sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O trabalho árduo do descondicionamento



Monge Kômyô é um noviço no zen, porém vem de uma longa trajetória no zen vietnamita (Thien) e nas artes plásticas e nas típicas do zen como o origami, a ikebana, o sumyê e a caligrafia. Ele haver-se colocado como meu aluno diz muito mais sobre suas qualidades do que das de seu orientador.
Estou  postando suas palestras gentilmente decupadas pelos alunos dos grupos de estudo do zen para proveito de todos, não são palestras oficiais do Dharma mas os praticantes entenderão a qualidade de sua partilha sobre a prática do zen.

Goiânia 2014
Monge Kômyô: Eu gostaria, nessa conversa primeira do dia, retomar um pouco alguns comentários sobre a prática.   O esforço, a experiência que nós temos num sesshin é um treinamento para todos, eu inclusive. O treinamento fundamental é conseguir estabelecer a mente de forma consciente, clara. Isso não é muito fácil. E não é fácil apenas pelos aspectos externos da vida. É essencialmente exigente, devido à natureza da mente condicionada, nossa mente.

Ontem eu comentei que todos nós carregamos uma bagagem. No contexto da psicologia budista, do Abhidharma, todos nós estabelecemos nas nossas vidas, a partir do padrão de nossas vidas, vasana. Vasana é energia de hábito. Cada um de nós possui um agrupamento de energias de hábito que caracteriza quem nós somos. Num retiro, mesmo que nós nos esforcemos para que ele seja organizado, adequado para que todos pratiquem, no retiro continua atuando um fenômeno, uma lei fundamental, que é a impermanência. Nunca há ambiente perfeito. Nesse momento nós temos um exemplo: temos aqui um som lindo, mas temos uma musiquinha também em algum lugar aí. Às vezes pensamos “Poxa, que chato essa música. Queria ficar aqui ouvindo as cigarras. Mas o treinamento está em aprender a estabelecer a mente, para poder aprender a lidar com todas as coisas sem conflito. A mente condicionada, essa mente que se caracteriza por muitas energias de hábito, é uma mente que, essencialmente... como se diz no Zen,  é como um macaco louco dentro de uma casa. Nossa mente, nossa cabeça é a casa. E aqui dentro há um macaco louco. Quando nós tentamos estabelecer um regime de auto-observação mais intenso, o macaco louco não gosta. A tradição Zen lida com os paradoxos.

A experiência zen,  em geral se manifesta para dar uma rasteira na gente. Por que isso? É alguma perversidade? Não. O objetivo no Zen é tentar desestabilizar a falsa idéia que o nosso eu tem de que está no controle e que tudo tem que se adaptar às nossas expectativas. O trabalho contemplativo é um trabalho árduo de descondicionamento. Portanto, num retiro, o primeiro convite que eu faço a todos é: simplesmente observem a si mesmos. Diante dos desafios, das situações, do próprio movimento durante o sentar e fazer zazen, observem a si mesmos. Não tentem controlar, até porque vocês não vão conseguir. Observem. Esse é o primeiro passo. O primeiro passo é reconhecer a si mesmo. O silêncio, a introspecção, ela ajuda a estabelecer esse meio, para que possamos reconhecer melhor quem nós somos. Sem culpa, sem recriminação, sem crítica, só reconhecer. Já aí temos um grande desafio.
(continua)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A disciplina da plena atenção



 (Final da palestra do Ven. Dhammadipa no DaissenJi em Florianópolis)
A seguir temos a importância da plena atenção. Buddha ensina que apenas teremos sucesso na prática se praticarmos quatro posturas. Praticar nas quatro posturas significa praticar enquanto sentado, enquanto em pé, enquanto andando e enquanto deitado. O sutra explica que a única forma de obter claridade é praticar com devoção e ininterruptamente. Esta é a prática da plena atenção. Caso consiga praticar a plena atenção nas quatro posturas ininterruptamente, estará plenamente Iluminado. Devemos praticar nessa direção enquanto estivermos conscientes. Caso permaneça neste tipo de plena atenção, está vivendo no Brahmaloka – no paraíso – mesmo estando aqui.

Temos agora a última e curta parte, abordando a sabedoria. Então, ao praticar neste sentido, você deverá “ditthiñca anupaggamma”, deverá abandonar todas as visões. Você deve ser sīlavā, deve ser disciplinado. Como abandonar todas as visões? E como ser verdadeiramente disciplinado? Ambas as virtudes serão atingidas quando compreendermos a originação dependente com intimidade. Tudo que existe, existe em relação a algo. Existir em relação a algo significa ser impermanente. A impermanência apenas existe onde há vazio, pois se algo permanece na sua experiência é, então, imutável. De acordo com o budismo, devemos entender a impermanência a fim de compreender o que está além da impermanência. Tudo muda por não ter uma natureza própria. Apenas pode mudar por conter o vazio. Se algo possui natureza própria, não é capaz de mudar. Logo, a única coisa que possui natureza própria é o vazio em si. É por isso que o Sutra do Coração ensina que a forma, os sentimentos, os cinco agregados são de fato o vazio, não diferentes do vazio em si. Caso consiga ver isso, você é “dassanena sampanno”, aquele com o darśana, a visão direta. Com isso, “kāmesu vinaya gedham”, você estará livre de todos os apegos e não mais retornará ao samsara.

Você deve compreender que este sutra foi proferido a 500 bhikkhus determinados a tornar-se aharants. Caso deseje seguir o caminho do boddhisatva, deve entender claramente o estado de existência de um aharant. Devido a sua compaixão, o boddhisatva não se torna um aharant. Este é o caminho do boddhisatva.
(Traduzido na palestra por Hakudô San e decupado posteriormente da gravação)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O amor ilimitado



 (continuação da palestra de Ven. Dhammadipa)
A próxima parte do sutra explica que todos os seres estão inclusos, não há possibilidade de exceções. Quando pratica-se o verdadeiro amor, você deve estender seu objeto a todos os seres. Quebrando a barreira entre você e o próximo, entre você e aquele de que gosta, entre você e aquele que não gosta e entre você e aquele que você é indiferente. Você deve ver todos os seres em um e um ser em todos. Este é o significado do amor como um incomensurável. Quando você abre seu coração, ao mesmo tempo abre sua mente. Uma mente limitada significa sentimentos limitados, como uma mente ilimitada significa sentimentos ilimitados. De fato, todas as fronteiras da mente estão conectadas às fronteiras dos sentimentos. Pelo fato de nos apegarmos ao prazeroso e termos aversão ao não prazeroso, nossa mente torna-se limitada.

