segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Srotapanna, aquele que entrou na corrente


1) O senhor falou em uma palestra sobre “entrar na corrente”, poderia falar um pouco mais sobre isso?

Monge Genshô – Penso que a intenção desta expressão em sânscrito, “Srotapanna”, que literalmente significa “aquele que entrou no rio”, srota significa fluxo e apanna aquele que entrou, seja transmitir a idéia de que você se comprometeu o suficiente com a prática para que ela arraste você.

Normalmente o que acontece com o leigo é que logo que ele inicia a prática fica empolgado, mas esta empolgação acaba e é fácil desistir.  Não existe a idéia de obrigação em praticar, não existe a noção de pecado e você não precisa participar dos retiros ou cerimônias, desta forma, as pessoas sentem-se livres para virem à Sangha quando desejarem. Mesmo os monges podem desistir quando assim o desejarem. Isso é perfeitamente possível, pois os votos são dele e não da instituição, e não haverá nenhuma excomunhão ou algo do tipo. Até mesmo um mestre com transmissão do Dharma pode dobrar seu manto e desistir do caminho.

O que acontece é que com o comprometimento, vão se criando vínculos psicológicos que vão firmando você na prática, seus amigos, o hábito de praticar, a comunidade, tudo isso vai criando um elo e fica mais difícil você se afastar, então, dizemos que alguém “entrou na corrente” quando fica muito difícil dele parar. Criou-se uma marca suficientemente forte para que ele continue sempre e, a partir de determinado ponto, o retorno fica difícil.

É como se existisse uma força alheia à sua vontade que o mantém na prática. É claro que para quem decide pelo caminho monástico, isso se torna cada vez mais forte. Acredito que isso seja assim em todo tipo de relacionamento, não é verdade? Não é assim com um namoro, por exemplo? Você conhece uma pessoa, convida para jantar, saem com mais frequência, conhece a família, coloca uma aliança no dedo e finalmente se casam, quanto mais você avança nesse processo, mais difícil de sair. Mesmo assim, não existe nada em lugar algum que diga que você esteja amarrado àquela pessoa, você pode sair do relacionamento quando desejar, mas realmente quanto mais profunda é sua relação, mais difícil de sair.


Aluno - Mas é possível sair da corrente?

Monge Genshô – Sempre dá, não existe nada de definitivo no mundo. Um dia alguém me disse que pensava ser difícil alguém “dar para trás” espiritualmente. Dar para trás na vida é muito fácil. Você pode sair da Sangha, se deparar com um briga no transito, discutir e matar uma pessoa, pronto, vai parar na cadeia e, de tropeço em tropeço sua vida pode ficar muito complicada.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O que você acredita não tem importância



Pergunta: O que fez com que o Buda visse as 500 vidas anteriores dele? O que determina isso? Há um princípio para isso?

Monge Genshô – Este assunto não interessa. O budismo não discute coisas não verificáveis. Você pode perguntar “como começou o mundo?”. Ah, não interessa. Têm várias teorias científicas para isso. Como começou o primeiro carma? Não sei. Eu sei que há carma aqui e agora, porque todas as ações tem efeitos e consequências. E é sobre isso que o budismo fala. Ele não faz especulações filosóficas que não temos capacidade de responder. Desta forma o budismo vem evitando todos os conflitos com a ciência que todas as outras religiões já tiveram. Porque o budismo não é religião de explicação, isso aí é para a ciência. O budismo é a religião do despertar, cujo interesse é saber como funciona o processo de ilusões na mente, como elas são construídas. Ah, se existe um impulso, uma consciência que resiste à morte e renasce em outro corpo. Sim, me parece bastante plausível. Mas está claro que ela não carrega um “eu”, não carrega uma personalidade. Se carregasse um “eu”, eu me lembraria de uma vida passada, e o meu eu seria o agregado das memórias da vida passada também. Mas eu não tenho memória de uma vida passada, só tenho desta. Portanto, todos os “eus” surgem agora e cessam agora. Se há continuidade, me parece evidente por uma questão de justiça. Se existe continuidade do carma, então existe continuidade de tudo o que você fez. E se eu tivesse um acesso de sabedoria superior, eu poderia rememorar vidas passadas. Mas isso é inútil aqui e agora! Completamente inútil para você. Primeiro você precisa despertar, e talvez aí isso seja útil.
Então, o budismo considera a continuidade desde impulso que irá se manifestar em novas existências, mas não ficamos discutindo isso. Até para vir se sentar e fazer meditação, isso não importa. O que você acredita não tem muita importância.

(Final das perguntas e respostas na palestra no centro de yoga em Palmas, Tocantins, decupada da gravação por Sonielson San)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Livre arbítrio



Pergunta: Como a meditação nos ajuda a atingir o despertar?

Monge Genshô – Te dando lucidez. A meditação ajuda para obter clareza. Quando eu digo isto sobre a floresta e sobre o mar, numa analogia à humanidade, é porque sentado em meditação eu senti isso. Então eu posso falar. Você usa o seu corpo como âncora para estabilizar a sua mente, e à medida que com a sua mente você vai a níveis mais profundos de consciência, passa a compreender coisas que não compreendia antes, não com o seu raciocínio, mas com seu sentimento. Se você for a um nível mais profundo, nenhuma pergunta resta sem resposta. Uma vez eu me reuni com um empresário de palestras, e ele me falou que “perguntas e respostas são sempre perigosas”, porque imagine se alguém faz uma pergunta e o palestrante não sabe responder? Mas, na verdade, para um professor do zen, qualquer pergunta é admissível, e você tem que responder todas.

Pergunta – Tem como o senhor falar um pouco sobre a visão que o senhor tem do livre arbítrio? Nós temos livre arbítrio?

Monge Genshô – Em parte, sim. Mas de maneira muito limitada. O livre arbítrio foi apresentado como uma construção para tornar um criador inocente das consequências (da criação). Se o criador fosse responsável por todas as consequências de tudo o que ele fez, se ele soubesse de tudo, ele seria tão responsável quanto qualquer artífice que faz uma coisa que dá errado. O livre arbítrio me faz lembrar-se de uma frase do João Ubaldo Ribeiro, que morreu estes dias, no livro sobre luxúria: - “Como alguém pode se sentir culpado de sentir algo que foi criado para sentir?”. Então quando nós dizemos livre arbítrio, você tem que se perguntar se você o tem realmente sobre o crescimento de sua barba, por exemplo. Não, não tem. Diante de quem? Da testosterona? Dos hormônios do seu corpo, que podem alterar o seu humor e seus desejos? Você é livre realmente, ou em grande parte sua conduta é ditada pela sua própria condição de ser humano? Então em que medida nós estamos realmente livres nas nossas decisões? Normalmente nós fizemos uma corrente de acontecimentos que nos conduzem numa determinada direção. Às vezes nesta corrente existe um remanso e você tem a oportunidade de nadar para o lado, de mudar o rumo da sua vida. Às vezes você tem grandes momentos de escolhas, uma escolha pequena que pode causar um enorme resultado, como aquele exemplo do efeito borboleta. Mas em grande parte a nossa vida vai transcorrendo numa corrente lógica. Vocês precisam comer, então precisam trabalhar, precisam ter renda, e precisam disso e daquilo. Então, as escolhas que fazemos têm que ser amadurecidas e às vezes levam anos para que possam ser executadas, devido à própria contingência da condição humana. Mudar o carma é complicado, precisa grande esforço. É possível? Sim, é possível. Claro que é possível. Mas vai demandar esforço, tempo... agora dizer que uma pessoa é verdadeiramente livre, é ignorar as condições em volta. Você vai dizer a um rapaz criado numa periferia violenta de uma grande cidade que ele teve livre arbítrio?  Nós temos que pensar no carma. Quais foram as circunstâncias pregressas que resultaram nesta condição? O objetivo de agora em diante, portanto, é saber como conseguir se livrar destes condicionamentos e energias aprisionantes a certas formas de reação.

Pergunta – Mas quando se fala em livre-arbítrio, eu me reporto àquela ideia de que todos os dias nós temos a possibilidade de escolher este ou aquele caminho, de ir para a direita ou esquerda, por exemplo... se não, a impressão que fica é que estamos totalmente presos, sem possibilidade de mudança...

