder , o jogo da competição é muito inebriante e por querer ganhar esse jogo a pessoa mergulha nele e não consegue mais escapar.

A imagem mítica no budismo é os Semideuses atacando os Deuses, sempre querendo obter as riquezas dos Deuses. Os Semideuses estão sempre querendo ser Deuses, mas perdem-se em seu poder, sua vaidade e tentar adiar todas as coisas que seriam do mundo humano. Os Semideuses fazem muitas operações plásticas, compram objetos valiosos etc. e não tem limite para a ambição.

Temos depois então, o Reino dos Deuses, estes nem precisam competir, eles tem tudo. Os deuses estão além dos mundo da competição, é como se já tivessem nascido numa situação de grande abundância, tudo é muito fácil, parece que as coisas caem na mão facilmente das pessoas que tem os méritos de um carma divino. Mas esse méritos se esgotam e também decaem, vão sendo usufruídos mas vão decaindo. E também os Deuses, mesmo que vivendo por longo tempo em abundância e felicidade, de nenhuma dificuldade, eles um dia morrem. E os outros Deuses não querem saber deles quando seu carma se esgota.

O grande problema do Mundo dos Deuses e Semideuses é que embora tenham condições melhores do que os humanos, do ponto de vista material, eles tem poucas marcas de sofrimento, assim é muito difícil ouvir o Dharma, é muito difícil praticar nessas condições. Então os budas, mesmo que preguem aos Deuses, não são ouvidos. Os Deuses ouvem o Dharma e dizem – Que maravilhoso, que lindo que é o Dharma, vou fazer uma doação para esses budas – e assim produz mais méritos, mas ele mesmo não consegue praticar, joga flores no dharma, mas não pratica porque falta inquietude, angústia e sofrimento. Aqueles que tem inquietude, angústias e desejo de solucionar a vida, esse sim irão fazer sesshin (retiros). Tem a marca do mundo humano.

terça-feira, 12 de março de 2013

Declaração Pública do CBB


Declaração Pública

O Colegiado Buddhista Brasileiro (CBB) vem nesta expressar sua profunda preocupação com a indicação e com a nomeação do Deputado Marcos Feliciano (PSC) para a diretoria da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da câmara. 

Nossa preocupação se deve ao inequívoco discurso intolerante e alienador que caracteriza as ideias do referido deputado. Suas palavras e atitudes de fundo racista e segregador o tornam um claro exemplo de tudo o que deveria ser denunciado pelo mais importante órgão de promoção e defesa dos direitos humanos em nosso país. Que as lideranças políticas brasileiras, por força de omissão ou deliberada troca de favores, permitam a tal pessoa assumir a coordenação da CDHM, demonstra um preocupante cenário de alienação ética no Brasil.

Acreditamos que a pregação do ódio contra quaisquer grupos étnicos, comunidades sociais ou instituições religiosas motiva com frequência atos de violência contra indivíduos e contra essas mesmas organizações e minorias. O CBB entende que, ao citar "comunidades sociais" deve-se considerar quaisquer grupos e comportamentos que não violentam os direitos alheios, entre os quais a comunidade LGBT. O CBB rejeita implicitamente as declarações homofóbicas do deputado citado juntamente com todas as outras manifestações discriminatórias. Esta cultura de ódio e fanatismo, sendo ela mesma fruto de uma profunda falta de consciência e grande desrespeito humano, torna-se ao final desse processo destrutivo e ignorante um câncer a devorar mentes e corações em todas as camadas sociais, atingindo a todos sem exceção. Tais práticas são essencialmente incompatíveis com qualquer proposta construtiva e unificadora para toda sociedade humana fundamentada em direitos e liberdades, base do estado laico e do próprio estado de direito.

O Colegiado Buddhista Brasileiro, fundamentado na tradição do Dharma de Buddha, entende que o bem comum em uma sociedade somente prevalece quando suas instituições políticas e sociais são capazes de criar condições para que o diálogo, a compreensão, a compaixão, a justiça social e o verdadeiro exercício da tolerância sejam não apenas possíveis a todos os seus cidadãos, mas adequadamente exemplificados pelos seus mais altos representantes.

