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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Só fale do Dharma onde há respeito


Pergunta – Como é esta questão de não ser avarento com o Dharma?

Monge Genshô – O ensinamento é precioso, é uma sabedoria. Quando você tiver a oportunidade de oferecer uma palavra do Dharma você deve fazê-lo. Se você se nega pensando que não irá adiantar de nada, isso é ser avarento com o Dharma, não ajudar os outros com a sabedoria que obteve. Por outro lado temos que ser cuidadosos, pois também não é aconselhável falar do Dharma em locais ou com pessoas que você sabe que não irão respeitar o ensinamento. E com relação aos bens materiais, desde que você não vá prejudicar a você ou sua família, deve sempre ajudar aqueles que mais necessitam.

Pergunta – Quais são os Três Preceitos Puros?

Monge Genshô – Fazer o bem, evitar o mal e conferir abundantes benefícios a todas as criaturas vivas. Em razão desse foco é que alguns budistas se tornam vegetarianos, porque não desejam colaborar com o sofrimento de criaturas vivas. Os preceitos são orientações e todos se incluem. Se você quiser resumi-los poderá fazer como Jesus Cristo disse: “Amai-vos uns aos outros”. A diferença é que o cristianismo está focado nos outros homens e o budismo em todas as criaturas. A frase de Jesus no budismo ficaria “Amai todas as criaturas como se fosse você mesmo”.

Pergunta – Tem uma parte que fala em não se deixar levar pela raiva, como se faz isso?

Monge Genshô – Normalmente não embarcando no sentimento e na agressão do outro, mas existem momentos em que uma justa ira é necessária, por exemplo, alguém entra aqui e começa a insultar a todos nós. Nesse momento eu irei levantar a voz e ser severo e tentar lhe mostrar sua inconveniência.  Mas não devo me deixar levar por um sentimento de raiva contra a pessoa em si, porque o ato dela é errado, mas a pessoa está sendo arrastada por uma ilusão, eu que não estou entendendo tudo que existe por trás do que está acontecendo com ela. Em geral não sabemos o que se passa com o outro e temos raiva.

Temos um exemplo bom no momento atual do país. Estamos vendo várias manifestações, às vezes com um milhão de pessoas nas ruas, porém, no meio destes há várias pessoas com sentimentos agressivos e de vandalismo. Essas pessoas é como se tivessem vindo do mundo animal, talvez sua primeira vida humana, cheia de ignorância e não compreende que estão fazendo mal a si mesmos e essa obscuridade é tão grande que é como se fosse uma criança inocente.

Mas nossa primeira reação ao ver aqueles atos é de repúdio e raiva. O mesmo pensamento temos contra as pessoas que cometem crimes hediondos contra crianças, é muito difícil não sentirmos raiva nesses momentos. Temos que entender que são criaturas do mundo dos infernos sem qualquer tipo de compaixão. Se fôssemos capazes de entender, teríamos compaixão por essas pessoas, pois o carma resultante desse tipo de crime é muito ruim o que resultará em grande sofrimento, senão nesta vida, nas próximas. Quando vemos crianças sofrerem com doenças terríveis e dolorosas nos perguntamos o porquê disso, a resposta é: carma. Há grande carma para que isso aconteça, mas aquele ser se sente inocente e existem as consequências de atos passados que se você não consertar nessa vida, sofrerá na próxima.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Shushogi III - Refugio e votos.


TEXTO
Em seguida, devemos profundamente venerar os Três Tesouros, Bhuda, Dharma e Sangha. Devemos fazer o voto de fazer ofertas e honrar os Três Tesouros até mesmo em vidas e corpos futuros. Os Buddhas e ancestrais tanto na Índia como na China corretamente transmitiram esta veneração de Buddha, à lei e à Comunidade Budista.
COMENTÁRIO
Esses são nossos três Tesouros, o Buda que é nosso ideal, nosso exemplo e nosso professor que permite que compreendamos que é possível que um homem se eleve por seus próprios méritos e esforços. A lei, ou o Dharma, que é o ensinamento. A Sangha, que somos todos nós, a comunidade. Temos que fazer esforço para que a Comunidade exista e tenha possibilidade de receber pessoas.
TEXTO
Pessoas sem sorte e pouca virtude são incapazes de ouvir sequer o nome dos Três Tesouros, quanto mais se refugiar neles. Não ajam como esses que, compelidos pelo medo, em vão se refugiam em divindades nas montanhas e espíritos, ou adoram altares, porque é impossível ganhar alívio do sofrimento dessa forma.
COMENTARIO
Aqui uma crítica para os que se socorrem em divindades ou espíritos porque têm medo deles e têm medo de serem castigados. Também adoram imagens e as tomam como sagradas buscando o alívio do sofrimento. Mas o alívio do sofrimento só é obtido através da compreensão e libertação.
TEXTO
Ao contrário, rapidamente se refugiem nos Três Tesouros e encontrarão não somente a libertação do sofrimento, mas eles o levarão à realização da iluminação. Refugiar-se nos Três Tesouros significa possuir uma confiança pura. Quer seja durante a vida do Tathagata ou após, colocamos as mãos juntas em gassho e, de cabeça baixa cantamos o seguinte: “Refugiamo-nos no Buddha. Refugiamo-nos no Dharma. Refugiamo-nos na Sangha. Refugiamo-nos o Buddha porque ele é nosso mestre. Refugiamo-nos no Dharma porque é bom remédio. Refugiamo-nos na Sangha porque é composta de excelentes amigos”. É somente através do refugio nos Três Tesouros que alguém se torna discípulo de Buddha e se qualifica a receber todos os demais preceitos. O mérito de se refugiar nos Três Tesouros inevitavelmente aparece quando há uma comunicação espiritual de solicitação e resposta. Quando há uma comunicação espiritual de solicitação e resposta, todos se refugiam, quer se encontrem existindo como seres celestiais ou humanos, moradores dos infernos, espíritos famintos ou animais. Como resultado, o mérito assim acumulado inevitavelmente aumenta através dos vários estágios da existência, conduzindo finalmente à mais alta e suprema iluminação. O mérito do refugio nos Três Tesouros é o mais honrado, de um valor insuperável e de incomensurável profundidade. Saiba que mesmo o próprio Honrado do Mundo, Buddha, já testemunhou este fato. Logo, todas as criaturas vivas deveriam assim se refugiar.
Em seguida devemos receber os Três Preceitos Puros: não fazer o mal, fazer o bem e conferir abundantes benefícios a todas as criaturas vivas. Então aceitamos as Dez Grandes Proibições: não matar, não roubar, não praticar atos sexuais impróprios, não mentir, não se intoxicar, não falar dos erros dos outros, não se elevar nem rebaixar os outros, não ser avarento com o Dharma e com os bens, não ser levado pela raiva e não falar mal dos Três Tesouros. Todos os Buddhas recebem e observam estes Três Tesouros, os Três Preceitos Puros e as Dez Graves Proibições.
Recebendo os preceitos a pessoa realiza a suprema sabedoria Bodhi, a sólida e indestrutível iluminação dos vários Buddhas nos três estágios do tempo. Há alguma pessoa sabia que não procure alegremente este objetivo? O Honrado do Mundo claramente mostrou a todos os seres que quando eles recebem os preceitos de Buddha, entram no campo dos Buddhas, verdadeiramente se tornando suas crianças e realizando a mesma grande iluminação.
Todos os Buddhas existem neste campo, percebendo tudo claramente sem deixar pegadas. Quando seres comuns fazem deste o seu campo deixam de distinguir entre sujeito e objeto. Nessa hora tudo no universo – terra, grama, árvore, muro, tijolo ou pedregulho – realizam a obra dos Buddhas, funcionando como manifestação de iluminação. Aqueles que recebem os efeitos dessa manifestação realizam iluminação sem perceber. Este é o mérito da não-intenção, o mérito do não-artificio. É acordar para a mente Bodhi.

Pergunta – Como podemos nos refugiar nos Três Tesouros?
Monge Genshô – Apenas repetir os refúgios como fazemos nas cerimônias não representa nada, é necessário sentir. Você vai precisar em algum momento sentir dentro de você que tomou Buda como seu professor, que tomou o Dharma como caminho para escapar do sofrimento. Quando você verdadeiramente sentir isso, então tomou refúgio.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Ordenação de Celso Marques em P. Alegre

No novo zendô que ofereceu à comunidade zen budista, foi ordenado monge noviço, no dia 22 de dezembro, o Prof. Celso Marques. Seikaku San, seu nome monástico, dado por Saikawa Roshi, é meu conhecido de longa data, nos encontramos ainda no início dos anos 70 quando o zen passou a ser praticado em Porto Alegre. Um pioneiro da prática budista portanto, Seikaku San hoje com 71 anos, foi professor de filosofia na UFRGS, tendo acumulado uma biblioteca de 8 000 volumes, esta coleção, com grande presença de edições budistas em várias línguas , é uma preciosidade  que ficará disponível através de uma ONG para consulta e estudo dentro de instalações preparadas para tal neste novo zendô.
Foi uma honra ser "padrinho" desta ordenação dada amizade de mais de 40 anos que nutrimos, estiveram presentes 9 monges a cerimônia, entre os quais se destacam Isshin Sensei, Dengaku San,
e o Prof. Joaquim Monteiro, acompanhados de suas respectivas Sanghas.
Na foto o grupo de monges presentes no zendô ao fim da cerimônia de ordenação.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Inocentes e carma


Pergunta – Mas, por exemplo, ela passa fome porque produziu karma para isso, é assim?

Monge Genshô – Sim. Tem karma para nascer num mundo onde há fome. Assim como você tem karma para nascer como ser humano e inevitavelmente morrer em no máximo noventa anos. Esse é seu karma. Não existem vitimas inocentes. Existiriam vítimas se houvesse um Deus criando um ser de cada vez, porque ele teria o poder de não deixar acontecer determinada situação. Mas como para o budismo tudo é continuidade, não existe nenhuma inocência. Mesmo que você esteja vendo uma criança que sofre, ela não é inocente se você olhar um milhão de vidas.

Pergunta – Como desenvolver a compaixão nessa situação?

