sexta-feira, 27 de março de 2015

Minimizando o Carma

Pergunta – As pessoas também poderiam atrair um carma pela omissão, não é?
Monge Genshô – Sim. Na verdade em alguns casos é uma situação sem saída. Se se faz algo como matar um homem que está ameaçando matar outros, atrai um carma, se não faz nada e as pessoas morrem, atrai carma. Você deve escolher. Mas não existe a escolha de viver sem problemas. Assim é a vida, você não conseguirá evitar todo o sofrimento.
Nos tempos de Buda havia os Jainistas, que faziam oposição ao budismo e o desejo deles era evitar todo o tipo de sofrimento. Alguns chegaram a não usar roupas, pois para isso tem que plantar algodão e com isso matar insetos, logo, eles andavam vestidos de vento, não usavam roupas. Quando caminhavam varriam o chão à sua frente para não pisar em nenhum ser vivo e coavam a água com o mesmo objetivo, que toda e qualquer forma de vida fosse salva do sofrimento.
É impossível evitar todo o sofrimento, veja nosso corpo, por exemplo, ele está constantemente matando vidas microscópicas para que você possa estar bem de saúde. Se você tentar levar sua vida a esse extremo, não poderá continuar vivo, pois viver implica em causar sofrimento. O que podemos fazer é minimizar o sofrimento que causamos pelo simples fato de existirmos.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Monge Genshô entra em Retiro no Japão.

Sutra do Amor Bondade
Quem é hábil no que é benéfico, desejando alcançar
aquele estado de paz, age assim:
capaz, correto, honrado,
com a linguagem nobre, gentil e sem arrogância,
Satisfeito e fácil de sustentar,
sem ser exigente por natureza, frugal no seu modo de vida,
os sentidos acalmados, sábio,
moderado, sem cobiçar ganhos.
Não faz nada, mesmo que trivial,
que seja condenado pelos sábios.
Pense: felizes, seguros,
que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.
Todos os seres vivos que existem,
fracos ou fortes, sem exceção,
compridos, grandes,
médios, curtos,
sutis, grosseiros,
Visíveis e invisíveis,
próximos e distantes,
nascidos e por nascer:
que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.
Que ninguém engane
ou despreze outrem, em nenhum lugar,
ou devido à raiva ou má vontade
deseje que alguém sofra. 
Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida,
ama e protege o seu filho, o seu único filho,
da mesma forma, abraçando todos os seres,
cultive um coração sem limites.
Com amor bondade para todo o universo,
cultive um coração sem limites:
Acima, abaixo e em toda a volta,
desobstruído, livre da raiva e da má vontade.
Quer seja parado, andando,
sentado, ou deitado,
sempre que estiver desperto,
cultive essa atenção plena:
a isto se denomina uma morada divina
no aqui e agora.
Sem estar aprisionado pelas idéias,
virtuoso e com a visão consumada,
tendo subjugado o desejo pelo prazer sensual,
ele não mais renascerá.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Herdeiros da Compaixão

Monge Genshô: O Zen é um método de estudar o budismo, que se utiliza da mesma prática que Buda usou, que é a meditação. Mas a meditação e o Dharma não são propriedades do budismo nem do Zen. Elas estão aí no mundo, existem múltiplos métodos para serem praticados, pois as pessoas são diferentes e, assim, precisam de diferentes métodos. Por isso que nós temos de admitir, e jamais dizer “eu tenho a verdade, ou este é o caminho e os outros estão todos errados”. Até o conceito de certo e errado, como eu explico no livro “O Pico da Montanha é onde estão os meus pés”, é um engano, pois também está no campo da dualidade. Eu não posso dizer que isso é certo, e aquilo é errado.

Nós temos o Dharma, a sabedoria. E nós temos ignorância, é claro. Mas nós podemos sair da margem da ignorância e atravessar para a margem da sabedoria. Isso significa prajna paramita (prajna = sabedoria / paramita = a outra margem). Agora se eu pego o barco, ou um veículo qualquer – que é uma forma de espiritualidade qualquer –, atravesso o rio da ignorância e chego à outra margem, se eu for um Bodhisattva (ser de compaixão) eu retorno para ajudar os seres que estão na margem da ignorância. Porque eu não posso ir sozinho, e aquele barco eu não posso carregar nas costas. Por isso os Bodhisattvas permanecem aqui. 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Não existe caminho fácil para o despertar



Aluno – Tendo como referência a abundância derivada da técnica, aquilo parece satisfazer, mas a busca em muitos campos religiosos  tem uma ilusão ali, as divindades, as trocas e benefícios, através de rituais, e o próprio discurso é uma forma de delusão.

Monge Genshô – Eu concordo. Do ponto de vista material nós nunca tivemos um mundo tão abundante realmente, nunca produzimos tanto, nunca fomos tão capazes de produzir tanto tão barato. Muitos não chegam a perceber a revolução que foi isso. Há 300 anos uma roupa era coisa pra se deixar num testamento de herança, porque roupa custava muito caro, a roupa era tecida a mão.  À medida que inventamos a imprensa, conseguimos fazer livros rapidamente e os preços dos livros caíram gigantescamente. À medida que fizemos os teares mecânicos caíram imensamente os preços das roupas, então as pessoas agora tem roupa para vestir, facilmente e por preço muito baixo. Então o que nós vemos na história é a queda incrivelmente grande do preço das coisas, e isso significou abundância, essa abundância que nós temos hoje. Qualquer pessoa aqui nessa sala vive melhor do que um rei. Basta chegar nos castelos dos reis na Europa para ver que o simples fato de ter um banheiro com um chuveiro dentro de casa é um luxo que um rei não tinha.

 Do ponto de vista espiritual os homens se acostumaram a fazer o seguinte: a transformar os benefícios espirituais num comércio também.  Então, os homens tendem a fazer esse tipo de coisa. A grande decadência que pode acontecer no zen, ou que acontece em certos lugares, é quando o zazen é abandonado, porque o zazen é difícil e trabalhoso. Enquanto mantivermos o zazen como centro da nossa prática, aí a nossa prática tem chance, ainda está viva. Quando ela for abandonada em benefício de cerimônia ou de qualquer coisa fácil, então realmente se instaurou uma decadência final da prática espiritual. E isso é a realidade que ameaça o zen, por exemplo. Qualquer dia vai chegar alguém com uma 'pílula da iluminação', você toma e está iluminado, não precisa mais sentar em zazen, não precisa mais sentar 10 anos em zazen, você toma a pílula. Quando nós tivermos esse tipo de proposta, que pode surgir facilmente (já foi prevista por exemplo por Aldous Huxley), você toma a pílula e obtém o satori.

Então, o homem tende a procurar o que seja muito fácil, mas não existe caminho fácil para o despertar. Todo o caminho fácil que surgir vai ser uma mentira. No zen também se instaurou fortemente uma corrente de que a prática em si é a iluminação. Você senta em zazen e isso já é a própria iluminação. Isso é torcer um ensinamento de Dogen. O que ele tentou dizer é: a prática é a iluminação no sentido de 'não busque, simplesmente pratique', 'não ambicione' a iluminação, o despertar, simplesmente pratique. Era isso o que ele estava tentando dizer. Ele não estava tentando dizer que não existe a iluminação, e que apenas praticar já é a iluminação.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Um mundo abundante mas perdido



Aluno – Estou lendo um filósofo que fala sobre a secularização. Nos dias de hoje, numa sociedade tão secularizada, distante, profana, ele propõe uma sociedade pós-secular, onde os dois mundos poderiam e deveriam conversar, e eu percebo o zen no ocidente com uma apresentação um tanto quanto secular no discurso. O que o senhor acha disso?

