terça-feira, 2 de setembro de 2014

Saia de você!


 (continuação)
Se eu não apenas acreditar, mas escolher e apontar um escaninho como o único que é certo, automaticamente eu também estarei admitindo que todos os outros [caminhos] estão errados. Este é o cerne da divisão, baseado no dualismo da verdade/mentira, certo/errado. É daí que surge o conflito. Se nós fôssemos capazes de abandonar estas classificações, automaticamente o conflito desaparece porque a separação desaparece.

Nós queremos classificar as pessoas em raças, por exemplo. E isso é muito interessante acontecer num país de mestiços como o Brasil, aonde a gente olha nos rostos e vê em cada um várias raças misturadas. De modo que é extremamente difícil classificar os brasileiros como esta ou aquela raça. Contudo, continuamos insistindo tanto nisso que até criamos leis ou mecanismos para “enquadrar” as pessoas em escaninhos. Então, se as pessoas não se classificarem, nós as forçamos a fazer isso. – “Declare! Qual é a sua face? Qual é a sua raça?”. Nós fazemos isso por imposição.

Nós estamos aqui para ajudar os outros seres e esquecer-nos de nós mesmos é a essência do budismo. O sofrimento existe na noção de um “eu” separado. Porque eu me acredito separado, então gero sofrimento. E as vezes as pessoas vem até mim e dizem que têm um grande problema de depressão, de tristeza, de tantas coisas ruins, e normalmente eu recomendo uma coisa: - “Saia de você!”. Pare de olhar para o seu umbigo. Se você sofre de solidão, há crianças nos orfanatos e idosos em casas de repouso que adorariam receber visitas. Há muitas pessoas que estão muito necessitadas que alguém vá até elas. E você permanece em casa pensando em sua solidão? Saia daí e vá visitar os verdadeiramente solitários! E se você for visitar os verdadeiramente solitários, você se livrará de sua solidão. Mas, na verdade, as pessoas dificilmente seguem esta receita.

Todas estas angústias surgem dentro da mente, quando acreditamos na ideia de um “eu” separado. Por causa disso criamos todos os outros conceitos, que levam a separações, a divisões e às lutas entre crenças, entre raças, entre qualquer coisa. Todas elas são oriundas do mesmo engano fundamental, o engano que diz que eu sou um ser separado. Se nós entendermos que originalmente nós não éramos seres separados, nós éramos a própria vida se manifestando, mas alguém nos ensinou que nós temos um nome, que nós somos um alguém. E quando nós acreditamos neste alguém, imediatamente surge junto os conceitos de “eu”, “meu”, “minha”. Ao dizer “isso é meu!”, a pequenina criança já começa a lutar. – “Não beba a minha água! Este é meu copo!”... imediatamente, então, está criado o conflito.
(continua)

sábado, 30 de agosto de 2014

Minha construção diária


 (continuação)
O budismo veio das vertentes das práticas indianas. Ele tem diferenças fundamentais em relação ao hiduísmo, sobretudo no que se refere à noção de “atman”, em que supostamente existe uma partícula fundamental dentro de mim que é permanente e continua. Deste conceito – atman – surgiu o conceito grego de alma. A linha budista é diferente. Buda ensinou que o que existe é “anatman”. Ou seja, não há uma partícula individual, separada dentro de você, que é você mesmo. O que Buda ensinou foi que nós todos somos um, e não há a noção de que eu estou separado de cada um dos outros. Aliás, este é o engano fundamental.
Diferentemente de setores da filosofia ocidental, em que Descartes começa o seu “discurso do método” dizendo cogito ergo sum – “penso, logo existo” –, para os zen-budistas as coisas ficam mais ou menos assim: - “eu penso, por isso penso que existo!”. Eu imagino que existo, e este meu “eu” é uma construção que eu faço diariamente.

Pensem, pela ótica budista, uma criança pequena sendo ensinada a ser um “eu”. Ela nasce, e quando ela começa balbuciar as primeiras diz simplesmente que “neném quer”. Neném não é um “eu”, mas nós ensinamos esta criança a assumir uma personalidade. – “Você é ‘eu’, é um indivíduo separado! Seu nome é este!”. A criança absorve isso, e assim começamos a criar a dualidade. Aliás, a nossa linguagem tem esta característica, sobretudo quando queremos entender as coisas. É daí que surgem as classificações, que fazemos questão de colocar na nossa “prateleira de conceitos”. – “Isto é isso ou é aquilo? Embaixo, ou encima? Certo ou errado? É direita ou é esquerda?”. Nós queremos entender tudo por classificações, colocando todas as pessoas em escaninhos. Não admira que algumas pessoas perguntem: - “Em que mês você nasceu? Ah, as pessoas que nasceram em tal mês, do dia tal ao dia tal, são isso...”. E aí colocam você naquele escaninho e dizem “você é assim, assim e assim...”. Isso ocorre porque a nossa maneira de conhecer o mundo é através da classificação.

Na verdade, e relativamente falando, nós somos todos sutilmente diferentes, e é daí que também surgem as diferentes correntes religiosas. E a dificuldade de existir um diálogo inter-religioso é exatamente a incapacidade de “abandonarmos os escaninhos”, as classificações que geram separação, distanciamento. Só ao abandonarmos isso é que a partir daí podermos dizer que todos nós temos similaridades, todos somos seres mergulhados em ilusões. E qual é o efeito da ilusão? É provocar sofrimento, a partir do momento em que eu acredito piamente numa única forma de interpretar o mundo, e tendo a qualquer custo encaixar todas as coisas e respostas nesta visão de mundo.
(continua)

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O problema de Shakyamuni



Palestra Centro de Yoga (Palmas - Tocantins - Decupado da gravação por Sonielson San)

Buda atingiu o seu despertar através da prática da meditação. Ele teve dois grandes mestres iogues – Brahmaputra e Alarakalama –, com quem praticou até determinados níveis de profundidade. Ainda assim, ele não se sentia satisfeito com a solução do seu problema fundamental, o problema que o havia levado até a floresta e que o fez abandonar a família, o seu principado, a riqueza e o palácio. Buda passou a procurar a solução para a sua angústia, qual seja, - “eu estou aqui, tudo vai terminar em velhice, doença e morte, inevitavelmente”. Qual é o sentido de tudo isso? “Para quê?”, perguntou o Tathagata.  Por que estamos aqui nos sentido como corpos, vivendo junto com outras pessoas? Temos pernas, braços, cabeças, como qualquer outro primata, como qualquer outro macaco... temos que comer, que ir ao banheiro, temos pele e ossos, e vemos que todas as pessoas envelhecem, sofrem de doenças e, no fim, morrem. Vemos isso... Então, qual é o sentido disto tudo? Quem sou eu realmente? Esta foi a pergunta que Buda fez. Quem é esse que dentro de mim diz “eu sou”?
Buda sentou-se embaixo da árvore Bodhi e disse que não se levantaria de lá enquanto não resolvesse este problema. E isso não aconteceu do dia pra noite. Como eu já havia falado, ele tinha praticado por seis anos com mestres iogues sem, contudo, conseguir solucionar os seus problemas, embora os mestres o apreciassem tanto que queriam fazer dele um sucessor. Shakyamuni, então, sentado embaixo da árvore Bodhi, na madrugada do oitavo dia, após sete dias de meditação, sem se levantar, viu nascer a estrela da manhã e, naquele momento, ele entendeu, despertou dos sonhos e das ilusões. Quando ele desperta, imediatamente diz: - “Oh, que maravilha!!! Eu, todos os seres e a grande Terra, simultaneamente neste momento, alcançamos a iluminação. É então que Shakyamuni passa a ser chamado, então, de Buda, “aquele que acordou”. Neste momento, ele tinha 34 anos, e ensinou até a sua morte, aos 84 anos.

Nós somos herdeiros desta tradição do despertar. O único sentido verdadeiro do praticante zen budista é o despertar. É frequente, nas entrevistas, palestras e conversas, as pessoas associarem o zen com aspectos que se resumem a acalmar a mente e obter serenidade. Mas isso, para um zen budista, é apenas subproduto da prática. É como dizer a alguém que é praticante de ioga que ele irá utilizar a técnica apenas para adquirir flexibilidade. Isso é um uso da prática apenas pelo seu subproduto. É claro que o subproduto natural da meditação é a serenidade, mas esta serenidade não é o objetivo da meditação. Trata-se de um “efeito colateral” inicial, pequeno e normal. E, inclusive, não é necessário ser budista para obter serenidade através da prática do zazen.  (continua)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Me dê suas próprias palavras


Pergunta: Essas descrições, que há em alguns sutras, elas no Zen são ou devem ser completamente ignoradas ou elas são estudadas como padrões mentais?

Monge Genshô: Os sutras foram escritos por quem?

Aluno: Pelos homens.

