quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Formatando o disco


Pergunta: Monge, com relação ao kensho, o senhor disse que o satori seria a possibilidade de ser proprietário da experiência e acessa-la a qualquer momento. Mas isso me passa a idéia de alguém que acessa alguma coisa, um ego.  Parece uma aquisição.

Monge Genshô:  Mas não é, porque quando você estiver pensando “ah, eu...” aí você não consegue. Eu sou o proprietário, eu consigo isso, não é assim. Quando você está em kensho e tem uma experiência dessas, não tem a noção de “eu estou vendo, eu estou pensando”. Podem experimentar quando vocês estão em zazen. Se você consegue samadhi quando está fazendo zazen, cessam naquele momento todos os julgamentos e você de repente percebe o mundo, sons, todos com clareza, está num espaço cheio de plenitude. Não é propriamente euforia, alegria ou distorção da percepção, não é isso, pelo contrário, é percepção perfeita de todas as coisas. Mas, se você pensar “samadhi”, dentro de você (barulho de um bolha estourando), perde-se. É bem assim.


Pergunta: Se eu tenho a chance de poder optar, porque então eu decido não permanecer?

Monge Genshô: Por causa das muitas coisas que você está fazendo na sua vida normal, por exemplo, você deita para dormir, e quando você adormece, não está mais naquele estado de clareza. Embora (há muitas considerações a fazer sobre tudo isto) aqui mesmo no sesshin, nós sintamos sono, é perfeitamente possível ficar sentado e sonhar sonhos lúcidos, ver o sonho, fazer perguntas, ver respostas simbólicas aparecendo diante dos seus olhos. Mas são sonhos, você sabe que está sonhando e pode até dizer: “não,  essa aí não... essa resposta não serviu”. Meu inconsciente não produziu uma coisa boa, vamos para outra, outra tentativa. E você sonha, e o sonho é lúcido. Você está raciocinando, vendo e observando o sonho como se fosse um filme. Alguém já teve essa experiência aqui? Quando a gente sente sono certas coisas vêem, e por isso no sesshin provocamos um certo déficit de sono,  você sentado ali o filme surge na sua frente, e você começa a ganhar habilidades de usar os sonhos a seu favor.

Sonhar pode ser uma experiência muito agradável, se você pratica o Dharma. Pratica, pratica e cuida dos conteúdos que vêm à sua mente, então os sonhos que vêm são muito bons. Sonhar pode ser uma forma de prática. Por isso também, nós temos que ser disciplinados com os conteúdos que a gente acessa. Por exemplo, é uma péssima idéia assistir filme de terror,  porque de qualquer jeito os conteúdos vão sendo armazenados no seu subconsciente. Na verdade, nós devemos procurar sempre assistir filmes que produzem bons sentimentos, porque isso vai ser construtivo para você. Tudo que acontece, tudo que surge na sua mente aqui no zazen, não culpem mais ninguém, foram vocês que construíram. À medida que acalentaram pensamentos, à medida que acessaram certo tipo de informação, foi isso, isso que foi vindo. Você vai armazenando, o que vai sair? O que foi armazenado. Zazen é uma certa tentativa de zerar o disco. Nem passado nem futuro,  vamos formatar o disco rígido.  Então, é uma tentativa de nós apagarmos o lixo e podermos partir para outra forma de percepção.

Pergunta: Sensei, é como se tivesse que diminuir um pouco o pensar, o pensamento, mas tem que fortalecer o querer, porque para formatar o disco, tem que querer muito não é?  Pois tem que se submeter a um método para isso.

Monge Genshô: É tão difícil que a gente se reúne. Todos juntos e dizemos: “vamos fazer o sesshin”. Porque sozinho você não faria o sesshin (retiro). Teoricamente seria possível, você vai para um lugar isolado, faz sua comida e senta disciplinadamente desde as quatro horas da manhã. Você pode fazer isso sozinho, porém, muito poucas pessoas têm disciplina suficiente para isso. Então nós nos reunimos em grupo e assumimos um compromisso. Ninguém sai daqui, todo mundo fica junto, nós vamos fazer isso aqui, todos juntos. O professor senta junto e fica voltado para os alunos. Toda essa circunstância nos dá uma força de conjunto, é pra isso que serve a Sangha. Por isso a Sangha é uma das três jóias do Budismo: Buda, Dharma e Sangha. Buda o ideal, Dharma a sabedoria, o ensinamento e a Sangha pra nos dar a força de praticar. Porque praticar sozinho é muito difícil, exige tanta força de vontade! Então você tem razão que existe um “querer” aí e essa é uma das virtudes. Algumas das virtudes são energia e disciplina, elas são virtudes necessárias para a prática.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Não mais de uma dúzia


Pergunta: Dentro do tema que o senhor estava colocando, realmente as experiências podem se chamar samadhi? Existe algo maior ou mais prolongado? E isto seria a transmissão?

Monge Genshô: Varia de pessoa para pessoa. Há pessoas que amadurecem lentamente e há pessoas que têm uma grande evolução, uma grande experiência. Só para corrigir algumas palavras, “samadhi” é concentração, não é kensho. Samadhi é você estar sentado em zazen e penetrar num estado de “estou aqui presente, realmente ouvindo tudo e não estou sendo arrastado por pensamentos, emoções, eventos, isso não está acontecendo, estou realmente aqui”. No momento em que você pensar “ah, samadhi! Eu estou...”, já perdeu, já não é mais samadhi.

A segunda correção é sobre a transmissão. Transmissão no Soto Zen é um “reconhecimento”. Seu mestre reconheceu em você uma experiência, uma qualidade. Você conseguiu mostrar para ele isso, então, ele diz: “Eu estou transmitindo para você essa lâmpada, você agora também é um portador da lâmpada então, transmita essa lâmpada, essa luz pra outros, faça os outros despertarem e dê a eles a lâmpada também, para que nossa linhagem continue.”

Temos 2600 anos de transmissão viva. Isso é tão importante no Zen que, de manhã, nós recitamos os nomes de todos, desde Shakyamuni Buda: “SHĂKĂMŬNĬBŬTSŬ DĀIŎSHŌ. “Butsu” é Buda. MĂKĂKĂSHŌ DĀIŎSHŌ, ĂNĀNDĂ DĀIŎSHŌ, SHŌNĂWĂSHŬ DĀIŎSHŌ, ŬBĂKĬKŬTĂ DĀIŎSHŌ. Recitamos os nomes de cada um que foi passando a lâmpada pro outro. Hoje de manhã recitamos até TĀI·GĀN DŌ·SHŌ DĀIŎSHO. Normalmente, nós paramos em Keizan, porque depois de Keizan as linhagens se dividem no Japão. Então, recitamos até TĀI·GĀN DŌ·SHŌ que é Saikawa Roshi. “Saikawa” é o nome de família dele. O nome de Monge é TĀI·GĀN,  TĀI·GĀN DŌ·SHŌ. Se eu conseguir dar a transmissão para alguém, então vamos ter na lista após a minha morte, TĀI·GĀN DŌ·SHŌ DĀIŎSHŌ, MEIHÔ GENSHÔ DĀIŎSHŌ. E vamos recitar até ali. Se eu não der a transmissão para ninguém, meu nome está apagado da história das linhagens. E isso é um evento bastante comum. Muitos professores não conseguiram dar a transmissão para nenhum aluno. Então, isso que é a transmissão no Soto Zen, um reconhecimento.

Você pode ter um aluno leigo que se iluminou e não existe a cerimônia de “shihô”, de transmissão para ele, só existe de monges para monges. Então, embora esteja iluminado fica entre nós. Fica entre nós, porque ninguém sai dizendo isso. Há pessoas que saem dizendo, “eu sou iluminado”, vocês podem achar facilmente na Internet, mestres iluminados. Esses dias alguém me falou que havia uma pessoa num fim de semana dando um curso de três dias para a iluminação e que custava cinco mil. Alguma coisa assim.
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Monge Genshô:  Bem barato. Se somarmos os sesshins aqui... ainda não dá isso e não tem garantia. Então isso existe bastante, mas aqui no Soto Zen não há garantia alguma. E se alguém diz “eu sou iluminado”, nós já sabemos que não é, porque a própria declaração “eu sou” é uma declaração de separação - eu e não os outros. Então, essa declaração jamais é dita. Shunryu Suzuki, autor daquele famoso livro “Mente Zen, Mente de Principiante”, conta-se que um aluno chegou para ele e perguntou: “O senhor é iluminado?” E ele olhou para o aluno e disse: “Não.” E o aluno estava olhando nos olhos dele e começou a chorar, essa história é interessante.

Alguém também perguntou: “Há muitos graus de iluminação, né”?  Alguém conseguiu uma compreensão, alguma coisa, o Mestre reconhece isso, dá a ele a transmissão para continuação da linhagem, e diz: “Continue, você precisa praticar ainda mais 40 anos”.

