quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Novos Rakusus


Estes são os novos alunos do Monge Genshô, que após alguns anos de prática efetiva nas Sanghas, receberam autorização para costurarem seus rakusus e fizeram os votos formais na linhagem de Buda.

1ª Cerimônia de Jukai celebrada pelo Monge Genshô. 

Florianópolis, fevereiro de 2016.

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Paulo Go Dō - Senda da iluminação
Lucas Jun Dō - Senda da Obediência
Camilla Shō Dō - Senda da Aquiescência
Valéria Tai Dō - Senda da Persistência
César Riki Dō - Senda da Força

Devemos nos direcionar para o que é bom



Aluno: O senhor estava falando para a gente tomar cuidado com o que come e eu quero saber se isso vale também para outras coisas, como a televisão. É certo a pessoa se abster de ver televisão, já que a mídia publica tanta coisa ruim? Assim como procurar conviver com pessoas que transmitem algo melhor.
Monge Genshô:
Sim, é certo, mas tenho várias considerações a respeito. Eu fui diretor do Zero Hora na época em que ele era o quarto maior jornal do País e conheço a mídia por dentro. Muitas vezes vejo essa consideração a respeito de como a mídia trabalha, mas a verdade é que a mídia vive de audiência. Se tem notícia de violência é porque as pessoas adoram ver isso. Se você fizer um jornal e colocar: “grupo de 30 pessoas se reúnem para meditar” será uma notícia sem audiência, só ganharia atenção pela estranheza. Então se todas as pessoas desligassem a televisão quando vissem notícia de violência, essas notícias desapareceriam em 24 horas de todos os canais. O que ocorre é que estão sempre medindo o que as pessoas mais assistem, não adianta criar um programa que fale de outros esportes se todos querem ver sobre futebol, não adianta colocar um concerto de Brahms se todos vão mudar de canal. Mas se você quiser ver isso poderá pagar um canal específico e assistir. Hoje existem coisas maravilhosas disponíveis na televisão, só que é necessário pagar por isso. Semana passada eu assisti um documentário de três horas sobre o barroco europeu, mas tive que pagar para assistir porque essa é a demanda. Vi pelo Philos, um canal que tem como lema “penso, logo assisto”. Lá acho aulas, concertos, documentários, coisas ótimas, mas que não estão na televisão aberta. A televisão aberta se formou justamente colocando no ar o que atrai a maioria e isso não é de nível alto. Se você chega em outro país, no Japão mesmo, e liga a televisão aberta vai ver grandes porcarias, talvez até piores do que as que vemos aqui. Isso significa que há uma massa de povo inculto que procura o que é escandaloso, esse problema é bem antigo.

O sangue, a violência e o crime atraem o público por um fenômeno cerebral, as pessoas se sentem atraídas pelo que é assim porque apela ao perigo e existe uma parte do cérebro programada para prestar atenção no que é perigo. Usamos isso também quando colocamos o jisha sempre à frente do professor, porque se vier um tigre o jisha é comido e o professor se salva.

Mas, indo para a segunda parte da sua pergunta, o que nós devemos fazer é sermos cuidadosos e nos direcionarmos para o que é bom. Se você assistir algo traumático, isso fica na sua mente com muito mais força do que se você assistir algo belo. Nosso cérebro funciona assim. É por isso que a televisão chama a atenção das pessoas justamente com o que é ruim. Não é culpa da mídia, ela reflete a sociedade e se a sociedade muda, então a mídia muda. Por isso eu faço propaganda desse canal para que as pessoas vejam e ele sobreviva. Há um outro também chamado Arte 1. Então selecionem, tomem a decisão de procurar e isso vale para revistas, leituras e tudo mais na vida. Em algumas situações nós não podemos fazer isso, eu, por exemplo, trabalho como consultor então tenho que ler certas coisas. Se chego numa empresa e me perguntam sobre algum fato, eu preciso estar informado para responder. Mas isso não significa que vou ligar a televisão e vou me comprazer com os crimes mais horrorosos, eu não preciso fazer isso, já sei que eles existem, mais importante que ver é saber as estatísticas de como está a criminalidade, saber se ela cresceu, onde e por que diminuiu, se é possível mudar a mente de um presidiário, etc. Nós temos uma líder zen budista fazendo um trabalho assim numa penitenciária de Joinville e esse é um exemplo de trabalho que pode mudar o mundo. Se você direcionar a mente para um outro sentido poderá mudar o mundo.

O budismo já existe há 2600 anos e tem pouca gente ainda. Sempre que houve conflitos ele saiu perdendo. Infelizmente a invasão muçulmana na Índia contribuiu para destruir o budismo lá. A Universidade de Nalanda, na época era a mais antiga universidade do mundo, muito anterior às universidades europeias, foi destruída, com dez mil alunos, só sobrou os alicerces e havia uma preferência inclusive de matar as Monjas, porque achavam absurdo os budistas terem dado às mulheres autoridade religiosa. A linhagem feminina desapareceu no século XIII e por isso as mulheres são ordenadas hoje na linhagem masculina em muitos lugares. Na China o budismo também foi perseguido e destruído, renasceu das cinzas, mas foi destruído principalmente porque ele era ruim para o império. Havia uma acusação de que os homens, para fugir de serem soldados, iam para os mosteiros. No Japão, no século XIX, houve uma campanha contra o budismo. Para que o imperador fosse considerado Deus, assim como acredita o xintoísmo, o budismo precisava ser eliminado. A campanha feita em 1872 influiu até na minha vida, porque foi quando o imperador assinou uma lei permitindo que os Monges casassem para que assim o budismo fosse desmoralizado e perdesse o prestígio. Essa estratégia não deu certo e inclusive facilitou ter mais Monges, porque pessoas casadas também se tornaram Monjas e Monges. Apenas no budismo japonês os Monges casam. Mas é importante saber que isso foi uma tentativa de destruir o budismo, porque ele era pacifista e o império queria guerras. O Japão fez guerras horríveis nessa época e hoje escondem, diferente dos alemães que têm museus e ensinam toda a história para as crianças para que elas não cometam o mesmo erro. No Japão não há um único museu das atrocidades cometidas.

Infelizmente isso em parte aconteceu porque o budismo foi reprimido. Mas o que eu quero dizer é que pelo budismo nunca reagir, muitas vezes ele acaba desaparecendo. É o que aconteceu no Tibete, por exemplo, mas foi por isso que o budismo tibetano se espalhou pelo mundo. Hoje a maioria dos moradores do Tibete é chinesa, a etnia tibetana se tornou minoritária no próprio país. Seis mil templos e monastérios existiam, hoje existem apenas oito. Todos os outros foram incendiados.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Não dualidade


Aluno: A ênfase do mahayana é qual?
Monge Genshô: A ênfase do mahayana é a não dualidade. Todas as grandes escolas budistas têm esses três estágios, em um patamar ou em outro. O Zen enfatiza muito a não dualidade, porque os Mestres acabam falando nela, só que muitos alunos querem pensar na não dualidade sem pensar sequer na virtude. Por exemplo, dizer que não precisa limpar o prato porque afinal de contas eu e a pessoa que vai limpar somos um. Alguns praticantes do Zen começam a usar esses truques, nós dizemos: “não faça isso ou aquilo” e eles dizem: “não tem certo nem errado, está tudo ok” e então embaralham as coisas, porque na verdade nem passaram pelo primeiro estágio e usam a teoria do terceiro para justificar os seus egoísmos, por isso falo pouco na não dualidade. Isso não é muito útil ainda, é necessário chegar num nível bem mais alto para chegar nesse assunto.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

As três formas de caminho


Aluno: É certo dizer que o vazio é amor?
Monge Genshô: Não está certo dizer que “o vazio é”, porque isso seria dar a ele uma realidade. Amor é um sentimento que, mesmo que seja uma forma muito elevada, ainda inclui eu aqui e o outro lá. “Eu amo você”, eu estou aqui e você está lá. Isso ainda é dualidade, assim como se compadecer. Tem três formas de caminho: o primeiro é o da virtude, que vemos frequentemente nas religiões e no budismo também. Os preceitos têm essa forma de virtude e são caminhos virtuosos, se você os segue sofre menos. O segundo é o estágio de bodhicitta, estágio da compaixão, quando você se compadece, mas ainda neste estágio há a separação. Nesse segundo estágio você não precisa dos preceitos, porque aquele que se compadece já não pode matar e já não pode enganar, isso tudo já não está na natureza dele, então você já pode ignorar o caminho da virtude e ficar com o caminho da compaixão. Mas o caminho da compaixão está cheio de dualidade também. O terceiro estágio é o da não dualidade. Nesse estágio não existe mais eu. Eu e todos os outros seres somos um. Se é assim, não se trata mais de compaixão, na realidade a dor dele é a minha dor, eu a sinto em mim, a felicidade dele é a minha felicidade, eu a sinto em mim. Se prestarem atenção todos que conhecemos na sangha estão no primeiro estágio. Dizemos: “não faça isso assim”, “não deixe lixo no chão”, “limpe seu prato para não dar trabalho a outro” e etc. Estamos sempre chamando a atenção para as questões da virtude. Tem-se esperança de que a pessoa chegue pelo menos no segundo estágio, mas o terceiro é a iluminação, é esquecer de si mesmo e se tornar uno com todos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Não se pode reificar o Vazio



Aluno: Eu percebo que muita gente confunde o vazio do eu com insubstancialidade.
Monge Genshô:
Boa pergunta. Este termo “vazio” não é bom, mas nós não achamos nada para traduzir do japonês. Quando a gente lê o Sutra do Coração tem lá: “forma é vazio e vazio é forma”, esse vazio não significa não existência e também não significa um algo. Você não pode reificar o vazio, ou seja, dar a ele uma realidade. O que o Sutra do Coração diz é que o vazio se manifesta como forma e a forma nada mais é do que o vazio, mas o vazio nada mais é do que a forma. Todos nós aqui somos manifestações cármicas do vazio, o vazio permite que isso exista, mas ele não é algo.

