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quarta-feira, 4 de julho de 2018

O Zen é um Método



Nós não praticamos o Zen com a nossa cabeça, com os conceitos, com os Sutras. Nós praticamos o Zen com o nosso corpo. Até a palavra Zen não foi usada por Dogen; Dogen, que é o grande mestre fundador da nossa escola, não gostava de dizer “Zen budismo”. Ele dizia: “eu estou ensinando budismo, eu estou falando do Dharma de Buda”. Nos escritos dele nunca aparecem as palavras “escola Zen” - isso não existe para ele. Nós usamos como designativo porque acaba sendo importante por causa da multiplicidade de escolas. Se eu digo que é “budismo”, daqui a pouco alguém vai querer que diga que é o “verdadeiro budismo”. Isso também não seria verdade. Dizer que alguma coisa é verdade também é errado, porque nós não estamos ensinando a verdade, nós estamos ensinando um método, e esse método de prática não é bom para todas as pessoas. Há muitos que não se adaptam a este método, e então devem buscar praticar em outro lugar. Para nós, os Sutras, por exemplo, são como Kodo Sawaki disse: “são como a água que você põe numa bomba para começar a operá-la. Depois que ela começa a funcionar, é água nova”.

[Trecho de palestra proferida por Genshô Sensei]

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Budismo: Método para a Libertação


Todas as estruturas budistas são métodos para a libertação. Os ensinamentos também, as filosofias também, isso que nós estamos falando também. Nós estamos falando de Nagarjuna, de uma construção filosófica que sobreviveu já a mil e oitocentos anos de crítica. Ninguém conseguiu realmente superar essa obra de Nagarjuna. O budismo teve muitas críticas, muito debate interno durante séculos, mas eles praticamente atingem seu auge com Nagarjuna e os filósofos yogacarins, Asanga e Vasubandhu, dois irmãos, que são temas para outro tipo de palestra.

Mas depois dos primeiros mil anos, o budismo se consolida e diz: não, nosso pensamento é esse. Aí ninguém consegue derrubá-lo. Porque Nagarjuna mesmo diz, declara, que não adianta, que a linguagem é insuficiente para tal exploração. Curiosamente é a declaração do filósofo do século XX, Wittgenstein, que também declara isso, demonstra que a linguagem é insuficiente para resolver os problemas filosóficos. Essa, curiosamente, é uma coisa que a filosofia ocidental nunca estudou, mas que está presente no budismo do século II, através de Nagarjuna. É uma pena que a nossa universidade seja pobre na exploração dessas obras orientais, é uma pena que ela seja só eurocêntrica. Haveria muita coisa para ganhar com esse exame.

domingo, 5 de março de 2017

«O que fazer com este barco que chamamos de Buddhismo?» Parte 2


Continuação do artigo de Henrique Pires:


>>Parte 3: as maneiras corretas de lidar com o barco


Falamos de enganos que, muito naturalmente, acontecem em todas as épocas e lugares. Mas agora poderíamos finalizar questionando: "Quais, então, seriam as maneiras mais apropriadas de se relacionar com o barco (da tradição buddhista)?"


1) «Começar com o que for possível, mas começar»
Individualmente, reconhecemos que o método serve para um propósito, que ele não é o fim em si mesmo. Precisamos colocar o barco na água. E em algum momento, precisamos colocar as mãos na massa: corrigir nossas falhas, cultivar virtudes, domar a mente.


2) «Aceitar ajuda, dispor-se a aprender»
Individualmente, reconhecemos que não há como avançar sem método, sem forma, sem orientação, sem aprender com alguém. Abandonamos a arrogância de achar que nós nos bastamos como se já fôssemos iluminados. Temos humildade para aprender com outros.


3) «Navegar com desvelo e não com aferramento»
Individualmente, percebemos que haverá um momento para ir diminuindo nosso apego ao veículo, ao método, especialmente depois que já tivermos aprendido a navegar com ele. Quanto mais nos aproximamos do objetivo final, mais devemos estar preparados para não nos fixar demasiado no veículo (um cuidado, porém: ainda não é hora de pular fora!).


4) «Não parar no meio do caminho»
Individualmente, cuidamos para não confundir pequenas etapas com a realização última (a extinção completa da ira, cobiça e ignorância). Ou seja, celebramos os pequenos avanços sem neles estacionar para sempre. É preciso seguir adiante. Seguir sem deixar que o comodismo, os títulos, ou nossos pequenos feitos nos retenham no meio do caminho.