Neste sentido, a atual condição da gestão política brasileira tem reiteradamente sido um demonstrativo de grave desprezo aos mais fundamentais elementos éticos e de justiça ao permitir que indivíduos alienados em suas crenças pessoais e tacanhos em suas opiniões assumam posições em que a consciência, o equilíbrio e a clareza de visão são qualidades essenciais.

É preciso que haja uma real mudança de atitudes no congresso brasileiro, e que os direitos humanos sejam exercidos e definidos com sabedoria e correção. A nomeação do deputado Marcos Feliciano apenas reflete a medíocre interpretação dos modos e fundamentos que integram o conceito legislativo da sociedade brasileira por parte de seus representantes políticos. Ela também simboliza a assustadora corrupção de valores que domina os poderes políticos atuais em nosso país, que distorce a democracia para favorecer interesses escusos. 

O Brasil, já há muito tempo, é liderado e legislado por parcialidades. Doutrinas populistas e manipuladoras da ignorância e das carências sócio-educacionais neste país estão cada vez mais assumindo nichos políticos essenciais, e defendendo por meio de suas visões particulares a sustentação da cobiça dos poderosos. 

O CBB repudia esta cultura da mediocridade, este desrespeito aos valores de consciência e coerência que grassa na sociedade brasileira, e conclama aos seus representantes políticos a terem mais visão e dignidade, mais honestidade e valor humano. Que seja revertida a nomeação do deputado Marcos Feliciano para coordenação da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara, e que seja realizada uma ampla reforma ética nas ações políticas de nosso país.



Colegiado Buddhista Brasileiro

Diretoria

Presidente Rev. Shaku Haku-Shin

Rev. Genshô Sensei

Dhammacariya Dhanapala

Shaku Hondaku

Rev. Miklos Kômyô

Presidente do Conselho do CBB

Rev. Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves

Conselho

Lama Chagdud Khadro

Rev. Monge Rinchen Khienrab

Rev. Heyla Downey

Ven. Uttaranyana Sayadaw

Rev. Shaku Sogyo

Rev. Monja Sinceridade

Rev. Coen Sensei

Unificar eu e objeto



(texto)” Vossa compreensão espiritual da coisa será de um espelho refletor de algo, como a lua se reflete na superfície da água, posto que o espelho e a coisa refletida, ou a água e a lua, seguem sendo duas entidades que conservam cada uma sua própria identidade. Na unificação espiritual de vocês e de uma coisa, ao contrário, se um dos dois se manifesta, o outro desaparece totalmente fundido no primeiro, o que quer dizer que na situação que aqui se trata o eu desaparece completamente e somente se manifesta o objeto. Então disciplinar-se no caminho de Buda não significa mais que disciplinar-se ante o próprio ser, disciplinar-se frente ao próprio ser, por sua vez, significa somente esquecer, esquecer o próprio ser significa unicamente ser iluminado pelas coisas exteriores e ser iluminado pelas coisas exteriores não é outra coisa que apagar as diferenças entre vosso chamado ego e os chamados egos das outras coisas.”

(comentário) Eu sei que o texto é bem difícil, mas no sesshin os textos podem ser mais complexos.

Pergunta – Isso pode vir somente para a espécie humana? Ou pode vir também para animais?

Monge Genshô – O reino animal tem uma característica de obscuridade. Da qual muitos seres humanos ainda partilham em grande parte. Então faltando clareza mental não é possível sentir isso. Então pela sua própria natureza um animal esta centrado em si, na sua própria experiência, reagindo e focado em si. Então essa obscuridade impede o passo da realização espiritual, essa é uma característica humana. Em termos biológicos existem algumas teorias que dizem que uma colméia de abelhas ou um formigueiro não são vários seres, eles formam um ser único dividido em diferentes funções. Existe uma unicidade extremamente grande, que nós no sesshin (retiro) tentamos alcançar de alguma forma. Tentamos entender e aceitar completamente sem protestar, sem reclamar.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Asseidade



(texto)”No contexto zen, a exteriorização do interior começa com a perda da consciência do ego do homem que se coloca diante de um objeto exterior, ao perder a dita consciência do ego sujeito empírico, segundo o budismo, responsável pelos enganos de nosso olhar espiritual, o ser humano se perde no objeto. O ser humano se faz coisa, podemos expressar isso com o princípio Zen “O homem se converte em bambu, o homem se converte em flor”