Monge Genshô: Por homens. O que os homens fazem?  Os autores dos sutras pensaram: “Ah, isso aqui vai influenciar as pessoas! Então eu vou dizer que Buda surgiu num céu de ouro, etc e tal, em edifícios cravejados de pedras preciosas” etc... Aí escreveram essas coisas que eles acharam que seriam influentes. É natural, eram homens, embora os sutras possam ser profundos, difíceis, muito elaborados. Você pediu para ler o Lankavatara Sutra, né. Não achou difícil?

Aluno: Muito.

Monge Genshô: Então, são enlouquecidamente difíceis, como problemas filosóficos. O Lankavatara Sutra, o Surangama Sutra, são assim. Sequências de mais de uma centena de perguntas com respostas - todas respostas profundas. Então, realmente quem escreveu era um verdadeiro conhecedor do Dharma. São textos muito interessantes mas, como eu disse ontem, “não me dê as palavras dos sutras, me dê suas próprias palavras”. Não adianta ir lá na entrevista com o monge,  chegar e perguntar: “como é que vai seu zazen?” e você citar um sutra. Isso não tem significado nenhum, isso seria completamente tolo. Então, nós temos nos sutras mapas, guias interessantes, mas também coisas que não servem mais para o mundo de hoje. Como servem os conselhos de Buda sobre subordinação das mulheres, deveres dos homens, que foram escritos 2600 anos atrás? Como servem para hoje? Parcialmente... Num mundo em que força física não é mais importante, por exemplo?  Naquele tempo, um homem era diferente de uma mulher. Um homem podia fazer serviços que uma mulher não podia fazer. Qual é o serviço que uma mulher, hoje, não pode fazer? Que um homem não pode fazer? Num mundo de máquinas, instrumentos, computadores etc? Mudou tanto.

 É como eu dei um exemplo lá em Goiânia. Em antigos textos bíblicos, está escrito: “os homens não podem cortar o cabelo das têmporas.” Aí vocês já viram aquelas seitas hassídicas, que deixam cachinhos caindo? É porque eles não podem cortar o cabelo das têmporas. Porque está escrito lá no livro. Podia ter sentido lá naquela época, que eu não sei qual é, mas hoje, que sentido tem? Então, nós temos que ter essa clareza. Sempre surgem os ortodoxos, que querem seguir os textos ao pé da letra. Estávamos falando ainda há pouco. Mas, a que isso leva?

Em Israel há elevadores que aos sábados são desligados, de modo que você entra no elevador e ele para em todos os andares, porque um judeu de uma dessas seitas ortodoxas não pode apertar um botão, pois se ele apertar um botão, está fazendo a máquina trabalhar para ele. Então, se criou isso. No domingo o mecanismo é desligado e para de andar em andar. Qual era o sentido antigo da guarda do sábado? O sábado era dia de descanso. Então, você não trabalhará, seu jumento não trabalhará, sua mulher não vai trabalhar. Ninguém vai trabalhar no sábado. Vamos dedicar esse dia, um dia de descanso. É um dia de oração. Era esse o sentido. E agora virou essa maluquice para elevadores. Então nós temos que tomar cuidado com a ortodoxia.

Pergunta: Com relação aos sutras, Monge, existem sutras que permitem, que trazem insights para as pessoas? Por exemplo, o Sutra do Diamante?

Monge Genshô: Com certeza. O Sutra do Diamante é o Vajracchedika Sutra. É um sutra que corta todas as ilusões. Por isso se chama Sutra do Diamante. Ele é como se fosse um controle de qualidade dos paramitas. Ele pega, por exemplo, a paramita da paciência e analisa. Claro, ele é muito útil, deve ser lido, mas você tem que ler pensando: “esse texto foi escrito por um Mestre e eu vou aproveitar o que me for útil nesse texto”. Não o tome como baixado do céu, como um texto sagrado, que nós temos que seguir ao pé da letra.
Vejam o que acontece hoje no Oriente Médio, onde existe uma religião com um texto que foi ditado pelo próprio Deus. Então, se foi ditado pelo próprio Deus, tem que ser seguido. Assim, tem os grupos que querem que as regras sejam seguidas como eram naquela época.

Esses dias li a declaração de um religioso de que uma mulher que for estuprada, tem que ser enforcada. Mas, por que ela tem que ser enforcada, se ela foi estuprada? Porque está no texto. Ela não foi só do seu marido, ela foi de um outro homem. Mas foi um estuprador! Não interessa. Ela não serve mais. Enforque. Esse é o grande perigo de olhar o texto dessa forma. O pior é que essa declaração foi feita por um ministro de governo de um país do oriente médio. Imagine a força institucional que tem uma crença desse tipo. E não é impossível que surjam grupos extremistas budistas, etc, que comecem a pensar “o outro é diferente” também.  Nós temos que ser radicalmente contra esse tipo de pensamento. Nós temos que preservar nossa liberdade mental.

E, para encerrar, há uma história. Eu gosto muito de um mestre a quem um aluno perguntou: “Você foi aluno do Mestre fulano de tal?” Ele disse: “Sim, fui.” “Ah, que maravilha. Aluno do grande mestre fulano de tal. E o senhor aceita tudo o que seu mestre lhe dizia?” “Não, aceito metade e rejeito metade.” E o aluno continua: “Mas como o senhor rejeita metade do que o seu mestre dizia?” E ele responde: “Se eu aceitasse tudo o que ele me dizia, não seria digno do meu mestre, porque o meu mestre me ensinou a pensar, me ensinou a manter minha liberdade mental, meu senso crítico. Eu posso até estar errado, mas não preciso aceitar tudo o que ele disse”.

Então, vocês não precisam aceitar tudo o que eu digo. Simples assim.
(Final da terceira palestra no sesshin de inverno, decupada da gravação por Rachel San)

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Como é a vida depois da morte?



Aluno: É mais a qualidade da mente da pessoa?

Monge Genshô: Se você mudar sua mente, seu carma, sua próxima manifestação será consequência disso, não importa qual ela seja. Ela será influenciada pelas condições presentes. Isso é lógico. Até aí, eu posso ir. Mas, é como um Mestre Zen respondeu para um rei que lhe perguntou: “Como é a vida depois da morte?” E o Mestre Zen respondeu: “Não sei.” E o rei ficou furioso, dizendo: “Mas como? O senhor é um Mestre Zen, um mestre espiritual, isso e aquilo, etc e vem aqui e me diz que não sabe!” E o Mestre Zen respondeu: “Sou um Mestre Zen, mas não sou um Mestre Zen morto!” Se eu fosse, eu informava.

Kodo Sawaki foi um grande Mestre Zen do século XX,  e certa vez perguntaram a ele sobre essas questões e ele assim declarou: “Essas pessoas que me vêm perguntar sobre espíritos e fantasmas, eles são fantasmas.” E respondeu também: “Se espíritos se manifestam nesse mundo aqui, estão tão perdidos quanto nós.”

Essas duas respostas englobam tudo o que o Zen precisaria declarar. Se qualquer coisa se manifesta aqui, o que tem para nos trazer? Vocês já viram algum espírito? Dizem tantas coisas, tantas platitudes bonitas,  já viram algum dizer: “Está aqui, o remédio que cura a AIDS é esse. A teoria sobre tudo na física é essa aqui.” Pronto. Resolvido. Parem de quebrar a cabeça. Vocês já viram alguma solução assim aparecer? Nunca. Só aparecem platitudes. Sejam bonzinhos, façam o bem, amem o próximo. Isso é fácil de qualquer um escrever. Mas uma coisa concreta, jamais surgiu.

A outra declaração dele – “essas pessoas que me perguntam, elas são fantasmas”. Claro. Porque quem são vocês? São criaturas de sonho, vivendo num mundo de sonho. É um sonho nítido. Todas essas pessoas fazendo essas perguntas são o quê? Criaturas de sonho, fantasmas. Esse é o Zen. Zen é isso que nós estamos falando aqui e agora. O resto, as teorias, cosmogonias, deuses, espíritos, dimensões, outras dimensões, etc. é, podem existir. E podem não existir. Na realidade, para o zazen de vocês não faz diferença nenhuma. O que faz diferença é a sua mente. Então, o que nós temos que tratar é da mente.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O relevante para a prática


Pergunta: Eu já li alguma coisa e já ouvi falar, mas é um pouco difícil entrar na minha cabeça. A questão do renascimento...  Porque, assim, no renascimento, o que é que passa? Não é a consciência?

Monge Genshô: Só o carma. O que pode passar de uma vida para outra é apenas o carma. Primeiro nós temos que admitir que existe uma certa coesão de uma onda cármica, senão ela não passaria de uma existência para uma outra existência. O que existe em você são seus desejos, impulsos, apegos, suas características de personalidade com as quais você nasceu, isso é o que você herdou, o tipo de mente que você tem. Mas todo o “eu” é novo. A consciência é produto do funcionamento da sua mente agora. Consciência de um eu, então é o carma que produz identidades, não são identidades que carregam carma. Essa é a diferença.

