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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Esquecer de si mesmo é mais espetacular



Pergunta: Numa situação em que a gente está com dor de ouvido. A dor de ouvido pertence ao eu ou não pertence?
Monge Genshõ: A dor de ouvido pertence a um dos agregados, a forma, e realmente dói. A questão é ela dói em alguém ou ela é uma dor separada da identidade e a identidade foi construída? Quando a gente vê aquelas fotos, por exemplo, de um monge Zen meditando e sendo consumido por fogo, queimando vivo, mas sem se mexer, a dor existe ou não? Sim, a dor existe, mas ele pode ver a dor como separada da sua identidade e não precisa reagir se não quiser, não precisa perder o controle, sair gritando e pedir apaguem, apaguem. Não, pode morrer queimando, tranqüilo, ser um com o fogo. É isso que aconteceu várias vezes na guerra do Vietnã, certamente vocês já viram as fotos e o mundo todo não podia entender o que exatamente estava acontecendo. Mas não é nada de fantástico. Na prática do zazen você pode adquirir condições para deixar a dor do lado de fora, ou mesmo ser um com a dor, e isto é muito interessante porque é uma condição que você pode ter para o resto da vida. Mero treinamento, subproduto, vamos dizer assim, da prática. Parece espetacular para os que olham do lado de fora. Mas na realidade não é tão espetacular assim, extinguir o eu é muito mais espetacular.

Vale esclarecer que não é um suicídio em si, mas sim a doação de sua vida para beneficiar os outros seres, para tentar modificar uma situação política de grande crise.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Inconsciente e controle




PerguntaO zazen ajuda a demolir o ego. O que acontece com o inconsciente? O que ficou gravado vem à tona e sentimentos como a cólera que estavam escondidos mostram quem você é. Posso com o tempo também trabalhar o que ficou lá no fundo?
Monge Genshõ: Tudo aquilo que você chamou inconsciente...o budismo nem usa esta palavra, ele usa outra abordagem. Ele diz que nós criamos automatismos, energias de hábito que vieram de longe e que estão impregnados em nós. Nós podemos mudar estes automatismos e essas energias de hábitos com muitas estratégias. A primeira óbvia é o mero controle. Simplesmente quando surge aquela energia conseguir parar para não agir. Pelo menos não agir com o corpo, pelo menos não agir com a boca, embora você saiba que todos os sentimentos surgiram dentro de você e você ferveu.
Controle sempre vai falhar porque se as energias estão lá dentro em algum momento mesmo que você tente se controlar em algum momento você explode. A verdadeira prática é identificar de onde surgem esses sentimentos e deixá-los perderem sua força. Por que surge por exemplo a raiva? Normalmente porque o seu eu foi ameaçado em algo, por exemplo na sua vaidade, no seu orgulho. Você foi insultado e você reage com raiva. Então quem é que alimenta a raiva? A noção de um eu.

Se você conseguir perceber que a identidade é falsa e construída não tem mais ninguém para ser ofendido e quando a ofensa acontecer ela simplesmente não toca em você porque não tem ninguém ali, quem é que vai reagir? Então a maneira certa é essa: demolir a sua identidade vai tirar toda a energia do automatismo e energias de hábito.(Lembre que o eu é necessário para transitar no mundo, mas que ele é uma fantasia) Eles são construídos mesmo que estejam tão fortemente enraizados que estejam no que você chamou de inconsciente. Se você praticar corretamente seus sonhos mudarão. Isso eu posso testemunhar para vocês. Os sonhos mudam. Em vez de você ter sonhos normais, você tem sonhos Dhármicos. Em vez de você reagir com raiva você no sonho reage com afeto, com compaixão, então você sabe que está realmente funcionando o seu treinamento. Se você tem sonhos de que morre e tem medo, no dia que você sonhar que está acontecendo a situação de morte e você sente apenas paz então você fez seu treinamento chegar lá na base dos seus automatismos, aquilo que você chamou de inconsciente.

Zazenkai - sábado 30/7


ZAZENKAI 

COORDENAÇÃO MONGE GENSHÔ

ORGANIZAÇÃO COMUNIDADE ZEN BUDISTA DE FLORIANÓPOLIS
Na sede da comunidade, ver mapa em www.daissen.org.br   


8:00H – CHEGADA DOS ORGANIZADORES

8:30H – CHEGADA DOS PARTICIPANTES

8:45H - INSTRUÇÕES 

9:00H – ZAZEN 40’

9:40H – CERIMONIA

10:00H – INTRUDUÇÃO AO ZEN, PERGUNTAS E RESPOSTAS

11:30H – ZAZEN 40’

12:10H - INTERVALO

12:20H – REFEIÇÃO

13:30H – INTERVALO 

14:00H – SAMU

14:50H - ZAZEN 40’

15:30H - INTERVALO (CHÁ/CAFÉ COM BISCOITOS)

16:00H – PALESTRA COM O MONGE GENSHÔ, PERGUNTAS E RESPOSTAS

17:30H – ENCERRAMENTO DO ZAZENKAI

quarta-feira, 27 de junho de 2012

"Do" ou o caminho



Qual é o sentido dessa prática? Se você tomar como um trabalho não é nada, se tiver objetivo também vai perturbar. Tem que conseguir fazer sem eu, sem colocar o ego. Todas essas técnicas que eu estou colocando aqui são inerentes à prática do Zen e do sesshin, são estratégias para demolir o ego e por que às vezes as pessoas acham tão difícil? Porque às vezes parece que é humilhante, porque elas se sentem importantes e os professores costumam dar aos alunos não o que eles fazem bem, mas a tarefa na qual eles têm dificuldade e todo tempo você vai sendo corrigido, aí você pensa: mas tem sentido isso? Tem sentido o ritual,o movimento? Não, poderíamos mudar rituais e  movimentos. E costurar é uma tarefa que pode ser usada para isto, mas trabalhar na horta também. Limpar o chão também.
A questão é como é que nós colocamos “do”: caminho. Como colocamos “do” na tarefa. Como transformamos a tarefa em um “do”. Como transformamos em caminho porque aí é que nós começamos a ver como surge aquele sentimento. Você está fazendo a tarefa não faça só a tarefa.Olhe para dentro de si e veja: que sentimentos surgem em mim quando estou fazendo a tarefa? Eu quero ser apreciado depois? Eu quero que me digam que o trabalho é bem feito? Enquanto esses sentimentos estiverem presentes você não conseguiu. São justamente eles que nós temos que acabar sentados nas almofadas. Nós temos que fazer sem nos preocupar com nenhuma apreciação nem julgamento nem nosso nem de outro. É só fazê-lo para diminuir a força dessa identidade, que é ela que está nos perdendo e é ela que está criando o sofrimento. Criando o sofrimento através daquelas armadilhas, do apego e da aversão e da falta de consciência de que tudo isto é ilusório.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Calar a boca