Monge Genshô – Seres são inumeráveis, faço voto de liberta-los, todos. Todos os seres, mesmo não inocentes, sofrem e tem dor, você também não é inocente, nem eu. Desta forma eu posso saber como é a dor do outro e me compadecer porque sei que a dor dele é como a minha. É como o exemplo do pesadelo, uma pessoa que sofra com um pesadelo, realmente sofre. O que você faz quando vê alguém sofrendo com um pesadelo? O acorda. É exatamente isso que Buda tenta fazer com os homens, coloca sua mão no ombro de quem está tendo seu pesadelo de vida e diz, “acorde”. Ao despertar todo pesadelo desaparece, essa é a maneira de se livrar do sofrimento. Todos que sofrem são vitimas inocentes se você olhar apenas suas vidas agora, mas todos estão vivendo sonhos. Assim como não existe a vitima inocente, não existe algo chamado culpa. É algo muito extenso para que você diga “É culpado”, por isso não vale a pena cultivarmos culpas. Temos que tentar despertar e assim vermos a realidade como é. Todas as vidas tem envelhecimento, doença e morte desde a infância. Quando eu nasci já havia penicilina, foi minha sorte, pois tive difteria, se tivesse nascido dez anos antes teria morrido.   Se eu tivesse nascido dez anos antes você diria que eu era um vitima inocente da difteria? Não, eu teria karma para nascer numa época em que não havia cura. Apenas isso.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Ordenação Gen Ai Jikihô

Próximo a Florianópolis, a Comunidade Budista do  Daissen Ji assistiu a ordenação monástica de Bia Gonzaga e realizou uma confraternização de fim de ano. Com seus cabelos raspados logo antes da cerimônia, Bia recebeu o nome de noviça de Gen Ai Jikihô, a primeira letra Gen é idêntica ao nome de seu professor Genshô e significa "profundo" Ai significa "amor". Até o final de janeiro deverá estar embarcando para o Japão a fim de permanecer algum tempo no mosteiro de Kasuisai em treinamento, durante os primeiros 3 meses estará incomunicável. O oficiante da cerimônia foi o Grande Mestre Saikawa Roshi, Superior Geral do Zen Soto para a América do Sul.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Conexões infinitas


Pergunta – Existe na visão do Zen uma conexão entre as pessoas, ou seja, em minha próxima vida estarei conectado com as mesmas pessoas?

Monge Genshô – Sim. No Budismo Tibetano há uma história interessante que diz que quando você bate de ombro com uma pessoa é porque você já a encontrou em quinhentas vidas. Cada coisa que acontece tem conexão, estamos aqui juntos e entre nós existe muita conexão e se você imaginar muitas vidas essas conexões podem ter sido repetidas muitas vezes. Às vezes não nos damos conta de nosso parentesco, por exemplo, todos temos dois pais, quatro avós e oito bisavós. Se chegarmos a dez gerações são mil e vinte quatro pessoas. Em mil e vinte quatro pessoas, comparando com outros mil e vinte e quatro dos teus antepassados, a probabilidade de encontrar parentes em comum é muito grande e quanto mais recuarmos, por exemplo, mil anos, veremos que nessa sala somos todos parentes.

Pergunta – Já que o senhor falou no Budismo Tibetano, os Lamas são reencarnações de antepassados, certo?

Monge Genshô – Não. São manifestações cármicas tomadas como continuidade de alguém.  A palavra reencarnação é mal usada, embora você até possa encontrá-la em livros budistas, mas ela significa que uma mesma partícula tomou um mesmo corpo. O Dalai Lama atual, o décimo quarto, é tomado como uma continuação do anterior, porém temos que entender como é o entendimento oriental a esse respeito. Se formos nos basear nesse exemplo cada papa seria a continuação de Pedro, embora pessoas completamente diferentes. O Dalai Lama atual tem uma personalidade totalmente diferente de alguns antecessores,  um anterior foi deposto porque era depravado. Desses quatorze, cinco foram assassinados, é uma história muito complexa  e você reconhecer a continuidade dos Dalai Lamas é um procedimento altamente esotérico e místico e tem sentido dentro das escolas tibetanas, coisa que não existe no Zen, por esta razão não podemos mais do que aceitar esta tradição maravilhosa.
Não é possível comparar uma situação com a outra, mas de qualquer forma Buda, que está na raiz do ensinamento do budismo, negou a existência de almas ou espíritos que vão mudando de corpo. Não usamos a palavra reencarnação, embora ela seja prática. É mais fácil explicar para uma pessoa que não seja budista que ela deve praticar bons atos para ela mesma ter uma vida melhor após a morte. Dar essa explicação de memória, de como o “eu” surge é muito complexo, embora faça mais sentido para nós. Buda negou a existência de deuses, espíritos e almas. As vezes as pessoas me escrevem pedindo orações para os filhos doentes com câncer, por exemplo. A resposta que eu gostaria de dar à elas é que quando os deuses trabalhavam sozinhos e as pessoas oravam para eles, morriam 100% das crianças com leucemia. Agora com quimioterapia salvam-se 85%, então se seu filho ou neto estiver com leucemia leve-o para o hospital. 

Pergunta – Mas então o que determinaria se uma criança morre ou não de câncer é muito mais uma questão do karma do que um progresso tecnológico?
Monge Genshô – Se você nasce um mundo onde exista progresso tecnológico é porque tem karma pra isso. Se você tivesse karma para nascer numa tribo da África e tivesse leucemia com certeza morreria. Você é nasceu num mundo civilizado, mas existem mais de um bilhão de pessoas que não saber ler e escrever. Ainda acontecem muitas coisas no mundo que são produto da ignorância e isso depende de karma. Em que família você irá nascer? Depende de seu karma. Para que mundo você se sentirá atraído? Depende de seu karma.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Vidas e sua sucessão



Pergunta – Essa história dos carmas que passam para as próximas vidas eu consigo entender claramente, mas ainda é difícil para mim, entender essa questão do budismo não ver o indivíduo se repetir em outras vidas, como que uma coisa se relaciona com a outra? Sei que na outra vida não serei eu, mas a essência é a mesma.

Monge Genshô – Sim. Mas isso pode acontecer agora. Vamos supor que você, Glenda, é sozinha e está fazendo uma viagem em outro país, sofre um acidente e perde completamente a memória. A Glenda não existe mais na sua mente, mas naquela localidade onde você foi encontrada sem memória você é aceita, as pessoas cuidam de você, lhe dão um emprego e como você não se lembra de seu nome eles à chamam de Bárbara. Você não se lembra de sua vida pregressa, a vida da Glenda, mas ainda tem os mesmos desejos e apegos. Você é Bárbara. Tirando somente a memória, existe Glenda ou existe Bárbara? Glenda não existe mais. Todos na sua vida de Glenda pensam que você morreu. Podemos ou não dizer que é mesmo “eu”? Para que você diga “eu Glenda”, precisa ter memórias de Glenda. Após dez anos de Bárbara você só tem memórias de Bárbara, amigos de Bárbara, novo marido, filhos, toda uma nova história, agora de Bárbara. É uma continuação da Glenda, mas o “eu” é outro. Por falar nisso, agora você é Glenda, qual era seu nome na sua vida passada? Não lembra, não é? O nosso “eu” é uma construção, quando nascemos não sabemos qual nosso nome, aos poucos vamos sendo ensinados, aprendemos nosso nome e o nome de nossos pais. Qual a diferença entre uma história e outra? Praticamente nenhuma. Na história você é Bárbara porque não tem as memórias de Glenda e agora você é Glenda, pois não tem as memórias de sua vida passada.

Somos imensamente poderosos


Pergunta – Na leitura que o senhor fez se fala da vida presente, vida futura e na vindoura. Isso trata das consequências do carma, mas eu estava pensando na questão egóica do “não-eu” e do “eu”, como dissolver isso ?

Monge Genshô – Não. Não precisa dissolver o carma para isso, precisa chegar ao ponto de compreender completamente “Anatta”, ausência de um “eu”, embora a ausência de “eu” seja a primeira condição do Caminho Óctuplo, que é a compreensão correta dos princípios do Dharma. 

Havendo compreensão correta cumprimos o primeiro passo, mas não é necessário realizá-lo dentro de nós para lidar com um princípio tão simples que é o do carma, que diz que para toda ação há uma consequência.  Às vezes as pessoas perguntam o que se deve ensinar aos filhos e minha resposta é que a primeira coisa é sobre o carma, pise no rabo do cachorro e ele lhe morderá. Sempre haverá retribuição dos atos.

Pergunta – Com relação a esta questão da semente. Se eu tenho esse sentimento ruim, mas se me arrependo verdadeiramente, o carma se extingue?

Monge Genshô – Se você apagar verdadeiramente ele vai perdendo a força dentro de você, por isso dizemos que zazen corta carma. Você senta, surge um sentimento negativo e você o descarta, surge outro e igualmente você o descarta, você então vai vendo o que surge dentro de você e vai se livrando disso. Se você se livrar completamente, sua mente muda e as coisas para você também mudarão. Se você produz bom carma e elimina carma ruim as pessoas o procuram para lhe ajudar, parece que você é uma pessoa de muita sorte. Na verdade sorte e azar não existem, o que existe é carma. Embora existam situações aleatórias na vida, em longo prazo não é assim, é você que constrói sua vida. Ao longo de um milhão de vidas tudo ocorre de acordo com o que você planta. Numa vida pode acontecer uma causalidade ruim, mas ao longo de muitas vidas não é assim e normalmente ao longo de nossas vidas produzimos as condições para os acontecimentos.

Existe um livro que se chama “O Fator Sorte” de Max Gunther, onde o autor estudou pessoas conhecidas como azaradas e pessoas conhecidas por terem sorte. A primeira coisa que caracteriza uma pessoa de sorte é que ela faz amigos, cumprimenta pessoas desconhecidas e se mantém em contato com amigos. Elas sempre serão lembradas quando surgirem as oportunidades. Em contrapartida, a pessoa tipicamente azarada é aquela que fica em casa e reclama que nunca recebeu uma chance. Nós temos na história da arte pessoas que souberam se promover muito bem, por exemplo, Picasso e Salvador Dali. Outros que fizeram obras maravilhosas, mas ficaram escondidos, como é o caso de Vincent Van Gogh. Hoje suas obras têm grande valor, muito diferente de quando ele era vivo.

Outra característica das pessoas de sorte é que são previdentes, ou seja, olham para os dois lados antes de atravessar a rua. A sorte e o azar então, segundo o autor, é uma questão de comportamento e modo de agir. Isso são coisas bem lógicas e concretas, mas mostram como funciona o carma, ele não é mágico, no Budismo não existe nada de sobrenatural, tudo tem causa e consequência.

Pergunta – Levando a lei do carma em consideração posso supor que somos responsáveis por todos os problemas e sofrimentos da nossa vida?