Uma analogia para exemplificar. Nós olhamos o mar e vemos todas as ondas. Quando você olha o mar, você está vendo nada mais do que ondas, agora imaginem que nós pegamos uma lâmina e cortamos toda a superfície do mar para tirar toda essa manifestação de onda, de modo que seja possível ver o mar real. Tiro todas as ondas, a espuma, a agitação e imediatamente a superfície que resta se ondula e se agita. Quando você vê de novo: é forma. Por mais que você corte a forma para tentar ver o vazio embaixo, a única coisa que pode aparecer é a forma. Toda forma nada mais é que agitação no vazio. O vazio é forma e a forma é vazio.

Isso me lembra a primeira estrofe de um poema do Gonçalves Dias chamado “A tempestade”. Ele começa assim: “um raio/ fulgura/ no espaço/ esparso/ de luz/ e trêmulo/ e puro/ se aviva/ se esquiva/ rutila/ seduz”. É isso que a forma faz: surge, seduz, rutila e se agita. Depois o poema continua com versos de mais sílabas e vai indo até versos de doze silabas, até que reduz de novo para estrofes cada vez menores e termina com versos de duas sílabas. É uma obra-prima e é toda sobre a forma. A forma surge e desaparece, mas o que resta? Nada, só a base na qual ela se manifesta. Esse ensinamento é bastante difícil.

O Sutra do Coração no início diz que o Bodhisattva meditava profundamente e então viu claramente o vazio dos cinco agregados. Nesse momento ele viu que todas as coisas na verdade são vazias e o Sutra continua com: “óh, Shariputra, forma é vazio e vazio é forma, forma nada mais é que vazio e vazio nada mais é que forma”. Quando compreende isso, o Bodhisattva livra-se instantaneamente de toda dor e sofrimento, mas para ver isso com imensa clareza você precisaria entender que é manifestação da forma e seus filhos também. Todos são temporários. Surgem e desaparecem. Não existe início e nem cessação. Não existe olho, ouvido, nariz, mente, etc.

O ensinamento do Sutra do Coração sintetiza os ensinamentos de 600 Sutras chamados Sutras Prajna Paramita, ou Sutras da compreensão da outra margem. Essa é uma ideia de que existe um rio da ignorância e você está nessa margem. Quando consegue atravessar, chega na margem da sabedoria. Você usa o budismo para atravessar o rio, o budismo é então um barco e quando você chega na outra margem pode abandoná-lo, porque ele era só um veículo. O que acontece com o Bodhisattva é que quando ele chega do outro lado, olha para trás e vê na margem da ignorância muitos seres em sofrimento, então volta e vem buscar os outros. Ele não desiste e fica atravessando inúmeras vezes para levar pessoas para a outra margem, agindo com compaixão. Por isso no fim da noite nós recitamos os votos do Bodhisattva e o primeiro deles é: os seres são inumeráveis e eu faço voto de libertá-los todos. Libertá-los do quê? Do sofrimento. Eu faço o voto e ele é impossível, eu nunca vou parar de atravessar o rio, porque os seres são inumeráveis. Esse é o sentido de vazio e forma; o sentido de ignorância e sabedoria; isso é que é o budismo: um veículo. Existem muitos veículos possíveis para atravessar um rio, não há um que seja melhor. Pode ser que o Zen seja melhor para você, mas não é necessariamente melhor para as outras pessoas, por isso não dizemos que temos a verdade ou que temos o melhor caminho. Isso seria tolice. Seria mais uma forma de vaidade.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ligação e apego entre pais e filhos


Aluno: Sensei, eu sinto momentos de muita angústia pensando nos meus filhos (durante o sesshin). Existe solução para o apego entre pais e filhos?
Monge Genshô:
Nós seres humanos queremos nos conectar com a eternidade e a nossa compreensão é que os filhos fazem essa ligação. No fundo o apego com os filhos vem de um amor ao eu. A ideia é: “eu quero permanecer, mas eu sei que este corpo vai morrer, então eu olho para o filho como minha ligação com a eternidade”. Disso surge uma diferença importante entre homens e mulheres. Através do tempo eu tenho notado que os homens são mais angustiados e as mulheres menos, porque por uma condição biológica as mulheres se sentem mais ligadas à vida. Na verdade, biologicamente acontece o contrário das lendas, não é a mulher que saiu da costela de Adão, nós homens é que viemos depois, porque a separação dos sexos acontece depois na biologia. Primeiro há um ser único e depois ocorre a separação para ter um ser que faça a fecundação, ou seja, um macho, mas ele sai da fêmea, então é ela quem representa a espécie. Além disso, como o filho nasce da fêmea, ela o sente como dela. O homem não sabe, ele foi informado, alguém diz “esse filho é seu” e você acredita. Então a realização do filho no homem é intelectual e na mulher é física. Vemos homens desesperados querendo escrever sinfonias, livros e realizar grandes obras porque tentam se eternizar de alguma forma, na verdade essa busca vem do medo do desaparecimento. As mulheres não sentem tanto isso, mesmo quando não têm filhos elas ainda se sentem mais ligadas à vida pela sua natureza.

Esse esforço dos homens explica de certa forma a angústia criadora, que também é medo do desaparecimento. Então essa ligação com os filhos é a manifestação do nosso desejo de permanência, por isso às vezes é tão difícil abrir as mãos e deixar os filhos seguirem seus próprios caminhos. Muitas vezes os pais querem que os filhos sejam aquilo que eles são e isso é um grave erro. Só uma ampliação de consciência pode aliviar esse tipo de angústia. Se você se ilumina e desperta das desilusões do eu isso também desaparece. Mas por outro lado que bom que existe amor, que existe sexo, que existem filhos, porque são partes integrantes da vida. Se você perguntasse qual é o sentido da vida eu responderia que é justamente viver. E viver também é sofrer, se você dedica amor, tem que aceitar a perda, você só precisa se dar conta de que o preço é o sofrimento. É natural que existam as preocupações e os medos, mas tudo isso é o preço que se paga. Tem alguma maneira de viver sem isso? Não. Nós temos sangha e na medida em que você conhece, conversa e entrevista as pessoas, também vai criando amor por elas. De repente um fica doente, outro sofre uma tragédia e tudo isso vem para você também, mas esse é o preço. Se você não quiser nenhum sofrimento tem que se isolar numa montanha e não ter relação com nada.

Existe uma anedota Zen em que um Monge estava numa montanha e sentiu que estava iluminado. Então ele resolveu descer até a cidade e entrou no mercado. Nesse momento alguém pisou no pé dele, ele sentiu raiva e percebeu que a sua iluminação era pura ilusão. Então só é possível dentro da turbulência da vida você acordar. O que você prefere: ter amor e sofrimento ou não ter amor nenhum? É isso.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Parar o corpo ajuda a parar a mente


Aluno: Praticar vipassana ou samatha não é praticar zazen, então?
Monge Genshô:
Não é. Mas quem está praticando zazen de fato aqui nesta sala? Vocês estão praticando zazen alguns segundos ou minutos dentro de cada sessão. O que está acontecendo é: você senta, imobiliza o corpo, começa determinadamente tentando fazer tudo certinho até que o corpo cansa, então você se curva, a cabeça cai, a perna dói, etc. Tudo isso faz parte do processo, mas o problema está na mente porque essa parte da postura, embora seja complicada e difícil de executar bem, ainda é viável. A mente é o verdadeiro problema. Parar o corpo ajuda a parar a mente, mas ela quer viajar, você traz ela para cá, tenta ouvir o som do ar-condicionado, ouvir os pássaros, olha fixamente para a parede, mas começa a ver figuras, encontra dois pontinhos e acha parecido com um rosto, então procura a boca e assim por diante. Na verdade você tem que sentar e não ver nada. Mas se eu quiser ver, então vou ver. A pergunta é sempre: onde estão essas coisas que vejo? Na sua cabeça. Os pensamentos estão na sua cabeça e não fora. Você pode lutar com seus pensamentos e tentar parar de pensar? Isso seria tolo, você não consegue fazer isso. Nós apenas ignoramos, se a mente quer viajar ela que vá, eu não preciso dar nenhum sustento para ela. Ela pensa em cavalos e eu não tenho nada a ver com cavalos, então faço nada. Apenas deixo passar. Seja lá qual for o pensamento eu não preciso acompanhá-lo. Se a mente pensa em árvores eu não procuro os frutos, não desenvolvo o pensamento e se eu me comportar assim a cada nova tentativa da mente eu volto para cá, até que ela cansa. Se a mente consegue se repousar no não pensamento de ficar aqui, ouvindo os sons, apenas sendo e vivendo neste mundo, isto sim é zazen.

Quanto mais tempo você ficar assim, mais você treinou a sua mente e se tornou senhor dela. Nós chamamos esse estado de samadhi, que é um estado onde você não é arrastado por paixões, você só aceita tudo que está vindo. Por que fazemos isso? Isso vai fazer com que o zazen produza um insight? Não. Provavelmente não durante o zazen, mas fora, andando, comendo, vendo algo ou mesmo depois do sesshin. Depois do sesshin, durante dois ou três dias, você consegue manter um estado especial. Mas depois que para de sentar sua mente volta para a loucura.

