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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O trabalho árduo do descondicionamento



Monge Kômyô é um noviço no zen, porém vem de uma longa trajetória no zen vietnamita (Thien) e nas artes plásticas e nas típicas do zen como o origami, a ikebana, o sumyê e a caligrafia. Ele haver-se colocado como meu aluno diz muito mais sobre suas qualidades do que das de seu orientador.
Estou  postando suas palestras gentilmente decupadas pelos alunos dos grupos de estudo do zen para proveito de todos, não são palestras oficiais do Dharma mas os praticantes entenderão a qualidade de sua partilha sobre a prática do zen.

Goiânia 2014
Monge Kômyô: Eu gostaria, nessa conversa primeira do dia, retomar um pouco alguns comentários sobre a prática.   O esforço, a experiência que nós temos num sesshin é um treinamento para todos, eu inclusive. O treinamento fundamental é conseguir estabelecer a mente de forma consciente, clara. Isso não é muito fácil. E não é fácil apenas pelos aspectos externos da vida. É essencialmente exigente, devido à natureza da mente condicionada, nossa mente.

Ontem eu comentei que todos nós carregamos uma bagagem. No contexto da psicologia budista, do Abhidharma, todos nós estabelecemos nas nossas vidas, a partir do padrão de nossas vidas, vasana. Vasana é energia de hábito. Cada um de nós possui um agrupamento de energias de hábito que caracteriza quem nós somos. Num retiro, mesmo que nós nos esforcemos para que ele seja organizado, adequado para que todos pratiquem, no retiro continua atuando um fenômeno, uma lei fundamental, que é a impermanência. Nunca há ambiente perfeito. Nesse momento nós temos um exemplo: temos aqui um som lindo, mas temos uma musiquinha também em algum lugar aí. Às vezes pensamos “Poxa, que chato essa música. Queria ficar aqui ouvindo as cigarras. Mas o treinamento está em aprender a estabelecer a mente, para poder aprender a lidar com todas as coisas sem conflito. A mente condicionada, essa mente que se caracteriza por muitas energias de hábito, é uma mente que, essencialmente... como se diz no Zen,  é como um macaco louco dentro de uma casa. Nossa mente, nossa cabeça é a casa. E aqui dentro há um macaco louco. Quando nós tentamos estabelecer um regime de auto-observação mais intenso, o macaco louco não gosta. A tradição Zen lida com os paradoxos.

A experiência zen,  em geral se manifesta para dar uma rasteira na gente. Por que isso? É alguma perversidade? Não. O objetivo no Zen é tentar desestabilizar a falsa idéia que o nosso eu tem de que está no controle e que tudo tem que se adaptar às nossas expectativas. O trabalho contemplativo é um trabalho árduo de descondicionamento. Portanto, num retiro, o primeiro convite que eu faço a todos é: simplesmente observem a si mesmos. Diante dos desafios, das situações, do próprio movimento durante o sentar e fazer zazen, observem a si mesmos. Não tentem controlar, até porque vocês não vão conseguir. Observem. Esse é o primeiro passo. O primeiro passo é reconhecer a si mesmo. O silêncio, a introspecção, ela ajuda a estabelecer esse meio, para que possamos reconhecer melhor quem nós somos. Sem culpa, sem recriminação, sem crítica, só reconhecer. Já aí temos um grande desafio.
(continua)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Deixe o vento soprar


Pergunta: Então, no zazen, que eu estou tentando entender, não focamos na respiração ou alguma outra coisa? Poderia me explicar um pouquinho?

Monge Genshô:  Você senta em zazen, esvazia seu pulmão, deixa uma respiração natural se instalar, conserva a postura e fica aqui. Sua mente vai querer um objeto qualquer. Cada vez que ela se focar num objeto, volte pra cá. Apenas ouça esse vento. A cada momento ele é novo. Esqueça o vento que já passou. Não espere o vento que vai vir a seguir. Fique com esse vento de agora. Só. Agora, agora, agora...qualquer elaboração mental, retorne pra cá. Não significa “não pensar”. Significa estar aqui, sentado com todos os outros, quieto. Mais nada. Não procure nada, não treine nada, não ambicione nada. Samadhi é realmente ficar aqui, de verdade. É bastante difícil.

Aluno: Mas esse “estar aqui” não está incluída a percepção da respiração, talvez, como estar percebendo o som. Mas aí não estaria então focado no som?

