sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Bodhisattvas e a outra margem



Pergunta – Um monge é um bodhisattva?

Monge Genshô – Não exatamente, ele faz votos e tenta ser. Em muitas tradições existe uma distinção entre professor e monge.  O professor não precisa fazer os votos de monge. Nas escolas japonesas, há mais de cento e quarenta anos, os monges zen passaram a se casar, talvez por isso fique mais difícil distinguir o monge do professor nessas escolas. A maioria dos monges não é professor.

Em um monastério por exemplo, admitem-se muitas pessoas, porém, uma pode haver uma pessoa com grande vocação monástica, que pode trabalhar por exemplo, recolhendo lenha, mas que pode não ter o conhecimento necessário para ser um professor. Acontece às vezes de uma pessoa ter sido monge por um período, depois larga o manto, mas continua estudando e torna-se professor. O monge é quem faz os votos e encontra-se dentro de uma carreira sacerdotal.

Pergunta – E o bodhisattva, é?

Monge Genshô – O bodhisatva em uma tradução literal significa “ser iluminado (que gerou uma mente de compaixão)”. Satva significa ser, e bodhi iluminação ( decorrentemente compassivo). Alguém que se dedica a libertar os outros. Pode ser qualquer pessoa, não necessariamente um monge.

Pergunta – Mas, quando no budismo se fala de alguém que ajuda os outros a atravessar a margem da ignorância, ele faz isso de forma consciente. Isso faz com que ele seja igual a quem ele ajuda?

Monge Genshô – Ele faz o voto de não ficar na margem da sabedoria enquanto houver pessoas no lado da ignorância. Ele se sacrifica pelos outros.

Pergunta – Isso não significa um ser iluminado, ele apenas fez o voto de ajudar outros seres?

Monge Genshô – Um bodhisattva tem pelo menos um grau de iluminação. Quando nos referimos a Buda, falamos de uma iluminação completa. Um determinado grau de iluminação não é algo tão difícil de ser alcançado e significa que a pessoa atingiu uma grande compreensão, lucidez e clareza da mente. Mas isso é apenas o primeiro passo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Dilemas morais



Pergunta – Nós que temos então, que pesar entre o absoluto e o relativo, uma vez que não existe o certo e o errado?

Monge Genshô – Dependendo da circunstância as coisas mudam. Matar é errado, mas se para salvar cinquenta vidas você tiver que matar um terrorista, por exemplo, isso é certo ou errado? A princípio matar é errado, mas para produzir arroz há que matar, pois para cultivar o campo você vai matar alguns animais que estão na terra. Não é tão simples. Nos dilemas morais você pode aplicar um princípio que é: “qual o menor mal, para o maior numero de pessoas”? Sempre deverá haver um critério. Por exemplo, estamos num barco e para que o barco não afunde e todos sobrevivam uma pessoa deve pular na água, quem será? Qual o critério? Pode ser, por exemplo, o mais velho. Esse tipo de problema existe há muito tempo, não é verdade? Normalmente salvam-se primeiro mulheres e crianças. Por quê? Porque crianças têm mais tempo de vida e mulheres são progenitoras, são as que geram a vida, homens sempre foram vistos como mais descartáveis pois bastava um para garantir a sobrevivência da tribo, até hoje quando morrem homens são contados como números enquanto a expressão “mulheres e crianças” parece se referir a inocentes, como se eventualmente os homens não o fossem e suas mortes em guerras também não devessem causar horror. Nessas decisões sempre pesa um valor que sirva para toda a sociedade e não apenas para um indivíduo é isto que está por trás destas tradições. Não há resposta fáceis e um budista tem que saber que tem que decidir e arrostar o carma correspondente sem regras “fechadas”.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sim, há hierarquia de valor entre os seres



Pergunta – O carma pode ter um peso menor conforme o nível de esclarecimento da pessoa? Por exemplo, duas pessoas cometem erros que irão gerar carma, o mesmo tipo de erro, porém uma é mais esclarecida, seu nível de consciência é maior, o carma sofrido pelo mesmo tipo de ato será pior,  para a pessoa mais esclarecida?

Monge Genshô – As consequências serão diferentes. Quanto mais consciência, mais culpa e mais a pessoa terá a tendência a se punir. Quanto mais inconsciência, menos consequências morais. Um índio, por exemplo, que vive na floresta e necessita caçar para alimentar sua família, é diferente de uma pessoa da cidade. Mas o ato em si tem um peso por si mesmo, ou seja, mesmo que você não esteja consciente que seu ato é errado, ele gera consequências. Pode não ser a mesma consequência de alguém que se sinta culpado, mas o ato gera consequência da mesma forma. Outra coisa importante é que o fato de você não se lembrar do ato, não significa que não sofrerá as consequências.
Há um detalhe que parece difícil para as pessoas entenderem, existe hierarquia entre os seres. É diferente você matar um médico que salva vidas ou matar um assaltante. Tanto maior é seu crime, quanto maior o prejuízo que você causa à sociedade ou ao mundo como um todo. Algumas pessoas pensam que matar é igual, não é. Por exemplo, quando você vai ao banheiro e lava suas mãos está matando bactérias. Qual o peso dessa sua ação? Baixíssimo, pois é mais importante que você tenha suas mãos limpas para não contaminar outras pessoas. Por isso existe uma relação de grandes crimes que causam grande marca cármica, matar o pai, matar um Buda, ferir um Buda ou um Bodhisattva e causar cisão na sangha.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Viver no presente



Um grupo de criminosos invadiu o templo de um mestre zen, e revoltados com sua religião que não falava em deuses nem almas nem espíritos ameaçaram decapitá-lo. O mestre lhes respondeu:
-  Está bem, mas por favor esperem até a manhã, tenho um trabalho a terminar.