Eu comparei ainda há pouco com um redemoinho, você é um redemoinho girando sem parar, levantando poeira e destruindo coisas, mas a sua natureza não é de redemoinho. O redemoinho é apenas o movimento da nossa mente, é o nosso carma. O eixo é o nosso eu, que você olha e reconhece como o olho do furacão, mas que na verdade não é algo e sim ilusão. Ele está lá, mas não tem uma natureza inerente, ele só existe porque existe redemoinho, então é efeito do movimento. Qual é a nossa verdadeira natureza? É atmosfera. Nós somos atmosfera. Imensa, com milhões de possibilidades, mas estamos perdidos na consciência de um redemoinho e por isso não vemos essa verdadeira natureza. Se nós desfizéssemos o movimento do redemoinho e acalmássemos a mente completamente, o redemoinho desapareceria. Desaparecendo o redemoinho desaparece junto aquele eu pequeno, então surge a possibilidade de darmo-nos conta de que nós somos imensos, grandes, muito mais do que um eu pequeno. Nós somos todo abrangentes e todas as tempestades não são mais nada do que nós mesmos. Nós não percebemos que somos atmosfera porque estamos perdidos acreditando que somos redemoinhos. Todos aqui agora são pequenos redemoinhos de movimento cármico manifestado em carne e osso.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Zen é o céu azul




Aluno: Eu já li sobre outros tipos de meditação e encontrei coisas sobre samatha e vipassana, que são mais focadas na respiração.
Monge Genshô:
No Zen, nós partimos para um formato de meditação que é de um nível difícil e chama-se shikantaza, que é o que estamos praticando aqui. Shikantaza quer dizer apenas sentar-se. Vipassana, pelo menos em seus estágios iniciais, são técnicas voltadas para observação e que eventualmente nós usamos aqui. Quando eu digo, por exemplo, que se estiverem muito agitados vocês podem contar respirações, essa é uma técnica do vipassana. Se você se concentrar apenas na contagem essa será uma âncora muito boa para se manter presente, mas logo em seguida o cérebro consegue colocar a contagem no automático, então você chega e no seis e de repente percebe que está pensando em uma viagem que pretende fazer. Mesmo as técnicas mais ancoradas perdem a validade depois de um tempo, por conta dos hábitos mentais.

Existem muitas outras técnicas de meditação, já vi listas com mais de 40. Você pode começar a ter consciência do corpo, prestar atenção no seu pé, depois no tornozelo e ir sentindo cada coisa separadamente, essas são técnicas de consciência corporal. Samatha, normalmente, quer dizer acalmar-se ou serenar-se. Ela é usada para atingir um determinado grau de concentração, mas nós não usamos esses termos, embora todas essas técnicas estejam também presentes no Zen. Talvez se você descrever um formato de prática do Zen para um professor de outra escola ele pode dizer que é vipassana, ou samatha, mas isso são só palavras.

Tem uma historinha sectária do Zen que diz: vipassana e samatha são asas de um pássaro. Você usa observação e treinamento da mente em uma asa e usa também concentração, serenidade e esvaziamento em outra asa. O pássaro precisa das duas asas para voar. Samatha e vipassana servem para o pássaro conseguir voar no céu azul. O Zen é o céu azul.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Palestra em Goiânia [02/11/2015] - Parte 2



Eu pertencia a um grupo de tarefas com mais quatro Monges e tinha um Monge que eu não sabia se era Monge ou Monja, porque não estava no dormitório dos homens. Então eu perguntei para outra pessoa e essa pessoa me respondeu: “ele é transexual, era um homem e se descobriu mulher e já que é assim tem nome de mulher e fica num quarto no dormitório feminino”. E depois disso nunca mais ouvi nenhum comentário a respeito e nós sempre trabalhamos juntos sem ninguém fazer distinção nenhuma. Esse é o ensinamento real do Zen. No momento em que você faz distinção e diz: branco, negro, índio, homossexual ou qual for a outra distinção, é nesse momento que você cria o problema. Se todos nós não diferenciarmos, se todos nós não pensarmos dessa forma, pensarmos apenas como manifestações humanas, hoje é assim, depois não, somos apenas bolhas dentro da garrafa de champanhe, sem necessidade de distinguir, não haverá problema.

É claro que existem considerações a fazer no caso de injustiças, por exemplo, você tem que dizer que essa violência praticada contra alguém por raça, gênero, etc, tem que ser coibida agora. Do ponto de vista budista não tem porque cobrir uma mulher porque ela provoca desejo nos homens, os problemas não estão nela, estão na cabeça daquele que se sente perturbado. A mutilação genital que se pratica na África, assim como as violências cometidas contra os homens que são muitas e que a sociedade admite sem discutir, nada disso é compartilhado pelo budismo. Vemos os noticiários falando de mortes de mulheres e crianças como desastres e mortes masculinas com descaso. Os homens são descartados, podem morrer, mesmo que seja um ser valioso para a sociedade, que seja um cientista, que seja um jovem, acabam salvando, nos naufrágios, mulheres de 80 anos e deixando jovens de 20 anos morrerem porque são homens. Isso é claramente errado para o próprio interesse social. A origem dessa cultura de salvar as mulheres prioritariamente era para salvar a espécie, porque afinal de contas um homem pode fazer filho com várias mulheres. A violência contra os homens não é falada e os homens ficam calados porque são ensinados a não falar, então ficam quietos sobre a violência que sofrem com outros meninos porque vão dizer que ele foi o covarde que apanhou, por exemplo. Enormes violências são escondidas.

A origem de tudo isso é que temos que pensar como seres humanos e não diferenciar por raças, orientação social, classe social e outras classificações várias. Deveríamos olhar para o outro com outro olhar. Essa é a grande lição de Buda, dada 2600 anos atrás. É incrível que há 2600 anos, vivendo numa sociedade que mal tinha começado a escrever, Buda tenha abolido toda a noção de distinção, inclusive entre homens e mulheres. Se até hoje nós não superamos isso, é incrível que já tenha sido proposto há tanto tempo. Das grandes religiões a única que considera homens e mulheres iguais é o budismo. As outras preservam o sacerdócio para apenas um gênero, não sendo necessariamente o masculino, no candomblé apenas mulheres são sacerdotisas, os homens são meros auxiliares. Eu gostaria que vocês levassem com vocês a noção de que a classificação é o problema original. De novo, não estou propondo que nós esqueçamos as injustiças porque a realidade é que existe classificação na nossa sociedade, mas é importante ter claro dentro de si que a classificação é o problema. (Final)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Palestra em Goiânia [02/11/2015] - Parte 1


Gostaria de falar um pouco sobre distinções. Sidarta pertencia à segunda casta mais importante na Índia no seu tempo. Sua casta era a dos privilegiados que não precisavam trabalhar porque a sociedade sustentava. Na medida em que a sociedade começou a ter excedentes, ela começou a sustentar os seus religiosos. Essa é a história humana. Podemos chegar a uma tribo de índios e veremos também o xamã que não precisa fazer esforços para produzir a comida, por exemplo, fica disponível apenas para realizar cerimônias. Os guerreiros também possuem privilégios e assim por diante. Sidarta era filho de um rei de um pequeno principado e quando ele sai do palácio e raspa a cabeça, ele abdica de sua condição social. Mas o que importa para nós é que dali em diante ele admite na ordem budista, como Monges, todas as classes sociais, mesmo a mais baixa de todas, que era a classe dos intocáveis, ou seja, pessoas que as outras não poderiam tocar porque a eles estavam reservados os piores trabalhos, como: lidar com estrume e coisas assim. Essas pessoas eram párias sociais e até hoje isso existe no mundo.

Essas distinções estão presentes em todas as ideias de classificação, quando dividimos a sociedade em classes sociais, em classes de trabalho, ou criamos estratificações de qualquer espécie, seja por raça, por cor, ou por gênero, qualquer coisa que fazemos nesse sentido cria distinção, cria privilégio de um lado e opressão de um outro. Ao invés de fazer uma discussão sociológica sobre esses aspectos e ficarmos contaminados por teorias e ideologias, vamos ver o exemplo de Buda. Quando as mulheres foram admitidas na ordem budista e Prajna Pati, que era tia de Buda, foi nomeada a primeira Mestra, ela também raspou a cabeça, recebeu o manto amarelo e Buda disse que não havia diferença entre homens e mulheres na capacidade de atingir a iluminação, portanto não tem distinção. Distinções culturais acabaram sobrevivendo, prejudicando e atrapalhando, mas quando você faz a distinção, você não sabe mostrar onde você a fundamenta.

