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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O sofrimento é um atalho



Não podemos minimizar o efeito de uma boa meditação de quarenta minutos, que é tempo que um praticante mais maduro deve fazer. Então essa prática para a vida diária vai mudando essas questões do que alcançar. Sentir que não alcançou nada também já é muito bom. Porque um dos grandes problemas de quem começa a praticar é pensar que atingiu algo, ele senta-se e pensa – Ah, eu adquiri serenidade – ou – Que bom, eu pratico meditação e sou mais sereno, sou mais “zen” – como se diz na gíria. Há até quem se ache iluminado.  Mas isso não tem nada a ver com o zen. Sentar-se e adquirir serenidade é uma prática que poder ser feita de muitas formas e não precisa, em absoluto, ter um objetivo espiritual. A serenidade é apenas um subproduto do sentar-se quieto em meditação, nada mais que isso. É como muita prática de ioga que se faz hoje em dia e transforma-se em ginástica simplesmente, mas que não tem objetivos espirituais, é mera busca de poder e prazer, a ioga com objetivos espirituais é outra coisa.

Então o primeiro que os alunos fazem quando se apresentam é sentar para meditar. Se você não ficar sentado quieto quarenta minutos não vai ouvir nenhum ensinamento, e se não voltar não tem problemas, porque o Zen não é para curiosos nem para pessoas que esperam resultados instantâneos ou uma panacéia, o Zen é para pessoas com a cabeça em chamas. Então tem que haver angústia, porque só a angústia existencial mobilizou Buda para prática, porque estava angustiado largou mulher, filho e foi para o meio da floresta e treinou, só por isso. Então é necessária a angústia, a inquietude e o desejo de se libertar. Por isso esse sofrimento é um atalho para a realização espiritual. E um corpo humano é a grande oportunidade, porque os homens tem as duas coisas, prazeres e dores.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Sentar ardentemente



Pergunta – (...) Conforme a gente vai tomando consciência de todo esse processo, vai dando uma angústia, a gente senta, medita, pratica, depois sente(...)mas como a gente consegue algo(...)?

Monge Genshô – É porque queremos andar, esse é o grande problema, temos objetivos, queremos alcançar algo, mas essa mente também é  aquisitiva, é também  apegada, ela quer obter algo para quem? Você quer obter algo espiritualmente para quem? Para você. Então dentro desse objetivo existe grande ego, é uma mente que quer adquirir mais, um objetivo espiritual. Então há que sentar em meditação, sem ambicionar obter um resultado , então o crescimento espiritual poderá vir, há que sentar ardentemente, como se sua cabeça fosse tomada pelas chamas.

Quando estamos tomados por pensamentos, temos problemas e não podemos sentar para praticar, sentimos automaticamente que a impaciência e essas coisas começam a surgir. A vantagem do praticante é ver, “estou impaciente”. Então ele enxerga que sua cabeça está em chamas e tem que sentar para fazer tudo mudar. É necessário praticar meditação todos os dias, senão é como não tomar banho, só que em vez do corpo, ficamos com a mente suja e começamos a perder as qualidades que estávamos cultivando antes, essa perda é rápida, é mais rápida do que o ganho. Embora quando retorna, o ganho seja mais rápido do que se nunca houvesse praticado.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O céu não é perturbado pelas brancas nuvens que passam



Pergunta – Isso que é o não eu?

Monge Genshô – Se conseguir ouvir o sons como se eles se apresentassem e passassem sem nenhum julgamento, não haveria nenhum eu julgando. Isso é um treinamento para a plenitude, é o samadhi. É necessário transportar essa mente da meditação e levá-la para fora. Treinamos sentados primeiro porque é mais fácil, ficamos quietos, imóveis, nosso corpo não se move então não geramos carma de corpo, ficamos em silêncio, então não geramos carma de fala. Silenciamos nossa mente simplesmente aceitando até nossos próprios pensamentos, que eles se apresentem e que vão embora, não lutamos com eles, não os seguimos, não fazemos associações, não criamos histórias, ficamos aqui sentados e aceitamos os pensamentos da nossa mente como meras nuvens passando no céu. O céu não é perturbado pelas brancas nuvens que passam. Se apenas aceitarmos sem nenhuma reação, como estamos treinando aqui, nos levantarmos e levarmos essa mente para fora e aceitarmos as palavras das pessoas, os acontecimentos com a mesma equanimidade que treinamos sentados mas se quando sentados formos bons praticantes, mas ao levantarmos nos transformarmos em pessoas reativas, não aconteceu nada, não levamos a prática para a vida ainda.

Por isso é necessário que o praticante aja, que ele treine e lide com o mundo, senão o zen tornou-se inútil. Como a história do monge que foi para a montanha e meditou tranquilamente sozinho durante anos e sentiu-se perfeito em sua tranqüilidade e serenidade. Um dia ele desceu até a cidade e foi até a feira. Lá um homem pisou no seu pé, ele virou-se com raiva e nesse momento  entendeu que sua prática tinha sido falha,  é claro que podemos ver quando sentados em meditação, pelos pensamentos que se apresentam, qual o estado de nossa mente. Mas, testar de verdade tem que ser na vida. Não tem como dizer que um monge é superior a um leigo, isso não existe. A questão é como eles agem no mundo, como são suas mentes, suas ações, então podemos dizer e o mestre irá reconhecer essa superioridade de prática. Quando estivermos sentados poderemos olhar e dizer quem ele é, quando estiver andando, falando ou comendo, nós poderemos ver, então aparece a qualidade espiritual. Nas ações. Não existe melhor para ver quem é uma pessoa do que um sesshin (retiro). Levantar de madrugada, comer com tigelas, os oryoki, ficar cansado no zendo (sala de meditação), horas e horas meditando com a boca silenciosa. Ele não precisa falar nada, olhando as pessoas podemos ver qual é o estado de seu treinamento, ninguém consegue esconder.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Que assim seja



Somente depois de desistirmos de ter um eu próprio é que podemos estar libertos. Como usamos olhos de eu para olhar as coisas, é necessário tirar esses olhos e colocar os olhos de Buda para olhar o mundo como ele é. Esse mundo que é visível com os olhos de Buda é o nirvana, é este mesmo, não é outro lugar, é aqui. Então toda a infelicidade e insatisfação que temos no mundo e em tudo que fazemos, só tem um lugar de origem, nossa mente. É essa mente que gera tudo isso. E nós temos a capacidade, a habilidade de, mudando nossas qualidades mentais, mudar esse mundo inteiro completamente.

Por isso que dizemos no zen, “quando um homem se ilumina o universo inteiro se ilumina”, o universo dele, aquele que ele olha, não existe mais nada que não seja iluminado naquele universo, porque ele pode ver as coisas como realmente são e não as coisas como nós acalentamos. Então a pura felicidade já está presente e disponível, aqui e agora, nesse momento, nas próprias coisas que fazemos. Nos nossos trabalhos, nas nossas viagens, nos relacionamentos a pura felicidade já está aqui. Só não a percebemos porque temos um mente que não aceita com tranqüilidade absoluta.

Eu estava lendo um ensinamento de um famoso mestre chinês que morreu com 101 anos e ele recomendou à uma mulher apenas uma coisa, que dissesse para tudo que acontecesse, que assim seja. E ela então começou dizer “assim seja” para todas as coisas. Para a morte do marido, para a morte do filho, para cada coisa que aconteceu. E ao dizer “assim seja” aceitando tudo plenamente, sem nenhuma reação, sem nenhum sentimento de oposição, com perfeita equanimidade mental, ela atingiu a iluminação, atingiu a completa libertação. A libertação estava disponível, só era necessário mudar sua mente para uma mente de pura aceitação, que podia aceitar todas as coisas tais quais elas se apresentam. Aceitar as coisas tal como se apresentem é uma maneira de transformar o samsara em nirvana. Isso não significa, em absoluto, não agir no mundo, significa sim, agir no mundo, por que não? Agimos no mundo da maneira correta apenas, vendo o mundo como ele é e tentando agir no mundo tranquilamente, da melhor maneira. Vivenciando o mundo e reagindo ao mundo com a mente mais tranqüila possível, com a melhor aceitação possível, só então nós treinamos a nossa mente. Esse treinamento começa na meditação, por isso na meditação sentamos e podemos fazer muitas coisas. Simplesmente sentar e ouvir os sons do mundo, e aceitar os sons do mundo tais como eles se apresentam, sem nenhuma reação de bom, ruim, certo, errado, gosto, não gosto, aceitar completamente tudo que acontece enquanto estamos sentados respirando.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O caminho do Zen





Em primeiro lugar nós temos que entender o que é o Zen e o que é o caminho do Zen. O caminho do Zen é o caminho direto. O caminho direto foi ensinado por Buda pessoalmente, segundo conta a historia, a partir do sermão da flor. Quando Mahakashyapa sorriu quando Buda levantou uma flor. A percepção do que é o caminho é a compreensão de que tudo esta na mente. Que na verdade esse mundo, que nós vemos como mundo sansárico, é o mesmo mundo nirvânico, é o mesmo nirvana. Nós trabalhamos, comemos, dormimos, encontramos pessoas e tendemos a separar o mundo como o mundo do dharma de um lado, o mundo da paz, da serenidade, como agora quando estávamos em meditação e o mundo das aquisições, das coisas, dos trabalhos, das pessoas. Mas esse mundo que nós olhamos não é o nirvana porque a nossa mente não o vê. Assim como não vemos nas pessoas a pura natureza de Buda. Porque a única coisa que existe nas pessoas, a única coisa sólida e verdadeira, é a pura natureza búdica. Dentro de qualquer pessoa, a única coisa que não pode ser removida é a natureza búdica.

Toda sua mente, todos seus pensamentos, todos os acontecimentos, toda sua cultura, toda sua memória e seu corpo são temporárias e sendo temporárias, evanescentes e impermanentes, essas coisas não são o que poderíamos chamar de real. A única coisa que poderíamos chamar de real é a pura natureza búdica. A nossa dificuldade é que não podemos enxergar, por que? Porque nós temos ego. Como temos ego, esse eu, que usamos para transitar no mundo, confundimos tudo com uma realidade eterna e queremos que ele seja permanente. Confundimos todas as outras coisas com realidade sólida. Quando elas não são mais que bolhas, fumaça, sonhos, que passam e desaparecem como essa nossa reunião, como nossos corpos, como tudo. Mesmo nosso eu pessoal desaparecerá completamente.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tempos de reconciliação


O final do ano, talvez porque nos lembre do final das coisas, de nossa própria mortalidade, é um tempo de reconciliação. Subitamente pessoas que se afastam devido a julgamentos, suposições, conversas críticas em que os maus sentimentos afloram, dão-se conta de seu erro, das tolices que disseram, tentam consertar o passado antes que tarde seja. Para os budistas há respostas quase prontas para as tentativas de reconciliação, as aberturas de sorrisos tímidos, pedidos de desculpas implícitos em mensagens belas. Basta abrir os braços e dizer que está sempre pronto, e que a melhor virtude para facilitar o perdão é o esquecimento, não dos fatos em si mas dos sentimentos de mágoa e injustiça. Se os sentimentos são olvidados, as histórias são meras memórias, sem carga de dor ou ressaibos.