Passada a noite,  tendo bebido chá e desfrutado dele escreveu o mestre um poema simples em que comparava sua decapitação com uma brisa de primavera e a oferecia aos fanáticos como um presente.
Em poucas palavras, o mestre compreende bem a prática do zen.

Nos custa entender esta história porque estamos muito apegados em manter nossa cabeça em cima dos ombros. Não nos interessa em absoluto que nos cortem a cabeça. Queremos que a vida vá como desejamos. Se ela não vai como queremos nos revoltamos e ficamos confusos. Experimentar estes sentimentos não é mau em si mesmo mas a quem interessa uma vida dominada por eles?

Quando deixamos de prestar atenção ao momento presente e caímos na versão de  "tenho que fazer do meu jeito" se cria uma brecha em nossa consciência da realidade neste exato instante. Por esta brecha entra todo o mal de nossa vida.  Criamos uma brecha assim atrás da outra durante todo o dia.
 O objetivo da prática do zen e fecha-las, reduzir a quantidade de tempo que passamos ausentes, amarrados a nosso sonho egocêntrico.


La vida tal como es-Enseñanzas zen
Charlotte Joko Beck con Steve Smith
Ed. Gaia-2008
(adaptado por Monge Genshô)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Pena de morte



O Prof. Dr.  Ricardo Mário Gonçalves, Rev. Shaku Riman, escreveu há tempos este texto do qual posto uma parte:

"Não tenho a mínima competência para opinar em questões jurídico-penais, mas talvez possa oferecer um modesto contributo discutindo princípios gerais:
1.1.Pena de morte: aos que defendem a aplicação da pena de morte invocando um pretenso poder dissuasório da mesma, quero lembrar a cena de abertura do livro Surveiller et Punir (Vigiar e Punir) de Michel Foucault, um dos mais importantes filósofos do século XX. Numa praça de Paris, em meados do século
XVIII, está sendo executado através de torturas horripilantes um pobre diabo que ousou atentar contra a vida de Luís XV. Enquanto a multidão Assistia o bárbaro espetáculo, os punguistas circulavam alegremente pela praça, aliviando os espectadores do peso de suas carteiras. Ou seja, a pena de morte não inibia ninguém. O que inibe não é a pena de morte, mas sim, como nos ensina o filósofo legista chinês Han Fei-tse (280-233 a.C.), a absoluta certeza de que todo e qualquer delito será punido.
1.2.Rigor e Misericórdia: Como deverá ser uma punição? Quero aqui tomar de empréstimo à Santa Kabbalah ou Tradição Secreta de Israel (como dizia Fernando Pessoa) os conceitos-chave de Rigor e Misericórdia. Uma pena terá de apresentar um justo equilíbrio entre essas duas colunas, ou seja, ser suficientemente rigorosa para o delinquente tomar consciência do mal que fez e se sentir punido por causa do mesmo, e misericordiosa no sentido de ajudar o criminoso a se regenerar e trabalhar por sua reinserção na sociedade. Como
conseguir isso na prática? Que alguém mais competente que eu nessas questões apresente suas opiniões e sugestões.
2.O conceito de karma, para ser utilizado hoje, precisa ser desmitologizado, isto é, aliviado do peso inútil de seu "entulho mitológico". Karma significa, basicamente, o conjunto das ações, palavras e pensamentos humanos mais suas consequências. Em termos modernos, isso seria historicidade. O homem é ao mesmo tempo produto de uma história e agente a colaborar na construção da mesma. A historicidade nos mostra que todos somos, de alguma forma, corresponsáveis (ainda que não necessáriamente culpados) por todo o
mal que ocorre na sociedade. Propor algo como a supressão das penas em nome do karma seria como tentar fugir ao dever de participar na obra coletiva de construção do devir histórico. É exatamente punindo os criminosos que se participa da obra do karma, e não fugindo a esse dever.
3.Foi lembrado, com muita propriedade, durante a discussão, que, quando, por ocasião de um críme bárbaro, clamamos pelo agravamento das penas, está em ação o sentimento de vingança. O ciclo sinistro das vinganças sucessivas (vendetta) foi a mais antiga lei das sociedades humanas e seus resquícios ainda não desapareceram totalmente... O que é a prática americana de se convidar os familiares da vítima para assistir a execução do criminoso senão uma sobrevivência da vendetta? Entre os samurais do Japão pré-moderno a vendetta, sob a denominação de kataki-uchi, era uma prática institucionalizada e regulamentada. Sobrevivências da vendetta também estão presentes na sharia, a lei islâmica.
A Lei Escrita e as instituições jurídicas surgiram para, entre outras coisas, fazer cessar o ciclo sangrento das vinganças sucessivas, ficando a tarefa de punir os crimes a cargo de uma instância superior a agressores e
agredidos. O antropólogo Pierre Clastres mostra-nos como, em casos extremos, o ciclo de vinganças pode se exacerbar a tal ponto que culmina pela destruição do grupo social.
4.No Budismo é pregado um caminho para a superação da vendetta:
Porque neste mundo, ódios jamais cessam pelo ódio,
Mas eles só cessam pelo não-ódio;
Isto é um antigo princípio natural. (Dhammapada I, 5.)

.........
Gasshô,
Shaku Riman"

Prof . Ricardo Mario Gonçalves" (2004)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Liberdade e ofensa

 


É um erro declarar que liberdade não inclui a liberdade de ofender, afinal quem decidirá o que é ofensa ou não? Como dissociar esta declaração de uma defesa da censura prévia? Mesmo que algo seja absolutamente de mau gosto e pornográfico qual será o tribunal a decidir isto?  Como teremos imprensa livre se cada grupo e religião tem seus critérios à respeito do que é ofensivo ou não? Eu posso saber no meu quadro referencial mas e quanto ao quadro referencial dos outros?