Monge Genshô – Sim, nós temos alguma opção, mas isso não pode ser confundido com liberdade plena. Eu não posso chegar e dizer assim: - “Você é culpada por tudo o que está acontecendo na sua vida, desde o seu nascimento”. Não é verdade! Você já nasceu no Brasil, isso já muda as coisas. Se você tivesse nascido na Noruega seria diferente. Uma coisa é você nascer na Faixa de Gaza, outra coisa é você nascer em Luxemburgo. Então o livre arbítrio ocorre em termos, porque você tem alguma liberdade, mas ela não é tanta assim. E a maioria das pessoas que eu conheço, têm suas vidas condicionadas desde a infância, com coisas que começaram muito remotamente. Com papai, com mamãe, com dado país. Até o fato de você ter nascido mulher, dá para mudar? Olha, até dá, mas é complicado à beça. Então você é completamente livre? Não! Grande parte do que você é já está predeterminado agora. Na verdade este conceito de livre arbítrio não pertence ao budismo. Nós estamos comentando aqui, mas ele veio de outra cultura. Ele vem de um raciocínio medieval para solucionar a questão da responsabilidade do criador na existência do mal. É isto! Mas o budismo não tem criador, portanto esta questão em essência não se coloca.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Vendo a humanidade



Pergunta: Monge, eu gostaria que o senhor falasse mais sobre o apego.

Monge Genshô – É mais um dos agregados do ego. É como se você fosse algo com ganchos, e no decorrer da sua vida você pendura coisas neste ego. Meu carro, minha casa, minha roupa, meu emprego, meu título. Quanto mais coisas você engancha, maior chance de sofrimento você tem, porque por mais coisas o seu sofrimento vai ocorrer. Você ampliou a área de contato com o mundo, com as possibilidades de sofrimento. O apego são estes ganchos, mas você poderia ter tudo isso sem ser um anzol, sem ter um anzol em cada coisa.
Por exemplo, nós não sofremos por causa de amor. Nós sofremos por causa de apego. Todo mundo entende quando a gente diz que “você tem um filho, daí o filho ganha uma bolsa para estudar no exterior, aí vem uma mãe e diz: ‘não, você não vai, porque você não vai me deixar aqui sozinha’”. Isso é apego. Mas se ela ama realmente este filho, ela diz: - “Meu filho, vai ser tão bom pra ti. Vai!”. Depois ela vai sofrer quando vir o quarto do filho vazio, mas o amor é desapegado. O apego é que é fonte de sofrimento. Como se livrar do apego? Ora, mais compreensão, mais sabedoria. O que você diria para a mãe que diz “não, não vai meu filho?”. Diria, você é uma egoísta, você está prejudicando e impedindo o progresso do seu filho. Você diria isso para ela, não é? Ou seja, você tentaria dar sabedoria para que ela compreendesse que o filho não é uma propriedade dela, algo que ela enganchou,  algo que ela não pode largar de jeito nenhum.

Pergunta: Então o não-eu é a dissolução destes papéis? Nós deixamos de ser uma individualidade...

Monge Genshô – Sim! Você usa a individualidade como instrumento, mas você sabe que não é aquilo. “Eu tenho um eu, mas eu não sou aquilo”. Na verdade, vocês pensam: - “Eu estou vendo uma palestra com o Monge Genshô”. Mas o Monge Genshô não é isto que vocês estão vendo. Eu sou uma criatura de sonho, construída para vocês enxergarem. Você todos são criaturas de sonho também. Eu sou uma criatura de sonho falando para criaturas de sonho, por isso morte e nascimento não existem também. Nós acreditamos que nascemos e morremos. Não é verdade! Nós só somos a vida se manifestando. É a vida que nos vive, não somos nós que vivemos a vida. Então, a humanidade vista como um todo é algo lindo. O sofrimento surge quando passamos a observar as particularidades, quando passamos a olhar para cada pedacinho daquele que aparentemente nasce, se desenvolve, passa por declínio e morre. Ora, nós só olhamos para as “ondas individuais”, e cada onda individual desta vai quebrar, mais cedo ou mais tarde. Eu estou falando para uma platéia de condenados a morte, não estou? (risos). Todos têm uma corda amarrada no pescoço, estamos caindo de um precipício, ninguém sabe o comprimento da corda, a qualquer momento “pá!”, não é? É assim para mim também. Isso é trágico? Não! Isso é como o mar e como a floresta. Nós somos esse imenso conjunto, mas nos pensamos como indivíduos. E assim como loucos pensariam que cada folha é um indivíduo e que é trágica a sua morte, assim também são loucos os homens que olham para a humanidade e lamentam suas mortes. Nós devemos festejar a maravilhosa vida que pulsa a todo instante. Isto sim, isto é ver a humanidade.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Papéis sofredores


Pergunta: E quando não tem mais jeito de ajudar uma pessoa? Quando o nível de depressão dela é tão grande, que faz até medo ela se suicidar... Os amigos trabalham o tempo inteiro  mas a pessoa não reage...

Monge Genshô – Esta é uma questão muito comum, que sempre é levantada. Por exemplo, uma pessoa perdeu um filho único, e daí toda a família quer ajudar, e fica todo mundo em volta. Então, quem ela é? Ela é a mãe sofredora que perdeu o filho. E se ela abandonar isto, cadê a identidade dela? Ela não sabe, mas precisa ser a mãe sofredora que perdeu um filho para ser importante. Em algum momento alguém precisa chegar e dizer: -“ Chega!”. A vida, o tempo inteiro, se apresenta na frente. Há uma vida e mais outras vidas para viver, você não precisa acabar-se porque perdeu um filho. Minha avó materna perdeu 20 filhos. Ela teve 23 filhos, sobraram três e ela continuou vivendo. Ela era uma avó muito interessante para mim, muito amorosa com o neto. A minha mãe perdeu quatro filhos. E no fim da vida ela dizia “como eu sou feliz, como eu sou feliz”. Sim, muito feliz. Não é necessariamente porque aconteceu algo em sua vida que você está acabado, porque ainda há muita coisa, ainda há muitas vidas para se viver. Agora se você ficar agarrado na fantasia, no papel de sofredor e de vítima, pode ser que este papel seja tudo que sobrou para você, e a atenção dos seus amigos seja preciosa. Imagine, e se abandonar este papel? Será que os amigos vão correr atrás, vão tentar consolar?  Quem sabe vocês estão ajudando tanto esta pessoa, que ela não pode mais escapar deste papel?

Pergunta: Voltando à questão das identidades, como tratar disso com as crianças pequenas?

Monge Genshô – Então, como eu já falei nós precisamos de identidades para transitar no mundo. Então dê a elas identidade. Iluminação é outra coisa que vem depois, mas como ser humano você não vai poder viver sem identidade.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O eu necessário


Pergunta: Quando o senhor diz que somos iguais, e que devemos esquecer-nos de nós mesmos. Vem-me à mente que a busca do autoconhecimento já não é mais tão importante nesta jornada [espiritual]. É isso?

Monge Genshô – O autoconhecimento é importante sim. A dificuldade aqui é que já estou apontando o fim do caminho, mas existe um caminho para andar, e enquanto você percorre este caminho, você só poderá o fazer com a ajuda deste seu “eu”. A gente diz: - “Esqueça seu eu!”. Mas como você pode esquecer seu “eu”, se você não usar este “eu” para agir neste mundo? Então, até que você chegue a esta dissolução, você só pode caminhar consigo mesma, com seu “eu”. Isto é um conflito, não é? Uma grande dificuldade. Mas todos começam uma prática espiritual procurando alguma coisa para si mesmos, e portanto existe uma mente aquisitiva, afinal “para quem você procura?”. – “Ah, eu procuro para mim!”. Não é esta a resposta? Quando eu venho sentar para fazer meditação, ou venho fazer ioga... quem vem? – “Eu venho!”. Para quem você quer esta libertação? – “Para mim”. Mas você só vai se libertar quando esquecer o “mim”. Mas você precisa deste “mim” para vir fazer a prática, não é? Estou adquirindo a estabilidade, este é o primeiro passo. Esta condição, no entanto, ainda denota uma condição de aprisionamento, como acontece com alguns santos, cheios de virtudes, mas que muitas vezes ainda têm uma postura baseada numa mente aquisitiva.
Na prática do zen é diferente. Um dos meus primeiros professores se encontrou com um homem que estava passando por um grande drama pessoal. Sentaram-se à mesa, e o homem disse: - “Mestre, eu estou passando por um problema muito grande. Eu vou me embebedar! É algo sem solução...”. E o mestre falou: - “Então eu vou me embebedar junto com você!”. Este é um mestre zen! Porque se tem um sofrimento ali insolúvel, e tudo o que você vê que pode fazer é se embebedar, eu me embebedo junto com você, porque eu sofro junto com você. Se não tem solução, eu sofro junto com você.
Algumas vezes as pessoas me perguntam: - “Mas monge, vem alguém e me conta um sofrimento cheio de ego... ‘ah, aconteceu isso, acabou, fui abandonado e etc.’... a pessoa chora, se esperneia. O que o senhor diz numa circunstância destas? O senhor diz pra ela que é ilusão?”. Eu não vou dizer que dor de cotovelo tem “meu” e “minha”, tem o ego envolvido. Não, eu vou chorar junto com a pessoa. O que mais posso fazer? Mas eu sei que daqui a mais um tempo passa, e passa com todos. Já passou comigo, passa para vocês também, não é? (risos).