Então no sesshin nós trabalhamos isto. Nós tentamos não ter apego. Então trabalhamos as coisas mais básicas. Menos sono porque somos apegados ao sono, então acordamos as quatro da manhã; a comida: então comemos de forma bem simples e silenciosa prestando atenção nos sabores mas sem colocar eu gosto, eu não gosto disso, comemos o que tem e completamente, e sem pensar eu gosto, eu não gosto. Não agradecemos nem nos desculpamos porque isso é eu, ego.
Não corrigimos os outros (exceto entre os monges quando há hierarquia) porque quando corrigimos os outros o que está acontecendo é: eu acho que sei mais e por isso então vou corrigir ou vou ensinar. Não é o momento de ensinar, não é o momento de corrigir. No sesshin é o momento de calar a boca, não é o momento de fazer observações para mostrar que estou entendendo, porque fazer observações para mostrar que estou entendendo é mostrar que eu é que estou entendendo, eu que sou inteligente e estou entendendo, então calar é estratégia para tirar a força desse eu que quer se manifestar.
Atenção a cada detalhe do que estamos fazendo para quê? Para ficarmos presentes no momento e não viajarmos para o passado nem para o futuro. Agora durante o período do samu eu estava costurando e é maravilhoso costurar no sesshin, porque é silencioso, você está sozinho fazendo uma única coisa que parece que não tem fim, porque o manto é muito grande, e você dá pontos e pontos e acaba a linha ou arrebenta a linha e você tem que dar um nó de novo e recomeçar,  excelente para parar e não se importar porque a linha arrebentou. Não fazer nenhum comentário interno, nenhum comentário, nem de agrado, nem de desagrado, simplesmente continuar fazendo ponto por ponto, continuar, aí você erra, desmancha e começa de novo.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Amor sem apego



É muito difícil, talvez você consiga durante alguns instantes, mas quando conseguir durante um instante tente retornar para aquilo mais vezes e se conseguir durante dez segundos no zazen, é muito grande coisa! Volte para lá tantas vezes quanto puder. Como a gente volta? Não cogitando. Não significa não pensar porque você está aqui e está ouvindo. Existe algo aí. Melhor dizer: pensar além do pensar e do não pensarO engano todo vem da atividade mental que se identifica com o eu, é por isso que nos apegamos às ilusões e as ilusões ficam nossas donas.
Ontem vocês perguntaram se é possível viver na vida sabendo que é ilusão e ainda assim usufruir da vida. Sim e muito mais porque a alegria da vida deixa de estar cheia dos sofrimentos inerentes aos apegos. Não é a vida em si que produz sofrimento. Quem produz sofrimento é nosso apego à permanência na vida, porque desejamos estabilidade na vida, porque desejamos nos agarrar às coisas da vida. Elas são muito fortes. Nossos filhos, nossos amores, nossa casa, colocamos apego nessas coisas e elas são impermanentes, então obrigatoriamente teremos sofrimento, mas nós podemos ter profundo amor sem apego, sabendo que é transitório, impermanente e ilusório. Que é um sonho maravilhoso que estamos vivendo, mas que não tem solidez, então é perfeitamente possível usufruir e viver, e ao mesmo tempo ter uma mente livre. Ter conquistado a liberdade. Não vai haver apego, ódio, ilusão. Não vão haver as três coisas que produzem o sofrimento: o apegar-se, o ter aversão e a ilusão.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Demolir o pequeno EU



Voltemos ao nosso tema do eu. Como é que nós treinamos para fazer com que o nosso eu enfraqueça. Como é isso? Primeiro nós sentamos em zazen. Por que sentar em zazen funciona para diminuir a noção de um eu? Porque se você senta e não cogita nem julga você é capaz de olhar, cheirar, degustar, tatear, sem colocar um eu nessas coisas, nem colocar um eu que está apreciando essas coisas. Todo o treinamento do Zen está focado em demolir o eu, é por isso que muitas vezes as pessoas não gostam do treinamento do Zen e se irritam com os professores do Zen, porque leram livros sobre o Zen Budismo e quando vêm conhecer um centro do Dharma, um monge verdadeiro ou um sesshin, em vez de eles terem oportunidade para se manifestar, para mostrar o seu eu, eles são todo o tempo instados a calar a boca, a fazer tudo junto com os outros, a não corrigir os outros, a não criticar, a não elogiar, a não fazer nada que está ligado ao eu.
São estratégias para diminuir o eu. A primeira estratégia é sentar em zazen e então ouça o pássaro cantar lá fora, mas não pense “um pássaro cantou lá fora”. Não coloque um eu no pássaro. Não há uma identidade no pássaro. Também não há uma identidade que ouve o pássaro. Não diga para si mesmo: eu estou ouvindo um pássaro, como é bonito o canto do pássaro. Todos esses são julgamentos. Nós temos que sentar no zazen, ouvir o canto do pássaro sem colocar nenhuma identidade no pássaro e nenhuma identidade no observador, que somos nós, do pássaro.
O som do canto tem que nos atravessar. Passar por nós de um lado ao outro. Não deixar rastro. Surgir e desaparecer. Estamos conscientes profundamente do canto. Ouvimos com nitidez o canto, mas ele passa por nós de um lado a outro. Nós não agarramos , não julgamos , não nos colocamos nele. Não pensamos o que aconteceu antes do canto ou o que vai acontecer  depois. Não esperamos o próximo canto. Não cogitamos do canto que já passou.
Ficamos sentados em zazen deixando que o canto dos pássaros aconteça naquele momento, não no passado nem no futuro. Não diga, agora o pássaro cantou, porque agora já é passado. Simplesmente sente e cante com o pássaro. Você é o próprio canto do pássaro. Você é o pássaro. Não é o pássaro que canta. Todo o universo canta. Você canta junto com todos os seres. Não há lá nem aqui. Não há passado. Não há futuro. Há só (estala os dedos) e pronto! Essa é a maior prática.
Se você atingir essa prática não precisa nenhuma outra porque todos os seus sentidos deixaram de funcionar para enganá-lo, para criar a consciência de um eu, você desarmou a armadilha que surge com as percepções e com a instalação da consciência.