Eu fui para um mosteiro nos Estados Unidos com Monges e Monjas e quando você senta e olha para as pessoas que também estão sentadas, você não sabe dizer quem é homem e quem é mulher. Ficam todos com as mesmas roupas, com as cabeças raspadas e todos são absolutamente idênticos. Nesse mosteiro a vice abadessa era Daien Bennage e a figura da vice abadessa é muito importante. Ela chegou a ser designada para ser superiora geral da América do Norte, mas recusou. Outro Monge acabou sendo escolhido,  Daigaku Rumme Roshi, que significa grande montanha, porque ele é muito alto. Uma vez eu estava nas montanhas e lá fazia 15º abaixo de zero e eu não desliguei o aquecedor, sendo que a regra é: quem ligou tem que desligar. Esse Monge me chamou no pátio todo coberto de neve e me disse: “você ligou o gás?” e eu: “sim, senhor”. Ele disse então: “e você não desligou o gás”, nesse momento eu me dei conta, disse que iria desligar, mas ele: “eu já desliguei” e disse várias outras coisas como repreensão. Você pode dizer só uma coisa numa situação dessas: “obrigado”, no Japão é: “hai”. Ou diz “obrigado por se importar comigo”. Mas o importante é que ali no monastério ela é mais importante que ele. (Continua)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A devoção também é um caminho


Pergunta: Acreditar em deus ou em deuses, ser devoto deles, pode ajudar ou atrapalhar na prática? Como fica isso com relação à iluminação?
Monge Genshô:
O budismo não detém o monopólio da iluminação nem do esclarecimento e nem de nada. O budismo é um método que não está baseado em fé, crença e coisas assim. Existem métodos que são devocionais. O método devocional existe dentro de algumas formas de budismo, mas está um pouco ausente do Zen. Não é que não exista, nós fazemos reverências, mas quando alguém faz uma pergunta endeusando Buda nós logo dizemos que ele era um homem como nós e que morreu, então não adianta pedir nada para ele. Algumas formas de budismo criaram outros objetos devocionais que não são Shakyamuni Buda, por exemplo, Buda Amida, que é Buda da luz infinita, que seria uma luz que permeia tudo, nós recitamos na hora da refeição o Bodhisattva da grande compaixão, Kanzeon, representada na forma de uma mulher, Kuan Yin que, na lenda budista, queria fazer o bem para todos os seres e não conseguia ajudar todos, então chorou e ganhou um grande número de braços. Mas na realidade não é um ser existente, é uma imagem visual da virtude da compaixão do ponto de vista budista. Perguntaram para um Mestre Zen “mas Kuan Yin existe?” e a resposta foi “Kuan Yin sabe que ela não existe”. Típica resposta do Zen. Tente entender.

Normalmente, nas crenças devocionais, você assume como existentes seres e então pede ajuda a eles, ora a eles e tudo mais. A pergunta que está por trás do que você disse é “funciona?” e sim, funciona. Mas não porque um ser lá fora ajude você, mas porque você ao se entregar muda. Então internamente há efeitos para você. É como perguntar se orações funcionam. Claro, para quem ora. Mas seres externos influenciam no mundo? Se influenciam estão fazendo um trabalho muito falho. Além do que se um ser poderoso estivesse lá fora e pudesse ajudar as pessoas aqui e agora você não precisaria pedir. Vocês mesmos que estão aqui entendem perfeitamente o que é ajudar alguém sem ser solicitado e sem que a pessoa saiba. Sabem que esse é um nível superior de compaixão e que a caridade que pretende obter algo, o reconhecimento público ou retorno, é muito fraca. Todas as religiões têm sentido e essas práticas têm sentido, se você não as reconhece é porque você está perdido numa visão sectária ou fanática, achando que só o budismo tem sentido. O budismo é apenas um método que tem sentido para pessoas que não se entregam para crenças.

Um dia desses alguém fez uma pergunta ligada ao enorme esforço que a humanidade fez para construir catedrais e eu disse que se você vai à Koln, Alemanha, você vê uma catedral gótica que tem 160 metros de altura. Durante séculos foi o edifício mais alto da Europa, todo construído sem ferro, só pedra sobre pedra. É tão grande que tem uma lenda de que o demônio jogou uma maldição de que ela nunca ficaria pronta. Ao lado tem uma oficina que sempre prepara pedras para colocar no lugar das que se desfazem, o que mostra que ela está sempre sendo consertada. Foram 700 anos para construir. Então você vem para uma rua, dobra a esquina e de repente a catedral está na sua frente, a impressão que você tem é que é uma montanha. Ela foi construída para abrigar uma relíquia que são os restos dos três reis magos. É evidente que isso não é verdade, mas de qualquer forma a catedral está lá e há três caixões rodeados de ouro. Houve uma época durante a Idade Média na Europa em que se produziam relíquias em grande quantidade, porque era um ótimo negócio. Mas quando a gente olha a catedral não importa se os reis magos existiram, se estão lá dentro ou não, o que importa é que a catedral é magnífica e é uma imensa obra do espírito. Então você tem que olhar assim. É por isso que passamos na frente de uma estátua de Nossa Senhora de Fátima e fazemos reverência. Porque nós enxergamos além de coisas tais como verdade e falsidade. Vamos além disso e isso sim é sabedoria. Isso é ter lucidez.

No budismo isso não está ausente. O kesa, o manto budista, é tratado como sagrado. Sempre tem que ser dobrado de uma maneira certa, colocado em um local mais alto e mais uma porção de protocolos. Nós agimos como se ele fosse sagrado, mas no Zen nós podemos dizer também que ele é só um pedaço de pano. É o manto de Buda e ao mesmo tempo é apenas pano. Tem grandes significados simbólicos, mas quem dá a ele esses significados simbólicos somos nós. Meu comportamento com o kesa é que faz dele um kesa. É o comportamento dos alunos que reverenciam a pessoa quando ela porta o kesa que faz dele um kesa. Os que possuem o rakusu têm uma miniatura do kesa sobre o peito. Isso não se joga fora quando fica velho, não se usa como pano para limpar o chão. Enxergamos essa possibilidade como algo horrível, seria a negação de tudo que foi feito. Você costura o rakusu, às vezes durante meses, faz errado, faz de novo, é difícil e é feito de propósito para não poder ser perfeito. Você pôs todo aquele trabalho nele, depois o Mestre escreve atrás e você o porta, você o dobra cuidadosamente, o tira cuidadosamente, faz oração de manhã antes de colocá-lo e é por isso que ele é o rakusu. Quando ele fica muito velho e não dá mais para usá-lo você o queima para que ninguém o use indevidamente, para que ele não vá parar no lixo ou qualquer coisa assim. Somos nós que fazemos com que essas coisas tenham efeito. É só um pano e nós o transformamos num objeto de prática. Ele em si mesmo não é sagrado. Se fosse um objeto de fé ele seria milagroso por si mesmo, uma relíquia por si mesmo, mas ele não é. Então a devoção está presente, só que o caráter dela é um pouco diferente.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A vida humana deve ser bem usada


Pergunta: Os reinos são imaginários? E por que nenhum outro reino pode iniciar a busca espiritual?
Monge Genshô:
Quando falamos sobre os reinos não estamos falando sobre lugares que realmente existem. Falamos sobre estados mentais e usamos um artifício didático. Se você está só pensando em querer mais, conquistar mais, você não pensa noutra coisa e acredita que a felicidade está em obter mais. Essa é a característica do espírito faminto e esse espírito nunca encontra satisfação. Nesse estado mental não há energia para se iluminar.

Os semideuses e os deuses podem ter a característica da busca espiritual, mas onde isso mais surge é no reino humano. Nos reinos inferiores, no reino dos infernos, o ódio e a raiva são tão grandes que não permitem a busca espiritual. Fica muito difícil, porque há um grande sofrimento. Por exemplo, você está lá na Síria, estão caindo bombas, pessoas estão morrendo, é difícil conseguir comida, tudo o que você quer é fugir e toda a sua energia fica concentrada nisso. Se alguém chegar e perguntar por que você não senta para fazer zazen não há o que responder, afinal você não tem o que comer. Simplesmente não existe energia para zazen.

Pergunta: Nós humanos estamos no reino dos seres humanos, mas podemos transitar entre os outros reinos?
Monge Genshô:
O reino humano tem características de todos os reinos, mas os reinos só existem porque os humanos existem.

Pergunta: O que eu tenho de bens materiais é carma?
Monge Genshô:
Carma é história pregressa. Você acumulou carma e ele frutifica sob a forma das condições que você tem atualmente, senão eles não apareceriam. Não existe nenhuma consequência que não tenha uma causa anterior. Você teria que perguntar, por exemplo, por que tem esse privilégio, por que tem a mãe que tem? Você só tem esse privilégio, porque você tinha condição para obter esse privilégio. O que acontece são consequências, as condições não surgem do nada, não são de graça.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

É possível mudar o carma



Pergunta: Eu posso alterar as consequências do carma?
Monge Genshô:
O carma é alterável, você pode fazer esforço e mudar seu carma, para o mal ou para o bem, pode fazer ações com grandes consequências. Você pode fazer uma tatuagem na metade do seu rosto e quando for procurar emprego ninguém dará emprego para você por causa da tatuagem. Quem foi que arrumou essa condição? Foi você. Não existem ações sem consequências.

Eu conheço um homem de uma família de nove filhos, todos do interior, o pai era agricultor, mas ele detestava trabalhar com a enxada e por causa disso ele estudou muito. Nenhum dos irmãos estudou, mas ele se formou como engenheiro e conseguiu uma condição melhor de vida. Ele tinha o impulso de querer escapar daquilo e por isso ele escapou, mas ele precisou se esforçar para isso, porque ele tinha carma para nascer lá no interior.

Todas as causas tem consequências, não existe uma coisa que aconteça no mundo que não tenha uma causa anterior. Eu estou sentado aqui falando para todos vocês. Para que isso acontecesse eu precisei pedir para ser monge, treinar durante 10 anos e fazer uma porção de coisas, algumas delas bastante desagradáveis e difíceis, como ficar em mosteiros incomunicável, mas só porque fiz essas coisas estou aqui hoje. Se eu não tivesse feito esse esforço, eu não estaria aqui. Simples. Então não existe fruto sem plantação. Você faz por onde.