Pergunta: Buda citou que existem espíritos. Eu já vi trechos, se não me engano, que falavam sobre... espíritos famintos.

Monge Genshô: Mas isso, na tradição, na cosmogonia budista são outras dimensões de existência. Não necessariamente seu carma precisa se manifestar num corpo humano, porque você poderia,  se manifestar num mundo sem forma, onde não há corporariedade. Existiria, mas isso não é, de modo algum, artigo de fé.  Do ponto de vista do Zen, este assunto não interessa.

Eu posso falar aqui que na cosmogonia budista  existem os seis mundos, falamos dos mundos dos semideuses, deuses etc e tal. Há escolas em que fala-se em trinta e dois reinos de existência. É, podem existir, como podem não existir. Para aqui e agora, para o nosso problema do agora, não tem a menor relevância. Isso é irrelevante e é não verificável também, de modo que é um assunto de parco interesse. No tempo de Buda, muitas vezes ele se valeu dessas citações, e os sutras muitas vezes citam o seu mundo, o mundo do hinduísmo. Porque Brahma surgiu, ou Yndra ,  porque os deuses vieram assistir a palestra de Buda, nos sutras, etc e tal. Isso não significa que existam esses deuses, tanto faz. Para a nossa vida agora, tanto faz.

A única coisa que eu posso raciocinar para você é que assim como você está aqui e tem uma personalidade, ela não deve ter surgido do nada. Ela deve vir de um passado. Ela tem que ser consequência de uma causa, porque não existem efeitos sem causa, todos os efeitos têm uma causa. Há alguma causa para vocês estarem aqui, terem a mente que tem, pensarem do jeito que pensam, e essa causa deve ser pregressa. Essa causa é responsabilidade de vocês. A próxima manifestação de vocês deve ser consequência da mente que vocês construírem agora. Não haveria nenhuma lógica se não fosse assim. Por isso os próximos efeitos terão suas causas, e as causas estarão enraizadas aqui e agora. É só isso. Quais são, como são, exatamente como acontecem, isso não é assunto relevante para nossa prática.


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Eu não sei


Pergunta:    Um depoimento muito bonito que uma pessoa, que  estava num estado mais elevado... isso pode ser considerado Dharma também? Ou é só quando o monge autorizado fala, que é Professor do Dharma, que podemos dizer que é Dharma?

Monge Genshô:  Acho que eventualmente pessoas dizem coisas muito pertinentes e vamos ter que ouvir e ter o discernimento de que ensinamento “reconhecido” tem que ser dado por alguém que recebeu a transmissão. Isso é pelo menos um padrão de qualidade para se dizer: “ isso aqui nós vamos considerar”. Mas mesmo assim, é como se dizia em latim, cum grano salis – com um grão de sal. Porque você aceita um professor e começa a ouvi-lo. Ele vai ajudar você dentro do caminho, na medida do que ele conhece e sabe. Mas haverá algum momento em que o seu caminho não é exatamente igual ao do professor. Eu posso falar sobre experiências que eu tive, mas existem experiências que eu não tive, e eventualmente alguém me pergunta: “O que eu faço nessa situação?” E eu respondo: “Eu não sei. Você vai ter que decidir sozinho, porque é seu carma, sua vida, seu momento. Eu não sei.” Eu posso dizer que comigo aconteceram tais e tais coisas e levo e digo isso, para que você considere que existem essas possibilidades. Posso ajudar você a pensar, mas não posso decidir por você. Até porque é uma responsabilidade imensa.

Esses dias um rapaz disse: “Ah, eu briguei com minha namorada. Eu a procuro, peço desculpas, volto, não volto, tento que ela volte, tenho medo que ela não volte”. Eu disse: “Eu não sei.” São tantas coisas que eu não sei sobre esse relacionamento, do futuro. Como é que eu posso dizer? Não sei. Posso dizer uma coisa com certeza: se acabar, você vai sofrer um pouco e depois de determinado tempo, isso vai passar. Isso eu sei. Que tudo acaba passando.  Se no futuro você vai dizer, “ah, não podia ter perdido aquele relacionamento”! Isso eu não sei. Pode ser. Como eu poderia saber? Então, o Dharma é uma porção de ensinamentos bem consolidados sobre impermanência, causa, efeito, sobre as marcas da existência, sobre o carma, mas ele não é uma solução para tudo. E tem várias coisas  que Buda evitou responder. Disse: “Eu não vou responder a essa pergunta”. Deus existe ou não existe? Essa pergunta não faz parte do budismo. Trata-se do tipo de assunto não verificável,  se é não verificável, então não faz parte do objeto de estudo do budismo. No momento em que for verificável, sim.

Pergunta: Então o Dharma seria somente fenomênico?

Monge Genshô: Não. Ele também tem conceitos abstratos, mas que são lógicos. Por exemplo, o conceito de pecado não existe no Budismo. Porque não existe conceito de pecado? Porque não existe alguém a quem você deva obedecer e que vai taxar de pecado se você fizer isso ou aquilo. Por isso não existe o conceito de pecado. Existem consequências. Qual é a consequência do seu ato?  É isso. A ética do Budismo é construída em cima das consequências. Quais são as consequências?

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Votos do bodhisattva


Pergunta: Quem é que quer?

Monge Genshô: Todos, no início. Queremos, nós. Todos vêm praticar de forma egoísta e auto-centrada, ninguém veio aqui porque quer salvar todos os seres. Não é assim. Os praticantes sempre vêm procurar alguma coisa para si, essa é a prática inicial. E por isso, toda a prática do Caminho Óctuplo está voltada para o indivíduo. Você tem que fazer o esforço correto, tem que ter um meio de vida correto, tem que ter uma fala correta. São todos você. É você, você, e você. É você que tem que trabalhar. É você que está separado dos outros. Então, o estágio de abandonar a si mesmo, seu próprio eu, é um estágio muito, muito adiantando, e nós não o encontramos nos iniciantes não, seria raríssimo.

Eu costumo explicar que há três fases: A “fase da virtude”, e que não é diferente na maioria das religiões, trabalham-se as virtudes pessoais. E elas são semelhantes no Budismo, no Cristianismo, no Islamismo, são todas semelhantes - persistência, tolerância, paciência, energia, disciplina, são todas semelhantes. O segundo estágio é o estágio de “prática do Bodhisattva”, de que você faz os votos, no final do dia. Mas quem é assim? Quem é? Já é difícil a gente ver alguém cumprir o Caminho Óctuplo! São dezesseis votos de leigo que nós fazemos, por exemplo, “nunca julgar os outros”, que eu acho um dos mais difíceis, porque está todo mundo sempre julgando. “Não se eleve”, “não procure os defeitos nos outros”. Isso é muito complicado, porque você está vivendo no mundo da dualidade, e tem que julgar.

No trabalho você tem que julgar. Os professores no Zen têm que julgar: “tal aluno pode fazer isso, tal aluno não pode... tal tem tal defeito”. Você tem que julgar, faz parte da própria vida. Aí você vai para os votos do Bodhisattva, no primeiro voto  dizemos: “Os seres são inumeráveis, eu faço votos de libertá-los todos.” Está todo mundo realmente interessado em salvar todos os seres?  Os criminosos, os nazistas da 2ª Guerra Mundial? Vocês vão até os infernos para dar-lhes a mão e tirá-los de lá? “Josef Mengele, venha cá, meu amigo, vou tirar você desse sofrimento infernal, vou ensinar o Dharma pra você.”

Segundo voto do Bodhisattva: “As paixões são inextinguíveis, eu faço votos de extingui-las todas”. Nós realmente estamos prontos pra extinguir cada pequena paixão que surge? Cada uma? Cada raiva, cada impaciência, cada inveja, cada ciúme, cada coisa? Cada afeto desmesurado, selecionado? Você realmente é capaz de amar todos os seres como você ama seu filho? É isso?

O terceiro voto: “Os portais do Dharma são incontáveis, a sabedoria é imensurável, mas eu faço o voto de aprendê-lo todo.” Quer dizer, eu vou aprender tudo sobre o Dharma. Tudo, tudo, tudo. Eu não vou deixar nada de fora. Vou atravessar todos os portais da sabedoria.

E o quarto e último: “O caminho de Buda é infinito, eu faço voto de percorrê-lo até o fim.” Infinito, e mesmo assim eu vou percorrer até o fim. Não acaba, e eu vou continuar, sem fim.