5) «Pensar no longo prazo, e pensar coletivamente»
Este último é uma percepção coletiva. A pessoa realizou o que poderia realizar com aquele método, ela está pronta para desapegar-se dele. Não vai ostentá-lo carregando-o às costas. Ela atravessou e está livre agora na outra margem. No entanto, ela pensa: "Esse barco me foi útil e sem ele eu não poderia completar tão dura travessia. E se, agora, eu o oferecesse aos outros companheiros necessitados? E se, agora, eu os instruísse a respeito do correto uso do barco". E assim pensando ela preserva o barco, para que os demais companheiros que a estão vendo também preservem seus barcos; e assim fazendo ela oferece o barco aos que ainda não possuem, bradando: "Amigos, esse barco é bom, esse barco é útil, esse barco conduz à liberdade! Cuidem dele e o preservem para que todos possam continuar atravessando em segurança!" E assim fazendo, novamente, essa pessoa se dirige a cada um e a cada um oferece uma instrução específica: "Amigo, não fique parado na outra margem, adentre a correnteza", "Amigo, agora que começou a travessia é hora de segurar-se bem ao barco! O começo é difícil, agarre-se para não cair!", "Amigo, agora que está chegando ao fim não se agarre tanto ao barco, apenas tome cuidado a fim de não parar antes da hora!", "Amigo, é agora! É chegado o momento de saltar para a outra margem! Solte o barco!". E ao fim ela instrui: "Esses barcos são necessários para que outros, assim como nós, perfaçam a travessia. Amigos, preservem os barcos para que outros também o façam ao vê-los assim agindo. Instruam a todos no modo correto de usá-los. Compartilhem seu próprio veículo, não o destruam precocemente". Este é o exemplo mais apropriado.


E tal é a maneira como o Buddha ensinou e rogou para que seu Sangha de monges e monjas preservassem o corpo de ensinamentos e as regras de disciplina, para que pudessem compartilhá-los com as futuras gerações. Por essa mesma razão, também, consta no Sutra dos Oito Despertares dos Grandes Seres:


"...Com diligência, eles (os Grandes Seres) trilham o Caminho, cultivam a Compaixão e a Sabedoria, navegam com o Corpo do Dharma e alcançam a outra margem do Nirvana. Então retornam novamente ao samsara para liberar a todos os seres, orientando-os mediante estes mesmos princípios" (...復還生死,度脫眾生。以前八事,開導一切,令諸眾生,覺生死苦,捨離五欲,修心聖道。)


CONCLUSÃO


Em suma, a preocupação da via espiritual não pode ser meramente individualista, nem imprudente. Buddha, ao considerar o coletivo, sabia que precisaríamos de métodos bem sistematizados que fossem passados adiante de geração em geração. Estes métodos funcionam como um veículo. E tal é a proposta da tradição buddhista, tal é sua importância: individualmente, podemos utilizá-la para atravessar nosso sofrimento com segurança; coletivamente, podemos preservá-la para que outros também tenham a chance de fazê-lo. O objetivo continua sendo que todos atinjam a margem da paz e serenidade definitivas. Henrique Pires. (Com endosso de Genshô Sensei)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

ASSENTANDO A POEIRA MENTAL



Perguntas: Não sei se é uma pergunta, queria fazer um comentário. Porque quando vou meditar, minha mente fica tão perturbada que a sensação que tenho é de prisão. Aí quero sair dessa quietude, me sinto presa nos pensamentos, no trabalho, etc.

Monge Genshô: Que interessante né? Na realidade, quando você vai meditar é que você se dá conta de como sua mente é. Você está sempre assim. Quando você para é que você vê sua mente. Na realidade sua mente está assim todo o tempo. Não é a meditação que faz isso, é a meditação que mostra a fotografia de sua mente para você. Então o que é necessário? Você precisa realmente praticar zazen até essa mente acalmar. É como se fosse um copo de água cheio de areia que a gente mexe. Fica tudo turbulento. Mas se você conseguir parar, a areia vai assentar no fundo e a água fica limpa. Você tem que fazer isso. Na realidade, sentar dez minutos é absolutamente insuficiente. Sentar quarenta minutos uma vez é insuficiente. O que fazemos em um centro Zen, o que nós fazemos nos zazenkais e sesshins, são vários períodos consecutivos para conseguir fazer uma mente baixar de nível. Quando a gente faz um retiro, que é uma coisa que os monges têm que fazer nos mosteiros também, você chega a fazer dez horas de meditação em um dia. Então, no fim do primeiro dia, aqueles pensamentos turbulentos que estão sempre voltando à sua mente, você olha e diz: "de novo você aqui?" (risos). "Estou cansado de pensar nesse assunto".