(comentário) E no nosso exemplo aqui, o homem se transforma em tijoletas, em ladrilhos, na parede, se converte no grupo e apaga-se a si mesmo, porque esse si mesmo, esse ego, é o produtor do véu que nos impede de enxergar. Então a nossa grande ignorância é, não a ignorância de não saber, mas a ignorância de se acreditar um eu separado. Por isso temos todas as coisas que vem do eu, o amor, o desejo, o apego, a aversão, a raiva, todos esses venenos da mente, quando falo amor, não falo no sentido compassivo, mas aquele amor possessivo “Eu quero ser proprietário de alguém”, o amor que produz ciúmes, esses são os véus que nos impedem de partilhar o universo, porque obscurecem a nossa visão e fazem com que nós nos percamos no nosso ego individual.

(texto) “Dogen escreve em uma passagem muito conhecida de sua obra Shobogenzo “A ilusão consiste em colocar em um lugar o ego sujeito e trabalhar através dele sobre os objetos. A iluminação, pelo contrário, consiste em deixar que as coisas atuem sobre vocês e vos iluminem. Contemplando uma determinada coisa, faça com que vosso corpo e mente se integrem no ato. Faça o mesmo escutando um som, de tal modo que vosso ego possa perder-se na coisa vista ou ouvida. Então, e somente então, estareis em condições de captar a realidade com sua asseidade primeira”.

(comentário) Asseidade é um termo criado para significar a qualidade ou caráter do ser que tem em si mesmo a causa e o princípio do próprio ser.

sábado, 9 de março de 2013

Eu fico com vocês, eu suporto



(continuação)
(texto)” Então como Hang Chang disse: “Como um grande todo que ilumina, infinitamente lúcido e sereno”, sua mente é como um espelho, engloba tudo, no qual as montanhas, os rios e a terra com toda sua beleza e esplendor da natureza se encontram livremente refletidos. Deste modo o mundo exterior recria-se em uma dimensão diferente e se converte em paisagem interior. Em semelhante estado a mente do ser humano deixa de ser a mente individual de uma pessoa e isso é o que o Budismo designa de a mente única.”

(comentário Monge Genshô) Vejam como todo o sesshin, todo o treinamento é programado nesse sentido, de mente única, para cada um de nós, fazermos disso um pequeno universo, tentarmos apagar esse ego individual aqui no treinamento, então fazemos tudo em conjunto. Esperamos até o último terminar de comer, aguardamos pelos outros. Em vez de deixar que nossas decisões tomem conta, nós entramos num fluxo e somos conduzidos pela própria organização do sesshin, e isso nos ajuda a baixar esse nosso nível de ego, orgulho, vaidade, manifestação pessoal e opiniões. Estamos na sala do zazen e sofremos, mas não nos levantamos, agüentamos juntos com os outros, aceitamos o sofrimento dos outros e o nosso, dessa forma damos força uns aos outros. Não abandonamos, podemos mudar de posição, mas não vamos embora, podemos ficar de pé, mas ficamos aqui, podemos até pegar uma cadeira, dessa forma dizemos aos outros – Eu fico com vocês, eu suporto - e simplesmente isso é demolidor do nosso ego. Talvez os que mais aproveitam são os mais sofrem. O sofrimento é o caminho mais curto para a realização espiritual. Eu ouvi uma Mestra dizer uma vez para um amigo meu – Eu oro para que a vida te dê muito sofrimento, porque sua vida tem sido muito boa, sem dificuldades.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Mente e corpo transparentes


(continuação)
Pergunta - Poderia se dizer que esse eu que desapareceu se somou a vacuidade?

Monge Genshô – Ele já era a vacuidade, só não podia perceber que era a vacuidade porque estava perdido nas fantasias de sua elaboração mental.

Pergunta – Mas na vacuidade muitos outros se tornaram divindades. Então, eu me somei, ou, eu sou uma soma...

Monge Genshô – Por isso que a analogia não fica muito perfeita se usamos uma soma, porque, desde o inicio já era assim, o que havia era uma ilusão que impedia de reconhecer. Então o que fazemos quando calamos a nossa mente na meditação é criar terreno e possibilidade para poder reconhecer o que está perante nossos olhos, mas jamais vemos, porque estamos perdidos na nossa noção de identidade própria.

