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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O Pico da Montanha é Aqui e Agora


Algum tempo atrás uma pessoa escreveu pra perguntar por que o nome do livro que eu escrevi era “O Pico da Montanha é Onde Estão os Meus Pés', e não era “NO" pico da montanha é onde estão os meus pés, porque quando chegamos em algum lugar a preposição necessária é “em”. E então eu respondi que foi proposital, pois o que tentei dizer é que todos os lugares onde colocarmos os nossos pés são o pico da montanha. Isto porque o problema normalmente da ambição de realizar-se e de obter-se algum sucesso, alcançar algum determinado lugar e lá colocar os nossos pés, é imaginarmos que só quando chegarmos naquele lugar e colocarmos nossos pés lá, então estaremos felizes, teremos nos realizado, seremos vencedores na vida.

Na verdade, essa ambição revela-se constantemente falsa, porque quando encontramos uma pessoa e perguntamos, “você realizou o que você ambicionava na vida?”, ela nos diz: “ah, eu cheguei lá”, mas aquele “chegar” não se traduziu numa felicidade completa, porque quando chegamos a sensação é: “é só isso? Era isso o que eu queria?”.

Quando nós ambicionamos qualquer coisa e chegamos lá, como quando nos graduamos na universidade e obtemos o diploma e, naquele dia da diplomação imagina-se uma grande coisa, todos tiram fotos e há cumprimentos e festejos, parece uma coisa maravilhosa. No dia seguinte, começou a vida de novo, e nós somos demandados a sermos profissionais, e é como se tivesse começado tudo de novo, e o pico da montanha está longe. E quando atingimos o sucesso profissional, olhamos para aquele sucesso profissional e ele não é suficiente, sempre há uma sensação de que temos que escalar algo, chegar a um outro lugar que não era bem aquele onde estávamos, e por isso nós olhamos pessoas que seriam aparentemente invejáveis, mas começam a usar drogas, ou são infelizes, porque na realidade eles sempre ambicionaram chegar em algum lugar, mas o lugar onde eles chegam não é aquilo que eles imaginavam.

Então, quando eu coloquei o título desse livro, “O pico da montanha é onde estão os meus pés”, eu queria dizer que a sensação correta é agora, nesse instante, aqui é o pico da montanha, eu tenho que estar feliz agora, exatamente nesse instante, não tem nada para alcançar. Tudo o que existe para alcançar já está alcançado, na verdade nós só caminhamos a vida a cada dia, dando um passo e fazendo aquilo que devemos fazer, e a sensação deve ser  “agora, aqui onde estou, este é o pico da montanha”. Se não for agora o pico da montanha, então eu estou fazendo alguma coisa errada, porque não é um sucesso no futuro que nós temos que tentar conseguir, nós temos que nos sentir realizados agora. Se não formos realizados agora, algo está errado, porque não podemos pensar que há algo a alcançar no futuro.

E quando nós sentamos em zazen essa lição está implícita. Nós sentamos e dizemos, “'não cogite do passado, não cogite do futuro, fique aqui, agora”, é aí que você tem que se sentir feliz, completo, um ser pleno naquele agora. Este agora é que é o pico da montanha. Quando você está sentado você tem que se sentir a própria montanha. Não há nada para alcançar, tudo já está alcançado. Essa lição é extremamente importante, porque se você alcançar isso, sabe a cada dia exatamente como deve agir e como deve fazer, e cada dia será pleno, feliz, completo.

Quando corremos atrás de um sucesso no futuro, corremos atrás de mais um sonho, e esse sonho quando alcançado inevitavelmente se mostra fumaça. E esse é um tipo de pensamento que ninguém está acostumado no mundo ocidental, nem no mundo oriental, vamos lá e vemos esses livros de auto-ajuda e eles todos estão dando lições erradas, ninguém ficará feliz com esse tipo de sucesso. Simplesmente a cada montanha que escalar vai olhar à frente e verá outra montanha. Mais alto, sempre difícil e, quando terminamos a vida assim, parece que não chegamos lá. Por isso nós temos que enxergar o pico da montanha agora. (continua)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Sobre o não apegar-se



(Ven. Dhammadipa prossegue)
Praticar o Zen significa tornar-se Zen. E tornar-se Zen significa ter seus sentidos totalmente pacificados. Extamente por não haver nada a apegar-se, é que a pessoa realiza a não necessidade de ter apego.

Com isso, a última virtude exposta é kulesvananugiddho, ele não se apega à família. Caso os monges tivessem apego à família, seria muito difícil manter sua mente pacificada. Então os monges são sempre amigáveis à sua família e sempre praticam o amor para com seus familiares. Mas eles não devem apegar-se a eles.