A fim de reverter essa tendência, que é a causa do sofrimento, Buddha ensinou amor ilimitado, compaixão ilimitada, alegria ilimitada e equanimidade ilimitada. Como o amor torna-se ilimitado? Na medida em que você observa um ser em todos e todos em um. Este é o segredo do amor ilimitado, que está fundado na sua determinação de desejar o bem a todos os seres. Este é o verdadeiro significado da amizade. O amor no budismo é apresentado como amizade. Você sabe porquê? Porque o verdadeiro amigo é aquele capaz de sacrificar-se pelo próximo. Este é o significado do amor genuíno, quando nos tornamos capazes de louvar igualmente todos os seres. Com isso, você torna-se amigo de todos os seres. O Buddha explica em outros trechos, o amor como não enganar seus amigos. Ele explica que a virtude mais importante no sutra do amor está relacionada a ser direto. Quando você é direto com os outros, será capaz de amá-los, bem como a si. Somente assim será capaz de beneficiar-se nos outros. O desejo que os outros sejam felizes é o desejo de beneficiar-se nos outros. Isso também está vinculado à tolerância. Quando alguém ama, possui tolerância. E o Buddha explica que não há nada mais elevado que a tolerância. Portanto, é assim que pratica-se a tolerância: você deve desejar que todos os seres estejam a salvo e sejam felizes.

E quem são todos os seres? Ele explica “Ye keci pānabhūtatthi, tasā”, não importa se são grandes, médios ou pequenos. Até os seres microscópicos, invisíveis. Os seres que não podemos ver são muito mais que aqueles que podemos ver. De acordo com o Budismo, temos em nosso corpo 8000 famílias de diferentes organismos microscópicos. Todos eles devem ser incluídos. Até quando estamos escovando os dentes matamos alguns organismos microscópicos, por isso devemos fazê-lo com amor. Não importa se estão longe ou perto, se são visíveis ou invisíveis, todos devem ser incluídos em seu amor. Mesmo aqueles em processo de nascimento, todos esses devem ser incluídos em seu amor. A seguir, vale lembrar que tais desejos e, de fato, a prática do amor compassivo devem ser ativos, não só passivos. Buddha explica que não se deve enganar o próximo, rebaixar o próximo. Devemos sempre ter a mais alta estima por todos os seres. Devemos sempre desejar que nenhuma resistência, ódio e aversão surja na mente de nenhum ser.

Então tem-se uma comparação muito famosa, que vocês já devem ter ouvido. Buddha diz que, tal como a mãe protege com a vida seu único filho, assim devemos estender nosso cuidado a todos os seres. Devemos estender esse cuidado nas quatro direções, aonde quer que tais seres estejam, sem impor nenhuma resistência. Há um sutra na coleção dos discursos “médios”1 que alguns podem achar um exagero, mas demonstra uma importante atitude. É o sutra da “Analogia da Serra”2. Buddha supõe que houvesse dois homens fortes com uma serra e que tais homens tentassem cortá-lo ao meio. Caso surja qualquer resistência ou aversão para com eles, Buddha diz que você não é um discípulo dele. Então, podemos achar um pouco difícil nos tornarmos discípulos de Buddha, mas não tomem isso literalmente. Buddha apenas quer mostrar a importância da não-resistência. A não-resistência é, de fato, uma das mais nobres forças. Aquele que obtiver tal força terá sucesso em tudo. Portanto, o modo de obtê-la está explicado exatamente neste sutra. (continua)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Sobre o não apegar-se



(Ven. Dhammadipa prossegue)
Praticar o Zen significa tornar-se Zen. E tornar-se Zen significa ter seus sentidos totalmente pacificados. Extamente por não haver nada a apegar-se, é que a pessoa realiza a não necessidade de ter apego.

Com isso, a última virtude exposta é kulesvananugiddho, ele não se apega à família. Caso os monges tivessem apego à família, seria muito difícil manter sua mente pacificada. Então os monges são sempre amigáveis à sua família e sempre praticam o amor para com seus familiares. Mas eles não devem apegar-se a eles.

Então essas são as virtudes para a prática do amor. Caso consiga mantê-las, sua prática do Zen tornar-se-á muito fácil. Isso explica o que alguém deve fazer. A próxima sentença explica o que não devemos fazer. Ela diz “Na ca khuddamācare kiñci, yena viññū pare upavadeyyum”, ele não deve praticar aquilo que os homens sábios repudiam. Ele especifica claramente homens sábios e não qualquer homem, não o estúpido. O comportamento daqueles que praticam meditação por vezes não condiz com o comportamento socialmente convencionado. Contudo, pode ser um comportamento bom e benéfico. Pode ser criticado pelos outros, mas caso sua motivação for o amor e a compaixão, os sábios irão compreender e apoiar tal comportamento. Logo, devemos nos comportar de forma que os sábios fiquem satisfeitos e os não-sábios, os estúpidos, não fiquem, mas sem preocupar-se muito. Caso pratiquemos as virtudes expostas, a seguir inicia-se a explicação sobre a concentração.

O Buddha primeiro dá instruções da meditação no amor. “Sukhino va khemino hontu, 
sabbasattā bhavantu sukhitattā”, é o desejo que todos os seres estejam a salvo. Estar a salvo quer dizer, de fato, estar liberto. Logo, a real salvação é apenas alcançada quando alguém obtém completa compreensão, o pleno despertar.

De acordo com o abhidharma-kosa, há de fato dois tipos de meditação. A primeira meditação é baseada na “determinação” e a segunda é a meditação baseada no “ver as coisas como realmente são”. A meditação no amor é baseada na determinação. Você determina que é feliz e que todos os seres são felizes e contempla você e todos os seres como sendo felizes. Apenas quando sua mente for forte e determinada você será capaz de obter sucesso nesta prática.

A maneira tradicional de obter uma mente forte é através da prática da concentração profunda. Caso obtenha uma concentração profunda, o que quer que determine acontecerá de acordo com tal determinação. Caso determine que todos os seres são felizes, de fato poderá beneficiar a todos os seres com sua felicidade e não-aceitação da frustração alheia. Foi assim que Buddha conseguiu transformar seus piores inimigos em seus discípulos e amigos. Ele simplesmente ignorou os atritos e penetrou através deles com amor compassivo e bons desejos. Logo, a meditação no amor terá sucesso quando você for capaz de determinar que todos os seres são felizes e são beneficiados por este amor.
(continua)

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Sutra do Oceano


 (continuação da palestra de Ven. Dhammadipa em Florianópolis)
O Buddha falou para monges que eram completamente dependentes dos outros. Apenas quando estiverem satisfeitos com pouco e com poucos desejos, eles serão verdadeiros monges. Caso contrário, tornar-se-ão um fardo para outros. Isso também está vinculado à incapacidade de ouvir o próximo e ser obediente. Portanto, todas as virtudes estão interligadas, são de fato um contínuo.

A próxima virtude é appakicco, ele será uma pessoa com poucos desejos. A fim de obter sucesso na meditação, expliquei tal virtude como um pré-requisito.

A próxima é sallahukavutti, o seu modo de vida deve ser leve. Ele não deve estar sobrecarregado por suas responsabilidades e deveres, senão tornar-se-á frustado, logo como poderá praticar meditação no amor?

