quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Entrevista: O Zen e o Engajamento Social




5) O Dharma, desde sua origem até os dias atuais, foi se adaptando às necessidades de cada época e cada país. Ações sociais deveriam ser mais incentivadas na sangha brasileira, visto que somos de um país com problemas sociais tão complexos? Nós, praticantes brasileiros, temos uma responsabilidade ainda maior com o compromisso social em comparação com praticantes de países mais desenvolvidos?

Cada grupo de praticantes e cada pessoa escolhe sua atividade inspirada pelos ensinamentos nas Sanghas. Não é preciso um programa de incentivo. Desde que no momento em que alguém começa a descartar seu eu autocentrado, volta-se naturalmente para os outros, aqui e em qualquer lugar do mundo. Quando alguém vem sugerir um programa na Sangha, sempre respondo: - "Excelente! Você, que tem esta ideia e motivação, pode começar este projeto, nós o apoiaremos! “  Infelizmente os que trazem estas idéias na maioria dos casos desaparecem assim que a perspectiva de trabalhar surge.
Os que realizam fazem sem vir sugerir que outros o façam.

Uma coisa importante que precisamos evitar é que as Sanghas, ou as instituições budistas, sejam cooptadas pelos que desejam instrumentalizar o budismo para defender objetivos ideológicos ou de fundo partidário. Este tipo de tentativa, vez por outra ressurgente por tendências extremistas de qualquer cor, tende a criar debates, facções e cisão nas comunidades budistas. O objetivo essencial de despertar não pode ser abandonado em favor de ideologias transitórias: é o ensinamento de Buda, este permanente, que precisa ser preservado.


[Entrevista concedida à Revista Bodisatva, nº 30, por Genshô Sensei]

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Entrevista: A Visão Social do Zen



3) Qual a sua visão sobre a ação social do Zen? Seria a prática de zazen a mais importante ação social? (na medida que através dela ajudamos os demais a atravessarem para "a outra margem do rio da ignorância”)

A mente humana sempre quer classificar, separar, para poder entender, mas o zazen é inseparável da ação no mundo e é prática essencial do zen o viver plenamente de acordo com nossas capacidades e talentos. O que pode nos atrapalhar nisto é justamente o sentimento egoico que coloca nossos objetivos à frente dos outros. Na sangha zen é essencial trabalhar em conjunto, não tentar destacar-se, não falar inutilmente, não criticar os outros, tudo para cultivar a harmonia como valor mais alto. Aqueles que fazem propaganda de seus atos e acham erros nos restantes esqueceram que o caminho não é este e que o desejo de fama e honra é a pior doença de nosso tempo.


4) Gostaria que o senhor falasse sobre o papel do Bodisatva para o Budismo Soto Zen. Acredito que essa é uma figura fundamental para falarmos sobre o tema pois é ele quem "deve ir ao inferno para ensinar os demais", nas palavras de Taisen Deshimaru. Acredito que o próprio Kodo Sawaki seria um bom exemplo já que ele viajava o Japão para ensinar nos lugares menos tradicionais e até mesmo nas prisões.

A mente de compaixão, a figura do Bodisatva é essencial. Os exemplos são inúmeros em nossas Sanghas: uma praticante iniciou um coral em um presídio em Joinville, outra a prática no presídio em Florianópolis, outros reúnem a Sangha em sua cidade para ajudar ações de organismos dedicados a ajuda social, no Japão e EUA o zen tem hospices, hospitais especiais para ajudar os que estão em estado terminal, outros programas para crianças em escolas, os exemplos são inúmeros e fazem parte da prática de grupos e pessoas individualmente.


[Entrevista concedida à Revista Bodisatva, nº 30, por Genshô Sensei]

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Entrevista: A Importância do Zazen na Mudança do Mundo


2) Alguém que não pratica o Zen poderia perguntar sobre a ênfase que é dada ao Zazen: como assim você senta diante de uma parede e os méritos disso é para todos os seres? Não deveríamos aproveitar melhor o tempo ajudando os que mais precisam do que estar simplesmente sentados?

Na verdade as sociedades são construídas por homens, e, ao levá-los a se libertar das visões errôneas, uma sociedade diferente é construída, não importa o sistema, mesmo que profundamente idealista na teoria. Se deixado nas mãos de homens egoístas e corruptos, ela será fonte de sofrimento e roubo da maioria em benefício dos que detiverem o poder. Não há tempo mais bem aproveitado do que o que leva os homens a despertar de suas ilusões egoicas, de apego a si mesmos. 
Vale lembrar também que quando os homens realizam obras aparentemente benéficas, mas concentrados em obter louros para si mesmos, aplausos e fama, longe estão do caminho budista. A pergunta sobre “simplesmente sentados” é equivalente a perguntar se devemos estudar ou não, se não deveríamos estar agindo em vez de nos instruindo. Quando os homens sentam em zazen, estão estudando a si mesmos; se estudarem a si mesmos, esquecerão de si mesmos; se esquecerem de si mesmos, todas as coisas testemunharão seu despertar.

[Entrevista concedida à Revista Bodisatva, nº 30, por Genshô Sensei]

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Entrevista: O Zen e as Ações Sociais





1) Existe alguma visão oficial da escola Soto Zen sobre ações sociais ou sobre o discurso socialmente engajado? Ou não podemos falar de uma visão oficial, mas sim de uma perspectiva pessoal de cada Mestre e cada praticante?

O Zen se vê como a doutrina do coração de Buda. Assim, todas as ações que tendem a tornar real a prática da compaixão são bem vistas. Se olharmos a atuação de Buda em seu tempo, nós o veremos dedicado a salvar pessoas do sofrimento, tentando mesmo impedir guerras, mas também perceberemos que ações deste tipo são pedidas aos praticantes, e não um objeto das instruções da instituição, dedicadas a libertar os seres da visão egoica e dos objetivos de vaidade. Assim, uma coisa é o objetivo dos centros budistas em libertar através da percepção das ilusões, e outra a atuação no mundo sob qualquer forma ou organização, mesmo que sob as bênçãos e apoio dos mestres.



[Entrevista concedida à Revista Bodisatva, nº 30, por Genshô Sensei]