sexta-feira, 17 de maio de 2013

O céu dos outros



Siddharta sentiu-se angustiado com um problema que todos sentem. O problema é: eu estou falando para uma platéia de pessoas condenadas à morte. Todos aqui tem uma doença terminal, que chama-se vida. Termina inevitavelmente em velhice, doença e morte. Nós tentamos fingir que não é assim, tentamos não pensar no assunto.

O que aconteceu com Siddharta foi que isto pareceu-lhe extremamente importante. Esse assunto tirava todo o sentido da vida. “De que adianta eu ser príncipe, ter concubinas, esposas, filhos, luxo, riquezas, vou ser Rei depois, mas, de que adianta tudo isso se essa historia toda termina com uma morte abjeta, esse corpo que a gente tem que sustenta a vida simplesmente apodrece’?

Vocês podem evitar que os vermes comam suas mãos, sua carne, sendo cremados. Aí a gente pega as cinzas e espalha. É tudo o que se pode fazer. Em qualquer das duas hipóteses, nós viramos adubo. Então, Siddharta disse: “Eu! Eu, Príncipe, vou virar cinza! Vou adoecer, envelhecer e morrer. Então, que sentido tem a vida?”

Isto foi o problema que angustiou Siddharta. Deveria angustiar todos os homens. Na verdade, só não angustia quem não pensa e à medida que a humanidade pensou, ela tratou de achar alguma solução para isso.

As soluções, normalmente se expressavam sob a forma de alguma crença, algum sistema, em que todas as pessoas começavam a acreditar ou eram convencidas pela sociedade e o entorno a acreditar. A civilização antiga mais conhecida é a egípcia. Temos 3.000 anos de história antes de Cristo na civilização egípcia e eles deduziram que a coisa seria conservar o corpo. Então pega-se o corpo, tira-se as vísceras, enche-se de alcatrão, enrola em bandagens, coloca junto com coisas para auxiliar a vida do outro lado, comida, carruagens, espadas, etc, quanto mais rico o homem mais ele levava. No início levava seus empregados também para ajuda-lo do outro lado. Então, não era um bom negócio você ser um empregado do Faraó, pois se o faraó morresse, você seria enterrado vivo, junto com o Faraó.

Mas assim, eles estavam garantindo uma vida no “pós-morte”, com o mesmo corpo. Tá certo que o corpo das múmias que a gente olha não está servindo pra grande coisa, mas, era uma “solução”.

Depois fomos partindo pra outras soluções, idéias sempre em caráter “não morte”. Por exemplo: eu posso quem sabe ressuscitar? Então, a promessa é: se você morrer dentro de determinadas condições, então você vai ressuscitar depois com um corpo novinho em folha. E aí, viveria numa terra perfeita pra sempre.

Os gregos gostavam muito de fazer o quê? Conversar na praça de cidades que se chamava “Ágora”. Então, os gregos pensavam, como seria o nosso Céu, depois da morte? Então os homens bons iriam para o “ Hades”, que era a terra dos mortos, os bons para um lugar que era uma ilha paradisíaca, onde as regras eram de que a comida viria pronta, caía das árvores, as roupas também, você não precisava trabalhar para fazer nada. Tinham regatos límpidos, temperatura maravilhosa e você podia conversar sobre filosofia. Não é um céu para gregos? Conversar , debater.

Os muçulmanos nasceram entre os árabes, os descendentes de Ismael, filho bastardo de Agar, escrava de Abraão, expulsa por Sara, quando Issac nasceu. Então, é uma história filha do ciúme, e os descendentes de Ismael, os árabes e os descendentes de Issac, os israelitas, estão brigando até hoje. Nós tínhamos que conversar com Sara, voltar no passado e dizer: “Sara, não faz isso”! Mas ela pediu a Abraão que expulsasse Agar e Ismael de sua casa. Os árabes estavam no deserto e acabaram criando uma sociedade que tinha um indivíduo que era o privilegiado total. O sultão. O sultão tinha uma coisa que todos os homens queriam, e ninguém tinha: um Harém! Então, pronto, resolvido: no céu islâmico, cada homem que morre bem, vai pra lá e ganha 72 mulheres! As huris, bonitas, sempre jovens, e não trazem sogras.