Monge Genshô – Eu acho que a ideia é interessante, acho que o budismo tem essa enorme capacidade de adaptação. Essa imagem da água, que a gente diz no zen 'seja como a água' ela está muito certa. Quando olho a minha atuação no mundo como profissional e como monge simultaneamente, ela expressa isso, que é o meu problema.

 Então, você tem que saber transitar nos dois mundos e acho que há uma grande perda dessa secularização no mundo ocidental e no mundo oriental. Nós não devemos idealizar o mundo oriental, pois o mundo oriental se rendeu ao ocidente culturalmente e daí adota técnicas, formas, costumes, e a prática espiritual está sendo esquecida, jogada fora. Isso aconteceu fortemente no ocidente com algumas igrejas que resolveram se secularizar, começaram a jogar fora seus rituais, a maneira como os religiosos deviam se vestir... No início se pensava que isso ia aproximar e trazer o povo para dentro da instituição religiosa, mas não foi o que aconteceu.

E essa tentativa de secularização do caminho espiritual trouxe um enfraquecimento. Então nós não podemos ceder à secularização do caminho espiritual. Na hora de ser monges nós temos que ser monges verdadeiramente, temos que praticar verdadeiramente, temos que ir a fundo verdadeiramente, e não começar a ceder. Isso o ocidente também tem visto no zen. Você vai na Europa hoje e as monjas não querem raspar o cabelo, querem se maquiar, os monges querem mudar as roupas, ou querem se desligar da instituição... No discurso de serem livres começa a se perder a própria essência do zen. É como se o zen fosse diluído, como se fosse  enfraquecendo,  de repente você não tem mais aquilo que era o original.

A mesma coisa vem acontecendo no oriente, a mesma tendência de transformar a religião num mero negócio ou na venda de rituais, e isso não é uma coisa que tem acontecido só com o cristianismo ou com o budismo. Tem acontecido com tudo. Não existe caminho espiritual fácil ou diluído. Essa diluição é uma coisa que me dá uma sensação de pena, porque vamos perdendo a essência. Em todos os lugares isso tem acontecido. É uma tendência mundial em todas as religiões, em todos os caminhos espirituais, e a força, a mágica da ciência e da técnica vai fazendo parecer que o caminho espiritual é algo descartável.

 Nós vemos um mundo que parece perdido, infeliz, e daí começa a procurar a solução da felicidade na própria técnica, na própria química    , por isso nós temos as pílulas da felicidade, as pílulas contra depressão, etc... Então eu vejo um mundo que se perde. Para nós é um grande desafio aprendermos um caminho espiritual sério e trazê-lo para o mundo como ele é,  sem abdicar de nada, da abundância que a tecnologia trouxe, sem abdicar também da seriedade para conseguirmos manter viva a chama do caminho espiritual.

O que aconteceu desde a invenção e utilização das máquinas, na metade do século XIX, é que nós começamos a viver numa sociedade incrivelmente mais abundante, nós não tínhamos essa abundância antes, era frequente as pessoas passarem fome, não havia como transportar coisas de um lugar para o outro com facilidade, nós tivemos fome na China e na Irlanda, com grande mortalidade, porque não havia comida. Esse tipo de coisa só tem acontecido, no mundo moderno, em países bem longe da tecnologia, ou com regimes muito fechados ao comércio internacional. Mas no mundo integrado pelos transportes e pelo comércio exterior nunca mais houve isso. É difícil encontrar um agrupamento grande, hoje, no mundo ocidental, a quem faltem coisas essenciais. Isso fica restrito a faixas menos favorecidas, mas as nações em si tem, e o mundo tem recursos suficientes para alimentar o mundo todo, ele desperdiça ou joga fora, ou uns consomem muito mais do que precisariam, e outros menos. Então existe a injustiça da distribuição, mas na realidade existe uma abundância que a Terra nunca viu antes. No passado 90% da população tinha que trabalhar no campo para produzir alimento. Quando eu nasci 70% da população do Brasil trabalhava no campo. Hoje é o contrário, 30% da população trabalha no campo. Nos EUA, menos de 2% da população hoje produz todos os alimentos. Então nós vivemos em uma sociedade muito mais abundante, nós temos luz elétrica a menos de 100 anos, nós temos água encanada, coisa que não era disponível antes. Então nós vivemos numa sociedade mais rica mas essa sociedade abundante se perdeu.

Nós não sabemos ser felizes com tudo o que nós temos. Essa é uma longa conversa, para examinarmos os múltiplos aspectos de tudo isso. Eu conheço pessoas com abundância, que tem casa e todas as facilidades, e dizem 'eu estou deprimido, a vida não tem sentido'. Se estivesse ainda trabalhando, buscando comida no campo e plantando, e tendo que se esforçar, talvez não se sentisse assim, a vida teria um sentido de busca, mas ele não tem mais, então ele não sabe como viver, como ser feliz, tendo chegado ao paraíso da abundância, aquilo que os antigos achavam que seria o mundo perfeito, sempre alimento disponível, sempre conforto... Então essa é a grande perda.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Sem opiniões


Monge Genshô – É o primeiro zazen do ano. O que você gostaria que fosse falado?

Aluna – Não tenho ideia, monge.

Monge Genshô – Não ter ideia é uma coisa muito boa, pois na realidade o que acontece é que nós colocamos nossas ideias nas coisas. E esse fato de nós colocarmos nossas ideias nas coisas é o que mais atrapalha o ser humano. Saikawa Roshi costuma dizer que os peixes, os pássaros, os ursos, eles não tem problemas, eles conseguem viver a vida naturalmente, e quando chega a hora da morte, morrem, e não se angustiam com essas coisas, e só os homens realmente são tão angustiados, e por que? Porque os homens colocam as suas ideias nas coisas, suas interpretações.

Eu vejo muitas pessoas discutindo coisas como 'ah, é melhor beber água gelada porque o corpo tem que consumir calorias para aquecer a água, então a água gelada emagrece'. Aí vem outra pessoa e diz 'não, a água gelada faz mal para o estômago, você devia tomar sempre chá quente ou água quente, essa é uma crença comum no oriente, porque isso não perturba a digestão, e isso tem bastante sentido, se você beber algo gelado junto com a refeição o organismo tem que aquecer aquilo antes de conseguir fazer a digestão'. E as pessoas então começam a discutir um tema como esse e a discussão vai se tornando cada vez mais azeda até o momento em que alguém resolve chamar o outro de ignorante, tacanho, ou egóico, então as pessoas começam a lutar por causa disso. A melhor maneira a respeito disso é aprender a não defender ideias, opiniões. Se nós defendemos opiniões nós colocarmos nossa opinião nas coisas.

 Quando nós estávamos na aula de como colocar o rakusu um aluno perguntou 'ah, mas não pode ser assim de outro jeito?'. É natural, nós somos acostumados a ser instados a ter uma ideia própria. Nos EUA isso é muito mais forte. Como houve um grande cultivo da individualidade pede-se que o aluno tenha uma ideia, e isso na realidade tem um benefício, porque o fato de se instar as pessoas a terem ideias próprias faz com que haja criatividade, invenções, novas maneiras de fazer as coisas, então existe uma virtude nisso. Mas no pensamento do zen essa questão da individualidade foi levada tão longe no ocidente que começou a criar problemas para as pessoas, e estas então tem dificuldades ou infelicidades por causa disso.