A próxima virtude, caso obtenha-se as já mencionadas,  será aquele com suas faculdades pacificadas. A pacificação das faculdades é, de fato, a essência de toda prática. Ela é o início, o meio e o fim da prática. O Buddha explicou o controle das faculdades como sendo a essência de toda prática.
No Samyutta Nikaya há um sutra denominado “Sutra do Grande Oceano”. Na verdade esta é a essência do Zen, portanto vou falar um pouco sobre este sutra. Chama-se Samudda Sutta, o Sutra do Oceano. Aqui nesta cidade, vocês são muito afortunados de estarem sempre próximos ao oceano, logo, peço que contemplem este sutra. O Buddha explicou aos bhikkhus: o olho é o oceano. As ondas são em forma de cores que chegam aos olhos. Aquele capaz de tolerar, neste oceano do olho, as ondas na forma de cores, poderá cruzar o grande oceano do olho. Da mesma forma, os ouvidos são o oceano, e os sons são as ondas neste grande oceano. Aquele capaz de perceber as ondas na forma de som deste grande oceano poderá cruzar o oceano dos ouvidos. O mesmo para o nariz, para a língua, para o corpo e, finalmente, os fenômenos são as ondas no oceano da mente. Aquele capaz de perceber estas ondas na forma de dharmas – objetos mentais – cruzará o grande oceano da mente. Por favor, tentem contemplar este sutra. Caso tenham sucesso, seus sentidos estarão pacificados e a prática do amor ou amizade a todos irá ficar muito fácil.

Logo, a próxima virtude é appagabbho, appagabbho significa não ser imprudente, não insultar ninguém. Você apenas pode fazê-lo quando está em plena atenção e com seus sentidos pacificados. A prática da plena atenção é a essência da prática dos sentidos pacificados. De acordo com o Budismo, a prática da plena atenção consiste no não-apego aos sinais dos objetos. Nossa mente torna-se instável porque apega-se aos sinais dos objetos que chegam aos seis sentidos. Este também é o significado do Sutra do Oceano. Quando você torna-se Iluminado, não é capaz de apegar-se a nenhum sinal de nenhum objeto. Então será de fato Zen.  (continua)

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Virtudes no Sutra do Amor



(continuação da palestra de Ven. Dhammadipa)
A próxima virtude parte daquele que ouve bem e é obediente, logo ele será mudu. Mudu significa maleável. Isto significa reto, obediente e flexível. Esta virtude é de extrema importância. De fato, quando alguém é reto e não é flexível, implica que tal pessoa é teimosa. Ser teimoso é o oposto de ser obediente. Porque alguém é teimoso? Por possuir a idéia de um “eu” e apegar-se a ela. É por isso que Buddha explicou a próxima virtude, que é anatimānī, que é quando alguém não possui mana, ou orgulho. De acordo com o ensinamento do abhidharma, o orgulho origina-se da ganância. Tanto o orgulho quanto a visão errada, são decorrentes da ganância. Logo, a partir da ganância uma pessoa torna-se teimosa, sendo incapaz de ser reta. Com isso, tudo aquilo que esta pessoa faz não está dotado de mérito para si ou para outros.

Se a pessoa está livre do orgulho, a próxima virtude encontrada é santutti, santutti é a virtude mais apreciada por aqueles que praticam meditação. Santutti significa “encontrar satisfação em tudo aquilo que se faz”. Com esta virtude, a pessoa estará realizada com tudo aquilo que realiza. Esta é uma virtude muito importante para quem medita. De acordo com o abhidharma-kosa, a prática da meditação apenas terá sucesso quando seu praticante tiver poucos desejos e satisfazer-se com pouco. Aquele que possui muitos desejos não está satisfeito, logo não pode obter sucesso na meditação. Isso está conectado com as virtudes já mencionadas. De fato, o não orgulhoso, aquele que não pensa ser esperto, tornar-se-á flexível e ao mesmo tempo reto. O segredo da auto-satisfação está exatamente aqui, na flexibilidade e retidão. Aquele que é reto e flexível naturalmente terá poucos desejos e estará satisfeito com pouco. Então, estará livre do orgulho e poderá encontrar a felicidade em ajudar o próximo e não na auto-afirmação.

Como próxima virtude temos subharo ca, ele será uma pessoa de fácil relacionamento. Este é o resultado natural da auto-satisfação. Acabo de explicar o background deste sutra. (continua)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Explicação do Sutra do Amor



 PALESTRA DO VENERÁVEL DHAMMADIPA
Florianópolis, 25.02.13

Explicação do Sutra do Amor


Aquele que pretende tornar-se auto-realizado deve praticar três tipos de ensinamento que o Buddha proferiu, são eles: sila, samadhi e panna, ou “moralidade, concentração e sabedoria”. Este sutra tenta explicar isso e vou traduzi-lo, na verdade, tentar traduzir, para o inglês o seu significado. Ele explica precisamente como libertar a mente com a ajuda da prática de sila, samadhi e panna.
{Recitação do Karaniya Metta Sutta em Pali}

Este é o sutra, agora seu significado. Como havia mencionado, este sutra está dividido em uma parte explicando sila, relacionado à prática do amor, seguido da concentração no amor e finalmente uma curta parte, com a explicação da sabedoria necessária para libertação da mente.
Então, vamos à primeira parte explicando “SILA”. Considero este ponto tendo grande relevância no Zen. A parte sobre sila visa apenas explicar as virtudes necessárias para libertar o coração. De acordo com meus estudos sobre o Zen, concluí que todos os grandes mestres do Zen enfatizaram exatamente as mesmas virtudes. O sutra, então, diz “Karanīyamatthakusalena, yantam santam padam abhisamecca”. Aquele que pretende estabelecer-se na paz, também explicada como nirvana, deve ser assim:

Sakko, ele deve ser capaz. Portanto a primeira virtude é capacidade. O que significa ser capaz? Significa fazer de fato aquilo que decidiu fazer. Quando decidiu praticar o Zen, que de fato pratique o Zen. Devemos agir de acordo com aquilo que decidimos. Buddha é aquele que sempre faz o que diz. Pelo fato de sempre fazer o que diz, ele é bem-sucedido em tudo. Isso é o que capacidade quer dizer.

Uma vez que alguém seja capaz, a próxima virtude, dentre todas as virtudes, é a única proferida duas vezes. Logo, isso significa que Buddha enfatizou especialmente esta como sendo a mais importante. Ele fala “ujū ca suhujū ca”, ele deve ser reto, e reto de fato. Então quando alguém é capaz, esta pessoa torna-se reta. E muito reta. Retidão é, na verdade, a base de toda prática. Tal retidão também deve estender-se às suas relações. As relações, sejam elas com marido, esposa, pais, irmãos ou irmãs, podem apenas ter sucesso se dotadas de retidão. Vejam o quão importante é esta retidão dentro da Sangha. Esta é, de fato, a base para uma comunidade de sucesso.