Monge Genshô – Sim, mas não exclusivamente nessa vida. Você tem marcas que vêm do passado que fazem com que sua vida se manifeste de determinada forma, porém você tem o poder de alterar o seu carma, para o bem e para o mal. Todos podemos construir vidas melhores cuidando do seu carma. Não adianta reclamar do que acontece conosco, temos que aceitar e ir em frente e procurar transformar uma coisa ruim em boa. Tenho um bom exemplo, minha filha está no hospital com o filho com leucemia. Em vez de ela lamentar sua situação e de seu filho, está pensando em como melhorar a situação do Instituto Nacional do Câncer e em fazer campanha para aumentar o número de doadores de medula. Você pode encontrar nos dramas da vida saídas para transformar aquele sofrimento num benefício para muitas pessoas. Os resultados que ela obterá ninguém poderá avaliar agora, mas podem ser maravilhosos. Você não sabe a consequência de um ato.

Uma vez eu estava no saguão de um hotel e se aproximou um homem e disse: “O senhor não me conhece, mas gostaria de lhe dizer que o senhor está mudando a vida da minha família, da minha empresa e a minha cidade.” Nessa época eu trabalhava como consultor de empresas jornalísticas e ele contou que um ano antes havia assistido a uma palestra onde eu falava sobre a possibilidade de um jornal criar uma campanha de competição entre as ruas de uma cidade para ver qual era mais bonita, mais arborizada, com maior numero de jardins. O jornal ganharia dinheiro vendendo os anúncios das empresas de jardinagens. Após ouvir a palestra ele voltou para sua cidade e entrou em contato com as agropecuárias e criou um concurso com auxilio da prefeitura e secretaria de turismo para premiar as ruas e casas mais bonitas. Em razão disso a cidadezinha havia mudado de aparência. Então, em uma palestra eu dei um exemplo de como fazer uma campanha para que um jornal vendesse mais anúncios, esse senhor acreditou e mudou a cara de uma cidade. O que interessa para nós nessa história é que quando dizemos algo e jogamos uma semente não podemos saber o tamanho do resultado. Somos imensamente poderosos em relação ao que podemos realizar plantando idéias e dizendo coisas para as pessoas.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Sementes cármicas


TEXTO
“Os budas e ancestrais devido à sua ilimitada misericórdia, deixaram abertos os grandes portais da compaixão, a fim de que todos os seres – tanto humanos como celestiais – possam assim realizar a iluminação. Embora a retribuição cármica por maus atos deva surgir em um dos três estágios do tempo, o arrependimento abranda seus efeitos, trazendo alívio e pureza. Assim, devemos nos arrepender com toda a sinceridade. O poder-mérito de arrependimento não apenas nos salva e purifica, mas também encoraja o crescimento da pura confiança sem dúvida e o esforço correto em nós mesmos. Quando a pura confiança aparece, transforma a nós mesmos e aos outros, seus benefícios se estendendo a todas as coisas, tanto animadas quanto inanimadas. A essência do ato de arrependimento é o seguinte: “Mesmo que o acúmulo de carma negativo tenha sido tão grande no passado que forme um obstáculo na prática do caminho, rogamos a todos os budas iluminados e misericordiosos que nos libertem da retribuição cármica eliminando todos os obstáculos à pratica do caminho. Que seus méritos possam preencher e reger o reino ilimitado do Dharma, para que compartilhem conosco sua compaixão. Os budas e ancestrais foram uma vez como nós, no futuro seremos como eles”. “De todo meu carma negativo do passado, nascido da ganância, raiva e ignorância sem início, produtos de meu corpo, fala e mente, de tudo agora eu me arrependo.” Se nos arrependermos dessa forma deveremos sem dúvida, receber ajuda dos budas e ancestrais. Mantendo isso em mente e agindo da maneira correta, fazemos abertamente nosso arrependimento, o poder daí advindo cortará as raízes de nosso carma negativo”.

Comentários de Genshô Sensei

Vejam bem, cortam as raízes do carma negativo, mas não cortam suas consequências, de modo que mesmo um Buda paga as consequências de seu carma anterior. Não há quem remova completamente.

Pergunta – Não entendi direito, ele fala em budas e ancestrais que cortam as raízes?

Monge Genshô – Sim, mas não como entidades ou como um salvador que carrega, ele, as consequências, mas sim você corta as raízes de seu carma negativo de modo que ele não tem como florescer. O carma depende de uma semente de determinado sentimento que você planta dentro de você. Vamos supor que você guarde raiva ou rancor de alguém que lhe fez algo, essa raiva é uma semente cármica que está lá aguardando. Depois de dez anos você reencontra essa pessoa e se você guardou essa semente ela irá florescer, dizemos que a semente amadureceu. Se houverem condições favoráveis a semente irá despertar. Agora, se você se arrepender da raiva e perdoar verdadeiramente aquela pessoa e ao encontrá-la não sentir raiva, pelo contrário, sentir compaixão e ajudá-la, a semente dentro de você morre.

Quando fazemos ações e criamos carmas, colocamos sementes dentro de nós, porém se jamais dermos condições para que as sementes despertem, não se manifestarão. O arrependimento e a mudança da mente têm o poder de fazer murchar as sementes. Uma pessoa que não consiga esquecer a raiva e todos os dias planeje vingança, vai fortalecendo essa semente e tornando-a poderosa a ponto de ocupar seus pensamentos. Esse sentimento corrói como um tumor e no momento oportuno ele irá florescer e se manifestar, e ela irá cometer um crime.  É assim que funciona.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

SHUSHOGI II




TEXTO
“Vocês devem evitar se associar àquelas pessoas deludidas neste mundo que são ignorantes da lei da causalidade e retribuição cármica”.

Comentários de Genshô Sensei

Pessoas deludidas são as pessoas que estão mergulhadas numa ilusão tão profunda que não percebem que é ilusão. Na ilusão você sabe que está iludido, você vai ao cinema e ao ver o filme sabe que é uma projeção e que as pessoas na tela são atores. Ainda assim você pode se emocionar e chorar, mas mesmo sendo arrastado pelas emoções você sabe que se trata de ilusão.

A delusão é mais profunda, pois você está metido dentro do fato e sente que aquilo é verdadeiro, não percebe que é ilusão. Como agora que estamos aqui olhando uns para os outros, isso é uma delusão, um sonho nítido. Sou um ser de sonho falando para seres de sonho e esse acontecimento tem a consistência de um sonho. Pensamos que isso seja a vida de verdade, mas não é, é um fenômeno dentro do universo. Tem uma realidade, mas dentro do contexto da eternidade é um sonho. Se nos associamos à outras pessoas que pensam que esse sonho é uma realidade, seremos arrastados por essa noção. Retribuição cármica é o que acontece quando caminhamos sobre o chão de nossas ações, ou seja, nossas ações pregressas constroem a nossa vida. Nossa vida é fruto das nossas ações.

TEXTO
“Essas pessoas não sabem da existência dos três estágios do tempo e são incapazes de distinguir o bem do mal. A lei da causalidade, entretanto, é ao mesmo tempo clara e impessoal: os que fazem o mal inevitavelmente caem (sofrimento), os que fazem o bem inevitavelmente ascendem (felicidade). Se assim não fosse, os vários budas não teriam surgido neste mundo, nem teria Bodhidharma ido para a China. A retribuição de bem e mal ocorre em três diferentes períodos no tempo: primeiro, a retribuição experimentada na vida presente; segundo, a retribuição na vida seguinte a esta; terceiro, a retribuição em vidas subsequentes”.

Comentários de Genshô Sensei

Está implícito que existe continuidade e que nosso carma continua se manifestando. Exatamente por existir continuidade é que existe retribuição cármica, nada que acontece é um efeito sem causa. Não parece lógico que estejamos aqui se não houvesse um passado que fez com que sentíssemos um impulso para estarmos aqui. Estarmos reunidos ouvindo o Dharma é uma marca cármica que faz com que a pessoa se sinta atraída por esse assunto, mas para que ele surja é necessário tê-lo plantado antes. Para olhar para o Dharma e sentar-se de frente para uma parede precisa ter marca cármica. Sempre há retribuição, pode não acontecer nada agora, mas depois acontecerá.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ainda não acabou?


Pergunta – Quando não observamos mais o início e o fim do ciclo, significa que não estamos mais gerando carma?

Monge Genshô – Não. Enquanto você estiver agindo no mundo vai gerar carma. Suas ações intencionais irão gerar carma.

Pergunta – Nesse caso ainda existe um “eu’.

Monge Genshô – Enquanto você vive no mundo precisa de um “eu”. Eu preciso do “eu” para conversar com vocês e operar no mundo. Porém ele tem a solidez de uma máscara, que usamos pra agir no mundo. O problema é a pessoa identificar-se com a máscara. Quando perguntado sobre quem nós somos, damos as respostas que correspondem com as nossas características e que correspondem na verdade com características da máscara. Nos confundimos com o rosto no espelho, com as roupas, hábitos e identidades sociais de médico, engenheiros etc. Conforme a pessoa vai pendurando coisas no cabide da máscara, vai acreditando ser realmente aquele ser. Mas não é, isso que ela pensa ser é tão sólido quanto uma máscara.

A pessoa que tem alzheimer, por exemplo, com o tempo se olha no espelho e não mais se identifica. Mas onde está o “eu” então? O “eu” vai se dissolvendo quando as características e memórias que você identifica como sendo o “eu” começam a ficar enfraquecidas quando não lembradas. O monge deve ter sempre a morte frente à seus olhos e isso acontece também no catolicismo. Estive uma vez num mosteiro beneditino e na capela andávamos em um corredor sobre as lápides dos monges que já haviam morrido. Temos que nos olhar no espelho e apreciar o trabalho da morte em nossa face, o envelhecimento. Isso dá muito sentido à vida, embora algumas pessoas possam pensar que isso seja horrível.

Se é assim, cada dia é precioso e como você irá viver esse dia de hoje? Se por acaso você descobrisse que teria apenas noventa dias de vida, como viveria o dia de hoje? Isso daria sentido à sua vida. O que é importante? Alguém chega até você querendo discutir sobre cinquenta centímetros de terreno que ele julga ser dele, o que você faz? Pode ficar, você pensa, estou morrendo em noventa dias. É comum em algumas iniciações a pessoa escrever seu testamento. Agora, neste momento, o que você vai deixar? Isso é muito importante, saber como viver tem a ver com olhar a finitude. Você poderá rir, pois as coisas que parecem importantes para os outros, para você não é mais. Tive um amigo que foi um dos meus primeiros professores budistas que teve um infarto e sabia que em breve morreria. O que ele fez? Começou a escrever poemas e dava para as pessoas que encontrava na rua. Ele estava se despedindo.

Certo dia estávamos conversando sobre logo depois do infarto e ele disse que quando acordou no hospital pensou: “Ué, ainda não acabou?!”, perguntei então sobre como ele se sentia e ele disse: “Sem nenhuma ilusão”. Isso é maravilhoso. Os mestres sempre dizem, “aproveitem suas vidas”.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Se "eu" não volto por que me importar?