Esse cansaço faz com que o pensamento morra. E é como se virasse cinza e caísse no rodapé da parede. No fim de dois ou três dias assim, as coisas não surgem mais, não vem mais o passado, não vem mais o futuro e você está em outro espaço. Então você realmente se acalmou. Então, no fundo, uma pessoa como você narrou tem que ou fazer continuamente meditação todos os dias e vai levar um certo tempo, ou tem que fazer um (barulho de tapa) tratamento de choque, que a gente chama de sesshin.

Sesshin quer dizer: “Ses” quer dizer juntar, consertar e “shin” quer dizer mente. Minha mente está voando, espalhada, estragada. Então tenho que pegar e consertar a mente, juntar. Quando você faz isso, você passa para um outro nível. Se você quisesse uma receita diria: pratique meditação e logo que puder faça um retiro, de fim de semana que seja. Você vai passar para outro nível de paz em sua mente. É necessário se conscientizar que quando você senta e a sua mente fica turbulenta, é você que é turbulento mesmo. Por isso a necessidade de um método de treinamento.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A ILUMINAÇÃO ESTÁ DISPONÍVEL


Pergunta: Tudo isso me fez recordar do Roshi comentando de uma pessoa que teve uma realização na Espanha e não é Monja, não é nada, é uma praticante leiga, e que ele conseguiu reconhecer nela a experiência que ela teve. Então, essa experiência é realmente qualquer leigo pode ter, não é? Depende da sua prática?

Monge Genshô: É, não necessariamente precisa ser nem budista. Eventualmente você vai encontrar uma pessoa que não é budista e de repente você verá nela uma grande realização espiritual. E isso é maravilhoso, porque o budismo é um método, não é um “proprietário da verdade”. Nós temos um método, eu estou explicando um método que é efetivo, elaborado durante milênios, com enorme quantidade de sabedoria acumulada por centenas de Mestres maravilhosos. É isso que aconteceu, é isso que o Budismo é.

Agora, o Budismo não é - o Budismo em letras maiúsculas -, a Verdade, a única Verdade que exclui todas as outras. Isto é uma imagem errônea também. É uma imagem que existe até entre budistas fundamentalistas. Como eu disse, existem budistas fundamentalistas que acham que se não seguir as regras do Vinaya então não é Monge, que não é verdadeiro budismo, etc. Essa discussão torna-se absolutamente tola. Como eu disse, mais de mil anos de história de desenvolvimento do Zen no Oriente e seu desenvolvimento agora no Ocidente também. Temos vários exemplos altos níveis de realização. Ok? 

quinta-feira, 27 de março de 2014

“As palavras reduzem a realidade a algo que a mente humana é capaz de entender, o que não é muita coisa”


1) Essa segunda condição que o Senhor citou, uma pessoa ignorante que não tem o conhecimento do Dharma mas atinge a iluminação, ela necessariamente tem que estar ligada à alguma religião?

Monge Genshô – Ela pode estar ligada à uma religião, o budismo não é proprietário da iluminação. Outras religiões podem propiciar um caminho para o esclarecimento. Isso é muito fácil de comprovar vendo os escritos pois, quando vemos algo escrito por uma pessoa, podemos avaliar se é ou não algo feito por alguém que experimentou o despertar. Mas isso não significa santidade. Uma pessoa pode viver uma vida de santidade, mas não estar desperto. Pode até ser um mártir e não estar desperto. Ele pode por exemplo se sacrificar, levar uma vida reclusa e de santidade, mas com o propósito único de obter uma salvação para si, para “ele” ir para o céu. Esse é um objetivo egóico e significa um não esclarecimento, um não despertar. Mas posso citar místicos cristãos com uma clara experiência de despertar: Meister Eckhart, por exemplo, no século XIII e também São João da Cruz. É fácil perceber em seus escritos que eles obtiveram uma experiência espiritual de despertar. O essencial é não pensarmos que o budismo tem a “verdade”. O budismo é um método e a verdade é evanescente. 

Aluno - Qual a recomendação para iniciantes?

Monge Genshô – Ler um pouco. Aprender a sentar. Olhar sua mente. Tornar-se consciente de seu fluxo de pensamentos e sentimentos. Muita coisa muda quando começamos a perceber o quê e de que forma pensamos. Podemos descobrir, por exemplo, que não somos exatamente como ou quem pensávamos ser. Essas experiências começam no zazen, de frente para a parede é como se víssemos uma fotografia de nossa mente. Você pode descobrir que é capaz de transformar a sua mente e com isso alterar seu carma. Mudando o carma, tudo pode mudar. Você é professor de matemática, não é? Matemática é interessante. Muitas pessoas imaginam que matemática é certa e partindo de determinados axiomas construímos edifícios e dizemos que isso é matemático, certo, indiscutível.