(texto)”No segundo caso, quer dizer, na interiorização do exterior, o que até agora foi considerado exterior ao nosso ser é subitamente vivenciado como interior à mente. Então tudo quanto se experimenta e se observa no chamado mundo exterior é percebido como uma operação da mente, autodeterminação particular e todo acontecimento exterior se percebe como acontecimento interior.”

(comentário) É outra maneira de observar o mesmo acontecimento. Pois assim como você se dissolve na vacuidade do seu eu, e percebe que é, que se expandiu até os limites do universo, assim também todo esse universo esta contido dentro desse interior, esse interior também contem tudo. São duas formas de observar a mesma coisa.

(texto) “O ser humano sente que mente e corpo se fizeram totalmente transparentes, perderam sua opacidade existencial. Uma opacidade que enfrentava e se colocava contra tudo que viesse de fora. Se sente a si mesmo, segundo a expressão do Mestre Hang Chang do século XVI, “como um grande todo que ilumina, infinitamente lúcido e sereno”. “

(comentário)Nós estamos aqui fazendo o impossível, tentando descrever com as palavras dos Mestres, experiências que são intraduzíveis com palavras. São meras aproximações. A essência mesmo é a experiência na almofada. Só que ouvindo falar das experiências dos mestres, nós sabemos como é o caminho e podemos reconhecer com mais facilidade cada estado que se apresenta. Quando vocês aqui em zazen no sesshin, subitamente, com a mente calada virem – Como é bonita essa sala, como é maravilhoso o momento – quando sentirem esse contentamento, essa alegria, isso já é uma primeira experiência, uma primeira experiência espiritual, já é um insight, ele não precisa ser espetacular, não precisa ter fogos de artifício, na realidade é uma experiência calma, embora maravilhosa. E estamos praticando para que ela surja, não devemos procurar, se apenas sentar, sem ambições, ela se apresenta. Se sentamos e queremos alcançar algo, essa mera ambição, reforça nosso ego, e ao reforçar nossa noção interna, nos impede de nos expandirmos e abarcarmos o universo ou de deixar que o universo se manifeste integralmente dentro de nós.

quinta-feira, 7 de março de 2013

O mundo total do ser



Vamos Analisar um texto de Toshihiro Izutsu, que é um mestre da Escola Rinzai. (texto)”Se analisarmos a experiência Zen, quer dizer, a realização pessoal do estado de iluminação, em termos de relação entre exterior e interior, nos deparamos com duas realidades teóricas. O interior se converte em exterior ou, a exteriorização do mundo interior e exterior se converte em interior ou, interiorização do mundo exterior. Trazemos o exterior para dentro de nós ou projetamos a nós no mundo exterior. No primeiro caso que se refere a expressão tão corrente, de que o homem se converte no objeto, se realiza rapidamente a experiência do próprio eu, perdendo sua identidade existencial e fundindo-se inteiramente no objeto exterior com o qual se identifica. O ser humano se converte em flor, o homem se converte em bambu. Essa experiência não se fundamenta, no entanto, como uma experiência autênticamente Zen, senão, quando o ser humano chega a perceber em sua própria consciência espiritual que essa flor, ou esse bambu, com os quais se identificou, contem o mundo total do ser.”

(comentário)Por exemplo, nós estamos aqui e agora e temos essas tijoletas da sala e percebermos que nós somos parte desse piso não é muito fácil, que nós somos parte disso, que ele é manifestação da vacuidade e nós também somos manifestação da vacuidade, mas é a verdade dos fenômenos, de que os fenômenos são manifestação na vacuidade. Nos somos em essência, feitos da mesma substância que as tijoletas desta sala. E se olharmos em termos físicos ou químicos, acharemos grandes semelhanças, somos feitos das mesmas substancias químicas, mas é muito mais que isso, pois as substâncias químicas são, elas mesmas, manifestações na vacuidade. E isso é o nosso eu que tanto prezamos, que tanto apreciamos e queremos que seja permanente, em torno do qual, quando estamos sentados, giram as nossas fantasias de vaidades, de orgulho, as nossas mágoas, ambições, todas são operações mentais que geram a existência desse eu, nada sólido, tudo fantasia. E estamos aqui sentados, observando a nossa mente, percebendo nosso corpo, percebendo que realmente é fantasia. Nós temos a experiência de que é uma fantasia nossa. Nesse estado o eu se estende até os últimos limites do universo, quer dizer, já não é um eu com uma identidade independente, já não é um sujeito frente à um mundo objetivo. Então, se alguém consegue identificar todas as coisas em volta como o mundo total do ser e de que ele faz parte disso, o seu eu não é mais uma identidade independente e abarca o universo inteiro. Então não é mais uma pessoinha olhando o universo, mas sim todo o universo, todo o mundo fenomênico e é, em essência, a própria vacuidade. Se usássemos a terminologia de Deus, diríamos que o homem tornou-se a própria divindade ou morreu para si mesmo e assim, morrendo para si mesmo, pode conhecer a Deus.
( Não usamos a palavra deus no zen porque está contaminada da idéia de pessoalidade, de algo separado, por isso "mundo total do ser")  