Um mulá islâmico tem uma idéia bem diferente de um padre do que é insulto a fé. Se queremos uma imprensa livre não poderemos ter censura de espécie alguma, se houver injúria, difamação ou calúnia elas devem ser tratadas a luz da lei de reparações posteriores. Qualquer um que pretenda restringir isto apelará para seu quadro referencial e tentará impor seus valores aos outros, isto é o fim da liberdade tão duramente conquistada pela civilização.

Para um budista não há nada que precise ser visto como insulto, somos nós que nos ofendemos, os outros emitem sons que nós interpretamos como tal, um cão a ladrar com fúria nada mais é que um emissor de sons. Não há sentido em reagir com um murro a quem ofenda com palavras nossa mãe, não dar importância alguma é uma resposta mais sábia.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Apenas um passo de cada vez



Pergunta – O senhor falou sobre o Dharma e confesso que ainda não encontrei verdadeiramente esse caminho. De onde tirar forças para não perder a esperança?

Monge Genshô – Não se preocupe em ter forças seja para alcançar algo ou para continuar no caminho. O melhor é não ter objetivos. Agora temos duas monjas indo para o Japão para um período de treinamentos e eu sei que é difícil se manter estimulado a continuar. No monastério não se tem privacidade, a agenda nunca cessa, os horários são rígidos, a comida é estranha para nós, o sono é pouco, falar é restrito e  isto continua por meses.
 O segredo é não pensar no dia de amanhã e viver só por hoje, pensar, “Só hoje, até o fim do dia, irei tentar ficar”. Se acontecer um erro, não há problema, errar é normal, não devo exigir demais de mim e muito menos ter grandes esperanças. Apenas aceite o momento. Para andar na vida, não pense em ser forte, apenas dê um passo de cada vez. É como quando estamos em retiro e começamos uma sessão de Zazen. Se ficarmos pensando em todos os Zazen que teremos pela frente, que em geral são doze em um dia de retiro, nossa mente pode não suportar. Devemos pensar, “Vou ficar sentado até tocar o sino e terminar esse Zazen”.  Quando você faz assim, rapidamente chega o final do retiro e a sensação muda, você quer que continue, não deseja mais ir embora. Não se preocupe em ter forças, apenas dê um passo de cada vez.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Lugares e ambientes



Pergunta – É comum escutarmos as vezes comentários do tipo, “nossa, que ambiente carregado!” como o budismo vê isso?

Monge Genshô – Isso pode ser sentido quando entramos numa sala onde pessoas estejam discutindo ou brigando.  Mesmo que todos estejam calados no momento em que você entra, você sabe que algo errado aconteceu.  Do contrario também acontece quando você entra num local onde impera a harmonia e o amor. Mas isso vai depender da sensibilidade das pessoas. De qualquer forma isso pode ser mudado. Tudo é possível de ser alterado e para isso temos a pratica do Zazen, ou se você tem outra crença religiosa e entra numa catedral, por exemplo, você se sente bem.  É preciso que entendamos que a prática muda os lugares e as pessoas, por isso não é uma tolice praticar. A gente sabe muito sobre um lugar apenas por estar nele. Estive uma vez em Dachau, um campo de concentração nazista que fica perto de Munique que continha câmera de gás, locais para tortura e crematórios. Até hoje esse local é conservado em forma de museu. Quando os visitantes chegam é possível ver até restos de ossadas humanas nos fornos. É impossível entrar num local desses e não sentir o peso da violência e das mortes ali ocorridas. Estive visitando esse campo de concentração com um grupo de pessoas e quando saímos dali nos sentamos num café e nenhum de nós conseguia dizer nada, ficamos silenciosos por horas. Por outro lado, existem locais onde coisas muito boas são realizadas, por exemplo, a medida que entramos aqui nessa casa e vamos praticando, sempre falando sobre coisas boas, existe a presença do Dharma e toda essa atmosfera de paz, vamos também sentindo que o local é de paz, o local vai se modificando e ficando impregnado desse clima.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A pedra no bambu


(continuação palestra Monge Komyo, Goiânia, outubro/2014)

Monge Kômyô:  O empenho na prática contemplativa tende a formar e a criar em nossa mente cada vez mais esse acúmulo de energia, de percepção, de consciência, de forma e, cada vez mais durante as nossas vidas em vários momentos, podermos ter a chance de ter descoberto algo a mais. A descoberta que eu tive quando era novo em relação à dor no corpo foi, evidentemente, graças ao fato, apesar de toda a dor nas costas e tudo mais, de que eu conseguia acumular energia e consciência suficientes para, em determinado momento, um acontecimento desencadear uma experiência. E no Zen, esse tipo de situação é muito comum.

