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terça-feira, 29 de julho de 2014
Não tem importância
Pergunta: Porque que o círculo do Zen, aquele símbolo, não fecha?
Monge Genshô: Pois é. Porque que o “ensô” às vezes não fecha? Porque ele tem uma abertura, ele tem uma liberdade, também. Tudo está contido, mas também não está limitado. Então, tem muitas coisas para nós olharmos nisso.
Pergunta: Monge, quando as pessoas acordam, fisiologicamente, nem todas acordam de uma vez. Eu por exemplo sou preguiçoso, acordo, durmo de novo, acordo...o despertar pode ser assim também? Num dado momento, perde-se a carteira...eu posso falar assim: “eu posso perder a carteira”. E num outro momento, eu desesperar pela perda da carteira?
Monge Genshô: Pode. Tanto nós podemos crescer, evoluir, ter clareza, como podemos ter momentos de obscuridade. Isso acontece com todos os praticantes. Então, o primeiro estágio, na realidade, de realização espiritual é a compreensão, “Ah, eu compreendi, claramente, que é um jogo. Eu sei que tem que resolver, mas ainda assim, eu caio nas emoções. Eu sei que é bobagem, eu sei que é orgulho meu, eu sei que é vaidade ou qualquer coisa assim, e aí alguém diz alguma coisa que me incomoda e eu reajo.” Depois eu digo: “Como? Como, se eu sei que esse é um sentimento tão tolo? Como é que eu reajo assim? Como minha prática é ruim”! É o que você pensa. Mas, na realidade, o seu professor diz: “Ah, você vai muito bem! Você entendeu isso! Você está entendendo”. E continua tropeçando. Continua errando. Isso é bem característico do quarto passo, no caminho do texto dos “dez passos do boi”. Essa é a decepção do praticante consigo mesmo. Isso dura até o sexto passo.
Agora, quando você chegar a um ponto em que realmente os acontecimentos que fariam você se perturbar não chegam mais a balançar você, então ocorreu um grande progresso. E existem níveis mais altos ainda. Existem níveis de realização espiritual em que você vê na pessoa, nos pequenos gestos da pessoa, sua realização espiritual. Como anda, como come, como fala. Está tudo ali. Alguns praticantes se encantam com o lado da forma no Zen. É bem característico também nos monges, não são diferentes de praticantes leigos. Apenas fizeram votos a mais. Só isso. Não são seres extraordinários.
Mas há alguns que, como falta alguma coisa a nível de realização espiritual, passam a se concentrar na forma, porque a forma é mais fácil. Acenda a vela assim, ande desta forma, olhe assim, faça esse gesto desta maneira, etc. Então, tornam-se especialistas na forma, porque falta algo mais. Não conseguem fazer outra coisa, então a forma torna-se tudo. O que é preciso, na verdade, é um equilíbrio. A forma mostra muita coisa, mas o excesso da forma mostra outra coisa. A frase que eu mais ouvi de Saikawa Roshi, no início, quando eu estava praticando com ele e fazia coisas erradas e, depois, chegava para ele e dizia assim: “Mestre, eu queria lhe pedir desculpas pelos meus erros”. Ele olhava para mim, ria e dizia: “Não tem importância”. E não tem mesmo importância. Eu ouvi tantas vezes “não tem importância”, que adotei o “não tem importância”. Então, eu sempre digo para vocês, “ah, não tem importância, a gente corrige, não tem importância”.