Havendo oportunidade, olhe em volta, se fossem seus últimos dias que reconciliações seriam possíveis?
Que sentimentos tolos do passado poderiam ser removidos? Que cargas cármicas de cisão, de divisão, de desamor poderiam ser elididas? Que medos e temores vindos de nossas fantasias se mostraram apenas o que são, criações mentais sem base na realidade, ilusões? Onde nossos julgamentos apressados se mostraram falsas tempestades, boatos com a consistência das histórias de fim de mundo, destruidoras da harmonia, principal coisa a ser defendida nas comunidades?  Abra seus braços, e sem abandonar os princípios que escolheu para sua vida, os preceitos budistas, as regras de compaixão, tolerância, paciência, alegria, reverência,  deixe que a reconciliação impere e o perdão seja o mote para guiar as reconciliações humanas.



segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Budismo, reeencarnação e renascimento



Muitas pessoas confundem o budismo com uma doutrina que crê em reencarnação, mas isso não é verdade, porque não existe reencarnação no budismo, não da maneira como se entende reencarnação. Pois não existe nenhuma alma para reencarnar, nenhum espírito, nenhum eu. Há continuidade, mas não de um eu. Somente nosso karma ou nossos impulsos podem permanecer, como movimento que são. E como são movimento, tentarão se manifestar novamente e gerarão um novo ser muito semelhante a nós, com os mesmo desejos e tudo mais, que também olhará para si mesmo e dirá “eu sou”. Este ser até, na infância, pode ter recordações fugazes da existência anterior, mas a perde rapidamente com a idade, chamamos isto, no budismo, de renascimento, em tudo é semelhante ao conceito de reencarnação exceto pelo fato de não haver um eu pessoal que subsiste.

 (Para os que perguntam sobre a tradição dos tulkus no budismo tibetano, o reconhecimento de renascimentos, ela não conflita com este conceito desde que está claro que não se trata de continuidade de um eu, mas sim de continuidade cármica, se houvesse sobrevivência de um eu não se trataria de budismo, pois Buda negou esta possibilidade)

 E porque continua esse ser iludido criando novas identidades vidas após vidas, sem parar, esse ser não passa de um ser cíclico, repetindo sempre os mesmo atos, as mesmas insatisfações, os mesmos desejos e as mesmas tristezas. Como podemos escapar desse ciclo? Somente se mudarmos nossos olhos, os olhos que vêem o mundo. Porque temos olhos de eu, olhamos o mundo como um mundo que age e interage conosco, quando essa interação também é ilusória. Todas as ações e reações das pessoas, todas as coisas que nós temos, todas, são projeções do nosso eu. Nós projetamos nosso eu sobre todas as coisas e as interpretamos de acordo com nosso eu, e este eu é nosso engano.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Ordenações monásticas no Zen



Foto do final da ordenação de monges Chudô ( Ápio Ricci, primeiro à frente da direita para a esquerda) ) e Kômyô ( Claudio Miklos, segundo à frente da direita para a esquerda) ) no Templo Busshinji, na frente destaca-se em uma cadeira Rev.Prof.Dr. Ricardo Mário Gonçalves o mais antigo monge brasileiro em atividade, Presidente do Conselho do Colegiado Buddhista Brasileiro e autor dos primeiros textos de divulgação do budismo no Brasil. Ao centro, o oficiante, o Superior Geral da América do Sul, Saikawa Roshi, o mestre zen do despertar que revolucionou o zen no país com suas iniciativas. Atrás à, direita, escondido em uma camiseta azul, o postulante a Monge Shin e diretor do Colegiado Buddhista Brasileiro, Mauricio Ghigonetto, que honrou a cerimônia com sua presença.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O FIM DO MUNDO

Texto de Claudio Kômyô, ordenado dia 19/12 monge noviço na Comunidade Zen de Florianópolis e já conhecido professor do Dharma e líder budista. Ele e Chudô San, Sensei de Aikidô, também ordenado no mesmo dia por Saikawa Roshi me dão a honra de orienta-los no Caminho de Buddha. É o texto certo para o dia de hoje.



                              A Síndrome do Armageddon

Claudio Miklos (Monge Kômyô) – Dezembro, 20, 2012

O mundo não acabou em 2012. E não acabaria, pois o fundamento desta nova delusão de morte nunca de fato existiu; não havia vaticínio Maya para o fim de seu calendário, para o fim do ciclo maior de sua bela tradição. Mas mesmo não terminando, muitos se perderam nesta onda virtual de informações confusas e manipulações esotéricas. Contudo, não me sinto feliz em apresentar estas conclusões. Pois sei muito bem que para milhões de pessoas, tolas ou ingênuas, ou apenas carentes e ignorantes, a compreensão clara e definitiva do fato de terem sido levadas a uma bizarra série de ideias mistificadoras não alcançou suas consciências – para elas, os fatos pesam menos do que as palavras bonitas, as afirmações abstrusas de personagens etéreos, criados por uma legião de pretensos profetas da Nova Era. E assim, estas pessoas continuarão se iludindo e sendo iludidas.

Tais pessoas não compreendem a delusão em que acreditam, não alcançam a nulidade pueril dos conceitos “intergalácticos”, “celestiais” ou “ascensionados” criados por pessoas tão deludidas quanto as primeiras, mas com a arrogância um tanto ridícula de pretender decifrar segredos de seres ou civilizações inventados.

Mas, à parte minha tristeza por mais uma vez constatar o quanto a humanidade sofre da endemia mental de ignorância perceptiva que priva a maioria de buscar uma verdadeira prática amadurecida em sabedoria, consciência e compreensão da vida, o que mais me deixa perplexo é perceber o impulso estranhamente recorrente que move os seres humanos para a ânsia (quase um desejo carnal) na destruição, no fim, nos fantásticos sonhos do Armageddon. Por que tantos anseiam pelo fim da Vida? Por que tantos anseiam por uma mudança externa, convenientemente fora do âmbito de suas responsabilidades pessoais de se esforçar para transformar e curar a si mesmos de forma madura, sóbria e corajosamente alerta? Por que, para que o mundo se torne “melhor”, tudo precisa acabar e todos aqueles que desprezo ou considero maus devem ser eliminados, excluídos de uma ascensão apoteótica aos céus, ou à nave espacial, ou a um novo mundo magicamente surgindo no espaço para substituir esta Terra, suja, poluída, degradada, desprezível? Tudo muito fácil, limpo e mágico.

Ou então (talvez ainda mais absurdo), por que tantos sonham com uma transformação imperceptível, inalcançável, inefável e vergonhosamente elitista dos “eleitos” aqui mesmo neste planeta, uma salvação dos que fazem parte de um estranho “clube espiritual”, que consegue enxergar uma mudança estranha e completamente incoerente de portais, eras, tempos, mentes ou – pasmem – de DNAs?

O que move a delusão espiritual? Talvez a profunda decepção com a realidade difícil e plena de sofrimentos faça com que as massas humanas busquem por qualquer um que as induzam sentirem-se especiais, mais elevadas, mais iluminadas – e finalmente, salvas de si mesmas.

É grave a ilusão que move a humanidade, e ela se torna ainda mais grave porque agora as loucuras delusórias de poucos auto-eleitos são transmitidas viroticamente e á velocidade da luz para muitos pelos tortuosos caminhos virtuais e informativos humanos. Isso torna a insanidade minúscula de pessoas perdidas em suas fantasias em uma assustadora insanidade de milhões, presas fáceis das manipulações dos programas sensacionalistas da TV, dos livros anunciadores do cataclismo universal, dos pulsos virtuais dos blogueiros esotéricos perdidos nas redes sociais. O Armageddon mais uma vez é anunciado, e mais uma vez não significa coisa alguma. A humanidade mais uma vez espera o fim do mundo, e mais uma vez ele persevera, completamente indiferente às loucuras destes primatas estranhos, que se acham capazes de entender as inumanas vozes do Universo.

Talvez, afinal, seja essa a resposta: nós seres humanos não aguentamos aceitar que a linguagem do universo nos escape, que a linguagem da própria Vida não depende de nossos vaticínios. A Vida prevalece, haja ou não humanidade.

E neste sentido, por que não celebramos a existência ao invés de recorrentemente esperarmos que ela seja destruída? Por que não anunciar bem alto e bom som: AMANHÃ A VIDA CONTINUA! Sem seres ascensionados, sem anjos ou demônios, sem alienígenas ou deuses para nos dizer o que fazer e o que irá acontecer. A Vida continua, e o mundo não vive uma Nova Era; a novidade da Vida já se apresentava e continua a se apresentar no AGORA, todo o tempo. Não é preciso consciências celestiais, anjos de luz, sábios de Shangri-la para anunciá-la.

Sejamos conscientes sem a necessidade das hordas esotéricas. Sejamos conscientes com nossos filhos e filhas, com nossos maridos e esposas, com nossos vizinhos e amigos. Sejamos conscientes com todos os seres vivos e com todas as coisas como elas são. Não é preciso construir um mundo místico para que sonhemos a Felicidade. A Felicidade precisa apenas de uma dose de alegria por viver simplesmente e em paz para que se manifeste. Sejamos felizes simplesmente existindo, sem esperar que estrelas caiam, novos tempos ocorram, mundos sejam destruídos.

Vamos simplesmente viver, sem ilusões.



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Desenvolver a solidariedade



Aluno – Eu sei, só quis colocar uma questão minha, uma dificuldade que tenho. Meu projeto é ir tirando a carne, é uma coisa minha...