O oposto da retidão é a desonestidade. Quando alguém não é desonesto, a próxima virtude é sūvaco, ele torna-se uma pessoa sempre pronta a ouvir. O oposto de sūvaco é dūvaco, que significa aquele com o qual temos grande dificuldade de conversar por não ser um bom ouvinte. Literalmente sūvaco significa ouvir bem, de forma que dūvaco significa não ouvir nada bem. Em Pali ou em Sânscrito, isso implica em ser obediente. Aquele que é reto, também tende a ser obediente. Apenas assim sua retidão será genuína. Este é também um importante princípio no Zen. Apenas aquele que é reto e ao mesmo tempo obediente, poderá ter sucesso no Zen. (continua)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Abade Daiju Bitti doa estátua histórica para o Daissen Ji



Idaten é a deidade que se coloca na cozinha dos mosteiros zen, esta figura ideal representa a vontade de conseguir alimento para os futuros Budas que estão em treinamento.  Assim diz-se que ele corre por toda a terra em busca dos ingredientes necessários. Também onde há um problema lá ele está para ajudar a resolver. Nos monastérios chineses ocupa uma assento no vestíbulo dos guardiões, no Japão está no altar da cozinha e para ele todas as manhãs se recita um sutra e se oferece incenso. 

No último dia do Nambei Sesshin 2014 ( Retiro de treinamento de monges) o abade Daiju Bitti do Mosteiro do Morro da Vargem http://www.mosteirozen.com.br/  Enkoji, um homem que há quarenta anos constrói um monastério, parte dele edificado com o produto de sua mendigação nas ruas japonesas, me olhou do outro lado da mesa e perguntou se tínhamos, em Florianópolis, a estátua de Idaten, disse que não, que usávamos uma imagem de Buda na cozinha, ele levantou-se e trouxe a estátua que depois de estar no Japão foi dedicada por Iko Roshi para Enkoji, havendo ficado 15 anos no altar da cozinha onde conversávamos. Preciosamente entalhada em madeira esta obra de arte já recebeu milhares e milhares de reverências. Entregou-a a nós e embrulhou cuidadosamente em tecido para a viagem. Fiquei emocionado e todos em volta perceberam quanto aquele momento selava nossa amizade e confiança no crescimento do Dharma de Buda. Jikihô San fez uma foto desta doação memorável.




terça-feira, 21 de outubro de 2014

Retiro Zen de treinamento da América do Sul


Foto inicial do Nambei Sesshin, retiro que reuniu no Mosteiro do Morro da Vargem em Ibiraçu ES  os professores do zen da América do Sul e quase meia centena de monges e postulantes. Esta a razão de não postar no blog nos últimos dias. Bem ao centro o grande mestre zen Saikawa Roshi de quem tenho a honra de ser aluno. A sua direita o inacreditavelmente realizador Abade Daiju que há quarenta anos se dedica a construir a excelente instalação por onde já passaram dezenas de milhares de pessoas.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Não se voa com uma asa só


 (continuação)
Uma vez eu encontrei um homem que me disse ser muito interessado no budismo. Ele abriu a sua pasta e, lá, havia cinco livros budistas. Era um professor de universidade, e logo me falou que tinha uma biblioteca com 200 livros sonbre o Dharma. Eu disse: “Magnífico. Eu tenho só uns 30 lá em casa”. Nós íamos viajar de avião, estávamos numa sala aguardando o embarque, e ele me disse que tinha muito problema em voar. “É porque não pode fumar, e eu preciso!”, me contou. “Eu não posso fazer viagens longas e ficar sem fumar o meu cigarro, me dá um desespero”. Então eu falei que ele teria que fazer meditação, e ele disse que não poderia meditar, pois não pode [ao mesmo tempo] fumar. Então não tem solução para ele. Ele sabe muito, mas não pratica nada. E isso é a mesma coisa de alguém dizer “eu sei muito sobre natação”, eu li muitos manuais sobre natação. “Mas o senhor já entrou numa piscina?”. “Não, não. Eu tenho medo d’água”.

Então esta pessoa não sabe sobre natação, ela sabe sobre os manuais. A mesma coisa acontece no budismo, e por isso não adianta elaborar teoricamente demais.  Assim como estudar arte é interessante, saber é interessante. Mas não me diga que sabe música porque você leu uma enciclopédia sobre o assunto, mas se lhe derem um instrumento você não toca. Você tem que usar o conhecimento “e” praticar. Só com essas duas asas é que você consegue voar. Não se consegue voar com uma asa só.

Por isso é tão importante nós sentarmos em zazen. Quando nós sentamos é que nós vemos os problemas reais. Nesse processo, vocês conseguem ficar parados? Conseguem aquietar o corpo? Conseguem respirar? A mente não para? É isto que está ocorrendo? Se sim, então precisa de uma prática mais intensa. Nos mosteiros, por exemplo, nós começamos a meditação todos os dias de madrugada. Nos levantamos às 4h, às 4h20 temos que estar na sala (zendô), e daí fazemos 1h30 de meditação, sendo 40’ de zazen (sentados) 10’ de kinhin (meditação andando) e mais 40’ de zazen em seguida. Só a partir daí é que começa o dia. Depois vem cerimônia, café da manhã e depois vem o trabalho (samu). O dia tem que começar assim, e  o dia termina assim também.
(continua com perguntas)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Como um tropel de cavalos desembestados



(Transcrição de palestra em zazenkai, decupada da gravação por Sonielson San)

Quem conseguiu ficar aqui, durante a meditação, por todo o tempo? Ninguém, não é? Natural, porque a mente está em movimento. Mas no segundo período [de 30 minutos] não foi mais fácil? Porque no primeiro momento vem aquele monte de apresentações de problemas, um atrás do outro, como um tropel de cavalos desembestados. Vem à tona um problema do passado, ou aquela conta que tenho que pagar depois de amanhã. E daí eu me pergunto: “Eu vim fazer este zazenkai para me livrar dos problemas, e eles permanecem todos aqui?!”. Mas claro! Você os trouxe na sua mente! E como é, então, que você “esvazia”? Parando o corpo e não alimentando em nada a mente, pois não adianta o problema se apresentar e você querer resolvê-lo. Você vai poder sentar aqui 100 dias, e não vai resolver. Não é com elaboração de raciocínios que se sai do círculo de associações infindável.

O que você tem que fazer é perceber que o passado é uma fantasia sobre registros, o futuro também é uma fantasia, uma expectativa. Os registros na memória são todos falsos. Nós pensamos que eles são reais, mas se acontecer qualquer evento aqui, e nós pedirmos para as diferentes pessoas relatarem este evento, cada uma terá uma versão diferente, porque viu uma coisa um pouco diversa. Então, desta forma, não existe a mesma versão do evento. Assim, a memória não é um registro confiável do passado. Desta forma, não adianta nós sentarmos em zazen para tentarmos resolver os problemas do passado. Tudo que vier à mente do passado, simplesmente você deve perceber como algo que não é para ser considerado, rememorado, nada...isso vale para culpas, coisas boas, prazeirosas, nada interessa.