Pergunta: Mestre, voltando a esta questão da ausência do “eu”, imagino que isso gera um grande conflito na mente da pessoa. Pois nós só nos percebemos, quando também percebemos que o “outro” existe, numa espécie de contraste. Ou seja, porque o outro é diferente é que “eu me percebo como eu”...

Monge Genshô – Este é um verdadeiro koan, não é? Porque nós estamos acostumados a pensar que o mundo só se organiza a partir de uma personalidade estruturada através de um “eu”. A nossa própria psicologia age assim. Quando você vai até um terapeuta, ele faz o quê? Vamos estruturar esta personalidade para ela ser resiliente, resistente ao mundo, para se levantar da crise e enxergar bem o “eu” e o “outro”. A abordagem do budismo é completamente diversa, mas nós não dizemos que vamos aniquilar o “eu”, não é isso, pois você precisa deste “eu” para transitar no mundo. Mas este “eu” é uma mera construção. Vocês foram apresentados para mim agora: - “Ah, este é o monge Genshô”. Monge é uma construção, Genshô é um nome que foi dado durante uma ordenação por um mestre, eu não escolhi. Assim como o nome que minha mãe me deu. Esta roupa é uma fantasia que está sendo usada há séculos, milênios, dentro do zen. Tudo isto são construções. E elas [as construções] são úteis para fazer esta palestra aqui e agora. Se eu entrasse sem roupa, se não tivesse título nem nada, quem me ouviria? Perguntariam “quem é você?”. E eu diria “não sei, não tenho uma boa ideia sobre isso” [risos]. Isso teria credibilidade? Não, não teria! Então na realidade vocês me ouvem, também, por causa desta construção. Mas eu sei que estes paramentos todos são uma construídos, e que quando eu chego ao hotel e penduro a roupa no cabide, o monge Genshô não está pendurado no cabide. E daí eu posso usar outras personalidades. Quando eu sou consultor e entro numa empresa, me indagam: - “Sr. Chalegre, o que o senhor pensa disso?”. Aí eu digo “penso isso, isso e isso!”. Cheio de opinião e certeza. É outra vida, é outro “eu”.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Os deuses "explicação"


Perguntas: De forma geral, as religiões usam alegorias para explicar a existência de praticamente todos os fenômenos. Isso ocorreu, também, no caso da invenção de um deus antropomórfico?

Monge Genshô – É, isso é natural. Porque os homens sempre inventaram religiões para dar explicações. Por exemplo, os italianos viam lá o [vulcão] Etna. Dele saía fumaça e fogo. E o que os homens conheciam que saía fumaça e fogo? A forja dos ferreiros. Então Vulcano se tornou o grande ferreiro. Vulcano estava lá embaixo [do vulcão] e o Etna não passava da “chaminé” da forja de Vulcano. Então os homens tinham um deus para isso. Exatamente igual aos gregos, que olhavam para o céu e viam passar o sol. Mas quem conduzia o Sol? Então disseram que era o deus Apolo quem conduzia o Sol, com seu carro de fogo. Nós esquecemos estas coisas, mas por exemplo os índios daqui [do Tocantins] ainda têm o deus da chuva. Daí nós temos deuses para explicar tudo o que nos não entendemos.
À medida que nós vamos entendendo algumas coisas, os deuses vão desaparecendo. Zeus lançava raios de cima do Monte Olimpo, mas quando passamos a entender mais – e sabemos que os raios são fenômenos elétricos –, nós esquecemos os deuses da eletricidade e dos raios. Alguém aqui ainda acredita nos deuses dos raios? Ninguém, porque as crenças recuam à medida que o saber aumenta. Sempre digo em minhas palestras que o zen não é a religião de acreditar. Ela é a religião de “acordar” das ilusões. E os deuses fazem parte das ilusões, pois nós os criamos para nos socorrer. Embora o budismo não possa ser considerado uma religião ateísta, e sim não-teísta. Mas isso é tema para outra questão.
Esta resposta do zen pode ser terrível quando se vai ouvir uma palestra. Tenho até certo receio de dar estas respostas tanto alguém pode se sentir abalado. Mas a visão do zen é de que não adianta rezar para Buda, ele já morreu. Quem pode resolver todos os problemas do sofrimento “está aqui dentro”. Eu posso atuar para resolver os problemas dos meus sofrimentos, e você pode resolver os problemas do seu sofrimento. Mas para resolver estes problemas, você tem que se esquecer de “meu” e “eu”. Enquanto ainda acreditar em “eu” e “meu”, você não entenderá o universo.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Qual a sua face antes dos seus pais terem nascido?


 (continuação)
O Zen é um método de estudar o budismo, que se utiliza da mesma prática que Buda usou, que é a meditação. Mas a meditação e o Dharma não são propriedades do budismo nem do Zen. Eles estão aí no mundo, existem múltiplos métodos para serem praticados, pois as pessoas são diferentes e, assim, precisam de diferentes métodos. Por isso que nós temos que jamais dizer “eu tenho a verdade, ou este é o caminho e os outros estão todos errados”. Até o conceito de certo e errado, como eu explico no livro “O Pico da Montanha é onde estão os meus pés”, é um engano no campo do absoluto, pois também está no campo da dualidade. Eu não posso dizer, senão relativamente, que isso é certo, e aquilo é errado. Nós temos o dharma, a sabedoria. E nós temos ignorância, é claro. Mas nós podemos sair da margem da ignorância e atravessar para a margem da sabedoria. Isso significa prajna paramita (prajna = sabedoria / paramita = a outra margem). Agora se eu pego o barco, ou um veículo dado – que é uma forma de espiritualidade qualquer –, atravesso o rio da ignorância e chego à outra margem, se eu for um bodhisatva (ser iluminado, repleto de compaixão) eu retorno para ajudar os seres que estão na margem da ignorância. Porque eu não posso ir sozinho, e aquele barco eu não posso carregar nas costas. Por isso os bodhisatvas permanecem aqui. (Final da palestra)

Perguntas

Pergunta: Monge, quando se fala naquela diferença entre atman e anatman, me vem à mente aquela pergunta “como era a sua face antes do seu pai nascer?”. Afinal, existe alguma “raiz” para essa natureza búdica?

Monge Genshô – Então, este é um famoso koan que não comporta uma resposta simples. A pessoa não pode “mostrar a sua face antes dos seus pais terem nascido”. Não há uma resposta lógica para isso, e então a pessoa tem que enxergar a resposta além da resposta. Se ele conseguir isso, ele entrará na sala [do mestre que o fez tal pergunta] como se estivesse carregando uma coisa preciosa. – “Mestre, eu achei! É esta minha face antes dos meus pais terem nascido”. Se você conseguir fazer isso, é um grande passo no despertar. E é por isso que esta pergunta existe. Mas enquanto se procura reponde-la com a mente racional e lógica, ainda não se entendeu a pergunta, já que se trata de uma provocação não lógica. É como se me dissessem para mostrar uma árvore sem raiz. Para esta questão, Joshu respondeu: - “O cipreste do jardim”. Mas daí se você vem com a mente lógica, vai logo dizer que os ciprestes têm raiz. – “Que pergunta absurda é esta?”. E o mestre olha para você e o manda embora. Vá sentar para meditar e só volte  para dizer qual é a árvore sem raiz. E por que o cipreste no jardim é árvore sem raiz? Responda... Isso é um koan! Trata-se de um dos instrumentos de prática que se usa no zen, mas é muito difícil... é um tema que gera uma discussão muito profunda, e não se aplica, por exemplo, a uma palestra para um público iniciante na prática. Embora no zen nós termos a tradição de aceitar todas as perguntas que nos são feitas. Nenhuma pergunta pode deixar de ser respondida. Agora, se você não entende a resposta, azar o seu, pratique mais (risos).



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Guerras e disputas


 (continuação)
Dogen Zenji, fundador da nossa escola, 750 anos atrás, disse que “estudar o zen é estudar a si mesmo, estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo, esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por todas as coisas”. Esta é a essência do ensinamento zen budista, que automaticamente leva à construção de uma cultura de paz. Como não haveria paz se esquecêssemos de nós mesmo? Imaginem agora lá, naquele conflito entre israelenses e palestinos. Se eles amanhã esquecessem aonde nasceram, que raça têm, que cultura têm, que religião têm, eles olhariam uns para os outros e diriam: - “Olhos, nariz, boca, orelhas... braços como os meus. Oh, irmão!”. São brigas de adultos com idéias de crianças, com a noção de “eu sou separado”, “esta terra é minha”, “o outro é diferente de mim”, “ele é meu inimigo”. Se fossem capazes de esquecerem-se de si mesmos, tudo estaria resolvido. Então todo o conflito ali não está criado só com base na disputa de terras. Quando nós dizemos que vamos resolver o conflito fazendo tratados sobre fronteiras, trata-se de uma solução que não têm sustentação. Porque dentro das cabeças continua a noção de que “eu sou separado”, e depois das fronteiras surgem as disputas por territórios.

