segunda-feira, 2 de março de 2015

A rara transmissão



Pergunta: O senhor falou do filme Zen. Nele, Dogen sai procurando um mestre. A pergunta é,  eu que não sou discípulo do senhor, estou aqui aprendendo, a gente precisa de alguma maneira sentir isso aqui dentro, sentir uma conexão?

Monge Genshô: Você precisa sentir que tem uma conexão real com o mestre, com a linhagem, com aquela maneira de praticar. Ou então permaneça como aluno. Isto é tão delicado que se nós prestarmos atenção, em grandes mestres como Bodhidarma, ele, por exemplo, deu transmissão para meia dúzia de discípulos, uma mulher e cinco homens. E o que ficou na nossa linhagem, o que prosseguiu mesmo, foi Taisô Eka, aquele que cortou o braço. Muitos mestres não conseguiram nenhum  discípulo. Tiveram alunos mas não conseguiram levar um discípulo a um ponto em que dissesse "esse discípulo tem a minha mente, eu vou dar a transmissão para ele". Isso é realmente difícil, se o mestre for sério não dará facilmente a transmissão

 Nós podemos alinhar muitos exemplos assim. Então, as vezes alguém diz que o Zen é elitista. É uma característica do treinamento do Zen e da própria forma como o Zen é a seletividade na transmissão. Temos que entender historicamente o que é o Zen. Quando o Zen chegou com Bodhidharma na China, o Zen já existia há 500 anos. Então mestres como Bodhidharma queriam pinçar alguns alunos especiais e dar a eles a transmissão, para que eles continuassem aquele ensinamento. Mas esse pinçar era muito exigente, tanto que Bodhidarma não aceitou nenhum aluno durante 9 anos. Ninguém que chegou ele achou que valia a pena.

De grandes mestres como Unmon, a linhagem desapareceu. Dos 5 grandes alunos de Hui-Neng, (nós descendemos de SĒI·GĒN GYŌ·SHĬ), só dois discípulos geraram escolas que sobrevivem até hoje. Os outros três geraram escolas, mas estas desapareceram, mesmo que nós tenhamos escritos de Unmon maravilhosos. Sabemos que a transmissão não prosseguiu, que não existe uma linhagem sobrevivente. Por isso a linhagem é tão preciosa, é uma coisa tão valorizada no Zen. Então, quando se chegava na China, todo o país era budista. Mas quem é que estava recebendo a transmissão? Meia dúzia de discípulos do mestre tal, na montanha tal. Meia dúzia de outro mestre e assim por diante. O grupo total dos que receberam a transmissão dos mestres é muito restrito. É isso que é o Zen. Então, o Zen não tem a condição de ser propriamente popular. E não existe nenhuma restrição para um leigo atingir a iluminação, não é isso. Não é porque é monge, que vai atingir a iluminação. Como disse, monge é só outra forma de praticar. Entre os leigos, temos muitos exemplos de pessoas que atingiram a iluminação. Agora, para que não fiquemos pensando que a iluminação é, "cheguei e pronto", a iluminação tem enorme gradação de profundidade.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A conduta do discípulo


É completamente diferente a relação de discípulo com mestre. É próxima.

Sento na frente do meu mestre e ele diz: "Ah, eu vou à Cuba, (visitar a comunidade budista) você quer ir junto comigo à Cuba?", eu digo, "é claro, eu quero." Depois meu mestre vem e diz: "ah desisti de ir à Cuba", e eu digo: "sim senhor", e ele: "quem sabe você não vai sozinho?". E eu na frente dele: "sozinho? Ele: “É, aham". O que vou fazer? Não posso discutir com ele, não tem discussão. Discípulo é alguém que vai seguir um caminho porque quer chegar naquilo que o seu mestre tem para ensinar. É outra coisa.

Então tem três qualidades para o discípulo: silente, não resistente e obediente. Você tem que aceitar, silente, não resistente e obediente. Não dá para o mestre ficar lutando com o aluno para convencê-lo de alguma coisa.

Alguém já estudou música? Oh, tem um bocado de músicos! Qual instrumento? Só teoria? Vários? Quando eu era jovem tocava violino. Lembro que estava com um professor chamado Frederico Richter, ele disse que em um trecho de um concerto tinha que tocar determinado dedilhado. E eu perguntei: "mas esse outro dedilhado aqui não fica mais fácil? Ele parou um pouquinho e disse: "quando você for um virtuose, você toca do jeito que você quiser, mas enquanto estiver aprendendo comigo, faz o que estou falando, entendeu"? Recém está começando e quer achar que tem uma solução melhor que a que o professor  está ensinando...

Essa lição nunca saiu da minha cabeça. "A postura é essa, faça essa curvatura lombar". Já me aconteceu de chegar um rapaz e dizer: "acho que minha mão esquerda tem que ficar embaixo da direita pois sou canhoto". Não há condições de ficar discutindo cada detalhe. "Não gostei dessa posição." Você recém chegou, tem que esperar, daqui a quarenta anos você inventa alguma coisa nova, mas agora, não. Mas o que acontece com aqueles que passaram quarenta anos treinando? Eles não discutem mais. "Por que tem que limpar o prato com o pão se depois vai ser lavado?" Não é assunto para ser discutido. Professor disse que é assim, limpe o prato com o pão e coma o pão.

Quando a gente come com oryoki, a gente lava o oryoki com  água quente no final, passando de uma tigela para outra e depois, bebe. "Mas vou beber a água que lavei a tigela?" Só beba, não pergunte nada. Depois você vai descobrir, vai olhar e dizer: "eu comi e de tudo que comi, não sobrou nada, não foi nada para o lixo, nada foi poluir a natureza". Se todo mundo comesse assim, como seria? Seria completamente diferente. Isto são as questões da prática, da relação com o mestre e da questão da prática que é a iluminação. Quando vocês ouvirem "a prática é a iluminação", está certo, mas não confundam: a prática não é a iluminação. (Final da palestra de Monge Genshô, abre para perguntas)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Aluno não é discípulo





Retornando, nós temos um engano a respeito de "a prática é a iluminação". Isso é uma maneira de ensinar para desarmar aquele objetivo egóico. Mas na verdade, a prática é um meio e não é a iluminação, pois você pode ser muito bom praticante formalmente e não ter iluminação nenhuma. Às vezes a gente vê monges e ou praticantes e você pensa, "ah, ele tem tal graduação, chegou a tal ponto, está treinando há vinte anos". Aí ele grita com raiva ou ri das pessoas quando erram, ou qualquer coisa assim. Lhe falta uma qualidade compassiva. Na verdade, faltou algo. Porque a iluminação não é assim. Nós deveríamos procurar quem possa nos guiar no caminho do despertar. Então mestres de iluminação são raros. Nós temos que procurar denodadamente.