É como numa estória Zen, num conto em que um monge conseguiu atingir um estado de plena consciência porque ele estava varrendo a varandinha do eremitério dele e uma pedrinha bateu na vassoura. A pedrinha rolou e bateu no bambu e o barulhinho do bambu, “puc”, “click”. Várias pessoas não entendem, como pôde o barulhinho do bambu fazer uma pessoa atingir um estado de plena consciência. Não é o barulhinho do bambu, é um acumulo de energia de consciência, ao longo de anos e anos de esforço. O barulhinho do bambu foi o gatilho final, como eu mostrei hoje de manhã, grande parte da experiência contemplativa do Zen é sensibilidade para perceber os detalhes. A beleza das experiências às vezes pode ser apenas as cigarras cantando no amanhecer. Às vezes mosquitos voando na minha cara. A mente atenta capta a experiência, qualquer que ela seja. (Fim)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Paixão e amor

(continuação da palestra de Goiânia, out, 2014)

Monge Kômyô: O complexo de tendências da mente de se perder em projeções passionais não é pequeno. Até porque a nossa vida infelizmente é construída a partir desse tipo de interpretação das coisas. Vivemos num mundo em que a excitação é o norte, não é? Tem que haver algo que puxe a gente. Eu às vezes ouço muitas pessoas falando que elas viram alguém muito bonito ou muito bonita e está morrendo de amores por aquela pessoa. Uma coisa muito comum entre nós é confundir paixão com amor. A paixão é um impulso, não é? É um momento em que nossa mente entra em contato com algo que excita, causa desejo, causa expectativa de experiências excitantes. Criamos uma identificação, um apego, projetamos expectativas e formamos a paixão. O amor é uma experiência de integração e de contato, de troca, de grande capacidade de reinvenção todos os dias, de uma convivência. E o amor, o amor mesmo, por pessoas, ele não acaba, pode ser até que você se separe da pessoa por algum motivo, por circunstâncias, mas se há amor ali, sempre vai haver um vínculo. 

Você nunca vai dizer daquela pessoa: ‘ah, eu odeio ela agora, ela é horrível”. Se você diz isso é porque nunca houve amor, “eu amava ela antes, mas agora”... Entenda que o que eu digo é que o contexto da experiência amorosa é algo que por sua própria sutileza, transcende  circunstâncias ou possibilidades de convívio. É muito estranho falar assim, não é? E a gente imagina como é possível você amar alguém e de repente não conseguir por exemplo, mais viver com aquela pessoa,  por circunstâncias, dificuldades. Mas a experiência de amor é algo mais profundo, daí que, a experiência amorosa, dificilmente é uma experiência egoísta. Então, você não ama uma determinada pessoa, você simplesmente ama, você é capaz de amar. Aí você convive com uma pessoa e se entrega a ela e tem relações ótimas de convívio, diálogo, amizade, e você diz: eu amo essa pessoa. Mas o amor em si é uma experiência ampla. E a experiência amorosa reflete o conceito da experiência contemplativa de ser integrativa, de ser inclusiva.

Então a experiência contemplativa determina que, mesmo diante de circunstâncias inesperadas, você não entra em conflito, você consegue lidar, trabalhar com a sua mente, mantê-la equilibrada e tranquila. Então, isso significa também não entrar em conflito com os mosquitinhos, é respeitá-los e não querer matá-los. Sobre o contexto fundamental da experiência contemplativa, eu amo os mosquitos, e tento afastá-los da minha cara, mas eu amo os mosquitos.

Temos aqui, a base da não-violência no budismo, que um tema, aliás, muito difícil. Eu já dei ao longo dos anos algumas palestras sobre não-violência e não teve uma única palestra dessas que não tivesse sido difícil. Muitas pessoas têm dificuldade de entender esse conceito de não-violência. Eu não sei como é aqui em Goiânia, mas eu sou do Rio de Janeiro, uma região com vários exemplos de violência, aspectos tristes. Mas a questão não é de não-violência apenas, é tudo. É conseguir colocar a nossa mente de forma que ela possa se integrar, compreender e descobrir meios adequados para lidar com todas as coisas. Daqui a pouco a palestra termina, nós vamos sair daqui e os mosquitios vão ficar por aqui. Se eles se tornarem excessivos, muito intensos, não tem problema, vamos terminar a palestra aqui, e vamos para outro lugar mais confortável para continuar, nenhum problema. Não há problema! Não é necessário se aborrecer, criar conflitos na pretensão que vai resolver a questão. E isso não é algo que possa ser feito com a gente se obrigando a fazer. É preciso surgir isso na nossa mente, daí vem o tempo e o esforço.
(continua)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Mantendo o Foco




(Continuação da Palestra de Monge Komyô em Goiânia, outubro/2014):

Eu falei hoje mais cedo que o ZEN é muito direto e não finge, não disfarça as coisas. Então as dificuldades, os nossos sofrimentos e obstáculos, eles não devem disfarçados, nós temos que saber enfrentá-los, encará-los com uma mente atenta. É possível fazer isso e manter o foco. Aqui, na nossa capelinha linda, tá cheio de mosquitinho, tô vendo um ninho aqui, mas eu tomei banho. Eu estou limpinho. Muitos mosquitinhos estão entrando no meu ouvido, estão aqui, às vezes, tem que tomar cuidado para não engolir um, ou entrar no meu nariz. Eu fico, aqui, espantando. É assim a vida. A vida é impermanente. As coisas acontecem, a gente não planeja. Só que a mente condicionada, pode começar a ficar muito preocupada com os mosquitinhos e aí ficar irritada, e se desconcentrar, para vocês talvez, seja até um trabalho mais intenso se alguém tiver com esses mosquitinhos em volta. Vocês estão ouvindo. Eu estou trabalhando aqui a minha atenção para falar, isso ajuda um pouco mais, talvez. Mas isso pode acontecer lá no zazen, pode ser um mosquitinho, ou outra coisa. E, qualquer elemento externo pode ser um fator que faça com que a nossa mente condicionada, o nosso eu, pule para fora. Ops. Mosquitinho, mosquitinho, mosquitinho, mosquitinho, né. É possível manter o foco, seja com uma dor física, seja com mosquitinho. Mesmo espantando os mosquitinhos. Mesmo os mosquitinhos entrando no ouvido. 

