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domingo, 13 de maio de 2018

Os enganos sobre o Kalama Sutra



Notas sobre o Sutra Kalama
Artigo de Mauricio Hondaku Sensei do Jodo Shinshu Brasil

O dito “Kalama Sutra” realmente está contido no Anguttara Nikaya (3/65) e é o mais distorcido dos sutras sem dúvida. Esse sutra é erroneamente usado pelos que se rebelam contra o status quo da relação mestre-discípulo para justificar que não é necessário um mestre para que se possa trilhar a senda budista.
Quem diz isso simplesmente é um papagaio e nunca parou e leu a versão original do sutra e se baseia em um monte de bobagens que lê na internet e se acha o máximo por isso. Em nenhuma parte do Kalama Sutra contido no Anguttara (que sem dúvida é a mais antiga e confiável fonte para tal) diz qualquer coisa parecida com o que está acima e com o que o pessoal rebelde costuma usar como “resumo”. Eu só tenho a versão do AN em inglês, então por isso deixe-me dar o contexto do sutra e depois uma rápida visão do que tem nele.
Na verdade o que está escrito lá é o seguinte:
“Então, nós dizemos, Kalamas, o que foi dito assim, ‘Venham Kalamas. Não vão por aquilo que tenha sido adquirido por repetição oral; nem por tradição, nem por boatos; nem pelo que está nas escrituras; nem por conjecturas, nem por suposições; nem pelo raciocínio enganoso, nem pela parcialidade que impede a consideração objetiva de um problema ou situação; nem pelas aparentes habilidades de outrem, nem por considerações, [como] ‘O bramane é o nosso professor’. Kalamas, quando vocês sabem por vós mesmos: Estas coisas são más, estas coisas são condenáveis; estas coisas são censuradas pelos sábios; aceites e praticadas, que estas coisas conduzem ao prejuízo e à maldade, ‘abandonem-nas.”
O mais importante na passagem acima é a seguinte frase: “O bramane é o nosso professor’.’ Isso coloca todo o resto da citação que o povo adora usar, ao contrário.
Por que? Porque no início do Sutra é explicado o contexto. Quando Buda chega a Kesaputta, cidade onde residiam os Kalamas, um grupo vem ter com ele e o diálogo se inicia assim:
“Há alguns monges e brâmanes, Venerável Senhor, que visitam Kesaputta. Eles expõem e explicam apenas as suas próprias doutrinas, desprezam as doutrinas dos outros, insultam, e criticam severamente. Alguns outros monges e brâmanes, também, Venerável Senhor, vêem a Kesaputta. Venerável Senhor, há dúvida, há incerteza em nós, com respeito a eles. Quais destes, reverendos monges e brâmanes, dizem a verdade e quais dizem mentira? ”
Ou seja, eles vem tirar uma dúvida com Buda, dizendo que um grupo de ASCETAS (Bramanes) haviam estado na cidade para pregar e estes denegriram os ensinamentos do Buda-Dharma e fazem isso mais para frente, dizendo que eram donos da verdade porque estava escrito nas escrituras brahmanes há séculos e que eles vinham de uma longa linhagem de mestres ascetas, logo tinham que ter credito no que falavam. Ora, o Buda não tinha nada escrito até então e também não vinha de uma linhagem de mestres.
Então, ele diz aos Kalamas o que citei acima: “Não acreditem só porque está escrito, bla bla bla”…. ou seja, ele dizia “Acredite em mim que eu sei por experiência o que estou pregando”, ou seja, ele estava, dizendo tudo isso, como uma crítica atroz contra os ascetas que o denegriam e não que isso fosse aplicável a ele. É certo que no Sutra do Paranirvana, ele disse que tínhamos que testar o que ele havia ensinado, mas nada tem a ver com o fato de que devemos nos largar a mercê de nossos pensamentos para chegar em algum lugar. O Kalama é muito enfático: trata-se de uma critica direta aos que duvidavam dos ensimentos do Buda e não um tratado de rebeldia contra professores.
Tanto que o sutra termina desse jeito (e ninguém coloca essa parte nos “resumo”):
“Maravilhoso, Venerável Senhor! Maravilhoso, Venerável Senhor! Como se, Venerável Senhor, uma pessoa virar para cima o que está de cabeça para baixo, ou destapasse o que está oculto, ou apontasse o caminho para o que anda perdido ou apontassem uma lâmpada na escuridão, pensando, “Quem tem olhos verá objetos visíveis ‘, assim tem o Dharma sido exposto em muitos aspectos pelo Abençoado. Nós, Venerável Senhor, vamos até ao Abençoado por refúgio, ao Dhamma por refúgio e à Comunidade de Bhikkhus por refúgio. Venerável Senhor, que o Abençoado nos conte, a partir de hoje, como discípulos leigos que foram por refúgio para a vida..”
Logo, no final do papo os Kalamas tomam refúgio no Buda, no Dharma e no Sangha… por que fariam isso se tivessem entendido que tinham que seguir por si próprios?
Volto ao que falo sobre os sutras, devemos sempre lê-los e entender seus contextos, tanto doutrinários, mas também geográficos e sociais.