Então essas são as virtudes para a prática do amor. Caso consiga mantê-las, sua prática do Zen tornar-se-á muito fácil. Isso explica o que alguém deve fazer. A próxima sentença explica o que não devemos fazer. Ela diz “Na ca khuddamācare kiñci, yena viññū pare upavadeyyum”, ele não deve praticar aquilo que os homens sábios repudiam. Ele especifica claramente homens sábios e não qualquer homem, não o estúpido. O comportamento daqueles que praticam meditação por vezes não condiz com o comportamento socialmente convencionado. Contudo, pode ser um comportamento bom e benéfico. Pode ser criticado pelos outros, mas caso sua motivação for o amor e a compaixão, os sábios irão compreender e apoiar tal comportamento. Logo, devemos nos comportar de forma que os sábios fiquem satisfeitos e os não-sábios, os estúpidos, não fiquem, mas sem preocupar-se muito. Caso pratiquemos as virtudes expostas, a seguir inicia-se a explicação sobre a concentração.

O Buddha primeiro dá instruções da meditação no amor. “Sukhino va khemino hontu, 
sabbasattā bhavantu sukhitattā”, é o desejo que todos os seres estejam a salvo. Estar a salvo quer dizer, de fato, estar liberto. Logo, a real salvação é apenas alcançada quando alguém obtém completa compreensão, o pleno despertar.

De acordo com o abhidharma-kosa, há de fato dois tipos de meditação. A primeira meditação é baseada na “determinação” e a segunda é a meditação baseada no “ver as coisas como realmente são”. A meditação no amor é baseada na determinação. Você determina que é feliz e que todos os seres são felizes e contempla você e todos os seres como sendo felizes. Apenas quando sua mente for forte e determinada você será capaz de obter sucesso nesta prática.

A maneira tradicional de obter uma mente forte é através da prática da concentração profunda. Caso obtenha uma concentração profunda, o que quer que determine acontecerá de acordo com tal determinação. Caso determine que todos os seres são felizes, de fato poderá beneficiar a todos os seres com sua felicidade e não-aceitação da frustração alheia. Foi assim que Buddha conseguiu transformar seus piores inimigos em seus discípulos e amigos. Ele simplesmente ignorou os atritos e penetrou através deles com amor compassivo e bons desejos. Logo, a meditação no amor terá sucesso quando você for capaz de determinar que todos os seres são felizes e são beneficiados por este amor.
(continua)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Determinação para a prática



Na nossa vida profissional funciona tudo ao contrário, você irá escolher a melhor pessoa para determinada tarefa e irá exigir dela proficiência. Frequentemente você terá que ser intolerante, fazer cobranças e assumir seu papel tal como ele é. Quem é policial tem que ser policial, chefe de cozinha tem que ser chefe de cozinha, integralmente. O professor tem que ser severo, cobrador. O policial tem que ser duro, incorruptível, e muitas vezes, intolerante. Embora a cada momento tenhamos que medir os limites das situações, não há regras claras, esse é o desafio da vida: viver sem ensaio. A Sangha não é assim. Nós podemos saber se somos bons praticantes quando as condições não são boas, quando chove e faz frio, e mesmo assim, as pessoas vão praticar. Isso é uma boa prática. Porque ir praticar quando as coisas estão maravilhosas, não tem nenhum mérito.

Pergunta – Acredito que em relação à questão da dependência do professor ou da Sangha, é importante que a pessoa tenha uma força interna para praticar, algo que lhe seja inato, uma força de vontade. Seria isso?

Monge Gensho – Não é inato, é construído. É claro que o sesshin, a Sangha e todo o restante, serão reforços que nos levam à prática. Mas ter uma determinação própria que não dependa do professor, é muito importante.

terça-feira, 13 de março de 2012

Fé, dúvida, determinação


Visita de Senpo Oshiro Sensei à Comunidade zen budista de Florianópolis.

P. Quais seriam os três elementos?

R: Monge Genshô: Grande fé, grande dúvida, firme determinação.


P. Eu não sei se a dúvida diminui tão facilmente quanto a determinação...até que ponto a Sangha também neste momento, que falha a determinação, é importante para a continuidade do caminho...

R. É verdade, a Sangha nos ajuda muito quando a nossa determinação enfraquece...


P. Praticar sozinho é possível?

R. Praticar sozinho é terrível, precisa ter uma determinação muito forte porque qualquer desculpa você diz: eu não vou sentar, mas no sesshin existe uma pressão social, que tento acentuar, não saiam, não abandonem o grupo em hipótese nenhuma, estejam em todas as atividades sempre juntos, porque a gente começa a comer junto, para de comer junto, espera pelo outro, só começa quando todo mundo está junto, por que esta insistência? Este método no Zen? Para reforçar o compromisso, se alguém não está então todo mundo espera, aí então há vergonha, não é? Já aconteceu comigo, você chega lá, todo mundo sentado esperando, isto acontece com todos nós, aí a gente aprende o significado do compromisso com a Sangha. É por isso que a gente faz isto no sesshin várias vezes, aí todo mundo entende o significado do compromisso porque a gente depende da Sangha para ter força, se todo mundo tiver licença para sair, ah! Não, estou cansado vou esperar lá fora, ah! este zazen eu vou me deitar no quarto, acabou este sesshin, de repente vai haver três sentados e o resto já está dormindo, porque afinal de contas acordaram as quatro da manhã.