Estamos cheios de histórias nos Sutras, de monges que se iluminaram, despertaram e aí então ficaram mais vinte anos treinando junto com o mestre, antes de começar a ensinar. Isso é que é a prática. Então existe essa iluminação que eu disse, iluminação bem rasa. Pouca coisa. Conseguiu pouca coisa, mas já foi reconhecido, recebeu a transmissão. Mas alguém perguntou para Shunryu: Suzuki “Quantos mestres verdadeiramente, completamente iluminados, há no mundo?” Aí Shunryu Suzuki disse para ele: “Não mais de uma dúzia.” No mundo todo. Não mais de uma dúzia! Isso nós temos que levar em conta. Qualquer experiência iluminada que vocês tenham é extraordinária em si, mas também é muito simples, não é grande coisa. Porque quando você recebe a transmissão, aí o Mestre diz: “bom, agora que começa, agora que começa seu treinamento”. Antes foi só preparação. Você sempre vai ter essa sensação de que está começando.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Satori


 (continuação)
E o que é satori? Satori é a possibilidade de andar assim quase todo o tempo, andar na iluminação por escolha. Se a situação está muito complicada, então eu posso simplesmente mudar meu modo de funcionamento para o “modo iluminado”. Se eu posso mudar para o modo iluminado, eu posso até morrer, sem problemas, não é? Porque a própria morte está sendo vista sob uma outra perspectiva, que é o que acontece com o monge que queima numa fogueira sem manifestar nada. Não é que a dor não exista, o sofrimento não exista, não é que a morte não exista. Existe, mas a morte não é o que é para todos os “eus”, porque ele sente que morte e nascimento são apenas eventos de uma onda cármica pois, na realidade, você é eterno por natureza, não é este evento de agora. Este evento de agora é o evento do seu “eu”, e este evento do seu eu, deste momento, é importante para quem vive no sonho, para quem sai do sonho, não é, porque o sonho é todo construído. Essa é a essência do que nós estamos fazendo.

E eu acho importante nós desmistificarmos o que é iluminação, porque a iluminação está disponível agora. Se não estivesse disponível, fazer sesshin seria um sacrifício inútil. Ela está disponível. Você, em algum momento, percebe que as circunstâncias daquele instante são tão maravilhosas, tão tranquilas, tão calmamente felizes que você gostaria que aquele momento durasse para sempre. Você poderia viver sempre assim, você não queria que acabasse. Essa é uma experiência iluminada. Você só precisa trazer isso para sua vida, de verdade.  Aí tudo está certo. É para isso que nós praticamos, não é para mais nada, pois então praticamente todas as perguntas estarão respondidas, se você tem esse tipo de experiência.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Ken - ver, sho - verdadeira natureza


 (Terceira palestra no sesshin de inverno, Florianópolis, 2014)
Sobre a iluminação, há um bocado de enganos e essa explicação é necessária. A iluminação é mitificada, faz-se dela uma coisa muito extraordinária, enquanto ela é um evento natural da mente. Na verdade, o estado natural é iluminado. Nós é que o perdemos porque não paramos de pensar. Então, quando nós sentamos em zazen, todo mundo vê uma mente que não pára.  Só surgem coisas, surgem coisas sem parar.

Mas o despertar não é muito frequente quando se está fazendo zazen, é mais frequente uma experiência iluminada fora do zazen, em uma caminhada por exemplo. Eu já ouvi mais narrativas de pequenos insights nas caminhadas do que nos zazens. Porque você repentinamente está lá fora, passou tanto tempo em zazen que sua mente ficou realmente vazia e, de repente, você vê realmente o lugar onde está. E  a beleza do lugar pode ser tão grande, de uma pequena coisa, de uma pedra, de uma flor, de um reflexo na água, que essa beleza e a felicidade de estar vendo isso são quase insuportáveis. Este momento é um momento iluminado. A iluminação não é diferente disso. Não são trovoadas, trombetas tocando, anjos chegando. Não são coisas assim.

O que acontece é que você tem essa experiência maravilhosa durante um período muito curto e por isso não é “A” iluminação. Por isso se chama essa experiência de kensho: ver sua verdadeira natureza. “Ken” - ver, “sho” - sua verdadeira natureza. Você viu sua verdadeira natureza, que é inseparável daquele reflexo, daquela pedra, daquela flor, daquele céu. Se você sente essa experiência naquele momento, essa experiência é como um vislumbre do que é a iluminação. A partir daí você sabe: a iluminação é possível. É só ficar assim sempre. Isso seria “Satori”. Realmente ser proprietário da experiência iluminada, de poder, a qualquer momento, chamar esse estado mental. Não é assim tão impossível, inalcançável, coisa que só existe nos textos. Não, é uma experiência viável. O que você precisa simplesmente é treinar de maneira tal a criar condições para ter pequenas experiências iluminadas. Ninguém sabe. Você continua sendo o idiota de sempre. Fazendo as coisas erradas de sempre, mas você “viu”. Então agora você já sabe. É possível. Eu percebi isso. Ok.

O que é preciso? Ter mais dessas experiências. Se tiver mais, mais, mais, vai chegar um instante em que de eventos extemporâneos, randômicos, que acontecem sem que você saiba quando nem porquê – um momento inesperado, mas que você sabe que só ocorre porque você anda fazendo zazen – eles podem se ampliar de segundos para mais segundos, mais tempo, até o momento em que você possa chamá-los. Ah, eu quero abrir essa janela agora. E torna-se possível, é uma habilidade.

À medida em que você aumenta essa habilidade, sua vida e a perspectiva da vida começam a mudar também. Porque aquelas coisas que parecem muito complicadas, vistas do ponto de vista de uma perspectiva de quem tem alguma experiência de kensho, elas não são tão terríveis, não são tão tremendas, porque você está olhando aquilo da perspectiva lúcida. É impermanente? É. Então, vai passar. É sofrido? Sim, é. Mas, faz parte do sonho. Ah, eu sei que é sonho, porque eu sei como é estar acordado. Então, todas as experiências da vida começam a mudar. À medida que elas mudam e vão invadindo sua vida, você pode se aproximar do que nós chamamos de satori.  (continua)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Mantos sobre a cabeça



Pergunta – Monge, neste contexto dos rituais, qual o significado na cerimônia da manhã quando todos colocam os mantos e os rakusus sobre a cabeça?

 Esta é uma antiga tradição que Dogen cita, e ele diz que ficou muito emocionado por ver isso na China, significa “grande respeito”, você colocar alguma coisa sobre a cabeça e “orar”. Então ele cita como tendo visto isso há 800 anos atrás, no Templo de Hui Jin, de Tendo Niojo Daiosho. Como ele é o fundador da nossa ordem, nós repetimos o ritual todas as manhãs, nós sempre viemos para o zendo sem o manto e sem o rakusu, e de manhã, recitamos o verso do manto, “ó grande manto da libertação, além da forma e do vazio, campo sem forma de benefícios, uso os ensinamentos do Tathagata, para libertar a todos os seres” .

“Campo sem forma de benefícios”, quando você olha o manto, ele é feito de retalhos, como um campo de arroz também. E como ele é feito de retalhos de tecido rejeitado, ele tem um simbolismo muito bonito, de que você pegando tecido estragado e separando pedaços ainda bons e costurando os retalhos, pode de novo fazer uma coisa boa. E todos nós somos assim. Temos pedaços bons, pedaços ruins, sentamos aqui em zazen e vemos, nossos pedaços bons e ruins aparecendo. Você só precisa separar os bons, costurá-los juntos, cuidadosamente, ignorar os outros. Só ignorar, e você vai ter um rakusu. O rakusu ou o manto de Buda, é isso, é uma metáfora de como nós podemos selecionar e separar e ficar com o que é bom, desde que nós nos esforcemos para tanto. Bonito...
(Final de palestra pública, decupada da gravação por Rachel San)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O dente de Buda


Quadro de Eduardo Salinas

Pergunta – Eu achei curioso quando caminhávamos pelo mosteiro e fizeram reverência à estátua de Nossa Senhora, porquê?

Monge Genshô – Penso que Nossa Senhora de Fátima é uma imagem da compaixão, aí faço a reverência para a imagem da compaixão. Na realidade, o arquétipo é o mesmo de Kanon Bodhisattva, uma figura feminina, amorosa, e compassiva, é só isso. Então fazemos reverências para todas as estátuas, de todas as religiões, e isso acaba dando em coisa muito boa.

Essa construção deste mosteiro é obra do espírito humano, a estátua também é obra do espírito humano. Na realidade é gesso, madeira, pedra, a estátua não é nada. Nós nos inclinamos perante ideias, é a mesma coisa com Buda. Nós não reverenciamos Buda, pois mais morto do que Buda está, é difícil. Reverenciamos a ideia de ser possível acordar, por causa do grande Mestre que ele foi, isso é uma ideia maravilhosa.