Descarte [estas lembranças] e volte para cá, para a única realidade verdadeira, que é este momento de agora, este exato momento. Esta é uma técnica razoavelmente simples, mas como vocês devem ter notado, não é nem um pouco fácil de ser executada mas, se vocês conseguirem isso, haverá um resultado veloz, e aí vocês começam inclusive a se questionar onde estavam aqueles problemas todos que até então vinham lhe afligindo. Na verdade, eles “não estavam”. Tratava-se, apenas, de um emaranhado dentro da mente.

O que mais não resolve os nossos problemas? Erudição não resolve. Estudar os sutras, estudar o budismo e conhecer todos os seus detalhes, os nomes, como é que é isso, como é que é aquilo... nada disso resolve. Você pode estudar a vida inteira e continuar sendo o quê? Um erudito. E um erudito não é alguém que resolveu a vida.

Uma vez havia num templo um monge muito burro, ele não conseguia aprender nada. Então o mestre deu a ele uma vassoura e disse: “Você agora vai varrer o chão. Não assista palestra, aulas, nem nada. Apenas varra. E quando você estiver varrendo, pense: ‘limpa’, ‘limpa’, ‘limpa’. Só isso”. E de tanto repetir este “limpa, limpa, limpa”, o monge acabou por “limpar” a mente. Então isso quer dizer que uma pessoa pode ser ignorante (no sentido acadêmico da coisa) e ter acordado das ilusões. Tradicionalmente se diz que se um monge é muito erudito, muito inteligente, ele levará  muito tempo para conseguir despertar porque sabe demais. Então toda questão que se apresenta a ele, ele quer raciocinar.
(continua)

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Minimizar o sofrimento que causamos ao viver


Pergunta – Usando o exemplo que o senhor deu sobre alguém entrar aqui com a intenção de matar alguém ou todos. Eu venho por trás dele e o mato antes, como fica meu carma?

Monge Genshô – São dois eventos diferentes, no primeiro você salvou a vida de todos e no outro você matou alguém. A família dele vai odiar você e há nisso uma retribuição cármica.  Mas por outro lado há o bom carma pelo fato de teres salvado muitas vidas. Essa é uma historia clássica no Zen, a do Boddhisatva que matou um homem para salvar quinhentas vidas. Ele assume o carma ruim para beneficiar quinhentas pessoas.

Pergunta – Ela também poderia atrair um carma pela omissão, não é?

Monge Genshô – Sim. Na verdade é uma situação sem saída. Se faz algo como matar o homem, produz um carma, se não faz nada e as pessoas morrem, produz outro carma. Você deve escolher. Mas não existe a escolha de viver sem problemas. Assim é a vida, você não conseguirá evitar todo o sofrimento. Nos tempos de Buddha os Jainistas, faziam oposição ao budismo e o desejo deles era evitar todo o tipo de sofrimento. Alguns chegam a não usar roupas, pois para isso tem que plantar algodão e com isso matar insetos, logo, eles andam vestidos de vento, não usam roupas. Quando caminhavam varriam o chão à sua frente para não pisar em nenhum ser vivo e coavam a água com o mesmo objetivo, que toda e qualquer forma de vida fosse salva do sofrimento. É impossível evitar todo o sofrimento, veja nosso corpo, por exemplo, ele está constantemente matando vidas microscópicas para que você possa estar bem de saúde. Se você tentar levar sua vida a esse extremo, não poderá continuar vivo, pois viver implica em causar sofrimento. O que podemos fazer é minimizar o sofrimento que causamos pelo simples fato de existirmos.

Pergunta – No meu modo de entender o Zen, é como se ele fosse na veia, direto. Já estive em outras escolas, e lá existem vários tipos de meditação. O senhor poderia explicar melhor essa diferença entre as escolas?

Monge Genshô – Existem diferentes métodos porque existem pessoas diferentes com diferentes necessidades. Para algumas pessoas o Budismo Tibetano é melhor. Isso é tão claro e evidente que quando você entra numa Sangha Tibetana e entra numa Sangha Zen, consegue perceber a diferença pela expressão facial das pessoas, o sistema de treinamento as vai alterando. Isso é para tudo, não só para os Tibetanos ou Zen Budistas, serve para evangélicos, católicos ou protestantes. O Zen é chamado Caminho Direto e não é uma prática destinada à todos. Foi concebida como uma prática monástica e para os poucos que desejavam se retirar para montanhas e treinar com mestres extremamente exigentes. Um grande mestre, Bodhidharma, deixava os pretendentes a alunos esperando no lado de fora de sua caverna, na neve, e não os recebia. Só recebeu Taiso Eka, porque este cortou seu braço. É natural que sejamos poucos.
(Final da palestra, decupada da gravação por Chudô San em 2013)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Só se prega sobre o que há dúvidas



Pergunta – Então tudo está em nossa mente, mesmo os reinos dos famintos, deuses, humanos etc.? Não existem como algo físico?

Monge Genshô – Pode ser, há tantas dimensões... E se existir um mundo infernal para onde uma pessoa que viveu uma vida de maldades vá para pagar por seus erros? Não posso lhe responder, pois ainda estou vivo. Só há uma garantia, boas ações resultam em bom carma, más ações resultam em mau carma. É nisso que você deve confiar, pois tudo que vier depois só pode redundar das ações praticadas. Do bem nasce o bem e do mal nasce o mal.

Temos muitas coisas sobrenaturais em nossa vida. Você caminhar é algo sobrenatural, poder pegar água para beber é algo extraordinariamente sobrenatural. Imaginem a vida sem água? Temos coisas sobrenaturais aos montes em nossas vidas que são verificáveis e saímos à procura de coisas não verificáveis. Posso afirmar para vocês que água e plantas dão origem ao chá, isso é extraordinário e sobrenatural e facilmente comprovável. Vocês nunca ouvirão pregadores desejando que vocês acreditem que água existe, eles só pregam coisas sobre as quais os humanos têm dúvidas, por isso tem que falar todas as semanas e renovar sua crença, “Tenham fé, acreditem!”.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O budismo não é a religião do acreditar. É a religião de despertar.


Pergunta – O budismo acredita que possa existir algum tipo de entidade, como essa do mal?

Monge Genshô – O budismo não é a religião do acreditar. É a religião de despertar. Você tem evidências da existência dessa entidade?

Pergunta – Sim, dessa não, mas tive experiências de contato com entidades.

Monge Genshô –  Você teve, mas essa experiência é intransmissível, portanto, para os outros tanto faz, é irrelevante para o despertar. Se você não mostra evidências da existência ou não de entidades, isso não tem a menor importância. Mas mesmo que você prove que existem essas entidades, esse fato continua irrelevante para a prática budista.