(trecho do livro: O Pico da Montanha é onde estão os meus pés)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O mundo dos deuses e a Ilha de Caras


Grupo de aprendizado de meditação na Montanha Encantada

Como vocês viram, no próprio Sermão de Tettsugen, o nosso verdadeiro obstáculo, a raiz de todos os problemas que nós temos é a noção de um eu. de uma identidade própria e de estarmos separados de tudo. Nós perdemos a nossa consciência de pertencermos à mente infinita. Na realidade nós adquirimos a consciência da nossa manifestação pessoal porque ela é complexa, inteligente, uma coisa magnífica e uma grande oportunidade - a oportunidade de ser um ser humano, essa mesma condição maravilhosa, invejada pelos deuses, porque no budismo nós dizemos que os deuses estariam melhor sendo homens porque sendo homens é mais fácil escapar dos ciclos de manifestação, porque ser deus também é uma manifestação. Os deuses também surgem e também morrem, então eles também estão sujeitos a impermanência. E os mundos paradisíacos, maravilhosos que muitas pessoas ambicionam através da prática de méritos, da prática de boas ações, eles realmente existem. Se alguém agir virtuosamente, fizer muitas coisas boas, a sua próxima manifestação em vez de ser no mundo da forma pode ser num mundo sem forma, num mundo divinal cheio de prazer e felicidade durante muito, muito tempo.
Os devas, como nós dizemos os deuses no budismo, não são o que nós costumamos pensar como deuses. São manifestações, em outras dimensões que não essa, mas manifestações de grande mérito. Se nós saímos daqui com méritos maravilhosos nós realmente caímos num paraíso. Nos manifestamos como seres num mundo maravilhoso e cheio de coisas boas durante muito, muito tempo. O problema é que é durante muito tempo, mas não é para sempre, porque os méritos também se esgotam. Assim como os maus karmas se esgotam, os bons karmas também se esgotam, e os deuses decaem e morrem e têm que se manifestar de novo porque são produzidos por  karmas e assim se manifestam num mundo inferior ao mundo dos deuses. Algumas pessoas que nós conhecemos são deuses decaídos. Isso é para dizer que os deuses também estão iludidos com a noção de eu, também tem consciência, também estão perdidos mas eles não conseguem aprender o Dharma porque é muito difícil se interessar no Dharma numa situação sem sofrimento.
Os que têm vidas maravilhosas não procuram o Dharma. Aqueles que estão mergulhados em profundos e permanentes prazeres, e pulam de prazer para prazer sem cessar, vão à Ilha de Caras, mas não sentem sofrimento suficiente para encontrar o Dharma e tentar escapar da prisão de ter um eu. Pelo contrário, ficam com “eus” muito fortes, muito grandes. Nós podemos dizer que o treinamento budista é um método para a liberação. Sendo um método para a liberação mesmo essas coisas que eu falei aqui-agora não precisam ser acreditadas podem ser tomadas simplesmente como similares da vida, fazendo símiles como os freqüentadores da Ilha de Caras, e com os habitantes de mundos infernais onde há guerra, tortura, ódio sem parar, sofrimento sem parar, como a imagem que temos no Iraque hoje em que dois grupos tentam ganhar o poder fazendo terror um contra o outro e matando todos, explodindo gente com aquelas cenas de sofrimento imenso quando seus filhos são explodidos por uma bomba só porque tem a religião errada, só porque ou um é sunita o outro é xiita. ou os cristãos do outro lado do mundo que tem suas idéias de como deve ser um país e tentam impô-las com armas, bombas, fuzis, soldados e fracassam porque nos mundos infernais não se consegue resolver problemas com força, violência e ódio. Eles só aumentam. A única maneira de fazer o ódio cessar é com amor.
(Trecho de palestra de Monge Genshô)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Dia 22/6 em Porto Alegre - Via Zen



Para poder aprender é preciso esvaziar-se




Pergunta: Às vezes começamos a perceber as coisas de maneira diferente ao meditar.E o fato de percebermos diferente nos frustra...
Monge Genshô: Do ponto de vista espiritual para que possamos conseguir obter algo é necessária uma relação profunda que não é realmente mais de amizade, mas é uma relação de confiança espiritual. Se você tem confiança, aquela pessoa pode ajudar você. Então existe algo de entrega nisso. Quando não existe essa confiança você quer discutir e qualquer pessoa que tenha opiniões ou discuta não pode obter daquele orientador nada em especial. Um mestre pode não ser acreditado. Isso é comum, então no Zen o que nós vemos com freqüência, na própria literatura Zen, é que os mestres são muito restritos em aceitar discípulos e é normal um candidato ser recusado porque se ele não chega com atitude de aprender, não pode aprender. Não pode aprender de maneira alguma. Quando um aluno chega num dojo de artes marciais, por exemplo, com a postura de:  eu sei ou eu tenho uma técnica, não existe nenhuma opção para ensiná-lo, exceto bater nele para que ele crie uma atitude de humildade. Mas espiritualmente não se tem a facilidade de demonstrar isso como nas artes marciais,  então o normal é simplesmente recusar o aluno.


terça-feira, 19 de junho de 2012

A necessidade de um mestre



Pergunta: Alguns autores que eu li falam da necessidade de ter um mestre. Seria pelo fato de que mesmo para uma prática aplicada, diligente, disciplinada em algum momento aparecem obstáculos que podem afastar da prática? 