Quando eu estava  no monastério, eu tinha a sensação assim: “Isso aqui não acaba! Não acaba nunca”. Todos os dias a mesma coisa. Levanta de manhã cedo, quatro horas da manhã. Vai para o zendô e senta e continua... sesshin de noventa dias. Isso não acaba nunca. Como eu tenho que tomar um remédio para pressão, então contei noventa dias, noventa comprimidos, botei num lugar lá, e cada vez que eu tomava um de manhã, diminuía um dia. E eu olhava aquela pilha e não acabava nunca...

Aí pensamos, o caminho de Buda, é infinito. Infinito! Então seria uma pilha sem fim, sem fim... E eu teria que tomar, na esperança de chegar a um fim que não existe. Nós fazemos isso. São os votos do Bodhisattva. Então esse é o segundo estágio do caminho, e ainda tem um “eu”. Porque sou eu que prometo. Eu vou lá no inferno, resgatar todos os seres, eu vou estudar, eu vou seguir um caminho sem fim, eu vou extinguir todas as minhas paixões que não acabam mais, que não tem fim. São paixões sem fim e vou extinguir todas elas. Você faz o segundo estágio e ainda está cheio de erros.

Aí, o terceiro estágio, da não dualidade. Extinguiu o eu, realmente. Eu e todos os seres somos um. Percebeu, sentiu, viveu a unidade completamente. Então essas perguntas “ainda tem um eu, que está olhando ou que está querendo”. Mas claro que tem, porque quem é de nós que passou todo o primeiro estágio e passou todo o segundo? Esse que eu descrevi agora, que são os votos do Bodhisattva. Ouçam os votos do Bodhisattva no final do dia. Não basta repetir “os seres são inumeráveis, faço voto de libertá-los todos.” Só repetir não é nada. Você tem que pensar o que significa esse voto. Porque são votos paradoxais, uma vez que eles, por sua própria natureza, são impossíveis, e não se faz votos impossíveis. Esse é o voto do Bodhisattva – fazer votos impossíveis.

Então, como pergunta retórica, essas questões sobre “quem é esse eu que está fazendo isso”, têm sentido, realmente. Mas como pergunta na prática diária do praticante, vamos reconhecer, nós somos “eus” muito bem construídos e sólidos. Se a gente for bem honesto, basta perguntar: quem importa mais para você, seu filho ou uma criança que está passando fome lá na África? Não me responda que você se importa muito com as crianças que estão lá na África, porque você dá comida só para o seu filho. A criança lá na África está passando fome e você só pergunta: “mas por quê que eles fizeram tantos filhos”? Não é? É o que você pergunta. Não é assim?

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Formatando o disco


Pergunta: Monge, com relação ao kensho, o senhor disse que o satori seria a possibilidade de ser proprietário da experiência e acessa-la a qualquer momento. Mas isso me passa a idéia de alguém que acessa alguma coisa, um ego.  Parece uma aquisição.

Monge Genshô:  Mas não é, porque quando você estiver pensando “ah, eu...” aí você não consegue. Eu sou o proprietário, eu consigo isso, não é assim. Quando você está em kensho e tem uma experiência dessas, não tem a noção de “eu estou vendo, eu estou pensando”. Podem experimentar quando vocês estão em zazen. Se você consegue samadhi quando está fazendo zazen, cessam naquele momento todos os julgamentos e você de repente percebe o mundo, sons, todos com clareza, está num espaço cheio de plenitude. Não é propriamente euforia, alegria ou distorção da percepção, não é isso, pelo contrário, é percepção perfeita de todas as coisas. Mas, se você pensar “samadhi”, dentro de você (barulho de um bolha estourando), perde-se. É bem assim.


Pergunta: Se eu tenho a chance de poder optar, porque então eu decido não permanecer?

Monge Genshô: Por causa das muitas coisas que você está fazendo na sua vida normal, por exemplo, você deita para dormir, e quando você adormece, não está mais naquele estado de clareza. Embora (há muitas considerações a fazer sobre tudo isto) aqui mesmo no sesshin, nós sintamos sono, é perfeitamente possível ficar sentado e sonhar sonhos lúcidos, ver o sonho, fazer perguntas, ver respostas simbólicas aparecendo diante dos seus olhos. Mas são sonhos, você sabe que está sonhando e pode até dizer: “não,  essa aí não... essa resposta não serviu”. Meu inconsciente não produziu uma coisa boa, vamos para outra, outra tentativa. E você sonha, e o sonho é lúcido. Você está raciocinando, vendo e observando o sonho como se fosse um filme. Alguém já teve essa experiência aqui? Quando a gente sente sono certas coisas vêem, e por isso no sesshin provocamos um certo déficit de sono,  você sentado ali o filme surge na sua frente, e você começa a ganhar habilidades de usar os sonhos a seu favor.

Sonhar pode ser uma experiência muito agradável, se você pratica o Dharma. Pratica, pratica e cuida dos conteúdos que vêm à sua mente, então os sonhos que vêm são muito bons. Sonhar pode ser uma forma de prática. Por isso também, nós temos que ser disciplinados com os conteúdos que a gente acessa. Por exemplo, é uma péssima idéia assistir filme de terror,  porque de qualquer jeito os conteúdos vão sendo armazenados no seu subconsciente. Na verdade, nós devemos procurar sempre assistir filmes que produzem bons sentimentos, porque isso vai ser construtivo para você. Tudo que acontece, tudo que surge na sua mente aqui no zazen, não culpem mais ninguém, foram vocês que construíram. À medida que acalentaram pensamentos, à medida que acessaram certo tipo de informação, foi isso, isso que foi vindo. Você vai armazenando, o que vai sair? O que foi armazenado. Zazen é uma certa tentativa de zerar o disco. Nem passado nem futuro,  vamos formatar o disco rígido.  Então, é uma tentativa de nós apagarmos o lixo e podermos partir para outra forma de percepção.

Pergunta: Sensei, é como se tivesse que diminuir um pouco o pensar, o pensamento, mas tem que fortalecer o querer, porque para formatar o disco, tem que querer muito não é?  Pois tem que se submeter a um método para isso.

Monge Genshô: É tão difícil que a gente se reúne. Todos juntos e dizemos: “vamos fazer o sesshin”. Porque sozinho você não faria o sesshin (retiro). Teoricamente seria possível, você vai para um lugar isolado, faz sua comida e senta disciplinadamente desde as quatro horas da manhã. Você pode fazer isso sozinho, porém, muito poucas pessoas têm disciplina suficiente para isso. Então nós nos reunimos em grupo e assumimos um compromisso. Ninguém sai daqui, todo mundo fica junto, nós vamos fazer isso aqui, todos juntos. O professor senta junto e fica voltado para os alunos. Toda essa circunstância nos dá uma força de conjunto, é pra isso que serve a Sangha. Por isso a Sangha é uma das três jóias do Budismo: Buda, Dharma e Sangha. Buda o ideal, Dharma a sabedoria, o ensinamento e a Sangha pra nos dar a força de praticar. Porque praticar sozinho é muito difícil, exige tanta força de vontade! Então você tem razão que existe um “querer” aí e essa é uma das virtudes. Algumas das virtudes são energia e disciplina, elas são virtudes necessárias para a prática.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Não mais de uma dúzia


Pergunta: Dentro do tema que o senhor estava colocando, realmente as experiências podem se chamar samadhi? Existe algo maior ou mais prolongado? E isto seria a transmissão?

Monge Genshô: Varia de pessoa para pessoa. Há pessoas que amadurecem lentamente e há pessoas que têm uma grande evolução, uma grande experiência. Só para corrigir algumas palavras, “samadhi” é concentração, não é kensho. Samadhi é você estar sentado em zazen e penetrar num estado de “estou aqui presente, realmente ouvindo tudo e não estou sendo arrastado por pensamentos, emoções, eventos, isso não está acontecendo, estou realmente aqui”. No momento em que você pensar “ah, samadhi! Eu estou...”, já perdeu, já não é mais samadhi.

A segunda correção é sobre a transmissão. Transmissão no Soto Zen é um “reconhecimento”. Seu mestre reconheceu em você uma experiência, uma qualidade. Você conseguiu mostrar para ele isso, então, ele diz: “Eu estou transmitindo para você essa lâmpada, você agora também é um portador da lâmpada então, transmita essa lâmpada, essa luz pra outros, faça os outros despertarem e dê a eles a lâmpada também, para que nossa linhagem continue.”

