segunda-feira, 21 de abril de 2014

Os ventos após a morte


5) No ultimo zazenkai em Joinville falávamos sobre as dores do zazen e do retiro em si e o senhor falou que sem um corpo seria muito difícil praticar. Poderia explicar isso melhor?

Monge Genshô – Quando você está sonhando, sua mente vai para todos os lugares. Você não consegue ficar aqui nesse momento, pois não tem a âncora que é um corpo. Na morte nossa consciência perde o ”eu” e é arrastada pelo carma.

6) Mas ainda existe a consciência após a morte.

Monge Genshô –  Existem apenas nossos impulsos, desejos e apegos. É nossa natureza que deseja se manifestar e para isso ela transita de um lado para outro procurando se manifestar por aquilo que se sente atraída. Não há nada que a segure, não existe uma âncora. Nosso corpo é nossa âncora, o levamos para o zafu, olhamos para a parede e dizemos que não levantaremos, mas nossa mente pode levantar e sair a vagar, nosso corpo não. Quando você não tiver um corpo será arrastada pelos seus desejos e apegos até encontrar onde se manifestar e será onde estes desejos e apegos se sentem atraídos.

Por isso estamos aqui, nos sentimos atraídos para estarmos aqui. Não existe efeito sem causa, raciocinem, por quê estamos aqui? Por quê nossas personalidades se manifestaram neste corpo, nesse país, nesse mundo, nessas condições? Por quê me sinto atraído por esse local e por esta maneira de viver? É lógico, não é? Estamos aqui por nos sentirmos atraídos para esse tipo de lugar, nossa personalidade, desejos e impulsos vieram de algum lugar. Da mesma forma que somos responsáveis por todo nosso futuro, assim é com nossa vida aqui na Terra. É incrível que tenhamos nos sentido atraídos pelo sesshin. Tem que haver uma marca dentro de nós para nos induzir a procurar esse tipo de lugar. É um lugar muito puro onde tudo que é falado é voltado para o bem e para o desenvolvimento da consciência. Toda nossa vida é assim, procuramos pessoas com os mesmos gostos que nós. Quando não tivermos mais esses corpos algo irá querer se manifestar e, de acordo com a mente que construímos, iremos definir a continuação. Por isso é tão importante a construção de nossa mente e é isso que fazemos no sesshin, tentamos construir todo nosso futuro, que é a construção da própria felicidade.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Indo para sentimentos mais elevados



3) O senhor falou agora sobre a felicidade. Ela pode ser eterna? Até onde eu entendi tudo na vida é transitório.

Monge Genshô – Buda recusou duas idéias - eternalismo e nihilismo - o budismo é o caminho do meio. Pela própria definição do que é a vida, nada pode ser eterno. Existem vários estágios de clareza para serem atingidos, a iluminação tem muitos degraus. Embora você tenha um insight e atinja um kenshô, isso não significa que em toda sua vida você agirá perfeitamente sem perder a paciência ou que não surgirão pensamentos dentro de você. Talvez a diferença seja que você olha para você mesmo e perceba isso acontecendo.

Conforme você avança na prática, haverá o dia em que estes sentimentos não mais se manifestarão e seus atos transparecerão este estado mental. Tudo sempre continua, não igual, mas mudando, e pode haver um dia em que você não caiba mais em um corpo humano. Haverá a necessidade de outro estado, talvez não necessariamente no mundo da forma. Apesar de se falar nisso no budismo, isso para nós agora é só teoria, pois estamos envolvidos nas coisas mais comezinhas, mais bobas e dos sentimentos mais tolos. No entanto se conseguirmos sair deste tipo de sentimento para sentimentos mais elevados, esta será uma vida mais feliz.

4) Eu li em um livro uma vez algo sobre quando você toma consciência de como você é, você consegue mudar, é assim que funciona, à medida que você vai percebendo as coisas você vai mudando?

Monge Genshô – O simples fato de perceber ajuda imensamente, pois isso significa uma auto-crítica, já é um primeiro passo. Quando você sabe que está fazendo algo errado, já é muito bom.

Estudar e compreender a si mesmo são coisas muito importantes. Dogen disse que “estudar o Zen é estudar a si mesmo e estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo”, então, quando você conseguir esquecer-se de si mesmo, seus erros e suas dificuldades, esse sim será um enorme passo, pois enquanto você estiver olhando para si mesmo ainda existe uma grande noção de um ego.

Nós estamos num sesshin e se ocorre a você um pensamento do tipo “por que eu estou aqui?”, isso é um “eu” pensando. O correto seria você sentar quando tem que sentar, comer quando for para comer, ir ao banheiro quando tiver vontade e em momento algum pensar no “eu” e nos motivos que o fazem estar aqui, esteja simplesmente aqui com todos os outros, fazendo o que todos estão fazendo. Se você conseguir esse nível de sentimento é um grande passo.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Esfriando vontades e apegos



2) As diversas percepções e sensações que aparecem podem ser eliminadas pela simples prática?

Monge Genshô – Sim. O fato de praticar imóvel eliminando pensamentos sobre passado e futuro acaba por esfriar nossas vontades e apegos. Do contrário, se você sentar a alimentar suas fantasias, elas crescerão. Sentados corretamente imóveis temos a oportunidade de voltar ao presente momento, que é o único que verdadeiramente existe. Passado e futuro não existem de verdade, são construções de nossa mente. O passado aconteceu, mas o que temos deles são lembranças. O futuro é imaginação. A prática do zazen pretende criar as condições para que os insights aconteçam e desta forma vermos as coisas com mais clareza e lucidez. Não procurem coisas fantásticas ou maravilhosas na iluminação. Na iluminação as coisas são exatamente como são agora, nosso sentimento a respeito das coisas é que mudaram. Isso é difícil de explicar porque está além das palavras, é o mesmo mar, mas é diferente. Mais belo e profundo, sem outro significado além daquele que está ali na nossa frente.

A vida e as pessoas também são da mesma forma e, se você tiver um sentimento iluminado, abraçará a Sangha como se todos fossem seus irmãos, não haverá lembranças desagradáveis e sentirá carinho por todos. Assim são as experiências de kenshô, mudanças de visão, nada mais, a realidade pura e límpida, sem julgamentos ou pensamentos estranhos que nos invadem sobre tudo e todos. Assim é a mente clara e lúcida que desperta do sonho. Um sentimento de grande paz e felicidade, não euforia.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Gestos ritualizados e seu significado



1) O senhor comentou sobre os gestos vazios, quais são os significados das reverências que fazemos quando entramos no Zendo e de quando vamos sentar no zafu?