Pergunta – O senhor antes disse que morremos sozinhos, que não existem indivíduos e que o “eu” é uma ilusão, são os carmas que formam as identidades. Quando alguém morre o que acontece com essa identidade? Do que adianta uma pessoa desejar ser melhor se depois ela volta, como uma gota, para o oceano e não será ela quem sofrerá as consequências de seus atos? Como no caso dos espíritas...

Monge Genshô – Veja bem, cada pessoa que nasce, na crença espírita, tem um “eu” novo. Ele herda as consequências de um espírito anterior mas em um corpo novo e nesse processo ele não se lembra de nada. Quem carrega as consequências é um novo ser...

Pergunta – Mas no budismo existe esse ser?

Monge Genshô –  No budismo há a continuidade do carma, mas o “eu” está perdido, pois ele depende de memória. O que constitui a noção de um “eu” é a memoria, tanto que se você sofre um acidente, fica com amnésia e se lhe pergunto quem é você, sua resposta será: “não sei”. Ignorando a questão da crença em espíritos ou coisas assim, não vejo tanta diferença. Mesmo que no espiritismo você diga que existe um espírito que carregou o carma, o “eu” de cada vida é diferente. O grande problema deste tipo de crença é, por exemplo, como li outro dia, a pessoa dizer que na vida passada foi “Rei Ricardo Coração de Leão”. Isso é muito interessante, as pessoas sempre foram reis, rainhas, grandes líderes, grandes guerreiros, não existem escravos, ladrões, prostitutas. O budismo não se dedica a dar explicações sobre o que acontece, para nós o que é óbvio é que não existe efeito sem causa. Tudo que existe hoje tem uma causa pregressa, logo, de certa maneira você é responsável pela sua vida atual, pois tudo que você carrega, suas características foram construídas. Quando você morrer, tudo que acontecerá depois virá do que você fez nesta vida.

Pergunta – E o que acontece com esse “eu” que morre?

Monge Genshô – Não sei, ainda estou vivo. O budismo não se dedica a dar esse tipo de explicação. Se formos especular, encontraremos muitas teorias. Por exemplo, no budismo Tibetano há o “Livro Tibetano dos Mortos” onde há uma descrição detalhada do processo pós morte, também há algo assim no budismo japonês. Mas isso tudo não é verificável e o budismo não discute coisas não verificáveis. Para nós o que basta é que todas os efeitos têm causa e o que você faz agora tem efeito no futuro. Sua outra pergunta, “Por que alguém deve fazer algo de bom se depois ele mesmo não continua?”. Veja bem, uma pessoa vai dirigindo o carro por uma cidade e joga lixo pela janela. Ela faz isso pela razão de que não voltará para a cidade, está apenas de passagem e não se importa. É como se para fazer boas coisas fosse necessário boas recompensas, pagamento de prêmios e reconhecimento. Então essa pergunta não se sustenta, você precisa de bons atos para gerar bom carma mesmo que não seja para você e sim para o mundo e para os que vem depois.

A arte do bonsai representa isso, você cultiva uma árvore e ela pode viver trezentos ou quatrocentos anos. Se formos ter a mesma perspectiva de sua pergunta, para quê cultivaríamos um bonsai do qual nunca veremos o resultado? O objetivo é fazer algo belo mesmo que eu nunca vá ver o final. O Pau Brasil é uma árvore da qual se fazem arcos de violino, violoncelos e contrabaixos. É a melhor madeira para isso. Mas o Pau Brasil está quase extinto e existem projetos de reflorestamento, mas então você vai chegar para o produtor e perguntar porquê ele está plantando Pau Brasil, que demora décadas para crescer, se não verá a árvore chegar ao ponto de ser cortada para virar arcos de instrumentos musicais? Como agora não existe Pau Brasil, os arcos estão sendo feitos de alumínio ou fibra de carbono, isso é trágico e acontece porque todo tempo as pessoas pensaram que não valia a pena, pois não veriam o resultado. Isso acontece em várias áreas do planeta, alguns peixes estão extintos, pois o oceano tem uma capacidade limitada de auto reposição e deveria ser permitida a pesca de uma quantidade determinada sob pena de extinguir várias espécies para o futuro.

Pergunta – Mas aquele viajante que disse que não voltará para cidade, não o fará nesta vida, mas em outra sofrerá as consequências de seus atos.

Monge Genshô – Exato. Porém o correto seria não fazer isso mesmo que eu não voltasse para este mundo. Não por causa das consequências que eu sofrerei, pois eu e os outros somos a mesma coisa.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Entramos na morte acompanhados pelo nosso carma


Texto "Shushogi" (continuação)
“Nascer como ser humano é algo raro; ainda mais raro é entrar em contato com o Dharma Budista. Pelas nossas virtudes do passado entretanto, fomos capazes não apenas de nascer humanos, mas também de encontrar o Budismo. Dentro do campo de nascimento e morte, então, nossa vida atual deve ser considerada a melhor e a mais excelente de todas. Não desperdicem seus preciosos corpos humanos à toa, abandonando-os aos ventos da impermanência. Não se pode confiar na impermanência. Não sabemos quando nem onde a vida transiente terminará. Nossos corpos não nos pertencem; e a vida, à mercê do tempo, continua sem parar nem por um momento. Assim que a face da juventude desaparece, não é possível encontrar nem mesmo traços dela.  Quando pensamos cuidadosamente, descobrimos que o tempo, uma vez perdido, nunca volta. Frente à impermanência, nem reis, ministros de estado, parentes, servos, mulher e filhos e jóias raras podem nos socorrer. Devemos entrar no reino da morte a sós, acompanhados apenas pelo nosso bom ou mau carma.”

Pergunta – O estado de Nirvana só é possível porque estamos no estado de Samsara?

Monge Genshô – Só vemos um e outro porque estamos perdidos. Samsara significa literalmente “perambular”. Andamos perambulando pelo mundo procurando algo agradável que nos tranquilize. O Samsara é caracterizado por pensamentos do tipo “Se eu tivesse um carro”, “se eu tivesse uma casa”, “Se ganhasse na megasena”, “Se tivesse um amor”, “Se fosse bonito”, sempre “Se”. Cada vez que se conquista algo, se deseja outra coisa.

Pergunta – O que seria necessário para se libertar dessa roda do Samsara?

Monge Genshô – O Nirvana é o estado como olhamos o fluxo e nos vemos livres do Samsara. Nós vemos o ciclo da vida com seus altos e baixos e o aceitamos. O primeiro passo é entender com clareza esse ciclo, isso não é um entendimento intelectual, mas sim um entendimento profundo, olhar para todas as coisas e pessoas e enxergar a impermanência. Essa é uma marca da existência, “Anicca”, que significa impermanente.

A segunda marca da existência é “Anatta”, nada tem um “eu” inerente. Quando falamos “a mesa”, estamos nos referindo a pedaços de madeira que arranjados dessa maneira tem a “forma” da mesa, mas ela não possui um “eu” chamado mesa. Da mesma maneira são as pessoas, pedaços de unhas, dedos, carne, sangue, pele que, juntos e arranjados desta maneira, formam um ser humano, mas lhe damos identidades e nomes. Nosso “eu” é tão sólido e real quanto o “eu” da mesa e compreender que nosso “eu” é uma construção proporcionada pelo funcionamento de nossa mente é algo muito difícil.  Tudo nos desmente, abrimos os olhos e vemos os outros.

A terceira marca da existência é “Dukkha”. Muitas vezes traduzida como sofrimento a palavra significa na verdade “cíclico” ou “insatisfatório”.  A vida é assim, cheia de altos e baixos. Dois anos atrás nasceu um neto, o coloquei no colo e estava muito feliz. Hoje está diagnosticado com leucemia. Tivemos um momento maravilhoso com seu nascimento, agora é o momento do sofrimento pela doença e se amanhã ele for curado será novamente o momento de sorrir de felicidade. A vida é e sempre será assim. Se tivermos sorte morreremos antes dos nossos filhos, porque tristeza mesmo é ver um filho morrer. Uma vez um rei perguntou para um Monge o que era felicidade e ele respondeu, “Felicidade é morrer o avô, o pai e depois o filho”.

Estudando o Shushogi


Vamos começar hoje a estudar o texto “Shushogi”. O texto inicia com uma explicação do significado da prática e da iluminação. A palavra “iluminação” não expressa muito bem o que Buda queria dizer, é uma palavra muito ocidental e dá a impressão de ser algo extraordinário. A palavra que Buda usou é mais corretamente traduzida por “despertar”, “estar acordado”. Mas despertar do quê? Despertar do sonho, ver as coisas com clareza, tais como elas realmente são e não como imaginamos que sejam. Toda a experiência é distorcida pelo conteúdo de nossa mente, o que vemos, ouvimos e sentimos é interpretado de acordo com conceitos, pré-conceitos e idéias, coisas que já estão flutuando em nossa mente. Essa é uma das razões que fazem com que o budismo seja muito difícil de ser entendido.

É comum durante uma conversa sobre o budismo as pessoas perguntarem em quê o budista acredita.

O budismo não é a religião do acreditar, não se baseia em fé ou crenças, antes se dedica a destruir aquilo à que as pessoas se agarram. O budismo não ensina a acreditar nem em Buda, que era um homem como nós e, portanto, não deve ser adorado como uma divindade. O budismo tem várias histórias sobre a humanidade de Buda e seus discípulos. Uma vez uma senhora vinha pela floresta e se deparou com Shariputra acocorado fazendo suas necessidades. Conta-se que ela ficou abismada com a dignidade e beleza de seu ato. A simples visão de Shariputra cumprindo algo que é normal a todos os seres humanos, mas de que nos envergonhamos, impressionou a senhora a tal ponto que ela tornou-se discípula de Buda. Quando ouvimos pela primeira vez essas histórias budistas, elas nos parecem ultrajantes, mas isso é proposital. O texto que vamos estudar começa assim:

Texto
“O completo esclarecimento do significado do nascimento e morte - eis a mais importante de todas as questões para os budistas. Se há Buda dentro do nascer/morrer, não há nascer/morrer.

Simplesmente compreenda que nascimento e morte são em si mesmo o Nirvana, não existindo nascimento e morte a serem odiados, nem Nirvana a ser desejado. Então, pela primeira vez, você estará livre de nascimento e morte. Tomar consciência deste problema é de importância suprema”.