Temos 2600 anos de transmissão viva. Isso é tão importante no Zen que, de manhã, nós recitamos os nomes de todos, desde Shakyamuni Buda: “SHĂKĂMŬNĬBŬTSŬ DĀIŎSHŌ. “Butsu” é Buda. MĂKĂKĂSHŌ DĀIŎSHŌ, ĂNĀNDĂ DĀIŎSHŌ, SHŌNĂWĂSHŬ DĀIŎSHŌ, ŬBĂKĬKŬTĂ DĀIŎSHŌ. Recitamos os nomes de cada um que foi passando a lâmpada pro outro. Hoje de manhã recitamos até TĀI·GĀN DŌ·SHŌ DĀIŎSHO. Normalmente, nós paramos em Keizan, porque depois de Keizan as linhagens se dividem no Japão. Então, recitamos até TĀI·GĀN DŌ·SHŌ que é Saikawa Roshi. “Saikawa” é o nome de família dele. O nome de Monge é TĀI·GĀN,  TĀI·GĀN DŌ·SHŌ. Se eu conseguir dar a transmissão para alguém, então vamos ter na lista após a minha morte, TĀI·GĀN DŌ·SHŌ DĀIŎSHŌ, MEIHÔ GENSHÔ DĀIŎSHŌ. E vamos recitar até ali. Se eu não der a transmissão para ninguém, meu nome está apagado da história das linhagens. E isso é um evento bastante comum. Muitos professores não conseguiram dar a transmissão para nenhum aluno. Então, isso que é a transmissão no Soto Zen, um reconhecimento.

Você pode ter um aluno leigo que se iluminou e não existe a cerimônia de “shihô”, de transmissão para ele, só existe de monges para monges. Então, embora esteja iluminado fica entre nós. Fica entre nós, porque ninguém sai dizendo isso. Há pessoas que saem dizendo, “eu sou iluminado”, vocês podem achar facilmente na Internet, mestres iluminados. Esses dias alguém me falou que havia uma pessoa num fim de semana dando um curso de três dias para a iluminação e que custava cinco mil. Alguma coisa assim.
..................

Monge Genshô:  Bem barato. Se somarmos os sesshins aqui... ainda não dá isso e não tem garantia. Então isso existe bastante, mas aqui no Soto Zen não há garantia alguma. E se alguém diz “eu sou iluminado”, nós já sabemos que não é, porque a própria declaração “eu sou” é uma declaração de separação - eu e não os outros. Então, essa declaração jamais é dita. Shunryu Suzuki, autor daquele famoso livro “Mente Zen, Mente de Principiante”, conta-se que um aluno chegou para ele e perguntou: “O senhor é iluminado?” E ele olhou para o aluno e disse: “Não.” E o aluno estava olhando nos olhos dele e começou a chorar, essa história é interessante.

Alguém também perguntou: “Há muitos graus de iluminação, né”?  Alguém conseguiu uma compreensão, alguma coisa, o Mestre reconhece isso, dá a ele a transmissão para continuação da linhagem, e diz: “Continue, você precisa praticar ainda mais 40 anos”.

Estamos cheios de histórias nos Sutras, de monges que se iluminaram, despertaram e aí então ficaram mais vinte anos treinando junto com o mestre, antes de começar a ensinar. Isso é que é a prática. Então existe essa iluminação que eu disse, iluminação bem rasa. Pouca coisa. Conseguiu pouca coisa, mas já foi reconhecido, recebeu a transmissão. Mas alguém perguntou para Shunryu: Suzuki “Quantos mestres verdadeiramente, completamente iluminados, há no mundo?” Aí Shunryu Suzuki disse para ele: “Não mais de uma dúzia.” No mundo todo. Não mais de uma dúzia! Isso nós temos que levar em conta. Qualquer experiência iluminada que vocês tenham é extraordinária em si, mas também é muito simples, não é grande coisa. Porque quando você recebe a transmissão, aí o Mestre diz: “bom, agora que começa, agora que começa seu treinamento”. Antes foi só preparação. Você sempre vai ter essa sensação de que está começando.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Satori


 (continuação)
E o que é satori? Satori é a possibilidade de andar assim quase todo o tempo, andar na iluminação por escolha. Se a situação está muito complicada, então eu posso simplesmente mudar meu modo de funcionamento para o “modo iluminado”. Se eu posso mudar para o modo iluminado, eu posso até morrer, sem problemas, não é? Porque a própria morte está sendo vista sob uma outra perspectiva, que é o que acontece com o monge que queima numa fogueira sem manifestar nada. Não é que a dor não exista, o sofrimento não exista, não é que a morte não exista. Existe, mas a morte não é o que é para todos os “eus”, porque ele sente que morte e nascimento são apenas eventos de uma onda cármica pois, na realidade, você é eterno por natureza, não é este evento de agora. Este evento de agora é o evento do seu “eu”, e este evento do seu eu, deste momento, é importante para quem vive no sonho, para quem sai do sonho, não é, porque o sonho é todo construído. Essa é a essência do que nós estamos fazendo.

E eu acho importante nós desmistificarmos o que é iluminação, porque a iluminação está disponível agora. Se não estivesse disponível, fazer sesshin seria um sacrifício inútil. Ela está disponível. Você, em algum momento, percebe que as circunstâncias daquele instante são tão maravilhosas, tão tranquilas, tão calmamente felizes que você gostaria que aquele momento durasse para sempre. Você poderia viver sempre assim, você não queria que acabasse. Essa é uma experiência iluminada. Você só precisa trazer isso para sua vida, de verdade.  Aí tudo está certo. É para isso que nós praticamos, não é para mais nada, pois então praticamente todas as perguntas estarão respondidas, se você tem esse tipo de experiência.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Ken - ver, sho - verdadeira natureza


 (Terceira palestra no sesshin de inverno, Florianópolis, 2014)
Sobre a iluminação, há um bocado de enganos e essa explicação é necessária. A iluminação é mitificada, faz-se dela uma coisa muito extraordinária, enquanto ela é um evento natural da mente. Na verdade, o estado natural é iluminado. Nós é que o perdemos porque não paramos de pensar. Então, quando nós sentamos em zazen, todo mundo vê uma mente que não pára.  Só surgem coisas, surgem coisas sem parar.

Mas o despertar não é muito frequente quando se está fazendo zazen, é mais frequente uma experiência iluminada fora do zazen, em uma caminhada por exemplo. Eu já ouvi mais narrativas de pequenos insights nas caminhadas do que nos zazens. Porque você repentinamente está lá fora, passou tanto tempo em zazen que sua mente ficou realmente vazia e, de repente, você vê realmente o lugar onde está. E  a beleza do lugar pode ser tão grande, de uma pequena coisa, de uma pedra, de uma flor, de um reflexo na água, que essa beleza e a felicidade de estar vendo isso são quase insuportáveis. Este momento é um momento iluminado. A iluminação não é diferente disso. Não são trovoadas, trombetas tocando, anjos chegando. Não são coisas assim.

O que acontece é que você tem essa experiência maravilhosa durante um período muito curto e por isso não é “A” iluminação. Por isso se chama essa experiência de kensho: ver sua verdadeira natureza. “Ken” - ver, “sho” - sua verdadeira natureza. Você viu sua verdadeira natureza, que é inseparável daquele reflexo, daquela pedra, daquela flor, daquele céu. Se você sente essa experiência naquele momento, essa experiência é como um vislumbre do que é a iluminação. A partir daí você sabe: a iluminação é possível. É só ficar assim sempre. Isso seria “Satori”. Realmente ser proprietário da experiência iluminada, de poder, a qualquer momento, chamar esse estado mental. Não é assim tão impossível, inalcançável, coisa que só existe nos textos. Não, é uma experiência viável. O que você precisa simplesmente é treinar de maneira tal a criar condições para ter pequenas experiências iluminadas. Ninguém sabe. Você continua sendo o idiota de sempre. Fazendo as coisas erradas de sempre, mas você “viu”. Então agora você já sabe. É possível. Eu percebi isso. Ok.

O que é preciso? Ter mais dessas experiências. Se tiver mais, mais, mais, vai chegar um instante em que de eventos extemporâneos, randômicos, que acontecem sem que você saiba quando nem porquê – um momento inesperado, mas que você sabe que só ocorre porque você anda fazendo zazen – eles podem se ampliar de segundos para mais segundos, mais tempo, até o momento em que você possa chamá-los. Ah, eu quero abrir essa janela agora. E torna-se possível, é uma habilidade.

À medida em que você aumenta essa habilidade, sua vida e a perspectiva da vida começam a mudar também. Porque aquelas coisas que parecem muito complicadas, vistas do ponto de vista de uma perspectiva de quem tem alguma experiência de kensho, elas não são tão terríveis, não são tão tremendas, porque você está olhando aquilo da perspectiva lúcida. É impermanente? É. Então, vai passar. É sofrido? Sim, é. Mas, faz parte do sonho. Ah, eu sei que é sonho, porque eu sei como é estar acordado. Então, todas as experiências da vida começam a mudar. À medida que elas mudam e vão invadindo sua vida, você pode se aproximar do que nós chamamos de satori.  (continua)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Mantos sobre a cabeça



Pergunta – Monge, neste contexto dos rituais, qual o significado na cerimônia da manhã quando todos colocam os mantos e os rakusus sobre a cabeça?