Monge Genshô – Quando entramos na sala, reverenciamos a sala, o local da prática. Temos nesse local uma estátua de Buda a nos lembrar de que um mestre, Shakyamuni Buda, existiu e nos ensinou este tipo de prática. A reverência não é para a estátua em si, mas sim para o local, quem faz deste um lugar especial, somos nós. Basta não ter olhos de ver para transformar em vidro um raro diamante. Nós, através do nosso conhecimento é que damos valor às coisas.

Quando vamos sentar no zafu fazemos uma reverência e nos conscientizamos de tudo que foi necessário acontecer para que o zafu estivesse onde está para que possamos sentar e praticar. Após isso giramos e fazemos nova reverência, desta vez para todos nossos colegas, como a pedir desculpas por todos os sons que iremos emitir e porque vamos nos mexer e perturbá-los. Cada gesto deve ter dentro de si esta reverência e temos mais que isso, temos que levar esta reverência para nossos lares. Quando você abre o chuveiro na sua casa, sai água, você deve ter reverência por tudo que tornou possível você ter seu banho confortável de água quente. Cada coisa que existe em sua casa, cada conforto, tem por trás muita morte e sofrimento. Por isso no sesshin fazemos tantas reverências. E a cada reverência temos que nos lembrar porque é assim.

Todos os rituais foram criados pelos mestres para nos ensinar e nos lembrar de algo. Todas essas batidas (bate com a mão na mesa reproduzindo o toque no Umpan) devem passar a sensação da vida se esvaindo, cada vez mais rápido e mais fraco. Cada vez que ouvirem lembrem-se do motivo pelo qual as batidas seguem esse ritmo. Assim como quem bate não deve bater de qualquer jeito, tem que colocar um significado no que faz.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Por trás de um grão de arroz


É importante que revisemos a importância das cerimônias e alguns de seus significados. Por exemplo, quando recitamos os refúgios, devemos ter um sentimento de gratidão por estas três jóias. O Buda, um ideal, um homem que conseguiu se elevar por seus próprios meios. O Dharma, o ensinamento, a lei e a sabedoria. A Sangha, que em contraposição em levantar-me por meus próprios meios, significa que na verdade necessitamos muito uns dos outros. Sem as três jóias a prática seria impossível. Dificilmente sentaríamos para praticar por tanto tempo sozinhos, fazemos isso porque existe uma estrutura a nos apoiar e conduzir. Todos nós, unidos, temos uma força que é maior que a força individual de cada um. Isso serve para todos, inclusive monges e professores, eu não sentaria tanto tempo se não estivesse com vocês, minha prática é sustentada pelos alunos.

Há também na cerimônia um momento muito importante de gratidão e reverência que é quando recitamos os nomes dos patriarcas e ancestrais desde Shakyamuni Buda até o momento presente, ou então até os cinquenta e sete primeiros, terminando em “Keizan Daiosho”, que foi o grande organizador da Soto Zen. Foi ele quem adaptou o Zen à cultura japonesa e também trouxe muitos monges de outras ordens para a Soto Zen.

Outro momento importante do sesshin são as refeições com oryoki.  Esse tipo de refeição formal e cerimoniosa está cheio de agradecimentos. Agradecemos todos os esforços que fizeram com que o alimento chegasse até nossa mesa. A cada vez que um jonin, a pessoa que nos serve, vem à nossa frente, devemos fazer gasshô. Mas esse gesto de gasshô não deve ser vazio, pois o jonin é o último elo de uma imensa corrente que trouxe o alimento até minha tigela. Se formos regredindo a partir do jonin poderemos chegar até um homem no mar explorando gás, que pode ser o mesmo gás que ajudou a fazer a comida que comemos.

No campo também estão envolvidos os animais de tração, os agricultores e até mesmo as minhocas que revolvem a terra. De uma maneira ainda mais abrangente temos todas as plantas do planeta que produzem o oxigênio, sem o qual o fogo não seria possível. Engenheiros, agricultores, mecânicos, produtores, transportadores, vendedores e carregadores, todos estão envolvidos na produção desse alimento, então, em cada grão de arroz há sofrimento, dedicação, esforço, lágrimas e morte. Mesmo nossa comida sendo vegana nós matamos para comer, pois aramos o solo, derrubamos florestas para abrir campos de cultivo, nada do que está em nossa frente para comermos é inocente, tudo tem sofrimento e dor envolvidos. Por isso não jogamos fora nem um grão de arroz, raspamos a tigela com pão, lavamos com água quente e a bebemos.

As pessoas que comem sem pensar sobre tudo isso estão perdendo seu próprio elo com a natureza. Nossas vidas humanas são extremamente preciosas. Nós todos fizemos grandes esforços para virmos até esse sesshin. Em um nível mais profundo, construíram carma durante milhões de anos para estarem sentados nesse sesshin. Muitas vezes desperdiçamos tolamente nossas vidas sem prestar atenção a tudo que esteve atrás de nós, toda dor e sofrimento que nos possibilita estarmos em pé. Lembrem-se, todas as vezes que fazemos prostrações, estamos agradecendo a Buda, aos ancestrais e a todos os seres por estarmos aqui tendo a oportunidade de praticar e despertar, e também pela oportunidade de sermos felizes, pois a felicidade está disponível. Não somos felizes por construirmos infelicidade com nossa cegueira e por não enxergarmos tudo que existe por trás de um grão de arroz.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O céu azul não é perturbado pelas brancas nuvens que passam


 4) Às vezes quando estou mergulhada no zazen, um único fio de pensamento parece querer me tirar deste estado, não parece um pensamento, parece uma consciência conversando comigo, me apontando os defeitos e me criticando.  O que é isso?

Monge Genshô – É você mesma, mas você não deve tentar lutar com nada que surja em sua mente, não tente ficar sem pensar. Esse é um erro comum. Quando o pensamento surgir apenas o deixe ir da mesma forma que chegou. Não o agarre, não o siga e, principalmente, não faça encadeamento de idéias.