E assim vamos percorrendo a história. Os vickings: faziam guerras, eram conquistadores, como na tirinha do Hagar, o horrível. Então eles têm um céu especial, chama-se “Valhalla”. Se você for um homem valente, vai pro “Valhalla” e lá você vai poder guerrear e saquear para sempre.

Tão vendo como são os céus? A gente ri não é? A gente ri das crenças e culturas “dos outros”. Elas nos parecem ridículas. As nossas não.
(continua)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O fluxo é para a frente



Por que que você gira no sentido horário na sala de meditação? Porque o tempo não anda para trás. Tudo que você faz, fica. Então gire sempre no sentido horário para se levantar, não há como retornar, relembre. O fluxo é pra frente.

Por que você entra com o pé esquerdo na sala de meditação? Porque você entra com sua intuição. Este é o espaço da intuição.

Por que você sai do zendô com o pé direito? Porque sai desse espaço subjetivo e agora é o mundo objetivo, onde tenho que trabalhar com meu “eu”, tenho que agir, que trabalhar, que ganhar dinheiro, pagar as contas, etc. Este é o mundo racional, com o pé direito.

Lá é lugar de treinar uma coisa. Aqui fora é lugar de viver outra.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Apagar os condicionamentos mentais



Posso dizer com clareza, que todos nós temos dentro de nós de tudo. Dentro de mim há um assassino, pois, na época em que, jovem, eu treinava tiro, se viesse um assaltante, eu mataria. Tecnicamente.

Esta marca cármica fica lá. Os jogos eletrônicos são exemplo disso. Não são inocentes. Há a presença de marcas cármicas que são criadas na mente, ali. Jogar um jogo violento no computador não é inócuo. É criação de uma marca cármica na sua mente. Serão necessárias décadas de prática, pra ir amenizando.

A única vantagem é de que “eu sei” como é a mente. Eu sei o que faz uma pessoa com arma na mão e esse treinamento. E ele vai fazer isso. E nós seres humanos somos extremamente maleáveis. De acordo com o treinamento que você der, você faz outra mente, cria novas marcas e energias de hábito.

Então o que fazemos no ZEN? Levamos a pessoa para um primeiro treinamento: ZAZEN. Primeiro vamos limpar. Limpar todo o passado, parar de pensar no futuro.

Quando você faz isso, você corta duas coisas: o passado traz os remorsos, as culpas, etc. Então o passado é fonte da depressão. E o futuro é a fonte da ansiedade e da decepção. Cria expectativas, decepciona, desilude, etc. Por quê você se decepcionou com alguém? Porque você alimentou uma expectativa. Você pensou no futuro e as coisas não saíram como você esperava. Essa sua decepção é ruim pra você? Sim. Mas de onde ela vem? Da sua expectativa. Daquilo que você alimentou dentro de você, sobre o futuro.

Vamos sentar em Zazen (meditação). Como trabalhar tudo? Por exemplo na psicologia, o trabalho é imenso. As pessoas ficam décadas falando para o terapeuta, elaborando, mexendo, etc, e muitas vezes pouco resolve. O que fazemos no zazen? A abordagem é oposta. Sentar aqui. Seja o que for que venha, deixe, não importa. O que nós vamos fazer é “formatar” o disco preenchido. Apagar tudo e vamos começar com outros condicionamentos. E todos os rituais e regras pretendem criar condicionamentos mentais, porque a forma ou o ritual que fazemos no ZEN, que não têm tanta importância e que podem ser mudados, criam uma mente diferente.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Causalidade não é carma



E a cada vida nós esquecemos do nosso “eu”. Porque não existe uma coisa dentro de nós e que é o nosso eu e que carrega carma e que muda de corpo. Não é isso.  Pode desaparecer a terra, o universo inteiro, mas os impulsos cármicos procurarão onde se manifestar em novo universo. É isso que acontecerá.