No século XX passamos para outros estágios da matemática e isso mudou nossa noção sobre o universo e nossa capacidade de saber determinadas coisas. Porém este já é um discurso budista de dois mil e seiscentos anos atrás, não tínhamos então certos instrumentos para investigar a realidade. Estou falando e tentando comunicar algo, mas essa comunicação sempre será falha. Eu li uma frase bem interessante que diz: “As palavras reduzem a realidade a algo que a mente humana é capaz de entender, o que não é muita coisa”. Essa frase é fantástica, pois realmente acreditamos que somos capazes de entender a realidade e fazemos discursos, escrevemos textos e livros. A realidade só pode ser compreendida através de uma experiência direta, a experiência comunicada é obrigatoriamente produto semiótico, produto de símbolos e representações. Por isso que as pessoas dizem que ouvem o Dharma e não entendem. Mas é possível perceber certo entendimento nas pessoas  que não é perceptível através meramente das palavras.

segunda-feira, 17 de março de 2014

A escolha de uma vida


(continuação)Às vezes alguém vem e me diz que sua vida mudou, o sofrimento diminuiu, está enxergando a vida com mais clareza, e essa pessoa me agradece. Nesse momento eu sinto que minha vida tem significado. Acredito que foi isso que Buda sentiu, sua vida teve significado, mudou a história de países inteiros durante milhares de anos, mudou muitas e muitas vidas. Nós podemos escolher ter vidas medíocres, podemos escolher ter vidas simples, fazer pouco e não se comprometer muito. Quando fazemos votos em uma instituição e costuramos nosso Rakusu, nós criamos a instituição, pois ela não é sagrada, as roupas não são sagradas, os votos não são sagrados, somos nós que os transformamos em sagrados.

A estátua de Buda é de gesso, nós que colocamos flores, oferecemos incenso, acendemos velas, fazemos reverências e transformamos essas idéias em algo maravilhoso, caso contrário, isso não representaria nada. Um manto só é um manto porque o colocamos em lugares elevados, o tratamos com cuidado e olhamos para ele com reverência. Isso é um método, tudo que estamos falando, os ensinamentos, os compromissos, os votos, fazemos para nós mesmos, para mudar a nós mesmos e talvez mudarmos o mundo. Por isso fazemos. Com nossas reverências, transformamos Buda em Buda, somos nós que fazemos esse mundo diferente.

Qual o sentido das cerimônias, das prostrações e dos rituais que fazemos? É um método para criar entre nós uma energia que muda tudo. Acredito que ninguém passa por um sesshin sem ter algum efeito, primeiro porque ele vem procurando algo, segundo porque o sesshin está cheio de regras e rituais detalhadamente elaborados para criar atenção, para limpar a mente, nos mostrar a fotografia de quem realmente somos e talvez nos mostrar nossa covardia. Por que se Buda tivesse dito - “Não, é muito trabalho”, e tivesse ficado em qualquer lugar, talvez perto de seu palácio, perto de sua família, reivindicasse sua herança, afinal de contas seu pai era muito rico, se tivesse feito isso, teria tido uma vida confortável, não teria enfrentado problemas e até rebeliões dentro de sua Sangha e até mesmo tentativas de assassinato, teria sido somente mais um covarde medíocre na história da Índia.

Estamos aqui porque ele não fez isso. Cada um de nós pode fazer uma escolha. “Que tipo de vida eu posso ter? Sigo o fluxo normal, ou tento me mudar e mudar outras vidas, para que o mundo seja mais parecido com aquilo com que idealizo”? Essa foi a lição de Buda, ele foi um Bodhisattva, porque ele se levantou e foi ensinar. Caso contrário, ele seria só um iluminado. Ao se levantar ele manifestou sua compaixão. Por isso quando costuramos nosso Rakusu fazemos os Votos do Bodhisatva.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Não acreditem em mim, testem.


4) Qual a função da meditação?

Monge Genshô – Nós vivemos numa grande turbulência. Como um copo d’agua com areia que está sendo constantemente mexido e a areia deixa a água turva, porque não paramos em nenhum momento. As pessoas tomam banho todos os dias porque suam, e aí começam a cheirar mal. Então adquirimos o hábito de tomar banho todos os dias. Nos lugares onde as pessoas não podem tomar banho todos os dias, o cheiro torna-se rapidamente muito forte.