nota do autor: esse texto pode ser livremente compartilhado desde que os devidos créditos sejam prestados.

domingo, 5 de março de 2017

«O que fazer com este barco que chamamos de Buddhismo?» Parte 2


Continuação do artigo de Henrique Pires:


>>Parte 3: as maneiras corretas de lidar com o barco


Falamos de enganos que, muito naturalmente, acontecem em todas as épocas e lugares. Mas agora poderíamos finalizar questionando: "Quais, então, seriam as maneiras mais apropriadas de se relacionar com o barco (da tradição buddhista)?"


1) «Começar com o que for possível, mas começar»
Individualmente, reconhecemos que o método serve para um propósito, que ele não é o fim em si mesmo. Precisamos colocar o barco na água. E em algum momento, precisamos colocar as mãos na massa: corrigir nossas falhas, cultivar virtudes, domar a mente.


2) «Aceitar ajuda, dispor-se a aprender»
Individualmente, reconhecemos que não há como avançar sem método, sem forma, sem orientação, sem aprender com alguém. Abandonamos a arrogância de achar que nós nos bastamos como se já fôssemos iluminados. Temos humildade para aprender com outros.


3) «Navegar com desvelo e não com aferramento»
Individualmente, percebemos que haverá um momento para ir diminuindo nosso apego ao veículo, ao método, especialmente depois que já tivermos aprendido a navegar com ele. Quanto mais nos aproximamos do objetivo final, mais devemos estar preparados para não nos fixar demasiado no veículo (um cuidado, porém: ainda não é hora de pular fora!).


4) «Não parar no meio do caminho»
Individualmente, cuidamos para não confundir pequenas etapas com a realização última (a extinção completa da ira, cobiça e ignorância). Ou seja, celebramos os pequenos avanços sem neles estacionar para sempre. É preciso seguir adiante. Seguir sem deixar que o comodismo, os títulos, ou nossos pequenos feitos nos retenham no meio do caminho.


5) «Pensar no longo prazo, e pensar coletivamente»
Este último é uma percepção coletiva. A pessoa realizou o que poderia realizar com aquele método, ela está pronta para desapegar-se dele. Não vai ostentá-lo carregando-o às costas. Ela atravessou e está livre agora na outra margem. No entanto, ela pensa: "Esse barco me foi útil e sem ele eu não poderia completar tão dura travessia. E se, agora, eu o oferecesse aos outros companheiros necessitados? E se, agora, eu os instruísse a respeito do correto uso do barco". E assim pensando ela preserva o barco, para que os demais companheiros que a estão vendo também preservem seus barcos; e assim fazendo ela oferece o barco aos que ainda não possuem, bradando: "Amigos, esse barco é bom, esse barco é útil, esse barco conduz à liberdade! Cuidem dele e o preservem para que todos possam continuar atravessando em segurança!" E assim fazendo, novamente, essa pessoa se dirige a cada um e a cada um oferece uma instrução específica: "Amigo, não fique parado na outra margem, adentre a correnteza", "Amigo, agora que começou a travessia é hora de segurar-se bem ao barco! O começo é difícil, agarre-se para não cair!", "Amigo, agora que está chegando ao fim não se agarre tanto ao barco, apenas tome cuidado a fim de não parar antes da hora!", "Amigo, é agora! É chegado o momento de saltar para a outra margem! Solte o barco!". E ao fim ela instrui: "Esses barcos são necessários para que outros, assim como nós, perfaçam a travessia. Amigos, preservem os barcos para que outros também o façam ao vê-los assim agindo. Instruam a todos no modo correto de usá-los. Compartilhem seu próprio veículo, não o destruam precocemente". Este é o exemplo mais apropriado.