Monge Genshô: Pode ser assim. E também pode acontecer outra coisa. Alguém pode, por exemplo, ver o desencanto, ver o sofrimento e mergulhar numa profunda consciência daquele sofrimento e como alguém que está preso em um redemoinho não sair mais. Ele chegou até um determinado ponto de percepção. Foi um crescimento espiritual, mas quando chegou naquele ponto houve uma estagnação. É necessário chegar até o mestre ou um bom amigo espiritual, um professor, se você tem confiança nele e fizer uma pergunta e receber um pequeno empurrão isto pode ser suficiente para sair daquele redemoinho e começar a trilhar o caminho de novo. Às vezes uma frase pode nos tirar de um grande sofrimento espiritual, de uma grande estagnação espiritual.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Além de todo sofrimento



Pergunta: Talidade então seria a condição para a quebra das ilusões . O aprofundamento da prática permite você vislumbrar momentos de talidade. Mas a quebra das ilusões pode gerar também um sentimento de desencanto, um sentimento desconfortável, não é?
Monge Genshô: quando surge este sentimento desconfortável de desencanto é porque não fomos longe o suficiente.Pode surgir, por exemplo, na prática, um sentimento de grande tristeza. Em geral o sentimento que surge primeiro é de alegria e contentamento.  Os sentimentos de tristeza surgem mais adiante, sentimentos de grande tristeza com o sofrimento do mundo, com o fato da vida na terra ser tão cheia de coisas insatisfatórias ou mesmo de maldades. Agora, isto surge porque o praticante está imerso na noção de sujeito e objeto. Então  ele aqui está vendo o sofrimento lá nos outros seres. É necessário ir mais fundo porque indo mais fundo você ultrapassa a noção de sujeito e objeto. Ultrapassando a noção de sujeito e objeto surge uma noção de sacralidade de toda a existência e uma percepção de perfeição de tudo, mesmo o que parece mau, como perfeito. Dando um exemplo mais claro: nós olhamos para a vida humana com seu sofrimento, morte, desgraça e apodrecimento e todas as coisas que acontecem conosco, nós olhamos isso como terrível. No entanto essas mesmas pessoas que olham o sofrimento e a morte dos seres humanos e se entristecem, andam numa floresta no outono, quando as folhas caem, secam, apodrecem e morrem, olham para tudo como muito lindo. Uma visão iluminada verá tudo o que acontece com os seres humanos, mesmo a morte, mesmo o desfalecimento, mesmo o apodrecimento, tudo, como parte de um ciclo e um processo, como quando olhamos a floresta no outono. Sabemos que flores novas nascerão na primavera. Que as árvores todas ficarão secas, mas que isso não é triste. É muito lindo! E é muito lindo também quando a primavera surge e as flores novas surgem. Embora olhando para essas folhas saibamos que elas cairão, morrerão. Nós só vemos o sofrimento e a infelicidade no mundo porque não enxergamos o ciclo e o processo. Nós olhamos a vida com os nossos próprios olhos e vemos o sofrimento e a morte dos outros, nós vemos o espelho do que vai acontecer conosco, mas somos incapazes de enxergar todo o ciclo. E o ciclo completo não é triste. Ele é o que é sem nenhuma interpretação. Isso é talidade também. As coisas são tais como são, já perfeitas em si mesmas.  Então tudo que nós vemos assim com desencanto é também uma interpretação e uma ilusão. Por isso a mente iluminada vê beleza e é profundamente feliz porque supera toda tristeza. No Sutra do Coração toda a dor e agonia desaparecem quando o bodhisattva vê a vacuidade. E enxergando a vacuidade dos agregados, vendo que tudo surge no vazio (sem nenhum eu inerente em nada, tudo interconectado e interdependente),  quando o bodhisattva vê essa vacuidade, vê que tudo é fenômeno, (onda na superfície) então ultrapassa toda a dor e agonia. É difícil, eu sei, é muito sofisticado.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A força da comunidade



                               Retiro zen na Reserva Passarim

Pergunta: Eu vim aqui para ver se eu consigo ficar um pouco parada, sou muito agitada...
Monge Genshô:Como ficou parada então?
Pergunta:Foi um sufoco,mas consegui.
Monge Genshô: Você conseguiu porque estávamos sentados juntos. Porque havia outras pessoas, e isto é o significado da Sangha. O grupo proporciona uma força que nos permite parar. Se você estivesse sozinha, talvez em cinco minutos tivesse se levantado. Mas aqui então é possível ficar. Todos são iguais a este respeito. Mas se começamos a praticar, com o tempo adquirimos a habilidade de fazer meditação sozinhos também e aí podemos nos acalmar, serenizar esta mente que não pára.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Além do pensar e do não pensar



Quando nós nos sentamos para meditar estamos tentando ficar aqui agora sem interpretações, por isso as instruções são: não julguem, não pensem, bom ou ruim, certo ou errado, sobre nada que lhe ocorra, simplesmente volte para aqui e agora e perceba as coisas além do pensar e do não pensar. Sinta que você está aqui agora, se você der um salto você então verá como as coisas realmente são, e não tem nada a ver com uma descrição. Nada poderá ser descrito, nada poderá ser dito à respeito porque se nós a descrevermos a estaremos diminuindo porque de novo estaremos traduzindo para palavras aquela coisa que é indescritível. Então um conhecimento perfeito é possível, mas ele só pode vir de dentro e não pode vir de fora através das informações e das interpretações de nossos orgãos sensoriais e seus aparatos mentais. Isto é o que eu queria dizer sobre talidade.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Palestra em Joinville


