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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Não Há Ninguém Lá Fora




Onde existe sofrimento surgem bodhisatvas, e assim novos Budas podem vir a surgir. Então todos os seres na realidade são Budas em potencial, mas aquele Buda histórico, Shakyamuni, ou cada um dos Budas históricos que já aconteceram antes, por definição, estão extintos. Por isso não oramos para Buda ou pedimos coisas para um Buda, como por exemplo para que ele nos socorra, nos ajude, porque não existe esse tipo de condição no budismo, um ser lá fora que vai nos ajudar. Somos nós que temos que mudar as nossas marcas cármicas com a ajuda daqueles que puderem nos ensinar a nos alterarmos. Mas não adianta pedir uma graça externa, pois as graças externas simplesmente não existem.


Ruim isso, não é? Nós ficamos pensando assim: “eu gostaria tanto de ter alguém lá fora para me ajudar”. Esse na realidade é um pensamento infantil porque, em primeiro lugar, ele provém do fato de que nós tivemos pais e mães e de que na nossa infância nós pedíamos ajuda para eles. Então nós queremos a repetição. Queremos um pai que nos ajude. 

A segunda consideração a esse respeito é: se existe um ser de compaixão, você não precisa pedir nada para ele. Se ele puder ajudar você ele ajuda. Assim como quando você era criança e caía no chão, seu pai não ficava esperando que você pedisse “me ajude”. Ele ia lá e ajudava você, sem que você pedisse, e sem esperar qualquer agradecimento. Cada um de vocês aqui que tem filho sabe perfeitamente como é isso.

Se seu filho se machuca você fica assim: “peça com fé que eu vou ajudar” ? Você vai lá e ajuda na hora. Você diz: “coitadinho…”. Você não pede nada para ele para dar a graça da sua ajuda. Então se Buda fosse um ser fora de nós e ele pudesse nos ajudar, ele ajudaria sem que nós pedíssemos. Uma divindade qualquer que exige que peçamos ajuda é menos compassiva do que qualquer um dos pais e mães aqui presentes.

  [Trecho extraído de palestra proferida em Florianópolis, 23/08/2016, por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A devoção também é um caminho


Pergunta: Acreditar em deus ou em deuses, ser devoto deles, pode ajudar ou atrapalhar na prática? Como fica isso com relação à iluminação?
Monge Genshô:
O budismo não detém o monopólio da iluminação nem do esclarecimento e nem de nada. O budismo é um método que não está baseado em fé, crença e coisas assim. Existem métodos que são devocionais. O método devocional existe dentro de algumas formas de budismo, mas está um pouco ausente do Zen. Não é que não exista, nós fazemos reverências, mas quando alguém faz uma pergunta endeusando Buda nós logo dizemos que ele era um homem como nós e que morreu, então não adianta pedir nada para ele. Algumas formas de budismo criaram outros objetos devocionais que não são Shakyamuni Buda, por exemplo, Buda Amida, que é Buda da luz infinita, que seria uma luz que permeia tudo, nós recitamos na hora da refeição o Bodhisattva da grande compaixão, Kanzeon, representada na forma de uma mulher, Kuan Yin que, na lenda budista, queria fazer o bem para todos os seres e não conseguia ajudar todos, então chorou e ganhou um grande número de braços. Mas na realidade não é um ser existente, é uma imagem visual da virtude da compaixão do ponto de vista budista. Perguntaram para um Mestre Zen “mas Kuan Yin existe?” e a resposta foi “Kuan Yin sabe que ela não existe”. Típica resposta do Zen. Tente entender.

Normalmente, nas crenças devocionais, você assume como existentes seres e então pede ajuda a eles, ora a eles e tudo mais. A pergunta que está por trás do que você disse é “funciona?” e sim, funciona. Mas não porque um ser lá fora ajude você, mas porque você ao se entregar muda. Então internamente há efeitos para você. É como perguntar se orações funcionam. Claro, para quem ora. Mas seres externos influenciam no mundo? Se influenciam estão fazendo um trabalho muito falho. Além do que se um ser poderoso estivesse lá fora e pudesse ajudar as pessoas aqui e agora você não precisaria pedir. Vocês mesmos que estão aqui entendem perfeitamente o que é ajudar alguém sem ser solicitado e sem que a pessoa saiba. Sabem que esse é um nível superior de compaixão e que a caridade que pretende obter algo, o reconhecimento público ou retorno, é muito fraca. Todas as religiões têm sentido e essas práticas têm sentido, se você não as reconhece é porque você está perdido numa visão sectária ou fanática, achando que só o budismo tem sentido. O budismo é apenas um método que tem sentido para pessoas que não se entregam para crenças.

Um dia desses alguém fez uma pergunta ligada ao enorme esforço que a humanidade fez para construir catedrais e eu disse que se você vai à Koln, Alemanha, você vê uma catedral gótica que tem 160 metros de altura. Durante séculos foi o edifício mais alto da Europa, todo construído sem ferro, só pedra sobre pedra. É tão grande que tem uma lenda de que o demônio jogou uma maldição de que ela nunca ficaria pronta. Ao lado tem uma oficina que sempre prepara pedras para colocar no lugar das que se desfazem, o que mostra que ela está sempre sendo consertada. Foram 700 anos para construir. Então você vem para uma rua, dobra a esquina e de repente a catedral está na sua frente, a impressão que você tem é que é uma montanha. Ela foi construída para abrigar uma relíquia que são os restos dos três reis magos. É evidente que isso não é verdade, mas de qualquer forma a catedral está lá e há três caixões rodeados de ouro. Houve uma época durante a Idade Média na Europa em que se produziam relíquias em grande quantidade, porque era um ótimo negócio. Mas quando a gente olha a catedral não importa se os reis magos existiram, se estão lá dentro ou não, o que importa é que a catedral é magnífica e é uma imensa obra do espírito. Então você tem que olhar assim. É por isso que passamos na frente de uma estátua de Nossa Senhora de Fátima e fazemos reverência. Porque nós enxergamos além de coisas tais como verdade e falsidade. Vamos além disso e isso sim é sabedoria. Isso é ter lucidez.