Quem viu aquele filme "Zen", sobre a história de Dogen? Lembram que ele vai à China procurando mestres e quantas vezes ele se desilude, a tal ponto de pensar em  desistir? Até que ele encontra aquele que nós recitamos o nome hoje, Tendô Nyojo, e ele vê em Tendô Nyojo um mestre que pode conduzi-lo. Ele fica com ele por cinco anos praticando. Mas ele já praticava desde os doze anos de idade, já era monge desde os doze anos de idade. Naquela época podia-se entrar num mosteiro muito cedo, um órfão como ele era. O problema não mudou, pois em mil duzentos e tanto Dogen já sentia isto e escrevia: “que lamentável que os monges de hoje não sejam como os antigos, que os mestre não sejam como os mestres de outrora". E lamenta a pobreza espiritual das pessoas que ele encontra.

Na verdade, essa é uma queixa de sempre. Sempre foi assim e continua sendo hoje. Nós temos que olhar com cuidado. Há um ditado do budismo tibetano "examine seu mestre por oito anos antes de aceitá-lo". Observe-o durante oito anos e depois de oito anos: "ah sim, vou aceitar este como meu mestre, eu realmente quero aceitar". É interessante falar um pouquinho sobre a diferença entre aluno e discípulo. Aluno não é problema, nesse momento todos vocês são meus alunos. Todo mundo sentou aqui e aceitou ouvir uma aula, não é? Então todo mundo é aluno e eu neste momento, professor. Explico, vocês aceitam. Você pode sair e dizer: "ah gostei disso, não gostei daquilo outro, não concordei com aquilo", não tem problema nenhum, você é aluno, vem eventualmente às palestras e só. Não há nenhum compromisso ou vínculo especial.

Mas discípulo é outra coisa.

Quando alguém diz: "eu queria que o senhor fosse meu mestre", eu entendo: "você está pedindo para ser meu discípulo". É uma relação mais próxima. Quer dizer o que? O aluno me acompanhará, estará sob a minha orientação constante, e o que eu disser não será discutido.  Se eu disser "esse chão é de madeira", você tem que olhar para o chão e dizer: "ele diz que é de madeira. Então minha concepção de cerâmica está errada. Cerâmica é madeira. Por quê ele disse que cerâmica é madeira? Vou ter que entender isso”. Mas não há uma contestação. Tem um "eu é que devo estar enganado, então vou pensar a respeito". Aí daqui a dois anos, se eu entender porquê cerâmica é madeira, digo: "ah, muito obrigado por ter me ensinado aquilo".

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A cegueira de recusar os rituais



Às vezes a gente se distrai e erra. A gente cria regras, você entra sempre com o pé esquerdo, sai sempre com o pé direito do zendô. Por quê? O que está por trás disso?

Aluna: A pilastra, mais afastada, mais próxima da imagem central.

Monge Genshô: É, você pode fazer assim. É até uma regra mais sofisticada. Do lado esquerdo da porta entra com o pé esquerdo, se estiver do direito, entra com o pé direito, mas aí já vai complicar muito. Quando você vai num monastério aí aparece esse tipo de regra. A porta é bem grande, se faz uma regra assim...  mas a regra é para prestar atenção. Mas há um espírito em entrar com o pé esquerdo e sair com o direito, por quê?

Aluna: A Rachel nos orientou, lá em Goiânia, a gente sai com a razão e entra com o coração.

Monge Genshô: Não, não valeu. Porque ela disse o que eu disse e você disse o que ela disse.

Aluna: Mas a gente perguntou e ela explicou...

Monge Genshô: Sim está certo, é isso mesmo, mas não valeu porque tinha que ser alguém que chegasse lá sem a explicação. Uma explicação possível é essa que a Rachel deu. Nós entramos com a intuição, pois aquele é um espaço intuitivo. E quando você sai, sai para esse mundo de fora que é o mundo da razão, raciocinado, dual, não intuitivo.

Só que o ritual tem essas coisas dentro dele que o aluno tem que descobrir sozinho. Até quando a gente explica, rouba a oportunidade de ter um insight, pois já deu uma solução pronta para ele. Então vocês tinham que pensar "porque giramos sempre no sentido horário. Por que o ombro direito tem que ficar voltado para o centro?" Vocês têm que ter insight a esse respeito, não é repetir como papagaios o ritual. O ritual dentro dele tem uma linguagem que é a linguagem do inconsciente. Nós não sonhamos com símbolos?

O ritual é como se houvesse um sonho e recebesse símbolos. Você tem que entendê-lo não com sua mente consciente raciocinada, mas dando um salto intuitivo. Se você der esse salto, você tem uma lição importante para você mesmo. Então nós temos que olhar o ritual com outros olhos. Ele não existe por si mesmo, solto no espaço, sem significado. Um bom ritual tem significados simbólicos e fala ao inconsciente, porque é a linguagem do inconsciente. Por isso fazemos ritos e cerimônias. Quando as pessoas dizem, "eu não gosto de ritual", na verdade eles não sabem o que estão falando.

Como expliquei para um rapaz esses dias, ele disse: "eu não gosto de rituais" e eu disse: "não é verdade, porque você entrou aqui nessa sala e me estendeu a mão. Eu apertei sua mão. Se eu tivesse ignorado sua mão você ficaria ofendido, não?" Estender apertar a mão de alguém é um ritual que significa, "eu estou desarmado", pois se pegava a espada com a mão direita. Quando se passou a estender a mão para cumprimentar, passou a significar: "Não vou pegar a espada. Venho em paz". Por isso que apertamos as mãos, só que todo mundo já esqueceu. Apertam as mãos como uma convenção, não sabem o que estão fazendo. Não é verdade que você não gosta de rituais, você pratica rituais sua vida inteira e até se incomoda quando os outros não participam dos rituais que você está habituado.

Agora, quando nós aprendemos outros rituais, outros códigos, estamos acessando outras fontes de conhecimento, não podemos esquecer disso. Isso é sofisticado, não é um simples "eu não entendi, então não serve, não presta". "Aquilo que não conheço, que não é da minha cultura, não presta". Isso é cegueira.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Sou como você, vivo errando



(continuação)
Monge Genshô: Sim, no escotismo é assim, os militares também fazem isso, vão colocando todos os seus cursos. Já fui militar, quando você ganha uma estrela, é promovido, o que você faz de noite é já costurar a estrela pois no outro dia de manhã já vai aparecer. Ele pensa: passei de segundo tenente para primeiro tenente, vou botar a segunda estrela, amanhã de manhã todo segundo tenente vai ter que bater continência para mim.

É lógico, dentro da estrutura militar está tudo bem, é compreensível. Mas dentro do Zen você tem que se segurar. Eu recebi a transmissão em janeiro de 2011, sendo que logo depois que você recebe pode mudar de cor (do manto), não precisa mais usar preto, pode usar de marrom a até amarelo. Então fiquei hesitando. Demorou um ano até conseguir me dispor a usar a cor, até ganhar de presente um rakusu, um monge mandar um manto marrom para mim etc. Tem que ser o contrário do que é no exército. Tem que ser quando os alunos começam a cobrar de você. Os alunos é que querem chamar você de Sensei.