Então eu vejo virtudes nessa questão da ideia própria, mas quando estamos treinando uma arte ela atrapalha. Quando se está estudando música, por exemplo, ou em qualquer arte, como aprender a cozinhar, e o aluno diz 'mas será que não é melhor assim, será que não posso fazer de outro jeito?' e fica interrompendo o professor a cada momento perguntando sobre uma outra maneira de fazer as coisas perturba seu aprendizado. No  zen, isso vai um pouco mais longe, não só não se espera que o aluno venha a apresentar uma ideia própria como se presume que ele tem que chegar com uma mente  completamente vazia. E ele  não tem que criticar nada, ou achar coisa alguma. O aluno vai chegar no mosteiro e se espera não que pergunte ou que peça explicações, mas que roube do mestre e dos mais antigos a maneira certa de fazer as coisas. Então a gente olha, observa e imita. E não pergunta nem o porquê, porque o 'porquê' vai vir depois. E o 'porquê' pode ficar muito obscuro durante bom tempo.

 Por exemplo: Dogen  costumava ir ao riacho que ficava perto de Eihei Ji e pegar um balde de água. Depois que ele pegava o balde de água ele derramava no riacho de volta metade do balde e levava só meio balde. Essa era uma prática espiritual em relação à água, aos recursos, ao que existe, ao que a natureza dá. E fica meio obscuro para um aluno que chega, que pode pensar 'mas se trouxe meio balde, por que não traz um balde inteiro?', 'então vai fazer duas viagens e trazer dois meios baldes? Isso na realidade é absurdo, isso não é eficiente'. Ele não sabe o que estamos procurando. Estamos procurando uma outra coisa completamente diferente. Há muitas coisas que no treinamento zen vão parecer absurdas à primeira vista. Então, o que o aluno tem que fazer? Simplesmente fazer do jeito que foi dito, sem pensar. Esta é a maneira de aprender. Depois que ele dominar aquela técnica, então chega o momento de ele poder fazer alguma alteração. Mas só quem pode fazer alteração é quem dominou a técnica completamente, não quem está chegando. Então no oriente, não se espera que o aluno pergunte, e muito menos que pergunte 'por que?', se espera simplesmente que ele quietamente faça conforme foi mostrado, e isso significa abdicar da sua opinião, abdicar do seu eu, e da sua maneira normal de pensar, e deixar para depois. E pode-se levar muito tempo para perceber por que uma coisa é feita de uma maneira e não de outra.

Você entendeu a resposta, ficou claro? Na sua vida como engenheiro não é para agir assim, na realidade tem que procurar outra maneira de pensar, outro modus operandi, outra maneira de agir, e no caminho espiritual  agir completamente diferente. A gente tem que saber mudar o modo, não é para levar este modo para a engenharia, pois na engenharia pode haver uma solução melhor, então a invenção é necessária, a mudança é necessária, o pensamento crítico é necessário, é necessário que esteja bem aceso. Mas quando estamos no caminho espiritual não é a hora para o pensamento crítico ou da invenção.

terça-feira, 17 de março de 2015

Observações bem humoradas de filha de monge



( Pedi a minha filha que resolvesse para mim o problema de seguro de saúde em minha viagem para ficar internado no mosteiro de Sojiji Soin por 3 meses, abaixo uma correspondência sua para a agência de viagens, a melhor parte me pareceu sobre a repatriação funerária.)

Monge Genshô, meu pai , pediu que eu visse a opção mais barata possível. Vi que seria a Personal sem doença pré-existente (até pq ele não tem, lembre-se que é um monge budista vegetariano de nascença, ele é super-saudável). Ele precisa do seguro para cumprir com uma exigência burocrática.

Os seguintes itens, se possível, poderiam ser excluídos, visando reduzir esse custo total:

ASSISTÊNCIA MÉDICA POR ENFERMIDADE PREEXISTENTE (ele não tem doença preexistente)
US$ 2.500

ASSISTÊNCIA MÉDICA PARA PRÁTICA DE ESPORTES (ele não vai praticar esportes, vai meditar, atividade mais segura não há)
US$ 1.250

REPATRIAÇÃO SANITÁRIA (creio que se ele precisar de tratamento médico preferirá o Japão do que o Brasil)
US$ 40.000

REPATRIAÇÃO FUNERÁRIA (ele não pretende morrer e deixou claro que se isso ocorrer prefere ser cremado no Japão e ter suas cinzas depositadas aos pés do Monte Fuji; por outro lado, SE ele morrer, vou lá pessoalmente buscá-lo pelas orelhas)
sim

REMESSA DE VALOR P/ FIANÇA JUDICIAL P/ ACIDENTE DE TRÂNSITO (ele ficará 3 meses internado num mosteiro, não vai dirigir nem andar de carro)
US$ 10.000

(Os que quiserem ainda colaborar com as despesas vejam instruções aqui: http://www.opicodamontanha.blogspot.com.br/2015/02/para-os-que-usufruem-deste-blog.html    )

segunda-feira, 16 de março de 2015

Para onde a pedra quer ir?



Aluno – O senhor falou de coisas contraditórias, primeiro falou que o desejo e a ambição fazem com que a pessoa perca o presente ou fique infeliz, e agora está falando que objetivo é algo de grande valia.

Monge Genshô –  O caminho se mostra a cada passo. De repente surge a oportunidade, pegue a oportunidade. Surge outra oportunidade, 'oh, outra oportunidade'. O objetivo prende a mente. Ah, eu vou nessa direção. Não. Eu estou indo nesse direção, mas se não der certo eu vou para cá. Compreende? Eu vou para o norte, mas se tiver uma pedra no caminho eu não vou ficar parado na pedra, batendo na pedra...., eu tenho que contornar a pedra. Por isso nós dizemos que a água é uma grande lição para o praticante do zen, porque a água sempre consegue chegar, sempre. Se tem um obstáculo, ela se acumula e sobe, ou contorna, ela sempre vai e sempre consegue seus objetivos. A água tem a virtude de, se a colocarmos dentro de um copo, ela toma a forma do copo. Qualquer copo. Mas quando a água se transforma em gelo, aí é uma pedra, e se a gente tentar colocar dentro do copo aí não entra, e se a gente tentar martelar quebra o copo. Esse é o problema do gelo, a sua rigidez, ele pensa 'eu sou assim, e quem quiser gostar de mim terá que ser assim'. Esse é o gelo, ele pensa que é assim, ele tem ideias fixas, e por isso ele é cristalizado e não cabe em qualquer recipiente. A água não. E nós então sabemos, nosso objetivo é o mar, mas pra chegar lá nós podemos dar todas as voltas que o terreno nos pedir, sem reclamar. Aí chegaremos lá.

Aluno – Mas o desejo e a ambição, então, podem ser uma coisa boa, ou ele prejudica o potencial da pessoa?