Enquanto na Europa cada país pensava e se via separado dos demais, houve terríveis guerras. No século XX houve uma mortandade horrorosa na Europa com as duas grandes guerras mundiais, tudo porque as pessoas acreditavam numa coisa chamada de “fronteiras”. – “Eu sou diferente do outro que está lá! E eu tenho medo dele!”. Uns tinham medo dos outros, e alguém tinha que atacar primeiro, de forma “preventiva”. Essa é bem a origem da 1ª. Guerra Mundial. – “Eu tenho que atacar o outro primeiro, porque ele está se armando. Então também estou me armando”. Mas do outro lado o pensamento é o mesmo. Foi daí que surgiu uma enorme catástrofe. Quando, no entanto, a região pensou – apenas parcialmente – em usar a mesma moeda e em abrir as fronteiras para a livre circulação de mercadorias e de pessoas, acabou completamente a perspectiva de um conflito. Hoje em dia é inimaginável que França e Alemanha, que se despedaçaram duas vezes no século XX, ou seja, há apenas 70 anos atrás, começassem uma guerra. Isso ocorreu porque os conflitos e as fronteiras foram diligentemente dissolvidos. Mas ali do lado, na parte oriental do continente, na Ucrânia, alguém pode pensar: - “Esta terra é minha, eu sou pró-Rússia”. Ou: - “Eu sou pró-Ucrânia. Eu falo uma língua, o outro fala outra língua”. Quando eles pensam assim, pronto! Está instalado o conflito! Se pelo menos não houvesse “meu e minha”, não haveria conflito...

Isto vale para todas as relações humanas. A cultura da guerra nasce do conceito de dualidade, nasce do conceito de que “eu sou separado, o outro não sou eu”. A cultura budista vem dizer que o dualismo é pura ilusão, todo “eu” é ilusão e, portanto, “meu, minha” também são ilusões. Assim, diferenças e distâncias entre os seres não passam de processos ilusórios. Por isso que os Votos do Bodhisatva são quatro: “os seres são inumeráveis, e faço voto de libertá-los todos; as delusões (ignorâncias, paixões, emoções) são inexauríveis, e faço voto de extingui-las todas; os portais do dharma são incontáveis, eu faço voto de atravessá-los todos [se eu meramente entender o portal do dharma sobre o eu, meu, minha, sobre a divisão e a separação, quantas coisas já estariam resolvidas?]; o caminho de Buda, o caminho do despertar, é infinito, e eu faço voto de percorrê-lo até o fim”. Estes são os Votos do Bodhisatva. E o bodhisatva é o ideal que o ser humano tem que seguir, na visão do budismo mahayana. (continua)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Saia de você!


 (continuação)
Se eu não apenas acreditar, mas escolher e apontar um escaninho como o único que é certo, automaticamente eu também estarei admitindo que todos os outros [caminhos] estão errados. Este é o cerne da divisão, baseado no dualismo da verdade/mentira, certo/errado. É daí que surge o conflito. Se nós fôssemos capazes de abandonar estas classificações, automaticamente o conflito desaparece porque a separação desaparece.

Nós queremos classificar as pessoas em raças, por exemplo. E isso é muito interessante acontecer num país de mestiços como o Brasil, aonde a gente olha nos rostos e vê em cada um várias raças misturadas. De modo que é extremamente difícil classificar os brasileiros como esta ou aquela raça. Contudo, continuamos insistindo tanto nisso que até criamos leis ou mecanismos para “enquadrar” as pessoas em escaninhos. Então, se as pessoas não se classificarem, nós as forçamos a fazer isso. – “Declare! Qual é a sua face? Qual é a sua raça?”. Nós fazemos isso por imposição.

Nós estamos aqui para ajudar os outros seres e esquecer-nos de nós mesmos é a essência do budismo. O sofrimento existe na noção de um “eu” separado. Porque eu me acredito separado, então gero sofrimento. E as vezes as pessoas vem até mim e dizem que têm um grande problema de depressão, de tristeza, de tantas coisas ruins, e normalmente eu recomendo uma coisa: - “Saia de você!”. Pare de olhar para o seu umbigo. Se você sofre de solidão, há crianças nos orfanatos e idosos em casas de repouso que adorariam receber visitas. Há muitas pessoas que estão muito necessitadas que alguém vá até elas. E você permanece em casa pensando em sua solidão? Saia daí e vá visitar os verdadeiramente solitários! E se você for visitar os verdadeiramente solitários, você se livrará de sua solidão. Mas, na verdade, as pessoas dificilmente seguem esta receita.

Todas estas angústias surgem dentro da mente, quando acreditamos na ideia de um “eu” separado. Por causa disso criamos todos os outros conceitos, que levam a separações, a divisões e às lutas entre crenças, entre raças, entre qualquer coisa. Todas elas são oriundas do mesmo engano fundamental, o engano que diz que eu sou um ser separado. Se nós entendermos que originalmente nós não éramos seres separados, nós éramos a própria vida se manifestando, mas alguém nos ensinou que nós temos um nome, que nós somos um alguém. E quando nós acreditamos neste alguém, imediatamente surgem junto os conceitos de “eu”, “meu”, “minha”. Ao dizer “isso é meu!”, a pequenina criança já começa a lutar. – “Não beba a minha água! Este é meu copo!”... imediatamente, então, está criado o conflito.
(continua)

sábado, 30 de agosto de 2014

Minha construção diária


 (continuação)
O budismo veio das vertentes das práticas indianas. Ele tem diferenças fundamentais em relação ao hiduísmo, sobretudo no que se refere à noção de “atman”, em que supostamente existe uma partícula fundamental dentro de mim que é permanente e continua. Deste conceito – atman – surgiu o conceito grego de alma. A linha budista é diferente. Buda ensinou que o que existe é “anatman”. Ou seja, não há uma partícula individual, separada dentro de você, que é você mesmo. O que Buda ensinou foi que nós todos somos um, e não há a noção de que eu estou separado de cada um dos outros. Aliás, este é o engano fundamental.
Diferentemente de setores da filosofia ocidental, em que Descartes começa o seu “discurso do método” dizendo cogito ergo sum – “penso, logo existo” –, para os zen-budistas as coisas ficam mais ou menos assim: - “eu penso, por isso penso que existo!”. Eu imagino que existo, e este meu “eu” é uma construção que eu faço diariamente.

Pensem, pela ótica budista, uma criança pequena sendo ensinada a ser um “eu”. Ela nasce, e quando ela começa balbuciar as primeiras diz simplesmente que “neném quer”. Neném não é um “eu”, mas nós ensinamos esta criança a assumir uma personalidade. – “Você é ‘eu’, é um indivíduo separado! Seu nome é este!”. A criança absorve isso, e assim começamos a criar a dualidade. Aliás, a nossa linguagem tem esta característica, sobretudo quando queremos entender as coisas. É daí que surgem as classificações, que fazemos questão de colocar na nossa “prateleira de conceitos”. – “Isto é isso ou é aquilo? Embaixo, ou encima? Certo ou errado? É direita ou é esquerda?”. Nós queremos entender tudo por classificações, colocando todas as pessoas em escaninhos. Não admira que algumas pessoas perguntem: - “Em que mês você nasceu? Ah, as pessoas que nasceram em tal mês, do dia tal ao dia tal, são isso...”. E aí colocam você naquele escaninho e dizem “você é assim, assim e assim...”. Isso ocorre porque a nossa maneira de conhecer o mundo é através da classificação.