Tenho dez erros. Quantos a gente corrige? Corrige dois. Não corrija mais. Não corrija muito, porque se corrigir muito, a forma vai esconder a verdade. Você tem que deixar os alunos errando. Porque quando você olha o erro, você percebe quantas coisas tem naquele erro. Quanto tem? Quanto tem na voz, quando está recitando? Porque? Como é cada detalhe da atitude? Se você corrige tudo, haverá um disfarce. Você diz: “Ah, os alunos devem andar sempre em shashu dentro da sala de Buda. Aí você dá a instrução, depois, você observa. De vez em quando, alguém esquece e anda balançando os braços. Aí, você não diz nada. Porque isso é um excelente termômetro. Se você disser muito, você não vai ver mais. Porque debaixo da casca da forma, vai estar ainda fervendo a distração. A mente turbulenta vai estar lá. Não vai estar manifestada, porque ficou muito bem escondida, através de uma forma muito treinada, muito policiada. Nós temos que ter essa visão de caminho do meio nestas questões.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Agarrando o boi
O quarto passo é Agarrando o boi. Em um antigo desenho vê-se um homem segurando o rabo do boi. “Ao chegar a essa etapa o kensho foi confirmado, mas como podemos ver no desenho o boi tenta tenazmente escapar e o homem deve sujeita-lo com toda sua força, de fato agora já tem experiência bastante para compreender o dito “o céu, a terra e eu somos a mesma raiz, todas as coisas e eu mesmo somos da mesma fonte. Mas na sua vida cotidiana não pode controlar sua mente como gostaria”, ele compreende, tem o kensho, seu mestre reconhece nele – Ah, você experimentou um experiência genuína, você enxergou - porém nos passos anteriores nós vimos o que acontece com o principiante, com aquele que começa a sentar, que começa a praticar e sabe que existe a experiência mística e que pode vislumbrá-la, quando essa experiência realmente se aprofunda, é mais marcante, mais prolongada, nós podemos mostrá-la para o mestre, você vai ate o mestre e mostra sua experiência para ele. Uma vez Saikawa Roshi me disse que os alunos vão para as entrevistas para fazer perguntas e ele queria que eles fossem lhe dar uma resposta – Encontrei isso – e mostrassem para ele, mas as pessoas chegam com perguntas. Então, nessa quarta etapa ele agarrou a mente, agarrou o boi firmemente “o céu a terra e eu somos a mesma raiz, todas as coisas e eu somos da mesma fonte”.
Ele compreende então sua natureza original, que ele não é um eu separado mas é um com todas as coisas. “Mas, na sua vida cotidiana ele não consegue controlar sua mente como desejaria, as vezes arde em cólera , outras vezes se vê possuído pela cobiça, cegado pelos desejos e assim sucessivamente. Os pensamentos indignos e as ações vis seguem aparecendo como antes. Ele se vê esgotado de lutar contra suas paixões e desejos que parecem incontroláveis, é algo que não contava e apesar de haver alcançado o kensho sua alma parece seguir sendo tão ruim como antes. De fato o kensho parece ter sido a causa de novas aflições”, por que agora ele deseja comportar-se de certa maneira e se vê fazendo o contrario, compreende, sabe o que é certo, mas acontece uma circunstancia e ele explode em raiva, por exemplo. E aí ele pensa – Ah, eu não sou o que desejaria, todo esse trabalho, toda essa compreensão e ainda não sou quem eu desejaria, minha boca continua falando quando não deveria, minhas ações continuam as mesmas e meus pensamentos estão continuamente sendo chamados pelas paixões e continuam turbulentos, embora eu saiba com nitidez que eu o céu e a terra somos a mesma coisa e que entre mim e os outros não há diferença alguma.” A sua cabeça está no ar mas seu corpo tem um pé no precipício. Mas ele não pode soltar as rédeas do boi e se esforça em ter sob seu controle sua mente, embora pareça que algo acima
de suas forças.”