Mas as pessoas deixam que suas mentes sejam sujas todos os dias. Secretam maus pensamentos, más atitudes, se perturbam, se preocupam com memórias, se preocupam com o futuro. Ninguém pára para limpar sua mente, muitas pessoas deitam na cama para dormir e começam a pensar - Amanhã, semana que vem, etc - e não conseguem dormir direito. O sono já tem a função de deletar muitos arquivos. Arquivos temporários que estão atravancando a mente. Mas ele não é suficiente, tanto que vemos muitas pessoas ansiosas ou com depressão. Se nós sentarmos em zazen, começamos a mudar nossa mente. E se começarmos a ter experiências de despertar cada vez maiores, nosso cérebro torna-se cada vez mais feliz. Há uma mudança verdadeira verificável por ressonância magnética. De vez em quando a gente vê uma noticia assim, “Os médicos examinaram tal Monge Budista que pratica meditação e ele é o homem mais feliz do mundo”. Então já tivemos o homem mais feliz do mundo da India, o homem mais feliz do mundo do Butão, o homem mais feliz do mundo da França, etc. isso é bobagem, basta você praticar meditação e você se torna uma pessoa mais feliz por natureza, porque você começa a descartar essas coisas, começa a aprender, ouvindo o Dharma, praticando o treinamento da mente, usando o zazen para estabilizar a mente e ganhar força psíquica. Isso é mero treinamento, não existe nada de milagroso, não existem milagres no Zen. Não existem poderes sobrenaturais que vêm de fora, não existem bençãos sobrenaturais que um monge pode dar. As imagens são só para nos lembrar.

Manjushri, discípulo de Buda, está sentado tranquilamente sobre um leão, está colocado na sala de meditação porque vocês sentam nos “leões turbulentos” de suas mentes. É só isso, na realidade é apenas pedra sabão. Mas fazemos reverências. Fazemos reverências para quem? Não para pedras, mas para “idéias”. Para treinar a nós mesmos, porque corpo e mente estão ligados e porque corpo e mente estão ligados, adotamos posturas corretas. Dessa forma, nossa mente começa a se corrigir, a ser disciplinada. Usamos roupas também para isso. Tudo são métodos de treinamento. Podem ser outros métodos, não importa, não há nada de “o verdadeiro” ou “o certo” no Zen. Não se trata disso, trata-se só de método de treinamento. Que é um método bastante interessante, tem uma certa tradição, são 2.600 anos mais ou menos de prática, então ele já foi bastante aperfeiçoado, não tente aperfeiçoá-lo apressadamente. Depois que você praticar uns trinta anos, então pode começar dar alguns palpites. Ficou bem claro para que serve o zazen? Treinamento, limpeza, felicidade, despertar. Aqueles que despertaram estão livres. O dedo do Budismo aponta para a liberdade. O Budismo não é nenhuma prisão e não depende de nenhuma crença, só de experiência. A única coisa que você precisa é acreditar que vale a pena treinar, que você desconfia que dá certo. E pronto. Buda mesmo disse - “Não acreditem em mim, testem”. Eu como Monge Zen digo a mesma coisa para vocês – “Não acreditem em mim, testem”.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Ensinamento é útil mas não é o zen



P: Qual o papel da arte no pensamento Budista?

Monge Genshô – A arte é uma expressão humana. As artes foram e ainda são muito influenciadas pelo Zen. As artes marciais, artes plásticas e tantas outras sofreram forte influência do Zen. No Japão isso é muito marcante no Ikebana, nas artes marciais etc. todos fortemente influenciados pelo Zen. Muitas dessas artes foram introduzidas por mestres Budistas como meio hábil para ensinar o Zen usando a estética, usando algo palpável.

O Zen é muito influente principalmente nas artes chinesas e japonesas. Existe uma grande procura por espontaneidade. A arte dessa camiseta, por exemplo, é facilmente identificável, um homem sentado meditando frente à lua. Esse tipo de arte é feita num único traço onde não existe espaço para correções, tem que ser uma pincelada perfeita. A arte Zen é assim, espontânea e minimalista, tentando mostrar uma mente se expressando em um momento único, sem correções e disfarces.

P: Isso é como o sumi-ê. Quando fiz um curso de sumi-ê a professora disse que não pode haver correções, os traços devem ser únicos e firmes. Então perguntei como fazer para não cometer erros? Ela disse: treinando.