O céu azul não é perturbado pelas brancas nuvens que passam. Deixe as nuvens, pensamentos, passarem, surgirem e desaparecerem. Qualquer que seja o pensamento, de ódio, raiva, amor, paixão, você não deve se sentir culpada por tê-los. O pensamento é apenas um borbulhar de sua mente. Os pensamentos que surgem em nossa mente estão ali porque em algum momento foram alimentados com aquele tipo de idéia. No zazen você apenas senta, não tente ser ninguém, não tente ser uma boa pessoa, apenas sente.

Durante o zazen não estamos criando muito carma, estamos imóveis, porém, se você alimentar algum tipo de pensamento irá gerar carma, pois está construindo uma mente, não tente construir nada, apenas sente e tente ficar no aqui e no agora. Isso é extremamente desafiador. Sentado você está tentando criar condições na sua mente na qual podem aparecer as experiências místicas, ficando imóvel, calado e no momento presente. Essas experiências de clareza e lucidez são as coisas que desejamos enxergar, mas para isso precisamos de uma mente limpa e a maneira de limpar não é não pensando, pois não pensar é um pensamento. Apenas deixe acontecer. Tetsugen disse que quando você conseguir ficar 40% do tempo de seu zazen em samadhi, com a mente limpa, pensamentos vindo e indo sem que você os toque, o despertar se aproxima.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Invisível para os olhos comuns


3) Imaginando que entrasse nessa sala agora um ser totalmente desperto, nós conseguiríamos perceber?

Monge Genshô – No século XX o cientista mais reconhecido talvez tenha sido Albert Einstein. Ele era uma pessoa brilhante desde criança, porém um de seus professores disse que ele não seria ninguém na vida, foi reprovado em um vestibular embora suas notas altas em exatas. Foi recusado como professor de física na Universidade de Berna porque não tinha diploma universitário, tinha apenas um diploma de técnico do curso que havia feito na Escola Politécnica de Zurique. Trabalhava no sistema de Patentes e era um funcionário de terceira classe. Em 1905, ainda como funcionário de terceira classe, escreveu cinco trabalhos e entre eles estava a “Teoria da Relatividade”, um artigo sem notas de referência a ninguém, um trabalho totalmente novo.

Descreveu também o “Efeito Foto Elétrico”, o Movimento Browniano onde explicava porque as partículas não param de se movimentar. Qualquer desses trabalhos era suficiente para ganhar o Prêmio Nobel, fato que aconteceu para o Efeito Foto Elétrico. Em 1917 ele escreveu a Teoria Geral da Relatividade. Antes de todos esses trabalhos ele não havia tido qualquer tipo de reconhecimento. Seu trabalho sobre a Teoria da Relatividade não recebeu o prêmio Nobel, pois não foi compreendida integralmente pela Academia Sueca que cogitaram a possibilidade de que ela estivesse incorreta, por isso ele recebeu o prêmio pelo Efeito Foto Elétrico, era algo que eles conseguiam entender.

Hans Kilian, famoso cirurgião alemão, conta em sua autobiografia que era um adolescente muito alto, acima do normal e seu professor de latim sempre o ridicularizava e o chamava de burro “sic longus, sic stultus” (tão alto, tão tolo). Quando pensamos no caminho espiritual, se eu lhe perguntasse se você concorda que Jesus Cristo foi um grande líder espiritual, o que você diria? Sim, não é? E o que fizeram os soldados romanos? Você acha que se eles vissem que ele era uma pessoa iluminada o teriam tratado daquela forma? Bodhidarma esteve frente a frente com o Imperador Wu, mas este não o reconheceu como um grande mestre, até que escreveu um poema que dizia: “Eu o vi, sem ver”.

Havia pessoas que chegavam a desafiar Buda e até quem tentasse matá-lo. Se ao olhar para uma pessoa fosse claro ou houvesse uma espécie de luz dourada em volta, isso não aconteceria.  Só consegue ver a iluminação quem é iluminado. Aos olhos de alguém que conseguiu uma realização espiritual, quando surge uma pessoa que também obteve uma realização, ele consegue perceber. As vezes a própria pessoa ainda não percebeu.

Saikawa Roshi uma vez me disse que estava na Espanha e durante uma entrevista encontrou uma pessoa iluminada. Ela sentou-se à sua frente no dokusan e lhe disse: “uma vez eu morri”. Através de uma série de perguntas ele pode confirmar que aquela pessoa havia despertado. O despertar precisa ser testado e só quem pode fazê-lo é quem sabe, quem já passou pela experiência. Muitas outras experiências também são assim, se você já amou e uma pessoa vem lhe falar de amor você imediatamente sabe do que ela está falando.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Coração e mente


Saikawa Roshi, um grande mestre.

Uma vez, aqui mesmo neste local, uma senhora passou e nos viu fazendo zazen, depois comentou com uma praticante: “Como vocês podem ficar o dia inteiro com a cara enfiada na parede? Que monótono”. Somente nós que ficamos o dia inteiro com a cara enfiada na parede e percebemos a quantidade de coisas que emergem e se mexem em nossa mente, sabemos que ficar ali não é monótono. Há muita coisa acontecendo dentro daquelas pessoas sentadas quietas com a cara enfiada na parede. Vocês sabem que dentro de vocês há infinitas coisas acontecendo, há muito assunto para resolver.

Um algumas  escolas existe um retiro onde o praticante é colocado dentro de uma caverna e pratica meditação o dia inteiro, recebe refeições diárias e isso acontece durante três anos. No Zen também existem histórias de retiros assim, Bodhidharma ficou nove anos em uma caverna. Precisa de tempo para aprender algo sobre si mesmo. Nossos retiros são de tempo insuficiente para depurarmos nossa mente. Mas o sesshin é mais uma preparação, no zazen nós preparamos o terreno e é mais provável que lá fora, após o retiro, vocês possam ter um insight, é esse tipo de experiência que estamos procurando, experiências não expressáveis com palavras, mas uma percepção de que algo mudou.

A paisagem é a mesma, mas a maneira de percebê-la é diferente. Antes você olhava para uma montanha e apenas a via, depois você será capaz de ouvi-la. Se você for capaz de ouvi-la, conseguiu algo inenarrável. É por isso que as pessoas sofrem nos retiros, mas estão sempre retornando. Alguma coisa aconteceu.

PERGUNTAS

1) Como funciona essa relação coração e mente? Se o coração é a casa do sentimento como é possível acessar isso?