As pessoas começam às vezes com uma ação muito pequena. Como o cigarro, você começa com um e depois vai indo. A bebida também, no começo você entorna só um copo, depois de 20 anos o índice de recuperação de alcóolatras é quase zero. Nesse momento a pessoa já destruiu sua família, seu fígado, está com cirrose e tudo isso são consequências de uma causa anterior. Se você fuma, certamente a longo prazo você vai ter enfisema, dificuldade respiratória e talvez tenha um câncer. Se você morrer disso é uma morte afogado, tentando conseguir oxigênio e sem conseguir porque o pulmão perdeu a capacidade de fazer isso. Mas quando você está com enfisema não adianta mais querer limpar o pulmão, não tem como. O carma é assim, não tem nada de mágico, ele é essencialmente prático. Você faz e recebe as consequências.

No budismo não tem ninguém para carregar as consequências por você, não tem um salvador que vá resolver as coisas para você. Você vai ter que pagar o ônus da sua escolha. Você pode fazer coisas para melhorar, mas dizer que vai resolver completamente, não vai. Se você insulta alguém, a pessoa fica com raiva de você. Se você vai até a pessoa, tentando melhorar esse carma, pede desculpa, a pessoa perdoa você, mas não esquece, portanto você resolveu em grande parte, mas não completamente. E o carma prossegue de vida após vida. Você nasce numa vida e herda as consequências da vida anterior. Você nem sabe por que, ou quem foi que fez algo e no fundo era outra identidade, mas você é herdeiro dela e agora sofre as consequências daquela identidade. É como se aos dois anos você fizesse algo que fez com que você perdesse um dedo. Agora você é adulto, sente falta do dedo e não lembra como o perdeu, mas foi você que perdeu o dedo. O sofrimento está ali, você herda do seu próprio carma. A boa novidade é que a gente pode alterar o carma, pode alterar tudo. Você pode alterar sua mente, suas ações, a maneira como você pensa, reage e assim a sua vida muda junto. Na verdade, quando a gente faz zazen está eliminando carma, porque você senta aqui e apaga, esquece de si mesmo e constrói uma nova vida. Quando você está parado fazendo zazen não gera carma.

Pergunta: Por que o zazen apaga carma?
Monge Genshô:
Porque grande parte daquilo que é carma é marca na nossa mente, o que significa que determinadas atitudes provêm da sua maneira de pensar e o zazen faz com que essa maneira de pensar mude. Ouvindo o Dharma você muda, você começa a identificar: “eu fiquei com raiva de uma pessoa e isso é coisa do reino dos infernos, eu não quero nada com isso, não vou cultivar esse sentimento, raiva só produz mais raiva, ódio só produz mais ódio”. Com isso você começa a mudar seu carma, você começa a apagar a sua marca cármica anterior. Por isso o zazen corta carma e por isso ouvir o Dharma corta carma, mas é preciso aproveitar. Se você praticar a sério mudará sua atitude em relação ao mundo e mudará o seu carma.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Os Seis Reinos

 

Pergunta: O que são os espíritos famintos e as dez direções?
Monge Genshô:
As dez direções são: norte, noroeste, nordeste, leste, sudeste, sudoeste, sul, oeste, em cima e embaixo. No oriente costuma-se dizer “dez direções” para expressar algo em todos os lugares, em todas as direções no plano e também nas 3 dimensões. Isso é interessante porque quando a gente fala sobre as direções cardeais, falamos sobre o pensamento de quem opera num plano só, viajando no mar, sem subir e nem descer. Então, quando falamos em dez direções, falamos sobre pensar além do plano, pensar também em cima e embaixo. Muitas coisas que vemos nos textos budistas têm origens culturais orientais, algumas hindus, outras chinesas e outras japonesas. Às vezes isso cria confusões desnecessárias, por isso é melhor conhecer a cultura para saber interpretar.

Tradicionalmente há uma divisão em seis reinos de existência. O reino mais baixo é o reino dos infernos, onde os sentimentos predominantes são a raiva e o ódio. Nós podemos fazer paralelos para o nosso mundo, porque nós podemos transitar por esses reinos. Não é que os reinos em si existam em um determinado lugar. Eles são expressões de estados em que um ser, ou seja, uma consciência pode existir. Então o reino dos infernos é onde há ódio, raiva, violência e solidariedade zero. Nós temos o reino dos infernos hoje, por exemplo, na Síria: chovem bombas do céu, matam-se famílias, crianças e ocasionalmente o reino dos infernos aparece em outros lugares. Ontem houve um atentado na Turquia, morreram centenas de pessoas, outras centenas ficaram feridas e isso vai gerar um recrudescimento da repressão do governo turco, causando represálias dos grupos oprimidos como os curdos e, assim, gira a roda do reino dos infernos.

O segundo reino é o reino dos espíritos famintos, também chamado de reino da ganância. Os espíritos famintos nunca estão contentes. Eles andam pelo mundo como fantasmas, querendo acumular coisas e ter sempre mais. Eles têm gargantas muito estreitas e corpos imensos, então a garganta deles não é suficiente para o tamanho de seus corpos, por isso estão sempre desesperados desejando mais. Os que roubam riquezas são um exemplo de espíritos famintos, porque nunca estão saciados. Por mais que você dê muito a eles, eles nunca estão satisfeitos e por isso eles não conseguem parar. Com os juros de hoje uma pessoa que tiver 1 milhão de reais aplicados vai ganhar 14% ao ano, isso dá mais ou menos 1% ao mês, o que daria uma renda mensal de 10 mil. Com quanto vocês estariam satisfeitos? As coisas funcionam assim: se você ganhar 5 mil, em breve você leva uma vida de 5 e se ocorrer algum evento inesperado não terá o suficiente. Se você passou para outro patamar, você tem gastos daquele patamar. Então perguntamos: por que quem tem 1 milhão não para? Porque vivem nesse patamar e não acham que essa quantia é suficiente. Dentro de todos nós aqui, mesmo que a gente não saiba, também tem um fantasma faminto que nunca vai ficar plenamente satisfeito. É triste ver que isso sucede também dentro das instituições religiosas. A gente descobre, comendo com oryoki, que é possível comer com 3 tigelas, com apenas 3 opções de comida e que isso é saudável. Você não vai ficar gordo e não precisará jogar nada fora. O oryoki é uma lição de simplicidade. Quando recebi a transmissão o Mestre me deu um de presente feito de laca, brilhante, preto, bonito, as peças se ajustavam perfeitamente uma dentro da outra, era um artesanato muito cuidadoso. Há lojas para monges no Japão que vendem esses produtos: oryokis, sinos, mantos, tudo feito de forma maravilhosa e isso vai contaminando ao longo do tempo todas as estruturas. Quando Buda fez o manto dele ele fez de retalhos de mortalhas, de tecido rejeitado, jogado fora, de lixo. Ele recortou os pedacinhos que eram bons, os juntou e essa é a origem do manto de Buda. Mas hoje, na medida em que o tempo vai passando, as pessoas vão querendo cerimônias bonitas com outros tipos de materiais. Tudo isso está dentro do segundo reino. Um dia veremos mantos bordados de ouro, com pedras preciosas, etc.

Pergunta: Há alguma forma de não ser assim?
Monge Genshô:
Eu acho que isso está dentro de nós, sempre queremos uma coisa melhor. É como colocar ar-condicionado no carro. Depois de colocar ar-condicionado no carro, como ter um carro sem ar-condicionado? Toda história da humanidade é assim. No palácio de Versalhes não tem o conforto dessa casa de retiros, porque não tem banheiro, não tem chuveiro e o rei baixou uma ordem para recolherem os penicos pelo menos uma vez por semana, então imaginem o que era o cheiro do palácio. Antes, acho que o mundo era muito, muito fedorento. Para chegarmos nesse ponto de higiene demoramos muito e hoje jogamos nossos detritos no mar e contaminamos o mundo. Então ainda precisamos dar mais um outro passo, precisamos chegar num outro patamar, apesar do mundo nunca ter sido tão confortável como agora. Os espíritos famintos nunca cansam, nunca estão satisfeitos e, não se enganem, todos nós somos espíritos famintos e cada vez que vocês subirem um patamar qualquer de gasto, vai haver um outro patamar que vocês vão ambicionar. A maioria gasta tudo que ganha e se inventarem 14º, 15º e 16º salários, as pessoas gastarão tudo. Tudo isso ilustra o fato de que nós sempre queremos mais e quando tentamos consertar esse tipo de situação há enorme descontentamento.

Depois dos fantasmas famintos há um outro reino, o reino animal, ou o reino do obscurecimento. Esse estado é o estado de não compreensão, onde não adianta explicar. É como explicar algo para o seu cachorro. Esse obscurecimento é característica do que a gente chama de reino animal, mas apesar do nome muitas pessoas vivem nesse reino. As características do reino animal são: grande preguiça, come e deita, teoria de poupar energia, não fica em pé se pode estar sentado ou deitado, etc. É um estado de torpor. A pessoa chega em casa após um dia difícil e toma umas cervejas para relaxar. Bebe até ficar num estado de torpor, não conversa, não fala nada complicado, quer apenas fazer alguma coisa que não exija muito do seu pensamento, como alguém que senta na frente da televisão para ver um jogo de futebol, se enrola na bandeira e fica insultando o juiz, gritando palavrões, etc. Esse estado de torpor, de obscurecimento mental, é o estado animal. Não tem nada a ver com lucidez ou com clareza.