Comentários:
Já neste primeiro parágrafo alguns conceitos são destruídos. Nascimento e morte são o mesmo Nirvana. Mas o que é o Nirvana? Nirvana não é um lugar. É um estado, uma maneira de ver paixões, sem os ventos das paixões. Literalmente a palavra significa “fogo extinto”, no nosso contexto seria sem ventos, sem os ventos das paixões, sem movimento. Nirvana é o estado em que a pessoa não é movida pelas paixões, amor, ódio, raiva, ciúme, apego, posse, medo.

As pessoas normais vivem no mundo como folhas levadas pelo vento num corredor, seguem batendo de um lado para o outro. Nirvana é a perfeita calma. A folha cai, se transforma em húmus, vira planta novamente, novamente folha e mais uma vez cai, neste ciclo não há nascimento e morte.  Existe somente o ciclo ou o fluxo e se você é calmo e o vê desta forma, ele é Nirvana.

Quando dizemos “atingir o Nirvana”, significa atingir a paz proveniente da compreensão do ciclo, sem enxergar fins e começos. É como olhar para um círculo - onde está o começo e o fim do circulo? Só quem vê inícios e fins somos nós, então nascimento e morte são em si mesmo, Nirvana.

Não existindo nascimento e morte para ser rejeitado, também não há Nirvana a ser desejado. Ao olharmos este “sem início nem fim” e atingirmos a paz, Nirvana é apenas o oposto do movimento de nascimento e morte. O primeiro passo para livrar-se do sofrimento é a compreensão correta. Somos nós que dividimos o mundo entre Samsara e Nirvana. Esse é o mundo do Samsara onde perambulamos tocados pelas paixões e vemos como oposto, o mundo do Nirvana, mas na realidade o mundo do Samsara é o mundo do Nirvana. A diferença está no nosso olhar. Onde uma pessoa vê dor e sofrimento, nascimento e morte, a outra vê fluxo sem fim.



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O mito do nascimento milagroso


6) Há  outros casos de nascimentos milagrosos?

Monge Genshô: Muitos. É recorrente na história da humanidade, não é um mito cristão. Joseph Campbell analisa muito bem isto, "o homem histórico é tomado pelo mito",  vai mostrando e fazendo os paralelos. Nas histórias sobre Buda isto também apareceu e alguns mestres principalmente da nossa escola, escreveram biografias de Buda depuradas, identificando “o quê” deve ser verdade nisto ou naquilo. Que ele nasceu numa situação boa, que viveu na classe dos xátrias, que era governante e portanto tinha poder, qual era a vida dos governantes, etc.

“Aos vinte e nove anos ele partiu”. Vamos desconstruir este, que é um dos mitos de Buda: vocês lembram que quando Buda saiu do palácio ele viu um homem morto e então ele pergunta para o seu ajudante que o guiava –“o que é isto”? “Isto é um homem morto”. Então ele continua: “Todos nós vamos morrer um dia”? Ora, um homem de vinte e nove anos que teve treinamento como guerreiro e que era de uma inteligência brilhante que nós vemos nos sutras, filósofo, incrível nos debates, imbatível, raciocínio agudíssimo, sofisticado, seria, aos vinte e nove anos, um indivíduo que tinha que fazer esta pergunta?

Então esta história, de que Buda viu um morto, um velho, um doente e um monge, o que é? É uma representação mítica do fato de que Buda, aos vinte nove anos pensando na morte, na velhice, na doença e na realização espiritual, angustiou-se com tais questões e as queria resolver porque tinha um grande sofrimento espiritual e, por isto, resolve sair do palácio e seguir o caminho que ele havia visto nos olhos de um monge que tinha um rosto pacificado.

É evidente que esta história está por trás da mitologização, da representação bonita da história, só para dar um exemplo para vocês do tratamento Zen para isto.

Tem uma célebre declaração de um mestre Zen em que alguém diz para ele: “Ah, Buda nasceu e saiu caminhando e a cada passo nasciam flores, apontou para o céu e disse que entre o céu e a terra ele seria o mais honrado”. O mestre Zen olhou para quem estava contando a história e disse: “Pois se eu estivesse lá naquela hora, eu o teria matado a pauladas”. (risos)

 Aluno - Mas esta questão dele talvez ser superprotegido pelo pai... será que não houve? Será que é só mítico?

Monge Genshô: Para que serve o mito? O mito serve para enfatizar, para tornar simbólico, para magnificar o fato, para teatralizar o fato.

7) E Sidharta Gautama era o nome deste que se tornou Buda?

Monge Genshô: Você está muito correto, nós não dizemos Buda para Sidharta Gautama, Sidharta é o homem que está muito angustiado, cheio de problemas, deixa a mulher e o filho e vai embora, abandona a família, agora este é um ato de Buda? Não, este é um ato de Sidharta. Ele vai se iluminar seis anos depois e vocês querem se iluminar num sesshin (retiro) de 3 dias.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Desistir para poder alcançar


1) Me parece que a respiração tem uma ligação com o despertar. Até que ponto que ela influencia?

Monge Genshô – A respiração faz parte do método e é uma atividade corporal que tem dois aspectos. Ela é automática, mesmo que você não preste atenção você respira e por outro lado você tem controle sobre ela, podendo variar seu ritmo da forma que desejar. Desta maneira, esse controle permite que você interfira no funcionamento da mente, por exemplo, se você está invadido por pensamentos que não cessam, pode interromper por alguns segundos a respiração, esse ato quebra o ciclo do pensamento invasivo. Você pode seguir fazendo isso cada vez que um pensamento invadir sua mente, passando a ter um mecanismo que lhe permita interferir na sua mente que parece incontrolável e corre como um cavalo desembestado, mas que através desse exercício, você pode colocar-lhe rédeas. Ser senhor de sua mente é extremamente importante. As pessoas costumam dizer que não conseguem parar determinados sentimentos como raiva ou rancor e não conseguem parar a agitação, mas isso não é verdade, sua mente pode ser controlada e o mais acessível mecanismo é a respiração. Depois que você aprende a controlar sua mente no Zazen, pode vir a controlar também na vida diária e isso é muito importante. No Zazen quieto olhando para a parede é mais fácil, embora percebamos ser muito difícil. Mas, mesmo assim, ainda é mais fácil que na vida diária.
 A dificuldade dessas experiências é que elas não são transmissíveis com palavras, são pequenos insights que surgem à medida que vamos praticando e que vão abrindo condições para novos insights. Criar condições para ter insights é muito importante, pois existem pessoas que nunca têm insights de nenhum tipo, desta forma, elas não aprendem coisas que estão disponíveis na vida, que são perceptíveis. 

2) O Satori é um estado sempre presente e nós é que não conseguimos acessá-lo?

Monge Genshô – Está sempre disponível. Depende de você e poderia existir, no entanto, não é nem um pouco fácil ganhar esta habilidade. Na verdade é uma habilidade. Se você tiver vários insights vai chegar o dia em que terá um “kenshô”, então terá vários “kenshôs” cada vez mais longos e mais profundos. Se você conseguir treinar desta forma e atingir um estado de estar em Zazen em torno de 40% realmente presente, estará amadurecendo a mente de tal modo que o Satori torna-se possível.

Isso não é um milagre e mesmo que atingido esse estágio não significa que a pessoa tornou-se alguém especial e sim que ela conseguiu enxergar algo, mas ela pode se comportar ainda de maneira bem errada. Ela tem a habilidade, mas para que a habilidade penetre na sua vida completamente, ainda leva muito tempo de treinamento. O que normalmente se diz para essa pessoa é que o caminho começa agora e que ela necessita praticar mais e de forma mais intensa. Ter o insight não significa ter terminado o caminho e sim tê-lo iniciado.

Funciona mais ou menos da seguinte maneira: você nunca teve nenhum insight e tê-lo parece ser maravilhoso. Quando você tem o primeiro, não parece mais tão maravilhoso, pois ainda falta muita coisa, então você tem mais e mais insights e cada vez que você olha para trás percebe que tudo que você teve não era nada. Quando consegue um esclarecimento ou despertar, percebe que ainda se sente decepcionado consigo mesmo, pois você não é nada daquilo que pensava que deveria ser. Mas você continua praticando e tentando chegar mais fundo e esse caminho é praticamente infindável.

Porém existe um grande problema aqui, dado o fato de que quando você senta para conseguir algo está manifestando uma mente aquisitiva, quer algo para si, o simples fato de desejar impede que este objetivo seja atingido. Assim a instrução sempre foi "apenas sentar-se", ou mesmo, "sentar-se já é iluminação", de modo a desarmar este obstáculo. Por isto é preciso de certa forma desistir da iluminação para poder alcança-la.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Satori


 (continuação)
No entanto esta experiência "iluminada" se perde com grande facilidade e qualquer pequeno incidente faz com que ela desapareça. Por isso fazemos uma distinção entre o “kenshô” que é fugaz e a iluminação verdadeira que chamamos “Satori”. “Satori” é ter atingido um estado tal em que esta experiência está disponível sempre. Você pode chamar quando quiser e ela irá lhe invadir. Não que isso seja algo sobrenatural, apenas você aprendeu como fazer a sua mente se comportar daquela forma e quando você faz isso, se dissolvem as distâncias entre sujeito e objeto, entre “eu” e os outros ou entre mim e as coisas. Passa a existir uma identidade entre o “eu” e todas as coisas e é como se o “eu” tivesse desaparecido e essa sensação de totalidade e plenitude é profundamente feliz.

Essa sensação possui algumas características interessantes, como por exemplo, ao atingir esse estágio nenhuma pergunta fica sem resposta, não existem dúvidas, dissolvem-se as divisões sectárias entre religiões ou crenças onde todas parecem ter um aspecto apreciável e compreensível e por isso surge grande paciência, tolerância e compreensão. Nós praticamos zazen porque é a prática de nossa linhagem, que é focada na iluminação. Já falei algumas vezes que mesmo em nossa escola essa prática não é a mais comum, pois algumas pessoas estão focadas nas cerimônias e demais práticas formais, julgando ser isso todo o verdadeiro Zen. ( O dito "a prática é a iluminação" tem sido distorcido para significar que quem executa cerimônias está fazendo tudo e neste ato está vivendo a própria iluminação e de resto pode viver como quiser.)As práticas formais são  técnicas ou métodos para despertar um espírito que facilite o surgimento desta percepção, mas esta exige um treinamento da mente e por isso treinamos uma forma de meditação que pode até ser desconfortável para o corpo, mas o despertar não virá sem este acesso. Não se trata de fé ou crença e sim de experiência, portanto tudo que posso lhes dizer é que testem e experimentem e, se vocês tiverem uma pequena experiência, saberão que a grande experiência é possível. Nosso foco é a grande experiência.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A iluminação existe?


Um aluno me perguntou se a iluminação existe, se não é mais uma ilusão da mente. Minha resposta foi de que a iluminação existe e as pessoas tem como perceber isso, pois têm experiências iluminadas em suas vidas, mesmo que muito breves.