Há uma historia famosa no Zen, em que um Monge chega num eremitério numa montanha e estava muito frio, e tem uma estátua de Buda de madeira, ele parte a estátua, faz uma fogueira e dorme bem quentinho durante a noite. De manha chegam dois Monges e fazem um escândalo: “Mas como, você queimou o Buda”?

Existe uma lenda de que quando alguém, um grande homem como Buda é cremado, aparecem pequenas joias, que se chamam “sariras”, então o Monge remexe as cinzas e diz: “É mesmo! E onde estão as sariras”? É como se a gente perguntasse: “Queimei, onde estão os ossos?” Porque é madeira. Isso revela um dedo que o Zen está sempre apontando à iconoclastia. Não transforme as coisas em outras.

Tem uma historia Tibetana também, de uma senhora velha que ia morrer e o filho ia fazer uma peregrinação pra índia, e ela pediu a ele que lhe trouxesse um dente de Buda. E, claro, ele não tinha como achar um dente de Buda, de modo que quando ele voltou no caminho, pegou um dente de cachorro que pegou na estrada e poliu, deu formato de um dente humano, colocou numa caixinha e levou para a mãe. Ela ficou maravilhada e construiu uma pequena estupa, um relicário, e colocaram lá o dente e as pessoas todas dos vales começaram a fazer peregrinações para reverenciar o dente de “Buda”. E assim, com o tempo, o dente começou a brilhar. 

O espírito da estória é evidente, quem faz o relicário? Quem faz o dente brilhar? É só um dente de cachorro. Mas a reverencia de todos faz o dente brilhar. A estátua de Buda aqui atrás também, é só um material qualquer. Mas nós a reverenciamos, reverenciamos, reverenciamos e ela se torna importante, porque a reverenciamos. É a mesma coisa com todas as coisas que nós fazemos. Rakusu, o manto budista, você não entra com ele no banheiro, tem que dobrar, colocar no altar, o rakusu você costura, trata ele de maneira especial então ele se “torna” um rakusu. Mas, tecnicamente o que é? É só um pedaço de pano. Nós é que o transformamos, como uma forma de prática, porque precisamos de certas coisas assim, e elas fazem diferença.

Imaginem que o Monge se vestisse sempre de abrigo. Seria diferente. Eu sei que é diferente. Quando chego em qualquer cidade, vou fazer uma palestra, você estar vestido de monge faz uma grande diferença. Então você se comporta diferente, as pessoas te olham diferente, ganha um poder. É um poder que às vezes remove sofrimento. A pessoa vem diz que tem certa angústia, você diz alguma coisa para ela que a vizinha poderia ter dito mas  como foi um monge que disse, então funciona. Não podemos perder de vista estes fatos, pois eles são assim mesmo, então os rituais têm sentido, as roupas têm sentido. Embora pareça que algumas pessoas tenham resistência aos rituais por exemplo, na verdade é cegueira.

Uma vez eu estava com um rapaz e ele me disse: “eu detesto rituais”. E eu disse: “não é verdade”. “Por que o senhor diz isso”? “Porque eu entrei aqui na sala e você me estendeu a mão. Se eu tivesse ignorado o ritual de apertar as mãos, você teria se sentido ofendido, então você leva em conta os rituais sim, você acredita neles, tanto que acredita num aperto de mãos, que não é nada mais que um ritual com o qual você se acostumou”.

Então os rituais têm poder, nós seres humanos somos assim, aliás muito ritualistas, muito.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Cale a boca e limpe o chão


Quadro de Eduardo Salinas
Pergunta – Ainda, no tema anterior, no Sutra de Lotus quando eles colocam Buda no pico do abutre e vêm um monte de deuses escutar o que Buda estava falando, isso também tem um componente político da época ?

Monge Genshô - É evidente, certamente. São estratégias locais não é? Quando começa a estatuária budista, existem as chamadas “marcas de perfeição”, que são uma saliência em cima da cabeça, um sinal no meio da testa, etc, mas, de onde é que vêm as 32 marcas da perfeição? Na realidade são do hinduísmo, são anteriores, vem dos vedas. Então o que aconteceu? Traz-se para a estátua de Buda uma série de características que estavam nos vedas porque eles estavam vivendo num meio hindu e queriam legitimar Buda como um ser perfeito, então a verdade é esta. Buda era uma pessoa perfeitamente normal, nós podemos deduzir isso pelos textos. Não tem nada a ver com as marcas de perfeição dos vedas, que aliás, se você ler atentamente e tentar reproduzir, vai ser um ser muito estranho! Os braços vão até os joelhos, os dedos tem todos o mesmo comprimento, tem 50 dentes, etc., então essas coisas todas também refletem uma ignorância da época. Se nós lermos os filósofos da época, Aristóteles registra em seus livros que um homem tinha 50 dentes. A falta de atitude científica de dizer assim: “peraí, quantos dentes tem um homem? Abra a boca, vamos contar”, ninguém, fez isso, então se escreveu: “50 dentes”. Assim, temos que olhar tudo sem jamais perder nosso olhar crítico.

Pergunta – Quais são as características para se ser monge no Zen, se existem pré requisitos, tem que fazer algum curso? Os Monges podem casar, todos trabalham?

Monge Genshô - Existem alguns Monges que conseguem viver da sua comunidade.  Assim, alguns monges no Brasil conseguem viver da sua comunidade, mas para isso você precisa reduzir várias coisas, ter família por exemplo é difícil. Caracteristicamente, essas que estamos falando são pessoas sozinhas, aí você pode morar no templo, e depender da sangha para viver.

Mas qual é a característica, a diferença entre monge e leigo, no Zen hoje é assim: o Dharma é prioridade. Quando alguém vai se ordenar monge eu digo: “você é monge, então não tem mais que dizer que tem que resolver um problema na sua casa”. Eu preciso que você faça isso, você faz. Então, é claro que tem um pouco de acordo quanto a isso, não é absoluto, mas deve ser colocado como prioridade a vida no Dharma, essa é a promessa que o monge faz. Os outros passam a ser sua prioridade, não ele.

Não só no Zen mas em todo o budismo, a ordenação de noviço – Shukke Tokudo – é o início do caminho e não o fim. Imagine, é como se você entrasse na ordem para ser treinado e o treinamento acaba demorando muito tempo, porque você tem que fazer períodos em monastério, tem que ficar junto de um professor responsável.

Por exemplo, Tokushi San é Monge noviço, mas ele tem um emprego público que impede que ele saia meses para passar num monastério. Então estamos esperando que ele se aposente. Enquanto isso, ele trabalha dedicadamente, tem um zendo pequeno na sua própria casa, cuida de um outro zendo aqui na zona sul de Florianópolis, vai na sangha, recebe encargos, isso é levado como parte importante da sua vida, mas, ele tem família e tem seu emprego para cuidar, e eu entendo isso. Se eu digo: “gostaria que você fosse a um sesshin”, e ele diz que foi convocado no trabalho como policial militar e não pode, é claro que eu tenho que entender este fato, assim como meu Mestre tem que entender as restrições familiares ou financeiras que eu tenho porque na realidade, a ordem não dá nada para o monge, nós temos que prover tudo. A única coisa que a ordem dá, é estadia no monastério, mas até chegar no monastério, você tem que ir por seus próprios meios, suas roupas você tem que comprar, mas, uma vez no monastério, você tem casa e comida. Mas não tem nada no Brasil, estamos sempre mandando monges para fora. Nós já estamos com estrutura física para treinar monges no Brasil, mas ainda não temos uma “chancela” oficial para isso.

Aluno – Mas os Monges passam por algum treinamento teórico formal?

Monge Genshô - Isso não é exigido dos monges. Ao monge noviço principalmente é exigido que cale a boca e limpe o chão. Não é exigido do monge que seja um professor, poucos monges chegam a professor. Ele tem que fazer um esforço de estudo sozinho, e caracteristicamente algumas pessoas se destacam por sua habilidade de estudar, mas isso é uma questão pessoal, a maioria dos monges não ensina, então, mesmo no Brasil, nós temos poucos Senseis, poucos professores autorizados.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Buda e deificação.



Pergunta – Monge Genshô, logo depois que Buda  morre parece que ele já começa a ser “deusificado”. Outros mantiveram essa abordagem ou tiveram esse “espírito” mais cético também?