Na verdade, e relativamente falando, nós somos todos sutilmente diferentes, e é daí que também surgem as diferentes correntes religiosas. E a dificuldade de existir um diálogo inter-religioso é exatamente a incapacidade de “abandonarmos os escaninhos”, as classificações que geram separação, distanciamento. Só ao abandonarmos isso é que a partir daí podermos dizer que todos nós temos similaridades, todos somos seres mergulhados em ilusões. E qual é o efeito da ilusão? É provocar sofrimento, a partir do momento em que eu acredito piamente numa única forma de interpretar o mundo, e tendo a qualquer custo encaixar todas as coisas e respostas nesta visão de mundo.
(continua)

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O problema de Shakyamuni



Palestra Centro de Yoga (Palmas - Tocantins - Decupado da gravação por Sonielson San)

Buda atingiu o seu despertar através da prática da meditação. Ele teve dois grandes mestres iogues – Brahmaputra e Alarakalama –, com quem praticou até determinados níveis de profundidade. Ainda assim, ele não se sentia satisfeito com a solução do seu problema fundamental, o problema que o havia levado até a floresta e que o fez abandonar a família, o seu principado, a riqueza e o palácio. Buda passou a procurar a solução para a sua angústia, qual seja, - “eu estou aqui, tudo vai terminar em velhice, doença e morte, inevitavelmente”. Qual é o sentido de tudo isso? “Para quê?”, perguntou o Tathagata.  Por que estamos aqui nos sentido como corpos, vivendo junto com outras pessoas? Temos pernas, braços, cabeças, como qualquer outro primata, como qualquer outro macaco... temos que comer, que ir ao banheiro, temos pele e ossos, e vemos que todas as pessoas envelhecem, sofrem de doenças e, no fim, morrem. Vemos isso... Então, qual é o sentido disto tudo? Quem sou eu realmente? Esta foi a pergunta que Buda fez. Quem é esse que dentro de mim diz “eu sou”?
Buda sentou-se embaixo da árvore Bodhi e disse que não se levantaria de lá enquanto não resolvesse este problema. E isso não aconteceu do dia pra noite. Como eu já havia falado, ele tinha praticado por seis anos com mestres iogues sem, contudo, conseguir solucionar os seus problemas, embora os mestres o apreciassem tanto que queriam fazer dele um sucessor. Shakyamuni, então, sentado embaixo da árvore Bodhi, na madrugada do oitavo dia, após sete dias de meditação, sem se levantar, viu nascer a estrela da manhã e, naquele momento, ele entendeu, despertou dos sonhos e das ilusões. Quando ele desperta, imediatamente diz: - “Oh, que maravilha!!! Eu, todos os seres e a grande Terra, simultaneamente neste momento, alcançamos a iluminação. É então que Shakyamuni passa a ser chamado, então, de Buda, “aquele que acordou”. Neste momento, ele tinha 34 anos, e ensinou até a sua morte, aos 84 anos.

Nós somos herdeiros desta tradição do despertar. O único sentido verdadeiro do praticante zen budista é o despertar. É frequente, nas entrevistas, palestras e conversas, as pessoas associarem o zen com aspectos que se resumem a acalmar a mente e obter serenidade. Mas isso, para um zen budista, é apenas subproduto da prática. É como dizer a alguém que é praticante de ioga que ele irá utilizar a técnica apenas para adquirir flexibilidade. Isso é um uso da prática apenas pelo seu subproduto. É claro que o subproduto natural da meditação é a serenidade, mas esta serenidade não é o objetivo da meditação. Trata-se de um “efeito colateral” inicial, pequeno e normal. E, inclusive, não é necessário ser budista para obter serenidade através da prática do zazen.  (continua)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Me dê suas próprias palavras


Pergunta: Essas descrições, que há em alguns sutras, elas no Zen são ou devem ser completamente ignoradas ou elas são estudadas como padrões mentais?

Monge Genshô: Os sutras foram escritos por quem?

Aluno: Pelos homens.

Monge Genshô: Por homens. O que os homens fazem?  Os autores dos sutras pensaram: “Ah, isso aqui vai influenciar as pessoas! Então eu vou dizer que Buda surgiu num céu de ouro, etc e tal, em edifícios cravejados de pedras preciosas” etc... Aí escreveram essas coisas que eles acharam que seriam influentes. É natural, eram homens, embora os sutras possam ser profundos, difíceis, muito elaborados. Você pediu para ler o Lankavatara Sutra, né. Não achou difícil?

Aluno: Muito.

Monge Genshô: Então, são enlouquecidamente difíceis, como problemas filosóficos. O Lankavatara Sutra, o Surangama Sutra, são assim. Sequências de mais de uma centena de perguntas com respostas - todas respostas profundas. Então, realmente quem escreveu era um verdadeiro conhecedor do Dharma. São textos muito interessantes mas, como eu disse ontem, “não me dê as palavras dos sutras, me dê suas próprias palavras”. Não adianta ir lá na entrevista com o monge,  chegar e perguntar: “como é que vai seu zazen?” e você citar um sutra. Isso não tem significado nenhum, isso seria completamente tolo. Então, nós temos nos sutras mapas, guias interessantes, mas também coisas que não servem mais para o mundo de hoje. Como servem os conselhos de Buda sobre subordinação das mulheres, deveres dos homens, que foram escritos 2600 anos atrás? Como servem para hoje? Parcialmente... Num mundo em que força física não é mais importante, por exemplo?  Naquele tempo, um homem era diferente de uma mulher. Um homem podia fazer serviços que uma mulher não podia fazer. Qual é o serviço que uma mulher, hoje, não pode fazer? Que um homem não pode fazer? Num mundo de máquinas, instrumentos, computadores etc? Mudou tanto.

 É como eu dei um exemplo lá em Goiânia. Em antigos textos bíblicos, está escrito: “os homens não podem cortar o cabelo das têmporas.” Aí vocês já viram aquelas seitas hassídicas, que deixam cachinhos caindo? É porque eles não podem cortar o cabelo das têmporas. Porque está escrito lá no livro. Podia ter sentido lá naquela época, que eu não sei qual é, mas hoje, que sentido tem? Então, nós temos que ter essa clareza. Sempre surgem os ortodoxos, que querem seguir os textos ao pé da letra. Estávamos falando ainda há pouco. Mas, a que isso leva?

Em Israel há elevadores que aos sábados são desligados, de modo que você entra no elevador e ele para em todos os andares, porque um judeu de uma dessas seitas ortodoxas não pode apertar um botão, pois se ele apertar um botão, está fazendo a máquina trabalhar para ele. Então, se criou isso. No domingo o mecanismo é desligado e para de andar em andar. Qual era o sentido antigo da guarda do sábado? O sábado era dia de descanso. Então, você não trabalhará, seu jumento não trabalhará, sua mulher não vai trabalhar. Ninguém vai trabalhar no sábado. Vamos dedicar esse dia, um dia de descanso. É um dia de oração. Era esse o sentido. E agora virou essa maluquice para elevadores. Então nós temos que tomar cuidado com a ortodoxia.

Pergunta: Com relação aos sutras, Monge, existem sutras que permitem, que trazem insights para as pessoas? Por exemplo, o Sutra do Diamante?

Monge Genshô: Com certeza. O Sutra do Diamante é o Vajracchedika Sutra. É um sutra que corta todas as ilusões. Por isso se chama Sutra do Diamante. Ele é como se fosse um controle de qualidade dos paramitas. Ele pega, por exemplo, a paramita da paciência e analisa. Claro, ele é muito útil, deve ser lido, mas você tem que ler pensando: “esse texto foi escrito por um Mestre e eu vou aproveitar o que me for útil nesse texto”. Não o tome como baixado do céu, como um texto sagrado, que nós temos que seguir ao pé da letra.
Vejam o que acontece hoje no Oriente Médio, onde existe uma religião com um texto que foi ditado pelo próprio Deus. Então, se foi ditado pelo próprio Deus, tem que ser seguido. Assim, tem os grupos que querem que as regras sejam seguidas como eram naquela época.

Esses dias li a declaração de um religioso de que uma mulher que for estuprada, tem que ser enforcada. Mas, por que ela tem que ser enforcada, se ela foi estuprada? Porque está no texto. Ela não foi só do seu marido, ela foi de um outro homem. Mas foi um estuprador! Não interessa. Ela não serve mais. Enforque. Esse é o grande perigo de olhar o texto dessa forma. O pior é que essa declaração foi feita por um ministro de governo de um país do oriente médio. Imagine a força institucional que tem uma crença desse tipo. E não é impossível que surjam grupos extremistas budistas, etc, que comecem a pensar “o outro é diferente” também.  Nós temos que ser radicalmente contra esse tipo de pensamento. Nós temos que preservar nossa liberdade mental.

E, para encerrar, há uma história. Eu gosto muito de um mestre a quem um aluno perguntou: “Você foi aluno do Mestre fulano de tal?” Ele disse: “Sim, fui.” “Ah, que maravilha. Aluno do grande mestre fulano de tal. E o senhor aceita tudo o que seu mestre lhe dizia?” “Não, aceito metade e rejeito metade.” E o aluno continua: “Mas como o senhor rejeita metade do que o seu mestre dizia?” E ele responde: “Se eu aceitasse tudo o que ele me dizia, não seria digno do meu mestre, porque o meu mestre me ensinou a pensar, me ensinou a manter minha liberdade mental, meu senso crítico. Eu posso até estar errado, mas não preciso aceitar tudo o que ele disse”.