Monge Genshô – O desejo e a ambição vão atrapalhar. Um objetivo para o qual estamos olhando pode nos ajudar a ir numa determinada direção. Mas a fixidez naquela direção, naquele objetivo, vai nos atrapalhar. Então, exatamente o que acabei de falar sobre a imagem da água: vai chegar no mar, mas vamos contornar os obstáculos e vamos pelos caminhos de menor resistência. É persistência, paciência, aguardamos. Aí nós conseguimos fazer grandes coisas. No taoísmo há um ensinamento chamado wu wei , significa que quando as condições estão prontas e maduras fica fácil de fazer as coisas, mas se você forçar quando não está pronto e maduro, você não vai conseguir. Shunryu Suzuki agiu assim:  uma vez estavam fazendo na Califórnia um jardim num mosteiro, e os alunos do zen estavam lá empurrando uma pedra e fazendo uma força danada, e ele observando aquilo foi até eles e disse 'não é assim, vocês têm que olhar para a pedra e perguntar, nós queremos levar a pedra para lá, que é nosso objetivo, mas para onde a pedra quer ir?'. Ah, ela quer ir para cá, depois para lá, depois para cá... para onde a pedra quer ir? E aí, empurrando a pedra para onde a pedra queria ir eles colocaram a pedra com muito menos esforço no local onde eles desejavam chegar. Entenderam? Boa noite.   (Palestra decupada por Shoshin San )

sexta-feira, 13 de março de 2015

A vida se mostra a cada passo



Aluno – Pela forma como o senhor expôs 'O pico da montanha' me parece que os objetivos não têm tanta importância, eles são de certa forma um guia, mas a escalada é que conta mais?

Monge Genshô – A vida se mostra a cada passo. Então, à medida que nós vamos indo num caminho, se nós ficarmos presos num objetivo isso vai ser ruim. É bom ter um objetivo, uma meta, porque isso nos cria uma certa direção, isso se faz constantemente nas empresas, cria planos, é frequente para mim. Mas  acontece algo inesperado e aí, o que vamos fazer? Vamos fazer de acordo com o inesperado, não adianta nos lamentarmos muito. Eu gosto muito da história de Thomas Edison quando o laboratório de Menlo Park pegou fogo, ele chamou toda a família para assistir, disse 'venham, venham, vocês nunca vão ver um incêndio como esse' cheio de produtos químicos de laboratório, um tremendo de um incêndio.

E ele naquela alegria, e era o laboratório dele, era a vida dele, tudo o que ele tinha construído até então. E a mulher perguntou 'mas você não está chateado que está pegando fogo em tudo o que você fez até agora?'. E ele falou assim 'mas pense no laboratório que eu vou fazer agora, um novo, vou fazer tudo melhor, os erros que tinham nesse não vai ter mais'. Ele já estava planejando na cabeça dele que iria fazer um muito mais espetacular do que o laboratório anterior. Então essa era a cabeça de Thomas Edison, por isso ele registrou milhares de patentes. Porque ele estava sempre pensando em uma nova solução.  Não estava preso num objetivo anterior ou no que ele tinha anteriormente, mas estava pronto a mudar de idéia. Pegou fogo? Ah, que oportunidade, o que nós vamos fazer agora? Isso diz muito sobre o caminho, o caminho é assim.

Quando você caminha na vida é assim, que bom que há mudança. Quando nós nos agarramos demais a lamentar aquilo que acabou nós não estamos vendo as grandes oportunidades que estão aparecendo. Agora Chudô San vai para o mosteiro de Sojiji Soin dentro de algum tempo, logo que os papeis estiverem prontos. E Jikihô San vai ser ordenada monja noviça e vai para Kasuisai, que é um grande mosteiro que tem um famoso tenzo,  um roshi que é mestre de cozinha, e ela vai ter uma enorme oportunidade. Vai ser difícil, complicado estar num país com uma língua diferente, uma cultura diferente, dentro de um mosteiro, não é fácil. Eu disse a ela que, se chorar, chore na cama, mas haver solidão, muito trabalho, pouco sono, exigência, uma cultura que não é tão carinhosa como a cultura brasileira, onde se exige muito das pessoas. Isso é uma tremenda oportunidade, então tem que ir com espírito livre, seja o que for, simplesmente a gente tem que pensar 'eu vou aguentar, eu vou aprender, eu vou continuar'.

Depois  que acostuma, começa a ficar cada vez mais fácil,  no fim vai ser um lugar de onde se terá saudades. Então é uma enorme aventura, uma grande oportunidade ganhar uma bolsa da Sotoshu  pra ficar internado num local, a instituição vai cuidar de você, tem cama, comida, lugar para lavar roupa, e grande treinamento. Quando voltarem serão monges de outro nível e ajudarão imensamente nossa comunidade. À medida que essas coisas vão acontecendo torna-se possível, por exemplo, que eu possa morrer e saber que a comunidade continua. E isso é maravilhoso. Então trilhar o caminho assim, quem suporia que isso poderia acontecer? Quando Jikihô San chegou a primeira vez na Sangha, sentou à mesa, eu perguntei a ela 'quem é você, o que você faz?' e ela respondeu 'eu sou quituteira', eu me lembro até hoje, ela disse 'eu sou quituteira, eu faço quitutes'. Agora ela vai ser uma chefe de cozinha com treinamento num dos lugares mais difíceis de ter acesso no mundo. Não é fantástico isso? Quem poderia supor? Se tivesse um objetivo outro não seria assim. Sem objetivo de repente as portas se abrem, basta se esforçar, treinar continuamente. É isso, então. O caminho se mostra a cada passo. E se você não tiver restrições na sua mente ele é absolutamente inesperado. (continua)

quinta-feira, 12 de março de 2015

A hostilidade do mundo



Aluno – O mundo em que a gente vive se mostra muito hostil, contra toda a prática que o zen ensina. Quero saber como agir em relação a isso.

Monge Genshô – A cada momento você vai precisar decidir. Ele parece hostil mas não necessariamente é hostil. Ele pode ser um mundo que tem medo, em que cada pessoa pode estar tentando se proteger. E como você está agindo?

Sinceramente, o mundo não me parece hostil. Estou sempre viajando e chegando em diferentes lugares, e é normal encontrar pessoas afáveis, que ajudam, colaboradoras, e até um mundo de confiança. Na quinta-feira à noite eu estava no aeroporto de Guarulhos e a Avianca tinha um vôo pra cá, e eu fiz o ticket de embarque e quando estava no portão chamaram os passageiros e disseram o 'voo foi cancelado, a aeronave estragou, passem de novo no check in e nós vamos colocar vocês num hotel'. Eu fui lá,  disseram que pegaria um ônibus e iria para um hotel no centro de São Paulo.  Enquanto esperávamos o ônibus, foi uma oportunidade de fazer amizade com dois rapazes que trabalhavam numa empresa de segurança eletrônica e aí um deles veio sentado comigo, conversando.

Quando chegamos no hotel não tínhamos nenhum papel, a companhia não deu nenhum nada, nem disse algo a respeito, simplesmente ficaram com os nossos tickets e disseram para pegar o ônibus, e nós fomos lá  pegamos o ônibus, sem dar nenhuma passagem. Eu só disse que era um passageiro da Avianca e o motorista do ônibus nos admitiu e levou até o hotel. Quando chegamos não tínhamos nenhum comprovante, só dissemos que éramos os passageiros da Avianca, dezenas de pessoas, e eles pegaram simplesmente o nome e a assinatura na ficha de entrada, para ser rápido, e fomos recebendo quartos e havia um jantar disponível no restaurante, e foi só ir lá e dizer que éramos passageiros, até fizeram gentilmente um prato diferente para mim porque eu não queria carne.

Aí me hospedei, saí de manhã, ninguém pediu nada, fiz o check out, pegamos um táxi para o aeroporto, o motorista  não pediu nenhum papel nem dinheiro nem nada e nos levou ao aeroporto, e embarquei num voo da Gol. Na Gol, sem papel da Avianca,  me deram um ticket de embarque e fui para o avião e entrei. Como não reclamei dos atrasos, de ter dormido só 4 horas, a vida foi bem agradável, e durante a janta fiz mais duas amizades com outras duas pessoas que estavam sentadas. Será que o mundo é hostil? Tudo foi feito na confiança, todo o tempo, ninguém pediu nenhum papel. Nós estávamos em São Paulo e ninguém presumiu que alguém poderia fazer alguma trapaça ou ser um vigarista, ou ter entrado no hotel naquela hora e dito que era um passageiro da Avianca,  ninguém nunca verificou nada, tudo funcionou assim. Será que o mundo é hostil?