O quarto estagio, agarrando o boi, se reproduzirá com uma experiência deste tipo;
Imaginem um zazen, quanto tempo passou, ele não sabe, quando volta a si, se sente como se se encontrasse na mais baixa profundidade do mar, tudo está em silêncio, tudo está escuro, estava dormindo? Não, sua mente está clara e desperta uma força interna que parece ir desabrochando, nota como se estivesse revestido de uma pesada armadura, será que foi a isto que outros patriarcas chamaram “montes de prata e rios de ferro”? Sua mente está tão tranqüila e solene como as encostas nevadas do Himalaia, sem alegrias, sem penas, se é noite ou dia, ele não sabe. Algum dia vocês terão esta experiência. E um dia, quando ela emergir levantando-se do zafu cruzando o umbral, olhando as pedras e as árvores do jardim, ouvindo um som qualquer, levando uma taça aos lábios, ou passando os dedos por um corrimão, de pronto verão que o céu e a terra se vem abaixo com estrépito. Ao chegar ao ultimo extremo na prática do zazen será como o efeito de uma figura reversível. Uma figura reversível é aquele tipo de figura que existem duas formas em uma, dependendo do ângulo que olhamos, quando se vê uma não se vê a outra. Muitas situações na nossa vida se parecem
como uma figura reversível. Quantas vezes encontramos com alguém, perguntamos como ela está e a resposta é, muito mal, está tudo horrível. Alguns dias depois, a mesma pergunta, e tudo mudou. A situação é a mesma, mudou a forma de encararmos o fato. Algumas pessoas conseguem observar isso e mudar o foco, mas para que isso aconteça é preciso ser senhor de sua mente. É como a história do homem pendurado em um precipício, abaixo dele um leão, acima um tigre. Então ele olha para o galho em que está agarrado e vê frutinhas, ele as pega e come, então exclama - que frutas deliciosas!- Esse é um exemplo de uma mente com capacidade de reverter uma situação, de aceita-la. Uma mente preparada, mesmo sabendo da aproximação da morte se mantém calma e impassível, uma mente agitada e confusa entrará em pânico. Acontecem muitas situações no nosso dia a dia que envolvem e necessitam de uma mente calma e preparada para lidar com problemas, tristezas ou desilusões. Diante desse
quadro é muito comum o desespero tomar conta da mente e perdermos a capacidade de
raciocinar. Isso não significa não se emocionar, significa perdi o controle? Entrei em surto? Mesmo com tudo que está acontecendo ainda sou capaz de raciocinar? Isso é muito importante, não perder a capacidade de raciocinar. Pode-se fazer coisas muito insensatas no momento em que não se está senhor de sua mente. Pode-se matar uma pessoa, pode-se dizer coisas que desejaria não ter dito e que não se consegue mais
retirar. E essa figura reversível será, então, revelada a você como uma nova vista, assim, a pressão interna ocasiona um novo desenvolvimento dimensional do mundo. Um critico hostil poderia dizer que isso é uma questão de auto sugestão, mas, de fato, assim que nos desprendemos do modo habitual da consciência, e ela opera num novo modo de cognição independente do tempo e do espaço e da causalidade. Agora você e os objetos externos estão unificados, você sabe que teve a experiência, que não é auto sugestão, alias, essa experiência aparece como experiência repentina e é completamente nítida e clara e diferente para cada pessoa, o fator desencadeador pode ser bem diferente. É multifatorial. Pode ser algo corriqueiro como um raio de sol entrando pela janela e batendo no zendo. Algo normal que de repente surge completamente diverso do normal. Você sente que os objetos externos e
você estão unificados, é certo que os objetos externos estão fora de você, mas você e eles se interpenetram mutuamente, é como dizer que não há resistência espacial entre você e aquela experiência. Quando éramos crianças, nossa vida estava cheia dessa forma decognição, mas quando crescemos a atividade elaborada da consciência foi consolidando um modo habitual de operar, com o uso da linguagem, da compreensão, do gosto e não gosto, da manifestação de preferências, e nos distanciamos da experiência pura. Constrói-se um mundo de diferenciação e discriminação. Mas no momento do kensho, essa forma rotineira cai e você se vê desperto e num novo mundo, isso é o kensho. Ken, significa ver em algo e Sho significa a verdadeira natureza. Então, ver em algo a verdadeira natureza. Você encontra sua verdadeira natureza dentro de si mesmo e ao mesmo tempo no mundo exterior”.
(Monge Genshô, texto decupado da gravação de palestra por Ápio San, ainda carente de revisão para transformação em texto escrito. Citações do livro "Zazen Training" de Sekida)
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