Monge Gensho - Muitos budistas se dirigem para isso por um sentimento de compaixão ou por responsabilidade planetária, porque setenta por cento do desmatamento é para virar área de pasto. Se a humanidade não comesse carne, sobrava comida amanhã, porque a maior parte dos grãos cultivados vira ração para o gado. Existem os extremos. Existem animais que comem 9 quilos de grãos para a produção de um quilo de carne. Por isso a carne é tão cara. Então, como existe esta tradição nos mosteiros, muitos budistas têm essa tendência de ter uma responsabilidade social sendo vegetariano. Mas o budismo jamais defendeu essa posição como um item necessário, sempre se focou na mente, “um pragmatismo dialético de métodos psicológicos”, como disse Edward Conze. É isso que o budismo é, um método de libertação pessoal, mas não com regras desse tipo com relação ao mundo. Isso tem que ser desenvolvido internamente...

Aluno –  Eu vejo por mim, pois no meu caminho de apenas dois anos no budismo, já vejo a necessidade de mudar meus hábitos alimentares, mas não pela saúde física, e sim pela compaixão. Eu tenho sonhado com bichos, tenho acordado com um sentimento de compaixão, pois nos sonhos eu sou sempre muito amiga dos animais. Então está sendo quase inevitável...

Monge Gensho – Agora, isso é uma mudança cármica, né? Na realidade é uma mudança de carma, a pessoa vai mudando. Em muitos aspectos você pode ser impactado por isso,  nós só estamos aqui nesse tipo de mundo, nos manifestando como seres humanos, porque somos criaturas de desejo, de apegos e profundamente egoístas. Nós somos assim. A solidariedade e a compaixão pelo outro é algo que a gente desenvolve, e se você desenvolver muito terá dificuldade de voltar para esse mundo; como existem muitos mundos, quem sabe você renasce numa terra pura onde a prática seja mais fácil? Essa é uma forma que existe dentro do budismo – “a terra pura”. A terra pura é um lugar onde a bondade é mais freqüente. Renascer num lugar assim não me parece ser um mau objetivo; é um bom objetivo.

Fim
Palestra de Monge Gênsho decupada da gravação por Monge Chudô.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Vegetarianismo e mosteiros zen


Pergunta – Uma coisa em que eu penso muito é sobre o consumo da carne. Não é mais somente uma coisa de propaganda. Antes eu pensava que era um hábito de família. Mas se formos observar a pirâmide alimentar dos nutricionistas, a base é carne e derivados de animais. Se for ao médico, ele lhe dirá para comer carne. Meu pai, por exemplo, ficou anos sem comer carne, então teve um problema de saúde, e o médico o assustou tanto, que ele voltou a comer carne. Existe algo além da mídia, é algo da ciência mesmo.

Monge Genshô – O que existe é um sistema de crenças, e ele irá variar. Por exemplo, nós sabemos que nos mosteiros Zen budistas, desde o tempo da China - ou seja, há mil e quatrocentos anos - se desenvolveu uma cozinha vegetariana, porque não se podia matar nos mosteiros e na China a mendicância era proibida. O resultado final dessa cultura é que no Japão, por exemplo, o consumo de carne de mamíferos é uma coisa recente, tem apenas cento e poucos anos. Antes disso, comer carne era uma coisa absurda. Comiam bastante peixe, mas jamais carne de caça ou de bois e porcos. O resultado disso foi a longevidade; a tradição nos mosteiros Zen é de longevidade com lucidez, e dificilmente você vê alguém gordo, pois ali comem muitos vegetais e grãos. Mas um monge pode aceitar carne se lhe é oferecida, não pode aceitar que alguém se proponha a matar um animal com o fim de alimenta-lo, esta proibição vem desde o Vinaya (código de regras monásticas) mais antigo.

Aluno - Acho que já está na hora do meio científico começar a divulgar isso...

Monge Genshô – Eu acredito que já haja algumas correntes que fazem esse trabalho.

Aluno - Parece que todo o modelo de consumo leva para a carne, não existe um financiamento de pesquisa contra o consumo de carne.

Monge Genshô – Porque nas faculdades é ensinado assim, há um lobby industrial forte, mas existem outras correntes que questionam isso, já temos literatura a esse respeito. O máximo que posso oferecer é meu exemplo pessoal: não como carne há mais de sessenta anos, meu pai era vegetariano, fui criado numa casa onde até o cachorro era vegetariano, pois naquela época não se dava ração e ele comia o resto da nossa comida. E lembro que quando viajávamos e deixávamos o cachorro com minha avó, quando voltávamos, ele estava gordo. O cachorro pode viver sem carne, mas é essencialmente carnívoro. Sua arcada dentária é completamente diferente da nossa, por exemplo, que é semelhante à dos macacos frugívoros. Não temos dentadura típica de um animal carnívoro; nossa mandíbula é diferente também com movimentos laterais. Mas o budismo não está focado nessa questão, não é necessário ser vegetariano ou vegano se você é budista.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O consumismo infinito



Pergunta – E o coração é a intuição?

Monge Genshô – Não, falo do coração em termos de sentimentos e paixões. As paixões arrastam as pessoas e as fazem tomar decisões muitas vezes nada razoáveis. Penso que seja isso que ocorra. Mas, o que interessa do ponto de vista budista, é saber como posso ser senhor da minha mente, o que significa domar minhas próprias paixões e não colocar a razão sobre elas. Porque a razão normalmente está subordinada a um sistema de crenças e de valores que nela ficam incutidos. Estamos, na verdade, falando de como conduzir nossa vida sabendo que nós não podemos ser arrastados pelas paixões e que não podemos nos deixar levar pelos valores que nos são incutidos normalmente pela sociedade. Como é ser realmente livre? O que é realmente uma mente livre?

Aluno – Vi um vídeo sobre publicidade que é muito interessante...

Monge Genshô – . Esse vídeo em questão fala da manipulação das massas através da publicidade com o fim de criar necessidades e desejos. Um dos temas abordados é de como foi feita a publicidade para fazer com que a mulher fumasse, para que ela pudesse fumar principalmente em público, o que na época era um tabu. Dessa forma, muitas coisas foram criadas para convencer as pessoas a consumirem determinados produtos. Uma lógica da economia e funcionamento das empresas está embasada no fato de que precisamos consumir para que a economia cresça, para que haja mais empregos, mais produção, etc. É comum todos ficarem muito felizes ao vermos na imprensa a afirmação de que o país esta crescendo, mas quando acontece de não haver crescimento, é quase uma calamidade pública. Na verdade, deveríamos nos perguntar se um crescimento assim é possível para sempre. Por que está tão embutido em nossas cabeças que temos que crescer sempre? Por que a economia dos países tem que crescer sempre? Por que existem sempre mais pessoas a serem incorporadas a uma sociedade mais afluente? Existem países onde a população é muito pobre, não come o suficiente, então sim, mas onde já se chegou a afluência uma progressão geométrica leva onde? Ao esgotamento dos recursos de um mundo finito.

Em um planeta muito limitado, nos tornamos muito numerosos, muito mais do que o planeta suporta, e temos uma lógica de crescimento econômico infinito, pensamos que é sem fim. Um exemplo típico é o da China, que adotou a civilização do automóvel; basta fazermos alguns cálculos para sabermos que lá não pode haver dois carros por família como é, por exemplo, o padrão nos EUA. Não é possível, não haverá onde os carros circulem. Chega um momento limite naquilo que podemos fazer ou consumir. A indústria convence as pessoas a comprar alimentos de uma determinada forma, a consumir cada vez mais alimentos, e sempre mais calóricos. De repente, todos começaram a ficar gordos,  identificamos isso como doença. Para amenizar a situação, agora temos uma epidemia de operações para redução de estômago. Isso tudo é muito ilógico. Se olharmos fotografias de mil novecentos e trinta para trás, os brasileiros eram todos magros. O que aconteceu, como mudamos tanto? O consumo de arroz e feijão no ano passado diminuiu no Brasil, estamos comendo mais, mas não é arroz com feijão, uma combinação quase perfeita; o que aumentou foi o consumo de bolacha, cerveja e salgadinhos.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Coração e razão




Aluno – Por isso que eu penso que quando a gente vai tomar uma decisão, tem que estar muito seguro, muito certo sobre o que vai decidir.

Monge Genshô - E como estar certo? Você não sabe. Você só sabe depois. E mesmo assim, é um saber suposto, porque você não sabe realmente como seria se você não tivesse tomado a decisão. Temos uns amigos que estão tentando migrar para a Austrália, estamos observando o que pode acontecer; talvez eles consigam. A grande diferença será para seus filhos pequenos, eles sofrerão, não é fácil fazer isso. Nossos antepassados fizeram; gente muito corajosa.

Aluno – Mas fizeram por causa da situação...

Monge Genshô – Sim, a situação  estava insuportável. Eu conheci um monge Zen que era dentista no Brasil e foi para o Japão, depois de dez anos voltou ao Brasil e tentou se estabelecer novamente no país. Ele disse que quando era monge no Japão não precisava pensar em nada, porque a instituição estava toda organizada, não precisava se preocupar com a conta da luz, da água, com nada. No Brasil, tinha que arrumar dinheiro para morar, comer, pagar água, luz. “Não agüento mais, como vou viver no Brasil?” perguntou-se ele. O resultado é que retornou ao Japão. Era impossível para ele viver no Brasil, ele havia se tornado monge da instituição. Aqui é diferente, pois somos monges que temos que trabalhar, é muito mais difícil ser monge, nessa situação. Talvez em algumas décadas seja diferente, talvez tenhamos nossa instituição, o monastério. Talvez haja, no futuro, a possibilidade de morar no monastério, de só realizar algumas tarefas, como, por exemplo, quem for morar no templo irá trabalhar na cozinha. 

Pergunta – Existe um ditado que diz que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Isso significa que a razão é mais forte do que o coração? Ou às vezes isso é invertido?

Monge Gesnhô – Observando seres humanos ao longo da vida, tenho constatado que o coração é mais forte que a razão. É raro que a razão esteja acima.
A essência do que estamos falando talvez seja, “nós temos a capacidade de mudar nosso carma?” Temos, mas não é fácil, precisa haver grande empenho e esforço. Ocorre, ao se tomar uma decisão, do carma mudar muito. Quando aceitei ser monge, isso mudou muito minha vida. Não mudou inteiramente, mas mudou um aspecto: me deu um ideal. Se não fosse isso, eu estaria simplesmente trabalhando e tentando ganhar dinheiro. Talvez sentisse que a vida fosse vazia, porque a gente precisa ter ideais para sentir a vida mais plena.

 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Destino e livre arbítrio



Pergunta: Quanto é destino, quanto livre arbítrio?