Tem que ser diferente, a atitude mental tem que ser diversa. Mas o que estava falando era da doutrina de "a prática é a iluminação", não preciso demandar iluminação porque a prática já é iluminação. Então tenho que ir lá e colocar bem o incenso, tenho que fazer bem o gasshô, mostrar uma forma. Acontece que a forma perfeita pode ser treinada. Você pode ser uma excelente marionete da forma e um maravilhoso cerimonialista. Pode ser muito orgulhoso de ser cerimonialista, fazer bem ritos e cerimônias, mas ... É mais ou menos como no karatê, ser um excelente executor de kata, um bailarino. Faz a forma do karatê muito bem, maravilhoso. Mas nunca faz kumite (luta). "Perigoso me machucar". Então karatê só de forma? Não tem uma verdade dentro dele. Não é a verdade que está dentro dele, é só  a imitação da forma, uma coisa que não tem dentro de si o verdadeiro espírito original.

Queria dizer que o espírito original do Zen é procurar a iluminação mesmo. Todos os meus alunos têm que procurar a iluminação. Se não, estão treinando para quê? Para fazer forma bonita? Não me importo com forma. Mas, claro, vocês me vêem cobrando a forma, mas quando a pessoa faz um pouco errado não tem importância. Quando a pessoa erra, dá um sorriso, porque ela sabe "ai, errei", sorrio de volta porque quero dizer "eu também sou assim como você" vivo errando.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Zen, uma escola instantaneísta



Palestra Zazenkai Brasília – sábado a tarde
Novembro de 2014
Monge Genshô


Queria conversar com vocês sobre uma tendência, que existe em parte do Zen moderno, que é de desconsiderar a iluminação. Primeiro, acho que isso é uma coisa que existe dentro do budismo há muito tempo, como falamos hoje de manhã, sobre escolas que desistiram da iluminação nessa vida. Mas o Zen não. O Zen tem a idéia de que a iluminação é possível agora, nesse instante e por isso as escolas que têm essa posição chamam-se “escolas instantaneístas”. Existem escolas que propõem um caminho rápido, como dizer que em sete vidas, você conseguirá a iluminação. No Zen a proposta é agora mesmo, nesta vida.

 Outras dizem, "nessa vida impossível”. Vamos praticar para renascer em condições mais favoráveis.  Muitas vezes a gente brinca no Zen, "estou desistindo daqui, quero ir logo para a terra pura porque aqui não dá". Mas nós não estamos na terra pura.

E existem as escolas instantaneístas, que são as escolas como a Rinzai, a escola Soto do budismo Zen que dizem: "Não, nada mudou, nós somos como Buda. Temos corpos como Buda. Se Buda foi capaz de acordar, nós somos capazes de acordar, agora." Trata-se de treinar adequadamente, de realmente procurar denodadamente a iluminação. Mas dentro do próprio Zen, apareceu um movimento que eu diria que é um pouco conformista. Ele diz assim: "a prática é a iluminação". É uma frase de Dogen. Só que na  interpretação de minha linhagem, o que Dogen quis dizer foi que quando você já está praticando, não tem que sair procurando a iluminação.

Quando você senta “ambicionando” a iluminação, a iluminação torna-se impossível, porque tem a ambição de se iluminar e, portanto, de ser melhor do que os outros, obter uma coisa que os outros não conseguiram. Enfim, é um sofisticado materialismo,  o chamado materialismo espiritual. Quero uma coisa para mim, uma jóia que os outros não têm, quero a iluminação. Estou praticando para obter isso. Como  estou praticando para obter algo, então esta ambição é uma ambição egóica. É para mim, para o meu eu.

Por isso, é tão importante o aluno sentar e desistir de si mesmo. Praticar sem objetivo. Eihei Dogen insistiu nesse ponto, ele disse assim: "quando você senta, já é a iluminação". Isto é, a prática É a iluminação. Entendam que isto é um meio hábil, um truque de linguagem para dizer, "pare de ser ambicioso". Porque na verdade a pessoa tem que sentar e praticar, se dedicar a todos os outros seres e não a si mesmo. Então você tem que sentar sem o orgulho de querer sentar bem, sem querer mostrar que você é melhor praticante que os outros, sem querer usar uma roupa que o distinga dos outros. Ou fazer rituais com perfeição para os outros verem.Tem que desarmar essas ambições. Se não nós vamos acabar virando um “Zen ostentação”. Vão fazer rakusus bordados de ouro, com fio dourado, colocar pedrinhas, condecorações no rakusu.  (continua)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Para os que usufruem deste blog



VIAGEM AO JAPÃO DO MONGE GENSHÔ
O treinamento monástico é um importante período de desenvolvimento espiritual e pessoal, mas é, principalmente, um período de tempo e esforço dedicados à Sangha. Com os estudos e treinamentos, os monges poderão ajudar melhor no desenvolvimento das nossas comunidades e do budismo no Brasil.
Monge Genshô irá para o mosteiro de Sojiji Soin fundado por Keizan há 750 anos atrás, no Japão, pelo período de três meses, onde ficará em retiro. A viagem está prevista para 25 de março.
Monge Genshô, deixará de trabalhar durante este período, ficando sua família no Brasil. Ele é sucessor e discípulo de Saikawa Roshi, Superior Geral para o Zen na América do Sul. Este período lhe dará uma graduação essencial que poderá ser repassada a seus alunos e às suas comunidades Zen no Brasil.
A Sangha, amigos, familiares e simpatizantes podem participar desse momento, com o exercício de generosidade e gratidão, pela prática de Dana (Generosidade, Doação, Apoio).
Para tanto, pedimos a todos ajuda financeira para a viagem. O valor necessário ultrapassa R$10.000,00 (passagens aéreas e terrestres até o templo e estadia em Tóquio, e compras de itens necessários não encontrados no Brasil).
Unindo-nos no esforço da doação é possível que consigamos arrecadar o montante. Qualquer valor é muito bem-vindo. Cada um sabe com quanto pode contribuir, de acordo com suas condições, sendo que as doações podem ser anônimas ou identificadas na seguinte conta:
Titular: Petrucio Chalegre (Monge Genshô)
Banco: 001 – Banco do Brasil
Agência: 4550-0
Conta corrente: 6061-5
CPF: 053283060-15
O exercício de Dana (Generosidade, Doação, Apoio) na tradição budista, representa essencialmente a ação consciente e atenta de ajuda e contribuição (seja material, de tempo ou outras) para que o Dharma possa ser estudado e exercido sob condições úteis e abrangentes a todos. Em Dana temos não somente a ação de ajuda e proteção (física, psicológica ou social) a pessoas em necessidade, mas também às pessoas em ação pelo Dharma.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

É isso



Hoje estávamos comentando de um amigo nosso que é abade budista e estava falando para a Monja Sodô que ele me deu uma estátua preciosa japonesa, entalhada em madeira, de Idaten. Ficou quinze anos no templo dele, na cozinha. "Ah, você não tem uma?" Foi lá e pegou a estátua e me deu de presente. Fiquei pensando,  o que posso fazer para retribuir um presente assim precioso? Aí ela disse assim "ele me deu esse quimono, esse koromo, deu essas roupas. Viu que não tinha e me deu roupas novas". Está dentro dele essa generosidade. Está a todo tempo fazendo isso. Há quarenta anos ele trabalha construindo um monastério, um lugar maravilhoso. Agora, para sabermos como ele construiu, ele passou muito tempo mendigando dinheiro nas ruas do Japão, pedindo dinheiro como mendigo. Juntava esse dinheiro e trazia para o Brasil para construir. Porque lá um monge mendigando recebe mais dinheiro do que aqui. Mendigar na rua quando está frio e tudo mais é um esforço enorme. Ele fez isso. Então as pessoas verdadeiramente ricas não são aquelas que a gente pensa que são. São outras pessoas.