Monge Genshô – No Zen também, porém o Zen, por tradição, tem professores muito rebeldes, os Mestres Zen defenderam ferozmente sempre sua independência e tentaram sempre retornar a origem, mas nos sutras mahayana, e o Zen está profundamente inserido no movimento mahayana, que é o movimento que começa mais ou menos 500 anos depois da morte de Buda, movimento inclusivo, que inclui os leigos dando-lhes importância etc, os sutras desse movimento já se caracterizam por transformar Buda num ser transcendente. Então, no inicio desses sutras, nos mais antigos, Buda aparece como um professor, chegou, sentou, o aluno fez tal pergunta, e ele respondeu, e às vezes a resposta de Buda era: “Quem foi que te disse isso? Eu não falei isso. Eu prometi isso? Não, não prometi não”. Ou, “Ó homem tolo”! Então ele era um professor incisivo.

Já quando chegaram os sutras mahayana, Buda aparece como um ser transcendente, convidando Bodhisattvas, Deuses, os deuses hinduístas aparecem pra ouvir palestras, aí numa sala como esta eentram 5.000 pessoas, etc.

Aluno – Então fico pensando se esses textos não teriam um sentido metafórico?

Monge Genshô – Se coloque no lugar dos escritores dos sutras, eles aparecem como escritores, mas sem assinatura. Não tem autor. Todos os sutras antigos são assim, não tem autor assinando, só começa a aparecer “isso foi dito por fulano de tal”, na nossa tradição, lá pelo ano 600 d.C., com a entrada do Zen na China. Antes os textos são às vezes escritos em chinês, traduzidos para o sânscrito, que já é uma língua morta no tempo de Buda, para ganhar prestígio, e o sutra, tem toda essa roupagem transcendente, ele perde a característica “pé no chão” dos sutras mais antigos que são do tempo do Triptaka mas, eles ganham em misticismo, eles ganham aspecto místico.

Se virmos por exemplo o sutra “Sandharmapundarika”, que nós citamos na hora das refeições, e que é o Sutra de Lotus, ele é um sutra evidentemente escrito mais de meio milênio após a morte de Buda e durante o seu tempo de vida, ele foi aumentando de tamanho. Cada vez que havia um conflito, um problema, na China por exemplo se dava muita atenção às relações familiares,  à piedade filial, à reverencia pelos ancestrais, etc, então os chineses tinham dificuldade de aceitar o budismo, então colocaram um capítulo sobre esses assuntos, e aí introduz-se dentro do sutra um aspecto confuncionista, e aí o sutra aumentava. Depois achavam que as mulheres receberam pouca atenção no capítulo das mulheres. Aumentaram o sutra. E assim foi.

Essa é a realidade da exegese histórica. Mas haverão escolas que dirão que esse sutra foi dito por Buda, e se você disser que historicamente isso não é verdadeiro, eles dirão que o sutra ficou escondido, porque as pessoas não estavam preparadas para ele etc.Então há muitas coisas assim em escolas budistas.

O Zen se beneficiou nos últimos 150 anos com a formação de universidades e centros históricos e à medida que se estuda seriamente os textos e a história, as coisas começam a ficar datadas, e começa-se a fazer raciocínios a respeito. Isso mudou a perspectiva do Zen, nós nos beneficiamos muito dessa visão mais exata dos tempos de hoje. Nós sabemos que dos sutras mahayana nenhum foi escrito no tempo de Buda. Todos eles são de autoria de um tempo posterior. Mas, tem uma outra observação a ser feita, o budismo é uma construção contínua, ele está sendo construído aqui e agora, nós temos um budismo brasileiro em construção, temos coisas que são características por exemplo da nossa sangha, que são diferentes até de outras sanghas budistas, porque por uma visão nossa, vemos alguns problemas e dizemos que não vamos permitir determinadas coisas.

Por exemplo, os leigos em muitas sanghas através do mundo usam roupas como essa, o koromo, até em outros países. Outro dia um senhor  me mandou uma foto dizendo que tinha uma roupa de monge. Não é uma roupa com a manga assim, na realidade é um koromo para leigos, que tem uma diferença no seu corte, na sua estrutura. Aí eu perguntaria: para quê que os leigos querem usar um koromo?  Não gosto muito disto, porque nas sanghas, e é da natureza humana, as pessoas gostam muito de títulos, cargos e roupas. Então se a gente permite, começa a ter gente já querendo “parecer” que é Monge. E para quê? monge tem que ser um cargo desagradável, tem que ser chato, ruim ser monge. Yoko San está aqui pra testemunhar. Ele se tornou monge e começaram a aparecer todos os problemas de monge e um belo dia ele chegou para mim e disse que não queria mais ser monge, que queria desistir. É mais confortável ser leigo. Agora, querer ser monge sem os desconfortos de monge, isso não é possível.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Sumedha e as prostrações


A idéia de realmente estar na presença de Deus, seria uma presença tão abrangente, tão poderosa, que varreria todas as outras idéias dentro da mente, então seria uma integração perfeita. Se nós começarmos a pensar profundamente assim, nos chegaremos à mesma coisa, não num nível, digamos, das crenças populares. Nas crenças populares o budismo também é assim, quando você vê um documentário de budismo, as crenças populares também são ingênuas, não é aquilo que Buda ensinou, é aquilo em que o povo transformou o budismo, para poder entendê-lo. Então vamos a países budistas e vemos as pessoas fazendo pedidos num pedacinho de papel e pendurando em árvores, e vão dizer que isso é o budismo, isso é outra coisa, isso é aquilo que foi possível para aquele tipo de mente, que precisa fazer pedidos e quer um auxílio externo sempre para si, coisa que, na essência, o ensinamento budista negaria. 

Então, para quem nos inclinamos, se não existe o Buda, não existe o outro? Nós nos inclinamos para combater nosso próprio orgulho, assim a prostração que é muito difícil para muita gente, na sangha leiga mesmo, muito parcimoniosamente é realizada, mas no sesshin no final do dia digo: “voto do Bodhisattva e sampai”. Sam quer dizer três. Sampai, três prostrações, e fazemos prostrações até o chão, cotovelos no chão, joelhos no chão, cabeça, e as mãos na altura das orelhas, para receber os passos de Buda, para servir de ponte sobre a qual Buda caminha.

Esta é a lenda, de que numa outra era, Sumedha, um praticante, viu Buda Dipankara, o Buda da era anterior e havia lama no caminho e ele se jogou no caminho, para que Buda caminhasse sobre ele. Aí Buda Dipankara colocou os pés sobre as costas e as mãos dele, e passou sobre ele, virou-se, Sumedha olhou pra trás e Dipankara disse: “daqui a 500 vidas, você será um Buda”. Então, 500 vidas de Bodhisattva depois, Sumedha tornou-se Shakyamuni Buda. Então esta é a lenda que justifica a tradição da prostração. Então nós fazemos prostrações para dizer: “eu sou uma ponte, caminhe sobre mim”. E isso exige que você abandone a si mesmo para ser ponte para os outros seres.

É interessante nós notarmos que um dos títulos do Papa é “pontifex” em latim, pontífice em português, o que quer dizer, “construtor de pontes”. Então nós vemos as similaridades, as mesmas idéias se entremeando, não é? Nós temos que ter a clareza de olhar as coisas “vendo” através, e não vendo apenas a superfície, vendo mais fundo, aí o mundo nos parecerá diferente.

Então fazemos reverências para nós mesmos e, quanto mais profunda, quanto mais prostrações, mais é um remédio para nosso próprio orgulho. Enquanto você tiver resistência, é porque na realidade você precisa fazer.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O abandono de si mesmo


Esses dias coloquei em um post de uma palestra que dei em Goiânia, a declaração de Matsu, quando alguém relata a história de que Buda menino, nasceu e saiu andando, e choveu uma chuva doce e pétalas, flores caíram do céu, e ele apontou com uma mão pra cima e outra para baixo, há uma estátua de Buda menino assim, e disse: “entre o céu e a terra eu sou o mais honrado”. Comentário do mestre Zen Matsu: “se eu estivesse lá nesta hora, eu o teria matado a pauladas e jogado sua carne aos cachorros”.

Esse é o comentário do Zen, por quê? Porque o evento em si contradita o “espírito” do budismo, uma vez que transforma Buda em um ser extraordinário, capaz de andar e falar logo depois de nascido e ainda se achando mais honrado entre o céu e a terra do que todos os seres, ou seja, é a própria declaração da separação.

Mas voltando ao início da palestra, sobre a reverência, a quem fazemos a reverencia? Nós não podemos fazer a reverência para outro, assim como não podemos fazer reverência para Buda, porque aquele que entra na sala e faz uma reverência para Buda, é um herege no Zen, porque nós não fazemos reverências para uma estátua de Buda, nós fazemos reverências para o “ideal” de sermos capazes como Buda, de despertar. É esta a idéia na qual nós tomamos refúgio, nós dizemos no início do ritual da manhã: “eu tomo refúgio no Buda”. Não é na pessoa, eu tomo refúgio na possibilidade de despertar esse ideal, eu sei que é possível que eu desperte, junto com todos os seres. Eu não tomo refúgio em uma pessoa, porque a pessoa representada no altar aqui atrás, é morta, extinta, há muito tempo. Não é possível uma reencarnação de Buda por exemplo, isso que a gente vê às vezes na imprensa, é um absurdo, não existe isso. Primeiro porque não existe reencarnação no budismo, existe continuidade cármica, não de um “eu”; segundo porque Buda, ao extinguir sua energia cármica com sua iluminação, ao esgotar seu carma, não tem porque retornar. É justamente esta a vitória, deixar de ser onda, para ser oceano, ser uno com tudo, mas não ser uma energia que força novas manifestações, com todas as suas consequências. Isso é que é visto como aprisionamento.