Monge Gensho –  De destino nada e de livre arbítrio é muito pouco. Essa história toda demonstra mais ou menos isso. Você está numa corrente de carma, é como se estivesse num rio arrastado pela corrente. Essa corrente é muito forte e você não consegue voltar a subir o rio novamente, não consegue ir para a margem; às vezes, acontece de surgir um remanso e você até poderia se deslocar para a margem e sair do rio. Há, como essas, poucas ocasiões em que isso é possível. Normalmente todos ficam na torrente e vão sendo arrastados por seu próprio carma sem conseguir escapar. Existem momentos em que você pode fazer escolhas que mudam sua vida, digamos que o rio se divida em determinado ponto, e que com um pouco de esforço você pode ir para um dos lados. É comum surgir o pensamento, “ah, se tivesse escolhido o outro caminho...” Aquele momento teria mudado a vida inteira. Mas normalmente você está no fluxo da própria vida e não consegue facilmente sair dele, você fez uma filha há alguns anos, não é? Agora ela teve um filho; você consegue escapar de ser avô? Mesmo que você quisesse, mesmo que tentasse, pensando, “não, não vou prestar atenção, não vou me ligar a esse neto, não colocarei nenhuma paixão nessa relação e irei morar no Butão”, ainda assim, você seria o avô. Você até poderia fazer isso, mas eu aposto que não faria.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Se eu fosse para um mosteiro...



Pergunta - E onde entra o que chamamos de intuição?

Monge Genshô – A intuição é, na realidade, um conjunto de coisas. Sentimentos, percepções do passado, um conjunto nebuloso dentro de sua mente que lhe dá uma sensação a respeito de algo. Se fossemos tabular as questões intuitivas, você veria que seus resultados são aleatórios. Algumas vezes dá certo, outras, dá errado. É mais de acordo com a lei das probabilidades mesmo. Aquilo que consideramos intuição também não é confiável. Estou dizendo que o coração não é confiável, a razão não é confiável, a intuição não é confiável, que é melhor deixar o fluxo da vida correr, observando e agindo como você puder. Mas é muito importante não tentar impor aos outros nossas crenças ou convicções, sentimentos, ou razões. Você não sabe.

Pergunta – Então, escolhemos uma vida, vivemos uma vida?

Monge Genshô – Na realidade, vivemos uma vida arrastados por condições cármicas, é o carma que nos conduz.  Isso me faz lembrar o momento em que eu quis ser monge. Naquela época estava trabalhando como consultor e viajando demais – fazia mais de duzentas viagens de avião por ano. Sentia-me muito cansado e com dores nas costas. Um dia, parei no Rio de Janeiro e conversando com um monge Zen, reclamei da dor nas costas. Como ele fez acupuntura, me perguntou sobre o que eu andava fazendo, então respondi que fazia duzentas viagens de avião por ano. “Mas, afinal, o que você quer?” Foi a pergunta que ele me fez e que é, na verdade, um grande questionamento. Algum tempo depois, procurei Igarashi Roshi e disse-lhe que eu queria ser monge. Eu pensei que sendo monge estaria escapando da minha vida de empresário e consultor, consequentemente, das viagens. Ele então me perguntou, “por que?”, ao que respondi “minha vida é tumultuada e acredito que o melhor caminho para mim seja o de ser monge”. Então ele me disse, “você está muito enganado, não vai solucionar nada. Eu sou monge e viajo de um lado para o outro, quero construir um mosteiro em um lugar, ajudar uma pessoa em outro, tenho que pegar avião, tenho que viajar, reunir dinheiro para fazer as coisas. Meus problemas são iguais aos seus”. Voltei para Porto Alegre e um amigo que trabalhava junto comigo conseguiu uma sala e me pediu que o ensinasse a fazer meditação. Depois de dois anos já tínhamos uma sede: fechamos uns boxes no estacionamento e fizemos um zendo. No terceiro ano Igarashi Roshi me ligou perguntando o que eu estava fazendo e disse que iria me visitar para me ordenar monge. O resultado é que além de continuar a fazer tudo o que eu já fazia, ainda tive que assumir mais o compromisso com uma Sangha. Então eu penso que isso é carma mesmo, não tem jeito. Isso é freqüente, você julga que vai escapar da vida e pensa “ah, se eu saísse daqui e fosse para um monastério me livraria de todos os problemas da vida!” Não é assim, você conseguiria treinar determinadas coisas, mas sua vida continua com você. Eu tenho essa convicção: meu caminho é ter família, ser monge, trabalhar. Muito provavelmente morrerei assim.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Uma mente aberta é melhor



Pergunta – Razão e emoção formam uma dualidade?

Monge Gesnhô – Acho que devemos questionar a razão também. Aquilo que chamamos de “razão”, muitas vezes é governado por um sistema de crenças. Nós acreditamos que algo seja pior, ou melhor. Como temos um sistema de crenças, damos a ele razão. Mas podemos estar enganados.

Pergunta – Qual a conduta a seguir?

Monge Genshô – Muitas vezes também me pergunto isso. Seguidamente me questiono sobre o que fazer, sobre qual seria a melhor conduta em certa situação. Quando temos filhos ou netos, é comum nos indagarmos: “e agora, qual seria a melhor maneira de agir, o que dizer?” Muitas vezes não estamos tão certos. Mais tarde, anos depois, o filho nos diz: “tu deverias ter sido mais duro comigo”. E pensávamos estar sendo duros demais. É muito freqüente que um filho adolescente nos acuse de sermos muito severos e que anos mais tarde ele mesmo diga que deveríamos ter sido mais duros. É muito difícil saber o que fazer ou o que dizer. O melhor é cultivarmos uma mente mais livre, descondicionada, que realmente nos permita dizer “não sei.” São muito perigosas as pessoas que têm certezas e que sabem muito nitidamente o que é melhor. Às vezes, existe nas famílias aquela pessoa que tem razão e que quer impor sua vontade sobre a família inteira. Ela se considera sempre certa, tem seu conjunto de crenças, e quer, por força, que todos as aceitem. No fim, isso pode ser muito ruim. Como é que se sabe o que é melhor? Como você pode impor aos outros o que pensa ser o melhor? Você não sabe. Temos muitos exemplos de pessoas que se tornaram grandes em alguma coisa contra o que seus pais tinham se oposto acirradamente. Há pouco tempo, li na autobiografia de Elias Canetti que sua mãe lutou denodadamente para que ele tivesse uma profissão, que estudasse algo que fosse realmente útil, para que não ficasse em fantasias de literatura. Ele então se graduou, fez mestrado e doutorado em química, para obedecer a sua mãe. Elias Canetti foi prêmio Nobel de literatura; nunca foi químico. Mas sua mãe tinha absoluta certeza de que sabia o que era bom para seu filho e morreu em conflito com ele. Como podemos saber o que é realmente bom, o que é certo? Voltando à questão relativa a coração e razão, podemos dizer que o que pensamos ser a razão, pode estar errado. Uma mente aberta seria, portanto, mais conveniente.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Senhor de sua mente



Por isso Buda disse que o caminho budista é ser senhor de sua mente. Somente sendo senhores de nossas mentes seremos capazes de evitar sofrimento aos outros e a nós mesmos. Através do descontrole de nossa mente é que começamos a sofrer, porque temos sentimentos que nos perturbam e esses sentimentos é que têm que ser transformados. Mas não basta policiá-los, pois o simples ato de controlar pode falhar, e então, fracassamos. O que temos que mudar é o sentimento real, visto que, ao proceder assim, palavras e gestos serão automaticamente alterados. Mas isso tudo é extremamente difícil, então, para tentar transformar nossa mente através de um esvaziamento dos condicionamentos de que ela está plena, fazemos zazen.

Zazen (meditação zen budista) é a técnica cuja prática permite que nossa mente se transforme. Mas, na trajetória de nossa vida diária, a cada pequeno ato de pensamentos, gestos ou palavras, nós podemos nos questionar: “por que eu falei assim?”, ou, “por que eu disse isso?”, “por que agi dessa forma?”, “por que pensei assim?”, “de onde vem esse sentimento?”, “o que ele é?” Isto é a prática budista. Quando dizemos que somos praticantes, deveríamos dizer que somos praticantes para nos tornarmos senhores de nossas mentes, para não deixar que a mente corra livre e desembestadamente, sentimento após sentimento.   Não devemos seguir os sentimentos tais como eles surgem, porque eles não são bons conselheiros. Os sentimentos são paixões e as paixões nos conduzem de forma desordenada. Na realidade, ser senhor de sua mente significa ser senhor de seu coração.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A ética budista



Todas essas histórias, desde a da ponte do meio-balde até a dos chipanzés, têm relação com nossa atitude de integração e respeito com toda a natureza e com tudo o que nos cerca. O primeiro preceito budista diz “Não matar”. Isso não significa, somente, não matar seres humanos, mas tem relação com tudo o que nos cerca. Meu primeiro professor do Zen, Kanner San, dizia que esse preceito inclui não matar uma pedra, simplesmente porque também uma pedra pode ser danificada por um mero destruidor, por um capricho. Se não houver um motivo plausível, não temos o direito de destruir qualquer coisa ou de causar qualquer sofrimento. Esse é um questionamento que cada um deve fazer com relação a si mesmo e sua vida no mundo.

Quando penso em moralidade, penso que o budismo não tem uma moral no sentido de mandamentos que temos que seguir, preceitos existem, são como faróis para nos guiar e evitar uma vida com sofrimentos adicionais. Não é uma questão de moral no sentido convencional, como questionar-se sobre a roupa a vestir ou de como nos comportamos; não se trata de uma coisa assim caracterizada por rigidez, por algo que vem de fora ou de um deus a quem tememos. Trata-se de uma ética em relação ao sofrimento, logo, todo ato que cause sofrimento aos outros deve ser questionado, o que engloba gestos, palavras e em última análise, pensamentos – neste caso, porque o pensamento leva a que se cometam as palavras e os atos que irão gerar sofrimento.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Palestras do Monge Genshô em Brasília e Goiânia


Palestras do Monge Genshô em Brasília:

11/12/2012 - "O Budô nas Artes Marciais e a Prática Zen"

Local: Kenshokai - Instituto de Artes Orientais - QI 04, conjunto R, casa 34, Guará, DF
Horário:20h

ENTRADA FRANCA

12/12/2012 - "Espiritualidade no Mundo dos Negócios"

Local: Ed. Central Park - SCN QD 1 Bloco E - Térreo, Auditório FIBRA
Horário: 19h30


Goiânia:

PALESTRA ABERTA COM MONGE GENSHÔ SENSEI EM GOIÂNIA

DIA 13 de DEZEMBRO às 19h

Tema: As Energias Formadoras de Hábito e o Cultivo de uma Mente Equilibrada

Local: CREI - Centro de Referência da SEMIRA - Secretaria de Estado de Políticas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial.