Eu posso contabilizar aí 4 amigos que trocaram cartões, um já me escreveu um e-mail. Depende de como nós olhamos. Talvez seja hostil, talvez não. Talvez funcione tão baseado em confiança que nós não chegamos a perceber. Na verdade, se 10% das pessoas fossem trapaceiros ou vigaristas o mundo não poderia funcionar. O mundo funciona porque a gente diz coisas e somos acreditados. Não é assim? Depende dos nossos olhos. Há alguma hostilidade no mundo, sim, há. Há criminosos no mundo, há pessoas insensatas, sem dúvida. Mas está longe de ser a maioria.( Continua)

quarta-feira, 11 de março de 2015

Procurando o sucesso


Palestra dia 05 outubro 2013 – degravada por Shoshin (Liliane)

Monge Genshô – algum tempo atrás uma pessoa escreveu para perguntar por que o nome daquele livro que eu escrevi 'O pico da montanha é onde estão os meus pés'' não era 'No pico da montanha estão os meus pés', porque quando chegamos em algum lugar a preposição necessária é 'em', e eu respondi que é proposital, pois tentei dizer que todos os lugares onde colocarmos os nossos pés são o pico da montanha. Porque o problema da ambição de realizar-se e de obter algum sucesso, alcançar algum determinado lugar e lá colocar os nossos pés, e imaginamos que quando chegamos naquele lugar lá então estaremos felizes, teremos nos realizado, seremos vencedores na vida.

E na verdade essa ambição revela-se constantemente falsa, porque quando encontramos uma pessoa e perguntamos 'você realizou o que você ambicionava na vida?' ela nos diz 'ah, eu cheguei lá', mas aquele chegar não se traduziu numa felicidade completa, porque quando chegamos a sensação é 'é só isso? Era isso o que eu queria?'

 Um dia desses eu assisti a um filme antigo, bem antigo, e nele uma moça vai para Holywood e consegue se tornar uma estrela, e acaba ganhando um Oscar, mas nada do que ela ambicionava parece a vida que ela desejava. E o marido dela era um ator, e ele havia conseguido todo sucesso, era um galã do cinema e todos o invejavam, e ele era rico, mas ele se sentia em decadência e começou a beber. Aí, no final do filme, ele, sentindo que está destruindo a vida dela, se joga no mar e se afoga. Constantemente nós vemos as histórias serem assim, como a de Alexandre, o Grande, que quando viu que não tinha mais nada para conquistar, no mundo conhecido,  chorou.

Quando nós ambicionamos qualquer coisa e chegamos lá, como quando ambicionamos nos graduar na universidade e obtemos o diploma e naquele dia da diplomação parece uma grande coisa, todos tiram fotos e há cumprimentos e festejos, parece uma coisa maravilhosa. No dia seguinte, começou a vida de novo, e nós somos demandados a sermos profissionais, e é como se tivesse começado tudo de novo, e o pico da montanha está longe. E quando atingimos o sucesso profissional, olhamos para aquele sucesso profissional e ele não é suficiente, sempre há uma sensação de que temos que escalar algo, chegar a um outro lugar que não era bem aquele onde estávamos, e por isso nós olhamos pessoas que seriam aparentemente invejáveis, mas começam a usar drogas, ou são infelizes, porque na realidade elas sempre ambicionaram chegar em algum lugar, mas o lugar onde elas chegam não é aquilo que  imaginavam.

Então o grande problema é nós entrarmos nas livrarias e vermos os livros de auto-ajuda que falam sobre vencer, ser bem sucedido, ser vitorioso, ou enriquecer, ou como um que eu vi esses dias, ter a mente de um milionário. Então, quando eu coloquei o título desse livro 'O pico da montanha é onde estão os meus pés' eu queria dizer que a sensação correta é agora, nesse instante, aqui é o pico da montanha, eu tenho que estar feliz agora, exatamente nesse instante, não há nada para alcançar. Tudo o que existe para alcançar já está alcançado, na verdade nós só caminhamos a vida a cada dia dando um passo e fazendo aquilo que devemos fazer, e a sensação deve ser 'agora, aqui onde estou, é o pico da montanha'. Se não for agora o pico da montanha, então eu estou fazendo alguma coisa errada, porque não é um sucesso no futuro que nós temos que tentar conseguir, nós temos que nos sentir realizados agora. Se não formos realizados agora, então está errado, porque não podemos pensar que há algo a alcançar no futuro.

Quando nós sentamos em zazen essa lição está implícita. Nós sentamos e dizemos 'não cogite do passado, não cogite do futuro, fique aqui, agora', aí você tem que se sentir feliz, completo, um ser pleno naquele agora. Este agora é que é o pico da montanha. Quando você está sentado você tem que se sentir a própria montanha. Não há nada para alcançar, tudo já está alcançado. Essa lição é extremamente importante, porque se você alcançar isso, sabe a cada dia exatamente como deve agir e como deve fazer, e cada dia será pleno, feliz, completo. Quando corremos atrás de um sucesso no futuro, corremos atrás de mais um sonho, e esse sonho quando alcançado inevitavelmente se mostra fumaça. E esse é um tipo de pensamento com o qual ninguém está acostumado no mundo ocidental, nem no mundo oriental, vamos lá e vemos esses livros de auto-ajuda e eles todos estão dando lições erradas, ninguém ficará feliz com esse tipo de sucesso. Simplesmente a cada montanha que escalar vai olhar à frente e verá outra montanha. Mais alto, sempre difícil, e quando terminamos a vida assim, parece que não chegamos lá. Por isso nós temos que chegar no pico da montanha agora. (continua)

terça-feira, 10 de março de 2015

As duas asas



Aluno: o ensinamento pode ser um gatilho para um insight?

Monge Genshô: Com certeza. São as duas asas. Você não voa com uma asa só. Alguns  ficam lendo livros e ficam fascinados intelectualmente com a profundidade filosófica do budismo e do Zen. Há muito livro escrito. Mas a linguagem é falha para comunicar. Estou falando aqui, em que medida estão todos me entendendo mesmo, de verdade? Todos, obrigatoriamente, estão me entendendo parcialmente pois estão me lendo dentro de seu próprio background cultural. Estão lendo a partir de sua própria experiência etc, sempre com pequenas diferenças em relação aquilo que quero dizer. Se eu digo “árvore”, qual é a sua árvore?

Aluno: Mangueira.
Aluna: Ipê.
Aluna Pinheiro.
Aluna: Jacarandá.

Monge Genshô: estão vendo? Eu digo “árvore”, mas cada pessoa vê uma. Então há uma dificuldade com a linguagem. Você tem um símbolo que intermedia a compreensão e que é decodificado por cada receptor. Então você vai tentando ensinar, mas, você está usando símbolos e as decodificações vão alterando a interpretação, de modo que o ensinamento não é perfeito. A prática tem uma virtude de não ser intermediada pela linguagem. Assim como expliquei nos casos dos rituais, você pode ter um insight direto, intuitivo a partir de um ritual. Essa compreensão é mais profunda e melhor do que a explicada.