Nós passamos por esse sentimento também na hora de acordar de manhã às 4 horas no sesshin. O estado de torpor que faz alguém desejar ficar mais tempo na cama é característico do mundo animal e de todas as pessoas que não querem compreender nada. No mundo animal não há crítica nenhuma e isso não é uma coisa infensa aos seres humanos, tanto é que existe a síndrome de Estocolmo, em que uma pessoa é sequestrada e se apaixona pelo sequestrador. Isso foi analisado em um caso de uma sequestrada que se apaixonou pelo sequestrador na Suécia, ou seja, ela perdeu o senso crítico de tudo o que aconteceu e passou para um outro estágio mental.

Então o reino animal se caracteriza por ignorância, falta de senso crítico, falta de lucidez, torpor e imediatismo. Nós vivemos no reino animal quando sentamos na frente de um prato de comida muito cheio e comemos mesmo sabendo que não podemos comer daquele jeito, porque vamos engordar ou porque vamos passar mal. Exageramos porque não pensamos na consequência a longo prazo, só no momento imediato e isso é o comportamento mecânico atribuído ao reino animal. Claro que há outras considerações: não podemos dizer que não haja inteligência ou autoconsciência no reino animal, porque dependendo do animal existem graus diferentes de consciência, uma coisa é uma minhoca, outra é um pássaro, ou um golfinho. Assim também são os seres humanos e passamos para o reino seguinte: o reino humano.

A característica do reino humano é a variedade: ele pode sofrer, ficar alegre, pode ser espiritual, pode se comportar como um animal, pode ser ganancioso, pode ter raiva, como no reino dos infernos, etc. Ele tem tudo à disposição e por isso tem uma grande oportunidade para a iluminação. É por ter todas as experiências que você as conhece e tem suficiente inteligência para se criticar. Você pode sentar e perceber coisas como: “está acontecendo isso comigo”, “estou indo em tal direção”, “eu sinto tal inquietação”, “eu sinto tal oposição” e assim por diante. Nenhum sentimento é estranho para um ser humano, ele é capaz de entender todos. É possível entender o sentimento dos assassinos porque dentro de cada um tem um assassino em potencial, tem um ser ganancioso, tem um ser de raiva e ódio, tudo isso está dentro de todos nós. O que você vai demonstrar depende do que você treina, do que você pratica e o quanto você investe numa característica sua. Você pode fazer crescer uma característica e diminuir outra, depende de como você pratica. Para isso você tem que olhar sua mente, suas palavras, seus atos e é isso que na realidade nós fazemos aqui.

Nós tentamos interferir em todas as áreas: na mente através do zazen, nas ações de corpo pedindo que as pessoas façam determinados gestos, etc. Se tudo isso for feito automaticamente, oportunidades serão perdidas. Se uma pessoa vem servir você numa refeição, você tem que fazer gasshô, mas não é fazer gasshô por fazer e sim se lembrar “sinto profunda gratidão por ser servido, será que eu mereço ser servido, será que eu sou uma pessoa que realmente merece essa comida que chega aqui para mim?”. Recitamos a oração: “recebamos este alimento conscientes dos inumeráveis esforços necessários para que chegue até nós”, ou seja, não adianta dizer só a frase, você tem que pensar que alguém arou a terra, choveu, alguém plantou, alguém cuidou, alguém colheu, alguém transportou, houve um caminhão, um motorista caindo de sono andou dirigindo para carregar isso, tudo foi colocado dentro de sacos, passou por um beneficiamento, foi colocado por um repositor numa prateleira de supermercado, foi comprado e se nós fizermos a descrição de quantas pessoas estão envolvidas para que uma colher de arroz chegue no prato, nós vamos chegar à conclusão que foram milhares. Milhares de pessoas trabalharam para que tivesse aquele arroz ali no prato, porque cada parte dependeu de coisas que vieram de lugares diferentes do mundo. Máquinas que foram usadas tem componentes que foram fabricados em outros países para que aquela comida estivesse no seu prato. Você está consciente dos inumeráveis esforços que foram necessários? Estar consciente é a prática. Nada pode passar por nós como uma coisa que a gente faz automaticamente, sem prestar atenção. Dentro daquilo que a gente está fazendo tem uma quantidade enorme de ensinamentos embutidos e você tem que decodificar. Se você não estiver decodificando, você não vai entender o porquê.

Como seres humanos nós temos a oportunidade de ter consciência de todas as coisas. Eu sei que a quantidade de pessoas conscientes no mundo é baixa, na verdade muito baixa, porque nós vemos a todo instante a inconsciência funcionando e repercutindo os atos das pessoas. É necessário examinar esses atos. Se todo mundo agisse como eu, como seria o mundo? Dá para fazer isso? Aquilo é possível? Então, a oportunidade de ser um humano é a oportunidade de se dar conta de tudo isso, de praticar e de se iluminar. Todos os reinos inferiores não têm essa oportunidade.

O estágio seguinte é o das Asuras, que foi traduzido como: reino dos semideuses. Os semideuses são poderosos e estão sempre lutando, sempre querendo vencer. O reino dos semideuses está bem representado nas livrarias, com livros do tipo: “tenha sucesso”, “seja um vencedor”, “como ser um milionário”, “seja uma mulher poderosa” e temas assim. Esses livros expressam um desejo de competição, de ganhar sobre os outros, porque quando falamos em sucesso é porque há derrotados. É como o super-homem de Nietzsche subindo a pirâmide sobre os corpos dos outros homens derrotados. Não é a ideia de juntar coisas para si, isso aparece como um subproduto, e sim a vontade de estar acima dos outros. Esse reino é bem característico do mundo dos executivos, dos desportistas, dos políticos, etc.

Há um defeito no reino dos semideuses com relação ao mundo dos homens. Os homens têm altos e baixos, já os semideuses são vencedores, eles têm coisas, têm poder e estão sempre focados em ganhar, então compaixão não é algo que entra nesse reino. Compaixão aparece mais entre os seres humanos, que às vezes perdem tudo, às vezes ganham alguma coisa, mas permanecem sempre lutando na vida. Quando você olha para a sangha o que você vê são predominantemente seres humanos. Gente com um espírito animal não vem para a sangha, já que é melhor ficar em casa fumando um baseado ou bebendo cerveja. Pessoas com espíritos animais embrutecem, sentem menos, dormem mais, não têm vontade de lutar e adiam tudo para depois. Precisa de uma certa energia para uma busca espiritual, você precisa ser um ser humano e ter algum sofrimento para vir para a sangha. Um executivo bem sucedido também não vem para a sangha, porque enquanto ele está vivendo como um executivo, ele está vivendo na luta, o tempo todo. Eu teria andado muito mais no caminho espiritual se não tivesse perdido uma boa parte da minha vida sendo um executivo. Levantava de manhã, almoçava no trabalho, ou num almoço de negócios, jantava, ia a um coquetel, chegava em casa cansado e no outro dia começava tudo de novo. Não havia pausa ou tempo para outras atividades, assim como não havia energia para outra coisa a não ser essa luta do trabalho. Nessa posição você sente os sofrimentos intrínsecos da competição, mas não lhe faltam coisas ou poder, porque ele é poderoso e esse poder é encantador. O poder está lá no sobrenome da empresa num cartão de apresentação, você pode mostrar o crachá e é respeitado por isso, então você se sente poderoso. Essa é a característica dos semideuses e, sendo assim, eles não vão sentar para fazer zazen, nem têm tempo para isso.
   
O próximo reino é o dos deuses. O mundo dos deuses é outro estado, superior, porque não precisa lutar mais. Tudo veio de graça, como uma moça que nasceu muito linda, ganha dinheiro para ser fotografada e ganha muito mais do que jamais poderíamos imaginar. Ou o caso de grandes talentos quando não precisam de esforço. É muito diferente o comportamento de um pianista que precisou estudar muitos anos, passou horas e horas fazendo grande esforço, de alguém que ganhou fama e dinheiro repentinamente e sente que de certa forma não merece e fica tonto com aquilo. Nessa situação, o dinheiro escorre pelas mãos deles e surgem muitos amigos falsos e essas são características do estado do mundo dos deuses. Sem o esforço que os semideuses têm que fazer, sendo grandes herdeiros, ganhando Ferrari aos 18 anos, fazendo viagens pelo mundo todo de forma natural, sentindo dificuldade nenhuma, não sentem necessidade de se esforçar. Não há tantas pessoas no mundo nessa situação, mas essas pessoas não têm interesse algum pelo caminho espiritual, porque não sentem um sofrimento provindo do mundo externo. Todo o sofrimento que surge é um sofrimento interno. Às vezes ocorre suicídio por falta de sentido na vida, mas quando essa pessoa vai falar sobre o seu sofrimento, sobre as suas dificuldades, as pessoas normais sentem vontade de rir, porque para elas não é sofrimento real, ela nasceu em berço de ouro e não precisa fazer esforço algum, mas não quer dizer que não sintam angústia.

Temos um exemplo interessante: Buda nasceu no mundo dos deuses, ele era príncipe, seu pai tinha tudo, então deu tudo para ele. Não havia dificuldade nenhuma e só quando ele pensa na velhice, na doença e na morte, é que ele cai em si sobre a quantidade de angústia que o homem tem ao olhar sua própria finitude. Tudo o que eu tenho vai envelhecer, apodrecer e morrer. Todas as coisas que eu amo eu vou deixar de ver. Todo esse mundo em que estou vai desaparecer para mim. E não sei o que acontecerá depois da morte, isso é desconhecido, ninguém voltou para dizer como é do outro lado. Todos estão condenados, Buda pensou isso. Apesar de estar no mundo dos deuses ele teve esse lampejo, mas para conseguir fazer a prática espiritual, o que ele fez? Abandonou tudo, porque se ele ficasse lá no palácio não conseguiria praticar. Então ele abandonou tudo e se tornou um asceta sem roupa, sem comida, passando fome, mendigando, se martirizando, perdendo todo o conforto, etc. Foi assim que ele foi procurar e descobriu que estava exagerando quando despertou. É isso o que interessa para nós.