Então, vocês não precisam aceitar tudo o que eu digo. Simples assim.
(Final da terceira palestra no sesshin de inverno, decupada da gravação por Rachel San)

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Como é a vida depois da morte?



Aluno: É mais a qualidade da mente da pessoa?

Monge Genshô: Se você mudar sua mente, seu carma, sua próxima manifestação será consequência disso, não importa qual ela seja. Ela será influenciada pelas condições presentes. Isso é lógico. Até aí, eu posso ir. Mas, é como um Mestre Zen respondeu para um rei que lhe perguntou: “Como é a vida depois da morte?” E o Mestre Zen respondeu: “Não sei.” E o rei ficou furioso, dizendo: “Mas como? O senhor é um Mestre Zen, um mestre espiritual, isso e aquilo, etc e vem aqui e me diz que não sabe!” E o Mestre Zen respondeu: “Sou um Mestre Zen, mas não sou um Mestre Zen morto!” Se eu fosse, eu informava.

Kodo Sawaki foi um grande Mestre Zen do século XX,  e certa vez perguntaram a ele sobre essas questões e ele assim declarou: “Essas pessoas que me vêm perguntar sobre espíritos e fantasmas, eles são fantasmas.” E respondeu também: “Se espíritos se manifestam nesse mundo aqui, estão tão perdidos quanto nós.”

Essas duas respostas englobam tudo o que o Zen precisaria declarar. Se qualquer coisa se manifesta aqui, o que tem para nos trazer? Vocês já viram algum espírito? Dizem tantas coisas, tantas platitudes bonitas,  já viram algum dizer: “Está aqui, o remédio que cura a AIDS é esse. A teoria sobre tudo na física é essa aqui.” Pronto. Resolvido. Parem de quebrar a cabeça. Vocês já viram alguma solução assim aparecer? Nunca. Só aparecem platitudes. Sejam bonzinhos, façam o bem, amem o próximo. Isso é fácil de qualquer um escrever. Mas uma coisa concreta, jamais surgiu.

A outra declaração dele – “essas pessoas que me perguntam, elas são fantasmas”. Claro. Porque quem são vocês? São criaturas de sonho, vivendo num mundo de sonho. É um sonho nítido. Todas essas pessoas fazendo essas perguntas são o quê? Criaturas de sonho, fantasmas. Esse é o Zen. Zen é isso que nós estamos falando aqui e agora. O resto, as teorias, cosmogonias, deuses, espíritos, dimensões, outras dimensões, etc. é, podem existir. E podem não existir. Na realidade, para o zazen de vocês não faz diferença nenhuma. O que faz diferença é a sua mente. Então, o que nós temos que tratar é da mente.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O relevante para a prática


Pergunta: Eu já li alguma coisa e já ouvi falar, mas é um pouco difícil entrar na minha cabeça. A questão do renascimento...  Porque, assim, no renascimento, o que é que passa? Não é a consciência?

Monge Genshô: Só o carma. O que pode passar de uma vida para outra é apenas o carma. Primeiro nós temos que admitir que existe uma certa coesão de uma onda cármica, senão ela não passaria de uma existência para uma outra existência. O que existe em você são seus desejos, impulsos, apegos, suas características de personalidade com as quais você nasceu, isso é o que você herdou, o tipo de mente que você tem. Mas todo o “eu” é novo. A consciência é produto do funcionamento da sua mente agora. Consciência de um eu, então é o carma que produz identidades, não são identidades que carregam carma. Essa é a diferença.

Pergunta: Buda citou que existem espíritos. Eu já vi trechos, se não me engano, que falavam sobre... espíritos famintos.

Monge Genshô: Mas isso, na tradição, na cosmogonia budista são outras dimensões de existência. Não necessariamente seu carma precisa se manifestar num corpo humano, porque você poderia,  se manifestar num mundo sem forma, onde não há corporariedade. Existiria, mas isso não é, de modo algum, artigo de fé.  Do ponto de vista do Zen, este assunto não interessa.

Eu posso falar aqui que na cosmogonia budista  existem os seis mundos, falamos dos mundos dos semideuses, deuses etc e tal. Há escolas em que fala-se em trinta e dois reinos de existência. É, podem existir, como podem não existir. Para aqui e agora, para o nosso problema do agora, não tem a menor relevância. Isso é irrelevante e é não verificável também, de modo que é um assunto de parco interesse. No tempo de Buda, muitas vezes ele se valeu dessas citações, e os sutras muitas vezes citam o seu mundo, o mundo do hinduísmo. Porque Brahma surgiu, ou Yndra ,  porque os deuses vieram assistir a palestra de Buda, nos sutras, etc e tal. Isso não significa que existam esses deuses, tanto faz. Para a nossa vida agora, tanto faz.

A única coisa que eu posso raciocinar para você é que assim como você está aqui e tem uma personalidade, ela não deve ter surgido do nada. Ela deve vir de um passado. Ela tem que ser consequência de uma causa, porque não existem efeitos sem causa, todos os efeitos têm uma causa. Há alguma causa para vocês estarem aqui, terem a mente que tem, pensarem do jeito que pensam, e essa causa deve ser pregressa. Essa causa é responsabilidade de vocês. A próxima manifestação de vocês deve ser consequência da mente que vocês construírem agora. Não haveria nenhuma lógica se não fosse assim. Por isso os próximos efeitos terão suas causas, e as causas estarão enraizadas aqui e agora. É só isso. Quais são, como são, exatamente como acontecem, isso não é assunto relevante para nossa prática.


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Eu não sei


Pergunta:    Um depoimento muito bonito que uma pessoa, que  estava num estado mais elevado... isso pode ser considerado Dharma também? Ou é só quando o monge autorizado fala, que é Professor do Dharma, que podemos dizer que é Dharma?

Monge Genshô:  Acho que eventualmente pessoas dizem coisas muito pertinentes e vamos ter que ouvir e ter o discernimento de que ensinamento “reconhecido” tem que ser dado por alguém que recebeu a transmissão. Isso é pelo menos um padrão de qualidade para se dizer: “ isso aqui nós vamos considerar”. Mas mesmo assim, é como se dizia em latim, cum grano salis – com um grão de sal. Porque você aceita um professor e começa a ouvi-lo. Ele vai ajudar você dentro do caminho, na medida do que ele conhece e sabe. Mas haverá algum momento em que o seu caminho não é exatamente igual ao do professor. Eu posso falar sobre experiências que eu tive, mas existem experiências que eu não tive, e eventualmente alguém me pergunta: “O que eu faço nessa situação?” E eu respondo: “Eu não sei. Você vai ter que decidir sozinho, porque é seu carma, sua vida, seu momento. Eu não sei.” Eu posso dizer que comigo aconteceram tais e tais coisas e levo e digo isso, para que você considere que existem essas possibilidades. Posso ajudar você a pensar, mas não posso decidir por você. Até porque é uma responsabilidade imensa.

Esses dias um rapaz disse: “Ah, eu briguei com minha namorada. Eu a procuro, peço desculpas, volto, não volto, tento que ela volte, tenho medo que ela não volte”. Eu disse: “Eu não sei.” São tantas coisas que eu não sei sobre esse relacionamento, do futuro. Como é que eu posso dizer? Não sei. Posso dizer uma coisa com certeza: se acabar, você vai sofrer um pouco e depois de determinado tempo, isso vai passar. Isso eu sei. Que tudo acaba passando.  Se no futuro você vai dizer, “ah, não podia ter perdido aquele relacionamento”! Isso eu não sei. Pode ser. Como eu poderia saber? Então, o Dharma é uma porção de ensinamentos bem consolidados sobre impermanência, causa, efeito, sobre as marcas da existência, sobre o carma, mas ele não é uma solução para tudo. E tem várias coisas  que Buda evitou responder. Disse: “Eu não vou responder a essa pergunta”. Deus existe ou não existe? Essa pergunta não faz parte do budismo. Trata-se do tipo de assunto não verificável,  se é não verificável, então não faz parte do objeto de estudo do budismo. No momento em que for verificável, sim.

Pergunta: Então o Dharma seria somente fenomênico?

Monge Genshô: Não. Ele também tem conceitos abstratos, mas que são lógicos. Por exemplo, o conceito de pecado não existe no Budismo. Porque não existe conceito de pecado? Porque não existe alguém a quem você deva obedecer e que vai taxar de pecado se você fizer isso ou aquilo. Por isso não existe o conceito de pecado. Existem consequências. Qual é a consequência do seu ato?  É isso. A ética do Budismo é construída em cima das consequências. Quais são as consequências?