Por isso às vezes as pessoas pedem uma explicação de uma coisa como essa e eu digo que não vou dar explicação. Vai ouvindo, se daqui a cinco anos você entender, esse entendimento é melhor do que eu explicar. Estava falando desse assunto uma vez com o Roshi e ele disse: "E por que então usamos a linguagem? Porque é tudo que nós temos".  Sento aqui para dar uma palestra, o que posso usar? A linguagem. Por isso os mestres escrevem livros, fazem palestras, por isso eles ensinam, só por isso.

Agora, quando alguém só quer o ensinamento e não quer sentar, praticar, tem uma ação  inútil. É como alguém que diz que quer aprender a nadar e fica lendo manuais de natação. Todo mundo sabe que isso é absurdo. "Ah, li vinte manuais de natação, sei tudo sobre natação.", "Sabe? Vou te jogar na piscina", "não, não, piscina não, porque tenho medo de água". É igual no Zen.

(Palestra decupada por Pedro San e revisada por Kyô Hô San)

segunda-feira, 9 de março de 2015

A necessidade do ensinamento


Aluno: Ela toma medicação, mas não a controla a depressão como gostaria.

Monge Genshô: Florianópolis tem um médico amigo meu, que é direto da Clínica do Sono, e que é praticante do Zen. E ele é um neurologista famoso internacionalmente. Esses dias mandei um paciente para ele com um problema e depois o paciente me disse: "O Dr. Luciano me atendeu e a consulta durou três horas". A gente tem que ver isso. Na realidade, não dá para sentar uma pessoa na frente de um médico, consulta pelo INSS, senta na frente do psiquiatra e diz "estou muito deprimido, triste". Pronto, dá um remédio para a pessoa e manda embora. Problemas sérios não podem ser tratados assim.

Pergunta: Queria que o senhor comentasse um pouco sobre a questão da prática e do estudo do ensinamento. O senhor já comentou sobre os olhos que não enxergam e a gente vê sempre o senhor reforçando a prática. Mas, se o zazen vai preparar a mente, precisamos do ensinamento, do racional, da sabedoria do mestre para plantar essa semente?

Monge Genshô: Na verdade, você sabe a resposta, não é? Porque se não existisse necessidade de ensinamento, nós não estaríamos aqui fazendo palestra.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Depressão, pânico, ansiedade


Pergunta: Minha esposa está passando há um tempo por crise de depressão, pânico, ansiedade.  A pergunta é se a meditação silenciosa tem algum tipo de contraindicação para esse tipo de problema.

Monge Genshô: Sabemos que a meditação em si muda o cérebro. O cérebro tem certas qualidades plásticas que podem ser alteradas. E o cérebro do praticante de meditação se altera, muda. Agora, as pessoas doentes muitas vezes precisam de ajuda clínica. Hoje temos medicamentos que podem ajudar. As duas coisas se interpenetram, corpo e mente estão ligados. Se você conseguir interferir no corpo e conseguir mudar um pouco as condições cerebrais, que bom, pode ajudar. Conheço uma praticante que sofre de esquizofrenia. Na realidade, ela é perturbada mentalmente de forma muito grave. Se ela ficar sem medicamento, ela tem alucinação. O cérebro dela tem um defeito de funcionamento.

Se você tem um medicamento que consegue interferir nesse defeito, criou-se uma outra condição. E não é porque tem um problema cerebral que a pessoa é diferente de todos nós que temos algum problema físico. Por exemplo, toda a minha família tem pressão alta, meu pai tinha pressão alta, morreu por causa disso; minha mãe tinha pressão alta, não morreu por causa disso pois tomou medicação, viveu até os 97 anos. Então, eu tomo medicação para pressão alta. Se alguém vem e me diz, "eu não queria tomar medicação para o meu cérebro", eu direi: mas se você tem um defeito funcional em seu cérebro, tem que tomar medicação. Isso vai ajudar e acrescentar à prática. Vamos ser realistas a respeito disso. "Ah, mas eu queria ter um cérebro perfeito, queria que a meditação resolvesse isso". Mas pode ser que a meditação seja insuficiente para você. Você precisaria atingir um nível muito alto para conseguir superar todo esse problema. Em geral, depressão ainda consegue ser controlada. Mas outras coisas mais graves não. E existem casos de depressão muito graves, bipolaridade, etc., que precisam ser controlados com estabilizantes do humor.

Conheço monges que precisam tomar medicação. E por quê não? A vaidade de dizer "eu tenho um corpo perfeito, um cérebro perfeito", é só mais uma forma de vaidade. Você pode admitir que tem problemas em seu corpo. Eles têm origem cármica? Não interessa. O que interessa é que nós temos meios para ajudar. Então vamos ajudar. Agora, uma outra consideração, o zazen já é complicado para as pessoas normais. A gente senta a pessoa normal, ela faz zazen, às vezes fica angustiada, às vezes bate em porta sem saída. Vê problemas que antes não via, descobre e sofre com tensões, medos. Então é uma prática em que a pessoa já deve estar bem, porque você vai interferir e pode desequilibrar. Então uma pessoa que esteja doente, tem que ser bem acompanhada. Já tive a  experiência de acompanhar uma pessoa como monge, junto com o psiquiatra e conversando com o psiquiatra. "Como ela está?" "está assim. Precisamos fazer isso". "agora fazemos mais isso e menos daquilo", junto com o psiquiatra.

Semana passada, fiz uma palestra na Universidade Federal de Santa Catarina com um amigo meu que é um Ph.D. em psicanálise. Foi uma palestra muito interessante. Nós trocamos muitas informações, somos amigos, gostamos muito de conversar um com o outro, ele fez um Ph.D. na Inglaterra, trabalhou quatro anos lá, como psicanalista. Então, essa conversa é muito interessante porque tem abordagens dele com as quais eu entendo mais e posso ajudar melhor as pessoas com elas. "Essa pessoa tem esse problema, mas a origem é assim, assim e tem tal forma de raciocínio. "Ah, entendi". Isso é muito bom. Para quem trabalha com pessoas, não tem limite naquilo que você precisa aprender para poder ajudar.

quinta-feira, 5 de março de 2015

A dissolução da ilusão da separatividade


Pergunta:  Eu já li alguma coisa dizendo que o samadhi é inexplicável e que poderia ser conceituado como “a dissolução da ilusão da separatividade”. É uma experiência momentânea. O que seria então iluminação?

Monge Genshô:  Samadhi é concentração, está certa essa descrição que você deu. O fato da gente dizer "ah, é incomunicável", não altera, pois qualquer experiência é incomunicável. É como perguntar para uma pessoa se já comeu moussaka (comida grega) e pede para outra pessoa explicar para ele o que é: "olha, é como se fosse uma lasanha, só que não é bem uma lasanha. O tempero é diferente. São coisas que só tem lá na Grécia e Turquia. Entendeu o gosto?" (risos). A experiência em si é incomunicável. Se alguém nunca provou sal, como descrever o gosto para a pessoa? Você tem que dar um pouco de sal, a pessoa põe na língua e, "Ah, isto é sal". Na verdade, toda experiência é incomunicável. Dizer que o samadhi é incomunicável não quer dizer muita coisa.