Muitas pessoas com que trabalho - trabalho como consultor - e que têm bens materiais, são profundamente infelizes. E outras pessoas que conheço que não tem, são profundamente realizadas e felizes por outros motivos, pois fazem o que realmente pretenderam. Meu mestre Saikawa Roshi saiu do Japão com vinte anos e foi para Tailândia e Sri Lanka e passou dois anos. A comida que ele comia era o que ele mendigava na rua. É a pessoa que mais admiro. Tem um livro dele com uma pequena autobiografia, um livro infantil que ele escreveu. Ele além de para adultos escreve livros infantis. Isso significa outro tipo de mente.

Esses tempos estava em São Paulo e tinha um amigo de que falei que meu mestre era como um "cardeal", Superior Geral do zen  para a América do Sul, Saikawa Roshi. E ele (amigo), que só pensa em dinheiro, disse que queria conhecer. Chegamos no templo e ele esperando para encontrar o "cardeal". Perto de uma mesa, um senhor vestido com um samuêzinho marrom, curvado em uma cadeira, com os dois pés dentro de uma bacia com água quente pois estava resfriado. Um monge, pequeninho, curvado. Aí ele perguntou "é esse aí?" espantado com a falta de “grandeza” de roupas douradas e porte imponente. Saímos para jantar e disse que se quisesse fazer uma pergunta para ele, podia fazer. Aí ele fez a pergunta: "E Deus?”. E Saikawa Roshi respondeu: "Ah, esse é um assunto não verificável. Se você acredita, está bem. Se você não acredita está bem também", e voltou a comer. É isso. O Zen é assim.   (Fim da palestra, gravada e decupada pela Sangha de Brasília e Goiânia)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Os piolhos de Ryokan



Aluno: É correto também pensar que com essa prática,  conseguirei não ser influenciado pela dualidade?

Monge Genshô: Isso é muito bom. Porque as coisas são como são. O mundo é como é. Há uma história  Zen de uma mulher que estava sempre sofrendo, porque um filho era fabricante de guarda-chuvas. Então quando havia sol, ela ficava infeliz. E o outro filho era fabricante de guarda-sóis. Então quando havia chuva, ela ficava triste. Ela estava sempre infeliz, em qualquer das situações. Ela fala com um mestre Zen e o mestre diz "é tão simples. Quando chover, você fica feliz por causa do seu filho que vende guarda-chuva. Quando fizer sol, você fica feliz pelo seu filho que faz guarda-sol". É uma questão de perspectiva, de como é que se olha. Até perder tudo, pode ser maravilhoso. Mas que libertação! É uma libertação imensa.

Alguns dos grandes mestres Zen eram pessoas que nada tinham. Um famoso mestre Zen, Ryokan, foi um grande calígrafo e não viveu tanto tempo atrás, uns duzentos anos somente (Nasceu em 1758, em Izumozaki, na província de Echigo (atual Niigata), e faleceu em 1831). Ele morava em uma cabana com quatro tatames. Significa que a cabana tinha dois metros por menos de quatro. Essa era a casa dele. Ele vivia ali na montanha. Não tinha absolutamente nada, mas tinha uma mente diferente. Diz-se que uma vez ele estava tirando piolhos e colocando numa folha de papel. Aí olhou para os piolhos e pensou - "está tão frio, coitados dos piolhos." Pegou-os e  os colocou de novo no corpo. Esse foi Ryokan.

Uma vez um ladrão passou na cabana, não tinha nada para roubar e roubou o manto de monge dele. A polícia pegou o ladrão e trouxe de volta com o manto, pois sabia que o manto era do mestre. E o mestre disse "Não, não é. Quando ele passou aqui e ia embora eu disse que não tinha nada, mas leve esse manto para se aquecer pois está muito frio. E ele levou, foi um presente que eu dei para ele". E esse ladrão foi libertado mas voltou depois de uns dias, se ajoelhou na frente do mestre e pediu para ser seu aluno. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Guerreiam porque tem medo



Aluno: queria saber sobre a miséria, escassez de recursos materiais.

Monge Genshô: Nós nunca tivemos um tempo tão abundante na Terra. Nunca tanta gente se alimentou. No entanto, há um bilhão de pessoas passando fome, por exemplo. Agora, se a sua pergunta é por quê existe isso, a resposta é carma. Carma nosso, da humanidade, da nossa condição humana, etc. O budismo não existe para dar explicações sobre a ciência, economia e tudo mais. Os budistas têm que mudar por dentro e, agindo no mundo, o mundo tem condições de mudar. Se todas as pessoas pensassem no bem alheio, o mundo seria diferente. Agora, quando as pessoas pensam no seu eu e tentam obter coisas para si em detrimento dos outros, claro que vai dar errado. É da natureza do mundo que dê errado, da maneira como o mundo está constituído. Por esta razão queremos mudar o mundo mudando os homens.

Você poderia me perguntar "Por que no Oriente Médio os homens estão se matando?" Porque um tem uma religião, o outro tem outra. Por quê se matam uns aos outros? Porque têm medo. Um tem medo que o outro domine, então tem que matar o outro para não permitir que tenha poder. Como há grupos equivalentes, então eles vão se matar até um grupo conseguir dominar. Sorte sua que você não nasceu lá. Porem se você for uma pessoa que cultiva ódio, raiva etc., talvez na próxima manifestação, aonde seu carma se sentirá atraído para se manifestar? Em um mundo em guerra. Se você morre cheio de ódio, com vontade de matar os outros e tudo mais, quem sabe não nasce em uma família com um pai homem-bomba que ensinará a você ser mulher-bomba.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Quando você abandona toda a ambição



Aluno: Existe um budismo que não trabalha com esforço? 