O mesmo pode ser dito a respeito de deuses, eles existem ou não? Não existe nenhuma evidência, nenhuma forma de verificação. Se você acredita está bem e se não acredita também está tudo bem. Não faz diferença para o praticante do Zen. As vezes as pessoas estão cheias de sabedoria e vem à Sangha com suas convicções tentando convencer as outras pessoas. Isso mostra o quanto ela tem dúvidas de seus conhecimentos, o quanto lhes falta de certeza. Por que tenta convencer os outros? Para que mais pessoas pensem como você? Se você tem certeza e sua experiência for válida, não será preciso convencer ninguém de nada. A forma como as pessoas chegam à Sangha se assemelha a história do aluno que pede explicações para o mestre, mas não para de falar, então o mestre o convida para um chá e começa a encher sua xícara até transbordar. Ao ver que o mestre não vai parar o aluno diz, “Mestre, já está cheia, não cabe mais nada”. “Igual a sua mente, você sabe muito, não cabe mais conhecimento nela”. Não se pode colocar nada em uma mente cheia, é necessário se esvaziar primeiro. Você deve sentar para meditar e assumir sua ignorância, esse é o grande sábio.

 O Zen é muito simples, rico, mas simples. Como na historia do mestre que caminhando com seu aluno lhe pergunta; “Ouves o riacho?”, “Sim.”, responde o aluno. “Então não tenho mais nada pra te ensinar”, diz o mestre.  Quem faz retiro na Pousada Passarim sabe o que quanto é difícil escutar o riacho que passa ali perto.

Pergunta – Não sei se é a isso que o senhor se refere, mas as vezes na vida ficamos preocupados com verdades transcendentais e deixamos de lado o aqui e o agora, como na história de Budha em que há uma pessoa ferida com uma flecha e todos ficam se perguntando quem atirou a flecha, de onde veio, onde ele estava etc. e se esquecem de ajudar o ferido.

Monge Genshô – Sim, é verdade.

Pergunta – Ainda sobre a existência ou não de espíritos ou entidades. Há uma historia de Chico Xavier em que uma pessoa acusada de assassinato é absolvida porque Chico Xavier psicografou uma carta do assassinado dizendo que o réu não era culpado.

Monge Genshô – Sim, o que aconteceu foi que os jurados aceitaram uma carta escrita por Chico Xavier, onde o suposto assassinado dizia que aquela pessoa não era culpada pela sua morte. Mas você sabe se a carta era ou não verdadeira? O que sabemos é que os jurados, baseados em sua fé, aceitaram aquela carta e a consideraram uma evidência. É a evidência de que? Da fé dos jurados em Chico Xavier.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Regras e relativismo moral


Pergunta – Estou fazendo um curso de filosofia e frequentemente aparece o termo “mal radical” e segundo Kant se esse mal existisse seria algo sobre humano, quase diabólico. Existe esse conceito no budismo?

Monge Genshô – Nietzsche dizia que “se um deus controla o demônio, ou o mal, esse deus é cúmplice”, por outro lado completa, “Se não controla, não é onipotente”. Sempre houve na historia essa tentativa de dividir o mundo em um deus do mal e um deus do bem. Analisando bem é uma tentativa de fazer com que deus não seja responsável pelo mal, pois quando você admite a existência de alguém que é responsável pelo mal, automaticamente absolve deus de ter criado o mal. Estas são dificuldades filosóficas praticamente intransponíveis. Sob o ponto de vista budista isso é dualidade. Bem ou mal, ruim ou bom são conceitos aceitos pelo budismo somente no mundo relativo, não no absoluto. Para o budismo temos dentro de nós o potencial para realizar ambas as coisas. O fato de nos horrorizarmos com as coisas já demonstra que compreendemos o mal.

Na tentativa de dividir o mundo em claro e escuro percebemos que ele é na realidade um pouco cinza, por exemplo, não conheço uma pessoa integralmente boa ou totalmente má. Tudo é um tanto confuso e misturado e somos participantes de ambas as coisas. Muitas vezes não vemos o mal, simplesmente não o enxergamos. Sempre recebo e-mails das pessoas e um dia destes me escreveu um rapaz e deu para perceber claramente que o que ele deseja são preceitos, algo para ele se agarrar, do tipo, “Isso pode, aquilo não”, “faça isso, mas não aquilo outro”. Ele deseja regras claras. Como monge budista não posso dizer para uma pessoa que isso ou aquilo é certo ou errado de forma absoluta. Isso não existe no Zen Budismo. Os preceitos que seguimos são faróis guias para evitarmos o sofrimento e não declarações absolutamente precisas. Imaginem alguém que cumpre os preceitos a risca.  Um dos mais básicos diz para não enganar. Um criminoso entra aqui na sala agora procurando pelo Marcos, antes de ele entrar o Marcos saiu e se escondeu no banheiro. O assassino chega e pergunta pelo Marcos, o que devemos fazer? Indicar que está escondido no banheiro? Essa seria a resposta correta? Ou seria melhor mentir dizendo que ele já saiu faz mais de tantas horas? Nessa situação o correto é mentir para evitar o sofrimento.

Existe um relativismo moral, por exemplo, uma vez estive na Bolívia com um grupo consultores e me convidaram para jantar e me levaram para comer um prato típico. Era uma espécie de marreco ou pato, como sou vegetariano, e eles sabiam disso, não comi. Então um dele me disse, “mas já está morto, pode comer”. Minha resposta foi que esse argumento serve também para comer criancinhas. Você mata, esquarteja, assa e serve, por que não vai comer, se já está morto? O relativismo moral sempre tem isso, sempre existe uma situação pior, mas um erro não justifica o outro. O meu argumento é de que não preciso comer, minha vida não depende disso, pior, se eu pago e como, estarei incentivando ou financiando essa indústria, foi um caminho que escolhi, (antes que alguém pergunte não é uma regra budista). O que faço não é muita coisa, mas é o que posso fazer. Temos que admitir que nossos atos tem repercussões e não são facilmente distinguíveis em certo e errado. Não consigo fazer o melhor de tudo, mas faço um pouco do bom e do que me é possível, não faço perfeito, mas faço algo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Você pensa por isso pensa que existe


Pergunta – O senhor pode falar mais um pouco sobre forma e vazio?

Monge Genshô – Forma é vazio e vazio é forma. Todas as coisas são vazias de um “eu”, não no sentido de não terem nada dentro, mas sim que não possuem um “eu” inerente. Todos somos vazios de um ”eu” inerente, mas nos manifestamos como pessoas. Toda a forma é vazia, mas se tirarmos a forma não sobra nenhum vazio, não existe algo que resta, pois a forma é vazio e vazio é forma.