Av. Goiás nº 1496, Centro, (ao lado da Madeireira São Jorge).

Lotação 100 lugares

Colaboração sugerida: R$ 10,00

Realização: Comunidade Zen Budista de Goiás

Informações: www.zenbudismo.com.br

Contato:

Rachel - (62) 8121-1001

Fábio - (62) 9662-0826









sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Os outros seres tem sentimentos?



Em Eihei Ji há uma pequena ponte sobre um riacho que se chama Ponte do Meio-Balde, porque Dogen (Mestre Zen do sec 13) ia até lá e recolhia um balde de água, cuja metade derramava de volta. Esse era um ensinamento seu, ele dizia que devemos sempre devolver parte. Ensinava, também, que se algo sobrasse da água usada, nunca deveria ser arremessado para longe, mas colocado, cuidadosamente, perto de nós, na terra.

Esses pequenos gestos têm grande significado no Zen, pois contêm um grande ensinamento. Todas as coisas são dignas de serem tratadas com reverência, por isso, em nossa prática quotidiana, em nossas pequenas ações diárias, devemos proceder da mesma forma. O Brasil é um país com abundância de recursos, proporcionalmente à sua população. Sempre pensamos que poderíamos abusar da natureza com grande largueza, e até hoje, muitas das cidades brasileiras não têm redes de esgoto; lançamos tudo nos rios, no mar, cortamos florestas, depredando, assim, a Terra. Destruímos nosso patrimônio, pois sempre tivemos, no Brasil, essa noção de que os recursos naturais nunca vão acabar. Assim, não nos importamos, porque se onde estivermos não nos servir mais, vamos adiante e usamos o que há em outro lugar.

Em relação aos animais, costumamos pensar, na nossa civilização, que eles não são seres dignos de respeito e que não têm sentimentos. Como exemplo de quão longe já chegou esse tipo de pensamento, há uma declaração de um general americano da guerra do Vietnã que ficou célebre, pois disse que “os orientais não dão o mesmo valor à vida que nós”, para justificar que não era muito importante se alguém morresse. Num famoso documentário,Corações e Mentes, aparece esse general fazendo essa declaração, e em vez de algo ser dito, vemos a imagem de uma mãe vietnamita, chorando a morte do filho. Se tal declaração nos parece hoje absurda, quanto aos animais, estamos bastante convictos de que não possuem sentimentos da mesma forma que nós.

Caiu-me nas mãos um livro que se chama A Era da Empatia. Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Segundo esse livro, experimentos com animais começam a demonstrar cabalmente o contrário. Em uma destas experiências, (detestável como muitas delas)  é colocado um rato numa pequena gaiola onde, para comer, tem que apertar uma pequena alavanca. Uma vez que esteja condicionado a isso, é colocada junto à gaiola dele uma gaiola com outro rato ligado a fios. Cada vez que o primeiro rato aciona a alavanca para pegar comida, o segundo rato recebe um choque e grita de dor. Ao perceber que, para comer, o outro tem que sentir dor, o rato pára de se alimentar. Isso significa que ele se importa, de alguma maneira, com a dor do outro.

 Os primatas têm comportamento assim também, muitas vezes foram registrados atos altruístas, não somente com relação a seus companheiros de espécie, mas, também, com relação a outros seres, como no caso de um chipanzé, que foi observado pegando um pássaro caído, colocando-o num galho de árvore e abrindo suas asas. O que significa isso? Ele sabe que se trata de um pássaro e sabe como esse animal se comporta. Há, portanto, registros de animais salvando vidas de outros animais e de seres humanos, às vezes até com sacrifício da sua própria vida. Isso indica que nós não somos tão especiais em termos de sentimentos e que não podemos dizer que os outros não têm os mesmos sentimentos ou que não sofrem como nós. Se até os animais têm comportamento de empatia, solidariedade e consolo, sendo capazes de consolar os que sofrem, não é surpreendente que os seres humanos tenham desenvolvido esse tipo de comportamento.
(continua)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Zazenkai de Confraternização 09 de dezembro de 2012



Zazenkai de Confraternização 09 de dezembro de 2012


A COMUNIDADE ZEN BUDISTA de Florianópolis tem o prazer de

convidá-lo para o nosso tradicional "Zazenkai de

Confraternização". Leve seu companheiro(a), filhos, amigos! Será

num Sítio em Águas Mornas (depois de Santo Amaro), localidade Rio

Antinhas, km 48, à 50km de Florianópolis. Devemos sair do primeiro

Posto de Gasolina da Via Expressa sentido ilha- continente às 8:30

horas.O almoço será comunitário, tragam algo saudável para

compartilhar. Cada um deve contribuir com um prato doce ou salgado

(vegetariano), além de suco natural. Solicitamos que os interessados

em participar confirmem presença até o próximo sábado 08/12.

Quem estiver com o carro disponível para levar outros praticantes,

por favor, o encontro será na sede da comunidade às 8h. A saída

será no primeiro posto de gasolina da via expressa às 08:30

pontualmente. Venham todos e convidem os amigos que gostariam de

conhecer nossa sangha.


Horário: das 08:30 às 17hs.
Local: Sítio do Guilherme

Gimyô. (Águas Mornas, SC). Maiores informações com Juliana

Suuen, juliana@chalegre.com.br


Treinando a mente no retiro

            Final de refeição em retiro na Sangha Zen de Florianópolis  SC   Morro das Pedras.


Pergunta – Qual o problema do erro? Existe, de fato, problema em cometer erros?

Monge Genshô – Os erros acontecerão, isso não é importante. Por exemplo, eu chamo o Jisha e lhe digo: “O altar de Buda está sujo”. Ele estará errado se disser, para se desculpar: “Pois então, o pessoal da limpeza não veio ontem e hoje o encarregado faltou”. Se o altar de Buda está sujo, ele deve pegar um pano e limpá-lo rapidamente, sem desculpas ou questionamentos. A atitude correta é essa, sendo incabível tentar encontrar o encarregado ou responsável que não exerceu corretamente sua função. Não perguntamos quem quebrou o vaso, juntamos os cacos e varremos o chão. Perguntar ou procurar pelo culpado é enaltecer o ego, que é separação. (O culpado está lá o certo sou eu que estou aqui, sou superior...etc...)

Pergunta - Uma das coisas que a gente percebe em qualquer individuo é o surgimento de uma certa vaidade. Assim como na mente de zazen surge o pensamento, pode surgir a culpa?

Monge Genshô – Como pode haver culpa se somos todos uma unidade? Se alguém se mexe no zazen, quem está se mexendo? Suponhamos vinte pessoas na sala e uma que se mexe: quem está se mexendo? Todos. A Sangha está se mexendo. A Sangha não está imóvel. Não é aquela pessoa que não está imóvel, é a Sangha. É essa a visão. Não há culpa ou não culpa, simplesmente, está acontecendo, é essa a visão que temos que entender. Você vai para um sesshin e alguém deseja algum cargo, alguma função. Não deve existir o desejo por alguma coisa. Se alguém receber alguma incumbência, deverá cumpri-la; se não receber função alguma, não deve sentir-se sensibilizado por isso, pois essa é  demonstração de ego. Temos que atentar para o fato de que cada um deve cuidar de si mesmo. É isso que está sendo visto. Vocês percebem que isso é diferente do que vemos no mundo, onde todos querem se destacar e ter sucesso. Na Sangha não pode haver o desejo de destacar-se. Há um ditado japonês, que provavelmente veio do zen, que diz: “Um prego que se destaca será martelado”. E se não se destaca? Ótimo. Ele está no mesmo nível de todos os pregos, não está fazendo nada para tornar-se diferente, está executando exata e tão somente sua função, que é segurar a madeira. As regras são essas, não se justifique, não explique, não compare.

Comentário – Eu faço muito isso Monge, o tempo todo. Há coisas com as quais as pessoas não se importam e eu gostaria que elas se importassem, pois gostaria de ter seu reconhecimento, gostaria que elas vissem que ajo ou faço algo corretamente.

Monge Genshô – Mas se você percebe, isso já é uma grande coisa, porque fazemos coisas erradas o tempo todo; eu faço muitas coisas erradas. É impossível ser perfeito. Mas temos que saber de onde vem, por que e como agir nestas situações, e pedir desculpas, porque não é isso que as pessoas estão acostumadas a fazer, as pessoas estão acostumadas a se justificar, a se defender. Dizem: “imagina, não fui eu, aliás, isso aconteceu porque Fulano fez tal coisa”. As três palavras no treinamento zen dos monges noviços são: sim, desculpe, obrigado.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A justificação



Pergunta – Existe algum tipo de prática para durante o dia, com os olhos abertos?

Monge Genshô – Durante o dia? Claro. Experimente andar na praça durante o dia e olhar para as árvores e entre em samadhi ( concentração). Por que não? Existem muitas oportunidades de prática durante o dia para samadhi, para olhar para sua mente. Você precisa observar sua mente. Por que eu agi dessa forma? Qual o sentimento que me leva a agir dessa forma quando alguém me diz alguma coisa? O que me leva a justificar-me constantemente? Por que as pessoas fazem isso? Por exemplo, uma pessoa escorrega e quase cai. O que acontece? A reação, em geral é: “Ah, mas esse chão molhado, sem uma placa!”, ou “Ah, essa calçada mal feita!”. A culpa é sempre dos outros, nunca é você que não prestou atenção ao chão molhado e não caminhou mais cuidadosamente. Sempre nos justificamos e culpamos os outros. Isso, nos mosteiros, é facilmente aprendido, pois nenhuma justificativa é permitida.

 A justificativa é sempre a defesa do ego, mesmo que você tenha razão. No mosteiro, se você for repreendido injustamente, você simplesmente diz: “hai”, ou seja, “sim”, mesmo que o autor do erro tenha sido outra pessoa. Ser capaz de fazer isso sem se justificar, aceitar toda a injustiça, isso é realmente importante, mas é muito difícil. Para fazê-lo, é necessário esquecer-se de si mesmo. Enquanto eu quiser defender meu ego, minha vaidade e minha imagem, o prêmio se justifica. Por isso, é admirável quando uma pessoa, tendo algo de errado acontecido, chama para si a responsabilidade, assumindo a culpa - embora a gente saiba que a culpa não é só dela, pois existe todo um grupo na execução da tarefa. Ao assumir a culpa, ela encerra a discussão, pois não existem motivos para continuar a conversa. Se existe a justificativa, existirá a réplica e também a tréplica, e todo o carma continua. 