Monge Genshô – Todos os sentimentos também são construídos. Amor, ódio, paixão, tristeza, alegria e felicidade são construções de nossa mente. Coração e mente são uma só coisa, em japonês elas têm o mesmo radical “shin” formando o “kanji”. Há uma famosa frase “ISHIN DEN SHIN”, que significa “de mente para mente” ou “de coração para coração”, nesse sentido mente e coração são indistinguíveis.

O que temos que perceber, e que às vezes é muito difícil, é o quanto de construção tem em cada coisa. Pensem no seu primeiro amor, quando você olhou para uma pessoa e se apaixonou, imediatamente projetou uma série de sonhos e ideais. Tudo que você construiu a seguir foi pensando nisso. Há muita fantasia e construção nisso, mas conforme o tempo vai passando vamos percebendo que as coisas não são exatamente como foram construídas. A relação será mais bem sucedida se não forem acalentadas demasiadas ilusões e principalmente se você vir que a outra pessoa é apenas um ser humano. Com o professor do Dharma é a mesma coisa, muitos o colocam como um ser superior e infalível o que é um tremendo engano. Por um lado devemos ter grande reverência pelo manto de Buda, mas por outro lado não devemos criar um culto à personalidade. Nós gostaríamos que os sentimentos fossem surgimentos maravilhosos, mas eles são construídos e coração e mente são uma coisa só.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Quem te impede de ser feliz?


Buda colocou o foco de seu treinamento no sofrimento. Quando alguém lhe perguntava sobre a existência de espíritos e deuses ou sobre a origem do mundo e vida após a morte, ele se recusava a responder, pois especular sobre esse assunto não resolve o problema do sofrimento, portanto não é relevante.

Desta forma Buda se recusava a discutir coisas não verificáveis e dava atenção aos problemas da mente e em como construímos nosso sofrimento. Por mais incrível que possa parecer, a felicidade está plenamente disponível. Nosso sofrimento é construído dentro da nossa mente. Quando alguém pergunta como construir sua liberdade, a única resposta possível é: “Quem lhe impede? Quem te impede de fazer qualquer coisa”? É com nossa maneira de ver o mundo que construímos nosso sofrimento e nossa prisão.

Construímos nossa ansiedade alimentando expectativas futuras. Construímos nossa angústia pensando em nossa finitude, nossa morte e no fim de todas as coisas. Pensamos logo em seguida em qual o sentido da vida se tudo caminha inevitavelmente para uma dissolução. Ao nos enchermos de angústia e ansiedade perdemos o mar, as montanhas, os pássaros e as flores, perdemos esse imenso privilégio de estarmos aqui. Por fazermos as coisas rápido demais perdemos o contato com a realidade e todo o sesshin é construído para que retomemos esse contato com a realidade do momento presente.

Ao ficarmos silenciosos não agitamos nossa mente com conversas inúteis, não fazemos piadas e nem brincamos com os outros, desta forma não agitamos nossa mente e nem a dos outros. Os rituais são longos e monótonos para que comecemos a prestar atenção aos detalhes. A refeição com oryoki é uma aula de momento presente onde em cada palavra e cada verso, somos chamados a prestar atenção. Com nossa mente temos a capacidade de transformação.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A simplicidade da iluminação



Iluminação é atingir um ponto tal onde esta capacidade de perceber e sentir está sempre presente, podendo sempre ser chamada. Isso é o “Satori”. Noto que muitos têm dificuldade de explicar a simplicidade disso. As elaboradas teorias filosóficas do budismo são interessantes, foram desenvolvidas durante milhares de anos, mas não proporcionam automaticamente a iluminação. A única coisa que realmente proporciona uma capacidade de libertação do passado e futuro, viver plenamente o momento, é uma forma de  prática. Então surge a pergunta: “Quanto zazen eu tenho que fazer?” Esta não é a questão. Zazen é a “forma” de treinar este descarte de passado e futuro, ficando aqui e agora, mas se conseguir fazer isso em sua atividade diária, você transforma em zazen aquele momento. Comer é zazen, é isto que o “oryoki” pretende ensinar. Você pode voltar à mente do zazen esperando em uma fila, lavando louça, varrendo o chão.

Uma vez estava ao lado de um mestre tibetano, Chagdud Rimpoche, e meu filho então com 7 anos fez a pergunta: “Quanto tempo o senhor medita?” e ele respondeu: “24 horas por dia”. Isso é importante, nós podemos levar a prática para além do zazen. 40 minutos de zazen em um dia e dizer: “Eu já pratiquei hoje”, não é muita coisa, serve apenas para serenar. Você tem que levar a prática mais longe.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Bia Jikihô San em Gotanjo Ji





Jikihô San (Bia Gonzaga), entrou hoje no mosteiro de Gotanjo-ji onde fará treinamento monástico, durante algum tempo não poderemos falar com ela exceto por carta escrita. Fotos de sua chegada abaixo, agradecemos a todos que ajudaram para que ela pudesse lá chegar. Deixou aqui sua filha de 12 anos e seu trabalho. Chudô San (Ápio) foi para outro mosteiro cumprindo a regra de afastamento de todos os relacionamentos durante este tempo. Ele pretende ficar 2 ou 3 anos em Sojiji Soin, teremos novas notícias provavelmente em 3 meses.

Insights


Vamos comentar um pouco sobre as experiências do sesshin. Em geral, durante o zazen não há experiências místicas, não há insights, é raro. Os insights tendem a ocorrer fora do zazen. No zazen você prepara a mente. Muitas pessoas sentam para entrevista e comentam que fizeram um zazen “péssimo”, com uma quantidade incrível de pensamentos, etc. Ora, ao sentar e o fluxo de pensamentos apresentar-se, você pode deixá-los passar, pois uma hora eles cansam. Por isso, quando o pensamento aparecer, você pode dizer: “Você de novo? Eu já pensei isso. Eu vou ouvir o riacho”.  Com isso os pensamentos se dissolvem e, no segundo dia, essa invasão de pensamentos é reduzida, porque estamos cansados e a mente está cansada destas reapresentações.

Existe o método intelectual, que a psicologia e os terapeutas usam, que se baseia na elaboração do problema, com longas discussões das preocupações mentais.  Sem considerar tal método errado ou inútil, mas no Zen o que fazemos é descartar o que passou. Posso até ter vivido minhas lembranças, mas só vejo isso porque tenho e acalento memória. É essa memória que pesa e nos faz carregar o passado. Então, no zazen esvaziamos nossa mente, deixando os pensamentos passarem até que eles desistam.