Talidade



Talidade é uma palavra nova em português, um neologismo. Ele pretende traduzir a expressão inglesa suchness. Poderíamos explicar isso como as coisas tais como realmente são. Em primeiro lugar nós devemos compreender que não vemos ou percebemos nenhuma coisa no universo senão através dos nossos sentidos. Podemos tomar o nosso sentido mais aguçado nos seres humanos, o sentido da visão. A nossa visão vê as tábuas, desse assoalho. Mas nós vemos o que realmente são as tábuas quando estamos olhando? Não.O que nós estamos vendo é um dos aspectos perceptíveis sobre as tábuas deste assoalho. Ou seja, as nuvens de átomos que formam a madeira predominantemente carbono, agrupadas de uma determinada forma, através de uma concentração de energia imensa, que é a matéria, reflete alguns dos raios do espectro eletromagnético na faixa da luz visível. E estes reflexos destes fótons batendo na madeira chegam até o nosso olho, entrando no olho, batem na retina. Este pequeno aspecto de todo espectro eletro-magnético, bem estreito no espectro total, impressiona nossa retina e é transformado em sinais nervosos através do nervo ótico. Vão até o nosso cérebro, ao centro da visão, aonde são interpretados por um software específico  que se traduz numa determinada impressão nos nossos neurônios a qual é julgada de acordo com as nossas impressões anteriores de visão e , interpretada, nos dá uma sensação de que estamos vendo madeira no assoalho.
Então, existe aqui, nesta descrição, uma imensa variedade de filtros que leva até esta impressão do assoalho que nós estamos vendo. Daquilo que o assoalho reflete vemos apenas uma parte minúscula e mesmo assim esta parte minúscula é filtrada através de um mecanismo de visão, de transformação em impulsos neuroquímicos e elétricos que no nosso cérebro se transformam nessa sensação.
Isso sempre foi um assunto importante para o budismo.O que é o contato, o que é sensação, o que é percepção, o que é consciência. Então tomamos consciência da existência dessa madeira. Mas, pelo que vocês podem deduzir desta descrição, aquilo que nós vemos da madeira não é mais do que uma sombra, uma interpretação da madeira e muito menos do que a madeira realmente é. Podemos interpretar o fundo do mar através de um sonar refletindo ondas sonoras e ver como é que é o fundo do mar. É outra maneira de perceber uma coisa. A outra, ouvindo o seu som.(neste momento Monge Genshô bate no assoalho)O som dessa madeira, o que é? Vibrações no ar, sonoras, que chegam até os nossos ouvidos, vibram nossos tímpanos, são transmitidas através do ouvido médio até o ouvido interno, vibram cordas sonoras no caracol do ouvido interno e são transformadas de novo em sinais nervosos pelo nervo auditivo e são transformadas dentro do cérebro em interpretação. Através desses filtros de impressões diferentes tomamos conhecimento do que o mundo aparenta ser. Mas, onde quero chegar é: não vemos as coisas tais como elas são, mas apenas temos impressões parciais interpretadas de tudo.
Nada é verdadeiramente aquilo que parece ser para nós. Então nós como seres humanos, vivendo no universo, usamos o nosso corpo para perceber o universo em volta, temos uma sensação de que conhecemos uma realidade, os outros, as coisas, os objetos, nós temos a sensação de que conhecemos essa realidade. Na realidade vemos apenas sombras que os objetos projetam. Não sabemos o que eles realmente são e é impossível saber o que eles realmente são através desses nossos órgãos de percepção. Sabemos que as outras pessoas percebem de forma muito semelhante a nós, por isto podemos conversar a respeito das coisas. E quando descrevemos um sentimento, mesmo sutil, através de uma poesia ou quando fazemos música e vemos que os outros se emocionam com a mesma coisa que nós, percebemos que eles têm o mesmo tipo de aparelho de percepção e por isto podemos conversar a respeito desses sentimentos que nos desperta o mundo em volta.
Todos nós achamos as flores lindas e o perfume das rosas delicioso. Então essas nossas percepções são semelhantes. Mas de novo,  nós não sabemos o que as coisas realmente são. Por quê? Porque elas são percebidas através de  filtros. A pergunta é: é possível a talidade? É possível percebermos as coisas tais como são? A resposta é sim, é possível. É possível perceber as coisas tais como realmente são, mas não através das interpretações da nossa mente. Só é possível perceber as coisas como realmente são através de uma percepção não elaborada, pensada, ou julgada.
Portanto, a talidade é perceptível por nós? Sim, mas não com os nossos olhos normais e sim retirando os olhos do nosso rosto e colocando outros olhos, os olhos de Buda , com eles podem se ver as coisas tais como são porque estão completamente isentos de qualquer julgamento, de certo ou errado, bom ou ruim, dos opostos, das dualidades e das interpretações do nosso software mental.
(continua)

terça-feira, 12 de junho de 2012

O que é que escuta?



"Enquanto você estiver fazendo o zazen, nem despreze nem acaricie os pensamentos que surgem; apenas busque sua mente, a própria fonte destes pensamentos. Deve compreender que tudo o que aparece na sua consciência, ou é visto por seus olhos, é uma ilusão, de uma realidade que não dura... Por isso não deve nem amedronta-se nem fascinar-se por tais fenômenos. Se conservar sua mente tão vazia quanto um espaço, sem manchar-se com assuntos estranhos, nenhum mau espírito poderá perturbá-lo, mesmo no seu leito de morte. Enquanto se empenhar no zazen, porém, não conserve nenhum.
O Kannon Bodhisattva é assim chamado porque atingiu a iluminação pela percepção (isto é agarrando a fonte) dos sons à sua volta.
No trabalho, no descanso, nunca deixe de se esforçar por compreender quem é que escuta. Mesmo que seu questionamento se torne quase inconsciente, você não descobrirá quem é que escuta, e todos os seus esforços serão frustrados. Entretanto, os sons poderão ser escutados, por isso questione-se num nível ainda mais profundo. Finalmente cada vestígio de consciência do eu desaparecerá e sentir-se-á como um céu sem nuvens. Dentro de si mesmo não encontrará mais o "Eu", nem descobrirá ninguém que escute. Essa Mente é como um vazio, entretanto não tem nenhum ponto que possa ser chamado de vazio. Este estado é muitas vezes tomado erroneamente por auto-compreensão. Mas continue a perguntar-se ainda mais intensamente, "Agora, quem é que escuta?" Se você penetrar e penetrar no fundo desta questão, esquecido de tudo mais mesmo esta sensação de vazio desaparecerá e ignorará tudo mais — uma total escuridão prevalecerá. Não pare aqui, continue a perguntar com toda sua energia, "O que é que escuta?" Somente quando houver exaurido completamente o questionamento é que a pergunta irromperá: agora sentir-se-á como um homem que volta da morte, É a verdadeira percepção. Verá os Budas de todos os universos face a face e os Patriarcas do passado e do presente. Examine-se com este koan: "Um monge perguntou a Joshu: "Qual é o sentido da vinda de Bodhidharma à China?" Joshu respondeu: "O carvalho no jardim". Se este koan deixá-lo com mínima dúvida, precisa recomeçar a questionar-se, "O que é que escuta?"
Se você não chegar à compreensão nesta vida presente, quando chegará? Tendo morrido não será capaz de evitar um longo período de sofrimento nos Três Caminhos do Mal. O que está obstruindo a realização? Nada além de seu pusilânime desejo de verdade. Pense nisto e esforce-se ao máximo.” (texto)