Aquilo que em geral é visto como vitória sobre a morte nascer de novo, ganhar novo corpo, ser um eu eterno, do ponto de vista budista é um tremendo de um castigo porque ficar condenado a repetir isso, aqui, de novo, sempre, a mesma coisa, isso é um aprisionamento. E despertar seria se libertar desse aprisionamento. Então é o contrário de ambicionar ter um eu eterno. Na realidade, é ambicionar ter uma integração perfeita, completa, absoluta e não uma eternidade de um eu. Se nós fossemos pesquisar profundamente em outras tradições religiosas, mesmo na tradição religiosa da casa onde nós estamos, uma casa católica, nós acharíamos a mesma ideia, porque a idéia de estar junto a Deus significaria um abandono de si mesmo, seria outra coisa, não é estar sempre eu aqui,  uma idéia primitiva.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Buda era um homem como nós


Quadro de Eduardo Salinas
Ontem nós estávamos tendo uma instrução de orioky e uma aluna fez uma pergunta que ficou na minha mente. Ela perguntou: “quando fazemos inclinações nas reverências, até que ponto é reverência e se for mais profundo, não é submissão”? Essa pergunta é bem interessante porque é como se nós estivéssemos perguntando se há um momento de grau em que a inclinação se converte de uma coisa em outra? Ou o espírito da pessoa que está fazendo a reverência é que faz a diferença?
Ora, na tradição do budismo, havia o costume de você fazer circumbulações em torno do Mestre, você vinha e dava voltas em torno dele, e depois de dar 3 voltas ia à frente dele, se prostrava até o chão e tocava nos seus pés ou os beijava.

Então se nós olharmos as antigas tradições, parece que a pessoa que chegava estava abandonando a si mesma e nesse abandono de si mesmo, então ela conseguia aceitar o mestre como guia. Nós temos no Zen tradição um pouco diferente de outras escolas. Há escolas em que o mestre é colocado num estrado elevado e está bem claro que ele é diferente dos discípulos e as instruções são olhar o mestre como um “guru” e esse ser então seria o reflexo de todas as perfeições, é a prática como um espelho da Guru yoga, muito poderosa se bem realizada, mesmo quando ele faz uma coisa aparentemente errada, os alunos olham e pensam: “ah, este é um ensinamento, ele fez isso por um ensinamento e não por um momento de imperfeição”.

Vocês vejam mesmo que na nossa tradição que conhecemos desde a infância, o cristianismo, Cristo é narrado entrando no templo derrubando as mesas e um dos evangelistas até vê um chicote em suas mãos. E ele chicoteia os mercadores que estão vendendo coisas no templo. Isso nunca impediu todos de olharem Cristo como uma imagem da perfeição, então está justificado seu ato e essa justificação faz do ato também um ato de ensinamento, um ato perfeito.

Esse mesmo tipo de tradição existe em algumas escolas budistas. No Zen isso é diferente. No Zen é assim: o mestre está bem próximo dos discípulos e senta na mesma altura deles. Ele é claramente uma pessoa com imperfeições e declara isso a todo momento. Quando o aluno chega para um professor e diz que tem paixões, o professor responde, invariavelmente: “eu também, eu também sinto isso, eu também sou assim. Eu não sou diferente de você, eu sou exatamente como você”. E por isso tudo é possível, porque Buda era exatamente como nós. Esta é uma declaração constante no Zen - Buda era um homem como nós.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Místico mesmo é andar


 Muitas vezes as melhores experiências não acontecem aqui no zazen, acontecem fora do zazen. Então, estejam atentos às coisas fora do zazen? No zazen, nós estabilizamos a prática, a mente, praticamos samadhi, aí, cria-se terreno para surgir experiências melhores, insights mais claros. Não esperem coisas extraordinárias ou mágicas, porque não é isso. Já é mágico estar aqui, comer, sentar, viver, respirar. Isso é muito mágico, maravilhoso. Então, nós já temos magia suficiente, extraordinário suficiente, misticismo suficiente. Não precisamos de mais nada. Místico mesmo é andar, colocar um pé na frente do outro. Isso é muito místico. Lembrem, como um caminho de dez trilhões de léguas, que chega no mesmo lugar.

Então você, ao mesmo tempo que quer chegar em algum lugar, você já chegou. Já é o lugar certo. É como o título daquele livro “O pico da montanha é onde estão meus pés”. Já é agora. Essas ambições são tolas. Na realidade, a maior parte das coisas que a gente vê na vida só é fumaça. Se você tem um evento desagradável, passa um tempo e anos depois você olha para trás... “ah, naquele tempo... naquele tempo... naquele ano” eu perdi minha carteira com os documentos e tive que fazer tudo de novo... nem me lembro mais de todo o processo que tive de fazer. Passou completamente.

Qualquer coisa que aconteça vai passar. Só não vai passar se você fica voltando, angustiado, agarrado naquilo. Se você estiver agarrado, aí sim, aí você sofre. Nós não sofremos pelos nossos amores, nós sofremos pelos nossos apegos. Sempre repito essa frase também, de que a felicidade está disponível. É como sentar em zazen. Está tudo disponível. Você já chegou. Mas a infelicidade você constrói com as coisas em que você acredita. Está tudo dentro da sua mente. A turbulência dentro da sua mente é que você constrói. Ela é que é a infelicidade.

No exemplo aquele da carteira perdida: eu tenho que fazer isso, tenho que fazer aquilo, você tem um monte de incomodações pela frente. Então, o pensamento do “eu tenho que fazer”, isso é o sofrimento. O sofrimento é construído dentro da mente. Se você conseguir lidar com sua mente de uma forma um pouco diferente, o sofrimento vai diminuir muito, se não desaparecer. (Final da palestra, decupada por Rachel San)     
     

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Deixe o vento soprar


Pergunta: Então, no zazen, que eu estou tentando entender, não focamos na respiração ou alguma outra coisa? Poderia me explicar um pouquinho?

Monge Genshô:  Você senta em zazen, esvazia seu pulmão, deixa uma respiração natural se instalar, conserva a postura e fica aqui. Sua mente vai querer um objeto qualquer. Cada vez que ela se focar num objeto, volte pra cá. Apenas ouça esse vento. A cada momento ele é novo. Esqueça o vento que já passou. Não espere o vento que vai vir a seguir. Fique com esse vento de agora. Só. Agora, agora, agora...qualquer elaboração mental, retorne pra cá. Não significa “não pensar”. Significa estar aqui, sentado com todos os outros, quieto. Mais nada. Não procure nada, não treine nada, não ambicione nada. Samadhi é realmente ficar aqui, de verdade. É bastante difícil.

Aluno: Mas esse “estar aqui” não está incluída a percepção da respiração, talvez, como estar percebendo o som. Mas aí não estaria então focado no som?

Monge Genshô: Não observe o som. Só ouça o som. Não é para “eu estou aqui ouvindo o som do vento”. Na verdade, você é o vento. O som do vento deve atravessar você. Entrar de um lado e sair do outro, mas sem deixar traços.

Aluno: Assim, você não está atento à experiência do som, ele surge de você?

Monge Genshô:  Deixe ele surgir e se manifestar livremente. Passar através de você. Não pense “mais forte, menos forte, vem agora, vai parar, não vai...” Não pense. Não faça isso. Só ouça. Fique aqui ouvindo. Só isso.

Aluno: E no momento que tem uma dorzinha no joelho?

 Deixe doer. Aí você se torna, digamos, um com a dor, você não nega a existência do que acontece.
Agora, se ela se tornar muito intensa, se ela incomodar, troque de posição, porque o que vai acontecer é que você vai acabar só pensando nisso, na dor e ficar esperando o sino. “Quando é que vai tocar o sino? Quando é que acaba isso?” E isso não é bom. Então, prefiro que você troque de posição, alguma dor, não é problema. Muita dor é problema. Alguma dor, algum desconforto você vai ter, porque a posição não é natural, e nem ficar parado tanto tempo é natural. Por isso, o corpo reclama.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Boas intenções


Pergunta: Mas seria negativo, por exemplo, na hora que sentamos pensarmos assim: “Aqui e agora me sento em meditação em benefício de todos os seres.” Ter uma intenção?

