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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Caminho Óctuplo - A Fala Correta



A Fala Correta trata-se de uma fala impregnada de compaixão, sabedoria e bondade. Na Fala Correta não existe espaço para enganar ou para dizer a verdade em horas impróprias. Não existe uma liberdade na Fala Correta para você usar a sua boca para se focar em, ou produzir, as energias que trazem tudo que é baixo ou mau pra perto de você. O praticante budista, na verdade, tem que ter uma fala límpida em que procura não ofender, procura ajudar sem insultar, sem usar palavras de baixo calão. Evitar todas as referências a coisas baixas. Procurar ouvir e se aproximar de pessoas que têm falas elevadas. Ler e assistir programas que conduzem a uma elevação da consciência, e não ao rebaixamento dela. Não se comprazer com o mal, com o sofrimento de qualquer ser. 

A Fala correta é, portanto, uma prática bastante difícil no mundo de hoje, que significa falar e escrever diferentemente de todos os outros, da maioria das pessoas, procurando produzir o bem a todo momento. Não significa não dizer coisas exatas ou eventualmente duras quando é necessário corrigir alguém, um filho ou mesmo num diálogo com um amigo, mas fazer isso ainda com a intenção de realmente ajudar e não de ganhar uma discussão ou coisa semelhante. 

Falar corretamente ainda é não cair no defeito tão constante de querer impor sua opinião aos outros, como se fosse sempre o certo, perfeito, correto, mas ser capaz de ouvir e aprender constantemente. Então Buda fala em ter uma língua de mel que procura dizer coisas que produzem harmonia. Na própria disciplina da sangha, nos encontros, a instrução é “a harmonia está em primeiro lugar”. Se alguém disser uma coisa com a qual você não concorda, você deve se calar e esperar porque as pessoas só aceitam correção ou orientação quando ela é não dada individualmente por outra pessoa que não tem autoridade para isso. Elas só aceitam bem aquilo que não as machuca. 

Deve haver muito cuidado no falar. A defesa da opinião própria é uma coisa delicada. Em sânscrito existe uma palavra pra isso: ditti - é o defeito de querer impor sua opinião. Um assunto candente no Brasil de hoje, talvez no mundo hodierno, é que as pessoas têm opiniões radicais de um lado e de outro, e aqueles que não compartilhem de sua opinião são vistos com desprezo, às vezes ódio. Então esse radicalismo produz coisas muito ruins, e a prática budista é avessa a esse tipo de comportamento.

(continua)

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Oshô, em novembro de 2016]

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O Caminho Óctuplo - Zazen e Pensamento Correto




A segunda parte da Sabedoria seria a Intenção ou Pensamento Correto, que quer dizer atingir um estado de consciência onde não há obstruções ao processo de pensamento. O processo de pensar conduz à Fala e à Ação, e é essencial que uma pessoa tenha um domínio das condições de seu pensamento. 

Por isso, a prática central do Zen é o Zazen. Você se senta em Zazen porque lá não tem terapeuta, não tem psiquiatra, não tem amigos a quem você possa enganar. Você está de frente para a parede e você vê sua mente funcionando, e esse é você de verdade: não é a figura ideal que você quer mostrar para os outros; não é a mente que você gostaria de mostrar para você mesmo. Aquele é você. Se a sua mente não para e é turbulenta é porque você é assim. Se você pensa sem parar em prazeres é porque você está agarrado aos prazeres. Se você pensa sem parar em medos é porque você é uma pessoa medrosa. Se você fica sonhando com futuros maravilhosos é porque você é um iludido, sonhador, sem um pé na realidade e quer fantasiar coisas que provavelmente não se realizarão. Então você vê a verdade da sua mente, a verdade do seu pensamento. 

Assim, ao observar a sua mente, ao perceber como ela é, você tem a oportunidade de construir uma nova maneira de ver as coisas, de perceber o mundo. Mas isso não é feito através de um processo discursivo ou raciocinado, senão através de uma limpeza extensa. Você se senta em Zazen para formatar sua mente, para esquecer-se dos passados que foram construídos e das suas expectativas que você tanto ama a respeito do futuro. Você se senta e volta para a realidade tal como ela é. E a única realidade verdadeira é este momento presente, as coisas tais como são agora. A única realidade é o momento presente. 

Através desse processo de limpeza radical você tem a chance de construir uma nova mente e uma nova maneira de perceber as coisas. Não é raciocinando nem elaborando nem reestruturando seu ego sob uma forma ainda mais elaborada, mais construída do que a anterior. Então, como é um processo de certa maneira radical, ele exige que você tenha um certo grau de equilíbrio para poder sentar e enfrentar a si mesmo. Não é um processo recomendado para quem estiver perturbado, deprimido, ou com alucinações. É um processo para ser realizado por uma pessoa que está saudável. Ela é levada a uma crise que é causada pelo próprio processo meditativo. Então, através de uma reconstrução das nossas percepções e das nossas concepções nós podemos construir uma mente nova, que não é uma mente que um guru vai dar para você. Na realidade, essa mente nova surge através de uma procura da percepção da sua verdadeira natureza além desta natureza que nasce e morre, além desse “eu” de agora. Torna-se perceptível que este ser que nasceu, que está vivendo e que vai morrer não é a profunda realidade. Você está além disso. Então você precisa enxergar sua verdadeira natureza. E esse processo chama-se “alcançar o kenshô”, que é o fim do caminho óctuplo.

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada por Meihô Genshô Oshô] 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Caminho Óctuplo - A Visão Correta




Então de que trata o primeiro passo? O primeiro passo apresentado por Buda diz respeito a uma profunda compreensão das Quatro Nobres Verdades, ou seja, que a vida é cíclica, insatisfatória, cheia de altos e baixos, alegria, tristeza, riqueza, pobreza, amor, abandono, desilusão. Isto é característica da própria vida. Por isso a vida é chamada de Dukkha, que não quer dizer “sofrimento”, mas sim ser cíclica, insatisfatória, sempre assim. E a declaração de que isso tem uma causa e esta causa é o apego, o agarramento, a ignorância, que nos faz querer que as coisas sejam permanentes em um mundo impermanente. 

E a quarta declaração é a de que se existe uma causa, ela pode ser removida. Portanto, os sofrimentos com a insatisfatoriedade da vida podem ser eliminados com uma Compreensão Correta de como eles funcionam. Então, nós temos que entender com clareza que tudo é impermanente, que nada será estável. Temos que saber que nós somos jovens em um dia e velhos no outro; que se nós nascemos, nós morremos; que todos os nossos entes queridos vão um dia morrer. 

É necessária essa visão com clareza de que não existe algo com uma eternidade ou uma alma que nos permite sobreviver com nosso "eu" tão amado a qualquer circunstância.; que não existem deuses lá fora para nos socorrer e que não adianta fazer orações pedindo coisas para ninguém, nem para Buda, porque Buda morreu também. Está extinto. 

Essa Visão Correta, essa visão que não cede às ilusões, é uma tremenda desconstrução que faz com que muitas pessoas se sintam chocadas quando conhecem o zen budismo. E o choque existe porque você está acostumado a ter bengalas para apoiar a fé, as crenças, e quando você vem até o budismo, as suas bengalas são retiradas, e de repente você não tem no que se agarrar. E mesmo se você tenta se agarrar no professor, ou em um mestre, ele recusa isso, diz que não; diz que não tem as respostas que você quer e que quem pode resolver seus problemas é você. O máximo que ele pode falar é sobre um método para que você tenha clareza e se livre das crenças, das superstições e ilusões.

(continua)

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Oshô, em novembro de 2016]