De o Sermão de Bassui sobre a MENTE UNA
Mestre Zen-Rinzai Bassui Tokusho

Final

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Zen de Steve Jobs será lançado em português


Quadrinhos: A Devir lançará “O Zen de Steve Jobs”LUIZ SANTIAGO 20 DE MAIO DE 2012 0
Quadrinhos: A Devir lançará “O Zen de Steve Jobs”


Com roteiro de Caleb Melby, repórter da Forbes, e arte do Estúdio Jess3, a editora Devir terá entre os seus próximos lançamentos, a graphic novel O Zen de Steve Jobs. O cofundador da Apple faleceu em outubro do ano passado e já teve uma biografia póstuma publicada, além de haver um filme sobre sua vida em fase de produção. O que a graphic novel pretende mostrar é uma faceta menos conhecida do empresário, a sua relação com engenheiros, pensadores e outras pessoas importantes em sua carreira. O foco principal da obra é a amizade de Jobs com o monge zen budista Kobun Chino Otogawa.

O livro aborda o período de 1971 a 2011, mas o destaque da história é a partir de 1985, quando Jobs deixou a Apple e fundou a NeXT. A graphic novel imagina como foi a amizade entre Jobs e Otogawa, e o estilo narrativo não é linear, passando de um período para outro da vida do empresário. Através de uma arte simples, com traços harmoniosos e uso de poucas cores, o livro conquista o leitor principalmente por tratar, mesmo que seja de forma imaginativa, algo que aconteceu com um dos maiores ícones da tecnologia em nosso século.

Segundo os editores, “Kobun [Otogawa] foi para o budismo o que Jobs foi para a tecnologia: um renegado indômito”, e ainda em nota, afirmaram que a convivência entre os dois foi de grande importância para Apple após o retorno de Jobs à empresa em 1996. É a partir desse momento que a empresa alcança destaque no mercado e referência essencial no ramo da tenologia.

Longe do lado popularmente conhecido e ovacionado pela mídia, a HQ mostra o lado imperfeito de Jobs, e sua posterior mudança de pensamento, comportamento e relações humanas. O resultado disso todos nós sabemos.

(copiado na web de texto de Luiz Santiago)

Despertar parcial



(continuação, Sermão de Bassui sobre a Mente Una)

“Num sonho você poderá perder-se e não saber mais o caminho para casa. Você pede a uma pessoa que lhe indique como voltar ou você reza a Deus ou a Buda que o ajude, mas mesmo assim não consegue voltar para casa. Logo que sai do estado de sonho, porém, descobre que está na sua própria cama e compreende que o único meio que teria para voltar a casa, seria o de acordar-se. Esta (espécie de despertar espiritual) é chamada "volta à origem ou renascimento no paraíso". É a forma de percepção interior que se pode  conseguir com algum treinamento. Virtualmente todos os que gostam do zazen e se esforçam na sua prática, sejam leigos ou monges, compreenderão até este grau. Mas mesmo esse despertar (parcial) não pode ser conseguido, exceto pela prática do zazen. Você estaria porém cometendo um grave erro, se achasse que isto foi uma verdadeira iluminação na qual não há dúvida alguma sobre a natureza da realidade. Seria como um homem que, tendo encontrado cobre, abandonasse o desejo de procurar ouro.
A respeito dessa percepção, questione-se sempre mais intensamente desta maneira: "Meu corpo é como um fantasma, como bolhas num riacho. Minha mente olhando-se intimamente,é tão informe quanto um espaço vazio, ainda que em alguns lugares dentro dela sejam percebidos sons. Quem está escutando?" Se você questionar-se desta forma com profunda absorção, nunca diminuindo a intensidade de seu esforço, sua mente racional acabará por se exaurir e somente o questionamento no nível mais profundo permanecerá. Finalmente, perderá a consciência do seu próprio corpo. Suas idéias e concepções há muito tempo sustentadas, extinguir-se-ão depois do absoluto questionamento, da mesma forma que cada gota de água desaparece de um barril com o fundo arrombado, e seguir-se-á a perfeita iluminação, como flores que se abrem repentinamente nas árvores secas.
Com essa percepção você conquista a verdadeira emancipação. Mas, mesmo agora, abandone sempre de novo o que foi compreendido, voltando-se para aquilo que compreende, isto é, para a raiz mais profunda, e resolutamente vá avante. Sua natureza-Eu então ficará mais brilhante e mais transparente à medida que seus sentimentos ilusórios se desfazem como uma pedra preciosa que adquire brilho sob repetidos polimentosaté que finalmente ilumina o universo inteiro. Não duvide disto! Se seu desejo for excessivamente fraco para conduzi-lo a este estado na vida presente, você indubitavelmente chegará com facilidade à compreensão do Eu na próxima, contando que ainda esteja engajada neste questionamento na ocasião da morte, assim como o trabalho de ontem feito pela metade, é terminado hoje facilmente.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Destruindo as ilusões