Monge Genshô: O budismo do tempo de Buda é um budismo de esforço, como podemos ver pela própria história de Buda. Ele se esforçou, ele estudou, ele meditou, ele treinou. E o que ele ensinou inicialmente para os seus discípulos foi isso. Mas também ensinou práticas outras e diferentes remédios para diferentes doenças e diferentes pessoas. Algumas pessoas tem energia para se esforçar realmente. Eu sei, falo para muitas platéias. E de cada platéia, quantas pessoas começam a praticar realmente o caminho espiritual? De cada cem, uma ou duas. Os outros não fazem isso. Eles ouvem, são influenciados, são tocados por aquilo e depois saem comentando. Serve para sentar numa mesa de bar e explicar a filosofia budista, fazer grau com os amigos. Também serve. E isso não é ruim. Mas, não é o caminho do zen.

O caminho do zen é de esforço duro. Há outras práticas centrais como dizer uma oração, repetir um mantra, mas pertencem a outras escolas. Então o Soto Zen, minha escola, da Monja Sodô, da Rachel Kyo Hô, do Pedro Ken Gô, sua, é uma escola de esforço. Você senta de frente para parede e: meditação. Trinta minutos, quarenta minutos. Esforço. Há outras  práticas que tem sentido muito bonito pelo seu abandonar de si mesmo, como a de Buda Amida, um Buda que teria prometido salvar todos os homens, mesmo os piores. Um mestre diz uma frase muito bonita, acho que Shinran - "com muito mais razão eu salvarei os maus, basta que tenham fé".

 Essas escolas, coletivamente, chamam-se escolas da Terra Pura. O maior templo daqui de Brasília, de um amigo meu, Monge Sato, é da escola Terra Pura - Jōdo Shinshū. A prática central deles é recitar "namu amida butsu" (salve o Buda Amida). Mais ou menos como quando você passa por uma freira e diz “Deus seja louvado". É uma prática espiritual devocional. Mas não tem nada a ver com esta prática do Zen. Se quiser um pouco mais fundo, vai achar dentro da prática devocional a prática da meditação - Quando você abandona a você mesmo e se entrega, porque você não é capaz de nada. Você pensa " eu não pretendo nada, não quero mais nada". Esse não querer mais nada é muito importante. Considere que na prática devocional você pode achar a meditação, e dentro da meditação você no nível mais avançado encontrará o abandono de toda a ambição, mesmo a espiritual. Mas, normalmente quando o praticante vem para o Zen ele quer alguma coisa sim. Quer serenidade, quer calma etc. Normalmente ele não vem aqui pedindo para o monge, "queria que o senhor abençoasse minha carteira para ter um bom emprego". Isso nunca me aconteceu. Ele quer serenidade. Por isso a palavra Zen acabou significando em nosso linguajar, dizer que está calmo. (Pelos monges que conheço não é bem verdade, mas...).

A diferença básica entre esforço próprio e entregar-se, é esta. Não quer dizer que abdicar  não seja um caminho espiritual. É uma abordagem diferente. No Soto Zen quando pergunto para um aluno "porque você está praticando meditação" e ele não sabe responder, isso é um passo interessante. Não está tentando alcançar mais nada. Quando você abandona todas as ambições é ótimo.

Aluno: Até mesmo o desejo de alcançar?

Monge Genshô: Até mesmo o desejo de alcançar algo, sem dúvida. Porque isso também é um desejo, uma ambição materialista. A palavra desejo às vezes é mal entendida. As pessoas dizem assim "o budismo diz para eliminar todos os desejos, mas eu tenho desejo de ajudar o meu próximo, então isso é ruim?" Em sânscrito, a palavra desejo para isso é outra. Normalmente quando diz-se que o desejo é ruim em si, é a ambição, o apego, esse é o problema.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Trocar de caminho


Aluno: Como faço para aprofundar mais a prática, o caminho?

Monge Genshô: Tem uma imagem bastante interessante que é assim: você tem uma montanha para subir, aí você quer um caminho espiritual. Escolha um caminho espiritual e comece a trilhá-lo seriamente. Agora, se começou a subir a montanha e olha para o outro lado e vê outra trilha mais bonita. Sai da trilha e vai para a outra. Quando está na outra, vê mais outra e muda para lá. Assim não sobe a montanha. Porque você não faz outra coisa se não experimentar trilhas. Não é assim. Você não atinge uma graduação na faculdade mudando de curso. Faz dois meses de um curso, depois muda para outro, outro, outro. Muda quatro ou cinco cursos e não termina nenhum. Não é diferente do praticante espiritual que vive como uma borboleta, trocando de lugar, tentando treinar de forma diferente.

Caminho espiritual a sério é: escolha seu professor. Mesmo. Normalmente a escola vem junto. Você não escolhe a escola e depois o professor. Normalmente você encontra seu professor aí então treina naquela escola. Treina até ultrapassar o professor. Um bom professor quer que você seja melhor do que ele, e não menos do que ele. Não fica tentando controlar você, mandando, tentando reter os alunos, não tem ciúmes dos alunos, não pretende enriquecer com alunos, nada disso. Procure um professor que você olhe para ele e diga "ah, isto eu admiro". E não espere ver uma pessoa perfeita. Se Jesus Cristo parecesse perfeito, os soldados romanos não conseguiriam cuspir ou bater nele com chicotes. Se Buda parecesse perfeito, não teria alunos que se revoltaram contra ele, quiseram sair, fazer outro grupo, fazer fofoca. Até um tentou matá-lo uma vez. Não seria assim.

Os mestres também estão trilhando o caminho e eles podem ajudar a você. "Eu andei essa trilha até tal lugar, cuidado, nesse lugar você precisa usar tênis. Naquele outro ali, precisa de um bastão. Leve corda para tal trecho." Esse é o guia que pode ajudar você. Mas quem não trilhou um caminho não pode ajudar ninguém. E se você olhar com atenção, vai ver que existem muitos surgimentos de professores que a única coisa que têm é a imagem. Hoje ficou fácil verificar. Pode pegar o nome de qualquer um e colocar o nome na internet. Pronto. Assim você vai saber. Se pegar um professor como o Dalai Lama (Escola Tibetana), você vai ver que escreveu ensinamentos e 99% do que se fala dele é bom. Agora, se você pegar alguém e metade das pessoas fala bem e outra metade fala mal,  há muitas controvérsias, vá embora. Procure um professor mais sólido.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Bem e mal, bom e ruim, visões duais




Aluno: Ao se tornar um buda simplesmente a onda cármica deixa de existir?

Monge Genshô: Não tem força suficiente para uma nova manifestação.

Aluno: Seria bom construir “carma bom” e diminuir a força da onda até que se elimine?

Monge Genshô: Depende do que você está falando como bom. Por exemplo, você tem um carma bom de generosidade. Isso produz tradicionalmente vipaka, um fruto de facilidade em obter coisas, elas vêm facilmente para você. Como você sempre foi generoso, outras pessoas são generosas com você. Isso retorna. Isso é um carma bom? É, em um certo sentido, mas no sentido de aprisionamento, continua aprisionando você aqui. Na realidade, extinguir o carma é uma tarefa mais profunda, muito mais profunda. Tem que ser generoso, sem que a outra pessoa saiba da sua generosidade. Aí sim a probabilidade de retorno é muito menor. Não estou dizendo que o agradecimento foi ruim, foi bom.

