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quinta-feira, 5 de março de 2015

A dissolução da ilusão da separatividade


Pergunta:  Eu já li alguma coisa dizendo que o samadhi é inexplicável e que poderia ser conceituado como “a dissolução da ilusão da separatividade”. É uma experiência momentânea. O que seria então iluminação?

Monge Genshô:  Samadhi é concentração, está certa essa descrição que você deu. O fato da gente dizer "ah, é incomunicável", não altera, pois qualquer experiência é incomunicável. É como perguntar para uma pessoa se já comeu moussaka (comida grega) e pede para outra pessoa explicar para ele o que é: "olha, é como se fosse uma lasanha, só que não é bem uma lasanha. O tempero é diferente. São coisas que só tem lá na Grécia e Turquia. Entendeu o gosto?" (risos). A experiência em si é incomunicável. Se alguém nunca provou sal, como descrever o gosto para a pessoa? Você tem que dar um pouco de sal, a pessoa põe na língua e, "Ah, isto é sal". Na verdade, toda experiência é incomunicável. Dizer que o samadhi é incomunicável não quer dizer muita coisa.

Mas gostaria de desmistificar. Se você sentar em zazen e conseguir realmente abstrair passado e futuro, conseguindo ficar no presente completamente, isso é samadhi. Naquele momento você sente tudo com nitidez. E se você pensar, "consegui o samadhi", pronto, acabou. Ele exige que você esteja limpo de considerações, senão você não consegue permanecer ali. Essa experiência não é absurda ou só alcançável através de zazen, porque as pessoas  tem essas experiências acidentalmente em sua vida. Experiências muito maravilhosas que duram pouco tempo, mas que estão ali cheias de intensidade. Por exemplo, uma pessoa que vê o mar pela primeira vez. naquele momento que viu o mar, toda aquela informação visual não pode ser colocada em palavras facilmente. Então, naquele momento, aquele instante é samadhi. Só que  é perdido rapidamente basta que ela julgue a experiência.

Nós treinamos o zazen porque queremos conseguir o samadhi mais frequente, mais intenso e ser capaz de ter experiências quando quiser. Se você consegue isso é um grande passo, mas não é iluminação. Iluminação é outra coisa. O kensho é uma experiência iluminada. Você vê sua verdadeira natureza. Através do samadhi, atingiu o kensho. O kensho é uma experiência espetacular. Também não precisa ser praticante do Zen para ter. Pode ser muito curto. Normalmente as pessoas descrevem como êxtase, como uma experiência transcendental, as pessoas tentam descrever mas não conseguem facilmente. Mas, todo o resto não importa. Morte não importa, nascimento não importa, não é isso. Kensho está fora deste mundo experiencial que a gente tem.

Agora, Satori é a capacidade de viver em Kensho quando quer, poder chamar a experiência a qualquer momento. Os níveis em que isso acontece são muitos, muito graduados. A gente pode dizer que uma pessoa obteve uma experiência iluminada, obteve iluminação, isso não significa nada de espetacular em relação àquela pessoa. Ela continua sendo um "chato". Se comporta mal etc. Ele pode ter essa compreensão mas ela não passou para a vida, para passar para a vida é preciso prática profunda.

Sobre isto há uma historinha interessante. Uma mulher vinha caminhando na floresta e viu Shariputra no mato evacuando. E ela olhou para ele e ficou  impressionada com a dignidade  com que ele estava ali,  teve olhos para ver aquele homem ali evacuando. Ela ficou tão impressionada que procurou Buda para ser sua discípula, pois aquilo era extraordinário. Mesmo nas nossas vidas, já vi relatos assim. Uma mulher estava em uma sala, entrou uma monja na sala. A monja tirou os chinelos e colocou-os na prateleira. E quando a mulher viu os gestos da monja, a maneira como entrou, como tirou o chinelo, como colocou, naquele momento a mulher decidiu estudar o Zen, pois queria ser como aquela pessoa, com aqueles gestos. Mas para isso também precisa ter olhos para enxergar. Porque quem não tem olhos para enxergar, não vê estas coisas.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Sobre o não apegar-se



(Ven. Dhammadipa prossegue)
Praticar o Zen significa tornar-se Zen. E tornar-se Zen significa ter seus sentidos totalmente pacificados. Extamente por não haver nada a apegar-se, é que a pessoa realiza a não necessidade de ter apego.

Com isso, a última virtude exposta é kulesvananugiddho, ele não se apega à família. Caso os monges tivessem apego à família, seria muito difícil manter sua mente pacificada. Então os monges são sempre amigáveis à sua família e sempre praticam o amor para com seus familiares. Mas eles não devem apegar-se a eles.

Então essas são as virtudes para a prática do amor. Caso consiga mantê-las, sua prática do Zen tornar-se-á muito fácil. Isso explica o que alguém deve fazer. A próxima sentença explica o que não devemos fazer. Ela diz “Na ca khuddamācare kiñci, yena viññū pare upavadeyyum”, ele não deve praticar aquilo que os homens sábios repudiam. Ele especifica claramente homens sábios e não qualquer homem, não o estúpido. O comportamento daqueles que praticam meditação por vezes não condiz com o comportamento socialmente convencionado. Contudo, pode ser um comportamento bom e benéfico. Pode ser criticado pelos outros, mas caso sua motivação for o amor e a compaixão, os sábios irão compreender e apoiar tal comportamento. Logo, devemos nos comportar de forma que os sábios fiquem satisfeitos e os não-sábios, os estúpidos, não fiquem, mas sem preocupar-se muito. Caso pratiquemos as virtudes expostas, a seguir inicia-se a explicação sobre a concentração.

O Buddha primeiro dá instruções da meditação no amor. “Sukhino va khemino hontu, 
sabbasattā bhavantu sukhitattā”, é o desejo que todos os seres estejam a salvo. Estar a salvo quer dizer, de fato, estar liberto. Logo, a real salvação é apenas alcançada quando alguém obtém completa compreensão, o pleno despertar.

De acordo com o abhidharma-kosa, há de fato dois tipos de meditação. A primeira meditação é baseada na “determinação” e a segunda é a meditação baseada no “ver as coisas como realmente são”. A meditação no amor é baseada na determinação. Você determina que é feliz e que todos os seres são felizes e contempla você e todos os seres como sendo felizes. Apenas quando sua mente for forte e determinada você será capaz de obter sucesso nesta prática.

A maneira tradicional de obter uma mente forte é através da prática da concentração profunda. Caso obtenha uma concentração profunda, o que quer que determine acontecerá de acordo com tal determinação. Caso determine que todos os seres são felizes, de fato poderá beneficiar a todos os seres com sua felicidade e não-aceitação da frustração alheia. Foi assim que Buddha conseguiu transformar seus piores inimigos em seus discípulos e amigos. Ele simplesmente ignorou os atritos e penetrou através deles com amor compassivo e bons desejos. Logo, a meditação no amor terá sucesso quando você for capaz de determinar que todos os seres são felizes e são beneficiados por este amor.
(continua)