Você pode fazer um zazen totalmente errado se sentar e rememorar seus pensamentos com prazer. Isso não é zazen, você apenas sentou para pensar. Mesmo que seu zazen tenha sido cheio de perturbações, mas você ficou no momento presente e persistiu, pode sair do zazen e, de repente, ter uma experiência pura. Uma experiência presente e maravilhosa, extremamente simples, algo que você sempre fez, mas apresentou-se magnífica naquele instante. Esta é a experiência iluminada, como um flash de iluminação. Você não está iluminado, mas teve uma experiência iluminada, muito curta, pequena, mas teve.


O desafio portanto, é: como posso treinar para ter essa mente permanentemente por muito mais vezes? Como transformar cada pequeno ato em um ato maravilhoso? Com isso a vida torna-se maravilhosa. Não existe tristeza ou depressão na vida em que você vê o maravilhoso nas pequenas coisas que está fazendo. Essa é a diferença entre a vida normal e a vida desperta. A vida normal é como uma jornada cheia de neblina, com muitas preocupações, carregando coisas do passado, tristezas e sem enxergar a maravilha da vida. A vida iluminada é a mesma vida, igual, porém sem neblina, com uma luz clara, ouvindo e sentindo esta maravilha. Por isso dizemos que não é “nada de especial”, mas ao mesmo tempo é extraordinário, pois cada um que senta sabe como é difícil.

Durante, ou mesmo um ou dois dias após o sesshin ainda podemos ter uma experiência iluminada, mas mesmo assim devemos continuar a praticar. Caso a prática não seja contínua, mesmo uma experiência em sesshin desaparece e vira memória. Podemos até lembrar da experiência, mas não mais a temos naquele instante. Essa é a diferença de uma experiência iluminada, e iluminação.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Observações sobre linhagens femininas no Theravada

Prof. Sasaki fez algumas observações sobre a postagem anterior, pela sua pertinência as apresento, ressalta-se que são feitas a partir da ótica Theravada a qual pertence o professor.

1) Para o Prof. só pode haver ordenação de mulheres, seguindo o Vinaya, se houver uma ordem de mulheres existente e ininterrupta até Buda. Informa que fora do zen japonês existe isto no Vietnam, China e Coréia.
2) No Theravada e no budismo tibetano, as linhagens femininas pereceram. Houve massacre islâmico mas ele é responsável por um evento indiano, o qual não atingiu outras áreas. Não é o único responsável pela interrupção de linhagens. Dentro do Theravada moderno há grupos querendo ordenar monjas e outros grupos que não aceitam isto.
3) Evidentemente o Theravada passado já aceitou monjas, o problema atual se prende a questão de linhagem explicitada no item 1.
4) O fato do zen não apresentar esta restrição a ordenação de monjas não implica uma superioridade de tolerância e sim um entendimento diverso de linhagem.
5) Para o Prof.  : "Só há monjas no Theravada se aceitarmos os argumentos pro ordenação modernos"

Linhagens femininas


Pergunta – Quando fazemos cerimônias, recitamos os nomes dos patriarcas. Por que não temos nenhuma matriarca, apesar de no budismo não haver a distinção dos gêneros?

 Monge Genshô – Não é verdade. No tempo de Buda tivemos Prajnapati, que era sua tia, e que foi uma grande mestra. Ela juntou-se à Buda com um grupo de amigas dando origem a uma grande linhagem feminina. Acontece que por volta do século XIII a Índia sofreu uma invasão islâmica que destruiu praticamente a base budista existente na época, as monjas foram mortas, este foi um dos eventos que marcou uma decadência do budismo indiano, em outras regiões linhagens femininas permaneceram, mas ao menos no budismo Theravada, no japonês e tibetano as linhas femininas se extinguiram com o tempo.

Também a universidade de Nalanda foi destruída. Muitos monges também foram assassinados, mas, como por uma questão cultural, sempre houve mais monges que monjas, elas foram extintas, acabando assim com a base contínua de transmissão de monjas. A partir de então as monjas passaram a ser ordenadas nas linhagens masculinas ao menos no zen. Não temos nenhuma monja cuja linhagem nos leve a Prajnapati no zen japonês. Por isso falei que não é verdade, já tivemos no passado uma linhagem feminina.

Linhagens Theravada do sul da Ásia, não consideram as monjas como plenamente ordenadas. Eles as consideram inferiores por não terem linhagens femininas e por não considerar que elas possam ser ordenadas em linhagens masculinas. Há controvérsias e tentativas de recriar isto no Theravada mas não com unanimidade.


Pergunta – Mas por que Bodhidharma não transmitiu para uma mulher?

Monge Genshô – Ele só passou a transmissão para uma única pessoa, que por acaso era homem, “Taiso Eka”. A sociedade dessa época era muito machista, de forma que era natural acontecer coisas do tipo, uma mulher era ordenada monja, mas seu pai ia até o mosteiro dizendo que seu filho homem havia morrido e ele necessitava que sua filha lhe desse um neto para continuar o nome da família. O abade do mosteiro mandava que a monja saísse do mosteiro, casasse e desse um neto para seu pai.  No Japão de hoje existem apenas dois monastérios exclusivamente femininos.

Pergunta – A linhagem não é uma exclusividade do Zen?

Monge Genshô – Não, varias escolas possuem linhagens, veja que Nagarjuna, que aparece na nossa linhagem, também aparece na linhagem de outras nove escolas, ou seja, mais nove escolas o reivindicam como patriarca do passado.

Pergunta – Como reagir com as pessoas que nos perguntam algo sobre o budismo? Eu pratico há pouco tempo, mas as pessoas notam algumas mudanças e fazem perguntas e pelo que o senhor fala devemos ter cuidado com quando e como falar do Dharma.

Monge Genshô – Essa é uma pergunta pessoal, no sentido que é você quem deve examinar a circunstância, mas a regra é: não fale do Dharma onde não há respeito. Não fale apenas para satisfazer a curiosidade de uma pessoa, espere que ela esteja realmente interessada, que pergunte mais de uma vez, pelo menos três vezes. Não fazemos proselitismo e não estamos interessados em convencer ninguém. As pessoas devem realmente querer, devem procuram com afinco.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Tecnologia


Pergunta – Mas e se a pessoa não quiser prestar as reverências ou acender velas?