 O foco é um exercício de reestruturação, reeducação de nossa consciência, de nossa percepção. O sentar e meditar ou praticar a plena atenção à respiração, em todas as ações é a forma de trabalhar a nossa mente para chegar a esse ponto. Com o tempo, a mente consegue lidar com as situações com um grau cada vez menor de stress. Como eu falei de manhã, os problemas irão continuar a acontecer, os mosquitinhos vão continuar. Eles não entendem simplesmente que eles estão errados. Eles estão funcionando dentro do instinto deles, são insetos, o que está errado com o mosquitinho? Ele não está fazendo isso de propósito.   

Durante a prática, a melhor forma a trabalhar essas questões, pensamentos desviantes, desconcentrações, a dificuldade de manter o foco, é continuar trabalhando a concentração, a atenção à respiração. A respiração determina grande parte das nossas emoções, nos nossos modos de ação. Se nós estivermos desbalanceados, a tendência da nossa respiração é ser muito rápida. Observem se vocês conseguirem, quando estiverem irritados, como a respiração fica mais intensa. Quando nós estamos excitados a respiração fica mais intensa. A experiência do zazen é fazer com a mente aprenda a se concentrar dentro de contextos que são claros e diretos no agora, as coisas como elas são.  Não há subterfúgios, não há ilusões. Se uma pessoa, por exemplo, gosta muito de futebol, gosta muito, é fanático por futebol, essa pessoa pode ir a um estádio assistir um time que gosta, e ficar lá horas atenta à bola no campo, sem qualquer esforço maior, mesmo que seja de uma forma distorcida, a mente consegue entrar num nível de concentração. Mas é uma concentração falsa porque ela é baseada na excitação. Daí que, experiências de foco a partir da excitação e de aspectos passionais, tende a levar à emoções intensas e, em geral, ao stress. 

 Eu costumo comentar que até mesmo o sujeito que está pulando carnaval lá atrás do trio elétrico, embora ele pareça que esteja lá realmente muito feliz e alegre, ele não está! A mente dele está em grande foco de insatisfação. O que há ali é um aspecto de experiência, extremamente excitante e passional, mas não há tranquilidade na mente. Aquela alegria ali, é aparente. 
(continua)



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O não-eu


(continuação de palestra em Goiânia)
Monge Kômyô:  O não-eu é uma experiência em que as barreiras caem. Quando nós estamos meditando quem atua ainda é o eu. Então à par das dificuldades físicas, temos também nossas dificuldades mentais, é difícil manter a concentração. Uma característica da mente egóica, tem a ver com a necessidade do eu sempre encontrar algo que o excite. Algo que faça com que ele sustente a ideia de que a experiência de convivência de tempo e de espaço está passando em função de algo que chama atenção. Nós ficarmos sentados em silêncio em um ambiente fechado é extremamente maçante para o eu, e aí ele começa a querer fugir e a forma em que o eu foge é o pensamento. A construção da nossa da mente,  é um dialogo interno, nós usamos palavras na cabeça, embora a palavra seja, na verdade, um código de expressão, não seria necessário a palavra na mente. A palavra é uma expressão física, a correta colocação de certos sons que provocam a construção de um conjunto sonoro que nós interpretamos e definimos de uma certa forma por comum acordo, que estamos falando português. Se eu falasse, sei lá, grego, e ninguém aqui falasse grego, vocês só conseguiriam perceber os sons, mas o significado, ficaria todo na nossa mente.
Nós falamos. Isso é um reflexo do condicionamento intenso que a mente egóica, a mente mais superficial tem, em relação ao aspecto concreto da mente. Durante o Zazen, portanto, a tendência da nossa mente é tentar fugir dali, é muito chato aqui, não está acontecendo nada aqui, vou tentar me excitar com outras coisas, vamos imaginar alguma coisa. Na problemática, na questão da experiência contemplativa do zazen, há ensinamentos no Abidharma sobre o “pensamento base” e a ”consequência”, e eles atuam como muita intensidade durante o zazen.  Para entenderem o que é o pensamento “base”,  vamos fingir, que aqui seja cabível. Digamos que você esteja fazendo zazen e de repente , surja na mente o pensamento: “quando eu terminar de fazer o zazen, acho que vou passar na padaria para comprar um pão, porque quando chegar em casa quero fazer um sanduíche”. Esse é o pensamento base. É um tema e a mente condicionada, logo depois que tem um pensamento base, você começa construir pensamentos de consequência, do tipo: “Que padaria que eu vou? Acho melhor ir próximo da minha casa; Ah, mas eu não gosto daquela não; O pão de lá não é bom; Acho que vou tentar naquela outra; Que pão que vou comprar? Acho que vou comprar pão francês, não, vou comprar pão de forma, comprar pão de forma integral, vou aproveitar também e comprar uma geleia. Acho que não tem geleia lá em casa”.
Percebam, vocês acabaram de esquecer completamente de fazer zazen e agora estão indo na padaria comprar pão. É assim que atua o pensamento. Existe um jogo de pensamento base e a mente condicionada já está querendo arrumar um motivo para fugir, ela começa construir uma estória. Pode ser uma recordação do nosso passado. Pode ser alguma coisa que nós estejamos planejando para manhã quando terminar o retiro, ou qualquer outra coisa. Pode ser, até mesmo, uma situação ocorrendo no momento mas que a sua mente pega e usa para elaborar uma cadeia de pensamentos. E aí, nesse momento, o que que acontece? Esquecemos do agora. O eu esquece do agora, ele finge que ele não está mais ali, porque ali é chato! E porque para o eu condicionado é chato estar ali? Porque o sentar em meditação é uma forma de você trabalhar a capacidade de observar a si mesmo, observar os mecanismos do eu e revelar para você mesmo aqueles aspectos do seu próprio eu que não são saudáveis e que estão lhe condicionando a fatos, a experiências, a ações que no fundo causam insatisfação. Ou seja, há todo um trabalho do processo meditativo na experiência meditativa que tende a ameaçar o controle ditatorial do eu.
Subconscientemente, o nosso eu condicionado que tem um padrão de hábito, também ele, reage contra isso, porque no fundo, no fundo, o nosso eu tem medo, porque a compreensão da relatividade da nossa identidade pessoal é experimentada para o eu condicionado, como se fosse uma morte. O eu tem medo de morrer. (continua)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A função do eu