Então existe também um carma coletivo, você nasce em um país, tem um carma coletivo daquele país. Mas isso é determinado pelo seu carma individual. Você vai pra lá, sente-se atraído para nascer lá.

Já causalidade é outra coisa, não é causado pelo seu carma individual. É uma condição da vida humana, pode acontecer um terremoto ou qualquer coisa e não podemos dizer que isso seja culpa da pessoa ou carma, isso é causalidade, é outra coisa diferente. Você está sujeito a causalidades porque teve carma para nascer humano, e os humanos estão sujeitos a doenças, acidentes, etc.

De certa maneira, contudo, carma tem a ver com causa e efeito. Você tem uma ação que causa frutos, mas em geral estamos dizendo “carma individual”, ação intencional, você fez intencionalmente, isso gera carma individual.

As doenças podem ser as duas coisas. Porque se você tem uma conduta que gera aquela doença, você vai colher os frutos daquele mal. Se você fuma e tem câncer de pulmão, você vai colher os frutos de fumar. É lógico.

Então, existe ação e consequência sim, mas quando dizemos carma normalmente estamos falando de ação intencional, individual, que causa “marcas mentais” que modificam a mente e que portanto modificam a próxima manifestação. É este conjunto que interessa. Nós não chamamos de “alma” porque não há um “eu”, mas existe uma continuidade da onda cármica no mundo. O Budismo não diz que não existe uma continuidade.

Mas, para sua prática, nem precisa acreditar nela, porque o Budismo não pede que você “acredite”. Tudo é raciocínio lógico. Você não precisa aceitar nada.

À medida que você for fazendo boas marcas, sua energia de hábito mudando suas marcas cármicas, você muda seu carma e portanto muda o mundo e você mesmo. E determina a sua manifestação futura. Você muda já nesta vida. Você muda agora. Vai mudando. Na medida que você treina a sua mente de outra forma.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

É o carma que manifesta identidades



Quando você morre, você tem uma mente, com marcas. É isto que renasce. É isso que vai se manifestar no universo. Por quê? Porque as energias do universo, toda a energia do universo, ela não cessa. Ela não desaparece. È a 1ª lei da termodinâmica. Lei da conservação da energia. Esta continua, ela só se transforma. A energia daquilo que você fez, continua. As marcas que você tem, os impulsos da sua mente, continuam. E essa coerência, esse quantum de energia, essa onda cármica que em ultima análise nós somos, com suas marcas, energias de hábito etc, e que no conjunto diz-se “carma”, simplificando, pra não dizer tudo isso, esse conjunto todo vai se manifestar em um “ser”.

Quando um ser qualquer nasce, ele é herdeiro de uma onda cármica. Quando ele é herdeiro de uma onda cármica, que já vai nascer naquela família, naquela situação, naquela família, naquele país, porque tem carma para isso, está atraído por aquela manifestação, por aquela genética, ambiente etc, a pessoa nasce num lugar para onde seu carma naturalmente vai. Você está aqui numa aula sobre o Dharma porque tem carma para isso, se sentiu atraída por isso. Outros estão fazendo outra coisa. Quem sabe há um churrasco? Com bastante caipirinha etc? E assim por diante. As pessoas estão procurando aquilo porque se sentem atraídas. Elas vão atrás disso, tem carma para tanto.

Assim é também quando você nasce. Você é atraído para um determinado ambiente porque você morreu com a mente afinada com aquele meio. Aí você nasce lá. Por isso não é a genética que veio antes. É o carma. É por isso que com semelhante genética, irmãos são diferentes.