 Esta é uma antiga tradição que Dogen cita, e ele diz que ficou muito emocionado por ver isso na China, significa “grande respeito”, você colocar alguma coisa sobre a cabeça e “orar”. Então ele cita como tendo visto isso há 800 anos atrás, no Templo de Hui Jin, de Tendo Niojo Daiosho. Como ele é o fundador da nossa ordem, nós repetimos o ritual todas as manhãs, nós sempre viemos para o zendo sem o manto e sem o rakusu, e de manhã, recitamos o verso do manto, “ó grande manto da libertação, além da forma e do vazio, campo sem forma de benefícios, uso os ensinamentos do Tathagata, para libertar a todos os seres” .

“Campo sem forma de benefícios”, quando você olha o manto, ele é feito de retalhos, como um campo de arroz também. E como ele é feito de retalhos de tecido rejeitado, ele tem um simbolismo muito bonito, de que você pegando tecido estragado e separando pedaços ainda bons e costurando os retalhos, pode de novo fazer uma coisa boa. E todos nós somos assim. Temos pedaços bons, pedaços ruins, sentamos aqui em zazen e vemos, nossos pedaços bons e ruins aparecendo. Você só precisa separar os bons, costurá-los juntos, cuidadosamente, ignorar os outros. Só ignorar, e você vai ter um rakusu. O rakusu ou o manto de Buda, é isso, é uma metáfora de como nós podemos selecionar e separar e ficar com o que é bom, desde que nós nos esforcemos para tanto. Bonito...
(Final de palestra pública, decupada da gravação por Rachel San)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O dente de Buda


Quadro de Eduardo Salinas

Pergunta – Eu achei curioso quando caminhávamos pelo mosteiro e fizeram reverência à estátua de Nossa Senhora, porquê?

Monge Genshô – Penso que Nossa Senhora de Fátima é uma imagem da compaixão, aí faço a reverência para a imagem da compaixão. Na realidade, o arquétipo é o mesmo de Kanon Bodhisattva, uma figura feminina, amorosa, e compassiva, é só isso. Então fazemos reverências para todas as estátuas, de todas as religiões, e isso acaba dando em coisa muito boa.

Essa construção deste mosteiro é obra do espírito humano, a estátua também é obra do espírito humano. Na realidade é gesso, madeira, pedra, a estátua não é nada. Nós nos inclinamos perante ideias, é a mesma coisa com Buda. Nós não reverenciamos Buda, pois mais morto do que Buda está, é difícil. Reverenciamos a ideia de ser possível acordar, por causa do grande Mestre que ele foi, isso é uma ideia maravilhosa.

Há uma historia famosa no Zen, em que um Monge chega num eremitério numa montanha e estava muito frio, e tem uma estátua de Buda de madeira, ele parte a estátua, faz uma fogueira e dorme bem quentinho durante a noite. De manha chegam dois Monges e fazem um escândalo: “Mas como, você queimou o Buda”?

Existe uma lenda de que quando alguém, um grande homem como Buda é cremado, aparecem pequenas joias, que se chamam “sariras”, então o Monge remexe as cinzas e diz: “É mesmo! E onde estão as sariras”? É como se a gente perguntasse: “Queimei, onde estão os ossos?” Porque é madeira. Isso revela um dedo que o Zen está sempre apontando à iconoclastia. Não transforme as coisas em outras.

Tem uma historia Tibetana também, de uma senhora velha que ia morrer e o filho ia fazer uma peregrinação pra índia, e ela pediu a ele que lhe trouxesse um dente de Buda. E, claro, ele não tinha como achar um dente de Buda, de modo que quando ele voltou no caminho, pegou um dente de cachorro que pegou na estrada e poliu, deu formato de um dente humano, colocou numa caixinha e levou para a mãe. Ela ficou maravilhada e construiu uma pequena estupa, um relicário, e colocaram lá o dente e as pessoas todas dos vales começaram a fazer peregrinações para reverenciar o dente de “Buda”. E assim, com o tempo, o dente começou a brilhar. 

O espírito da estória é evidente, quem faz o relicário? Quem faz o dente brilhar? É só um dente de cachorro. Mas a reverencia de todos faz o dente brilhar. A estátua de Buda aqui atrás também, é só um material qualquer. Mas nós a reverenciamos, reverenciamos, reverenciamos e ela se torna importante, porque a reverenciamos. É a mesma coisa com todas as coisas que nós fazemos. Rakusu, o manto budista, você não entra com ele no banheiro, tem que dobrar, colocar no altar, o rakusu você costura, trata ele de maneira especial então ele se “torna” um rakusu. Mas, tecnicamente o que é? É só um pedaço de pano. Nós é que o transformamos, como uma forma de prática, porque precisamos de certas coisas assim, e elas fazem diferença.

Imaginem que o Monge se vestisse sempre de abrigo. Seria diferente. Eu sei que é diferente. Quando chego em qualquer cidade, vou fazer uma palestra, você estar vestido de monge faz uma grande diferença. Então você se comporta diferente, as pessoas te olham diferente, ganha um poder. É um poder que às vezes remove sofrimento. A pessoa vem diz que tem certa angústia, você diz alguma coisa para ela que a vizinha poderia ter dito mas  como foi um monge que disse, então funciona. Não podemos perder de vista estes fatos, pois eles são assim mesmo, então os rituais têm sentido, as roupas têm sentido. Embora pareça que algumas pessoas tenham resistência aos rituais por exemplo, na verdade é cegueira.

Uma vez eu estava com um rapaz e ele me disse: “eu detesto rituais”. E eu disse: “não é verdade”. “Por que o senhor diz isso”? “Porque eu entrei aqui na sala e você me estendeu a mão. Se eu tivesse ignorado o ritual de apertar as mãos, você teria se sentido ofendido, então você leva em conta os rituais sim, você acredita neles, tanto que acredita num aperto de mãos, que não é nada mais que um ritual com o qual você se acostumou”.

Então os rituais têm poder, nós seres humanos somos assim, aliás muito ritualistas, muito.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Cale a boca e limpe o chão


Quadro de Eduardo Salinas
Pergunta – Ainda, no tema anterior, no Sutra de Lotus quando eles colocam Buda no pico do abutre e vêm um monte de deuses escutar o que Buda estava falando, isso também tem um componente político da época ?

Monge Genshô - É evidente, certamente. São estratégias locais não é? Quando começa a estatuária budista, existem as chamadas “marcas de perfeição”, que são uma saliência em cima da cabeça, um sinal no meio da testa, etc, mas, de onde é que vêm as 32 marcas da perfeição? Na realidade são do hinduísmo, são anteriores, vem dos vedas. Então o que aconteceu? Traz-se para a estátua de Buda uma série de características que estavam nos vedas porque eles estavam vivendo num meio hindu e queriam legitimar Buda como um ser perfeito, então a verdade é esta. Buda era uma pessoa perfeitamente normal, nós podemos deduzir isso pelos textos. Não tem nada a ver com as marcas de perfeição dos vedas, que aliás, se você ler atentamente e tentar reproduzir, vai ser um ser muito estranho! Os braços vão até os joelhos, os dedos tem todos o mesmo comprimento, tem 50 dentes, etc., então essas coisas todas também refletem uma ignorância da época. Se nós lermos os filósofos da época, Aristóteles registra em seus livros que um homem tinha 50 dentes. A falta de atitude científica de dizer assim: “peraí, quantos dentes tem um homem? Abra a boca, vamos contar”, ninguém, fez isso, então se escreveu: “50 dentes”. Assim, temos que olhar tudo sem jamais perder nosso olhar crítico.

Pergunta – Quais são as características para se ser monge no Zen, se existem pré requisitos, tem que fazer algum curso? Os Monges podem casar, todos trabalham?

Monge Genshô - Existem alguns Monges que conseguem viver da sua comunidade.  Assim, alguns monges no Brasil conseguem viver da sua comunidade, mas para isso você precisa reduzir várias coisas, ter família por exemplo é difícil. Caracteristicamente, essas que estamos falando são pessoas sozinhas, aí você pode morar no templo, e depender da sangha para viver.

Mas qual é a característica, a diferença entre monge e leigo, no Zen hoje é assim: o Dharma é prioridade. Quando alguém vai se ordenar monge eu digo: “você é monge, então não tem mais que dizer que tem que resolver um problema na sua casa”. Eu preciso que você faça isso, você faz. Então, é claro que tem um pouco de acordo quanto a isso, não é absoluto, mas deve ser colocado como prioridade a vida no Dharma, essa é a promessa que o monge faz. Os outros passam a ser sua prioridade, não ele.

Não só no Zen mas em todo o budismo, a ordenação de noviço – Shukke Tokudo – é o início do caminho e não o fim. Imagine, é como se você entrasse na ordem para ser treinado e o treinamento acaba demorando muito tempo, porque você tem que fazer períodos em monastério, tem que ficar junto de um professor responsável.