Monge Kômyô:  O que é o EU? O “eu” é um composto, sob a ótica budista. Esse composto pode ser subdividido em 5 fenômenos, 5 aspectos que juntos vão compor uma identidade pessoal. Pensamentos, percepções emocionais, formações mentais, consciência, todas essas reunidas em uma forma, um corpo. A bem da verdade, o fenômeno é um binômio mente – corpo. Mas a mente nos ensinos de Buda é, digamos assim, subdividida em 4(quatro) principais fenômenos.
A identidade pessoal é um construto, no que diz respeito à nossa vida. O eu é necessário, não é supérfluo. No samsara o composto está numa personalidade, na sua funcionabilidade, o eu tem a sua função também, como tudo na existência. O fato dele ser um artifício, não significa que no plano psicológico, psicoemocional, o eu não tenha uma função.
A problemática do eu é que ele era um guardião que se tornou guarda. Era um protetor que se tornou um ditador.  Às vezes dizem que nós temos que aniquilar o eu nós temos que acabar com o eu e isso não é muito correto! O eu como construto, é o próprio fenômeno da existência traduzido nesse artifício chamado eu, e ele possui camadas. Na experiência contemplativa há um momento em que nós podemos entrar em contato quando conseguimos derrubar as camadas superficiais e condicionadas do nosso eu. Entramos em contato com o que se chama “o verdadeiro eu”, sendo que na linguagem ZEN é chamado de “não-eu”. O termo para nossa mente, mente mais cartesiana, mais racional, parece um termo negativo,  “não-eu”, e aí pode-se imaginar,  claro, naturalmente, que se tem que acabar com o eu. Mas o não-eu é uma definição para um estado de percepção profunda em que os artifícios não saudáveis do eu condicionado, são superados. Daí que o “não-eu” é uma experiência de integração com o todo. ( continua )

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Sati, o esforço



(Palestra em sesshin, Goiânia, outubro 2014)
Monge Kômyô:   Nós estamos percebendo que a prática tem ficado mais difícil na medida em que o tempo, o dia vai passando né? Ainda que o retiro sob a ótica da tradição dos Sesshins Zen está bastante leve. Mas eu compreendo que naturalmente, a sequência de zazens exige do corpo e da mente. Isso é compreensível, é natural, eu peço a todos que mantenham um aspecto importante na pratica que é sati, o esforço, não desistam, mesmo que estejam com dificuldades se arrumem, procurem se colocar de uma maneira melhor, mas confiem que mesmo que pareça que vocês não estejam fazendo nada, quer dizer que, a dor ou a distração seja muito grande e você pensa: “eu não estou conseguindo praticar”, isso aqui não serve para qualquer coisa, não é verdade!
Existe uma qualidade na experiência contemplativa que é, podemos dizer assim, de acúmulo de consciência. Tudo depende da intenção. Se temos uma intenção firme, a despeito de problemas ou limitações, nós estaremos experimentando um acúmulo de consciência, mesmo que não seja claramente perceptível. Eu comecei a praticar e a minha introdução ao zazen foi muito novo, eu tinha em torno de 16 a 17 anos, isso foi no inicio dos anos 80 e naquele período eu estava muito empolgado em começar a fazer o zazen porque eu achava que ia conseguir desenvolver poderes paranormais, estou falando sério, que eu ia sair do corpo, fazer viagem astral, desenvolver  a capacidade de telepatia. Eu estava muito empolgado para praticar meditação Zen. E o que veio foi uma dor nas costas muito grande, isso sim. Era uma dor ardência e, com toda honestidade, naqueles primeiros períodos, era a experiência que eu tinha. Era como se as minhas costas estivessem literalmente pegando fogo. Era muito difícil! Isso não durou alguns meses, foram anos.
Na verdade eu nunca pensei em parar, mas a experiência da dor era muito intensa. Mas depois de uns, eu não me lembro direito, talvez entre 3 e 5 anos, eu não me lembro depois de prática, ocorreu um evento, banal, mas que me deu um insight, despertou em mim uma das minhas primeiras aprendizagem do Zen. Na aprendizagem prática eu estava lá no zazen, minhas costas estavam em fogo e brasa, e em determinado momento pousou no meu braço um mosquito. E o que ocorreu foi que no momento que o mosquito pousou no meu braço ele começou picar, a dor nas costas acabou na hora e agora o problema era o mosquito. Não tinha mais dor nenhuma nas minhas costas. A minha encrenca agora era com o mosquito! Nesse momento eu tive uma grande percepção. Não de que o nosso corpo tem limites, quando a gente entra em certos limites do corpo, e ele responde demonstrando a exigência, mas a questão não é essa, a questão é que grande parte da experiência de desconforto, por mais que possa não parecer, está na mente. A mente exacerba aquilo que já é físico. A partir daquele ponto eu consegui superar o desconforto nas costas de tal maneira que hoje em dia, já há alguns anos depois daquela época, eu poderia ficar em zazen durante horas e horas. Eu simplesmente não sinto mais dores nas costas. O máximo que eu sinto hoje em dia se for um grau para ficar muito tempo, sei lá, mais de uma hora ou uma hora e pouco, é um pouco de dormência, às vezes, na perna. Evidentemente, existem pessoas com problemas físicos graves, problemas no joelho, problemas na coluna, que precisam lidar com a prática de maneira mais adequada, e como eu falei hoje de manhã, essa é minha experiência, apenas estou compartilhando com vocês. Vocês todos, cada um de vocês, tenham as suas próprias experiências. Mas o que eu quero chamar atenção é que embora apareça impossível, não é impossível! Embora pareça que vocês estejam realizando nada, vocês não estão realizando nada. Vocês estão conseguindo obter mais potencial de consciência, simplesmente mantendo sati, o esforço. (continua)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A prática é a iluminação? Sim e não.