Então o carma vindo, manifesta um ser. E este ser começa a pensar, dar-se conta, os pais dão um nome. Aí eles dizem que seu nome é esse. Um dia, na infância, você pula de “nenê quer isso” para “”fulana” quer. E a medida que chega este momento, você vai criando uma noção cada vez mais sólida de um EU. Você estrutura seu ego e suas preferências, etc, vai tomando escolhas, mas essas escolhas vêm marcadas por uma coisa anterior, de preferências que você tem, de marcas cármicas que você tem e que você não sabe de onde são. Por quê essa pessoa gosta disso? Por quê que ela pensa assim? Ela tem uma herança cármica. Então é o CARMA que renasce, que manifesta um ser. Durante algum tempo na primeira infância vemos lembranças fugazes que de alguma forma vieram impressas com o carma de vidas anteriores.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Samskara



Karma significa em sânscrito, ação. Conseqüencia é Vipaka. Literalmente, em sânscrito, Vipaka quer dizer fruto.

Na verdade quando as pessoas dizem “isso é karma”, elas dizem isso é “Karma Vipaka”. São os frutos do karma. Karma diz que você comete uma ação, faz alguma coisa e essas sim terão uma conseqüência, gerarão fruto. E esse fruto vai germinar quando houver condições propícias. Não é automático, pode não suceder nesta vida.

O fruto não precisa acontecer nesta vida, nem imediatamente. Pode levar muito tempo. Você insulta uma pessoa, não acontece nada. Se você fizer isso numa cidade e for embora pra outro lugar bem longe o fruto dessa ação, que normalmente é a raiva da outra pessoa, não atinge você. No entanto não significa que essa ação e seu fruto não está guardado. Nós dizemos então que são sementes. Sementes que estão esperando.

Sementes que irão frutificar quando houverem condições propícias. Aí sim haverá um fruto se houver água, terreno, etc. Por ex. se houverem condições propícias e você encontrar essa pessoa, num determinado momento, no futuro, aí pode ser que esse fruto aconteça.

No entanto, dentro de você há uma coisa que aconteceu com seu insulto. Em sânscrito, chama-se “Samskara”: a “marca cármica”. Essa é a marca que ficou dentro de você, é o seu hábito. São energias de hábito, que estão dentro de você.

Então você insultou, não houve fruto direto. Mas há um hábito, o hábito de insultar. A mente que ofende. Samskara, a marca cármica, as energias de hábito.

Essas energias são sulcos dentro da sua mente. São marcas. Essas marcas tendem a se repetir. Porque você marca e volta. Por ex.: eu tenho um vale, um terreno. Aí chove, a água corre no terreno. No início é um filetezinho, mas se você corta a grama, etc, o filetezinho arrasta um pouquinho de terra e faz um sulco, uma marca. Quanto mais chove, mais água corre ali, mais funda fica a marca. No fim, é o grand cannyon. É uma enorme marca inescapável. A água que cai vai ao fundo e não há nada que mude, e a terra foi levada e virou um grande buraco e não tem conserto. Isto é Samskara. A marca, as energias de hábito, criam sulcos, esses sulcos nos marcam e tendem a se repetir.

Á medida que eles vão se repetindo, mais fortes ficam as energias de hábito. Então a pessoa que fez o insulto pode não ter o fruto da ação mas ela criou uma marca que vai se aprofundando e vamos dizer assim, no limite, pode ser uma pessoa raivosa que está sempre insultando todo mundo. Eu conheço pessoas assim. Não consegue escapar da situação de estar sempre criando conflitos, e, qualquer coisa que acontece, explode em insultos. Não é isso? Extremamente destrutivo e no fundo essas marcas, as energias de hábito acabam gerando um próprio fruto que é a marca cármica, o Samskara.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mostrar com o corpo



Pergunta – A gargalhada é uma reação fisiológica que faz bem à saúde, nos mosteiros existem atividades que provocam gargalhadas? Jogos? Diversões?

