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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

As Oportunidades Guardadas no Sofrimento




Aluno: Segundo a psicanálise, é o sofrimento que faz a pessoa se libertar de repetições, mecanismos, vícios. Como educador eu já percebi que às vezes tirar uma pessoa da zona de conforto provoca sofrimento, mas ela vai crescer com esse movimento. Como que fica para o budismo essa questão? Uma aparente contradição.

Monge Genshô: O sofrimento é o caminho mais curto. Os mestres cansam de dizer isso. Hoje me escreveu uma senhora que diz que seu marido tem outra e quer ir embora: "eu estou desesperada, eu não como mais, e eu estou doente. Por favor, socorra-me". E eu disse: "mas se ele disse que vai embora, ele fez uma escolha, isso está decidido. Talvez seja uma grande oportunidade para você. O que você faz agora? Levante-se da cama, tome um banho e faça uma refeição". O sofrimento é ótimo para ela neste momento, porque ela pode fazer uma escolha, ela pode mudar sua vida, tem grandes oportunidades que ela não está enxergando, e só não enxerga porque quer permanecer na situação que já existia. Sofrimento é realmente o caminho mais curto para as revoluções pessoais, isso eu não tenho dúvida nenhuma.

Existe um violinista chamado Itzhak Perlman, e ele toca numa cadeira, sempre sentado, porque teve paralisia infantil. Eu li um artigo dele dizendo que por ele ter ficado com as pernas paralisadas, por causa disso ele é um grande violinista, porque era tudo o que restava para ele. Ele não podia correr, jogar bola, não podia um monte de coisas. Todos os colegas podiam fazer, mas ele só podia se dedicar ao violino, e porque ele se dedicou, então ele é o violinista que tocou o fundo do filme "A Lista de Schindler". Ele é aquela pessoa admirada no mundo todo porque teve um sofrimento que o conduziu àquilo. Não se engane: para todas as pessoas que têm grandes realizações, cada realização custa um esforço titânico. Você tem que ficar lá treinando e treinando e sofrendo muito. Não vem nada fácil, e as realizações espirituais também são assim. Por isso que eu nunca falo para alunos que não se sentaram em Zazen.

Uma vez veio um senhor depois do zazen, pediu para entrar e ouviu uma palestra. Na semana seguinte fez o mesmo, e então eu o chamei e falei: "você não pode fazer isso. Ou você vem fazer Zazen e sofre ali sentado, ou eu não quero você numa palestra. Então não venha". "Ah o monge não é muito compassivo". Os monges zen não são compassivos. Eles têm que ser duros, essa é a nossa tradição.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Ética Budista




Aluno: talvez relevante não seja o que a gente faça com a vida?

Monge Genshô: Relevante é o que você faz com sua vida sim. Eu [ao falar sobre quão efêmera é a vida] estou acentuando um lado para desconstruir esse agarramento. Do outro lado a vida é maravilhosa e você tem que aproveitar cada momento sabendo: "ah, vai terminar!"

Hoje eu vi uma notícia assim: Usain Bolt ganhou 100 metros rasos e à noite comemorou com três suecas. Certo ou errado? Não posso julgar isso nem para ele, e nem para elas. Isso foi um momento deles, e eles quiseram festejar dessa forma. É uma forma fugaz, pois, no outro dia, desapareceu, como todos os prazeres da vida. Nós não fazemos julgamentos deste tipo no budismo: "ah, é culpado". Os julgamentos no budismo são assim: "causou sofrimento ou não causou sofrimento?". Por isso é que nós não julgamos as pessoas por suas preferências ou pelo que fazem, ou por suas escolhas pessoais. Quais são as consequências dessa escolha? Isso é o que vamos ver depois, e é assim que as coisas têm que ser cogitadas.

Não existem mandamentos no budismo, nenhum Deus para nos castigar ou punir em relação ao que fazemos. Tudo é ética construída em cima da pergunta: "você está causando sofrimento aos outros?". Se causar sofrimento é muito ruim. E é aí que percebemos que essa ética é mais aguda que mandamentos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A Relevância da Vida





Aluno: Como é possível se conectar sem se apegar e não se apegar sem que tudo se torne irrelevante?

Monge Genshô: Na verdade todas as coisas são irrelevantes. Diga-me uma coisa verdadeiramente relevante.

Aluno: A vida.

Monge Genshô: A vida é relevante. No entanto, o que a vida é se não, a cada momento, a própria morte? Você a todo o momento está morrendo. Quando você se levanta de manhã e olha no espelho, vê o trabalho da morte, não é? Mais uma ruga, mais um dente que está caindo. É assim, não é? Nós pensamos que somos relevantes, mas não somos. Estou falando a uma plateia de condenados à morte, só que ninguém sabe o tamanho da corda que está pendurada no pescoço - estamos todos caindo de um precipício, e daqui a pouco para um de nós aqui a corda estica. Nós não sabemos qual de nós vai morrer primeiro. 
Eu recebi um convite para o aniversário do meu irmão. Ele vai fazer 70 anos. Isso quer dizer que daqui a pouco eu vou fazer também. Qual é a expectativa média de vida no Brasil? 73 anos. Na média, daqui a três anos eu estarei morto. Nós não sabemos. A vida é relevante? Nada é mais relevante do que se libertar de todo o medo, agonia, porque, do contrário, o que sobra?

 O planeta vai acabar, a vida vai acabar, a nossa raça humana vai acabar. A Terra já sofreu cinco grandes extinções, e uma extinção um dia virá para nós. Quem sabe daqui a 200 anos todos nós já não seremos obsoletos e seremos substituídos por seres mecânicos que nós mesmos tenhamos criado... Seres meio mecânicos e meio inteligentes, com capacidades de raciocínios superiores que digam: olha só como há 200 anos eles eram primitivos!