Monge Genshô – Exatamente, treinar até conseguir expressar sem correções. É como uma palestra sobre Zen como essa, ela não foi preparada, não existem perguntas elaboradas e ensaiadas para que as respostas saiam certas. As respostas devem sair naturalmente. Ou está pronto ou não está.

P: Mas existem métodos, como hoje fizemos zazen...

Monge Genshô – Exato, o Budismo em sua essência é um método. Cada escola tem o seu. O Zen enfatiza o método do sentar em silêncio, logo, o método predominante do Zen é o zazen, a meditação sentada e silenciosa. Se você tirar o zazen, deixa de ser Zen. Muitas pessoas pensam que sabem muito sobre o Zen porque leram muito livros, mas não sabem nada. Isso é como alguém que diz que sabe piano. Quando perguntado se toca ele responde, “Não, mas já li muitas partituras e biografias dos compositores”. O Zen é assim, você senta e faz o Zen, a explicação é interessante, mas não é o Zen.

terça-feira, 4 de junho de 2013

É possível não pensar?



Pergunta – Eu tenho uma questão com relação ao zazen. Quando sentamos qual deve ser a intenção? Existe uma técnica para o não pensar?

Monge Genshô – Você não deve pensar em esvaziar a mente ou em não pensar. Isso não funciona. Tem até uma historinha Zen sobre isso, um aluno pergunta ao mestre o que deve fazer e ele responde: “Fácil, não pense em macacos”. No final do dia o aluno retorna e diz, ”Por favor, mestre me livre dos macacos”. Existe uma mente operacional e uma mente verificadora, esta fica o tempo todo checando: “No que você está pensando, em macacos?” o que torna impossível pensar em não pensar.

A instrução para sentar é não seguir os pensamentos, deixe que eles venham e passem, não os agarre. Quando estamos começando a praticar, normalmente os pensamentos que aparecem são o retrato de nossa mente. O que surge é fruto, produto daquilo com que alimento minha mente. O mesmo acontece com os sonhos. Você irá sonhar com aquilo com que você alimenta sua mente. Isso é uma verificação. É preciso muito tempo de prática para chegar ao ponto de repouso, uma serenidade, os pensamentos chegam e vão sem perturbar sua mente. Você passará a maior parte do tempo repousando, simplesmente sendo o momento presente.

Pergunta – Eu li em alguns livros sobre o “não sei” e isso me parece um tipo de condicionamento, como se desapegar e manter esse não sei, mas ao mesmo tempo me parece também que isso é apenas um apego disfarçado.

Monge Genshô – Uma mente “não sei” significa eu aceito que não sei as coisas. É muito comum as pessoas me perguntarem: - O que acontece após a morte sob o ponto de vista do Budismo? Minha resposta é não sei. Eu ainda estou vivo não sei o que se passa após a morte. Existem várias teorias sobre isso, mas não sou testemunha do que acontece após a morte, não sou um fantasma. Às vezes as pessoas querem respostas sobre suas vidas, sobre decisões das mais variadas, relacionamentos, mudanças ou projetos profissionais. Minha reposta é a mesma, “não sei”. Podem acontecer muitas coisas entre a tomada de decisão e seu projeto, como eu posso saber? Não sei.

No Budismo não revelamos profecias, não jogamos cartas, não lemos fundos de xícaras ou os astros, aliás, isso foi proibido por Buda no Parinirvana Sutra. No Zen não existem respostas fáceis. O que o Zen tem para lhe oferecer é um método para a libertação e esse método exige esforço. Temos milhares de anos de experiência para saber que esse método produz ótimos resultados, mas o resultado é mais sabedoria, não mágica ou milagres. Não existe ninguém lá fora para lhe ajudar, não existem santos ou deuses, aqui não há socorro. Por não ter socorro é que podemos nos reunir numa sala pequena como essa, se o Zen oferecesse milagres poderíamos ter um templo com dez mil lugares.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A vida é como é



Pergunta – Como um psicólogo pode lidar com o que é levado até ele?

Monge Genshô – Bom, o psicólogo tem suas próprias técnicas. Ele trabalha num outro âmbito. Ele trabalha com “eus”, com a relação de um indivíduo com o mundo, tenta construir um ego estruturado que possa se relacionar bem no mundo. Mas não é assim que o zen trabalha. O objetivo de um mestre zen é na verdade destruir. É tirar o tapete de baixo do eu. Deixa-lo solto, sem nada onde se agarrar. É um processo completamente diverso e não é para ser aplicado para qualquer um, somente para aqueles que queiram se libertar, para uma pessoa que já apresente algum tipo de problema pode ser perigoso.