quarta-feira, 6 de março de 2013

Para onde vai meu punho quando abro minha mão?



Pergunta – O senhor falou de sofrimento humano, do que é esse sofrimento, ou por que as pessoas sofrem?

Monge Genshô – As pessoas sofrem porque pensam que a felicidade está na estabilidade das coisas, na permanência. Elas desejam que suas coisas durem para sempre, desejam saúde eterna, amor eterno, vão até uma igreja e juram amar até que a morte os separe. Só que todas essas coisas começam e terminam, logo, elas colocam sua felicidade na permanência e estabilidade das coisas quando estamos em um mundo de coisas instáveis e impermanentes.

Esse é um dos principais motivos do sofrimento. Também sofremos porque temos desejos e como os desejos as vêzes não são satisfeitos, sofremos. Sofremos também por aversão. Existem coisas de não gostamos e quando estas surgem, sofremos. Mas tudo isso acontece porque não sabemos viver com clareza e lucidez. Por não termos clareza e lucidez temos esse sofrimento que é característico das coisas cíclicas, que sobem e descem.

Algumas pessoas dizem que quando buda iluminou-se teria dito que a vida é sofrimento, na verdade a tradução mais correta seria que a vida é instável, insatisfatória e cheia de sobes e desces. Uma dia você está contente em outro triste, as vezes tudo está bem em outros nem tanto, um dia você tem dinheiro em outro perdeu tudo. Esta é a característica da vida, mas quem descobriu a felicidade interna consegue aceitar os sobes e desces da vida com naturalidade. Outra grande causa de sofrimento é acreditarmos em nós mesmos, acreditarmos em nosso “eu”. O “eu” é uma construção da mente que tem uma angústia existencial e não deseja morrer. Por isso o homem inventou crenças e religiões para ter onde se agarrar e dar uma solução ao problema da morte. Nessa ânsia as pessoas andam pelo mundo tentando se consolar e se satisfazer.

Por isso também o mundo está cheio de divertimento e entretenimento. O objetivo é se entreter para não pensar. O que acontece em uma festa ou show? Música tão alta que não se consegue conversar, drogas para embrutecer os sentidos e ficar alegre e para que o cérebro funcione de forma mais acelerada, as pessoas vivem no mundo procurando escapar da existência. O Zen diz: “volte para a existência e dentro dela descubra sua verdade, verdade que está além de nascer e morrer, além dos desejos e do seu “eu”, além dos apegos e da estabilidade, além das características cíclicas da vida”. Onde está o eixo no qual posso realmente me apoiar? Quando você finalmente encontrar esse eixo e mostrar ao seu mestre dizendo: “encontrei o eixo onde me apoiar!”. A pergunta que certamente virá dele será: “Quem está se apoiando?”.

Pergunta – O que são os cinco agregados?

Monge Genshô – Contato, sensação, percepção, formações mentais e consciência. Porque existe um existe o outro. Uma boa analogia é um punho fechado. Cada dedo é um agregado, então eu lhe pergunto: “Para onde vai meu punho quando abro minha mão?”.