Temos que distinguir bem isso. Existe o bem e o mal. Mas isso é uma visão dual. Há o bem e há o mal, isso é visão dualista, pois na realidade estão misturados. Pois quando você diz  - bom e ruim -  esse bom e ruim também são julgamentos comparativos. Como julgamentos de comparação eles também vivem dentro da dualidade. E a dualidade pode ser um excelente instrumento da nossa linguagem e muito bom do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista de compreensão espiritual, bem e mal são pares de opostos que nos levam à discriminação, conceituação, julgamento e nos amarram à pensamentos dualistas. É portanto um pensamento instrumental,  típico da linguagem, mas não um pensamento de compreensão absoluta.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Os frutos do carma



Aluno: Precisamos praticar até o carma perder força?

Monge Genshô: Até o carma se extinguir. Mas como você continua agindo, você cria carma novo. Como você tem um padrão de hábito de manifestar, de fazer coisas, você sempre renova seu carma. Se fizer mais coisas, mais forte carma. Se fizer coisas ruins, mau carma. Se fizer coisas boas, bom carma. Depende do que você cultiva, se o bem ou o mal. Para agir sem gerar carma precisamos nos desfazer de um eu ao qual ele possa aderir, agir sem intenção egóica.

Aluno: Mas não deixa de ser carma?

Monge Genshô:  Carma é carma. Pode ser bom ou ruim. Mas o que a gente tem que entender é que nós não somos eus carregando uma mochila de carma nas costas. Nós somos produto do carma, e quem maneja e faz o carma continuamente somos nós, com as nossas ações. Quando vocês vêm aqui para ouvir essa palestra, vocês estão produzindo carma. Esse carma vai produzir vipaka, frutos. Amanhã vocês vão pensar nessa palestra - ah, eu aprendi isso ontem ou pelo menos aprendi o ponto de vista do budismo a respeito disso. Então vai haver um efeito da ação de terem vindo aqui e isto é vipaka, fruto da ação. Normalmente quando as pessoas dizem assim - ah, isso é o meu carma, por isso está acontecendo isso e isso - se referem a carma vipaka. É fruto de um carma. Mas na nossa linguagem acabamos usando carma para esse conceito. Então está mais ou menos estabelecido que quando alguém diz assim - esse é o meu carma – na verdade fala do efeito de uma ação anterior que está se manifestando agora. Se estivesse falando em sânscrito deveria dizer, “esse é o meu carma vipaka, fruto da minha ação anterior”. Olhe a diferença de consciência em dizer – “que carma horrível, pois está acontecendo isso etc”. Ou a pessoa dizer assim – “Que fruto das minhas ações estou sofrendo agora? Fiz coisas no passado para isso”. Atirei pedra na cruz tem mais sentido que encarar como um destino inelutável.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Retornando e repetindo




 (perguntas e respostas gravadas da palestra de Brasília, gravada e decupada por Sodô San, Pierre San e Rachel San)
Aluno: Quando saio da roda do samsara, o que acontece?

Monge Genshô: Se você se transformar em Buda, qual é a característica de um Buda? Buda esgotou seu carma a um ponto tal que não existe energia para se manifestar de novo. Isso que é Buda. Buda esgotou sua energia, não está aprisionado a repetir sua vida. Ele (aluno) está aprisionado a repetir. Já está repetindo a vida passada, talvez repita o mesmo na vida futura, a menos que elimine todo o seu carma e torne-se um Buda. É uma condenação voltar para cá sempre. Do ponto de vista budista estar aqui é um aprisionamento e não uma felicidade.

Aluno: E recomeça como um papel branco? Sem nada?

Monge Genshô: Não. Ninguém começa do nada. O que existe é carma. Carma manifesta identidades. Porque existe carma, você manifesta uma consciência que se manifesta. Por isso você está aqui, pois existe carma pregresso para que exista. Existe continuidade pois existe carma. Essa onda manifesta uma identidade. Você é uma onda na superfície do universo agora, um fenômeno. Se continuar com o carma que você tem, irá manifestar uma onda idêntica porque ela simplesmente continua. Libertar-se é não ser obrigado a se manifestar.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Como foi sua vida anterior



Aluno: Mas se não a continuidade para que me esforçar?

Monge Genshô: O que disse que não continua?

Aluno: O eu

Monge Genshô: Perfeito. Disse que o eu não continua, mas não disse que não há continuidade. Você olha para o mar e vê uma onda, se movimentando no mar. Se você botar uma rolha aqui, quando a onda passar, onde está a rolha? Ela estará no mesmo lugar. Só sobe e desce. O que passou no mar foi uma onda de energia. A água não se deslocou, só subiu e desceu. A mesma coisa acontece quando estou falando. Vibro o ar aqui, mas minha voz não tem nada que saiu concretamente daqui e foi até aos ouvidos de vocês. Vibro moléculas de ar que vibram outras, outras, outras e essas ondas sonoras chegam aos seus ouvidos. Eu não mandei nada. Só mandei movimento. O que sobrevive? O movimento, não a identidade. O que estou dizendo então, na verdade, é que existe continuidade de vidas. Posso dizer que você teve outras vidas  passadas. Mas o seu eu não passou de uma vida para a outra. Porque, você já percebeu aqui, já concordou que o eu é uma construção baseada em memórias. Então o eu dessa vida é diferente do eu anterior. Mas você é continuidade de movimento anterior como essa onda é continuidade da onda que estava logo atrás. É visível, mas não é uma entidade de matéria e sim um movimento. Como chamamos isso? Chamamos de carma.

O que nasce? Carma. Não é um eu que carrega carma. Para o budismo, o carma faz surgir identidades. Por isso posso dizer para uma pessoa daqui como vai ser sua vida futura. Alguém quer saber como foi sua vida passada?

Aluno: Sim

Monge Genshô: Igual a de agora, pois o carma é o mesmo. É a mesma vida. Era o mesmo carma, mesmo tamanho de onda, mesma intensidade, mesma velocidade, mesmas características. É a mesma onda passada! Para que mude a sua vida tem que mudar o seu carma. Tem que mudar as energias que constituem a sua onda. E como mudamos as energias que constituem nossas ondas? Mudando as nossas ações, pensamentos, palavras, ações. Se você mudar, muda o carma. E aí a vida muda. Não precisa ser a próxima, essa mesma vida muda. A gente pega uma pessoa que começa a praticar budismo e não precisa virar monge, a vida muda. Você vai vendo a vida mudando, mudam os interesses, muda o lugar que a pessoa se sente bem, muda o assunto que a pessoa fala, mudam os sonhos. Vai mudando o carma.