Monge Genshô:  Isso não é zazen. Não é que seja uma coisa ruim você fazer uma dedicação assim, mas, não é zazen. “Estou sentado em benefício de todos os seres”. “EU” estou aqui, beneficiando os “OUTROS” seres. Que sujeito maravilhoso que eu sou! Compassivo, eu sou extraordinário! Beneficiando todos os seres! Depois eu me levanto e vou comer um frango (risos).

Interessante. Isso não tem muito sentido. Então, melhor que você se esvazie. Se tiver que comer o frango, então teria que não ter nenhum pensamento de frango. Teria que ser só alimento ali, mais nada. Onde se introduzir qualquer pensamento do tipo,  “ah, este é outro ser, ah, mataram para mim, ah, como é que foi a morte dele?”, aí está tudo perdido, porque você colocou tudo ali, todos os seus conceitos, então vai ficar impossível. Esse ato só é possível quando não há pensamento. Quem realmente pensa, não pode. No sesshin, o que a gente faz? A comida não tem carne, é vegetariana, mas, se você pensa “comemos aveia de manhã”, mas quando a aveia foi cultivada, muitos seres foram mortos. Então, está cheia de sofrimento a comida que você come. Cheia. Foram colocados agrotóxicos, a terra foi arada, minhocas foram partidas ao meio, etc e tal. Tem muito sofrimento em tudo o que você faz. Então você tem que dedicar e comer, como dizemos, “inumeráveis esforços para que esse alimento chegue até nós”. Você tem que saber que é assim. Deveria ter imensa gratidão e reverência por tudo o que aconteceu para que tivesse na sua frente aquele alimento. Mas você não vai conseguir comer sem causar sofrimento, sem matar. Não vai conseguir. Disso nós temos que estar conscientes.

Nós, esses corpos, somos corpos de predadores. Nós não somos esses seres maravilhosos que nós pensamos. “Somos à imagem e semelhança de deuses.” Nós não somos. Nós somos predadores muito eficientes. Tudo que passou pela nossa frente na história da humanidade nós destruímos. Basta que surja o pensamento “diferente de mim”, e começa a destruição.

Vocês estão vendo no Iraque agora. É o mesmo povo, mesma raça, tudo igual. Mas um colocou o rótulo em si: ”eu sou sunita” e o outro: “eu sou xiita”. Então, agora é guerra civil. Na Ucrânia, a mesma coisa: “Eu sou russo, eu sou ucraniano. Nós temos línguas um pouco diferentes”. Então, guerra civil. Por quê? Porque nossa tradição é matar o diferente, acabar com o diferente. Aqui não tem nenhum índio, né? Nós só temos descendentes de europeus aqui? Há sangue de índio misturado aqui. Eu também tenho. Mas, na verdade, o que os nossos antepassados europeus fizeram foi chegar aqui e eliminar os diferentes. Foi assim. Então vejam que isso está muito impregnado dentro de nós, e para que nós nos sentemos e tiremos de dentro de nós esse “eu” que se sente diferente, separado, é um imenso trabalho. Porque nossa civilização está construída em cima do extermínio do diferente.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

"Zazen não serve para nada"

Kesa monástico, quadro de Eduardo Salinas


Pergunta: Porque usamos esse termo “meditação” quando o objetivo não é meditar?

Monge Genshô:  É, a palavra em português não reflete bem. É melhor nós dizermos “fazer zazen”, porque quando você diz meditar, parece meditar “sobre” alguma coisa, porque o verbo é transitivo direto, e não é isso que nós fazemos, nós fazemos zazen. Zazen é sem objetivo, também.

Shunryu Suzuki, perguntado sobre “para que serve o zazen”, respondeu: “Para nada”. Aí, algum aluno, esses dias, me perguntou: “Mas por que Shunryu Suzuki disse que o zazen não serve para nada? Porque nós fazemos zazen?” Eu disse: “porque ele também poderia ter respondido, e estaria certo, “zazen serve para tudo”. As duas respostas estão certas.

Zazen serve pra quê? Para nada. Se você quer obter alguma coisa com o zazen está errado. Isso já não é mais zazen. Agora, zazen serve pra tudo? Também serve para tudo, porque você poderia empregar a mente que você treina no zazen para tudo. Mas se você sentar em zazen, pensando “estou treinando para usar em tal atividade”, então não é mais zazen. É uma forma de treinamento mental. Porque tem uma ambição, um objetivo, uma mente aquisitiva, em que você pretende ser melhor que os outros, isso tudo perturba o zazen. Por isso, Shunryu Suzuki respondeu: “Zazen não serve pra nada”.

Pergunta: Monge Genshô, e o termo shikantaza, apenas sentar?

Monge Genshô: É, ele quer dizer isso, shikantaza – apenas sentar. Não tem nada mais do que isso. O que você está fazendo com o zazen? Estou sentado. É como, também, aquele mestre que perguntou para o aluno, que estava sentado: “O que você está fazendo”?  E ele disse: “Eu observo minha mente”. E o mestre perguntou: “Qual mente observa e qual mente é observada”? E, com isso, o aluno pôde experimentar um despertar. Qual mente observa? Qual mente é observada? Nós não sentamos para observar nada, porque quando você senta para observar, tem sempre um observador e um objeto observado. Então, a separação está presente, o mundo está dividido. Eu estou aqui e o objeto observado está lá. Eu observo uma coisa.  Quando você começa a contar, por exemplo, 1, 2, 3... , você está observando a contagem. Então, você usou uma âncora para parar de viajar, de pensar. É interessante. Pode conduzir a uma boa concentração. É uma técnica viável, mas não é shikantaza. Não é zazen.  Na verdade, é aritmética (risos).

 Isso é bem importante, porque em muitos lugares se ensina meditação de observação. Essa meditação de observação cinde o mundo, cria dualidade, pode ser preparatória para o zazen.  Porque eu estou aqui, não há um abandono do eu. Nós estamos sentados, sentamos em zazen para nada. Volte pra cá, para o momento presente. Nem passado, nem futuro. Não cogite, não julgue, não fique elaborando, porque essas todas são as funções do eu. O eu é que faz isso.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O budismo está vivo

Foto de Mauricio Hondaku

Pergunta: Estamos falando do Zen japonês, não?

Monge Genshô: Sim. Nós estamos falando em Zen, e Zen é uma a palavra japonesa. Existe zen em outros países mas com nomes locais, Ch’an,  Son, Thien. Mas isso, em relação a casamento só acontece no Japão porque, em 1872, houve um édito imperial que ordenou aos monges budistas de todas as ordens que casassem. Na realidade, a intenção do império japonês era enfraquecer o budismo, para fortalecer o Xintoísmo, que era uma religião nacional. Era um movimento nacionalista e militarista do Japão, que acabou redundando primeiro em vitórias como a que houve contra a Rússia, por exemplo, em 1905, na guerra russo-japonesa. Depois, na invasão da China, na Manchúria, e acabou culminando na sua aventura militar contra os Estados Unidos. Tornaram-se aliados do eixo, da Itália e da Alemanha, na 2ª Guerra Mundial, e acabaram com uma derrota fragorosa.

Antes deste período, durante 250 anos o Japão ficou isolado, pacífico. Não empreendeu nenhuma guerra, não se militarizou, não invadiu ninguém. Foi um grande período de prestígio do Zen, porque ele estava sob o governo de samurais, do Xogum. Embora eles fossem guerreiros, eles estavam impregnados da filosofia do Zen. E isso redundou num imenso pacifismo e num treinamento de toda a população japonesa num outro padrão de educação, porque o Japão estava longe de ter a educação que tem hoje, no período anterior. Antes desse período ele viveu guerras civis violentas, assaltantes nas estradas, roubos, era um país em convulsão constante. A unificação do Japão ocorre por volta de 1600 e inicia esse período, que é o período “Tokugawa” – período de domínio dos Xogum. Depois de 1868, vocês viram que o edito ordenando aos monges para que se casassem, de 1872, era uma tentativa de desmoralizar a instituição monástica budista, perante a população. Na verdade, é um desses tiros pela culatra. Não deu muito certo. É como se hoje o Papa resolvesse reformar o celibato católico e dissesse aos padres que poderiam se casar. Talvez nós tivéssemos uma grande revolução no catolicismo, através do surgimento de muitas vocações religiosas, não é?  E, talvez isso, em vez de ser uma fraqueza, como aconteceu com o Zen, acabasse sendo uma fortaleza. Poderia acontecer.