Então, quando a gente vê alguém assumir o erro, mesmo não sendo seu, isso é uma grande coisa. Já assisti várias vezes Saikawa Roshi pedir desculpas e assumir algum erro como sendo seu. Uma vez, em minha casa, minha esposa reclamou que eu havia ido para um angô (retiro de meses) e ela teve muitos problemas por ter ficado sozinha. Então Saikawa Roshi baixou a cabeça e lhe disse: “Me desculpe”. 
Ele não tinha culpa alguma, seu trabalho é formar seus discípulos, mas ele viu que havia sofrimento ali.
Ele retira dos outros e assume para si a culpa. Essa é uma demonstração muito importante desse tipo de visão a respeito das coisas. Monges noviços têm dificuldades nesse sentido, pois, sempre que são questionados, tendem a dar explicações ou justificar-se.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Quanto tempo meditar?



Pergunta – Na última semana conversamos sobre tempo de zazen para o dia-a-dia, para reforçar a prática. O que o senhor acha disso?

Monge Genshô – Acredito que o tempo do zazen (meditação sentada) seja apenas uma convenção. O tempo de quarenta minutos ficou estabelecido, na realidade, em razão do tempo médio de duração para a queima do bastão de incenso. No tempo de Dogen, quando os monges estavam cansados de ficar sentados, levantavam e faziam Kinhin (meditação andando)  e depois voltavam a sentar-se. Em algumas ocasiões, como no final do retiro de Rohatsu (retiro de 7 dias no fim do ano), ainda é assim. Ficamos sentados enquanto conseguirmos: algumas pessoas ficarão sentadas quinze minutos, outras uma hora. A prática não depende de tempo, mas sim de qualidade. 

Uma boa concentração de cinco minutos pode ser muito importante. Depende de sua mente e de sua habilidade de entrar em samadhi (concentração). Não existe um tempo padrão, embora, através dos tempos, se tenha estabelecido que o período de quarenta minutos seria razoável para a maioria das pessoas. Uma lenda do budismo diz que Bodhidharma sentou por tanto tempo que suas pernas secaram e para não adormecer durante o zazen, cortou suas pálpebras. Onde elas caíram, nasceu um arbusto de chá, então os monges passaram a tomar chá para não dormir.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Determinação para a prática



Na nossa vida profissional funciona tudo ao contrário, você irá escolher a melhor pessoa para determinada tarefa e irá exigir dela proficiência. Frequentemente você terá que ser intolerante, fazer cobranças e assumir seu papel tal como ele é. Quem é policial tem que ser policial, chefe de cozinha tem que ser chefe de cozinha, integralmente. O professor tem que ser severo, cobrador. O policial tem que ser duro, incorruptível, e muitas vezes, intolerante. Embora a cada momento tenhamos que medir os limites das situações, não há regras claras, esse é o desafio da vida: viver sem ensaio. A Sangha não é assim. Nós podemos saber se somos bons praticantes quando as condições não são boas, quando chove e faz frio, e mesmo assim, as pessoas vão praticar. Isso é uma boa prática. Porque ir praticar quando as coisas estão maravilhosas, não tem nenhum mérito.

Pergunta – Acredito que em relação à questão da dependência do professor ou da Sangha, é importante que a pessoa tenha uma força interna para praticar, algo que lhe seja inato, uma força de vontade. Seria isso?

Monge Gensho – Não é inato, é construído. É claro que o sesshin, a Sangha e todo o restante, serão reforços que nos levam à prática. Mas ter uma determinação própria que não dependa do professor, é muito importante.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O que o mestre quer



É para se sentar com todos que se vem à Sangha, esta é a razão de sua existência. Mas se o fazemos por causa de uma liderança, a prática não é forte, porque a prática no zen não depende da liderança. A tradição é sentar sozinho durante longo período e visitar o mestre de vez em quando para tirar dúvidas, para mostrar aquilo que pensa que realizou, para expor e receber uma confirmação. Se nossa prática depende dos outros, ela é fraca. Deveríamos ser capazes de sentar sozinhos em nossas casas e nos reunirmos com a Sangha para apoiar os outros praticantes, não vindo, somente, porque naquele dia o professor estará presente. Isso, para o professor, é como se ele visse sua própria fraqueza, porque sua força é fazer praticantes fortes e não pessoas dependentes. Não é isso que o professor quer.

Durante toda a história do budismo, o esforço de todos os mestres foi de criar praticantes melhores que eles e que pudessem sucedê-los. Tantos mestres viram suas linhas, suas escolas, desaparecerem, porque não houve sucessores. Por ter isso ocorrido tantas e tantas vezes, a maior alegria de um mestre é ver grandes e fortes alunos que não dependem dele. Numerosos mestres tiveram apenas um discípulo sucessor, raríssimos tiveram centenas. Somente mestres como Buda tiveram muitos sucessores. Seria interessante nós examinarmos o que é a prática, como ela se estabelece. A prática, na verdade, só tem sentido se é usada na vida diária.

Infelizmente, em nossa vida diária, temos que vestir máscaras e atuar em papéis que não são o papel do praticante. Alguns deles são verdadeiros impeditivos da realização espiritual. Então, a prática da vida diária é um enorme desafio, pois temos, frequentemente, que agir de outra forma. Na Sangha você pode - e deve - aceitar todas as falhas e erros dizendo: “não tem importância, vamos tentar mais uma vez”. Se os alunos estão fazendo bem o ritual, o professor pode mudar algo, porque o melhor é que as coisas nunca funcionem muito bem para que possamos nos aperfeiçoar. Se alguém é a pessoa bem treinada para determinada função, é conveniente tirá-la daquele papel em que ela se sai bem, para que ela passe a fazer algo em que ela não se saia tão bem. Se alguém ficar fazendo uma tarefa para a qual está bem preparado, será ruim para ele, para o seu ego, não lhe fará bem. Na verdade, a Sangha não deve funcionar muito bem, deve servir de caminho de aperfeiçoamento.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Como se liberar dos ciclos da existência?



Pergunta – De onde vêm os agregados que compõem a nossa existência? E qual a diferença entre a percepção e a consciência?

Monge Genshô – Está merecendo uma resposta Zen. Os agregados surgem da sua mente. 

Vou explicar um pouquinho mais:
Os agregados só estão se manifestando sob a forma do corpo  porque sua mente guarda impulsos de desejos e apegos tais que, obrigatoriamente, se manifestam no mundo. Então os agregados surgem do carma, da energia cármica, que faz com que haja uma manifestação. Esta manifestação que surge, em última análise, da ignorância. Mas não se preocupe, em absoluto, porque  tudo que é composto, tudo que é agregado, está sujeito à desagregação e decomposição. Você irá morrer e se decomporá, portanto, não precisa se preocupar.

Pergunta – Mas e quando surge novamente outra existência, quando os agregados se dissolvem...

Monge Genshô – Se os impulsos continuarem farão, obrigatoriamente, surgir uma nova manifestação.

Pergunta - E o que faz os impulsos não continuarem?

Monge Genshô - Muito boa pergunta. Como fazer para os impulsos não continuarem? Se você conseguir fazer com que sua mente esgote seu carma e você se vir livre de todos os desejos, de todos os apegos, de todas as paixões, se você conseguir extinguir isso através da iluminação, não haverá energia para uma nova manifestação cármica. Somente então, você estará realmente livre dos ciclos de nascimento e morte. Estará liberada. Será um Buda.

Palestra em BH, na sede do Nalanda, decupada da gravação por Chudô San.
(Fim)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Paciência



Pergunta – Falando um pouco mais sobre compaixão, terminei de ler um livro que se chama Budismo e Ensinamentos Profundos, em que o autor fala muito sobre a paciência. Na minha vida, por exemplo, eu percebo, a esse respeito, que posso falar de uma certa evolução, mas sempre falta mais. Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a paciência no caminho budista para alcançar, ou para minimizar ou diminuir o sofrimento.

Monge Genshô – Essa questão passa pelos mesmos caminhos de que já falamos. Quem é que se irrita? Quem é este que está irritado? Às vezes, a pessoa não entende a pergunta, mas essa pergunta pretende iluminar a mente. Entenda que é o mero fato de você não aceitar que irrita. Por que nós nos irritaríamos com foguetes e bombinhas? Só porque nós imaginamos que existe uma intenção ou um agente por trás. Porque se fosse um trovão, um acontecimento natural, não tendo um ser humano por trás, não nos sentimos irritados. Irritamo-nos porque imaginamos, porque nossa mente pensa: “tem alguém estourando foguetes”. Constate, está na mente. 

A mente acredita que existe uma entidade chamada “Atlético” ou “Cruzeiro”. Alguém se comprometeu com isso, e se você examinar como surgiram essas entidades, trata-se de um grupo de pessoas que se reúne, cria uma bandeira, uma cor, entre outras características definidoras de identidade, cria os símbolos, e as mentes olham para tudo aquilo e transformam em um significado. A cruz suástica sempre foi um símbolo magnífico, e em muitas tradições é usada até hoje. Hitler se apropriou dela, inverteu-a, e os acontecimentos da segunda guerra mundial juntamente com o que decorreu das ações do nazismo, transformaram-na em um símbolo de ódio. Somos nós que olhamos e vemos um símbolo de ódio, porque ele em si, nunca foi nada mais que alguns traços. 

Nossa paciência é alterada pelo que nós acreditamos, apenas por isso. Devemos exercitar em nossa mente a compreensão da raiz de onde surgem as coisas. Por exemplo, na meditação, você se senta, surge um pensamento, o pensamento mobiliza você e você pode se perguntar, “Porque me mobiliza, porque isso me irrita? De onde veio, de onde surgiu?” Você rapidamente irá descobrir que ele surge de algumas raízes como vaidade, orgulho, crença no seu ego, ou seja, de algo em que você acreditou. Se você apagar isso, evitando julgar e considerar, se continuar sentado calmamente, você adquire serenidade. Quando na vida surgem os acontecimentos, você pode, com simples treinamento, ver que eles não têm substância real, que é você que atribui a eles a força de mobilizá-lo.