E tal é a maneira como o Buddha ensinou e rogou para que seu Sangha de monges e monjas preservassem o corpo de ensinamentos e as regras de disciplina, para que pudessem compartilhá-los com as futuras gerações. Por essa mesma razão, também, consta no Sutra dos Oito Despertares dos Grandes Seres:


"...Com diligência, eles (os Grandes Seres) trilham o Caminho, cultivam a Compaixão e a Sabedoria, navegam com o Corpo do Dharma e alcançam a outra margem do Nirvana. Então retornam novamente ao samsara para liberar a todos os seres, orientando-os mediante estes mesmos princípios" (...復還生死,度脫眾生。以前八事,開導一切,令諸眾生,覺生死苦,捨離五欲,修心聖道。)


CONCLUSÃO


Em suma, a preocupação da via espiritual não pode ser meramente individualista, nem imprudente. Buddha, ao considerar o coletivo, sabia que precisaríamos de métodos bem sistematizados que fossem passados adiante de geração em geração. Estes métodos funcionam como um veículo. E tal é a proposta da tradição buddhista, tal é sua importância: individualmente, podemos utilizá-la para atravessar nosso sofrimento com segurança; coletivamente, podemos preservá-la para que outros também tenham a chance de fazê-lo. O objetivo continua sendo que todos atinjam a margem da paz e serenidade definitivas. Henrique Pires. (Com endosso de Genshô Sensei)

sábado, 4 de março de 2017

«O que fazer com este barco que chamamos de Buddhismo?» Parte 1



«O que fazer com este barco que chamamos de Buddhismo?»


Autor: Henrique Pires


Este é um artigo que escrevo graças ao incentivo do Ven. Gensho Sensei. Trata-se de uma reflexão sobre algo que muitas pessoas dizem hoje em dia: "Não preciso de buddhismo pra ser Buddha!". Ou, em outros termos: "Todas religiões aprisionam. Enquanto alguém segue ou preserva uma religião, não poderá se iluminar". Ou, ainda, elas explicam da seguinte maneira: "É preciso lançar fora o apego às religiões, portanto, não há porque falar de buddhismo". Agora, será que funciona mesmo assim? O que o próprio Buddha dizia a esse respeito?


>>Parte I: Aprendendo mais sobre o barco

A PARÁBOLA DO BARCO


Em algumas ocasiões, como no Alagaddupama Sutta (MN22), Buddha comparou seu Ensinamento e Disciplina a um barco. Algo que tem serventia e utilidade, mas que deve ser usado para um propósito claro; ao contrário de um mero enfeite ou objeto ao qual nos apegamos. E também no Sutra do Diamante (Vajracchedika-prajñāpāramitā-sūtra), ele retoma esse mesmo exemplo e diz que, em algum momento, precisamos nos desapegar até mesmo do barco do Dharma. Agora, o que isso significaria? Jogar tudo fora de uma vez?


A SEQUÊNCIA DA PRÁTICA


Calma, vamos devagar. Aryadeva, importante filósofo buddhista e discípulo de Nagarjuna, certa vez explicou essa lógica dizendo: "a princípio se aprende a reduzir e cessar o que não é benéfico; mais adiante se elimina a noção de individualidade; e, ao fim, deve-se transcender todas as visões (limitantes). Com essa compreensão, alguém pode se tornar hábil no que é benfazejo." 『先遮 止非福,中間破除我,後斷一切見,若知為善巧』


Isto é, a preocupação do praticante não é jogar fora o barco dos ensinamentos. A princípio, sua preocupação é deitar fora obstruções inúteis e todo tipo de negatividade. No meio do caminho, sua atenção se volta a lidar com ilusões ferrenhas como o senso de apego ao ego. Apenas ao fim, quando se fala de "transcender todas as visões (limitantes)", poder-se-ia enfatizar a importância de transcender a fixação no tal barco. E por quê? Porque até lá ele já teria cumprido bem sua função: já teríamos atravessado o mar do sofrimento rumo à Completa Liberação; e, como diz mestre Aryadeva, já teríamos "nos tornado hábeis no que é benfazejo".