Monge Genshô – Se você acender velas para uma estátua não estará fazendo mal algum e se não quiser acender, não acenda. Mas a atitude budista mais correta é a de fazer o que as pessoas estão fazendo, então se você está junto de pessoas que esperam que você faça uma reverência e acenda velas, é isso que deve fazer, você não deve chocar, contrariar ou criar conflitos. Devemos procurar a harmonia.

Pergunta – A sociedade tecnológica está tomando conta do mundo hoje. O budismo vê esse avanço tecnológico?

Monge Genshô – A tecnologia é algo maravilhoso, mas é aética por natureza, por exemplo, uma faca pode tanto ser usada para cortar pão como para matar uma pessoa. A tecnologia é um instrumento e como tal pode ser usado para o bem e para o mal. O avanço tecnológico liberou o homem, veja bem, há duzentos anos 90% das pessoas estavam no campo produzindo comida. Quando eu nasci a sessenta anos atrás, 30% das pessoas já estavam nas grandes cidades e hoje esse quadro inverteu-se totalmente, temos 90% das pessoas nas cidades. Nos EUA menos de 3% das pessoas trabalha no campo produzindo alimentos para todo o país e ainda para exportação. A indústria ocupa por volta de 13% das pessoas, a grande maioria trabalha em serviços, é por isso que olhando para as mãos das pessoas nessa sala percebemos que ninguém tem calos ou sujeira embaixo das unhas.

Hoje em dia não se morre aos trinta anos de alguma doença desconhecida. A tecnologia melhorou nossa qualidade de vida. O bom seria que esse tempo a mais proporcionado pela tecnologia fosse ocupado com mais leituras, mais dedicação para olharmos para dentro de nós, mais estudos e para ter um nível de informação melhor. Antes da invenção da imprensa quem tinha oportunidade de ler livros? Santo Agostinho fez um comentário sobre Santo Ambrósio: “O Bispo Ambrósio é o homem mais culto do nosso tempo, imaginem que ele é capaz de ler sem mover os lábios”. Hoje, meu filho de sete anos é capaz de ler sem mover os lábios. Você pode ligar a TV para ver um documentário de qualidade, assistir uma ópera ou pode assistir um programa de baixa qualidade moral, é você quem escolhe. Toda a tecnologia é assim.

Respondendo sua pergunta, o budismo não faz julgamentos sobre tecnologia. Ainda temos tecnologia de má qualidade, por exemplo, produzimos energia queimando carvão e poluindo a atmosfera. Temos muitos estudos na área de produção de energia, mas tudo muito no início. Nossa produção de energia ainda é incipiente, não poderíamos dizer que a partir de amanhã não queimaríamos combustíveis fósseis, isso pararia o país.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A devoção


Algumas pessoas sentem falta de devoção. A devoção e seus aspectos místicos sempre foram importantes na história da humanidade. A porta da devoção, já nos tempos de Buda, era destacada como uma das práticas de yoga, a “Bhakti Yoga”. Ocorre que o budismo fez uma “terra arrasada” das crenças e isto fez com que muitas pessoas se sentissem desamparadas, o que ocorre ainda em nossos dias. Algumas pessoas sentem-se chocadas quando chegam ao Zen e percebem que não existe nada onde se agarrar ou alguém a quem apelar.

À medida que o budismo se expandia, tinha que lidar com a cultura que estava disponível. Na Índia, os sutras iniciais falam dos “deuses do hinduísmo”. Os autores escreveram que os deuses solicitaram a Buda que ele ensinasse o Dharma, até mesmo aos próprios deuses. Quando o budismo chega à China encontra aspectos tonfucionistas e taoístas.  O budismo, então, incorpora muitos símbolos e palavras confucionistas e taoístas, pois essa era a maneira de expressar os pensamentos.

Do confucionismo o budismo adota o conceito de “devoção filial” e reverência aos antepassados. Os primeiros chineses, não se identificando com o vazio do pensamento budista sentem-se chocados e, em razão disso, são escritos Sutras Mahayanas que enfatizam a devoção filial. Era uma forma do budismo dizer que não combatia a cultura chinesa de devoção, mas sim a incorporava.

Os deuses da China e do Tibete também foram incorporados ao panteão budista popular. Ocorreu o mesmo quando o budismo chegou ao Japão e encontrou os diversos deuses do Xintoísmo. Como forma de incorporar esses deuses, o budismo os transforma em protetores. Ainda hoje encontramos nas casas japonesas deuses xintoístas como divindades budistas protetores do lar. Aqui mesmo em nossa sangha há logo na entrada uma estátua de “Jizo Bosatsu”, representado com um bastão em uma das mãos e na outra uma criança. Jizo Bosatsu é o protetor das crianças e dos viajantes. É originário dos tempos de Buda? Não, é uma divindade local  incorporada ao Zen e transformada em Bodhisattva.

Nem Buda pode ser considerado um ser de devoção, pois foi um homem como nós que mostrou que era possível se iluminar. Como havia nas pessoas a necessidade de devoção, foram criados seres como o “Bodhisattva da Grande Prática”, Fugen, o “Bodhisattva da Grande Sabedoria”, Manjusri ou ainda Kannon, o “Bodhisattva da Compaixão”. Esses Bodhisattvas são, então, expressões das necessidades devocionais. Se você perguntar para um grande mestre Zen se todos os Bodhisattvas existem de fato, a resposta dele será, “Se você acredita neles, eles existem”.

segunda-feira, 31 de março de 2014

O futuro com melhor tecnologia


4) Da forma que vivemos estamos sempre insatisfeitos, somos estimulados ao consumo sempre de novos e mais modernos produtos. A essência como o senhor falou, é a satisfação, mas isso não nos levará a um comodismo?

Monge Genshô – Não, não levará. Nós estamos subestimando o que vai acontecer conosco. As pessoas que querem regredir e voltar para uma vida do machado, não sabem como era nessa época. Nenhum índio que conheça a civilização deseja voltar a sua vida tribal. As pessoas morrem com vinte e poucos anos em média e mais da metade das crianças morre antes de completar um ano. Fome e frio são situações frequentes. Nós tivemos conquistas maravilhosas com a civilização. A libertação feminina é uma destas conquistas que veio com a revolução industrial. Antes disso, rachar lenha era trabalho para homem. Antes da medicina desse século tínhamos mais homens que mulheres, pois a mortalidade de mulheres no parto era enorme. Vivemos hoje quase o dobro do que vivíamos na década de quarenta. A solução para a humanidade não é menos tecnologia, o problema é que a tecnologia que empregamos é pobre e muitas vezes burra e destruidora, mas é perfeitamente possível ter casas auto-suficientes energeticamente, não precisamos produzir tanto lixo, não precisamos lançar os dejetos no mar, não precisamos matar para comer pois, com a tecnologia disponível hoje, muitas coisas não seriam necessárias.

