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sexta-feira, 2 de março de 2018

Impermanência e Felicidade






Pergunta: O senhor pode falar sobre dhukkha.

Monge Genshô: Dhukkha muitas vezes é traduzido como sofrimento, mas isso está errado. Vem da raiz “dhuk”, que significa eixo; “dhukkha” significa eixo descentrado, fora do lugar. Se um eixo está fora do lugar em uma roda, a roda faz ciclos, sobe e desce. Buda disse: “a vida é dhukkha”, ou seja a vida é sobe e desce, às vezes feliz, às vezes infeliz, às vezes saúde, às vezes doença, etc. Portanto é insatisfatória. Porque ela é cíclica, ela é insatisfatória e você não vai achar a felicidade na vida, você vai achar só os ciclos, só os "sobes e desces". A única maneira de ser feliz é olhar a vida com um distanciamento, uma aceitação, uma postura interna que lhe permite ser feliz apesar dos ciclos. Isto é sabedoria em relação a Buda.

Este é o primeiro discurso de Buda, a primeira declaração dele foi esta. A vida é assim, por isso ela causa sofrimento. Se existe uma causa para o sofrimento, existe uma maneira de removê-la, e a maneira de removê-la é... e aí ele começa a estruturar seu ensinamento que trata de como viver de maneira a livrar-se do sofrimento. E tudo se resume, no final, a questões mentais. Por isso o budismo é treinamento da mente em primeiro lugar.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Caminho Óctuplo - A Visão Correta




Então de que trata o primeiro passo? O primeiro passo apresentado por Buda diz respeito a uma profunda compreensão das Quatro Nobres Verdades, ou seja, que a vida é cíclica, insatisfatória, cheia de altos e baixos, alegria, tristeza, riqueza, pobreza, amor, abandono, desilusão. Isto é característica da própria vida. Por isso a vida é chamada de Dukkha, que não quer dizer “sofrimento”, mas sim ser cíclica, insatisfatória, sempre assim. E a declaração de que isso tem uma causa e esta causa é o apego, o agarramento, a ignorância, que nos faz querer que as coisas sejam permanentes em um mundo impermanente. 

E a quarta declaração é a de que se existe uma causa, ela pode ser removida. Portanto, os sofrimentos com a insatisfatoriedade da vida podem ser eliminados com uma Compreensão Correta de como eles funcionam. Então, nós temos que entender com clareza que tudo é impermanente, que nada será estável. Temos que saber que nós somos jovens em um dia e velhos no outro; que se nós nascemos, nós morremos; que todos os nossos entes queridos vão um dia morrer. 

É necessária essa visão com clareza de que não existe algo com uma eternidade ou uma alma que nos permite sobreviver com nosso "eu" tão amado a qualquer circunstância.; que não existem deuses lá fora para nos socorrer e que não adianta fazer orações pedindo coisas para ninguém, nem para Buda, porque Buda morreu também. Está extinto. 

Essa Visão Correta, essa visão que não cede às ilusões, é uma tremenda desconstrução que faz com que muitas pessoas se sintam chocadas quando conhecem o zen budismo. E o choque existe porque você está acostumado a ter bengalas para apoiar a fé, as crenças, e quando você vem até o budismo, as suas bengalas são retiradas, e de repente você não tem no que se agarrar. E mesmo se você tenta se agarrar no professor, ou em um mestre, ele recusa isso, diz que não; diz que não tem as respostas que você quer e que quem pode resolver seus problemas é você. O máximo que ele pode falar é sobre um método para que você tenha clareza e se livre das crenças, das superstições e ilusões.

(continua)

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Oshô, em novembro de 2016]