Monge Genshô - Jogos não. Uma vez eu estava em um mosteiro e tinha uma responsabilidade, tinha que tocar um sino antes da hora do almoço. O sino ficava num prédio longe, tinha que sair minutos antes para tocar. Eu tinha que ficar cuidando o relógio do zendo para poder sair no horário. Tínhamos acabado de fazer zazen e havia um monge do meu lado que era da Colômbia, muito meu amigo. Ele sabia muito mais que eu, já tinha feito outros Angôs. Então ele olhou para mim e disse “Genshô, você não tem que tocar o sino?” Comecei a sair rapidamente do Zendô e quando olhei para o relógio percebi que ainda eram nove horas, voltei rapidamente para o meu lugar com todos me olhando e disse, “ainda são nove horas!” e de brincadeira ameacei lhe bater com o Zagu. O zendô inteiro, estavam de pé, voltados para o centro naquele instante, riu, pois pensaram que ele havia me pregado uma peça.

No dia seguinte eu havia pegado uma virose e estava com diarréia, ele então disse que fora por causa do susto e me pedia desculpas porque havia se enganado. Havia também um monge francês, tínhamos acabado de fazer um sesshin de três dias, todos mudos, chegamos ao quarto e ele disse, “acabou o sesshin, tenho uma garrafa de vinho”. Abriu a garrafa e todos nos reunimos rindo, para tomar um cálice, coisa que os instrutores jamais deixariam se soubessem. Na realidade os homens velhos, monges, as vezes acabam se comportando como colegiais. Rir faz parte da vida e os monges são pessoas alegres, tem um treinamento duro, mas tem alegria, uma alegria muito bonita, porque não está eivada de um sentimento baixo, é alegria, solidariedade, companheirismo e amizade, isso é característica do treinamento Zen.

O fato de Genshu Osho estar nesse sesshin, por exemplo, é uma demonstração de grande amizade e afeto por nós. Ele veio do Japão, e estava em São Paulo, quando soube que haveria um sesshin aqui, pediu para participar, então em vez de estar passeando, veio para cá sentar conosco. Isso é na verdade a ação iluminada, não é nada de especial, apenas viver, aproveitar a amizade e o afeto. Como ele não fala português, não pode falar claramente, mas está demonstrando com seu corpo, espero que vocês consigam perceber.

Pergunta – Voltando ao assunto do consciente e inconsciente, a função do nosso inconsciente é nos manter vivos, por exemplo, se ficarmos sem respirar, trancarmos a respiração por alguns minutos, o inconsciente derruba o consciente e assume para que voltemos a respirar, de repente a função do inconsciente de nos manter nesse grupo de loucos, não é para nos manter na tribo, para que não nos sintamos sós?

Monge Genshô – Até pode ser, na verdade no budismo não se faz essa distinção de consciente e inconsciente. Diríamos que esses processos do sistema automático do corpo fazem parte dos mecanismos da vida em que consciente e inconsciente estão misturados e, talvez, por causa do zazen tenha surgido essa não separação de consciente e inconsciente nos termos da psicologia ocidental. Que nosso corpo procure o prazer, a reprodução, a satisfação, isso é natural. Quando engordamos por comermos demais, por que isso acontece? Porque deixamos um processo natural tomar conta, o que não seria correto, se você comesse ração, por exemplo, quando um cão fica adulto não come demais, porque é sempre a mesma comida, mas se você diversificar a alimentação acontecerá o mesmo que com os humanos, engordam, se der doces ficam diabéticos. Temos que sobrepor aos nossos desejos naturais uma consciência do que estamos fazendo e o porque fazemos. Em um retiro é fácil, comemos com oryoki (tigelas rituais), ninguém come demais com oryoki, é fácil em mosteiros, em mosteiros não se vêem monges obesos. Mas em um restaurante é diferente, senta, conversa e come, come mais do que precisa.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

O caminho é infindável



Pergunta – Me sinto muitas vezes perdida, porque, aquilo lá fora não me diz mais nada e ao mesmo tempo aqui não cheguei em nada ainda...estou entre nada e coisa nenhuma...