Monge Genshô: Não observe o som. Só ouça o som. Não é para “eu estou aqui ouvindo o som do vento”. Na verdade, você é o vento. O som do vento deve atravessar você. Entrar de um lado e sair do outro, mas sem deixar traços.

Aluno: Assim, você não está atento à experiência do som, ele surge de você?

Monge Genshô:  Deixe ele surgir e se manifestar livremente. Passar através de você. Não pense “mais forte, menos forte, vem agora, vai parar, não vai...” Não pense. Não faça isso. Só ouça. Fique aqui ouvindo. Só isso.

Aluno: E no momento que tem uma dorzinha no joelho?

 Deixe doer. Aí você se torna, digamos, um com a dor, você não nega a existência do que acontece.
Agora, se ela se tornar muito intensa, se ela incomodar, troque de posição, porque o que vai acontecer é que você vai acabar só pensando nisso, na dor e ficar esperando o sino. “Quando é que vai tocar o sino? Quando é que acaba isso?” E isso não é bom. Então, prefiro que você troque de posição, alguma dor, não é problema. Muita dor é problema. Alguma dor, algum desconforto você vai ter, porque a posição não é natural, e nem ficar parado tanto tempo é natural. Por isso, o corpo reclama.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Não tem importância


Pergunta: Porque que o círculo do Zen, aquele símbolo, não fecha?

Monge Genshô: Pois é. Porque que o “ensô” às vezes não fecha? Porque ele tem uma abertura, ele tem uma liberdade, também. Tudo está contido, mas também não está limitado. Então, tem muitas coisas para nós olharmos nisso.

Pergunta: Monge, quando as pessoas acordam, fisiologicamente, nem todas acordam de uma vez. Eu por exemplo sou preguiçoso, acordo, durmo de novo, acordo...o despertar pode ser assim também? Num dado momento, perde-se a carteira...eu posso falar assim: “eu posso perder a carteira”. E num outro momento, eu desesperar pela perda da carteira?

Monge Genshô: Pode.  Tanto nós podemos crescer, evoluir, ter clareza, como podemos ter momentos de obscuridade. Isso acontece com todos os praticantes. Então, o primeiro estágio, na realidade, de realização espiritual é a compreensão, “Ah, eu compreendi, claramente, que é um jogo. Eu sei que tem que resolver, mas ainda assim, eu caio nas emoções. Eu sei que é bobagem, eu sei que é orgulho meu, eu sei que é vaidade ou qualquer coisa assim, e aí alguém diz alguma coisa que me incomoda e eu reajo.” Depois eu digo: “Como? Como, se eu sei que esse é um sentimento tão tolo? Como é que eu reajo assim? Como minha prática é ruim”! É o que você pensa. Mas, na realidade, o seu professor diz: “Ah, você vai muito bem! Você entendeu isso! Você está entendendo”. E continua tropeçando. Continua errando. Isso é bem característico do quarto passo, no caminho do texto dos “dez passos do boi”. Essa é a decepção do praticante consigo mesmo. Isso dura até o sexto passo.

Agora, quando você chegar a um ponto em que realmente os acontecimentos que fariam você se perturbar não chegam mais a balançar você, então ocorreu um grande progresso. E existem níveis mais altos ainda. Existem níveis de realização espiritual em que você vê na pessoa, nos pequenos gestos da pessoa, sua realização espiritual. Como anda, como come, como fala. Está tudo ali. Alguns praticantes se encantam com o lado da forma no Zen. É bem característico também nos monges,  não são diferentes de praticantes leigos. Apenas fizeram votos a mais. Só isso. Não são seres extraordinários.

Mas há alguns que, como falta alguma coisa a nível de realização espiritual, passam a se concentrar na forma, porque a forma é mais fácil. Acenda a vela assim, ande desta forma, olhe assim, faça esse gesto desta maneira, etc. Então, tornam-se especialistas na forma, porque falta algo mais. Não conseguem fazer outra coisa, então a forma torna-se tudo. O que é preciso, na verdade, é um equilíbrio. A forma mostra muita coisa, mas o excesso da forma mostra outra coisa. A frase que eu mais ouvi de Saikawa Roshi, no início, quando eu estava praticando com ele e fazia coisas erradas e, depois, chegava para ele e dizia assim: “Mestre, eu queria lhe pedir desculpas pelos meus erros”. Ele olhava para mim, ria e dizia: “Não tem importância”.  E não tem mesmo importância. Eu ouvi tantas vezes “não tem importância”, que adotei o “não tem importância”. Então, eu sempre digo para vocês, “ah, não tem importância, a gente corrige, não tem importância”.