(Perguntas em entrevista de Rev. Genshô gravadas e decupadas por Chudô San)

terça-feira, 5 de março de 2013

Querendo vencer a impermanência



O Zen é muito interessante, não é verdade? Não existe ninguém enrolando vocês ou pedindo que vocês acreditem nisso ou naquilo outro. É tudo muito evidente e lógico, porem um pouco difícil de engolir. Todo mundo gostaria de frequentar um local de prática com um mestre que lhes dissesse: “Eu sei de onde você veio e como foi sua vida passada, sei como vai será futuro, posso lhe abençoar, você tem uma alma permanente e eterna e quando morrer irá se encontrar com todos seus entes queridos e serão felizes para sempre”. Imaginem a confusão. Mas é o que todos desejam. Existe uma religião que é o oposto do Budismo. Não existe impermanência de forma alguma. As pessoas se casam para a eternidade. Os filhos estão amarrados à eles, e os filhos dos filhos também. Nada irá acabar, tudo continua exatamente como está agora. E o corpo? Depois de morrer, na ressurreição, você recebe um corpo novo no auge de sua saúde física e mental, para sempre. Eles foram dando as pessoas o máximo de esperança na continuidade de uma alma imortal.  É uma religião que está dedicada a resolver todas as angústias existenciais. Nesse sentido não é diferente das outras religiões, todas as religiões tentam tirar a angústia da morte. Qual o grande problema do budismo? É que você vem aprender e ele, lhe diz que estas coisas são ilusões de um eu que, temporário, quer se tornar permanente.

Pergunta – Mas mesmo Buda em sua busca tinha como objetivo escapar do sofrimento e da angústia.

Monge Genshô – Exatamente isso. Ele desejava resolver o problema da finitude. Só que ele resolveu de outra forma, ele despertou e disse para seu “eu”: “Você não me enganará mais”. Ele também tinha um “eu” desejando ser permanente. Mas ele conseguiu enxergar além do eu, além de nascimento e morte, ele enxergou que não era um redemoinho e sim um céu azul.

Mas isso é muito difícil de ser conquistado, pois todos queremos acreditar em nosso sonho pessoal, eu separado dos outros e quero continuar a ser “eu” para sempre. O “eu” resiste desesperadamente a sua aniquilação. Para complicar mais ainda, não é possível viver nesse mundo sem um “eu”. Eu preciso de meu “eu” e de minha personalidade para falar para vocês. O “eu” é uma ferramenta útil, mas esse “eu” que fala para vocês é só uma manifestação temporária e não minha verdadeira natureza. Intelectualmente é até fácil de entender, mas então vem as perguntas e para os mestres é fácil  perceber que dentro da pergunta existe um “eu”, logo, isso não foi realmente entendido. Por isso os mestres fazem perguntas, para descobrir se dentro da resposta existe um “eu”.

Nas entrevistas com o mestre, por exemplo, com Saikawa Roshi, ninguém vem apresentar uma descoberta, as pessoas sempre vem com perguntas que comprovam a existência de um “eu”, portanto, não existe ali um entendimento de fato, ainda não aconteceu uma descoberta. Saikawa Roshi sempre me pergunta, “Você traduziu corretamente o que eu falei, então por que ninguém vem me mostrar nada?”. Como as pessoas vivem em mundo de sonhos só fazem perguntas sobre o sonho. Quando a pessoa pergunta, “Eu tenho um filho e tenho medo de perdê-lo, o que eu faço?”, esse é uma pergunta de um “eu”. Isso foi construído desde a primeira infância.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Tudo está interligado



Pergunta – Mas o cabide não é um ser, a arvore de onde ele veio pode ser um ser, mas o cabide não.

Monge Genshô – Mas não estamos preocupados se ele é um ser ou não, todas as coisas são manifestações no vazio. O cabide é carbono, saiu de uma árvore e de onde saiu o carbono da árvore? Da atmosfera. O carbono da atmosfera foi condensado em forma de madeira. Pensando dessa forma o que é o cabide? É outra manifestação do carbono. Mas e o carbono que existe na atmosfera, saiu de onde? Veio de uma estrela. Uma supernova, uma estrela que morreu, colapsou. É necessário uma estrela colapsar e explodir para haver produção de carbono. Quando vemos as coisas dessa forma percebemos que todas as coisas estão interligadas. Quanto mais você volta na origem das coisas mais irá perceber que são todas manifestações da mesma coisa. Esse banco onde você esta sentada, é plástico. O que é o plástico?

Aluno – Petróleo.