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Votos do bodhisattva


Pergunta: Quem é que quer?

Monge Genshô: Todos, no início. Queremos, nós. Todos vêm praticar de forma egoísta e auto-centrada, ninguém veio aqui porque quer salvar todos os seres. Não é assim. Os praticantes sempre vêm procurar alguma coisa para si, essa é a prática inicial. E por isso, toda a prática do Caminho Óctuplo está voltada para o indivíduo. Você tem que fazer o esforço correto, tem que ter um meio de vida correto, tem que ter uma fala correta. São todos você. É você, você, e você. É você que tem que trabalhar. É você que está separado dos outros. Então, o estágio de abandonar a si mesmo, seu próprio eu, é um estágio muito, muito adiantando, e nós não o encontramos nos iniciantes não, seria raríssimo.

Eu costumo explicar que há três fases: A “fase da virtude”, e que não é diferente na maioria das religiões, trabalham-se as virtudes pessoais. E elas são semelhantes no Budismo, no Cristianismo, no Islamismo, são todas semelhantes - persistência, tolerância, paciência, energia, disciplina, são todas semelhantes. O segundo estágio é o estágio de “prática do Bodhisattva”, de que você faz os votos, no final do dia. Mas quem é assim? Quem é? Já é difícil a gente ver alguém cumprir o Caminho Óctuplo! São dezesseis votos de leigo que nós fazemos, por exemplo, “nunca julgar os outros”, que eu acho um dos mais difíceis, porque está todo mundo sempre julgando. “Não se eleve”, “não procure os defeitos nos outros”. Isso é muito complicado, porque você está vivendo no mundo da dualidade, e tem que julgar.

No trabalho você tem que julgar. Os professores no Zen têm que julgar: “tal aluno pode fazer isso, tal aluno não pode... tal tem tal defeito”. Você tem que julgar, faz parte da própria vida. Aí você vai para os votos do Bodhisattva, no primeiro voto  dizemos: “Os seres são inumeráveis, eu faço votos de libertá-los todos.” Está todo mundo realmente interessado em salvar todos os seres?  Os criminosos, os nazistas da 2ª Guerra Mundial? Vocês vão até os infernos para dar-lhes a mão e tirá-los de lá? “Josef Mengele, venha cá, meu amigo, vou tirar você desse sofrimento infernal, vou ensinar o Dharma pra você.”

Segundo voto do Bodhisattva: “As paixões são inextinguíveis, eu faço votos de extingui-las todas”. Nós realmente estamos prontos pra extinguir cada pequena paixão que surge? Cada uma? Cada raiva, cada impaciência, cada inveja, cada ciúme, cada coisa? Cada afeto desmesurado, selecionado? Você realmente é capaz de amar todos os seres como você ama seu filho? É isso?

O terceiro voto: “Os portais do Dharma são incontáveis, a sabedoria é imensurável, mas eu faço o voto de aprendê-lo todo.” Quer dizer, eu vou aprender tudo sobre o Dharma. Tudo, tudo, tudo. Eu não vou deixar nada de fora. Vou atravessar todos os portais da sabedoria.

E o quarto e último: “O caminho de Buda é infinito, eu faço voto de percorrê-lo até o fim.” Infinito, e mesmo assim eu vou percorrer até o fim. Não acaba, e eu vou continuar, sem fim.

Quando eu estava  no monastério, eu tinha a sensação assim: “Isso aqui não acaba! Não acaba nunca”. Todos os dias a mesma coisa. Levanta de manhã cedo, quatro horas da manhã. Vai para o zendô e senta e continua... sesshin de noventa dias. Isso não acaba nunca. Como eu tenho que tomar um remédio para pressão, então contei noventa dias, noventa comprimidos, botei num lugar lá, e cada vez que eu tomava um de manhã, diminuía um dia. E eu olhava aquela pilha e não acabava nunca...

Aí pensamos, o caminho de Buda, é infinito. Infinito! Então seria uma pilha sem fim, sem fim... E eu teria que tomar, na esperança de chegar a um fim que não existe. Nós fazemos isso. São os votos do Bodhisattva. Então esse é o segundo estágio do caminho, e ainda tem um “eu”. Porque sou eu que prometo. Eu vou lá no inferno, resgatar todos os seres, eu vou estudar, eu vou seguir um caminho sem fim, eu vou extinguir todas as minhas paixões que não acabam mais, que não tem fim. São paixões sem fim e vou extinguir todas elas. Você faz o segundo estágio e ainda está cheio de erros.

Aí, o terceiro estágio, da não dualidade. Extinguiu o eu, realmente. Eu e todos os seres somos um. Percebeu, sentiu, viveu a unidade completamente. Então essas perguntas “ainda tem um eu, que está olhando ou que está querendo”. Mas claro que tem, porque quem é de nós que passou todo o primeiro estágio e passou todo o segundo? Esse que eu descrevi agora, que são os votos do Bodhisattva. Ouçam os votos do Bodhisattva no final do dia. Não basta repetir “os seres são inumeráveis, faço voto de libertá-los todos.” Só repetir não é nada. Você tem que pensar o que significa esse voto. Porque são votos paradoxais, uma vez que eles, por sua própria natureza, são impossíveis, e não se faz votos impossíveis. Esse é o voto do Bodhisattva – fazer votos impossíveis.

Então, como pergunta retórica, essas questões sobre “quem é esse eu que está fazendo isso”, têm sentido, realmente. Mas como pergunta na prática diária do praticante, vamos reconhecer, nós somos “eus” muito bem construídos e sólidos. Se a gente for bem honesto, basta perguntar: quem importa mais para você, seu filho ou uma criança que está passando fome lá na África? Não me responda que você se importa muito com as crianças que estão lá na África, porque você dá comida só para o seu filho. A criança lá na África está passando fome e você só pergunta: “mas por quê que eles fizeram tantos filhos”? Não é? É o que você pergunta. Não é assim?

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Formatando o disco


Pergunta: Monge, com relação ao kensho, o senhor disse que o satori seria a possibilidade de ser proprietário da experiência e acessa-la a qualquer momento. Mas isso me passa a idéia de alguém que acessa alguma coisa, um ego.  Parece uma aquisição.

Monge Genshô:  Mas não é, porque quando você estiver pensando “ah, eu...” aí você não consegue. Eu sou o proprietário, eu consigo isso, não é assim. Quando você está em kensho e tem uma experiência dessas, não tem a noção de “eu estou vendo, eu estou pensando”. Podem experimentar quando vocês estão em zazen. Se você consegue samadhi quando está fazendo zazen, cessam naquele momento todos os julgamentos e você de repente percebe o mundo, sons, todos com clareza, está num espaço cheio de plenitude. Não é propriamente euforia, alegria ou distorção da percepção, não é isso, pelo contrário, é percepção perfeita de todas as coisas. Mas, se você pensar “samadhi”, dentro de você (barulho de um bolha estourando), perde-se. É bem assim.


Pergunta: Se eu tenho a chance de poder optar, porque então eu decido não permanecer?

Monge Genshô: Por causa das muitas coisas que você está fazendo na sua vida normal, por exemplo, você deita para dormir, e quando você adormece, não está mais naquele estado de clareza. Embora (há muitas considerações a fazer sobre tudo isto) aqui mesmo no sesshin, nós sintamos sono, é perfeitamente possível ficar sentado e sonhar sonhos lúcidos, ver o sonho, fazer perguntas, ver respostas simbólicas aparecendo diante dos seus olhos. Mas são sonhos, você sabe que está sonhando e pode até dizer: “não,  essa aí não... essa resposta não serviu”. Meu inconsciente não produziu uma coisa boa, vamos para outra, outra tentativa. E você sonha, e o sonho é lúcido. Você está raciocinando, vendo e observando o sonho como se fosse um filme. Alguém já teve essa experiência aqui? Quando a gente sente sono certas coisas vêem, e por isso no sesshin provocamos um certo déficit de sono,  você sentado ali o filme surge na sua frente, e você começa a ganhar habilidades de usar os sonhos a seu favor.

Sonhar pode ser uma experiência muito agradável, se você pratica o Dharma. Pratica, pratica e cuida dos conteúdos que vêm à sua mente, então os sonhos que vêm são muito bons. Sonhar pode ser uma forma de prática. Por isso também, nós temos que ser disciplinados com os conteúdos que a gente acessa. Por exemplo, é uma péssima idéia assistir filme de terror,  porque de qualquer jeito os conteúdos vão sendo armazenados no seu subconsciente. Na verdade, nós devemos procurar sempre assistir filmes que produzem bons sentimentos, porque isso vai ser construtivo para você. Tudo que acontece, tudo que surge na sua mente aqui no zazen, não culpem mais ninguém, foram vocês que construíram. À medida que acalentaram pensamentos, à medida que acessaram certo tipo de informação, foi isso, isso que foi vindo. Você vai armazenando, o que vai sair? O que foi armazenado. Zazen é uma certa tentativa de zerar o disco. Nem passado nem futuro,  vamos formatar o disco rígido.  Então, é uma tentativa de nós apagarmos o lixo e podermos partir para outra forma de percepção.