UMA HISTÓRIA DA ÉPOCA DE BUDDHA


Para ilustrar possíveis enganos a esse respeito, há uma passagem no Itivuttaka (it 22) onde Buddha repreende os monges dizendo: "Não temam as ações meritórias!". Nessa ocasião, ele exorta os monges a cultivar o que é bom sem medo. Muitos, provavelmente, estavam se tornando apáticos ou inertes por receio de "se apegar às boas ações". Tal é uma visão que ainda hoje se repete: alguns pensam que devemos jogar tudo fora de qualquer jeito. Como consequência, quem assim se equivoca corre o risco de acabar não praticando nada.


O Buddha, ao perceber essa má compreensão dos seus alunos, ofereceu então um discurso sobre a importância de se cultivar as práticas do Dharma. Nesse momento, ele colocou especial ênfase no cultivo da generosidade, do autocontrole e da amorosidade. Por meio desse exemplo podemos ver que o desapego, embora importante, deve vir acompanhado pela diligência e pelo cuidado: continuamos prezando o cultivo sistemático daquilo que deve ser cultivado.


MAS PRECISA DE UMA RELIGIÃO/TRADIÇÃO PARA ISSO?


"Ok. Entendo a relevância de cultivar boas coisas. Mas para quê seguir um sistema religioso se meu objetivo é a Iluminação? Isso não seria apenas se limitar?", poderia seguir a linha de questionamento.


Uma possível resposta seria: "antes de limitar, seria delimitar; ou seja, não usamos a tradição para sufocar, mas para enfocar". E foco é importante. Se alguém tem uma meta tão elevada quanto a Iluminação, seguramente precisa de algum foco.


Ao comparar seu sistema de prática espiritual com um barco, Buddha também deixou claro que seu Ensinamento e Disciplina possui peculiaridades: há uma lógica própria, um conjunto coerente de informações, um modo apropriado de utilizá-lo para chegar ao objetivo final. Ou seja, há uma delimitação. Quando queremos fazer a travessia, não podemos pilotar vários barcos diferentes ao mesmo tempo - um pé em um, uma mão em outro. Ademais, veículos diferentes funcionam de maneiras distintas. De modo que se aglomerarmos aleatoriamente as peças próprias dos mais diferentes veículos, o resultado final poderia ser bem menos efetivo - senão desastroso.


Por isso, quando dizemos que o Buddhismo é comparado a um barco que conduz da (1) margem do sofrimento para (2) a margem da libertação, ato contínuo devemos lembrar que navegar com este corpo de ensinos demanda certa dose de comprometimento; ou seja, certa dose de foco: "vou me concentrar nessa ferramenta para extrair dela o melhor uso possível". Tal seria, de maneira básica, a proposta. Falamos que a tradição buddhista delimita o caminho e apresenta um instrumental próprio; não para limitar o praticante, mas para permitir uma jornada clara, factível, e bem amparada até o fim.


>>Parte II: as maneiras errôneas de lidar com o barco


CINCO TIPOS DE ENGANO


Aproveitando a parábola do barco para explicar nossa relação com o Buddhismo, podemos descrever alguns modos errôneos - muito comuns! - de lidar este veículo. Lembrem-se: nosso objetivo mais básico, segundo o Buddha, resume-se a partir dessa «margem do samsara» (i.e., do sofrimento baseado na cobiça, ira e ignorância) e avançar até atingir a «margem do nirvana» (i.e. a paz perfeita e definitiva).



1) Primeiro engano: nunca começar a viagem


Algumas pessoas até desejam "fazer essa nobre travessia" e em algum momento obtém um barco (um sistema ou método de prática buddhista). No entanto, pode ocorrer que elas se encantem demasiado com tal veículo, ficando ali abraçadas com ele, admirando-o, sem jamais sequer colocá-lo na água. Se isso acontece, o veículo perde sua função e ninguém sai do lugar. Esse é o primeiro tipo de engano, típico de quem se encanta com os símbolos, rituais, e com a beleza aparente da tradição, mas que nunca se dispõe a cultivar a si mesmo.