O que é o despertar? É uma característica que ocorre no reino humano, que é clareza, lucidez e compreensão perfeita do que tá acontecendo. Por que acontece assim? Como acontece? De onde vem isso? Todo o edifício teórico do budismo está construído em cima disso e os reinos não passam de representações didáticas que nos dão classificações para entendermos esses estados mentais que ocorrem em todos nós. Todos nós temos essas características e nós devemos ser agradecidos por sermos seres humanos com problemas humanos, porque é por estarmos nessa situação que temos a capacidade de despertar. Despertar é uma palavra melhor que iluminação.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Aos poucos, a humanidade vem criando consciência

Pergunta: O senhor pode comentar essa ideia de continuar, de ser eterno?
Monge Genshô:
Nós temos esse grande desejo de eternidade, eu sempre falo que as religiões surgiram por causa disso, porque elas querem dar essa noção de que você continua. Por isso existem várias diferentes ideias. Muitas pessoas pensam que o budismo é reencarnacionista e não é. O budismo fala em continuidade, mas é do carma e não do eu. Não há um eu para ganhar uma carne nova e um corpo novo. O budismo não é milenarista achando que a Terra vai ser renovada, que os mortos ressurgirão e virão de novo num mundo paradisíaco. Lembram ontem quando falei da ideia de paraíso? Voltaire foi um que disse que a humanidade sempre se refere à idade de ouro como sendo a anterior. E cada idade de ouro se refere a uma idade de ouro anterior. Sempre olhamos para o passado pensando que ele é maravilhoso. Quanto mais você estuda e lê, mais fica aterrado com o fato de que o passado não foi maravilhoso e sim muito pior. Quando nós vemos a conduta dos homens do passado ficamos chocados com o quanto foram capazes de fazer para conquistar ouro e tudo mais. Vemos ainda hoje pessoas no Oriente Médio queimando bibliotecas, destruindo templos e essas coisas. O Parthenon, na Grécia, explodiu porque foi transformado num depósito de pólvora, imaginem hoje, desconsiderando fanáticos, se alguém transformaria em depósito de pólvora uma obra de arte daquelas. Quando olhamos os castigos e o que as pessoas faziam, percebemos que nosso mundo melhorou muito. Hoje as pessoas se comovem com coisas que antes eram completamente ignoradas.

Há pouco tempo li a história de Fernão de Magalhães, que tentou dar a volta ao mundo e descobriu o Estreito de Magalhães, aqui na América do Sul. Ele mandou matar pessoas que se revoltaram contra ele no navio, por um método que era pendurar a pessoa, abrir sua barriga e queimar o intestino com a pessoa ainda viva. Existem vários métodos tão agressivos quanto esse. No caso de Fernão de Magalhães, ele não chegou a dar a volta, morreu numa ilha do Oceano Pacífico tentando converter os nativos ao cristianismo. Mas parece que os nativos não gostaram e ele morreu durante uma batalha. Dos 160 homens que saíram com ele da Espanha, voltaram 18 e esse era o mundo de 500 anos atrás. Há 100 anos, no Brasil, nós tivemos a Revolta da Chibata, quando os marinheiros brasileiros que queriam abolir o castigo de serem chicoteados se revoltaram. É concebível hoje que alguém seja chicoteado? Para nós não. Agora já tem gente fazendo movimento até para salvar os cães. Mas isso acontece devagar. Esses dias fizeram um para salvar porcos que iam para o matadouro, mas depois disso todo mundo senta e come presunto. Mas o caso é que os porcos estavam vivos e foram filmados. Houve grande revolta. Nos revoltamos com aquilo que enxergamos, mas depois sentamos à mesa e comemos presunto. Um pouco ridículo. Essa atitude é tola. Nós temos pena de um certo tipo de animal, mas de outro não. Então o aumento de consciência é lento.

Nossa consciência compassiva consegue se comover com uma criança morta na praia, porque foi fotografada. Milhares de mortes já ocorreram lá, mas como não foram fotografadas não se criou comoção. Então o grande herói não é a pessoa que morreu ou seus familiares, mas aquele que expôs o fato. De repente você vê alguém como você, como seu filho e então você se mobiliza. Tudo isso para dizer que a humanidade vem criando consciência, mas aos poucos. No contexto de 500 anos atrás, ou mesmo de 100 anos, as mudanças foram muito grandes. Essas mudanças exigem outras que fazem você refletir por qual motivo se comove com esse e não com aquele, com essa raça e não com aquela, há grande questionamentos éticos surgindo. Isso acontece porque nós ficamos ricos, porque nós podemos sentar à mesa e porque há comida abundante, quando não tínhamos não dava para fazer esses questionamentos. Coloquemos todos nós aqui numa floresta e mais nada. Sem agricultura, sem supermercado, os que forem capazes de caçar vão sobreviver e os outros não. Se a situação ficar bem aguda mesmo, vamos acabar comendo uns aos outros. Essa é a história humana.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Iluminação completa e universal



Pergunta: Vamos desaparecer quando atingirmos a iluminação?
Monge Genshô:
Está no Sutra do coração “san myaku san bodai”, que quer dizer: iluminação completa, perfeita e universal. Essa iluminação é a extinção completa da noção de um eu. É a resposta de Bodhidharma. “Quem eu tenho na minha frente?” e ele responde: “não faço a menor ideia”. Então, nesse caso não existe um eu que se ilumina mais, porque justamente essa iluminação completa é a extinção da noção de um eu.

Pergunta: Treinamos para desaparecer?
Monge Genshô:
De certa forma sim. Quando nós estamos treinando estamos treinando para atingir esse ponto, mas não há nenhuma garantia de que você vá atingi-lo no próximo milhão de anos. Alguns atingem a iluminação e na realidade são bem poucos. Perguntaram para Shunryu Suzuki quantas pessoas ele conhecia que eram perfeitamente iluminadas, quantos Mestres no mundo todo e ele respondeu: “não mais que uma dúzia”. Então, num momento como agora, quantos Mestres iluminados estão ensinando? Muito poucos.

Então, praticamos para atingir a iluminação, mas ela tem muitos graus. Iluminação em graus baixos é compreender, mas ainda não agir de forma iluminada. Um grande Mestre, dividiu em quatro níveis a iluminação e o último nível ele denominou "da ação". Quando alguém tem atos que refletem a iluminação, quando cospe e essa é uma cuspida iluminada, essa é a iluminação completa. Há uma história antiga de uma mulher que vinha numa floresta e achou um Monge evacuando, era Shariputra, grande discípulo de Buda, ela o viu evacuando e ele tinha um tal ar de dignidade que ela achou aquilo muito diferente dos seres humanos normais e imediatamente largou tudo, foi até Buda e pediu para ser discípula como Shariputra era, porque ela queria ser daquele jeito. Esse nível, quando passa para a ação, para a vida, para a maneira como fala, esse é um nível realmente mais alto de iluminação. A gente já reconhece uma realização espiritual no entender, mas ela ainda não se expressa em todos os nossos atos, às vezes está presente e às vezes não. Praticamos para andar mais rápido, mas é como eu disse: não há nenhuma garantia que nos próximos anos iremos nos iluminar. Não existe uma garantia nesse sentido. A permanência na ignorância pode ser muito vasta.

Uma vez eu estava vendo uma palestra do Nizan Guanaes, um publicitário, e ele disse uma frase que fez todos darem risada: “vocês já notaram que a inteligência tem limite mas a burrice não tem?”. A gente tem que levar em conta que não praticar é perder muito tempo. Por isso há aquela frase: “praticantes, vida e morte são assuntos muito importantes, por isso vos peço, encarecidamente, não percam tempo”. Porque a vida é curta, breve e você perde tempo. O que acontece com quem perde tempo? Repete outras vidas, sem a memória dessa, só com os mesmo impulsos. Quando olho para a minha própria vida vejo quantas mancadas com sérias consequências cometi. Se eu voltar com os mesmos impulsos originais, vou cometer o mesmo tipo de mancadas, vou cometer os mesmos erros e é muito fácil isso acontecer quando somos guiados só pelas emoções. As emoções são más conselheiras. Aquela frase “siga seu coração” está errada. Não é para seguir seu coração, é para seguir o caminho óctuplo. Se você seguir seu coração, vai ser arrastado pelas suas paixões e se isso acontecer você vai destruir sua vida. Às vezes você começa a fazer uma obra maravilhosa, vários Monges passaram por isso, começam tudo bem, se sacrificam durante muitos anos para chegar naquele ponto e então surge a oportunidade de uma paixão e eles jogam fora toda a vida, todos aqueles anos de trabalho. Nesse momento a oportunidade de ser exemplo na vida acaba. Isso é muito complicado e mais frequente do que imaginamos. As paixões não são boas, temos que parar e pensar sobre as repercussões dos nossos atos, trabalhos e vida a longo prazo. O que poderá acontecer a partir de uma iniciativa minha? Isso tem que ser pensado.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Olhar, observar e imitar



ESVAZIE A XÍCARA

Quando se está estudando música, por exemplo, ou em qualquer arte, como aprender a cozinhar, e o aluno diz: “mas será que não é melhor assim, será que não posso fazer de outro jeito?”, e fica interrompendo o professor a cada momento perguntando sobre uma outra maneira de fazer as coisas, o processo de aprendizagem não ocorre adequadamente. No oriente, no Zen, isso vai um pouco mais longe, não só não se espera que o aluno venha  apresentar uma ideia própria, como se presume que ele tem que chegar com uma mente esvaziada. Ele chega e não tem que criticar nada, ou achar coisa alguma. O aluno vai chegar no mosteiro e se espera não que pergunte ou que peça explicações, mas que roube do mestre e dos mais antigos a maneira certa de fazer as coisas. Então a gente olha, observa e imita, não pergunta nem o porquê, porque o “porquê” vai vir depois. E o “porquê” pode ficar muito obscuro.