Monge Genshô – Exato, mas o que é petróleo? Hidrocarboneto. De onde? Gordura de animais mortos há muitos anos. Mas o que são exatamente os hidrocarbonetos, as gorduras? Novamente carbono. Logo, o banco de plástico é parente do cabide de madeira. Se eu queimar a madeira e ela se tornar dióxido de carbono e for para a atmosfera, um animal o respirar ou comer uma molécula de dióxido de carbono, esse no organismo do animal se transformará em combustível, esse ciclo não tem fim. Então, não se trata de ser ou não um ser e sim do fato de tudo estar interconectado. Uma coisa depende da outra. Você só esta aqui conversando porque queima oxigênio. Como o oxigênio chega até suas células? Você enferruja ferro em seus pulmões. O ferro de suas hemoglobinas, que transporta para as células o oxigênio. Na verdade é um processo de enferrujamento. Mas de onde saiu o ferro? De supernovas, estrelas que morreram a  bilhões de anos atrás. Nós somos produtos de lixo estelar, dessa maneira o universo continua através de nós sem parar, carbono, ferro, cálcio, tudo isso é resto de estrelas e está, de alguma forma, conectado a nós. Você não pode dizer que vai sair daqui, você não consegue, você só pode se transformar. O seu carma e sua mente também podem ser transformados, a prática do Budismo é a técnica de transformar a mente para alterar o carma para que as manifestações nesse mundo interconectado e interdependente sejam mais felizes, libertas. Mesmo o fato de manifestar-se como ser humano é uma prisão. Você se manifesta como ser humano porque está condicionado, cheio de desejos e apegos, logo, sempre quer voltar para esse mundo na forma humana. Quando você morre essa onda cármica conserva uma parte da sua consciência, os seus impulsos, e procura se manifestar, tem energia para se manifestar, então, surge novamente, você não lembra do passado, mas ele esta aí, os mesmos desejos e apegos.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Onde fica o Vazio?



Pergunta – Levando isso em consideração, seria a morte uma libertação?

Monge Genshô – Nem uma libertação nem uma não libertação. A morte é tão somente um evento inerente a vida, tudo que nasce morre.

Pergunta – Então o que sobra após a morte é...

Monge Genshô – O que sobra o que? Do que? O que sobra do redemoinho quando cessam as energias que o colocaram em movimento? Onde está o eixo do redemoinho quando ele para? Esta em toda a parte na atmosfera. Está tudo na atmosfera, nada foi embora, tudo está no mesmo lugar, somente o movimento daquele momento que cessou. Mas a atmosfera está ali livre para produzir novos redemoinhos.

Pergunta - No sutras se fala que forma é vazio e vazio é forma. Eu entendo como forma todas as manifestações que teriam como origem e destino o vazio...

Monge Genshô – Não, não existe destinação no vazio. Todos os seres e todas as coisas, tudo, tem uma forma, mas nem um deles tem um “eu” inerente, todos são interdependentes, interligados e interconectados. Isto é a vacuidade. A vacuidade não é uma coisa, não é um algo, não é um substrato que sustenta o universo e tão pouco um Deus. Quer continuar a pergunta?

Pergunta – Agora complicou um pouco...Mas por exemplo, prosseguindo minha linha de raciocínio, o cabide de madeira, a destinação dele é a extinção do “ser” cabide, pois a madeira irá se extinguir através de fogo ou cupim. Minha pergunta é, esse vazio seria um estado de não-ser...

Monge Genshô – O vazio não é um estado de não-ser. O vazio é o fato de que todas as coisas tem a mesma característica ou qualidade de serem interligadas e interdependentes, e nenhuma delas ter um “eu” em si mesmas, ou seja, inerente. Assim como o redemoinho é um movimento do vento e não existe por si mesmo, nós não existimos por nós mesmos, somos um movimento da vida, cada um de nós é como uma onda ou pé de vento. Somos um movimento no vazio. Vazio de que? De um “eu”. Se você tirar a forma não existe vazio, porquê o vazio se manifesta como forma. Imagine o mar com suas ondas e você passar uma lâmina e tirar todas as ondas de cima do mar, o que sobra? A água, certo? Mas se no momento seguinte você olhar novamente o que surgirá? Novas ondas. Porque o mar só se manifesta desta forma, com ondas. A vacuidade só se manifesta como forma. Você não pode tirar a forma e então restar a vacuidade.

Pergunta – E onde fica o vazio?

Monge Genhô – O vazio não fica. Ele é todas as formas. Onde fica o mar? Não é onde ficam as ondas? Dá para separar as ondas do mar? Quanto mais ondas você tirar mais ondas surgirão.