Carma significa ação. E tem uma outra palavra importante na questão do carma que é vipaka. Vipaka significa fruto. Então carma vipaka significa fruto da ação. Normalmente quando as pessoas dizem “meu carma” estão se referindo aos frutos do carma, a carma vipaka.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Porque acreditamos em eus por isso choramos





(continuação)
Monge Genshô: O que vimos até agora? O eu é construído, baseado principalmente em memórias, não sendo estável. Você acredita nele e acha que é importante. Pior que isso, quer continuar existindo para sempre e por isso vem procurar palestras espirituais, porque tem a mesma angústia de Buddha (velhice, doença e morte) e quer uma solução para a morte. Por isso os homens inventam religiões. E nas religiões os homens continuam existindo depois de morrer. Quando Bodhidharma pergunta e pede para mostrar a alma e Hui-K'o não sabe mostrar, ele diz “já te despertei”, pois ele mostra uma coisa muito mais profunda do que ter uma partícula permanente que sobrevive à morte. Ele mostra que, na realidade, o eu é uma ilusão e que nós pertencemos a um algo muito maior e estamos acreditando no eu, e por isso não despertamos, por isso temos medo da morte. Se nós compreendermos verdadeiramente o que é o eu, nem nascimento nem morte tem mais sentido pois teremos finalmente visto nossa verdadeira natureza que não é este pequeno eu a que tanto nos apegamos.

Se alguém realmente entendeu isso levante a mão. Então, vamos fazer uma analogia: nós vemos o mar, as ondas na superfície do mar. O mar existe sempre, as ondas surgem e desaparecem, certo? O mar é durável, as ondas não. Se as ondas souberem que elas não são ondas separadas e sim o próprio mar, elas livraram-se do nascimento e morte das ondas. Pois quem acredita no nascimento e morte das ondas deveria chorar na praia a cada onda que morre.

Por que os homens choram quando uma pessoa é velada? Porque acreditamos nos eus. Como acreditamos nos eus, nós choramos. Como essa angústia é muito grande, criamos crenças de sobrevivência pós morte porque acreditamos numa ilusão chamada eu. Isso é budismo mesmo. Isso é verdadeiramente o budismo. Por isso podemos saber porque  o budismo não fala nem em deuses e nem em almas. Essas também são construções nossas para fazer com que o eu sobreviva. (Fim)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A resposta iluminada de Bodhidharma




Monge Genshô: Mas qual é a sua essência? O que é você além de suas memórias?
Aluna: Não sei dizer.
Monge Genshô: Ninguém saberia dizer pois seu eu é essencialmente constituído por suas memórias. Por isso aquela que acorda sem memória  responde - "não faço a menor ideia".

(continuação)
Agora estamos prontos para entender a resposta de Bodhidharma. Bodhidharma chega em frente ao Imperador Wu e o Imperador pergunta - “eu construí muitos templos e mosteiros para o budismo na China. Que méritos eu acumulei nos céus por causa disso?” Bodhidharma responde - “mérito nenhum, Majestade.” O imperador pergunta então “qual é a grande verdade da sagrada doutrina?” E Bodhidharma responde - “vazio ilimitado”. Vazio é shunya em sânscrito. Quer dizer vazio de um eu inerente. A grande verdade da sagrada doutrina é que não existe um eu inerente em coisa alguma, nem em vocês que estão sentados aqui agora. Vocês são só construções de memórias, ilusões de uma mente em operação. Por isso ele responde que a grande verdade da sagrada doutrina é “vazio” e que “não há nada que possa ser chamado de sagrado”. É o que Bodhidharma responde. Não há nada disso de sagrado. Ou tudo é sagrado ou nada é sagrado. Esse ar é sagrado ou não é sagrado, é tudo a mesma coisa. Sim e não. É uma resposta profunda. O imperador não sabendo o que fazer pergunta para ele - então me responda: “quem é que eu tenho na minha frente”? E Bodhidharma responde o que? “Não faço a menor ideia”. Não faço a menor ideia, é essa a resposta de Bodhidharma! E dá meia volta e vai embora.

O imperador depois escreve um poema no qual diz  - “eu o vi sem ver”. Eu o vi, mas não enxerguei. Isso é a coisa mais comum, você vê mas não enxerga. Então chegamos à resposta de Bodhidharma tão difícil de entender. Quem é que tenho na minha frente? “Não faço a menor ideia”. Significa que ele, Bodhidharma, está livre desta noção aqui (eu). Ele se livrou disso, essa é uma resposta iluminada. Ele demonstrou sua iluminação naquele momento, mas ninguém viu.

Aí Bodhidharma vai para Shaolin. Lá passa 9 anos meditando numa caverna. Vão aparecendo pessoas querendo aprender com ele. Depois de 9 anos surge um rapaz chamado Taisô Eka, em chinês Hui-K'o. Ele fica na frente da caverna de Bodhidharma durante três dias. Bodhidharma, como sempre, não dá bola para ninguém. Sai, entra, senta, medita. Até hoje em Shaolin se mostra uma sombra no fundo de uma caverna. Essa é a sombra que ficou de Bodhidharma de tanto tempo que ele ficou de frente para a parede. Aí os turistas tontos pagam para ver a sombra de Bodhidharma. Aí, na terceira noite nevou e a neve cobriu as pernas de Hui-K'o que ficou desesperado. Então ele cortou seu braço para jurar pelo seu sangue que estava ali sinceramente. Vendo o sangue pingar na neve, Bodhidharma foi até ele achando que havia alguém ali que estava a sério em busca da verdade e perguntou: muito bem, então que você quer? Hui-K'o disse - Mestre, minha alma não tem paz. Pacifique a minha alma. Bodhidharma diz: “me mostre sua alma que eu a pacificarei”. É como perguntar, “quem é você”. Me mostre! -' Não consigo". - Pronto. Já pacifiquei tua alma. Nesse momento, com essa resposta, para quem já tinha cortado o braço, passado três dias em jejum, Hui-K'o acordou de suas ilusões. E ele é o sucessor de Bodhidharma. Na minha linhagem, Bodhidharma é o vigésimo sexto patriarca e Hui-K'o é o vigésimo sétimo. Shakyamuni Buddha é o primeiro. ( continua)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O eu a ilusão básica



(Continuação)   Monge Genshô:  Bud significa acordar (das ilusões). Mas as pessoas estão todo o tempo se apoiando em ilusão. Qual a ilusão mais poderosa? A ilusão que atrapalha todo mundo? Eu. Esta poderosa ilusão, chamada “eu”, é arrasadora. Porque ela tem dados de realidade poderosos. Todos estão sentados aqui agora, abrem os olhos e vêem os outros. Registram a impressão – eu estou vendo os outros. Então eu enxergo, eu recebo uma informação, eu sou um centro de informações, processo, penso, tenho formações mentais e todo esse conjunto de formações mentais propiciados por minhas experiências sensoriais me diz que eu sou o observador, o registrador. E quando alguém diz - este eu aqui é construído, uma ilusão, você não consegue acreditar nisso. Porém, se eu disser assim, você acredita profundamente na sua existência pessoal, no seu eu.