Mas gostaria de desmistificar. Se você sentar em zazen e conseguir realmente abstrair passado e futuro, conseguindo ficar no presente completamente, isso é samadhi. Naquele momento você sente tudo com nitidez. E se você pensar, "consegui o samadhi", pronto, acabou. Ele exige que você esteja limpo de considerações, senão você não consegue permanecer ali. Essa experiência não é absurda ou só alcançável através de zazen, porque as pessoas  tem essas experiências acidentalmente em sua vida. Experiências muito maravilhosas que duram pouco tempo, mas que estão ali cheias de intensidade. Por exemplo, uma pessoa que vê o mar pela primeira vez. naquele momento que viu o mar, toda aquela informação visual não pode ser colocada em palavras facilmente. Então, naquele momento, aquele instante é samadhi. Só que  é perdido rapidamente basta que ela julgue a experiência.

Nós treinamos o zazen porque queremos conseguir o samadhi mais frequente, mais intenso e ser capaz de ter experiências quando quiser. Se você consegue isso é um grande passo, mas não é iluminação. Iluminação é outra coisa. O kensho é uma experiência iluminada. Você vê sua verdadeira natureza. Através do samadhi, atingiu o kensho. O kensho é uma experiência espetacular. Também não precisa ser praticante do Zen para ter. Pode ser muito curto. Normalmente as pessoas descrevem como êxtase, como uma experiência transcendental, as pessoas tentam descrever mas não conseguem facilmente. Mas, todo o resto não importa. Morte não importa, nascimento não importa, não é isso. Kensho está fora deste mundo experiencial que a gente tem.

Agora, Satori é a capacidade de viver em Kensho quando quer, poder chamar a experiência a qualquer momento. Os níveis em que isso acontece são muitos, muito graduados. A gente pode dizer que uma pessoa obteve uma experiência iluminada, obteve iluminação, isso não significa nada de espetacular em relação àquela pessoa. Ela continua sendo um "chato". Se comporta mal etc. Ele pode ter essa compreensão mas ela não passou para a vida, para passar para a vida é preciso prática profunda.

Sobre isto há uma historinha interessante. Uma mulher vinha caminhando na floresta e viu Shariputra no mato evacuando. E ela olhou para ele e ficou  impressionada com a dignidade  com que ele estava ali,  teve olhos para ver aquele homem ali evacuando. Ela ficou tão impressionada que procurou Buda para ser sua discípula, pois aquilo era extraordinário. Mesmo nas nossas vidas, já vi relatos assim. Uma mulher estava em uma sala, entrou uma monja na sala. A monja tirou os chinelos e colocou-os na prateleira. E quando a mulher viu os gestos da monja, a maneira como entrou, como tirou o chinelo, como colocou, naquele momento a mulher decidiu estudar o Zen, pois queria ser como aquela pessoa, com aqueles gestos. Mas para isso também precisa ter olhos para enxergar. Porque quem não tem olhos para enxergar, não vê estas coisas.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Qual a característica do zen ?



Veja que montanha em japonês é "ji", também significando templo. O nome da nossa comunidade é Daissen-Ji. "Dai" é grande, "sen" é mestre que veio do oeste, Bodhidarma, e "ji" é templo. O que queria explicar é essa condição de que o Zen apareceu como uma prática para pinçar pessoas dentro do meio budista. Ele não pretendia ser uma religião popular, sempre parece meio contraditório quando adota  práticas populares.

Muitas vezes as pessoas perguntam qual é a diferença entre o Zen e escolas mais abrangentes. O compassivo budismo Tibetano, por exemplo, é um budismo nacional, ele pretende atender a todos, desde um homem analfabeto que não entende coisa nenhuma, e o mestre dá um "mala", um terço para ele e diz para dar a volta no templo recitando um mantra, até os que podem ser lamas.  Então grandes práticas ficam restritas a um nível muito alto, em geral de monges e lamas. Quando você olha para o nível mais alto, que na escola Nyingma chama-se "Dzogchen" (A Grande Perfeição), o Dzogchen é como o Zen.

Então, a diferença é que a escola Tibetana é uma escola gradual, com práticas para todo tipo de pessoa e que tem em seu topo o Dzogchen. O Zen é só esta prática, pois ele foi criado para existir dentro de uma comunidade, de um país que já era budista, que já tinha outras escolas fazendo outras coisas. Ele não pretendeu substituir essas outras escolas. Mas não é para gente se orgulhar do Zen, ele é só isso. É um formato de prática destinado a pessoas que querem atingir a iluminação e tem condições para isso. Por isso os mestres Zen são tão chatos. O aluno vem, faz qualquer coisa e o mestre diz "pode ir embora, vá para outro lugar". Não tem importância, ele vai praticar em outro lugar, porque o Zen é só para certos tipos de alunos para quem essa prática é a adequada. Existem outras práticas excelentes e mestres maravilhosos em outras escolas. Não está perdido, não está condenado, nós não somos salvadores. É que o foco da prática é outro.

terça-feira, 3 de março de 2015

A gradativa iluminação



Há um texto que vocês podem ler no site www.daissen.org.br , chamado "Os dez passos do boi". É bastante difícil. Estava tentando ler ontem e eu mesmo estava lendo e pensando "puxa, difícil explicar isso aqui". Ele está dividido em dez etapas, sendo que o boi é uma metáfora para mente. Na primeira etapa, o aluno está procurando o boi. Só viu seus rastros. Vai indo assim um, dois, três, quatro, cinco. No quarto grau já existe iluminação. Já existe uma iluminação naquela pessoa, só que ela não passou para seus atos. Tem uma compreensão interna. Ela viu o boi, mas não o domina. Tem etapa em que se consegue conduzir o boi por uma argola pelo nariz. Tem passo em que ela subiu no boi. E tem ponto em que o boi desapareceu. Não existe mais o boi. E tem o décimo, em que com uma garrafa de vinho nas costas, camisa aberta ao peito, a pessoa entra na praça do mercado, bebe o vinho com outros e junto aos homens vulgares, fala vulgaridades. Mas aos seus passos, árvores secas florescem. Esse é o Bodhisatva. Ele saiu da montanha.(continua)

segunda-feira, 2 de março de 2015

A rara transmissão



Pergunta: O senhor falou do filme Zen. Nele, Dogen sai procurando um mestre. A pergunta é,  eu que não sou discípulo do senhor, estou aqui aprendendo, a gente precisa de alguma maneira sentir isso aqui dentro, sentir uma conexão?

Monge Genshô: Você precisa sentir que tem uma conexão real com o mestre, com a linhagem, com aquela maneira de praticar. Ou então permaneça como aluno. Isto é tão delicado que se nós prestarmos atenção, em grandes mestres como Bodhidarma, ele, por exemplo, deu transmissão para meia dúzia de discípulos, uma mulher e cinco homens. E o que ficou na nossa linhagem, o que prosseguiu mesmo, foi Taisô Eka, aquele que cortou o braço. Muitos mestres não conseguiram nenhum  discípulo. Tiveram alunos mas não conseguiram levar um discípulo a um ponto em que dissesse "esse discípulo tem a minha mente, eu vou dar a transmissão para ele". Isso é realmente difícil, se o mestre for sério não dará facilmente a transmissão

 Nós podemos alinhar muitos exemplos assim. Então, as vezes alguém diz que o Zen é elitista. É uma característica do treinamento do Zen e da própria forma como o Zen é a seletividade na transmissão. Temos que entender historicamente o que é o Zen. Quando o Zen chegou com Bodhidharma na China, o Zen já existia há 500 anos. Então mestres como Bodhidharma queriam pinçar alguns alunos especiais e dar a eles a transmissão, para que eles continuassem aquele ensinamento. Mas esse pinçar era muito exigente, tanto que Bodhidarma não aceitou nenhum aluno durante 9 anos. Ninguém que chegou ele achou que valia a pena.