Tenho dez erros. Quantos a gente corrige? Corrige dois. Não corrija mais. Não corrija muito, porque se corrigir muito, a forma vai esconder a verdade. Você tem que deixar os alunos errando. Porque quando você olha o erro, você percebe quantas coisas tem naquele erro. Quanto tem? Quanto tem na voz, quando está recitando? Porque? Como é cada detalhe da atitude?  Se você corrige tudo, haverá um disfarce. Você diz: “Ah, os alunos devem andar sempre em shashu dentro da sala de Buda. Aí você dá a instrução, depois, você observa. De vez em quando, alguém esquece e anda balançando os braços. Aí, você não diz nada. Porque isso é um excelente termômetro.  Se você disser muito, você não vai ver mais. Porque debaixo da casca da forma, vai estar ainda fervendo a distração. A mente turbulenta vai estar lá. Não vai estar manifestada, porque ficou muito bem escondida, através de uma forma muito treinada, muito policiada. Nós temos que ter essa visão de caminho do meio nestas questões.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Não me fale dos atos de Buddha me mostre os seus atos



Venerável Dhammadipa continua: O nosso “eu” e nosso apego aos objetos implica na deposição de sementes nesse “Depósito de Consciências”, e por isso é chamado de Depósito, pelo fato dessas sementes estarem ali depositadas. Um aspecto subjetivo do Alayavijnana é chamado “Manas”, que é a autoconsciência. Essa autoconsciência é baseada numa consciência diferenciadora e desse modo, retornamos ao Samsara. Nós tomamos como reais essas diferenciações dos conceitos dos Manas que estão relacionados com o auto apego.

Comentário de Genshô Sensei: É através das sementes cármicas que depositamos em Alayavijnana, que surgem todas as consciências e estas é que fazem com que nos manifestemos no mundo.

Venerável Dhammadipa continua: O processo de liberação do Yogacara, que está diretamente relacionado ao Zen, é exatamente a transformação disso tudo em sabedoria. Sei que estão todos cansados, isso não é tão importante, são só teorias. O Zen está enraizado nas ideias de Yogacara.

Comentário de Genshô Sensei: Eu diria que o Zen tem uma “estética” do Yogacara, o que acontece é que ele não levou tão a sério a idéia de que todas as coisas existentes são apenas consciência. Onde o Zen se afastou do Yogacara, foi na idéia de que as coisas existem mesmo que não exista minha consciência olhando essas coisas. Não sou eu quem faço surgir as coisas, elas existem mesmo que eu não as observe. Essa é a abordagem do Zen. Para o Yogacara tudo é consciência e tudo só existe porque existe uma consciência que observa. Mas, como ele mesmo disse, isso é uma profunda teoria do Abhidharma e do Yogacara que é muito difícil de entender, é muito sofisticada.

Em geral, no Zen, escapamos dessa discussão levando o assunto para o terreno da praticidade e do agora. Algumas pessoas ficam muito interessadas na profundidade da filosofia Budista e desejam tanto se aprofundar nas minúcias filosóficas, que acabam por se afastar da verdadeira prática. O que o Zen propõe é sentar de frente para a parede, ou, quando eu mandá-lo fazer algo, você irá fazer sem discutir, e, caso você discuta, demonstra sua ignorância nos ensinamentos. Foi discutido por alguém que entendia, mas ele fala e você fica só fazendo jogos com palavras e não age corretamente no mundo. Isso é vazio. De nada adianta ser um grande mestre de teorias sobre o budismo e não saber se comportar no mundo. É isso que o Zen quer dizer, não me fale das palavras de Buda, me mostre suas palavras, não me fale dos atos de Buda, me mostre seus atos. É isso que chamamos de prática. Mas evidentemente desconsiderar a necessidade do estudo é o erro de cair no extremo oposto.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Em que se concentrar


P: No zazen devo me concentrar em que?

R: No zazen não se concentre na respiração nem em coisa alguma, deixe que esta torne-se natural, conserve os olhos abertos para ficar presente a este lugar e momento, fechados é mais fácil deixar-se levar por fantasias. Não observe nada, quando há um observador existe alguem aqui e um objeto de observação, portanto um eu que se sente separado , fique no momento sendo um com todas as coisas.