Pergunta – Sobre o momento de estar presente. O pensamento sempre vem e nos leva junto. Depois de algum tempo é possível ficar presente sem ser levado pelos pensamentos? É possível segurar os pensamentos e não deixar que eles nos arrastem?

Monge Genshô – Porque você acha que é diferente de seu pensamento? Você e seu pensamento são uma única manifestação. Você só pensa que é você porque pensa. Você pensa por isso pensa que existe, Descartes estava enganado.

Pergunta – Então um peixe não sabe que existe?

Monge Genshô – Exatamente por isso, porque não sabe, é que ele está presente. Aquele que pensa que sabe não está presente, pois está pensando. “Os peixes são verdadeiramente peixes, pássaros são verdadeiramente pássaros, somente os homens não são verdadeiramente homens”.

Pergunta – É verdadeiro dizer que o Zen tem uma espécie de aversão à razão?

Monge Genshô – Pode, mas não significa que você esteja certo.

Pergunta – Uma vez que já somos e apenas não percebemos que somos, o despertar não é algo que tenha que ser atingido, mas sim realizado. Se já somos e já estamos onde deveríamos estar, não há nada a ser feito que demande tempo, pois o tempo e o espaço também são uma ilusão. Certo?

Monge Genshô – Já estamos, de certa maneira, despertos. Todos temos a condição de despertar. Podemos dizer que todos somos Budas e, apenas ainda não o somos completamente, porque ainda estamos vivendo num mundo de sonhos, um sonho muito nítido que nos ilude. A vida é um sonho nítido.

Pergunta – Se um peixe não sabe que existe e por isso é um desperto, ele se compara a um Buda? Existe uma semelhança?

Monge Genshô – Embora o peixe não esteja perdido, tem a obscuridade de um animal, lhe faltam sabedoria e clareza. O homem ganha o pensamento e o raciocínio e neles se perde. Perde a vida, o momento presente e tem medo da morte. Por isso não é um iluminado, mas quando um homem desperta, sua clareza ilumina o universo inteiro. Todo o universo que ele olha se ilumina junto.

Pergunta – Quando um animal se vê ameaçado, rapidamente foge. De certa maneira tem um medo instintivo que o alerta. Também possuímos esse medo, com a diferença que vivemos agarrados a ele. Um animal através desse sentimento, pode também ter um sentimento egóico, ou temos o mesmo sentimento deles, pois também possuímos um mundo animal dentro de nós?

Monge Genshô – Nós somos animais também, apenas gostamos de pensar que somos especiais. Não somos nada além de um primata que evoluiu um pouco mais e tem um cérebro melhor. Mas também porque pensamos, temos uma angústia existencial, pois descobrimos que vamos morrer. Essa é a essência da angústia humana. Foi esse questionamento que levou Buda a abandonar o palácio onde vivia e se perguntar - “Por que existe velhice, doença e morte”? Qual é o sentido da vida? Somos diferentes dos animais porque temos essa percepção do futuro que nos aguarda - velhice, doença e morte - e exatamente por isso sofremos. Por isso os homens criaram as religiões, pois querem escapar desta angústia, por isso procuram crenças. O Zen é a oportunidade de destruir as crenças, não existe no Zen qualquer tipo de dogma, é como disse Buda: “Não acreditem em mim, testem”.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O sofrimento é ilusão mas é real


Pergunta – Na cerimônia há uma passagem que diz que “transferimos os méritos desse sutra...” como que é isso?

Monge Genshô – Se todos somos um e estamos todos ligados, tudo que fazemos atinge todas as pessoas, não é necessária nenhuma transferência. Tudo que você faz atinge todos os seres, todas as coisas do universo. Você e o universo são uma única coisa. Atingidos pela ilusão de estarmos num corpo, olhamos as coisas e nos vemos separados. Tudo que fazemos, de bom ou ruim, contamina todos os seres.

Pergunta – Qual o pensamento do Budismo sobre reencarnação?

Monge Genshô – Não existe alma ou mesmo um “eu”, portanto, se não existem almas ou espíritos e se o “eu” é uma ilusão construída por nossa mente, o que existe para reencarnar?

Pergunta – Se vida e morte são uma coisa só, por quê é errado matar?

Monge Genshô – Mesmo que o sofrimento seja parte integrante da vida e mesmo que seja parte de um sonho, ele é real. Quando você vê uma pessoa tendo um pesadelo, é apenas um sonho, mas ele está sofrendo. Se você tem compaixão e não deseja que os seres sofram, você não irá causar sofrimento. Embora seja ilusório, ele é realidade. Quando você vê os pontos em forma de pessoas, em certo sentido é ilusão, mas são seres e sofrem. Vida e morte são partes integrantes de uma única coisa, como dois lados de uma moeda. Nascimento e morte são a própria vida. Nenhum ser, mesmo ilusório, deseja sofrer e morrer, por isso matar é errado e isso se estende a todas as formas de vida.

Quando fazemos nossos votos prometemos proteger todas as formas de vida e não somente as humanas. Não somos os reis da criação. Não fomos feitos a imagem e semelhança de um Deus, ou somos todos deuses ou não existem deuses. Essa é a visão budista.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Se você tem uma ambição não conseguirá



Pergunta – Esses sutras ou mantras recitados na cerimonia têm algum significado em português?

Monge Genshô – O mantra mais longo que recitamos é o Dai Shin Darani e os Darani não têm significado textual embora seus ideogramas possa ser traduzidos e você tenha uma espécie de poema. Depois de milênios repetindo o mesmo som é como se ganhassem força, mas na realidade isso acontece na nossa linguagem do dia a dia. As pessoas começam a repetir muito uma palavra e ela ganha um significado, por exemplo, amor, e, de tanto repetir uma palavra ela ganha um poder.

Com um insulto acontece o mesmo, de tanto ser repetida a palavra ganha tamanho significado que quando você usa para uma pessoa, ela se sente ofendida e reage. Os mantras através de sua longa história de repetições têm essa capacidade também. No Zen os mantras são incorporações de outras escolas, como a Escola Tendai e Shingon onde a prática do mantra é importante para criar uma condição pessoal, mas esse não é foco do Zen. Na Escola Terra Pura por exemplo, não fazem meditação sentada e sua prática central é a recitação de “Namu Amida Butsu”, que significa “Salve o Budha Amida”, é uma forma de meditação com outra técnica.