O que acontece é que em um belo momento vemos o mundo como maravilhoso e sentimos uma grande e profunda felicidade onde parece que tudo está certo e é perfeito, mas ao primeiro pensamento e à primeira consideração, essa percepção se esvanece. O que seria, então, a iluminação? Não é um acontecimento extraordinário e especial, mas ao mesmo tempo é extraordinário e especial. Talvez algumas pessoas, tão envolvidas estão com problemas, preocupações, insegurança, raivas e sentimentos menores, jamais tenham uma experiência iluminada em sua vida. Essa turbulência sentimental os afasta da percepção pura mas, no entanto, esta percepção está a qualquer momento disponível, o que acontece é que as pessoas não chegam a percebê-la com facilidade e ela só surge em momentos de paz e quietude interna. 

Quando emerge um momento como este um sentimento de profunda felicidade pode nos invadir. Esse sentimento de felicidade invasiva é semelhante a quando uma pessoa se apaixona e sabe que é correspondida, no exato momento desta percepção, uma euforia invade a pessoa e ela sente-se profundamente feliz, até que surjam as primeiras perspectivas de problemas, medos ou inseguranças que irão destruir essa sensação.

A iluminação não é assim, ela tem esse aspecto de felicidade e plenitude, mas não há um objeto da qual seja dependente, trata-se de uma mudança interna. Como você mudou por dentro todo o mundo lhe parece diferente. O que sucede é o que chamamos de “Kenshô”, é vermos nossa verdadeira natureza por um breve momento e essa experiência é uma experiência iluminada. Às vezes as pessoas têm essa experiência não exatamente por estarem praticando meditação, mas em qualquer tipo de prática religiosa e a abertura de uma porta mística permite a pessoa sentir ou perceber como se tivesse levantado a ponta de um véu que lhe permitisse ver que do outro lado existe luminosidade.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Nem almas nem espíritos





6) Gostaria de entender melhor o renascimento na visão Budista.


Monge Genshô – No Budismo falamos em “continuidade cármica”, mas não de continuidade de um “eu”. Retornamos, mas não com nosso “eu”. Nosso “eu” se dissolve a cada vida, assim como se dissolve a cada dia, a cada semana você é um pouco diferente. Esse “eu” fantasia que vestimos nessa vida e a cada nova vida, deve ser construído e o que se manifesta novamente é o carma, mas do ponto de vista da prática do zazen, ninguém precisa aceitar isso como verdadeiro.

Se você quiser pensar que não existe continuidade alguma e que todos os impulsos se dissolvem e que todas as manifestações são manifestações que saem desse conjunto, isso não alteraria a sua prática, não é necessário você ter uma crença em algo para praticar zazen.

Tradicionalmente os mestres falam em continuidade porque seria absurdo que um impulso qualquer se perdesse e nada acontecesse. Uma vez que todo efeito tem uma causa, deve haver alguma causa para o efeito que você é. Essa causa para os Budistas é o carma e não aceitamos a continuidade de um “eu”, de uma alma ou espirito.

Não existem almas imortais, não existe efeito sem causa, sempre haverá continuidade e em razão disso você é responsável por quem você é e pela continuidade que haverá depois de você.

Você é hoje o resultado de coisas que trouxe do passado, suas paixões, seus gostos, seus impulsos e seus atos. Se você deseja mudar, mude sua mente, caso contrário haverá repetição e continuidade, o carma gerará uma nova identidade e tudo continuará igual a agora. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Bodhisatvas, Arahants, Budas


5) Já que o senhor falou em voltar, poderia falar sobre o Bodhisattva?

Monge Genshô – “Satva” significa “Ser” e “Bodhi’ é “Mente Compassiva”. Em todo o Budismo Mahayana o Bodhisattva é um ideal de prática, pois é aquele que renuncia sair desse mundo para ajudar todos os seres que aqui sofrem. A idéia de Bodhisattva se contrapõe a de “Arahant ou Arhat”, que é aquele que aprendendo o Budismo trata de iluminar-se e não mais retornar. A idéia do Bodhisattva torna-se predominante após o primeiro século depois de Cristo.

Aluno - Existe nessa idéia alguma mistura cultural, porque entre os gregos havia a cultura do herói.

Monge Genshô – A interligação cultural começa três séculos antes de Cristo, porém o herói não é alguém compassivo na mitologia grega. O herói mais conhecido, Hércules, era vingativo e cometeu vários crimes. O conceito de Bodhisattva é completamente o oposto, embora haja algo de heróico nesse comportamento de renunciar ao seu privilégio para ajudar outros a escapar do sofrimento. O Bodhisattva está mais para o santo Cristão do que para o herói grego, porém, o santo procura uma salvação para si mesmo, ele deseja sair desse mundo e entrar no paraíso. Outro aspecto muito importante no Zen é que não procuramos santos, não estamos empenhados em produzir santos. Você não faz coisas erradas não porque é um santo, mas porque sabe das conseqüências para todos.

Aluno - O Bodhisattva então renuncia a ser um Buda? Ou seja, se libertou de todos os sofrimentos e não mais será atingido pelo sofrimento dos outros e dele mesmo?

Monge Genshô – Não. O estado de Buda é um estado em que não há mais o retorno. Buda está extinto como ser humano, não mais se manifestará. O Bodhisatva retorna porque deseja, existe dentro dele um impulso para retornar e num Buda esse impulso foi perdido, pois ele entende que já cumpriu todas as tarefas que poderia realizar e não vê mais separação entre si e os outros seres.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Voltaremos para onde nos sentimos atraídos


4) Mas nesse caso a vergonha não estaria no ato de matar o cachorro em si, mas sim na condição que leva o homem a matar o cachorro? O quanto ele foi rejeitado e abandonado até chegar a essa condição? Onde entra a compaixão nisso?

Monge Genshô – A compaixão nasce justamente de sair de dentro de si e sentir como o outro se sente. Sobre a notícia, a revolta era pelo fato de terem matado cães e gatos e tem esse lado especista de colocar uma espécie como privilegiada. Cães não são melhores que bezerros. Algumas pessoas se sentem horrorizadas porque em alguns países se matam cães para comer, e dai? É só uma questão cultural. Para cultivar a compaixão é necessário que a pessoa saia de si e veja como o outro, homem ou animal, se sente. Existem sofrimentos tão inimagináveis no mundo que tornam os nossos absolutamente tolos, claro, se conseguíssemos vê-los. Vocês conseguem imaginar o que acontece em um país como a Síria? As notícias não são de pais que enterram filhos ou esposas que enterram maridos, são números, "morreram cinco mil pessoas em  bombardeios". O sofrimento é tão grande que não pode ser individualizado, é olhado como estatística. É mais ou menos o que acontece no Brasil, onde ocorrem cento e quarenta assassinatos por dia. Todos os dias cento e quarenta famílias lidam com a morte de alguém. Uma pergunta que devemos fazer é: “que tipo de vida vivemos e que mente tivemos para virmos nos manifestar em mundo como esse”? Estamos aqui porque fomos atraídos por nossos impulsos e desejos. Só há uma maneira de sair desse mundo, mudando o carma, caso contrário voltaremos sempre para cá, para onde nos sentimos atraídos.  

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Treinados para ter um eu


2) Continuando nessa linha do sofrimento, o sofrimento físico está de certa forma dentro do esperado e estou conseguindo suportar, mas o que está me afligindo mais é a mente. O que posso fazer para apaziguar esse turbilhão?

Monge Genshô – Volte sempre para cá. Ouça o barulho do mar, os pássaros e cada vez que sua mente viajar volte para cá. Não há nada lá fora e se você repetir isso mil vezes a cada instante que ela viajar para passado e futuro, ela acabará se acalmando. Você pode passar o sesshin inteiro pensando no que faria com o dinheiro da loteria, mas estará jogando fora uma ótima oportunidade de obter clareza. Isso é só uma fantasia sobre o futuro, você pode acalentar fantasias sensuais durante cada zazen o sesshin inteiro, isso se chama naraku* zazen. Naraku é inferno, zazen dos infernos, inferno não no sentido Bíblico de céu e inferno, mas significando desordem, balbúrdia, agitação. Você mergulhado em imaginar prazeres vai perder seu zazen. Isso é um enorme desperdício de tempo, dinheiro e sofrimento, pois você investiu tudo isso para vir ao sesshin e uma vez sentado permite que sua mente viaje para futuro e passado. Volte sempre para cá.

3) Gostaria de entender melhor sobre o ego, como ele nasce? Sinto que às vezes estou conseguindo ir fundo no zazen e de repente algo me puxa de volta, acredito que esse algo seja o ego, como funciona isso?

Monge Genshô – Somos treinados para ter um ego e necessitamos dele para operar no mundo.  É como uma fantasia que vestimos para podermos transitar pelo mundo, ele é necessário. Veja por exemplo essa fantasia que estou usando, um manto, uma ordenação de Monge, um título de Sensei, o que é isso tudo senão uma construção? Não é uma realidade dentro de si mesma, está apenas operando dentro de uma cultura, a cultura do Zen, inseridos nessa cultura podemos operar como professor, Monges, noviços ou leigos. Isso é uma soma de agregados que são construídos desde a primeira infância quando nossos pais nos ensinam a linguagem e junto vem o “eu”. É preciso dizer “eu tenho fome”, “eu tenho sede”, então desde a infância existe uma identificação com algo abstrato chamado “eu” e que é ensinada pelos pais. Mesmo os animais têm essa identificação, pois sentem medo, paixão, ciúmes.

A linguagem é uma maravilhosa ferramenta e ao mesmo tempo em que aprendemos que temos um “eu” e aprendemos o oposto das coisas, certo e errado, também a linguagem permite que ensinemos o Dharma, ou seja, desconstruir tudo e permitir que você entenda que tudo não passa de uma construção de sua mente. A resposta à sua pergunta é que o ego é construído paulatinamente através de ferramentas poderosas e é essencial para operarmos no mundo. Por isso ele é um obstáculo tão gigantesco, pois a cada momento que desejamos operar no mundo sem isso e com uma noção maior de unidade de todos os seres, temos dificuldades, pois estamos voltados para nós mesmos, para nossos umbigos. Temos que olhar para fora e perceber o sofrimento das outras pessoas. Estamos tão auto-focados que não percebemos o que sentem as outras pessoas.