No budismo isso não está ausente. O kesa, o manto budista, é tratado como sagrado. Sempre tem que ser dobrado de uma maneira certa, colocado em um local mais alto e mais uma porção de protocolos. Nós agimos como se ele fosse sagrado, mas no Zen nós podemos dizer também que ele é só um pedaço de pano. É o manto de Buda e ao mesmo tempo é apenas pano. Tem grandes significados simbólicos, mas quem dá a ele esses significados simbólicos somos nós. Meu comportamento com o kesa é que faz dele um kesa. É o comportamento dos alunos que reverenciam a pessoa quando ela porta o kesa que faz dele um kesa. Os que possuem o rakusu têm uma miniatura do kesa sobre o peito. Isso não se joga fora quando fica velho, não se usa como pano para limpar o chão. Enxergamos essa possibilidade como algo horrível, seria a negação de tudo que foi feito. Você costura o rakusu, às vezes durante meses, faz errado, faz de novo, é difícil e é feito de propósito para não poder ser perfeito. Você pôs todo aquele trabalho nele, depois o Mestre escreve atrás e você o porta, você o dobra cuidadosamente, o tira cuidadosamente, faz oração de manhã antes de colocá-lo e é por isso que ele é o rakusu. Quando ele fica muito velho e não dá mais para usá-lo você o queima para que ninguém o use indevidamente, para que ele não vá parar no lixo ou qualquer coisa assim. Somos nós que fazemos com que essas coisas tenham efeito. É só um pano e nós o transformamos num objeto de prática. Ele em si mesmo não é sagrado. Se fosse um objeto de fé ele seria milagroso por si mesmo, uma relíquia por si mesmo, mas ele não é. Então a devoção está presente, só que o caráter dela é um pouco diferente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Orem para que eu tenha emprego!


Você pede que oremos para V. suportar o desemprego. O budismo pode ajudar V. a suportar e a eventualmente superar o desemprego, não através de orações, mas seguindo um caminho diferente. O budismo não trabalha com o conceito de uma divindade exterior ao homem com quem poderíamos "negociar", através de preces e oferendas, auxílio para a resolução de nosso problemas indiviuais. O budismo é uma doutrina de sabedoria e esclarecimento que nos ensina a compreender a nós mesmos e ao mundo em que estamos inseridos, permitindo, dessa forma, encontrarmos serenidade e discernimento para enfrentar os desafios. O princípio fundamental do budismo é a Lei da Originação Dependente que nos ensina que tudo o que acontece se deve a um conjunto de causas e condições. Aplicando isso ao desemprego, há que verificar em primeiro lugar que o desemprego não é um problema só seu: é um problema global que afeta o mundo inteiro. A presente crise econômica e financeira atinge países que se julgavam ao abrigo do desemprego como Estados Unidos, Alemanha e Japão: só neste ano milhões de pessoas perderem seus empregos nesses países. Isso vem acelerar uma tendência que os sociólogos e economistas já perceberam algum tempo atrás, a da progressiva desaparição do emprego ou vínculo empregatício permanente.
A tendência dominante é a da "flexibilização" das relações de trabalho, as pessoas se organizam temporáriamente par prestar serviços a uma empresa e logo se desligam da mesma para prestar serviço a outros. O mundo em que crescemos e fomos educados nos ensinou contar com um emprego permanente, mas vemos agora que tudo o que parecia sólido e estável se dissolve no ar, estamos vivendo tempos "líquidos" que não nos proporcionam nenhum ponto de apoio permanente e confiável. Isso está, aliás, de acordo com o budismo, que nos ensina que tudo é impermanente, mutável, instável. A maioria dos meus amigos que se viram às voltas com o desemprego superaram o problema reestruturando sua vida para prestar serviços e assssoria às empressas de forma independente, sem vínculo empregatício. Concluindo, há que constatar que o emprego fixo é uma espécie em extinção e que as relações de trabalham precisam ser repensadas e reestruturadas de forma radical e em escala global.

Bem, desejo sinceramente que estas reflexões o ajudem a equacíonar seu problema com serenidade e discernimento e a buscar soluções de forma viva e criativa, como muitos estão fazendo neste momento, no mundo inteiro.

Gasshô,

Shaku Riman
(texto do Rev. Prof. Dr. Ricardo Mario Gonçalves, copiado de publicação feita na lista Shin, em resposta a uma pessoa que pedia que orassem para que ele obtivesse emprego)

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Refeição formal em retiro zen


Fotos Michel

"Recebamos esse alimento conscientes dos inumeráveis esforços necessários para que ele chegue até nós. Examinemos a nossa prática para verificar se ela é digna dele. Recebamos esse alimento como um remédio que nos ajuda a continuar a praticar. Recebamos esse alimento livres de toda a avidez. Comemos para praticar o bem, para evitar o mal, para seguir o Caminho de Buda."