Como falei, isso não existe no Zen, onde a prática principal é a meditação sentada. Vocês podem observar que o Zen não é fácil, pois o objetivo do zazen é controlar a mente que é extremamente rebelde, se parece com um macaco bêbado pulando de galho em galho e, trazer a mente para o momento presente e suportar a imobilidade física,  que é uma exigência bem difícil. O Zen é a escola do esforço próprio, assim como fez Buda, que se esforçou sozinho para atingir o despertar e esse esforço é o centro da prática. O Zen é muito regrado e exige muita disciplina para praticar. Em algumas escolas acredita-se que o homem não possui condições para se iluminar e deve, portanto, orar para renascer numa terra pura onde aí sim poderá alcançar a iluminação, mas no Zen acreditamos em nós mesmos e na nossa capacidade de iluminação, pois somos iguais à Buda - homens, e se ele fez algo, também podemos fazer, uma outra forma de pensar, embora quando você se dá conta de que a ambição de alcançar algo é um obstáculo importante começa a entender o sentido da prática de pura entrega sem objetivos de outras formas de praticar o budismo. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Cortar a raiz



5) Eu vejo muita dificuldade em cortar a raiz.

Saikawa Roshi – Eu vi num noticiário que há um conflito no Paquistão. Alguém deu um coração da filha morta para transplante. Se você assim o desejar pode dar o coração para qualquer pessoa, mesmo seu inimigo. O problema é o conceito de inimigo que o impede.

** Comentário de Monge Genshô – O que Roshi está querendo dizer é que se amanhã judeus e palestinos perdessem suas memórias, seus conceitos, tudo estaria resolvido, pois quando se olha para uma pessoa sem saber sua nacionalidade ou religião, elas são iguais.

Os ensinamentos de Buda tentam disseminar paz e harmonia ensinando a ver a realidade, ver a raiz da realidade. Costumamos dizer que nascemos, nós não nascemos, é a vida que nasce, porem a vida não nasce do nada, é pura transmissão, na verdade sua vida é infinita. É difícil viver no mundo dessa maneira, as pessoas não entenderiam, pois esse mundo é dualista. Por isso dizemos “eu nasci em tal data”.

6) Eu não entendo muito bem essa parte, nós já existíamos antes como parte do todo, ou passamos a existir a partir da união dos pais?

Roshi – Shakyamuni Buda foi perguntado sobre passado e futuro e ele não deu resposta. Algumas poucas vezes ele respondeu em outras ficou em silêncio. Para nós o que importa é esse momento, prestar atenção somente a esse momento é o que realmente importa.

** Comentário de Monge Genshô – Sua pergunta seria, “eu existia separado antes de meus pais”? Esse é o desejo do ego, ter existência própria. Ter existido antes e continuar a existir depois.

A separação existe, eu sou separado de Genshô e ele é separado de mim e de vocês. E somos todos diferentes. Esse mundo é dualístico. Mas ao ver a divisão você perde de vista a unidade.

7)  Embora já existíssemos antes, o momento da concepção é quando se juntam pai e mãe, então, como é isso de verdade? Existíamos antes, mas passamos a existir de fato no momento da concepção, como isso funciona?

Roshi – Essa idéia de eu e os outros é que não é boa. Não há eu e os outros, começo ou fim. Se você entende como nascimento, você irá morrer. Mas no círculo não existem nascimentos ou mortes, em todos os pontos há nascimento e há morte, então de verdade não há nascimento ou morte, vida ou destruição.

** Comentário de Monge Genshô – O que ele está explicando é que na dimensão histórica existem nascimento e morte, vida e destruição, certo e errado, bom e ruim. Mas na dimensão suprema não, é como ele acabou de explicar no Sutra do Coração, na parte em que nega a existência de tudo, no mundo do Dharma nada é puro ou impuro, nada nasce ou morre, justamente para que não surja esse tipo de pergunta, não existe começo ou fim. Onde estava você antes das duas células se juntarem?

O koan, “qual a sua face antes de seus pais nascerem?” parece falar sobre passado e futuro, mas não é isso. Quase todos os koans não podem ser respondidos através da mente racional e dualística. É impossível. Se você se concentrar nesse koan não conseguirá respondê-lo com sua mente racional. Para respondê-lo você deve entrar no mundo não dual. O koan irá guiá-lo para o mundo não dual.

** Comentário de Monge Genshô – De certa forma, seus avós e seus pais estão aqui.  Roshi please, Do you understand? It’s ok?

Roshi – Anyway it’s ok, I don’t understand. (De qualquer jeito está bem, eu não entendo mesmo)
(Final)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Além dos apegos está a liberdade


1) O senhor falou em células, a diferença entre uma célula e outra se dá somente no nível energético?

Saikawa Roshi – Mesmo as pedras têm diferença de energia. Tudo é diferente, nada existe da mesma forma.

2) Até onde vai nosso esforço, não só na busca da iluminação, mas mesmo para se manter sentado, onde é o limite?

Roshi – Sim, limites existem. Nós estamos navegando em causa e efeito como a correnteza de um rio, em momentos ele é rápido em outros é lento. Um rio forte pode destruir muitas coisas pela frente. Naturalmente se existem diferentes níveis de energia, existem diferentes níveis de limites, é da natureza da vida.

3) O conhecimento tem vários estágios. Primeiro não sabemos que não sabemos. Depois, sabemos que não sabemos. Quando a gente sabe muito, até esquece, pois faz tudo automaticamente. De onde vêm esses insights súbitos que temos? Por exemplo, saber ou conhecer algo que nunca havíamos visto antes?

Roshi – Isso também vem da correnteza de causa e efeito. Quando se reunirem as condições para o insight, ele acontecerá.

4) Voltando ao exemplo do café. O café que trouxe sensações boas por estar relacionado com coisas boas, ou o contrário? Como isso repercute no futuro? Por exemplo, em vinte anos se eu sentir o cheiro do café isso me trará boas ou más recordações? Como lidar com situações tão distintas para evitar o sofrimento?

Roshi – Isso é sobre o sofrimento ou sobre o café? Você sabe a resposta não é? Apenas observe, sem comparações, sem considerações, sem julgamentos. Memórias trazem muitos apegos, muitas energias associadas às coisas trazidas pela memória. Se você livrar-se dos apegos obtém a liberdade.

** Comentário do tradutor, Monge Genshô – existe uma historinha Zen, uma anedota, o aluno pergunta para o mestre: “Mestre, como posso ser livre?”, e o mestre responde: “Quem te prendeu”?

Sob ponto de vista relativo, minha opinião, minhas idéias e meu corpo existem. O senso de eu, meu e minha do ponto de vista de Buda são projeções do eu, é o eu quem agrega essas coisas. Todas essas coisas são criadas condicionalmente. Meu carro, minha casa, minha esposa, minhas filhas, todas essas coisas existem cem por cento no mundo relativo. Mas nada disso você pode segurar porque do outro lado é como se fosse um espelho, as coisas aparecem e somem e o espelho não diz nada, nada julga. Nós usamos simbolicamente a palavra espelho, mas o espelho também não existe independentemente, também é uma construção, tudo isso realmente existe, mas se você cortar a raiz do conceito, tudo bem. Qual a raiz dos problemas, das coisas ou sentimentos? Se você encontra a raiz e corta, passa a não mais se importar se perder as coisas, perder um amor, ou até mesmo um sentimento de sofrimento não o agride mais. A raiz é o apego, o meu, o minha.