Na realidade, houve uma tentativa de desprestígio do budismo, através dessa ordem para os monges. Mas, agora nós temos aqui  exemplos. Eu sou casado, o monge Tokushi é casado, o postulante a monge Daitetsu San é casado. E aí o florescimento fica mais fácil, bem mais fácil. Essa é uma consideração, vamos dizer assim, organizacional. Mas, também mostra um fato, que eu estou repetindo sempre, de que o budismo é vivo. Ele não é uma coisa morta, congelada em ensinamentos de 2600 anos atrás. Sempre que alguém vem e me diz assim,  “ah, os quatro elementos, o ar, a terra, a água, o fogo, não é... e a vacuidade...”  Quando alguém diz isso, eu sempre penso: “isso ainda é atraso no budismo”. Porque nós já passamos há muito tempo desse tipo de concepção do universo. Pode ter uma vantagem simbólica para narrações, um sentido alquímico, mas nós temos a tabela periódica dos elementos, hoje. Podemos achar outras imagens. Eu nunca uso esse tipo de teoria de dois milênios atrás como forma de ensinar, porque acho que, na realidade, não ajuda mais. Não adianta nós falarmos em astrologia, ou alquimia, ou coisas assim. Isso não ajuda. É melhor nós olharmos o conhecimento moderno e adaptarmos ao budismo. E o budismo está vivo o suficiente para lidar com tudo.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Monges zen e casamento



Quadro de Eduardo Salinas
Pergunta: Monge, o senhor pode falar um pouco sobre o contexto da fala de Buda que diz sobre o abandono da família?

Monge Genshô: Ela perguntou sobre Shukke Tokudo, que é a ordenação de Monge. Então, Buda deixou sua família – mulher, filho – e foi pra floresta praticar. E, nos primeiros tempos, a tradição sempre foi os monges deixarem o lar e seguirem apenas o caminho monástico. Isso durou milênios na realidade. Os Monges Zen japoneses casam-se desde 1872, ou seja, é um acontecimento recente na história do Zen. Mas, como eu já expliquei numa palestra anterior que foi publicada, o vinaya indiano, que são as primeiras regras do tempo de Buda, foram abandonadas pelo Zen já por volta do ano 720 d.C.

Pai-Chang, na China, adaptou as regras para um outro contexto. Na Índia e no sul da Ásia, mendigar sua própria comida era uma coisa admissível. Mas, na China, isso não era admissível. Nos países frios, coisas assim, ter um contingente de pessoas vivendo de mendicância, não era uma boa ideia, de modo que Pai-Chang escreveu novas regras, e essas regras já têm 1400 anos para o zen. Essas regras enfatizam o trabalho. Pai-Chang disse: “Dia sem trabalho, dia sem comida”, de modo que os Monges foram morar em monastérios, cultivavam a terra, e produziam sua própria comida.

Assim, aparecem duas perspectivas diferentes. Uma perspectiva diz: “Ah, os monges deixaram de depender da sangha, e isso os tornou independentes”. Então, a distância entre o monge e a sangha aumentou, porque antes, se a sangha não sustentasse o monge, ele morria de fome, mas ele estava sempre disponível para ajudar a sangha em tudo, ele não tinha outras obrigações. Isso é uma crítica. A outra perspectiva é “ah, mas isso deu força ao Zen”, certa independência dos monastérios. Os monastérios conseguiram sobreviver bem às perseguições e tudo mais, porque podiam se isolar, podiam viver em comunidade, sem depender do mundo externo. Então, essa distância lhes deu força de sobrevivência, e isso levou o Zen a chegar ao ponto de ter 5 milhões de monges na China, numa época em que a China não tinha 50 milhões de habitantes.

Era tanta gente, que o Império resolveu acabar com essa brincadeira, porque entendeu que os homens iam para o monastério para ser monges e escapar do serviço militar. Então, aconteceram grandes perseguições e destruições. Três grandes perseguições ao budismo aconteceram dentro da China, por causa dessa questão. Mas, nessa época ainda, os monges viviam isolados, longe de suas famílias.

Nós estamos vivendo  os últimos dois séculos – o século passado e esse – que é uma outra época para o budismo, em que os monges zen japoneses são, em certa medida, leigos, porque casam, trabalham, etc, não dependem da sangha para viver. Mas, de outro lado, isso facilitou muito a geração de monges, e trouxe para uma classe sacerdotal no Zen, uma plêiade de leigos de alta qualidade, que daí então, com sua dedicação, conseguem fazer o budismo progredir. Isso deu ao Zen uma possibilidade muito maior de expansão no Ocidente.  Isso pode ser olhado tanto como decadência, como com adaptação e flexibilidade a novos tempos, porque os sacerdotes casados do Zen deram a este uma força diferente. O que está sendo atingido por isso é só o formato institucional. Se alguém quiser ser um monge celibatário hoje, ele pode fazer isso também. Já tivemos grandes exemplos no século XX mesmo, grandes monges celibatários, que passaram sua vida asceticamente somente trabalhando, vivendo na pobreza, sem casa, como Kodo Sawaki, o mestre sem lar e sem templo, muito conhecido no século XX e muito influente. Então, esse caminho ainda subsiste dentro do Zen.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Não tem importância


Pergunta: Porque que o círculo do Zen, aquele símbolo, não fecha?

Monge Genshô: Pois é. Porque que o “ensô” às vezes não fecha? Porque ele tem uma abertura, ele tem uma liberdade, também. Tudo está contido, mas também não está limitado. Então, tem muitas coisas para nós olharmos nisso.

Pergunta: Monge, quando as pessoas acordam, fisiologicamente, nem todas acordam de uma vez. Eu por exemplo sou preguiçoso, acordo, durmo de novo, acordo...o despertar pode ser assim também? Num dado momento, perde-se a carteira...eu posso falar assim: “eu posso perder a carteira”. E num outro momento, eu desesperar pela perda da carteira?

Monge Genshô: Pode.  Tanto nós podemos crescer, evoluir, ter clareza, como podemos ter momentos de obscuridade. Isso acontece com todos os praticantes. Então, o primeiro estágio, na realidade, de realização espiritual é a compreensão, “Ah, eu compreendi, claramente, que é um jogo. Eu sei que tem que resolver, mas ainda assim, eu caio nas emoções. Eu sei que é bobagem, eu sei que é orgulho meu, eu sei que é vaidade ou qualquer coisa assim, e aí alguém diz alguma coisa que me incomoda e eu reajo.” Depois eu digo: “Como? Como, se eu sei que esse é um sentimento tão tolo? Como é que eu reajo assim? Como minha prática é ruim”! É o que você pensa. Mas, na realidade, o seu professor diz: “Ah, você vai muito bem! Você entendeu isso! Você está entendendo”. E continua tropeçando. Continua errando. Isso é bem característico do quarto passo, no caminho do texto dos “dez passos do boi”. Essa é a decepção do praticante consigo mesmo. Isso dura até o sexto passo.

Agora, quando você chegar a um ponto em que realmente os acontecimentos que fariam você se perturbar não chegam mais a balançar você, então ocorreu um grande progresso. E existem níveis mais altos ainda. Existem níveis de realização espiritual em que você vê na pessoa, nos pequenos gestos da pessoa, sua realização espiritual. Como anda, como come, como fala. Está tudo ali. Alguns praticantes se encantam com o lado da forma no Zen. É bem característico também nos monges,  não são diferentes de praticantes leigos. Apenas fizeram votos a mais. Só isso. Não são seres extraordinários.

Mas há alguns que, como falta alguma coisa a nível de realização espiritual, passam a se concentrar na forma, porque a forma é mais fácil. Acenda a vela assim, ande desta forma, olhe assim, faça esse gesto desta maneira, etc. Então, tornam-se especialistas na forma, porque falta algo mais. Não conseguem fazer outra coisa, então a forma torna-se tudo. O que é preciso, na verdade, é um equilíbrio. A forma mostra muita coisa, mas o excesso da forma mostra outra coisa. A frase que eu mais ouvi de Saikawa Roshi, no início, quando eu estava praticando com ele e fazia coisas erradas e, depois, chegava para ele e dizia assim: “Mestre, eu queria lhe pedir desculpas pelos meus erros”. Ele olhava para mim, ria e dizia: “Não tem importância”.  E não tem mesmo importância. Eu ouvi tantas vezes “não tem importância”, que adotei o “não tem importância”. Então, eu sempre digo para vocês, “ah, não tem importância, a gente corrige, não tem importância”.

Tenho dez erros. Quantos a gente corrige? Corrige dois. Não corrija mais. Não corrija muito, porque se corrigir muito, a forma vai esconder a verdade. Você tem que deixar os alunos errando. Porque quando você olha o erro, você percebe quantas coisas tem naquele erro. Quanto tem? Quanto tem na voz, quando está recitando? Porque? Como é cada detalhe da atitude?  Se você corrige tudo, haverá um disfarce. Você diz: “Ah, os alunos devem andar sempre em shashu dentro da sala de Buda. Aí você dá a instrução, depois, você observa. De vez em quando, alguém esquece e anda balançando os braços. Aí, você não diz nada. Porque isso é um excelente termômetro.  Se você disser muito, você não vai ver mais. Porque debaixo da casca da forma, vai estar ainda fervendo a distração. A mente turbulenta vai estar lá. Não vai estar manifestada, porque ficou muito bem escondida, através de uma forma muito treinada, muito policiada. Nós temos que ter essa visão de caminho do meio nestas questões.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Qual é o problema? Não há problema


Pergunta: - Monge Genshô, essa questão de que todos já são Budas, todos já estão iluminados, se está sentado em zazen, já é um iluminado, etc, É como a analogia de que todo mundo aqui está nu, mas está com a roupa por cima. Então, ou seja, é uma coisa que está dentro da gente, mas tem alguma coisa sufocando, que tem que ser perdida. Essa analogia é válida para esse caso?