Então a prática do zen é uma prática para pessoas que estejam razoavelmente equilibradas, pois serão apresentadas à uma crise onde você não tem suporte. De repente você perde os deuses aos quais os homens sempre se agarraram. Se você tentar se apoiar no seu professor, ele não o apoiará, ele o apresentará à uma crise ainda mais aguda, colocando você em problemas mais difíceis, ou mesmo fazendo perguntas que você tem muitas dificuldades em responder.

Esses dias um homem me escreveu perguntando sobre a ordem subjacente do universo. Porque a matéria se organizava de maneira a fazer vidas, “eus” e coisas assim, um mundo como o nosso perdido dentro de uma imensa galáxia, que é apenas uma dentro de bilhões de galáxias, parece tudo sem sentido, ele queria uma ordem subjacente, e eu lhe perguntei, “uma ordem criada por quem, com qual objetivo?” Na verdade ele não vai encontrar o sentido ou objetivo, porque afinal esse próprio universo irá se dissolver com o tempo em entropia, as estrelas se apagarão, a matéria irá se desorganizando, a energia vai se espalhando de formas não aproveitáveis de modo que um dia esse universo se apagará, e você quer um sentido? Uma resposta zen é, “a vida é como ela é e as coisas são como são”.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Um pragmatismo dialético de métodos psicológicos



Pergunta – Existe algo que não seja um teste?

Monge Gensho – Que não seja um teste, você quer dizer, que não seja um método? Tudo no Zen é um método, tudo no budismo é um método. Por isso é difícil dizer que o budismo seja uma religião ou uma filosofia.



Pergunta – Na nossa vida diária tudo tende a ser um teste. A gente vive para as experiências, não é?

Monge Gensho – Se você experimenta e testa, você pode saber o que funciona bem para você. Mas não precisa acreditar que o que é bom para você é bom para os outros.

Pergunta – Essa é então uma existência ilusória, um teste ilusório?

Monge Gensho – Não, nossa existência não é uma ilusão, nossa existência é uma existência. As coisas são como são. Não se trata de um teste, não existe ninguém lá fora nos testando. Não existe nenhuma organização lá fora fazendo um teste conosco, não é assim. Ilusão é o eu.

Pergunta – Então, somos nós mesmos testando nós mesmos?

Monge Gensho – Se você quiser... Eu prefiro só viver.

Pergunta – Mas então, como chamamos o budismo? Não é religião, não é filosofia, como o definimos então?

Monge Gensho – Edward Conze deu uma declaração interessante: “O budismo é um pragmatismo dialético de métodos psicológicos”. Pragmatismo, porque é prático. Dialético, porque seu método é discursivo e argumentativo. Métodos psicológicos, porque todos os métodos de prática do Zen são formas que têm efeitos psicológicos. O zazen é assim, um método para o aumento do conhecimento sobre nós mesmos, por exemplo, um método para descartarmos a ilusão de um eu separado de tudo. Chamar o budismo de religião é tentar enquadrar o budismo dentro de um conceito bastante ocidental.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Existem muitas doenças diferentes


Túmulo de Allan Kardec

Pergunta – Tem uma história Zen que também não consegui entender. É sobre as bandeiras. Um monge diz que a bandeira treme, outro diz que é o vento que treme, então vem o mestre e diz que é a mente que treme. O senhor poderia me ajudar a entender essa história?

Monge Genshô –. Essa história consta no sutra da Plataforma de Hui Neng. Quando eles olham para a bandeira, os monges estão discutindo uma perspectiva, uma opinião. Um diz que é o vento que se move, o outro diz que é a bandeira. Hui Neng diz: “Não, é a mente que se move”. Ou seja, é a mente de vocês que se move e interpreta coisas tão simples. Uma mente iluminada não pensaria sobre o assunto, veria apenas a beleza da bandeira tremulando, mais nada.

Pergunta – Existem hoje muitas práticas que visam misturar ou agregar práticas budistas com, por exemplo, práticas cristãs. Temos, aí, entre outros, Thomas Merton. No entanto, são filosofias diferentes, com objetivos diferentes e ideologias diferentes. Na sua opinião, nessa intersecção de filosofias e teologias diferentes, pode haver inter-relação? Poderíamos dizer, por exemplo, que o cristianismo melhore com as práticas Zen ou vice-versa?