Monge Genshô – Por isso o quarto voto do Bodhisatva, O Caminho de Buda é infindável, faço voto de percorre-lo até o fim. Mesmo que a gente tenha uma pequena experiência de despertar e comece a vislumbrar coisas, mesmo assim, você tem uma experiência e pensa que é pequena, embora ela tenha distanciado você das outras pessoas e elas pensem que você é louco e não podem mais entendê-lo. Você percebe que existe muito mais a fazer e passa para um estágio um pouco melhor,  e quando olha pra frente parece infindável mesmo. Genshu Osho, (Osho é o título dos monges plenamente formados não o nome de alguém) não é de uma família de monges, ele é de uma família comum, trabalhou como operário, mas sentia-se inquieto e foi para um mosteiro.

Não ser de uma família de monges no Japão significa uma dificuldade, da maneira como o Zen se estruturou no Japão, em que templos acabam sendo hereditários e confortáveis cartórios para se viver, os monges de vocação são diferentes e essa é a condição dele. Ele foi para um mosteiro e ficou dez anos sem sair, dez anos vivendo como nós estamos vivendo no sesshin, praticando cerimônias, sem família e sem ver o fim, sem nunca ver o fim. Sempre na esperança de chegar um pouco mais longe. Uma vez por mês sesshin. E todos os dias no encerramento das atividades o verso “não desperdice sua vida”. Porque todos os dias passam e você não obteve o despertar. Todos os dias de novo, por dez anos. Então, é claro, o rosto muda.

Ele ficou na minha casa e o que posso dizer dele? Um homem comum, só que em sua conduta não há falhas. Eu disse à ele que poderia ver televisão se quisesse, ele me respondeu que faz 15 anos que não vê televisão, então vai para o quarto e lê, ou senta num zafu e pratica zazen. Depois de dez anos ele ainda precisa praticar. Ele pediu para ficar em casa um dia e o que ele fez? Lavou a roupa, estendeu, limpou a casa. Se você disser, “sim, ele recebeu a transmissão, agora é Osho, isso significa que ele tem alguma realização espiritual, mas qual é esse intelecto, essa inteligência, essa compreensão, essa sabedoria?” A única coisa que posso dizer é que ele limpou a casa.

terça-feira, 7 de maio de 2013

O fruto da árvore da ciência do bem e do mal



Pergunta – Mas por que a gente faz isso, se é nossa natureza, por que fazemos isso...a gente vê os pássaros, estão ali, simplesmente sendo, parecem tão livres, tão felizes em harmonia...

Monge Genshô – É que eles não conhecem a ilusão.

Pergunta – E quando começamos a fazer isso?

Monge Genshô – Quando começamos a ter consciência de nós mesmos. Quando dissemos “eu sou”. Saikawa Roshi diz, “Os pássaros são verdadeiramente pássaros, os peixes são verdadeiramente peixes, somente os homens não são verdadeiramente homens”.

Pergunta – Talvez a grande pergunta seja, “o que foi a maçã?”. Quando o homem decidiu, “não quero mais viver no paraíso”.

Monge Genshô – Esse mito que está na Bíblia é esclarecedor. A Bíblia não fala numa maçã, na verdade o Gênesis fala da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Se formos traduzir para palavras budistas diríamos que o homem tomou do fruto do pensamento e dividiu o mundo em pedaços com sua mente dual, colocou de um lado o bem e outro o mal, tomou conhecimento da dualidade, você aí e eu aqui, certo e errado, o pecado e a virtude e quando fez isso se perdeu e foi expulso do paraíso, na porta um anjo com uma espada flamejante para que não pudesse retornar.

Por algum motivo, no rumo da história, transformaram popularmente isso numa desobediência ou num fruto prazeroso. Mas o que está escrito no Gênesis é a Árvore da Ciência do Bem e do Mal e a serpente que antigamente era considerada um símbolo da sabedoria diz à Eva, “se tomardes desse fruto, sereis como os Deuses”, virou então um símbolo do demônio.  Os Deuses na mitologia budista também estão perdidos, também acreditam no bem e no mal, também acreditam no prazer, no nascimento e na morte, também estão perdidos. Na mitologia budista os Deuses vivem muito, tem vida muito prazerosa, porem grande dificuldade em ouvir o Dharma. Por isso também envelhecem e morrem, decaem e nascem como homens, Deuses caídos.