Monge Genshô: Todas as analogias têm limites. Quando a gente diz “todos já são Budas”, na realidade nós queremos dizer que todos já são Budas “em potencial”. Não são Budas mesmo. Estão se manifestando como Budas, nesse instante. Então, num certo olhar, nós podemos dizer que “sentar-se é iluminação”. Mas, do outro lado, também não é ainda a iluminação.

Aluno: Mas teria que acender alguma coisa? Teria que tirar alguma coisa?

Monge Genshô: Na verdade, não tem que tirar nem tem que colocar nada. É apenas uma mudança de perspectiva. É como encontrar a carteira perdida. Ela sempre esteve ali dentro do carro, escondida em baixo da mochila da Rachel. Ela estava lá. Todo tempo. Ninguém sabia que estava lá. Então, todos os motivos para preocupação, incômodo e tudo mais estavam só na mente. No momento que você encontrou a carteira perdida é um momento de acordar. Acordou de um sonho. Os sonhos todos construídos, todos os telefonemas, todas as burocracias, todas as coisas. Todos os prejuízos que estavam implícitos se dissolveram instantaneamente.

Então, nós só não estamos iluminados porque não enxergamos o que é a iluminação em si. Porque estamos jogados dentro de um sonho e acreditando no sonho. Acreditando no sonho do eu, acreditando no sonho dessa vida, com medo de morrer, com medo de perder seres amados, com todas as implicações decorrentes do existir. Nós estamos ali. Se nós acharmos o que estava perdido, é instantâneo. Então, a iluminação, o despertar é um processo instantâneo. Quando você acorda, aqueles problemas que pareciam problemas não são problemas. Mesmo no episódio que eu contei. É o mesmo problema, os problemas continuavam exatamente os mesmos, o que mudou foi que, sentado no zafu, eu percebi que eu posso perder tudo. Qual é o problema? Não há problema.

É como o mestre que estava numa cidade que foi invadida por um exército, e um general entra no templo e fica indignado porque ele não tem medo. Está só sentado lá em zazen, quando o mundo todo está pegando fogo e pergunta para ele, com a espada suja de sangue: “Você não vê que eu posso matá-lo nesse instante”?  E o mestre responde: “E você não vê que eu posso morrer nesse instante”? Eu posso morrer nesse instante. Grande coisa, que você pode me matar nesse instante! Grande coisa! Então, essa visão, essa perspectiva é a perspectiva da iluminação. Aquilo que é problema, não parece problema. É só isso. Por isso, toda agitação e angústia podem se dissolver, se tem problema, passado algum tempo, ele estará resolvido. É questão de tempo, e se não estiver resolvido, se for uma questão de doença por exemplo, não se resolverá, tenho uma doença que não tem jeito, aí eu morro. É, morro, sim, morro. Tá certo. Grandes problemas dos apegos que eu tenho. Não tem problema. Os apegos também se dissolverão. “Ah, se eu for embora o que será da minha família”? Todas as famílias sempre sobreviveram à morte dos entes queridos. Morre e aí continua. A família continua. Pode ser diferente? Pode. Você é que olha de uma perspectiva que faz as coisas diferentes do que elas realmente são. E, por isso, bastaria andar passo a passo.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Eu POSSO perder tudo

Quadro de Eduardo Salinas

 (continuação)
Muitos anos atrás, eu estava numa empresa e era sócio minoritário, tinha uma pequena parte de uma empresa, para a qual eu fui convidado por um proprietário que tinha outras fábricas. Isso foi no Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul. E, resumindo a história, num belo dia, nós estávamos exportando e eu fui no Banco do Brasil para receber um contrato de câmbio, e fui informado que o proprietário das empresas tinha retirado todo o dinheiro no exterior, na Alemanha, e nos deixado sem as receitas das exportações que tínhamos feito. De repente, eu entendi que tinha sido um grande golpe, um grande desfalque. Ele estava mal e resolveu receber todo o dinheiro dos contratos de câmbio e ficar no seu país de origem, na Alemanha. Eu perguntei a um advogado o que eu poderia fazer e ele disse que até que nós conseguíssemos resolver, conseguíssemos eventualmente receber alguma coisa desse desfalque, tudo já teria quebrado aqui, que não valeria a pena e a expressão usada por ele foi “colocar dinheiro bom em cima de dinheiro ruim”. Você vai gastar dinheiro e não vai obter nada.

Então, simplificando, eu era avalista da empresa e, naquele momento, vi que perderia tudo: nome, crédito, empresa, tudo que tinha sido construído durante alguns anos. Eu voltei pra casa pensando: “Bom, desabou tudo. Tudo que eu construí, como diretor de indústrias, etc e tal, se desfez agora, porque eu vou ser conhecido como alguém que estava numa empresa que faliu”. Até que você explique que seu sócio fez um grande desfalque, isso não soluciona nada. Então, fui dirigindo até que cheguei em casa e pensei: “o que eu posso fazer se eu vou perder tudo, meus bens, minha casa, tudo mais? Como eu vou explicar isso? Então, eu fui até o meu quarto e tinha um zafu. Aí eu peguei o zafu (almofada de meditação), fechei a porta do quarto, coloquei o zafu no chão... é, não tem solução ... então me sentei em zazen. Isso foi na década de 80, faz mais de 30 anos. Sentei no zafu e olhei para porta fechada. E não levou muito tempo. De repente, eu percebi uma coisa muito simples: eu vou perder tudo, mas eu POSSO perder tudo. Eu tenho a capacidade de perder tudo. Essa simples idéia “eu posso perder tudo e eu posso construir tudo também. Eu sou livre, sou completamente livre para perder tudo. Eu posso perder tudo: carro, casa, nome, crédito, qualquer coisa. Eu sou livre para perder”. Aí, me levantei do zafu, entrei no carro e voltei para o Vale dos Sinos. Falei com cada um dos credores da empresa e passo a passo, comecei vendendo estoques, devolvendo máquinas, etc., fazendo uma coisa depois da outra. Eu resolvi tudo. Consegui resolver absolutamente tudo. E isso aconteceu porque eu pensei “Sim, eu posso perder tudo. Eu tenho condição de perder tudo”.

É mais ou menos como perder a carteira com todos os documentos. O que que você tem que fazer? Passo a passo, fazer cada documento de novo. Só isso. Ligar, bloquear, etc. Fazer tudo de novo, passo a passo. Tudo você conseguirá. É como morrer, também. Receber uma notícia de que tem uma doença terminal. “Ah, eu sei que vou morrer”. Como eu contei ontem, daquela aluna que veio aqui em janeiro, aqui em Florianópolis e falou comigo: “Monge, eu vou morrer esse ano. É a terceira reincidência e eu sei que eu vou morrer. O que que eu faço”? Simples, vamos preparar para morrer. Vamos nos sentar em zazen e nos preparar para ter uma boa mente para morrer. Não é tão complicado. É passo a passo, simplesmente continuar andando para a frente, porque se você andar para a frente, dez trilhões de léguas, encontrará a si mesmo, no mesmo lugar. Nós temos a capacidade de encontrarmos a nós mesmos, além dos sonhos e dos jogos todos da vida. Só ir andando e resolvendo as coisas à medida  que aparecem.

É como no sesshin. Eu estou fazendo zazen, está difícil fazer esse zazen, está doendo a minha perna. Está bem. Depois tem kinhin. Posso esperar pelo kinhin, aí, relaxo. Então, zazen de novo. E basta fazer um zazen de cada vez. É só esse. Só mais esse. E, agora, mais outro. Depois, mais outro. Depois, o outro dia. Só isso. Nenhum dos seres que estão aí fora fica olhando no calendário. Os pássaros, os peixes, as plantas, eles não olham no calendário. Eles vivem um dia de cada vez. Então, a única coisa que nós precisamos fazer é dar um passo.

Meu grande problema, no evento que eu contei para vocês, foi toda a imaginação. Tudo o que eu imaginei, naquele trajeto até Porto Alegre, dirigindo e pensando “vou perder tudo”, foi horrível. Me lembro até hoje. Mas, depois que eu vi que tinha capacidade de perder tudo, então, pude voltar e resolver tudo. E também todos os problemas se dissolveram na minha frente.