Por exemplo, Tokushi San é Monge noviço, mas ele tem um emprego público que impede que ele saia meses para passar num monastério. Então estamos esperando que ele se aposente. Enquanto isso, ele trabalha dedicadamente, tem um zendo pequeno na sua própria casa, cuida de um outro zendo aqui na zona sul de Florianópolis, vai na sangha, recebe encargos, isso é levado como parte importante da sua vida, mas, ele tem família e tem seu emprego para cuidar, e eu entendo isso. Se eu digo: “gostaria que você fosse a um sesshin”, e ele diz que foi convocado no trabalho como policial militar e não pode, é claro que eu tenho que entender este fato, assim como meu Mestre tem que entender as restrições familiares ou financeiras que eu tenho porque na realidade, a ordem não dá nada para o monge, nós temos que prover tudo. A única coisa que a ordem dá, é estadia no monastério, mas até chegar no monastério, você tem que ir por seus próprios meios, suas roupas você tem que comprar, mas, uma vez no monastério, você tem casa e comida. Mas não tem nada no Brasil, estamos sempre mandando monges para fora. Nós já estamos com estrutura física para treinar monges no Brasil, mas ainda não temos uma “chancela” oficial para isso.

Aluno – Mas os Monges passam por algum treinamento teórico formal?

Monge Genshô - Isso não é exigido dos monges. Ao monge noviço principalmente é exigido que cale a boca e limpe o chão. Não é exigido do monge que seja um professor, poucos monges chegam a professor. Ele tem que fazer um esforço de estudo sozinho, e caracteristicamente algumas pessoas se destacam por sua habilidade de estudar, mas isso é uma questão pessoal, a maioria dos monges não ensina, então, mesmo no Brasil, nós temos poucos Senseis, poucos professores autorizados.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Buda e deificação.



Pergunta – Monge Genshô, logo depois que Buda  morre parece que ele já começa a ser “deusificado”. Outros mantiveram essa abordagem ou tiveram esse “espírito” mais cético também?

Monge Genshô – No Zen também, porém o Zen, por tradição, tem professores muito rebeldes, os Mestres Zen defenderam ferozmente sempre sua independência e tentaram sempre retornar a origem, mas nos sutras mahayana, e o Zen está profundamente inserido no movimento mahayana, que é o movimento que começa mais ou menos 500 anos depois da morte de Buda, movimento inclusivo, que inclui os leigos dando-lhes importância etc, os sutras desse movimento já se caracterizam por transformar Buda num ser transcendente. Então, no inicio desses sutras, nos mais antigos, Buda aparece como um professor, chegou, sentou, o aluno fez tal pergunta, e ele respondeu, e às vezes a resposta de Buda era: “Quem foi que te disse isso? Eu não falei isso. Eu prometi isso? Não, não prometi não”. Ou, “Ó homem tolo”! Então ele era um professor incisivo.

Já quando chegaram os sutras mahayana, Buda aparece como um ser transcendente, convidando Bodhisattvas, Deuses, os deuses hinduístas aparecem pra ouvir palestras, aí numa sala como esta eentram 5.000 pessoas, etc.

Aluno – Então fico pensando se esses textos não teriam um sentido metafórico?

Monge Genshô – Se coloque no lugar dos escritores dos sutras, eles aparecem como escritores, mas sem assinatura. Não tem autor. Todos os sutras antigos são assim, não tem autor assinando, só começa a aparecer “isso foi dito por fulano de tal”, na nossa tradição, lá pelo ano 600 d.C., com a entrada do Zen na China. Antes os textos são às vezes escritos em chinês, traduzidos para o sânscrito, que já é uma língua morta no tempo de Buda, para ganhar prestígio, e o sutra, tem toda essa roupagem transcendente, ele perde a característica “pé no chão” dos sutras mais antigos que são do tempo do Triptaka mas, eles ganham em misticismo, eles ganham aspecto místico.

Se virmos por exemplo o sutra “Sandharmapundarika”, que nós citamos na hora das refeições, e que é o Sutra de Lotus, ele é um sutra evidentemente escrito mais de meio milênio após a morte de Buda e durante o seu tempo de vida, ele foi aumentando de tamanho. Cada vez que havia um conflito, um problema, na China por exemplo se dava muita atenção às relações familiares,  à piedade filial, à reverencia pelos ancestrais, etc, então os chineses tinham dificuldade de aceitar o budismo, então colocaram um capítulo sobre esses assuntos, e aí introduz-se dentro do sutra um aspecto confuncionista, e aí o sutra aumentava. Depois achavam que as mulheres receberam pouca atenção no capítulo das mulheres. Aumentaram o sutra. E assim foi.

Essa é a realidade da exegese histórica. Mas haverão escolas que dirão que esse sutra foi dito por Buda, e se você disser que historicamente isso não é verdadeiro, eles dirão que o sutra ficou escondido, porque as pessoas não estavam preparadas para ele etc.Então há muitas coisas assim em escolas budistas.

O Zen se beneficiou nos últimos 150 anos com a formação de universidades e centros históricos e à medida que se estuda seriamente os textos e a história, as coisas começam a ficar datadas, e começa-se a fazer raciocínios a respeito. Isso mudou a perspectiva do Zen, nós nos beneficiamos muito dessa visão mais exata dos tempos de hoje. Nós sabemos que dos sutras mahayana nenhum foi escrito no tempo de Buda. Todos eles são de autoria de um tempo posterior. Mas, tem uma outra observação a ser feita, o budismo é uma construção contínua, ele está sendo construído aqui e agora, nós temos um budismo brasileiro em construção, temos coisas que são características por exemplo da nossa sangha, que são diferentes até de outras sanghas budistas, porque por uma visão nossa, vemos alguns problemas e dizemos que não vamos permitir determinadas coisas.

Por exemplo, os leigos em muitas sanghas através do mundo usam roupas como essa, o koromo, até em outros países. Outro dia um senhor  me mandou uma foto dizendo que tinha uma roupa de monge. Não é uma roupa com a manga assim, na realidade é um koromo para leigos, que tem uma diferença no seu corte, na sua estrutura. Aí eu perguntaria: para quê que os leigos querem usar um koromo?  Não gosto muito disto, porque nas sanghas, e é da natureza humana, as pessoas gostam muito de títulos, cargos e roupas. Então se a gente permite, começa a ter gente já querendo “parecer” que é Monge. E para quê? monge tem que ser um cargo desagradável, tem que ser chato, ruim ser monge. Yoko San está aqui pra testemunhar. Ele se tornou monge e começaram a aparecer todos os problemas de monge e um belo dia ele chegou para mim e disse que não queria mais ser monge, que queria desistir. É mais confortável ser leigo. Agora, querer ser monge sem os desconfortos de monge, isso não é possível.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Sumedha e as prostrações


A idéia de realmente estar na presença de Deus, seria uma presença tão abrangente, tão poderosa, que varreria todas as outras idéias dentro da mente, então seria uma integração perfeita. Se nós começarmos a pensar profundamente assim, nos chegaremos à mesma coisa, não num nível, digamos, das crenças populares. Nas crenças populares o budismo também é assim, quando você vê um documentário de budismo, as crenças populares também são ingênuas, não é aquilo que Buda ensinou, é aquilo em que o povo transformou o budismo, para poder entendê-lo. Então vamos a países budistas e vemos as pessoas fazendo pedidos num pedacinho de papel e pendurando em árvores, e vão dizer que isso é o budismo, isso é outra coisa, isso é aquilo que foi possível para aquele tipo de mente, que precisa fazer pedidos e quer um auxílio externo sempre para si, coisa que, na essência, o ensinamento budista negaria. 

Então, para quem nos inclinamos, se não existe o Buda, não existe o outro? Nós nos inclinamos para combater nosso próprio orgulho, assim a prostração que é muito difícil para muita gente, na sangha leiga mesmo, muito parcimoniosamente é realizada, mas no sesshin no final do dia digo: “voto do Bodhisattva e sampai”. Sam quer dizer três. Sampai, três prostrações, e fazemos prostrações até o chão, cotovelos no chão, joelhos no chão, cabeça, e as mãos na altura das orelhas, para receber os passos de Buda, para servir de ponte sobre a qual Buda caminha.

Esta é a lenda, de que numa outra era, Sumedha, um praticante, viu Buda Dipankara, o Buda da era anterior e havia lama no caminho e ele se jogou no caminho, para que Buda caminhasse sobre ele. Aí Buda Dipankara colocou os pés sobre as costas e as mãos dele, e passou sobre ele, virou-se, Sumedha olhou pra trás e Dipankara disse: “daqui a 500 vidas, você será um Buda”. Então, 500 vidas de Bodhisattva depois, Sumedha tornou-se Shakyamuni Buda. Então esta é a lenda que justifica a tradição da prostração. Então nós fazemos prostrações para dizer: “eu sou uma ponte, caminhe sobre mim”. E isso exige que você abandone a si mesmo para ser ponte para os outros seres.