Pergunta – essa tentação porque passou Eva, pode ser comparada às filhas de Mara?

Monge Genshô – Os mitos não são verdades, os mitos são metáforas. Mara e suas filhas representam os desejos que nos chamam, as tentações. Aqueles que levam as pessoas para a festa. O que leva as pessoas para as festas? A sensualidade, desejos de sensações, embriaguez, os prazeres, o esquecimento. As filhas de Mara representam isso, as tentações. Quando Buda está para se iluminar, as filhas de Mara vem até ele, na realidade esse mito significa o que? Que você senta para meditar na busca de esclarecimento, de clareza de escapar do sofrimento. Daí apresentam-se para você os desejos sensuais, o desejo de conforto, desejo de ir pra cama e esticar as pernas, de comer melhor, todas essas coisas são as filhas de Mara. O mergulho na sensualidade leva a perda da clareza, esse é um problema básico, por que para distanciar-se disso você precisa distanciar-se de si mesmo, de seu próprio corpo, por isso os monges no começo eram convidados a meditar em cemitérios para verem os corpos se decomporem. Dessa forma ter mais clareza do que era vida, os monges não podiam ter companheiras, casar, ter filhos, casas, posses, nem guardar comida para o dia seguinte, era uma tentativa radical de distanciar o homem de seu próprio corpo.

Tentamos fazer isso no sesshin, comer pouco, dormir pouco, nenhum prazer sensual, mas temos ainda muito conforto. Pode parecer que não, mas é muito conforto. As vezes as pessoas perguntam, “por que no tempo de Buda tantos se iluminavam?” É só olhar o treinamento que eles tinham. Não é de se admirar que a iluminação fosse mais frequente. Nosso desafio é maior, porque na prática somos todos leigos, não somos como os monges do tempo de Buda. Não somos como Mahakasyapa que nunca se deitava para dormir. Vivemos vidas confortáveis, é muito mais difícil. Por outro lado ficamos pensando nisso “É difícil demais despertar e escapar dessa roda com essa vida que levamos”. Mesmo assim é possível.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Como um leão prestes a saltar





Pergunta – Aquele momento de torpor, que as vezes acontece, são momentos muito prazerosos...

Monge Genshô – O torpor é um indicativo que você relaxou. Estar cansado com um pouco de sono é bom para o zazen. O problema é que esse relaxamento só pode ir até certo ponto, não pode cair no torpor verdadeiro, ou seja, um pouco daquele sentimento de “estou relaxado e calmo, em paz”. Para que isso aconteça é necessário que não estejam surgindo pensamentos cheios de estímulos, raiva, ambição e desejos, nada disso. Esse é um bom indicativo, mas é como um fio de navalha, se você for um pouco além, esse torpor sonolento lhe tira a atenção e o alerta. É necessário manter o espírito como um leão prestes a saltar, ou seja, muito atento, mesmo que você tenha um sentimento de relaxamento, mantenha sua atenção bem clara no momento presente, tentando manter-se nele.

Pergunta – Se a maioria absoluta dos seres vivem nesse estado de inconsciência, e o estado de consciência, o despertar é tão bom, quem é o responsável por esse estado de ilusão? No filme Matrix, que tinha uma base filosófica grande, haviam as máquinas que eram responsáveis por esse estado, pela ilusão, existia um motivo por trás disso. Entendo a questão do ego, do eu, não entendo quem me boicota, quem não quer que eu desperte e por que, se é o ego, com qual intenção ele me mantém nesse estado de ilusão?