Dogen costumava ir ao riacho que ficava perto de seu mosteiro pegar um balde de água. Depois que ele pegava o balde de água ele derramava no riacho de volta metade do balde e levava só meio balde. Essa era uma prática espiritual em relação à água, aos recursos, ao que existe, ao que a natureza dá. E fica meio obscuro para um aluno que chega, que pode pensar, “mas se trouxe meio balde, por que não traz um balde inteiro? Então vai fazer duas viagens e trazer dois meios baldes?

Isso na realidade é absurdo, isso não é eficiente! Mas ele não sabe o que estamos procurando. Estamos procurando uma outra coisa completamente diferente. Tem muitas coisas que no treinamento Zen vão parecer absurdas à primeira vista. Então, o que o aluno tem que fazer? Simplesmente fazer do jeito que foi dito, sem pensar. Esta é a maneira de aprender. Depois que ele dominar aquela técnica, então chega o momento de ele poder fazer alguma alteração. Mas só quem pode fazer alteração é quem dominou a técnica completamente, não quem está chegando. Então   não se espera que o aluno pergunte, e muito menos que pergunte “por que?”, se espera simplesmente que ele quietamente faça conforme foi mostrado, e isso significa abdicar da sua opinião, abdicar do seu eu, e da sua maneira normal de pensar, e deixar para depois. E pode-se levar muito tempo para perceber por que uma coisa é feita de uma maneira e não de outra.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Clareza e Lucidez aqui e agora


Pergunta: Contemplação, o caminho dual, o bom, o belo, o feio. Como estamos contemplando, há um julgamento também?

Monge Genshô: Se você estiver julgando, está errado, as palavras nos atrapalham. Nós dizemos assim: a floresta, o mato que nos rodeia é belo, se você quiser procurar o feio você vai achar dentro da sua mente, pois na realidade não existe nenhum feio dentro da floresta que não seja belo. A árvore que está apodrecendo é bela, a podridão é bela, as folhas ficam amarelas e com ferrugem, adoecem e são belas. Se você disser que as folhas que ficam amarelas e morrem são feias, aí você colocou sua mente e aí a palavra belo, feia, está atrapalhando porque parece que tem uma contraposição belo/feio, não é isso.

O que nós vemos é maravilhoso, a morte faz parte da vida. Dentro do belo tem o feio, dentro do feio tem o belo. Aquela imagem do Yn Yang, na parte branca tem um ponto preto e na parte preta tem um ponto branco, porque já está tudo contido. Se você separa, você se perde. Por isso a instrução tem que ser não julgar, não criticar, não colocar  sua mente classificatória acerca das coisas, não faça isso. No seu caso, esqueça a palavra belo, pense “maravilha”, que não tem uma palavra oposta para atrapalhar.

Quando andamos hoje de manhã, o ritmo é de 5 km/h, e quando vamos para a estrada andamos 50 vezes mais rápido, a 100 km/h. Então nossa vida comum é extremamente diferente desta, mas esta vida seria muito mais o ritmo humano real. É claro que o sesshin é especial, nós só fazemos zazen. A vida diária num mosteiro não é assim, você faz três zazens por dia e o resto do tempo você trabalha e faz cerimônias, tem outras atividades, mas dentro deste ambiente que nós temos aqui, o ritmo, a paz com a qual você convive é completamente diferente, mas esta é a vida natural do homem e não aquela do ritmo dos motores, das conexões. Sei que não tem volta, e que os homens estão se tornando seres cibernéticos, mas de outro lado, eu vejo quantas pessoas se sentem perdidas e deprimidas no mundo lá fora, muitas não veem sentido em suas vidas. Por  isso temos uma epidemia de pessoas tomando remédios para uma tristeza, uma depressão. E é muito interessante que tenhamos isso num mundo tão acelerado.

Me lembra uma anedota antiga: pegaram  um homem que foi visitar os EUA e o levaram para mostrar “a maravilha”, o levaram  na Disney, em montanhas russas que colocam a pessoa a 180 km/h, descem por carrosséis ou torres em que as pessoas sobem e caem de repente, uma porção  de coisas assim, e aquele homem que havia vindo de um país distante, onde não havia nada disso, olhou tudo embasbacado. E no final do dia perguntaram o que você achou ? E ele disse:  “Que povo triste vocês devem ser”.

Nosso corpo não é diferente do armário, ele é construído de agregados, oxigênio, hidrogênio, ferro, cálcio, fósforo, um monte de coisas. São esses agregados, juntos funcionando, que dizem a si mesmo “eu sou”. Nós queremos que ele seja permanente, mas nada no mundo é permanente, nada, nada é permanente. Vejam, o que as religiões tentaram foi negar o próprio tempo, a própria duração do universo, porque o paraíso é para sempre, é eterno. Até o inferno por exemplo, é para sempre, é eternidade, castigo para eternidade, castigo infinito. Você comete um pecado e vai para o inferno infinitamente. Não parece muito justo, porque o pecado é limitado, ele não é infinito, mas por que o castigo do pecado é infinito? Filosoficamente um pouco exagerado.

Mas para o budismo está claro, não existe nada eterno, nem o universo é eterno, ele é cíclico. Tudo está sempre girando, começa, termina, começa, termina. Ambicionar a eternidade é querer contrariar o fluxo natural da vida. É por isso que no Zen vem pouca gente, porque a gente vai lá e diz isso para as pessoas, mas o que as pessoas querem é ser eternas. Eu quero que meu eu seja eterno, eu quero ir para um paraíso eterno, elas vão aos casamentos e juram amor para sempre. O que é idiota, porque nenhum amor dura para sempre. Na melhor das hipóteses os dois morrem juntos. Por que todo mundo está rindo? (risos) Porque, na realidade, a gente percebe a verdade evidente, tem algo de ridículo no comportamento humano de desejar a eternidade. Não têm? Parece um conto de fadas, “e foram felizes para sempre”. Mas é o que nós gostaríamos.  Está tudo metido nesses mecanismos mentais nossos , queremos nos iludir e nos esconder,  o budismo vem e joga isso na cara, aí vai todo mundo embora. Ficam só vinte pessoas para sentar em zazen, porque você coloca a pessoa para olhar a parede e ela vê a verdade. Eu estou respirando agora, mas eu vou respirar quanto tempo? Um dia eu vou respirar pela última vez.

Um aluno perguntou ao mestre: “Mestre, no Dharma de Buda o que senhor pode me oferecer?”. Ao que o mestre respondeu: “Gostaria muito de lhe dar alguma coisa, mas no Zen só há uma bola de ferro incandescente para ser engolida”. A primeira coisa a ser dita à um aluno é:

“Você sabe que está condenado a morte? Eu posso salvá-lo desta angústia existencial, mas somente através da clareza e lucidez. Não através de alguma crença, fantasia ou promessa maravilhosa para depois da morte”. Como as pessoas estão atrás dessas promessas de reencarnações, espíritos permanentes, almas e paraíso, não ficam. Elas desejam crenças, não sabedoria. Por isso uma  Sangha com mais de 20 pessoas é muito raro, altíssimo nível.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Amamos a nossa identidade


Pergunta: O rakusu é uma versão do kesa?
Monge Genshô:
O rakusu é a miniatura do kesa. Ambos são feitos de retalhos porque a lenda é que Buda costurou retalhos para fazer o seu kesa. Há vários significados simbólicos nisso. Ele cortou os pedaços de pano que estavam sujos de pus e de sangue, lavou cuidadosamente, recortou os pedaços que eram aproveitáveis e os costurou. Tingiu de ferro e de açafrão, de acordo com a lenda, então seu manto tem a cor amarelo açafrão. Já faz 2600 anos que nós usamos o manto assim como símbolo desse primeiro kesa de Buda. Nossa ideia é que nós somos a mesma coisa, nós somos cheios de pedaços bons e ruins, se nós descartarmos os ruins e pegarmos cuidadosamente os bons podemos fazer algo bonito. Os melhores são feitos de retalhos de tecidos que foram jogados fora, que não serviram para mais nada. Fica mais difícil fazer assim, mas fica mais valioso. Na medida em que o tempo vai passando a gente vai decaindo, degenerando, então hoje um manto de um Monge no Japão feito numa loja especializada é muito bonito, sem dúvida, mas pode custar 200 mil ienes, que seria 2 mil dólares. Isso é a nossa decadência. Nós vamos saindo do ato de Buda de usar tecidos jogados no lixo para reproduzir o manto pensando em ter algo perfeito, luxuoso, com um tecido muito bom, costurado pelo melhores artesãos.

Pergunta: Fiquei pensando sobre a ideia do eu e como o desaparecimento dele nos incomoda.
Monge Genshô:
É, nós amamos muito nossa identidade.