Pergunta: Sensei, é como se tivesse que diminuir um pouco o pensar, o pensamento, mas tem que fortalecer o querer, porque para formatar o disco, tem que querer muito não é?  Pois tem que se submeter a um método para isso.

Monge Genshô: É tão difícil que a gente se reúne. Todos juntos e dizemos: “vamos fazer o sesshin”. Porque sozinho você não faria o sesshin (retiro). Teoricamente seria possível, você vai para um lugar isolado, faz sua comida e senta disciplinadamente desde as quatro horas da manhã. Você pode fazer isso sozinho, porém, muito poucas pessoas têm disciplina suficiente para isso. Então nós nos reunimos em grupo e assumimos um compromisso. Ninguém sai daqui, todo mundo fica junto, nós vamos fazer isso aqui, todos juntos. O professor senta junto e fica voltado para os alunos. Toda essa circunstância nos dá uma força de conjunto, é pra isso que serve a Sangha. Por isso a Sangha é uma das três jóias do Budismo: Buda, Dharma e Sangha. Buda o ideal, Dharma a sabedoria, o ensinamento e a Sangha pra nos dar a força de praticar. Porque praticar sozinho é muito difícil, exige tanta força de vontade! Então você tem razão que existe um “querer” aí e essa é uma das virtudes. Algumas das virtudes são energia e disciplina, elas são virtudes necessárias para a prática.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Não mais de uma dúzia


Pergunta: Dentro do tema que o senhor estava colocando, realmente as experiências podem se chamar samadhi? Existe algo maior ou mais prolongado? E isto seria a transmissão?

Monge Genshô: Varia de pessoa para pessoa. Há pessoas que amadurecem lentamente e há pessoas que têm uma grande evolução, uma grande experiência. Só para corrigir algumas palavras, “samadhi” é concentração, não é kensho. Samadhi é você estar sentado em zazen e penetrar num estado de “estou aqui presente, realmente ouvindo tudo e não estou sendo arrastado por pensamentos, emoções, eventos, isso não está acontecendo, estou realmente aqui”. No momento em que você pensar “ah, samadhi! Eu estou...”, já perdeu, já não é mais samadhi.

A segunda correção é sobre a transmissão. Transmissão no Soto Zen é um “reconhecimento”. Seu mestre reconheceu em você uma experiência, uma qualidade. Você conseguiu mostrar para ele isso, então, ele diz: “Eu estou transmitindo para você essa lâmpada, você agora também é um portador da lâmpada então, transmita essa lâmpada, essa luz pra outros, faça os outros despertarem e dê a eles a lâmpada também, para que nossa linhagem continue.”

Temos 2600 anos de transmissão viva. Isso é tão importante no Zen que, de manhã, nós recitamos os nomes de todos, desde Shakyamuni Buda: “SHĂKĂMŬNĬBŬTSŬ DĀIŎSHŌ. “Butsu” é Buda. MĂKĂKĂSHŌ DĀIŎSHŌ, ĂNĀNDĂ DĀIŎSHŌ, SHŌNĂWĂSHŬ DĀIŎSHŌ, ŬBĂKĬKŬTĂ DĀIŎSHŌ. Recitamos os nomes de cada um que foi passando a lâmpada pro outro. Hoje de manhã recitamos até TĀI·GĀN DŌ·SHŌ DĀIŎSHO. Normalmente, nós paramos em Keizan, porque depois de Keizan as linhagens se dividem no Japão. Então, recitamos até TĀI·GĀN DŌ·SHŌ que é Saikawa Roshi. “Saikawa” é o nome de família dele. O nome de Monge é TĀI·GĀN,  TĀI·GĀN DŌ·SHŌ. Se eu conseguir dar a transmissão para alguém, então vamos ter na lista após a minha morte, TĀI·GĀN DŌ·SHŌ DĀIŎSHŌ, MEIHÔ GENSHÔ DĀIŎSHŌ. E vamos recitar até ali. Se eu não der a transmissão para ninguém, meu nome está apagado da história das linhagens. E isso é um evento bastante comum. Muitos professores não conseguiram dar a transmissão para nenhum aluno. Então, isso que é a transmissão no Soto Zen, um reconhecimento.

Você pode ter um aluno leigo que se iluminou e não existe a cerimônia de “shihô”, de transmissão para ele, só existe de monges para monges. Então, embora esteja iluminado fica entre nós. Fica entre nós, porque ninguém sai dizendo isso. Há pessoas que saem dizendo, “eu sou iluminado”, vocês podem achar facilmente na Internet, mestres iluminados. Esses dias alguém me falou que havia uma pessoa num fim de semana dando um curso de três dias para a iluminação e que custava cinco mil. Alguma coisa assim.
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Monge Genshô:  Bem barato. Se somarmos os sesshins aqui... ainda não dá isso e não tem garantia. Então isso existe bastante, mas aqui no Soto Zen não há garantia alguma. E se alguém diz “eu sou iluminado”, nós já sabemos que não é, porque a própria declaração “eu sou” é uma declaração de separação - eu e não os outros. Então, essa declaração jamais é dita. Shunryu Suzuki, autor daquele famoso livro “Mente Zen, Mente de Principiante”, conta-se que um aluno chegou para ele e perguntou: “O senhor é iluminado?” E ele olhou para o aluno e disse: “Não.” E o aluno estava olhando nos olhos dele e começou a chorar, essa história é interessante.

Alguém também perguntou: “Há muitos graus de iluminação, né”?  Alguém conseguiu uma compreensão, alguma coisa, o Mestre reconhece isso, dá a ele a transmissão para continuação da linhagem, e diz: “Continue, você precisa praticar ainda mais 40 anos”.

Estamos cheios de histórias nos Sutras, de monges que se iluminaram, despertaram e aí então ficaram mais vinte anos treinando junto com o mestre, antes de começar a ensinar. Isso é que é a prática. Então existe essa iluminação que eu disse, iluminação bem rasa. Pouca coisa. Conseguiu pouca coisa, mas já foi reconhecido, recebeu a transmissão. Mas alguém perguntou para Shunryu: Suzuki “Quantos mestres verdadeiramente, completamente iluminados, há no mundo?” Aí Shunryu Suzuki disse para ele: “Não mais de uma dúzia.” No mundo todo. Não mais de uma dúzia! Isso nós temos que levar em conta. Qualquer experiência iluminada que vocês tenham é extraordinária em si, mas também é muito simples, não é grande coisa. Porque quando você recebe a transmissão, aí o Mestre diz: “bom, agora que começa, agora que começa seu treinamento”. Antes foi só preparação. Você sempre vai ter essa sensação de que está começando.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Satori


 (continuação)
E o que é satori? Satori é a possibilidade de andar assim quase todo o tempo, andar na iluminação por escolha. Se a situação está muito complicada, então eu posso simplesmente mudar meu modo de funcionamento para o “modo iluminado”. Se eu posso mudar para o modo iluminado, eu posso até morrer, sem problemas, não é? Porque a própria morte está sendo vista sob uma outra perspectiva, que é o que acontece com o monge que queima numa fogueira sem manifestar nada. Não é que a dor não exista, o sofrimento não exista, não é que a morte não exista. Existe, mas a morte não é o que é para todos os “eus”, porque ele sente que morte e nascimento são apenas eventos de uma onda cármica pois, na realidade, você é eterno por natureza, não é este evento de agora. Este evento de agora é o evento do seu “eu”, e este evento do seu eu, deste momento, é importante para quem vive no sonho, para quem sai do sonho, não é, porque o sonho é todo construído. Essa é a essência do que nós estamos fazendo.

E eu acho importante nós desmistificarmos o que é iluminação, porque a iluminação está disponível agora. Se não estivesse disponível, fazer sesshin seria um sacrifício inútil. Ela está disponível. Você, em algum momento, percebe que as circunstâncias daquele instante são tão maravilhosas, tão tranquilas, tão calmamente felizes que você gostaria que aquele momento durasse para sempre. Você poderia viver sempre assim, você não queria que acabasse. Essa é uma experiência iluminada. Você só precisa trazer isso para sua vida, de verdade.  Aí tudo está certo. É para isso que nós praticamos, não é para mais nada, pois então praticamente todas as perguntas estarão respondidas, se você tem esse tipo de experiência.