 

Dogen Zenji diz que a prática já é iluminação, o que é uma maneira de dizer que não devemos ambicionar nada para nós através da prática e que desejar a iluminação é o mesmo que tentar adquiri-la, um objetivo egóico. 
O que não quer dizer em absoluto que por fazer qualquer prática você é um iluminado. Resumindo: ao sentar para fazer zazen você é um iluminado, quando você levanta é o mesmo idiota de sempre e se sair dizendo que obteve a iluminação você mergulhou em uma pior ilusão do que a anterior, um sonho de grandeza pessoal, parecido com o de um Bonaparte de hospício. 
 Quanto a todos os seres possuirem ou terem natureza búdica o significado é simples, BUD é a raiz sânscrita para  "acordar", todos os seres que estão dormindo tem a natureza dos seres que acordam.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Para o ano novo



Peço desculpas, mas não vou desejar bom ano novo. Não irei desejar um ano novo ruim, tampouco.
Vou ficar aqui, à espera, olhando o sol passar pelo dia e a lua surgir no horizonte para anunciar a noite.
Mais um dia irá passar, e sua passagem será o início do resto de nossas vidas.
Não irei comemorar um novo ano. Pois, de fato, o que faz um ano se tornar velho e outro ser um horizonte de desejos e anseios? A cada dia, um ano inteiro se passou e novo ano começa. Portanto, por que esperar que um dia - um mero e comum dia - seja mais significativo do que todos os outros?
Diz o meste zen Eihen Dogen: "se há uma separação da mera espessura de um fio de cabelo entre o céu e a terra, então é como o infinito abismo a separa-los". Da mesma forma, se há uma separação de um décimo de segundo, então é como o golfo da eternidade a separar o passado e o futuro.
Não, não irei separar nada! Não irei criar a ilusão de uma distância, o conflito de uma diferença entre o ontem e o amanhã.
Vou continuar. Vou assumir que ainda não realizei objetivos, mas que já conquistei muito em mim mesmo; que perdi entes queridos, mas que ainda abrigo em meu coração o mérito de possuir bons amigos e belos amores.
Vou admitir que estou envelhecendo, mas que aprendi a rir e celebrar como as crianças; que estou amadurecendo em discernimento e consciência, mas que também esqueci de confiar mais na sutil sabedoria implícita em minhas próprias ignorâncias; que acertei muito, mas que também errei bastante.
Entre o céu e a terra, se há a distância de um fio de cabelo, é como um infinito abismo de separação. Entre um ano passado e um ano futuro, se existe a divisão de um mero segundo, é como se eu jamais fosse íntegro em minha história de vida.
O tempo é o rio do Tao, e nossa vida segue una enquanto vivemos. Não se prenda ao passado; não anseie o futuro. Assuma, corajosamente, o seu AGORA. Não crie sonhos para um tempo depois. Aja, agora, sem guardar promessas vazias.
Entre o Ontem e o Amanhã, mesmo que haja a lacuna de um mero segundo, o Hoje permanece.
Celebre o Agora. E, sem ansiar por se tornar outra pessoa em um futuro vazio, seja o melhor de si mesmo neste exato momento.
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Separação, dezembro 2012 (revisado em 2014)
Monge Kōmyō

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O apego a ritos e textos



4) Em relação aos sutras, é importante mesmo recitá-los em chinês arcaico? Há alguma diferença?

As cerimônias são interessantes. Algumas pessoas são mais impactadas por elas e outras menos. Nós recitamos em línguas antigas para você ficar presente no que está fazendo. O fato de você ficar recitando uma coisa que aparentemente “não tem sentido”, faz com que sua mente esvazie. Então o sentido é sem sentido.

Se você quer “entender” a mensagem do sutra, você o escuta na sua língua e compreende. “Ah, ele quer dizer isso”. Você vai raciocinar com sua mente e tentar entender logicamente a mensagem, mas isso não é iluminação, isso é conhecimento. E conhecimento não é sabedoria. São coisas diferentes.

Então a prática das cerimônias é útil, e o cerimonial em si ele tem um sentido de: “ah, vamos estabelecer uma maneira de fazer o ritual, e é essa aqui”. Cada templo acaba estabelecendo a sua, e então tenta-se fazê-lo perfeitamente, porque não vai dar para se pensar mais em nada, pois você está só ali.

Mas isso também é uma “coisa criada”, também é uma fantasia, um meio hábil. Então  há um ensinamento no budismo que diz assim: “um dos obstáculos à iluminação é o apego à ritos e cerimônias”. Um dos principais obstáculos à prática. Alguns monges começam a adorar fazer cerimônia, não gostam de fazer zazen mas amam cerimônias e adoram corrigir os erros dos outros.