A palavra ilusão não tem força suficiente, por isso usa-se a palavra delusão. Delusão é uma ilusão tão forte que nós não conseguimos ver que é ilusão. Ela parece a pura realidade.(Comentário de Monge Genshô)
 (Neste momento um carro de som passa próximo ao local do sesshin, o som deste carro é muito alto e acaba por invadir todo o ambiente. A este respeito, Monge Genshô comenta:esta manifestação que nós ouvimos agora mostra também a impermanência dos fenômenos flutuando em volta de nós. Uma das maneiras para não termos nenhuma perturbação é sermos capazes de aceitar).
Continua, Bassui:      
Que espécie de mestre é este, que agora mesmo vê cores com os olhos e escuta vozes com os ouvidos, que agora levanta as mãos e move os pés? Sabemos que estas são funções de nossa própria mente, mas ninguém sabe precisamente como são efetuadas. Pode-se assegurar que por detrás destas ações não existe entidade, entretanto é óbvio que estão sendo realizadas espontaneamente. Pelo contrário, poder-se-á assegurar que estes são os atos de alguma entidade; contudo, esta entidade está invisível. Se alguém encara este problema como incompreensível, todas as tentativas de raciocinar (para encontrar uma resposta) cessarão e ele ficará perdido sem saber o que fazer. Neste estado favorável, aprofunda-se sempre mais o anseio, incansavelmente, até o extremo. Quando o profundo questionamento penetrar até o fundo, e o fundo for arrombado, não permanecerá nem a menor das dúvidas de que sua Mente é o próprio Buda, o universo-Vazio. Então não haverá mais ansiedade sobre a vida e a morte, nem verdade alguma a buscar.” (Texto)
O que ele nos diz é que sentados aqui nós não podemos descansar, mas sim tentar incansavelmente chegar até o fundo dessa questão e ver o universo vazio. Se fôssemos capazes, se chegássemos lá, nenhuma ansiedade restaria, sobre nascimento e morte, nem sobre nenhuma impermanência de coisa alguma, nada mais poderia ser perdido na nossa vida porque teríamos tudo ao mesmo tempo ao penetrarmos a vacuidade, como bolhas de sabão, todas as ilusões desapareceriam.(Comentário de Monge Genshô)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Acordar do sonho



“...liberta-se instantaneamente dos sofrimentos que surgem da (ignorância da lei da) mudança incessante do nascimento-e-da-morte. Se um Buddha pudesse evitar, você pensa que ele permitiria que um único ser sensível caísse no inferno?. Sem a Auto-percepção não se pode compreender coisas como estas.”(Texto)
Aqui há três ensinamentos importantes. Primeiro se nós compreendermos que nossa mente é Buddha, é como virar uma chave e isso é que faz a Escola Zen ser conhecida como uma escola instantaneísta, em um único instante você pode despertar, pode se iluminar. Num único momento levando a crise bem longe, nós podemos, repentinamente, acordar do pesadelo. E este acordar-se é a própria iluminação. È enxergar a sua mente Buddha que na realidade não é nada do que foi construído em volta, mas a verdadeira natureza que não depende de nascimento e morte. 
A base de tudo, a vacuidade do qual tudo o que nós vemos é fenômeno. Não é na realidade sólido e verdadeiro. Uma das escolas buddhistas, a Escola Yogachara, levou bem longe essa análise dizendo que qualquer coisa surge e desaparece instantaneamente, que é por causa de uma plêiade de condições que esse copo aqui na minha mão surge, mas um infinitésimo de tempo depois que ele surge ele desapareceria se estas causas e condições não estivessem presentes para faze-lo surgir de novo, então na verdade o surgimento de todas as coisas é uma sucessão de infinitésimos de manifestações. 
 Todas as coisas são sustentadas por uma rede de conexões, de causas e condições que fazem com que surjam. Se essas causas e condições cessassem, instantaneamente as coisas desapareceriam. É como este sol entrando aqui na sala. Se a estrela sol desaparecesse, instantaneamente a luz que nós vemos desapareceria porque teria sumido a condição que sustenta esta manifestação da luz. Na verdade se isso acontecesse, antes que alguém diga, levaria oito minutos para nós percebermos, que é o tempo que a luz leva para chegar do sol até aqui, mas não importa no nosso exemplo. Todas as coisas são sustentadas por condições e nós também e todas as coisas que nós olhamos. Então essas coisas são ilusórias nesse sentido. Não é que elas não existam, mas elas são apenas manifestações, aparências.
 E isso é o que acontece conosco também, nós todos somos meras manifestações. E tudo o que nós estamos vendo também é mera manifestação. Há  algo sólido atrás de tudo isso, mas essas manifestações só se sustentam porque as causas e condições que as fazem surgir permanecem. Isso faz com que tudo o que nós vemos seja automaticamente impermanente. Todos os universos existentes são impermanentes. Na tradicional cosmologia Buddhista, que não importa se correta ou não, sempre se admitiu a existência de muitos e muitos universos cíclicos que surgem e desaparecem, porque esta é a natureza das manifestações. Surgir e desaparecer. Mesmo que dure bilhões de anos uma manifestação ela um dia esgota a sua energia  e desaparece, e isso deve acontecer também com o nosso universo. 

Então, existe alguma chance de nós permanecermos com a nossa espécie ou o nosso mundo? Não, nenhuma chance de permanecer para sempre. Nem o nosso universo inteiro pode permanecer para sempre. O que pode permanecer para sempre? Só a vacuidade. Por isso essa vacuidade não é o nada porque ela é aquilo do qual tudo surge o que é bastante diferente de um nada. Segundo, compreendendo que sua mente é Buddha libertamo-nos instantaneamente dos sofrimentos que surgem, da ignorância da lei da mudança incessante. Por quê? Porque se nós percebermos esta eternidade a qual pertencemos, cessa o sofrimento que provém da impermanência. Mas não basta nós entendermos isso com a nossa lógica. Não basta estudar física como as pessoas fazem hoje e dizem: a física moderna diz isto, isto não faz o sofrimento cessar. A única maneira de fazer o sofrimento cessar é sentar em zazen e enxergar a mente claramente e assim ter clareza, e essa clareza iluminando tudo faz com que nós percamos o sofrimento que provém de vermos as manifestações temporárias e nos apegarmos a ela.
Por isso sofremos em relação aos filhos, por exemplo, porque é temporário o tempo de vida deles, um dia nós os deixaremos ou eles nos deixarão. Esperemos que nós os deixemos. Um dia eles saem de casa, eles mudam e deixam de ser crianças adoráveis para serem adolescentes complicados, depois deixam de ser adolescentes complicados e um dia, voltam como adultos amorosos, então não existe estabilidade, nem sequer nesses seres que nós amamos tanto, com quem temos essa ligação genética, de sangue. Outro é que se Buddha pudesse evitar ele permitiria que um único ser sensível caísse no inferno ou seja, sofresse? A resposta é que Buddha não tem esse poder, ele é um mestre só, se tivesse ele eliminaria o sofrimento.
Ele apenas tentou dar a solução do sofrimento. A escapatória do inferno e do sofrimento é esta compreensão clara, mas não a compreensão do intelecto, e sim a compreensão afetiva, uma compreensão integral que só pode ser conseguida através do despertar da própria mente. E terceiro, sem a auto percepção não se pode compreender coisas como estas, ou seja, nenhuma solução que possa vir de fora, não pode vir de Buddha, não pode vir de nenhuma divindade, de ninguém pode vir a solução para o despertar. A solução para o despertar só é alcançável pela investigação de nossa própria mente. Nós é que temos que acordar do sonho e por isso o treinamento tem que ser tão duro. Porque o nosso mergulho na ilusão é forte demais, é extremamente poderoso. Nós como manifestações nesse mundo movidos por essas energias kármicas ficamos assim profundamente deludidos.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ninguém pode salvar alguém que segue maus caminhos