É interessante nós notarmos que um dos títulos do Papa é “pontifex” em latim, pontífice em português, o que quer dizer, “construtor de pontes”. Então nós vemos as similaridades, as mesmas idéias se entremeando, não é? Nós temos que ter a clareza de olhar as coisas “vendo” através, e não vendo apenas a superfície, vendo mais fundo, aí o mundo nos parecerá diferente.

Então fazemos reverências para nós mesmos e, quanto mais profunda, quanto mais prostrações, mais é um remédio para nosso próprio orgulho. Enquanto você tiver resistência, é porque na realidade você precisa fazer.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O abandono de si mesmo


Esses dias coloquei em um post de uma palestra que dei em Goiânia, a declaração de Matsu, quando alguém relata a história de que Buda menino, nasceu e saiu andando, e choveu uma chuva doce e pétalas, flores caíram do céu, e ele apontou com uma mão pra cima e outra para baixo, há uma estátua de Buda menino assim, e disse: “entre o céu e a terra eu sou o mais honrado”. Comentário do mestre Zen Matsu: “se eu estivesse lá nesta hora, eu o teria matado a pauladas e jogado sua carne aos cachorros”.

Esse é o comentário do Zen, por quê? Porque o evento em si contradita o “espírito” do budismo, uma vez que transforma Buda em um ser extraordinário, capaz de andar e falar logo depois de nascido e ainda se achando mais honrado entre o céu e a terra do que todos os seres, ou seja, é a própria declaração da separação.

Mas voltando ao início da palestra, sobre a reverência, a quem fazemos a reverencia? Nós não podemos fazer a reverência para outro, assim como não podemos fazer reverência para Buda, porque aquele que entra na sala e faz uma reverência para Buda, é um herege no Zen, porque nós não fazemos reverências para uma estátua de Buda, nós fazemos reverências para o “ideal” de sermos capazes como Buda, de despertar. É esta a idéia na qual nós tomamos refúgio, nós dizemos no início do ritual da manhã: “eu tomo refúgio no Buda”. Não é na pessoa, eu tomo refúgio na possibilidade de despertar esse ideal, eu sei que é possível que eu desperte, junto com todos os seres. Eu não tomo refúgio em uma pessoa, porque a pessoa representada no altar aqui atrás, é morta, extinta, há muito tempo. Não é possível uma reencarnação de Buda por exemplo, isso que a gente vê às vezes na imprensa, é um absurdo, não existe isso. Primeiro porque não existe reencarnação no budismo, existe continuidade cármica, não de um “eu”; segundo porque Buda, ao extinguir sua energia cármica com sua iluminação, ao esgotar seu carma, não tem porque retornar. É justamente esta a vitória, deixar de ser onda, para ser oceano, ser uno com tudo, mas não ser uma energia que força novas manifestações, com todas as suas consequências. Isso é que é visto como aprisionamento.

Aquilo que em geral é visto como vitória sobre a morte nascer de novo, ganhar novo corpo, ser um eu eterno, do ponto de vista budista é um tremendo de um castigo porque ficar condenado a repetir isso, aqui, de novo, sempre, a mesma coisa, isso é um aprisionamento. E despertar seria se libertar desse aprisionamento. Então é o contrário de ambicionar ter um eu eterno. Na realidade, é ambicionar ter uma integração perfeita, completa, absoluta e não uma eternidade de um eu. Se nós fossemos pesquisar profundamente em outras tradições religiosas, mesmo na tradição religiosa da casa onde nós estamos, uma casa católica, nós acharíamos a mesma ideia, porque a idéia de estar junto a Deus significaria um abandono de si mesmo, seria outra coisa, não é estar sempre eu aqui,  uma idéia primitiva.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Buda era um homem como nós


Quadro de Eduardo Salinas
Ontem nós estávamos tendo uma instrução de orioky e uma aluna fez uma pergunta que ficou na minha mente. Ela perguntou: “quando fazemos inclinações nas reverências, até que ponto é reverência e se for mais profundo, não é submissão”? Essa pergunta é bem interessante porque é como se nós estivéssemos perguntando se há um momento de grau em que a inclinação se converte de uma coisa em outra? Ou o espírito da pessoa que está fazendo a reverência é que faz a diferença?
Ora, na tradição do budismo, havia o costume de você fazer circumbulações em torno do Mestre, você vinha e dava voltas em torno dele, e depois de dar 3 voltas ia à frente dele, se prostrava até o chão e tocava nos seus pés ou os beijava.

Então se nós olharmos as antigas tradições, parece que a pessoa que chegava estava abandonando a si mesma e nesse abandono de si mesmo, então ela conseguia aceitar o mestre como guia. Nós temos no Zen tradição um pouco diferente de outras escolas. Há escolas em que o mestre é colocado num estrado elevado e está bem claro que ele é diferente dos discípulos e as instruções são olhar o mestre como um “guru” e esse ser então seria o reflexo de todas as perfeições, é a prática como um espelho da Guru yoga, muito poderosa se bem realizada, mesmo quando ele faz uma coisa aparentemente errada, os alunos olham e pensam: “ah, este é um ensinamento, ele fez isso por um ensinamento e não por um momento de imperfeição”.

Vocês vejam mesmo que na nossa tradição que conhecemos desde a infância, o cristianismo, Cristo é narrado entrando no templo derrubando as mesas e um dos evangelistas até vê um chicote em suas mãos. E ele chicoteia os mercadores que estão vendendo coisas no templo. Isso nunca impediu todos de olharem Cristo como uma imagem da perfeição, então está justificado seu ato e essa justificação faz do ato também um ato de ensinamento, um ato perfeito.

Esse mesmo tipo de tradição existe em algumas escolas budistas. No Zen isso é diferente. No Zen é assim: o mestre está bem próximo dos discípulos e senta na mesma altura deles. Ele é claramente uma pessoa com imperfeições e declara isso a todo momento. Quando o aluno chega para um professor e diz que tem paixões, o professor responde, invariavelmente: “eu também, eu também sinto isso, eu também sou assim. Eu não sou diferente de você, eu sou exatamente como você”. E por isso tudo é possível, porque Buda era exatamente como nós. Esta é uma declaração constante no Zen - Buda era um homem como nós.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Místico mesmo é andar


 Muitas vezes as melhores experiências não acontecem aqui no zazen, acontecem fora do zazen. Então, estejam atentos às coisas fora do zazen? No zazen, nós estabilizamos a prática, a mente, praticamos samadhi, aí, cria-se terreno para surgir experiências melhores, insights mais claros. Não esperem coisas extraordinárias ou mágicas, porque não é isso. Já é mágico estar aqui, comer, sentar, viver, respirar. Isso é muito mágico, maravilhoso. Então, nós já temos magia suficiente, extraordinário suficiente, misticismo suficiente. Não precisamos de mais nada. Místico mesmo é andar, colocar um pé na frente do outro. Isso é muito místico. Lembrem, como um caminho de dez trilhões de léguas, que chega no mesmo lugar.

Então você, ao mesmo tempo que quer chegar em algum lugar, você já chegou. Já é o lugar certo. É como o título daquele livro “O pico da montanha é onde estão meus pés”. Já é agora. Essas ambições são tolas. Na realidade, a maior parte das coisas que a gente vê na vida só é fumaça. Se você tem um evento desagradável, passa um tempo e anos depois você olha para trás... “ah, naquele tempo... naquele tempo... naquele ano” eu perdi minha carteira com os documentos e tive que fazer tudo de novo... nem me lembro mais de todo o processo que tive de fazer. Passou completamente.

Qualquer coisa que aconteça vai passar. Só não vai passar se você fica voltando, angustiado, agarrado naquilo. Se você estiver agarrado, aí sim, aí você sofre. Nós não sofremos pelos nossos amores, nós sofremos pelos nossos apegos. Sempre repito essa frase também, de que a felicidade está disponível. É como sentar em zazen. Está tudo disponível. Você já chegou. Mas a infelicidade você constrói com as coisas em que você acredita. Está tudo dentro da sua mente. A turbulência dentro da sua mente é que você constrói. Ela é que é a infelicidade.

No exemplo aquele da carteira perdida: eu tenho que fazer isso, tenho que fazer aquilo, você tem um monte de incomodações pela frente. Então, o pensamento do “eu tenho que fazer”, isso é o sofrimento. O sofrimento é construído dentro da mente. Se você conseguir lidar com sua mente de uma forma um pouco diferente, o sofrimento vai diminuir muito, se não desaparecer. (Final da palestra, decupada por Rachel San)