P. Mas tem uma questão que é muito forte que é a gente plasmar no universo a vontade coletiva, isto reforça o grupo...toda vez que o grupo estiver fazendo junto a gente consegue até ir além desta questão puramente social e de compromisso e consegue efetivamente atingir um nível mais elevado que não é só o social e o compromisso...

R. Sim. É uma energia mais sutil e muito forte...


P. E que inclusive já foi até objeto de estudo, pessoas que participam de grupo social, atividades coletivas às vezes conseguem ter uma sobrevida física maior...

R. Com certeza porque são mais felizes também, se algum de vocês durante o sesshin em algum momento sentou sozinho, olhou para uma janela ou teve uma sensação assim: eu estou feliz, eu queria que isto não acabasse, isto é muito interessante porque o sesshin é sofrido, mas se em algum momento você sente: ah, eu queria que isto não acabasse, então você experimentou uma outra coisa, isto é um lampejo do nirvana, porque o nirvana é esta situação de harmonia que você cria através das regras que o sesshin propicia, regras para evitar conflito, regras para reforçar-se junto um ao outro, práticas de plena atenção e sofrimento porque quem senta junto e sente dor nas pernas, e eu sinto, sente que os outros que sofreram as mesmas dores junto são companheiros de verdade.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Determinação (daifunshi)


Hakuun Yasutani Roshi

É uma dúvida que não nos deixa descansar. É como se soubéssemos perfeitamente bem que somos milionários e no entanto inexplicavelmente nos encontrássemos em extrema miséria sem um centavo nos bolsos. Uma forte dúvida, por isso existe proporcionalmente à fé firme.
Surge deste sentimento de dúvida o terceiro elemento universal, uma forte determinação (daifunshi) que brota naturalmente. É uma irresistível determinação de dissipar essa dúvida com toda a capacidade de nossa energia e força de vontade.(TEXTO)
É, são vocês, esta dúvida e sofrimento, e com grande determinação vem ao sesshim e sentam. Esta força, esta determinação vem daquela fé, mas todo tempo tem dúvida, mas vocês acreditam que dá para resolver e por isto sentam e tentam.(COMENTÁRIO) Acreditando, no âmago de nosso ser, na verdade do ensinamento do Buddha de que somos todos dotados de uma mente-bodhi imaculada, tomamos a resolução de descobrir e experimentar a realidade desta mente por nós mesmos.(TEXTO) Vocês mesmos resolvem por si mesmos sentar e achar a verdade sem confiar que vão receber esta verdade do outro porque o monge aqui ensinando não transmite isto, ele só dá dicas e cada um tem que trilhar o caminho sozinho. Não adianta acreditar no monge, na realidade nós temos que achar a solução por nós mesmos dentro da nossa mente, construir esta mente, acordar sozinhos, no máximo o que o monge faz é bater com o kyosaku...(COMENTÁRIOS)

Há poucos dias, uma pessoa que havia compreendido muito mal o estado da mente exigido por estes três elementos essenciais, perguntou-me: “Acreditar que somos Buddha é algo mais que aceitar o fato de que o mundo, assim como é, perfeito, tal como o salgueiro é verde e o cravo vermelho?” O sofisma aí é evidente. Se não perguntamos porque a ambição e o conflito existem, por que o homem ordinário age como qualquer outra coisa, menos como Buddha, nenhuma determinação brota em nós para resolvermos a óbvia contradição entre o que acreditamos como matéria de fé e o que nos parece ser justamente o contrário, e nosso zazen (se não confiamos nisto) é por isso desprovido de sua principal fonte de energia.(TEXTO) E concluindo: com fé de que é possível trilhar o caminho de Buddha, sentamos com a dúvida de vermos um mundo como nós vemos, um mundo de samsara, então acreditamos que existe o nirvana e que o engano é nosso, tentando resolver o nosso engano é que praticamos para tentar resolver a nossa mente e acordar e o elemento para isso que pode solucionar o nosso dilema é uma firme determinação de praticar sem concessões, sem aceitar nada de sobrenatural, nada de supersticioso, nada de milagroso, nada de divino, acreditando que tudo já está aqui, agora, completo.

(Comentários sobre texto de Yasutani Roshi)