Monge Genshô – As crenças em si não são muito importantes. O que é importante sob o ponto de vista budista é se existe liberação. A prática de meditação está renascendo no ocidente através das mãos de John Main, Laurence Freeman entre outros. A prática da contemplação não é ignorada no cristianismo. Ela existiu fortemente dentro do cristianismo em seus primórdios, mas, de certa maneira, foi esquecida. Existe um renascimento das práticas de meditação, em especial, dentro do Cristianismo católico, porque ali há uma vertente monástica maravilhosa que começa com São Bento, o fundador de Monte Cassino, e que se aprofundou muito. Quando você lê os escritos de grandes místicos cristãos como Santa Tereza D’Ávila, São João da Cruz ou Mestre Eckhart, você verá, nesses escritos, um cristianismo com Dharma. O importante é dizermos que Dharma, lei, sabedoria, não é propriedade do budismo. O Dharma existe e pode ser acessado por diferentes caminhos. Não muito tempo atrás, assisti um filme, Uma amizade sem fronteiras, com Omar Sharif no papel de um professor Sufi. Nesse filme, as intervenções dele, as coisas que ele diz, são como frases de um mestre Zen. Esse assunto não é novidade. Em livros como Filosofia Perene, Aldous Huxley mostrou as similaridades entre o Budismo, os Sufis, os Hassídicos judeus e o misticismo Cristão. Thomas Merton escreveu sobre o assunto em livros como Místicos e Mestres Zen. Ele era um frade trapista, católico, brilhante. O Dharma está presente, é fácil de ver isso. O budismo tem uma vantagem posicional, pois não se vê como um caminho único, não se coloca como proprietário de uma verdade particular, ou como o único caminho para a salvação. Na verdade, nem usa esta palavra no sentido de “salvar os condenados”, porque não crê que os homens estejam condenados. Assim, para o budismo não há a necessidade de converter pessoas, como, por exemplo, um mestre sufi a tornar-se Zen Budista; isso não faz sentido para o Zen. Ele já está vivendo o Dharma, o budismo é apenas um método, um caminho, e ele inclui uma coisa de que normalmente não se fala num caminho religioso, pois o budismo aponta uma porta de saída para o budismo ao contar a história do veículo para atravessar o rio. Nós falamos em atravessar o rio para atingir a outra margem. Lá, na outra margem, está a sabedoria. No final do sutra do coração, cantamos, “todos juntos para a outra margem, a iluminação, salve”. Então, o budismo vê-se como um barco para atravessar um rio, existem muitos barcos e jangadas, mas o budismo diz, “Você atravessou o rio, mas não vai sair carregando o barco nas costas, deixe o barco e vá embora”. O budismo é um método para a libertação e não precisa ser carregado depois. Se for um bom método, podemos ensiná-lo às pessoas para quem o método seja adequado. Mas existem outras pessoas para quem, talvez, um outro seja melhor. E é bom que existam muitos remédios, porque existem muitos doentes com doenças diferentes.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Perguntas de um trabalho de psicologia e religião


1 -Qual a importância de sua religião para seus adeptos?
O zen budismo é visto como um método para alcançar a iluminação, ou a libertação do sonho de ilusões em que estamos mergulhados, o sentido do budismo é ter uma porta de saída, ou seja, alcançado o despertar não teria sentido continuar carregando o método.

2 -De que forma os adeptos de sua religião expressam sua fé?
O zen budismo não é uma fé, o método precisa ser praticado seriamente, por esta razão chamamos seguir o método de "a prática". Dizemos que o zen budismo não é a religião do acreditar, mas sim a do despertar.

3 -Como vocês vêem os adeptos de outras religiões?
Pessoas diferentes precisam de sistemas diferentes, a diversidade religiosa não somente é natural como necessária. O budismo não se vê como proprietário de uma "verdade" excludente.

4 -Como a sua religião vê temas polêmicos como o aborto a eutanásia e o suicídio?
O budismo não tem posições fechadas, pensa que cada caso precisa ser examinado em suas condições,atentando para o sofrimento menor para o maior numero de pessoas, por exemplo, o aborto de um feto inviável é lógicamente uma diminuição de sofrimento. A eutanásia pode ser perfeitamente plausível nesta ótica desde que haja clareza dos envolvidos. O suicídio pode ser entendido se beneficiar mais seres, se for um ato altruísta, embora seja, para o indivíduo, uma grande perda de oportunidade se sua vida puder, em qualquer forma, ser proveitosa.

5 -Como a sua religião vê aspectos da sexualidade nos dias de hoje?
A sexualidade é produto de apegos e desejos, a forma de sua expressão não importa, se causa sofrimento a outros seres é uma coisa má, se causa felicidade e harmonia é uma coisa boa. A regra budista é "não use sua sexualidade de forma a causar sofrimento".