 Então, para cultivar a paciência deve-se, em primeiro lugar, praticar a meditação. Naturalmente surge uma mente pacífica, naturalmente surge uma mente paciente. Em absoluto, não é o controle, porque mesmo que o controle tenha a virtude de não provocar carmas, ações e reações, ele não é a solução final, porque sempre vai falhar. Você está sendo arrastado pelo seu carma e diz: “Vou ser paciente, de agora em diante não me irrito mais.” Mas acontece um evento acima de sua capacidade de controle, e você perde a paciência. O correto é que a impaciência não surja, devendo ocorrer somente a compreensão de como as coisas estão se manifestando.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Palestra e zazenkai em Joinville, dia 1/12/2012


PALESTRA ABERTA E ZAZENKAI COM MONGE GENSHÔ  EM JOINVILLE



Palestra aberta, Sábado, 1 de dezembro às 19:00. ZAZENKAI, Domingo, 2 de dezembro, das 8 às 17 horas Palestra aberta com Monge Genshô: AS ENERGIAS FORMADORAS DE HÁBITO E O CULTIVO DE UMA MENTE EQUILIBRADA. 1º de dezembro, sábado, às 19 horas. Auditório do Ed. Terraço Center (Rua Mário Lobo, nº 61, centro).Joinville. SC. Colaboração sugerida: R$ 10,00. ZAZENKAI (retiro curto para prática de meditação, ideal para iniciantes). Coordenação: Monge Genshô. 2 de dezembro, domingo, das 8 às 17 horas. Rua Lages, nº 375, sala 3, centro. Joinville. SC. Valor da inscrição: R$ 30,00. Inscrições pelo email: zenjoinville@gmail.com. Maiores informações: zenjoinville@gmail.com. (47) 9964 2884. facebook.com/zen.joinville.

A mente compassiva



Pergunta – (...) O que é a compaixão?

Monge Genshô – A compaixão depende do esquecimento de nosso próprio ego. As pessoas têm um eu que, normalmente, nas mais primitivas pessoas, termina na sua pele. Tais pessoas cospem e jogam lixo no chão porque não enxergam que o mundo vai além de sua pele. Há pessoas cujo “eu” termina na superfície da tinta de seu automóvel, então jogam latas pelas janelas do carro, porque fora do automóvel já não é mais seu mundo. Podemos ver de que tamanho é o mundo de alguém. Se o mundo vai até a pele, até o carro, aos limites de sua casa. Nunca me esqueço do dia em que vi uma mulher na Alemanha varrendo a rua na frente de sua casa, porque há pessoas que varrem  além de sua casa. Neste caso, esse “eu” estava mais ampliado. Outros pensam que o mundo tem fronteiras, às vezes é sua raça, seu time de futebol ou a fronteira de seu país e os que estão além dessas fronteiras podem ser considerados inimigos. Outros, ainda, pensam assim em relação a sua religião. 

Tudo depende de como é seu ego. A compaixão surge à medida que você amplia os limites de si mesmo, se estendendo para chegar a abranger todo o universo. Se abranger todos os seres humanos, todos os animais, todos seres vegetais, será difícil quebrar uma pedra, porque não matar, como preceito, inclui não quebrar uma pedra quando não há necessidade, não destruir nada. Porque o mundo mental é mais amplo, a compaixão se expande. O crescimento da compaixão então compreende esquecer-se de si mesmo, o que significa morrer para si mesmo. Assim fazendo, podemos, então, abarcar tudo, e ao acontecer isso, existe a libertação, porque quando nós manifestamos a ignorância de nos acreditarmos separados de tudo - e os venenos da mente como o apego, a aversão, a raiva, enfim, todos eles dependem de eu acreditar em mim mesmo como ser separado – não temos compaixão. 

Esta é a ignorância fundamental, a de acreditar que somos um “eu” separado. Porque acreditamos que somos um ser separado de todos os outros, não temos compaixão. Quando morremos para nós mesmos, nasce um ser muito mais amplo e esse ser é naturalmente compassivo, porque a dor do outro dói nele. Na realidade, essa idéia – e isso nos mostra abrangência do Dharma – ela existe nos escritos de Paulo nos evangelhos, “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo que vive em mim”. Isso significa morte do “eu”. Também encontramos o Dharma nos poemas de São João da Cruz, “Morro porque não morro”. Ou seja, morro porque não consigo morrer para mim, e por isso eu não consigo conhecer Deus. Em termos budistas, porque não consigo morrer para mim mesmo, não me ilumino. É a mesma coisa, em outras palavras.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Basta ouvir ensinamentos?



Aluno – No vocabulário Zen, existe a palavra samadhi, que significa concentração. Existe algum foco especial no budismo a respeito da meditação/concentração, ou é apenas uma coincidência?

Monge Genshô – Não, não é coincidência. O Zen budismo se vê como budismo contemplativo, ele enfatiza, e a diferença entre os budismos, é essa, a ênfase. A escola Theravada enfatiza o estudo dos sutras. O budismo Zen enfatiza a prática da meditação, sempre digo que essa prática no Zen deve ser feita em quantidades industriais, mas a mesma coisa acontece na prática do Theravada, pois existe grande similaridade nessa ênfase. 

Embora se diga frequentemente no zen, que as escrituras e os textos são o dedo que aponta para a lua, mas que não são a lua, são mapas para que se possa seguir um caminho. Não são o caminho. São indicações, você tem que trilhar o caminho por seus próprios pés para chegar lá. Não basta ler ou ouvir ensinamentos. Costuma-se dizer no Zen que enquanto nele se falar, ele não estará presente. Quando estávamos calados experimentando a prática da meditação, o Zen estava presente. Agora é só conversa a respeito. 

A palavra chan vem do sânscrito dhyanna que significa meditação, então, o budismo Zen significa o budismo que enfatiza a prática da meditação. Na verdade, no Zen, embora diga-se frequentemente, como acabei de dizer, que os ensinamentos são apenas o mapa, dificilmente você encontrará tantos textos quanto existem sobre o Zen, e os professores estão sempre escrevendo. Aqui, por exemplo, tem um gravador para documentar a palestra. Por quê? Porque acabarão virando texto. Na realidade, existe estudo no Zen e Dogen ZenJi diz que o estudo dos sutras é a base do caminho. Não se chega à outra margem sem saber, e mesmo que Hui Neng seja declarado um patriarca analfabeto, leia seu o texto e você verá quantas citações nele há; ele parece um erudito. Mesmo que ele guardasse de memória por não saber ler, ele ouvia, guardava, sabia citar e raciocinar. Sem esse instrumento não vamos longe. 

A ênfase do Zen é mais do tipo, “não me diga as palavras de Buda, me diga as suas”. É a verdade que você está praticando, e essa é a verdade do Zen, e não as indicações ou os textos. Como você está vivendo, como está sua mente agora, essa é a verdade. Mas existem três portas de acesso: emoção, estudo e ação. São três portas de acesso para o caminho. As pessoas são diferentes, existem pessoas que naturalmente estão preparadas para o caminho intelectual, outras para o caminho da emoção e outras para o caminho da ação. Cada uma deve praticar com a escola mais adequada para o seu coração, para o seu sentimento, devendo praticar naquele lugar com o qual ela sinta que tem conexão. Por isso, é tão importante escolher o seu mestre e sua escola. Nesse sentido, recomendo a vocês o texto de um famoso escritor, o professor Ricardo Sasaki, intitulado A que Escola pertenço. (um toque de humor, o Prof. Sasaki era o anfitrião nesta palestra ministrada em sua Sangha Theravada em BH)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Dharma em muitos lugares



Pergunta – Existem hoje muitas práticas que visam misturar ou agregar práticas budistas com, por exemplo, práticas cristãs. Temos, aí, entre outros, Thomas Merton. No entanto, são filosofias diferentes, com objetivos diferentes e ideologias diferentes. Na sua opinião, nessa intersecção de filosofias e teologias diferentes, pode haver inter-relação?

Monge Genshô – As crenças em si não são muito importantes. O que é importante sob o ponto de vista budista é se existe liberação. A prática de meditação está renascendo no ocidente através das mãos de John Main, Laurence Freeman entre outros. A prática da contemplação não é ignorada no cristianismo. Ela existiu fortemente dentro do cristianismo em seus primórdios, mas, de certa maneira, foi esquecida. Existe um renascimento das práticas de meditação, em especial, dentro do Cristianismo católico, porque ali há uma vertente monástica maravilhosa que começa com São Bento, o fundador de Monte Cassino, e que se aprofundou muito. Quando você lê os escritos de grandes místicos cristãos como Santa Tereza D’Ávila, São João da Cruz ou Mestre Eckhart, você verá, nesses escritos, um cristianismo com Dharma. O importante é dizermos que Dharma, lei, sabedoria, não é propriedade do budismo. O Dharma existe e pode ser acessado por diferentes caminhos. Não muito tempo atrás, assisti um filme, Uma amizade sem fronteiras, com Omar Sharif no papel de um professor Sufi. Nesse filme, as intervenções dele, as coisas que ele diz, são como frases de um mestre Zen. Esse assunto não é novidade. Em livros como Filosofia Perene, Aldous Huxley mostrou as similaridades entre o Budismo, os Sufis, os Hassídicos judeus e o misticismo Cristão. Thomas Merton escreveu sobre o assunto em livros como Místicos e Mestres Zen. Ele era um frade trapista, católico, brilhante. O Dharma está presente, é fácil de ver isso. O budismo tem uma vantagem posicional, pois não se vê como um caminho único, não se coloca como proprietário de uma verdade particular, ou como o único caminho para a salvação. Na verdade, nem usa esta palavra no sentido de “salvar os condenados”, porque não crê que os homens estejam condenados. Assim, para o budismo não há a necessidade de converter pessoas, como, por exemplo, um mestre sufi a tornar-se Zen Budista; isso não faz sentido para o Zen. Ele já está vivendo o Dharma, o budismo é apenas um método, um caminho, e ele inclui uma coisa de que normalmente não se fala num caminho religioso, pois o budismo aponta uma porta de saída para o budismo ao contar a história do veículo para atravessar o rio. Nós falamos em atravessar o rio para atingir a outra margem. Lá, na outra margem, está a sabedoria. No final do sutra do coração, cantamos, “todos juntos para a outra margem, a iluminação, salve”. Então, o budismo vê-se como um barco para atravessar um rio, existem muitos barcos e jangadas, mas o budismo diz, “Você atravessou o rio, mas não vai sair carregando o barco nas costas, deixe o barco e vá embora”. O budismo é um método para a libertação e não precisa ser carregado depois. Se for um bom método, podemos ensiná-lo às pessoas para quem o método seja adequado. Mas existem outras pessoas para quem, talvez, um outro seja melhor. E é bom que existam muitos remédios, porque existem muitos doentes com doenças diferentes.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ação e quietude



Aluno – Eu queria entender a diferença entre esse estado de iluminação e o estado de adormecimento. Porque esse estado de iluminação, teoricamente, seria um estágio onde nada ocorre, onde a mente está obliterada, mas...