O ego é também uma maneira de não enxergarmos mais o mundo e não compreendê-lo, pois olhamos só para nós mesmos. Como funciona a mente de um psicopata ou estuprador? É uma mente que não enxerga o outro e seus sentimentos. Ele não vê na sua vítima um pai de família, uma criança ou uma pessoa incapaz de se defender e tão pouco percebe o sofrimento que está causando. Isso é percebido pelos homens, não é verdade? Todos percebem a doença dessa pessoa, mas a sociedade ainda está cega para o sofrimento de outros seres ignorando-os completamente, uma atitude claramente especista.

Vi outro dia uma notícia de pessoas escandalizadas, pois moradores de rua haviam matado cães e gatos para comer. Mas qual a diferença de matar um cão ou gato para comer e matar um boi, porco, galinhas ou peixes? Não existe diferença. O que acontece é que queremos privilegiar uma espécie que pensamos ser amiga do homem. É perfeitamente legítimo que uma pessoa morrendo de fome na rua mate um cão para comer. Ele não é diferente de vocês que vão ao açougue comprar um pedaço de boi ou porco para comer. São cegueiras humanas, pois estamos centrados em nós mesmos e não vemos o sofrimento dos outros seres.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Dor na meditação


1) O que eu vivi hoje foi uma dificuldade muito grande em razão da dor. Gostaria de uma instrução de como lidar com a dor durante o zazen.

Monge Genshô – Você sempre pode trocar de posição. Se ainda assim continuar doendo, pegue uma cadeira. Você tem a opção de escapar da dor, mas por outro lado o sofrimento é bom. O caminho mais curto para a realização espiritual é o sofrimento físico e emocional. As pessoas que não sofrem têm grandes dificuldades. Havia uma pessoa que tinha todas as facilidades, havia nascido numa família sem dificuldades financeiras, era inteligente, boa saúde, bonito e o seu mestre lhe disse, “Eu oro para que a vida lhe traga muita dificuldade”. O que ele temia é que com tantas facilidades na vida o jovem ficasse cada vez mais orgulhoso e vaidoso. O sofrimento nos tira de nosso “eu”, pois nos desestrutura e desestabiliza. Essa é a situação para a realização espiritual. Em geral a maior dificuldade dos alunos e Monges Budistas é o ego e a vaidade. É possível perceber claramente o desejo de reconhecimento e prestígio.

O objetivo dos treinos em um mosteiro é quebrar esse ego, as pessoas dormem no chão, comem a mesma comida, vestem o mesmo tipo de roupa, não são permitidos uso de jóias ou perfumes, a comunicação é restrita para evitar que alguém se destaque, algo bem próximo do que temos no nosso sesshin. O sofrimento tem a virtude de demolir o ego e é uma grande oportunidade de descobrir nossa verdadeira natureza, algo que está além das lantejoulas do ego. Aproveite o sofrimento, mas se ele for tanto que você não consiga pensar em mais nada, ele está perdendo seu objetivo, mude de posição ou pegue uma cadeira. A vergonha que você sente por se mexer e incomodar o colega ao seu lado é bem vinda, desistir de ser bom, de sentar perfeitamente, de ser bom praticante é muito bom, reconheçam, vocês não são bons praticantes. Quem pensa que é bom e pode ensinar, está no caminho errado. Saikawa Roshi disse que o melhor sentimento de um praticante é: “Eu sou um tolo”.

Uma descoberta arqueológica revolucionária a respeito do Buddha?


 Pela excelência da análise reproduzimos artigo do Prof. Ricardo Sasaki publicado no blog Folhas do Caminho. ( link ao final)


 Uma descoberta arqueológica revolucionária a respeito do Buddha?

Lumbini, local de nascimento do Buda
Uma descoberta arqueológica revolucionária a respeito do Buddha?

A notícia no site da Globo é: “Estudo sugere que Buda viveu dois séculos antes do que se pensava - Cientistas descobriram estrutura de madeira no lugar onde ele teria nascido. Evidências indicam que sábio pode ter vivido no século VI a.C.” Desde ontem essa notícia tem circulado pela internet no mundo todo como fogo em capim seco. Já perdi a conta de quantas pessoas me enviaram essa notícia e de quantos compartilhamentos já fui notificado nas redes sociais. Escreverei aqui, sucintamente, minhas impressões iniciais sobre tal notícia que considero altamente superestimada.

Tudo isso começou a partir da publicação no site da National Geographic (que apoiou o projeto) de uma escavação liderada pelo arqueólogo Robin Coningham da Durham University da Grã-Bretanha e cujo estudo inicial foi publicado na revista Antiquity na segunda-feira, dia 25 de novembro. Segundo Coningham: “O que descobrimos é o mais antigo altar buddhista no mundo”. A matéria da National Geographic tem como título: “Oldest Buddhist Shrine Uncovered In Nepal May Push Back the Buddha's Birth Date

A partir desse artigo, jornais e revistas de todo o mundo começaram a replicar a matéria, e mesmo sites brasileiros de notícias, como Globo, Estado de São Paulo e UOL, deram destaque com chamadas sensacionais, enquanto que os internautas receberam a notícia ainda mais entusiasmadamente.

Mas será que tudo isso é justificado? Vamos aos fatos: Lumbini, localizada no Terai nepalês é considerada como o local de nascimento do Buddha (A matéria da UOL tem como título: “Arqueólogos descobrem local onde Buda teria nascido no século 6 a.C.”, como se nunca se tivesse sabido disso). Lá se encontra um templo erigido em homenagem à sua mãe, o Templo Maya Devi, que hoje é um centro de peregrinação para buddhistas de todo o mundo. Na época em que o visitei, Lumbini não era ainda um local muito visitado, havia apenas um ou dois templos buddhistas no local, a hospedagem era difícil, e o Templo Maya Devi estava muito aquém de sua importância. De lá para cá muito mudou.

No interior do templo, a equipe de arqueólogos da Universidade de Durham, que já trabalha no local há três anos, descobriu uma estrutura ainda mais antiga, e dentro dela, cercando um local semelhante a um altar em homenagem a uma árvore, uma estrutura protetora de madeira onde foram achados fragmentos de carvão vegetal e solo batido. Ao serem examinados por meio de técnicas de radiocarbono e luminescência estimulada opticamente, os acadêmicos dataram as amostras para aproximadamente 550 a.C. Esses são os fatos, o resto é especulação.

Vamos primeiramente notar a afirmação presente no título do Globo: “Estudo sugere que Buda viveu dois séculos antes do que se pensava”. Alguns internautas até aumentaram essa notícia e já vi pessoas divulgarem que a descoberta provou que o Buddha havia nascido 300 anos antes do que se imaginava! Pois bem, segundo as crônicas cingalesas da tradição Theravāda, a morte do Buddha seria situada a 218 anos antes do coroamento do rei Aśoka. O ano estimado antigamente para esse coroamento era 325 a.C. A partir dessa data se chega à morte do Buddha em 543 a.C., com seu nascimento, então, ocorrendo por volta de 624 a.C. Essas são as datas oficialmente reconhecidas dentro da tradição Theravāda do Buddhismo. Não se pode absolutamente saber quando o altar para a árvore, em Lumbini, foi construído. Se ele foi construído por volta do nascimento do Buddha, então, a data de nascimento do Buddha seria adiantada (para 550 a.C.) uns 70 anos, e não retrocedida, como noticiado. Se o altar foi construído durante o período em que o Buddha viveu, comemorando seu nascimento, então, a datação acadêmica se mantém estritamente dentro do que a tradição Theravāda já dizia, sem nenhuma novidade.

As pesquisas modernas, no entanto, principalmente a partir de comparações com os registros gregos da época, modificaram a data em que se acreditava como sendo a do coroamento de Aśoka. No 13o Edito em Pedra do imperador Aśoka é dito que ele enviou vários missionários para as quatro regiões da terra. Com base em registros de cinco reinos gregos hoje se admite com relativa segurança que Aśoka foi coroado em 268 a.C. Essa cronologia, então, foi revisada para 486 a.C como a sendo a da morte do Buddha (alguns dão a data de 483 a.C.), e portanto o nascimento vai para 566 a.C., ou seja, exatamente aquilo que a datação dos pesquisadores indicou, caso o templo tivesse sido construído na época do nascimento do Buddha. Mas como disse acima, não há como relacionar cronologicamente a construção do altar com os dados da vida do Buddha. O altar, cuja datação aponta para 550 a.C. poderia ter sido construído 500 anos ou mil anos após a morte do Buddha, o que hipoteticamente poderia levar a retrocedermos seu nascimento para qualquer tempo antes de 550 a.C. Mas caso ele tenha sido construído ainda durante a vida do Buddha ou logo após sua morte, tal descoberta em nada muda de maneira significativa o que a tradição Theravāda já diz há séculos.

Nas últimas décadas, no meio acadêmico buddhista, uma nova data para o período de vida do Buddha, tem sido sugerida, baseada em dados cruzados de fontes históricas, textuais e arqueológicas, colocando a morte do Buddha por volta de 400 a.C., e seu nascimento, portanto, para 480 a.C. Ainda nesse caso, se o altar encontrado e datado tivesse sido construído na época de seu nascimento, tal datação (550 a.C.) teria uma diferença de apenas 70 anos, um diferença numérica praticamente irrelevante em termos de arqueologia antiga.

AP/National Geographic
Todas essas considerações acima, porém, são pertinentes apenas no caso do altar encontrado ser realmente um altar buddhista, o que absolutamente não foi comprovado. O fato de se encontrar uma estrutura religiosa submersa dentro de outra mais recente, absolutamente não indica que as duas façam parte do mesmo movimento religioso. A história mundial é repleta de igrejas cristãs sendo construídas sobre antigos templos romanos, mesquitas sendo construídas sobre ruínas de igrejas cristãs e templos hindus, e assim por diante, pois frequentemente as religiões ‘reaproveitam’ lugares considerados sagrados anteriormente. O fato de existir originariamente um altar em homenagem a uma árvore, e sobre ele ter sido construído muito mais tarde um templo buddhista é algo completamente comum e normal. O culto a árvores sempre foi extremamente comum e disseminado por toda a Índia, continuando forte até hoje. Certas árvores são vistas como especialmente sagradas, alguns acreditando serem habitadas por espíritos e deidades poderosas. Seu culto aparece já nos Vedas de milhares de anos antes, sendo as árvores consideradas como o meio de comunicação entre as deidades superioras e os homens. É dito no Atharva Veda: “O Grande Espírito, imerso na concentração sobre a superfície da água no meio do mundo, sobre ele várias deidades estão fixadas como ramos ao redor do tronco de uma árvore” (AV 10.7.38). O culto às árvores sagradas é também parte da religiosidade não-védica, uma religiosidade que o Buddhismo e o Jainismo abarcam posteriormente assimilando vários de seus elementos e locais sagrados. O arqueólogo Coningham aponta que o fato de não terem encontrado vestígios de sacrifícios animais, como era comum no Brahmanismo, seria um indicativo do altar ser buddhista. Entretanto, o Brahmanismo não era tão forte na região dos Śakyas, cujo predomínio era da casta dos nobres, portanto antagônica ao domínio brahmāṇico. Além disso, jainistas e outros ascetas já perambulavam nessa região há muito, levando a não podermos absolutamente concluir que a mera existência de um altar em homenagem a uma árvore seja ligado originariamente ao Buddhismo. A única coisa que a descoberta mostra é que houve um altar dedicado a uma árvore, e que muito mais tarde um templo buddhista foi construído sobre ele.