Monge Genshô: Quem está aqui pela primeira vez? Você, quem é você?
Aluna: Quem está aqui agora.
Monge Genshô: Quem está aqui agora, mas, quem exatamente?
Aluna: Lívia.
Monge Genshô: Mas Lívia não é você, é o nome que seus pais lhe deram. Lívia não serve. Quem é você, além dos nomes que seus pais lhe deram?
Aluna: Eu sou o resultado do que aconteceu em minha vida.
Monge Genshô: E você registrou esse resultado onde?
Aluna: Na minha cabeça.
Monge Genshô: Então você é o resultado das suas memórias, certo? Inclusive até aquele de que seus pais lhe deram tal nome, não é isto?
Aluna: Sim.
Monge Genshô: Mas, se você perder sua memória hoje e acordar amanhã de manhã numa cama de hospital com amnésia, nós iremos visitar você e dizer - nós sabemos quem você é, você é Lívia. E você dirá - não me lembro. Você não tem mais memória, certo? Mas todo o resto está aí, então perguntaria de novo: quem é você? Não vai saber, pois você é essencialmente construída com memórias acumuladas, com registros de experiências. Mas de suas memórias você já não se esqueceu de grande parte? Então essa construção, vamos dizer assim, é um pouco aleatória, seletiva, não é? Poderia até ser outra. Só escolher outras memórias e seria outra pessoa. Então, seria possível, se fôssemos capazes de interferir no seu cérebro, selecionar memórias que você quer lembrar e outras que não quer lembrar e construir outra pessoa. Então, quem é você, se você é só isso? Alguém que está sentado aqui pode contestar isso? Você é alguma coisa além de suas memórias?

Vocês conhecem quem tem nascido de novo e mantido memória da vida anterior com tal inteireza que pode dizer - eu sou aquele?  Às vezes a gente vê registro de pessoas com memórias parciais, mas é um flash. Se fosse memória integral, seria como manter o seu eu de uma vida para outra. Vamos dizer assim, se o eu é construído com memória o tempo todo, este eu aqui é o mesmo de hoje para amanhã? O que você acha? É o mesmo? Mas a memória não mudou? Se vai mudando as memórias, mudando, mudou muito. Seria o mesmo eu?

Aluno: Acho que contém.

Monge Genshô: Ah, contém. Então aquele eu vai conter um fragmento do novo eu. Onde é que quero chegar - o eu de hoje não é o eu de ontem. Se você não se lembra da vida passada, qual foi o eu que sobreviveu de uma vida para a outra?
Aluna: A essência.
Monge Genshô: E o que é essa essência?
Aluna: O que eu sou.
Monge Genshô: O que você é não era constituído por suas memórias? Mas se não tem memória nenhuma, o que sobrou?
Aluna: A minha essência.
Monge Genshô: Mas qual é a sua essência? O que é você além de suas memórias?
Aluna: Não sei dizer.
Monge Genshô: Ninguém saberia dizer pois seu eu é essencialmente constituído por suas memórias. Por isso aquela que acorda sem memória  responde - "não faço a menor ideia".  (continua)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Nem Buda dispensou mestres


Estátua de Kannon esculpida em um único tronco de jaqueira por Kogen San, encontra-se no mosteiro do Morro da Vargem
(continuação)  Monge Genshô: Quando Buda vai para floresta e começa a meditar, pensar, estuda junto com 2 mestres iogues – Brahmaputra e depois Alarakalama. Quando alguém me diz assim – ah, eu quero começar a praticar sem professor, fulano de tal escreveu contra os mestres, eu escolho uma coisa daqui, outra de lá o que eu gosto. Pego uma coisa de uma religião, outra de outra, faço essa salada e está tudo legal. Para esta mistura falta coerência interna e a pessoa se encontra em um beco sem saída. As religiões ao longo do tempo, sendo discutidas e debatidas internamente, criam  alguma coerência doutrinária. Pode-se até achar furos, mas há coerência. Agora, quando uma pessoa pega pedaços de várias religiões e junta é muito flagrantemente com mil furos, tudo incoerente. Não dá para conciliar. Sidharta vai lá e treina com 2 mestres. Isso que eu queria dizer: nem Buda deixou de ter mestres. Portanto, procurou coerência interna naquilo que estava sendo ensinado até chegar a um determinado ponto e dizer – ainda me falta isso. Aí ele foi para outro mestre, foi mais alto e ainda faltava algo. Depois de ter ido muito longe, é que ele tratou de sentar sozinho para conseguir achar a sua resposta, uma resposta que o satisfizesse. Porque nenhuma resposta o completara inteiramente. A primeira grande resposta de seus discurso é a primeira nobre verdade – Dukkha.

Seu nome, seu título, Buddha, esta raiz Bud, significa acordado, desperto. Então “Buddha”, significa aquele que acordou. Mas acordou do que? Acordou de tudo aquilo em que as pessoas se apoiam, as ilusões. Ele acordou e entendeu que todos os deuses do hinduísmo não existiam por si mesmos. A partir de então, para o budismo, os deuses existem porque as pessoas creem neles. Não é que eles existam e as pessoas, por causa disso, depositam crenças neles. Não. Eles existem criados pelas crenças. São os crentes que sustentam a existência dos deuses. Quando o último crente deixa de acreditar em um deus, esse deus morre.  É como aquela famosa passagem do poeta – “O grande deus Pã morreu.”  Ninguém mais acreditava no deus Pã, então ele desapareceu”.

Para o budismo, quem sustenta a existência dos deuses são os crentes. Então chegamos a ponto de dizer – ah, mas a deusa da compaixão no budismo, Kannon, ela existe? Kannon sabe que não existe. Há um episódio que Kapleau conta no livro – os três pilares do zen- Kapleau chega num templo e acontece uma coisa – um mestre diz: - Vamos agradecer isso, inclinar-se perante Kannon. Kapleau, muito indignado, diz: - “Não estou entendendo. Este não é o Zen dos monges que queimaram a estátua de Buda para se esquentar? Não é o zen do monge que cuspiu numa estátua de Kannon?” E o mestre respondeu: - “É, é esse zen mesmo. Se você quiser cuspir, pode cuspir, eu prefiro fazer reverências.” Depende da cabeça de cada um, que tipo de pessoa é.

Hoje, quando entro em igreja católica, faço reverência para as estátuas. São objetos de reverência, devemos fazer reverência. Esses dias contei uma história interessante que aconteceu com um praticante. Estávamos em um centro jesuíta e cada vez que passávamos em frente de uma estátua de Nossa Senhora de Fátima eu fazia reverência e os alunos que vinham atrás também faziam. Os budistas fazendo reverência para a estátua de nossa Senhora de Fátima. Aí eu expliquei isso. No fim do retiro, esse praticante contou que saiu fazendo reverência para todas as estátuas que encontrava no centro jesuíta. Chegou no jardim e tinha uma branca de neve e os sete anões. Aí o praticante ficou na dúvida se fazia reverência para Branca de Neve ou não. Na dúvida, fez reverência para a Branca de Neve. (risos)  ( continua)