Então, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Cerimônias são importantes, conhecimento é importante, mas você precisa das duas asas para voar, conhecimento e prática. Porem se tivermos que escolher, devemos escolher a prática, porque de eruditos que sabem de muitas coisas, nós estamos cheios, de ritualistas mais ainda. Há gente que acha que estudar o budismo é dizer: “ah em sânscrito a palavra quer dizer isso e aquilo”. Aí vem outro e diz: “não, não, tem essa sutileza aqui, porque em páli o autor tal diz isso e aquilo”, e começam a discutir esses detalhes. Parecem os bizantinos, que discutiam quantos anjos podiam caber na cabeça de um alfinete. Isso é inútil para o despertar, do ponto de vista do zen completamente inútil.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Aqui, neste momento


2) Dentro do que o Senhor está falando, o mais importante então seria estar no presente, independentemente de onde você esteja?

Monge Genshô: Considere que você pode estar em zazen (meditação sentada) e não estar fazendo zazen coisa nenhuma. Pode sentar e ficar lá o tempo todo pensando e elaborando um monte de coisas. Você não fez zazen. Porque zazen é ficar aqui, neste momento. Se você senta em zazen e consegue ficar alguns minutos realmente aqui, já é uma grande coisa. Se você consegue ficar 40% do tempo do zazen realmente em samadhi (concentração sem julgamentos), isso é ótimo, porque é muito difícil.

Ninguém precisa me contar aqui que na realidade ficou sentado fazendo coisa que não era zazen. Eu sei. Eu sei que é assim. Então o mais importante realmente é conseguir acessar este agora, estar realmente aqui.

3) Eu me percebi ultimamente, talvez, dentro de uma armadilha. Durante a prática fui relaxando e percebi minha mente muito inquieta e eu me questionei, porque quando eu tenho uma prática mais regular eu realmente me sinto mais acomodada, então eu vi um certo jogo dentro de mim.

Monge Genshô: Nem os mestres mais adiantados param de sentar. Ninguém para de sentar, você continua fazendo isso porque estabiliza a sua prática. E nada estabiliza mais a prática que um sesshin (retiro) de verdade. Porque não é como um zazenkai (dia de zazen). A gente acorda as 4 da manhã, às 4:20 estamos sentados e aí começa: zazen, kinhin, zazen. Café da manhã, cerimônia. Samu, trabalho. Acabou volta, zazen, kinhin, zazen. Palestra, zazen, kinhin, zazen. E assim vai indo. De tarde a mesma coisa, até as 22 hs. Quando você vê, fez em um dia 16 zazens de 40m.

Aí a mente muda muito. Porque você acumula prática. Fazemos até 7 dias seguidos. Zazen todo dia, sem parar. Tem até um monastério no Japão, Antaiji, que é famoso porque não faz mais nada nos retiros, zazen sem parar, só 6 horas de sono por noite.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Eu não sou assim...



(continuação)  Monge Genshô: Uma vez, 20 anos atrás, um homem num posto de gasolina desceu do carro para brigar comigo por um lugar em uma fila, também desci para não ser agredido sentado mas disse, “não, tudo bem, o senhor pode ir na frente, eu troco meu carro de lugar”. Então peguei meu cartão de apresentação, fui até o carro onde ele havia voltado a entrar entreguei e disse: “vamos transformar isso numa coisa boa”? E ele se desarmou, apertou minha mão etc., passaram alguns minutos, ele abasteceu o carro dele e veio falar comigo, andando com os braços abertos e disse: “eu não sou assim, eu não sou assim, o senhor veja eu perdi meu filho único de 21 anos, morreu semana passada, nem minha família me aguenta mais”. Aí todo mundo que tinha visto a cena no posto, não entendeu nada, porque os homens prestes a se engalfinhar estavam abraçados e um chorava. Então a gente não sabe o que está acontecendo na cabeça dos outros, porque é que ele está falando palavrões, porque é que ele está agredindo, você não sabe.

E tendo essa compreensão mais abrangente da vida, você poderá perdoar tudo. Você não vai pensar: “é para mim”, porque não é para você. Ele está brigando com o mundo e, por acaso você estava ali. Aquele homem se sentia injustiçado pela morte do filho, é isso, e então ele queria brigar com o mundo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Disciplina da mente




1) Dentro de uma prática regular, o que o senhor considera bom e razoável, para manter uma disciplina e um condicionamento da mente?

Monge Genshô: Seria bom fazer zazen duas vezes ao dia. Mas mais importante do que só fazer zazen, é começar a prestar plena atenção naquilo que se está fazendo. O que estou fazendo? Plenamente presente significa a mesma mente do zazen, sem ficar no passado nem no futuro. Lavar a louça: lavar a louça. A água caindo nas mãos, detergente no prato, tudo bem limpo, ficou sem gordura, enxaguar, sentir a temperatura da água, colocar para escorrer, outro prato. Aqui e agora. Nada de pensar no que eu vou fazer amanhã, o que aconteceu ontem, as contas para pagar, nada. Você vai fazer zazen lavando pratos, isso é bem importante.

Se você conseguir treinar no zazen estar presente naquele momento, você pode transferir para aquilo que você está realizando, e isso você pode fazer até 24 h por dia. Com uma prática assim, sua mente vai mudar muito, muito.

Dirigir um carro é um desafio. Você está andando, vem alguém atrás, buzina. Você não pensa nada, não se irrita, não se mobiliza, pensa que ele deve estar com mais pressa e dá passagem para ele. Ele passa do lado e diz uns palavrões porque você estava atrapalhando, e você não diz nada. Aceita como se fosse água caindo do chuveiro. Nada, não responde nada. E não continua pensando no assunto, continua dirigindo e dez metros depois você tem que ter esquecido os palavrões. Tentar não ficar com sentimento de ansiedade ou raiva depois, é isso que você tem que conseguir. Não levar nada em conta. (continua)