Tudo isso mostra que a descoberta e datação realizadas, ainda que importantes em si mesmas, absolutamente não implicam na conclusão de que a estrutura analisada seja buddhista (como no alardeado “encontrado o mais antigo templo budista do mundo”), e nem justifica as afirmações de que a descoberta altera significativamente a data em que se supõe que o Buddha teria vivido, ou nem mesmo prova que ele viveu em tal data sugerida. Tudo muito longe de ser “uma descoberta que pode mudar a história do Buddhismo”, tal como anunciado no National Geographic Channel, e aplaudida por tantos.
Reproduzido de: http://folhasnocaminho.blogspot.com.br/2013/11/uma-descoberta-arqueologica.html

A vida se mostra a cada passo


Nós pensamos em alcançar ou fazer algo e isso cria ansiedade e expectativa. A vida não é para ser vivida desta forma, impondo à vida nossos projetos pessoais. Talvez o projeto da vida seja diferente. Vamos construindo nossa vida com nosso caminhar. Quando existe um projeto, este cria um conflito, pois irei forçar a vida a se coadunar ao meu projeto. Temos que aceitar a vida tal como se apresenta, pois talvez meu projeto não seja possível dentro da vida.

O mais famoso físico da era moderna, Stephen Hawking, tem uma doença degenerativa que lhe paralisou o corpo inteiro e se comunica através de um dispositivo de geração de fala que lhe permite ditar seus livros, dar palestras e entrevistas. Quantas pessoas no mundo têm um problema infinitamente menor que esse, mas que é suficiente para impedir que essa pessoa faça algo em sua vida? Temos no Brasil um famoso pianista, João Carlos Martins, que após alguns acidentes e uma agressão física na Bulgária, onde lhe bateram com uma barra de ferro na cabeça acarretando um problema neurológico, que fez com que perdesse os movimentos das mãos e fosse impedido de continuar a tocar piano. Ele desistiu da musica? Não, tornou-se um maestro e rege uma orquestra. Ele aceitou a vida tal como ela se apresentou.

Nós, com nossos corpos e mentes perfeitos, nos incomodamos com situações, palavras e atitudes e não enxergamos que temos que nos adaptar ao mundo e não ele a nós. Durante milênios a Escola Zen vem desenvolvendo esse tipo de treinamento que estamos realizando. Antes de criticarmos o modelo da sangha, modelo de aceitação, obediência e silêncio, modelo de destruição do ego, temos que nos lembrar que são mais de mil anos de trabalho de muitos mestres para desenvolver esse tipo especifico de treinamento. Por quê os mestres ensinam um dia de um jeito e no outro dia mudam? Para que ninguém se agarre às instruções, métodos, formas e pensem que elas são a essência do Zen. São apenas instrumentos de treinamento. Mudar as formas é um ensinamento precioso que diz para que não nos agarremos, não existe certo e errado ou tem que ser feito dessa ou daquela maneira.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O homem e sua circunstância


No primeiro dia de retiro, quando sentamos, muitas coisas vêm à nossa mente. Mas do primeiro para o último zazen do dia já possível observar uma mudança na mente. No início a agitação é bem maior e vêm mais coisas à mente, mas como elas se repetem no decorrer do dia, é possível perceber que há uma mudança e o que se apresenta nos últimos zazens é um pouco diverso. Mesmo quando sentamos e pensamos que fizemos um mau zazen, esses efeitos podem ser percebidos.  Não existem bons ou maus zazens, você fez o zazen possível com a mente que você tinha naquele momento. O grande desafio do sesshin é mudar a mente, mudar seu conteúdo. As imagens que surgem são a fotografia do nosso estado mental. Você deve olhar e dizer sem engano: “esse sou eu”. Sentado de frente à parede não há ninguém para enganar. Irão surgir os pensamentos que são predominantes neste momento e isso é muito importante, pois são os conteúdos importantes de hoje, aquilo que você vive agora, pode ser que semana passada você fosse outra pessoa e pode ser que amanhã seja outra diferente, com outra mente. Vai depender do que você alimentou sua mente, as notícias que recebeu e os estímulos.

Temos a tendência de pensar que o “eu” é estável e sólido, mas não é. Ele é constantemente alterado pelas circunstâncias e acontecimentos. Ortega y Gasset, um famoso filósofo moderno disse que “O homem é o homem e sua circunstância”, a circunstância de agora me altera. Como você pode lidar com a vida tal como ela se apresenta? Você não pode alterá-la, só a sua perspectiva com relação à vida pode ser alterada. Tem uma pessoa à quem tenho que ligar amanhã, apesar de estar em retiro eu assumi um compromisso com ela, pois seu filho está com câncer e amanhã começa a quimioterapia. Ela me disse: “amanhã começa a quimio, vai ser uma coisa muito pesada”. Então eu lhe disse: “não, amanhã começa a cura”. A situação é a mesma, mas você pode mudar a maneira como a vê. É sim uma coisa difícil que começa, mas é também a cura.

Quando eu era criança, leucemia era uma sentença de morte, mas hoje existem 85% de possibilidade de cura. A vida toda é assim, você pode olhar para ela e vê-la de forma diferente, alterar a maneira como a vê. Veja a sangha, por exemplo, você pode pensar que ela é obrigada a aceitar a sua maneira de ver as coisas e pode ser que a comunidade não aceite sua opinião. O que você faz, aceita ou luta? Você é a sangha. Você deve aceitar. À medida que vamos vivendo vamos elaborando a vida e a transformando, mudando os óculos que colocamos para ver o que sucede. Se uma pessoa não gosta da minha maneira de agir eu posso ter dois óculos, com um eu a verei como errada e eu como certo, e com outro eu me veria como errado. Quem sabe eu não saiba como atingir os objetivos, mais ainda, quem sabe eu nem deveria ter objetivos?

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Nem eu nem outro


Pergunta – Como ter uma compreensão clara de coisas boas, por exemplo, de compaixão e generosidade? O Senhor estava falando que não existe um “eu” para sentir raiva, mas então quem é o “eu”’ que realiza atos de compaixão e generosidade?

Monge Genshô – O Bodhisattva tem compaixão, mas para ser totalmente iluminado não pode enxergar os outros seres. Não pode haver eu aqui e você aí, de quem eu me compadeço. A visão de um “eu” separado está dentro da segunda Roda do Dharma.

A primeira Roda é a da Virtude, onde existem regras, não faça o mal, pratique o bem etc.

A segunda é a Roda da “Mente de Bodhichita” onde o ser tem compaixão, mas ainda vê o outro.

Na terceira Roda existe a não dualidade, ou seja, entre mim e você não existe diferença, a compaixão já não se aplica.

Sob o ponto de vista teórico sua pergunta faz muito sentido e deveria ser respondida no âmbito da não dualidade, mas não conheço algum praticante Budista que pratique perfeitamente a compaixão, conheço muitos que tentam praticar a virtude, a palavra correta, a mente correta e os pensamentos corretos. Pessoas que mesmo tentando se comportar melhor, ainda têm uma profunda noção de si mesmos e têm pena dos outros, o que é diferente de compaixão. Compaixão é não dualidade, é você realmente se colocar no lugar do outro, sentir a dor do outro, ser o outro, não existem outros seres, você e o outro são a mesma coisa a ponto de você nem sentir compaixão, pois não existem outros por quem se compadecer. É paradoxal para uma mente não dual matar outros seres para comer seus pedaços, por exemplo. Conheço apenas praticantes no estágio da virtude com raríssimas exceções. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Use o sistema mas não se confunda com ele


Pergunta – Então é muita perda de tempo ter raiva, pois tudo faz parte do sistema, faz parte de uma ilusão.

Monge Genshô – Exato e se você puder abandonar tudo está livre. Mas mesmo assim nunca se estará totalmente livre, veja, a pessoa se torna Monge e os seus alunos esperam algo de você. Então é outro tipo de sistema, mas ainda é um sistema, pois você tem obrigações, tem que cumprir com cronogramas de retiros, sangha e etc.

Pergunta – Mas o sistema é necessário para a sobrevivência de todas as pessoas, pois se todos resolvem burlar o sistema, a sociedade para e do que as pessoas viveriam?

Monge Genshô – Exato, mas onde está a grande questão? Eu tenho um nome, mas tenho que entender que ele apenas serve para que eu transite nesse sistema, é só uma fantasia, não uma realidade. Você possui um numero de CPF que lhe é útil para que você consiga uma série de coisas, mas deve entender que esse número não é você, é apenas uma fantasia criada dentro de uma instituição. Se você tiver a consciência clara de que é uma fantasia, poderá perdê-lo sem desejar se matar. A pessoa que se mata porque perdeu o crédito acreditou que ela fosse a fantasia, o nome ou o número. A pessoa pode usar o sistema e seus rótulos como algo útil, desde que não se confunda com eles. É como usar uma roupa, você não pode pensar que você é a roupa. Essa compreensão é muito importante.

Pergunta – Eu fico pensando nessa pessoa e se ela fez algo para que isso acontecesse realmente ou se foram as circunstâncias que o colocaram nessa situação. O problema de ser o caloteiro é quando a própria pessoa cria as condições de ser chamado de tal.

Monge Genshô – Essa é outra situação. Isso é usar de artifícios dentro do sistema para levar vantagens. Mas de qualquer forma esta pessoa também está presa ao sistema. O que eu quero é fazer com que vocês olhem para o sistema e seus rótulos como instrumentos para transitar no mundo, mas não se confundam com eles. Você não é o “eu”, pois nada tem um “eu” inerente, todos os “eus” são construídos e tudo que estamos falando sobre sistema faz parte das atribuições criadas pelo sistema. É funcional? Sim, mas é uma ilusão, não é a realidade e por isso não tem sentido, por qualquer coisa que aconteça dentro desse sistema, você se matar. A grande lição disso tudo é a existência de uma liberdade fundamental da qual você pode usufruir. Você pode usufruir de todo o sistema desde que não perca sua lucidez. O sistema é útil, mas não é a essência da vida. O dinheiro é útil? Sim, mas não somos o dinheiro.