2) Segundo engano: querer fazer tudo sozinho


Aqui, alguém deseja atravessar, mas pensa: "Vejo que existem tolos que permanecem agarrados aos barcos (religiões/tradições) nesta margem, eles não estão completando a travessia. Não estão saindo do lugar! Logo, penso eu, o barco deve ser o problema!", e assim pensando ele se lança no rio sem barco - nem método nem nada - e, não tendo como fazer frente à correnteza, acaba arrastado daqui pra lá. Mais cedo ou mais tarde, ele é lançado de volta ou se afoga. Não chega ao objetivo. Essa analogia se refere às pessoas que não se dispõem a aprender com ninguém; elas não estudam nenhum sistema profundamente, não querem se agarrar a nada, mas se lançam à travessia com ares de arrogância: sem professores, sem instruções, sem métodos, sem ferramentas... Desconhecendo a magnitude da jornada, dizem "EU ME BASTO!". E tal seria o segundo tipo de engano mais comum.


3) Terceiro engano: esquecer as prioridades da viagem


Neste terceiro tipo se encontra alguém que compreendeu: "O barco não serve para ficar parado, devo utilizá-lo para entrar na correnteza". Mas, essa pessoa, vai criando um vínculo de excessiva afinidade com seu veículo conforme avança. Ela logo se esquece do objetivo final de "descer na outra margem", e fica encantada com sua capacidade de navegar. Perde tempo comparando a si mesma com os demais navegantes, tentando convencer a si e aos demais que o seu veículo é o mais eficiente. Assim, tal pessoa bem que poderia dar infinitas voltas com aquele barco ou, senão, simplesmente se negaria a descer dele. Talvez, ela até mesmo o carregasse nas costas ao atingir a outra margem - sem nunca se libertar. E este é o terceiro tipo de engano, comum aos que se aferram demasiado à sua escola, ao seu professor, ou aos métodos e ensinamentos que receberam, promovendo disputas desnecessárias, etc..


4) Terceiro engano: confundir uma etapa com o ponto final


Este tipo é interessante. Aqui, uma pessoa poderia ter feito sua jornada até certo ponto, quando ela se depara com uma grande pedra ou banco de areia. Então ela pensa: "Eu cheguei! Eu já cheguei! Completei minha travessia e estou livre", e assim pensando ela se desfaz do barco ou simplesmente para de utilizá-lo. Por comparação, isso é o que acontece quando fazemos pequenos progressos e já acreditamos ter alcançado a realização última: talvez sejamos capazes de meditar bem, talvez estejamos nos sentindo mais felizes e serenos, talvez tenhamos cultivado uma boa disciplina ética, talvez tenhamos estudado vários ensinamentos, talvez as condições externas estejam confortáveis, etc. Mas nenhum desses fatores básicos, deve-se dizer, corresponde ainda à liberação final (ao nirvana). Se nos acomodamos e deixamos de praticar, caímos então noutro dos enganos mais comuns.


5) Quinto engano: esquecer-se das outras pessoas


O último é um dos mais inusitados. Nesse exemplo, alguém reconhece a necessidade do barco, utiliza-o, abandona-o direitinho ao chegar na outra margem e, ato contínuo, o que faz? Destrói o barco. Ao destruí-lo, grita também aos companheiros: "Esse barco é uma prisão! Vamos! Destruam os barcos! Abandonem os barcos! Vocês não precisam de barcos! Eu me sinto muito melhor após libertar-me dele!", e assim dizendo ele destrói o veículo ao invés de oferecê-lo a outro que talvez o necessitasse. E seus companheiros de travessia, cada qual em uma etapa, começam a quebrar barcos ou abandoná-los: os que estão na primeira margem os destroem com porretes e se lançam na água, os que estão iniciando a travessia saltam diretamente na correnteza, os que se acham sobre rochas e bancos de areia despedaçam o veículo, e aqueles que estavam quase chegando afundam perto da outra margem... E assim todos perecem. Este é o quinto, e mais assustador, tipo de engano. Ao longo da história, mesmo avançados praticantes buddhistas acabaram gerando situação similar: embora suas mentes estivessem apaziguadas, muitos deles, sem a devida compreensão, esqueceram-se de cuidar dos seus amigos iniciantes. Alguns desprezaram regras de disciplina ou práticas mais básicas e acabaram influenciando, sem perceber, iniciantes que inadvertidamente acataram os mesmos procedimentos. Isso seria o contrário do que Aryadeva, citado mais acima, descrevia como "tornar-se hábil no que é benfazejo (para si e para outros)". Trata-se de um equívoco a ser evitado.

Continua