Com mais tecnologia podemos consumir de forma diferente, mas precisamos de educação e conhecimento, porém, a humanidade está à beira de passar por uma situação que é a extinção do trabalho. Mais algumas décadas e a maior parte do trabalho será feito por máquinas com inteligência artificial e muitas das profissões que conhecemos terão se extinguido. Nesse momento, os homens terão que olhar para si mesmos e perguntar qual o sentido da vida. Já vivemos situação parecida na época dos escravos na qual uma pequena parcela da população, cerca de 10%, era cidadão, isso aconteceu em Atenas. Cada cidadão ateniense tinha nove escravos e ele não precisava fazer nada. Como resultado, a Grécia produziu filosofia.

Teremos que descobrir novas coisas para fazer, pois toda nossa educação irá mudar totalmente. As religiões sofrerão enorme crise, pois iremos perguntar se um cérebro eletrônico que é capaz de pensar e atinge auto consciência, tem alma ou não, está vivo ou morto e quem ele é. O budismo tem a resposta para isso, mas as religiões com almas não. As pessoas estão sendo invadidas por tecnologias cada vez mais sofisticadas sem que elas mesmas decidam como será seu mundo. Outras pessoas estão decidindo por elas, algumas poucas pessoas estão decidindo por todas as outras. Não vejo como isso poderá mudar, pois se você pergunta para uma pessoa ela olha para o passado, como na idade do ouro, mas estão enganadas sobre isso. A humanidade sempre olhou para o passado pensando ver uma idade dourada, isso sempre aconteceu, em todas as eras. Talvez esse seja o momento de olhar para o futuro e o budismo está preparado para isso, pois ele não busca ilusões e sim lucidez e clareza. Não desejamos santos ou pessoas iludidas, queremos homens e mulheres despertos, lúcidos e com clareza mental. Isso pode mudar o mundo.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Um balde de água gelada


2) Como é possível saber que se está no caminho certo?

Monge Genshô – O seu caminho não é o meu caminho. Eu posso lhe passar informações sobre o meu caminho, sobre as coisas que aprendi e isso pode lhe ajudar. Mas você precisa percorrer o caminho, pois eu não posso andar por você. Tudo que posso fazer é dizer que para mim funcionou desta forma. O budismo é experiencial e possui métodos para isso, mas a experiência tem que ser sua. O professor ajuda muito, às vezes estamos com um problema meses a fio sem resposta e apenas uma frase do professor parece dissolver o problema. Mas o professor não é de forma alguma a fonte da verdade.

3) Como posso saber que a experiência que tive não é apenas mais uma ilusão?

Monge Genshô – Dê um exemplo.

Aluno – Uma noite na semana passada que eu estava sem sono, não tinha nenhum problema, apenas sem sono. Pensei no filme de Dogen e sentei pra meditar. Não coloquei o relógio para estipular um tempo, apenas sentei por sentar. Comecei então a perceber coisas que nunca havia prestado atenção, não foi nada extraordinário ou fantástico e sobrenatural. Foi mais simples e intenso. Em dado momento não havia nada na mente, sentia e não sentia meu corpo ao mesmo tempo. Era como se tudo fizesse parte de uma única coisa. Não consigo explicar muito bem o que eu vi nesse momento, pois eram as mesmas coisas, mas pareciam diferentes. Era o mesmo quarto familiar, mas não do mesmo jeito que sempre o vi.

Monge Genshô – Essa foi uma boa experiência. Se você contasse qualquer coisa sobrenatural eu diria que foi uma ilusão. É interessante falar sobre o sobrenatural. As pessoas buscam experiências sobrenaturais. O Zen não trata muito bem o sobrenatural. Uma vez um discípulo disse a seu Mestre que sentava para meditar e os discípulos de Buda davam voltas ao seu redor. O Mestre mandou que lhe jogassem um balde de água gelada e os discípulos desapareceram. Na realidade, isso que acontece aqui agora, estarmos sentados olhando uns para os outros, cada um de nós com um corpo de uma espécie de primata com poucos pelos, eu estar falando, isso é sobrenatural, beber chá é sobrenatural, tudo à nossa volta é sobrenatural e as pessoas ficam procurando extraterrestres. Isso é uma loucura. Todos somos extraterrestres. Como poderíamos supor que um parente de chimpanzé poderia falar e ensinar matemática, construir casas e aviões? Isso é tudo sobrenatural. Não existe ninguém lá fora para nos ajudar, nem anjos, demônios ou deuses. Estamos todos juntos nessa sala, anjos, demônios e deuses. Como não enxergamos que isso é sobrenatural?

quinta-feira, 27 de março de 2014

“As palavras reduzem a realidade a algo que a mente humana é capaz de entender, o que não é muita coisa”


1) Essa segunda condição que o Senhor citou, uma pessoa ignorante que não tem o conhecimento do Dharma mas atinge a iluminação, ela necessariamente tem que estar ligada à alguma religião?

Monge Genshô – Ela pode estar ligada à uma religião, o budismo não é proprietário da iluminação. Outras religiões podem propiciar um caminho para o esclarecimento. Isso é muito fácil de comprovar vendo os escritos pois, quando vemos algo escrito por uma pessoa, podemos avaliar se é ou não algo feito por alguém que experimentou o despertar. Mas isso não significa santidade. Uma pessoa pode viver uma vida de santidade, mas não estar desperto. Pode até ser um mártir e não estar desperto. Ele pode por exemplo se sacrificar, levar uma vida reclusa e de santidade, mas com o propósito único de obter uma salvação para si, para “ele” ir para o céu. Esse é um objetivo egóico e significa um não esclarecimento, um não despertar. Mas posso citar místicos cristãos com uma clara experiência de despertar: Meister Eckhart, por exemplo, no século XIII e também São João da Cruz. É fácil perceber em seus escritos que eles obtiveram uma experiência espiritual de despertar. O essencial é não pensarmos que o budismo tem a “verdade”. O budismo é um método e a verdade é evanescente. 