Monge Genshô – Eu acredito que essa visão não seja bem correta. Não se trata de uma obliteração da mente, em absoluto. Trata-se de um estado em que você tem clareza, ou seja, você pensa, raciocina e age, mas com clareza. Você vê claramente o resultado de suas ações, porque deve agir de determinada forma e toma decisões com clareza. A diferença da mente iluminada para a mente deludida é a clareza. Quando alguém está iluminado, sabe o que deve fazer, quando, como e de que maneira, sempre, límpidamente. Mas não significa que não aja no mundo, que não fale, que não lhe ocorram pensamentos; o que acontece é que estes não o levam de um lado para outro. Não é que não lhe surgem pensamentos, é que nenhum pensamento o arrasta. Se nós nos sentarmos e ficarmos com a mente completamente vazia, sem nenhum pensamento, Hui Neng, famoso mestre Zen do século sete depois de Cristo, chamaria isso de quietismo, e ficaria furioso. Vou lhes contar uma pequena historia Zen. Um monge chegou num mosteiro de um grande mestre Zen e pediu, “O senhor pode me ensinar, pode me aceitar?” “Pode ser - disse o mestre. “O que você já fez?” “Já treinei muito meditação, vou lhe mostrar”. Sentou-se rapidamente em posição de lótus com as pernas cruzadas e entrou, em segundos, em profundo samadhi. O mestre pegou um bastão e começou a surrá-lo expulsando-o do mosteiro e dizendo:”Budas de pedra já tenho muitos, nesse mosteiro”. Portanto, não é isso que é desejável, a libertação não é apagar-se, não é morrer, é outra coisa completamente diversa disso. A libertação tem dentro de si a ação, mas ação iluminada.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Os inquietos



Pergunta – Gostaria que o Senhor falasse sobre a transformação da mente. Nesse processo existe sofrimento, porque algumas vezes,  a gente sabe e entende, mas a grande questão  - é a prática, a convivência, a atitude da pessoa. Entre a teoria e a prática há um sofrimento de querer  chegar a esse ponto, não é assim?

Monge Genshô – O simples fato de haver desejo - o desejo de se libertar - implica nesse sofrimento. Na realidade, todos os professores que eu conheci foram homens inquietos, com grandes desejos de se libertar que se entregaram a uma profunda e sofrida busca. Você tem toda a razão. Moryama Roshi, ficou vinte anos dentro de um mosteiro e passou alguns anos, completamente sozinho nas montanhas, sem energia elétrica e tendo que carregar água. Ele costumava dizer que tomar banho era uma tarefa de três horas, pois tinha que carregar a água e fazer uma fogueira para aquecê-la.
 Nós estávamos em uma palestra e alguém perguntou a ele, “Mestre, o que o senhor aprendeu com tantos anos de retiro solitário?” ao que ele respondeu, “Bem, na primeira noite em que fiquei sozinho, na hora de dormir, eu não conseguia, porque sentia medo. Pensava que poderia ser surpreendido por um assaltante ou por um animal selvagem, visto estar em um local deserto, então, não conseguia dormir por medo. Depois desses anos sozinho, descobri que essa era a grande lição que tinha que aprender: eu tenho medo”.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Desejo e materialismo espiritual



Pergunta – Mas tem que haver o desejo de sentar, ou não?

Monge Gensho – Muito interessante, pois começamos sempre assim, a partir da insatisfação com a vida. Essa é a história do próprio Buda. Ele vê o sofrimento, e porque se sente angustiado com isso, deixa todas as coisas e vai procurar uma solução. Mas isso não é iluminação.

Observação – Mas é um desejo.

Monge Genshô – Sim. A palavra desejo causa alguns problemas. Porque a usamos em português para uma série de significados que em sânscrito são palavras diferentes. Desejo que causa sofrimento é tanha, um desejo apegado, teimoso, adquirente. Existem outros desejos, por exemplo, ditti, que é o desejo de ter uma opinião, de defendê-la, de manifestá-la. E existe o impulso de conseguir se libertar, ele é benéfico, mas quando começamos ele é aquisitivo, é materialismo espiritual. Todos  começamos sempre assim. Vamos a um centro do Dharma procurando adquirir algo, como uma palavra que o professor nos diga e que nos salve, procurando tranqüilidade, serenidade, através da meditação. Alguma coisa sempre queremos adquirir.
 Isso está bem segundo o caminho do Dharma, porque a pessoa vai se sentar, procurando por algo através desse materialismo espiritual. Mas à medida que você vai crescendo e amadurecendo, percebe que tem que sair desse estágio e partir para um outro, no qual, o aluno, ao ser perguntado pelo professor “porque você está praticando?”, ele responda: “não sei mais!”. Nesse momento foi dado um grande passo. Esse passo é maravilhoso, porque é uma libertação do materialismo espiritual de querer obter algo para si.
 A trajetória de Buda também é assim. Ele parte à procura de mestres de ioga, pratica duramente, faz jejum, medita, martiriza seu corpo, fica magro e sofre durante anos, sem encontrar a saída. Quando, finalmente, ele senta-se embaixo de uma árvore e diz “eu desisto” do ascetismo, depois de sete dias, se ilumina. O que faz ele então? Fica com a iluminação para si? Não, ele se levanta, sai para o mundo e durante quarenta anos ensina sem parar. Ele faz isso por compaixão. Nesse momento é que ele é Buda, até o momento anterior ao da iluminação, ele era Sidharta Shakyamuni que estava tentando se libertar do samsara, como todos nós.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Samsara e Nirvana



A maneira de transformarmos o mundo é transformando a mente de cada um. Não importa qual o sistema, transformando as mentes, qualquer um funcionaria maravilhosamente bem - uma monarquia funcionaria maravilhosamente bem, uma ditadura também, um sistema totalitarista como o comunista funcionaria bem igualmente, a democracia funcionaria. Somente seriam necessárias pessoas, todas elas, com mentes compassivas, honestas, maravilhosas, dedicadas ao bem dos outros, abdicando de si mesmas, e o mundo seria perfeito. A raiz da mudança do mundo está nas mentes. É por isso que o budismo volta-se para o treinamento e a modificação da mente do homem, para, dessa forma, produzir o nirvana, um mundo onde a mente que olha transforma o samsara, que é o mundo da perambulação, do sofrimento, um mundo onde transitamos de um lugar para outro buscando a felicidade. Assim, mudamos de um amor para outro, de um emprego para outro, e vivemos sempre cheios de “se”: se eu ganhasse na loteria, se eu fizesse isso, se eu fosse amado, se eu tivesse um filho. Esses “se” são colocados como o que nos permitiria ser felizes.

Esse é o mundo da perambulação, o samsara, o mundo da procura e da insatisfação permanentes. Esse é o significado de dukka, a primeira nobre verdade. “A vida é dukka”, ou seja, a vida é insatisfatória, porque nela, embora haja momentos maravilhosos ou tristes, nenhum deles será permanente, sólido ou estável. A mudança é parte integrante da natureza das coisas. E assim, achando sempre insatisfação ao fim de qualquer processo de qualquer tempo, sofremos. Sofremos por não podermos agarrar e ficar com uma felicidade e satisfação permanentes. E o nirvana? O mesmo mundo, o mesmo lugar, mas onde os ventos dos impulsos não nos empurram e onde, por causa disso, não existe necessidade de perambular, porque onde estamos encontramos a completa felicidade e plenitude. 

Dizemos no Zen que quando estamos sentados em meditação, isso é nirvana, é iluminação, porque, naquele momento, você imita Buda e imitando Buda você é nada mais do que Buda. Dizemos isso também para desarmar, porque em outro sentido você não é Buda, você sabe que não é, sabe que não está desperto, que não é um iluminado. Mas se você se senta com o desejo de ser um Buda, de se iluminar, de se libertar, de ser feliz, esse próprio desejo é samsárico, pois ele produz uma busca, uma insatisfação. A pessoas se perguntam, então: “para que estou praticando, se não alcanço nada, sou assim sempre, sou mau?” Pensar desta forma é estar em samsara sentado em meditação. Esse mesmo ser, no instante em que não é levado por nenhum impulso, por nenhum desejo e que não pretende alcançar nada, ele vê no próprio samsara o nirvana. Porque não há nenhuma diferença de lugar nessas duas coisas, a diferença está na mente.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A mente que constrói o mundo



Portanto, eliminando-se todas as manifestações, não há vacuidade para surgir. Por isso o famoso sutra do Coração e da Sabedoria diz “forma é vazio e vazio é forma”. Toda vacuidade é forma e toda forma é vacuidade porque a vacuidade só se manifesta assim. Mas cada objeto surge com seus significados por causa de nosso olhar. É nosso olhar que produz os significados que a coisa tem. Sem nosso olhar, as coisas podem existir como manifestações, mas não são nada daquilo que um homem veria.

 É como a madeira, que é material de construção para nós, mas para um cupim, é comida. Sendo comida para o cupim, para ele é apenas um manjar, não é material de construção. Para o fogo, alimento de chamas. Para um ecologista, a madeira é um seqüestrador de carbono da atmosfera, e assim por diante, segundo cada olhar. Com o olhar surge o significado do mundo, por isso, podemos dizer que quando morre um homem, morre um universo, ou seja, o universo dele, carregado dos significados que ele atribuía às coisas e seres. 

Neste sentido, mesmo que eu pegue esse relógio e diga que para mim ele é diferente do relógio que cada um está vendo, porque ele tem determinadas marcas e significados para mim, pode ser que alguém aqui tenha, alguma vez, recebido um relógio na testa, logo, o relógio terá para ele outro significado. Alguém pode ter recebido um relógio de seu pai falecendo; para essa pessoa, então, o relógio terá um significado outro. Desta forma, um mesmo objeto é construído por nós em seus vários significados, e assim construímos um mundo com nossa mente. Por isso, essa mente construtora do mundo é a mente transformadora do mundo. Essa é a razão de treinarmos a mente, porque essa mente treinada modifica todo o mundo, instantaneamente. Uma mente cheia de compaixão vê um mundo compassivo e digno de compaixão. Uma mente cheia de ódio vê um mundo odioso e raivoso. Não há como escapar.
(continua)