Voltando a Bassui, pergunta ele:
“Agora, o que é a Mente? É a Verdadeira-natureza de todos os seres sensíveis, aquela que existiu antes de nossos pais nascerem e por isso antes de nosso próprio nascimento, e existe presentemente, imutável e eterna. Então, é chamada a Face de alguém antes de seus pais terem nascido. Esta Mente é intrinsecamente pura. Quando nascemos ela não é criada de novo, e quando morremos ela não se extingue. Não faz distinção entre masculino e feminino, nem possui nenhuma coloração de bom ou de mau. Não pode ser comparada com coisa alguma, e por isso é chamada de natureza-Buddha. Não obstante, incontáveis pensamentos surgem dessa natureza-Eu, como as ondas levantam-se no oceano ou as imagens se refletem no espelho.” (Texto)
Tudo isso: vacuidade, o vazio,  natureza-eu, a mente, a face antes de seus pais terem nascido são sinônimos, são todas maneiras de se referir a mesma coisa. Esta verdadeira natureza, tudo isso é a vacuidade.(Comentário de Monge Genshô)
Se quiser compreender sua própria Mente, você deverá em primeiro lugar olhar para dentro da fonte de onde brotam os pensamentos. Dormindo ou trabalhando, em pé ou sentado, pergunte-se profundamente "O que é minha Mente?" com um desejo intenso de resolver este problema. É a isto que se chama "treinamento" ou "prática" ou "desejo da verdade" ou sede de "percepção". O que se denomina zazen nada mais é do que olhar para dentro de sua própria mente. É melhor buscar sua própria mente com devoção do que ler e recitar inumeráveis sutras e dharanis cada dia durante anos incontáveis. Tais esforços que não passam de formalidades, redundam em méritos...” (Texto)
Dharani,o qual Basssui se refere, são longas recitações de mantras que nós fazemos também na nossa escola.(Comentário de Monge Genshô)
“ mas este mérito acaba e de novo você terá de experimentar o sofrimento dos três Caminhos do Mal. Porque o fato de alguém buscar sua própria mente leva finalmente à iluminação, esta prática é um pré-requisito para que você se torne um Buddha. Não importa se cometeu ou não as dez ações más ou as cinco faltas; ainda assim, se você fizer voltar sua mente e se iluminar, instantaneamente é um Buddha. Mas não cometa pecados e espere ser salvo pela iluminação por efeito de suas próprias ações. Nem a iluminação, nem um Buddha nem um Patriarca poderá salvar uma pessoa que, iludida, segue por caminhos maus.
Imagine uma criança dormindo ao lado de seus pais e sonhando que está sendo batida ou sofrendo uma doença. Os pais não podem ajudar a criança, não importa o quanto sofra, pois não há quem possa entrar na mente de alguém que sonha. Se a criança pudesse acordar-se, conseguiria libertar-se dos seus sofrimentos, automaticamente. Da mesma forma, alguém que compreende que sua Mente é Buddha...”(Texto)
É a vacuidade, é a natureza verdadeira, é a face antes que tivéssemos nascido, quem compreende que a sua mente é Buddha...(Comentário de Monge Genshô)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Zazenkai em Londrina


Praticantes de Londrina e Maringá se uniram em um dia de zen, palestras, práticas e meditação.

O Sermão de Mestre Bassui



Nós vamos ouvir um sermão de Bassui, que foi um grande mestre Zen da Escola Rinzai,sobre a Mente-Una.(Comentário de Monge Genshô)


“Se alguém se liberta dos sofrimentos do samsara, deverá aprender o caminho direto para transformar-se em Buddha. Este caminho não é diferente daquele da compreensão de sua própria Mente.” (Texto)

Essencialmente nós temos que perceber que a maneira de nos libertarmos do sofrimento está disponível aqui e agora. Na realidade ela aparece no Sutra do Coração quando diz que o Bodhisattva Avalokiteshvara, quando meditava profundamente, viu claramente o vazio dos cinco agregados. A questão essencial é: nós sofremos porque não vemos o vazio dos agregados que nos formam e de todo o universo em volta, nós não vemos isso claramente.Nós até podemos saber e falar um pouco a respeito, mas como não vemos claramente aí nós sofremos. Nós sofremos por não enxergar a nossa verdadeira natureza.A perspectiva então da morte, da nossa aniquilação como eu, parece uma coisa dura.Também todos os seres amados e todas as coisas em volta são tão evidentes, são tão sólidas para nós. Nós não enxergamos a vacuidade da existência de cada criatura. Por exemplo, aqueles que tem filhos sofrem o medo da perda porque não conseguem enxergar com clareza que os filhos e eles são a mesma natureza, são a mesma coisa, a mesma vacuidade e que apenas nesse momento os fenômenos parecem dessa forma, porque parecem dessa forma então nós nos vemos separados, evanescentes, temporários e isso automaticamente traz a condição do sofrimento, esta impermanência. Por isso no Sutra do Coração tem aquela promessa: quando ele viu claramente o vazio dos cinco agregados, libertou-se de toda a dor e agonia. Então toda essa dor que nós temos é fabricada por nossa falta de compreensão clara.(Comentário de Monge Genshô)

domingo, 3 de junho de 2012

Encontro de escolas buddhistas


Grande encontro entre Sanghas...


Marcado por um delicioso chá e muitas conversas sobre o futuro do Budismo no Brasil e a elaboração de novas metas e propostas para para o Colegiado Buddhista Brasileiro.

Escolas variadas mas apenas uma Sangha, a do Buda!— Rev. Wagner, com sua espôsa Sayuri Sakane Bronzeri e Monge Genshô em Apucarana, Paraná.