De grandes mestres como Unmon, a linhagem desapareceu. Dos 5 grandes alunos de Hui-Neng, (nós descendemos de SĒI·GĒN GYŌ·SHĬ), só dois discípulos geraram escolas que sobrevivem até hoje. Os outros três geraram escolas, mas estas desapareceram, mesmo que nós tenhamos escritos de Unmon maravilhosos. Sabemos que a transmissão não prosseguiu, que não existe uma linhagem sobrevivente. Por isso a linhagem é tão preciosa, é uma coisa tão valorizada no Zen. Então, quando se chegava na China, todo o país era budista. Mas quem é que estava recebendo a transmissão? Meia dúzia de discípulos do mestre tal, na montanha tal. Meia dúzia de outro mestre e assim por diante. O grupo total dos que receberam a transmissão dos mestres é muito restrito. É isso que é o Zen. Então, o Zen não tem a condição de ser propriamente popular. E não existe nenhuma restrição para um leigo atingir a iluminação, não é isso. Não é porque é monge, que vai atingir a iluminação. Como disse, monge é só outra forma de praticar. Entre os leigos, temos muitos exemplos de pessoas que atingiram a iluminação. Agora, para que não fiquemos pensando que a iluminação é, "cheguei e pronto", a iluminação tem enorme gradação de profundidade.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A conduta do discípulo


É completamente diferente a relação de discípulo com mestre. É próxima.

Sento na frente do meu mestre e ele diz: "Ah, eu vou à Cuba, (visitar a comunidade budista) você quer ir junto comigo à Cuba?", eu digo, "é claro, eu quero." Depois meu mestre vem e diz: "ah desisti de ir à Cuba", e eu digo: "sim senhor", e ele: "quem sabe você não vai sozinho?". E eu na frente dele: "sozinho? Ele: “É, aham". O que vou fazer? Não posso discutir com ele, não tem discussão. Discípulo é alguém que vai seguir um caminho porque quer chegar naquilo que o seu mestre tem para ensinar. É outra coisa.

Então tem três qualidades para o discípulo: silente, não resistente e obediente. Você tem que aceitar, silente, não resistente e obediente. Não dá para o mestre ficar lutando com o aluno para convencê-lo de alguma coisa.

Alguém já estudou música? Oh, tem um bocado de músicos! Qual instrumento? Só teoria? Vários? Quando eu era jovem tocava violino. Lembro que estava com um professor chamado Frederico Richter, ele disse que em um trecho de um concerto tinha que tocar determinado dedilhado. E eu perguntei: "mas esse outro dedilhado aqui não fica mais fácil? Ele parou um pouquinho e disse: "quando você for um virtuose, você toca do jeito que você quiser, mas enquanto estiver aprendendo comigo, faz o que estou falando, entendeu"? Recém está começando e quer achar que tem uma solução melhor que a que o professor  está ensinando...

Essa lição nunca saiu da minha cabeça. "A postura é essa, faça essa curvatura lombar". Já me aconteceu de chegar um rapaz e dizer: "acho que minha mão esquerda tem que ficar embaixo da direita pois sou canhoto". Não há condições de ficar discutindo cada detalhe. "Não gostei dessa posição." Você recém chegou, tem que esperar, daqui a quarenta anos você inventa alguma coisa nova, mas agora, não. Mas o que acontece com aqueles que passaram quarenta anos treinando? Eles não discutem mais. "Por que tem que limpar o prato com o pão se depois vai ser lavado?" Não é assunto para ser discutido. Professor disse que é assim, limpe o prato com o pão e coma o pão.

Quando a gente come com oryoki, a gente lava o oryoki com  água quente no final, passando de uma tigela para outra e depois, bebe. "Mas vou beber a água que lavei a tigela?" Só beba, não pergunte nada. Depois você vai descobrir, vai olhar e dizer: "eu comi e de tudo que comi, não sobrou nada, não foi nada para o lixo, nada foi poluir a natureza". Se todo mundo comesse assim, como seria? Seria completamente diferente. Isto são as questões da prática, da relação com o mestre e da questão da prática que é a iluminação. Quando vocês ouvirem "a prática é a iluminação", está certo, mas não confundam: a prática não é a iluminação. (Final da palestra de Monge Genshô, abre para perguntas)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Aluno não é discípulo





Retornando, nós temos um engano a respeito de "a prática é a iluminação". Isso é uma maneira de ensinar para desarmar aquele objetivo egóico. Mas na verdade, a prática é um meio e não é a iluminação, pois você pode ser muito bom praticante formalmente e não ter iluminação nenhuma. Às vezes a gente vê monges e ou praticantes e você pensa, "ah, ele tem tal graduação, chegou a tal ponto, está treinando há vinte anos". Aí ele grita com raiva ou ri das pessoas quando erram, ou qualquer coisa assim. Lhe falta uma qualidade compassiva. Na verdade, faltou algo. Porque a iluminação não é assim. Nós deveríamos procurar quem possa nos guiar no caminho do despertar. Então mestres de iluminação são raros. Nós temos que procurar denodadamente.

Quem viu aquele filme "Zen", sobre a história de Dogen? Lembram que ele vai à China procurando mestres e quantas vezes ele se desilude, a tal ponto de pensar em  desistir? Até que ele encontra aquele que nós recitamos o nome hoje, Tendô Nyojo, e ele vê em Tendô Nyojo um mestre que pode conduzi-lo. Ele fica com ele por cinco anos praticando. Mas ele já praticava desde os doze anos de idade, já era monge desde os doze anos de idade. Naquela época podia-se entrar num mosteiro muito cedo, um órfão como ele era. O problema não mudou, pois em mil duzentos e tanto Dogen já sentia isto e escrevia: “que lamentável que os monges de hoje não sejam como os antigos, que os mestre não sejam como os mestres de outrora". E lamenta a pobreza espiritual das pessoas que ele encontra.

Na verdade, essa é uma queixa de sempre. Sempre foi assim e continua sendo hoje. Nós temos que olhar com cuidado. Há um ditado do budismo tibetano "examine seu mestre por oito anos antes de aceitá-lo". Observe-o durante oito anos e depois de oito anos: "ah sim, vou aceitar este como meu mestre, eu realmente quero aceitar". É interessante falar um pouquinho sobre a diferença entre aluno e discípulo. Aluno não é problema, nesse momento todos vocês são meus alunos. Todo mundo sentou aqui e aceitou ouvir uma aula, não é? Então todo mundo é aluno e eu neste momento, professor. Explico, vocês aceitam. Você pode sair e dizer: "ah gostei disso, não gostei daquilo outro, não concordei com aquilo", não tem problema nenhum, você é aluno, vem eventualmente às palestras e só. Não há nenhum compromisso ou vínculo especial.

Mas discípulo é outra coisa.

Quando alguém diz: "eu queria que o senhor fosse meu mestre", eu entendo: "você está pedindo para ser meu discípulo". É uma relação mais próxima. Quer dizer o que? O aluno me acompanhará, estará sob a minha orientação constante, e o que eu disser não será discutido.  Se eu disser "esse chão é de madeira", você tem que olhar para o chão e dizer: "ele diz que é de madeira. Então minha concepção de cerâmica está errada. Cerâmica é madeira. Por quê ele disse que cerâmica é madeira? Vou ter que entender isso”. Mas não há uma contestação. Tem um "eu é que devo estar enganado, então vou pensar a respeito". Aí daqui a dois anos, se eu entender porquê cerâmica é madeira, digo: "ah, muito obrigado por ter me ensinado aquilo".