Aluno - Qual a recomendação para iniciantes?

Monge Genshô – Ler um pouco. Aprender a sentar. Olhar sua mente. Tornar-se consciente de seu fluxo de pensamentos e sentimentos. Muita coisa muda quando começamos a perceber o quê e de que forma pensamos. Podemos descobrir, por exemplo, que não somos exatamente como ou quem pensávamos ser. Essas experiências começam no zazen, de frente para a parede é como se víssemos uma fotografia de nossa mente. Você pode descobrir que é capaz de transformar a sua mente e com isso alterar seu carma. Mudando o carma, tudo pode mudar. Você é professor de matemática, não é? Matemática é interessante. Muitas pessoas imaginam que matemática é certa e partindo de determinados axiomas construímos edifícios e dizemos que isso é matemático, certo, indiscutível.

No século XX passamos para outros estágios da matemática e isso mudou nossa noção sobre o universo e nossa capacidade de saber determinadas coisas. Porém este já é um discurso budista de dois mil e seiscentos anos atrás, não tínhamos então certos instrumentos para investigar a realidade. Estou falando e tentando comunicar algo, mas essa comunicação sempre será falha. Eu li uma frase bem interessante que diz: “As palavras reduzem a realidade a algo que a mente humana é capaz de entender, o que não é muita coisa”. Essa frase é fantástica, pois realmente acreditamos que somos capazes de entender a realidade e fazemos discursos, escrevemos textos e livros. A realidade só pode ser compreendida através de uma experiência direta, a experiência comunicada é obrigatoriamente produto semiótico, produto de símbolos e representações. Por isso que as pessoas dizem que ouvem o Dharma e não entendem. Mas é possível perceber certo entendimento nas pessoas  que não é perceptível através meramente das palavras.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Três formas de prática


Vou conversar com vocês sobre três formas de prática, que na verdade são três caminhos ou veículos. Veículo diz-se “Yana” e o primeiro veículo é “SRAVAKAYANA”, que é o caminho daquele que aprende através da compreensão dos ensinamentos, sendo que três ensinamentos básicos precisam ser muito bem entendidos para que consigamos uma libertação do sofrimento.

O primeiro é “Anitya”, ou seja, a impermanência. A primeira compreensão então é a compreensão profunda da impermanência. Se colocarmos nossa felicidade na permanência das coisas, certamente iremos sofrer. Quem aposta na beleza da juventude sofre, pois todos ficaremos velhos.

O segundo ensinamento que precisamos compreender é “Anatta”, de que nada tem um “eu” inerente. Todos os “eus” são construídos. Lembro-me de meu tempo de juventude quando tínhamos um fusca e lhe demos o nome de Pitanguinha. Lembro-me até hoje do dia em que o vendi e fiquei muito triste, mas na realidade ele nada mais era do que ferro, lata, motor, borracha e óleo. O carro havia ganhado um “eu”, era o Pitanguinha. O “eu” do carro é tão falso e construído como nosso próprio “eu”. Nós somos constituídos de pele, unha, ossos, carne, água e células, mas pensamos que temos um “eu” próprio. “Anata” é o ensinamento que não existe nenhum “eu” verdadeiro em coisa alguma, todos são construídos e entender isso, essa noção de separação de todas as coisas, que é uma construção mental, é um trabalho que exige lucidez e clareza.

O terceiro ensinamento para os Sravakas, aqueles que seguem o caminho de Sravakayana, é “Dukkha”, segundo o que toda a vida é insatisfatória, ou seja, nunca estaremos satisfeitos. Tudo que existe no mundo e que ambicionamos, logo depois de conquistado parece não ser mais o mesmo. As pessoas que desejam muito um filho, casam-se, têm o filho e este torna-se então a fonte da insegurança, sofrimento, ansiedade e até mesmo fonte de pesadelos em razão do medo de sequestros, doenças e morte. Esses sofrimentos são muito reais e de nada adianta explicar para  as pessoas que são sofrimentos construídos. Mesmo as coisas mais belas da vida estão sujeitas à “Dukkha”, não significa sofrimento, mas sim que a vida é cheia de sobes e desces, felicidade e infelicidade, riqueza e pobreza, saúde e doença.

Estava lendo sobre a vida de Bobby Fischer que em 1972 foi campeão mundial de xadrez. Desde os seis anos de idade era apaixonado por xadrez e em 1972 teve a oportunidade de desafiar o campeão mundial, Boris Spassky, um Russo que vinha de anos de vitórias, e o venceu. Depois desse ano ele não conseguiu jogar outros campeonatos, pois chegara onde jamais imaginara chegar, era campeão do mundo. O que aconteceu foi que logo após ter sua grande conquista, seu maior objeto de desejo, isso se dissolveu em suas mãos e tornou-se fonte de sofrimento. Viver num mundo fugaz de impermanência, pisando num chão que constantemente se modifica é um grande desafio, mas os Sravakas, compreendendo perfeitamente essas coisas, atingem a iluminação. Se tornam aqueles que através do ensinamento conseguem atingir a libertação, livrando-se de toda dor e sofrimento. 

O segundo Yana que eu quero comentar é “PRATYEKABUDHAYANA”. O “PRATYEKABUDHA” é alguém que não conhece um Mestre mas sozinho através da prática e da virtude, alcança sabedoria e iluminação. Ele não consegue ensinar pois não tem o conhecimento do Dharma, mas possui um esclarecimento interno. Vocês poderão encontrar esse tipo de pessoa, às vezes ignorantes dos conhecimentos formais do mundo, que mesmo sem mestre conquistaram sabedoria, eles não podem ensinar, mas através do seu exemplo e gestos, influenciam o mundo. Esses são os “Pratyekabudhas”.

O terceiro Yana é o “BODHISATTVAYANA”, que é aquele que segue o caminho de desenvolver uma grande compaixão e dedica sua vida a ensinar e ajudar as outras pessoas a escapar do sofrimento. Esse, o Bodhisattva, faz os votos que recitamos no final do zazen. O caminho de Buda é o caminho do Bodhisattva e sua atuação foi tão intensa que sobrevive até nossos tempos, ou seja, dois mil e seiscentos anos depois, estamos nós aqui falando de seus ensinamentos. Esse é o veículo ideal do Mahayana.