Monge Genshô – Ele é um surgimento natural, na verdade nós somos uma coisa magnífica. De um lado é plena ilusão, de outro é a grande consciência se manifestando, o grande ser se manifestando. De um lado você é onda individual, mas porque é onda e tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, percepção, formação mental, você é como se fosse o olho do universo, você vê e isso é maravilhoso, porque a vida é maravilhosa e você é um fenômeno do universo, fantástico, lindo.

Infelizmente esse fenômeno, por ver as coisas, ouvir e perceber, sente-se separado de todo o resto. É como se olho estivesse separado de você e visse, não tivesse o resto do corpo para conduzi-lo e o olho então pensasse, “eu vejo” e perdesse todo o resto, pois nítidamente ele enxerga e pensa, “eu sou”. Mas esse olho, não consegue ver a si mesmo, o ouvido não ouve a si mesmo, sua mente não vê a si mesma. Você inteiro é como se fosse uma partícula que se pensasse só, isso é uma grande solidão, uma solidão imensa que nós temos porque sentindo, pensando e vendo, somos só nós, estamos profundamente presos a essa noção e assim perdemos todo o resto.

Os sutra dizem, “a verdade do não nascimento”, nós não podemos deixar de pensar que nascemos, nós sentimos, “eu nasci, eu sou, eu penso, não quero morrer” e assim nos perdemos, porque somos muito mais que isso, nós somos o grande ser e perdemos o grande ser, perdemos tudo na ilusão de um pequeno ser, um pequeno ínfimo ser que se pensa e que percebe, “ele se pensa sozinho”, o grande despertar é perder-se de si mesmo pra mergulhar no grande ser, ser o grande Ser e não uma pequena partícula pensando em si mesma, é difícil de explicar, mas se em algum momento você sentir, mesmo que em um pequeno instante, que você é o grande ser, naquele relâmpago não há nascimento e não há morte, essa fugaz existência que vocês têm, perdidos em prazeres tolos dessa vida, em dores desde pequeno ser, estas pernas e joelhos que doem por ficar tanto tempo parados, esse é o nosso engano, como despertar? Primeiro é necessário abandonar nossa maior ilusão que é nossa mente, uma mente que não para, se essa mente ao menos pudesse parar um instante de conceber, poder sentir como é parte do grande ser, se nós abandonarmos a noção individual, o grande ser pode ter espaço, perceber isso é libertar-se de tudo, é despertar, não é algo extraordinário, fantástico, é tudo como sempre, só que completamente diferente.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Retiro Zen em 29 de maio



  • Casa de Retiros Vila Fátima. Rodovia SC 406, 2210 - Morro das Pedras Florianópolis - SC 88066-000
  • Sesshin de outono de 29 de maio à 02 de junho. Valor R$460,00 (hospedagem e refeições).
    Reservas e Informações: juliana@chalegre.com.br 

Publicações


A clareza e sabedoria



No sesshin (retiro) tentamos entrar em nossa percepção nítida e clara. “Quem sou eu, quem esse corpo que sofre?” Devemos pensar quando ele dói e sofre que ele é impermanente e irá se transformar em pó. Estamos muito longe dos acontecimentos da morte, porque os escondemos, quando levamos um corpo para enterrar ou cremar, ele está dentro de um caixão, escondido, não podemos vê-lo, na Índia, até hoje, essa é uma cerimônia pública em que o corpo é rodeado de lenha e as pessoas ficam ao redor atiçando o fogo para que o corpo queime completamente. As pessoas vêem a cremação, vêem quando uma cabeça explode e o crânio racha, quando a carne é consumida.

Nós não vemos a finitude de nosso corpo com clareza quando estamos sentados e nossas pernas doem, podemos pensar, “essas pernas serão completamente consumidas”, mas isso não é muita coisa. Quando levei as cinzas de minha mãe para jogar no mar, elas estavam num pacote que cabia nas mãos, muito pouca coisa, ao ser jogada no mar, forma-se uma mancha branca e a correnteza logo leva, é rápido. Nós ficamos sentados e prestamos atenção a esse corpo que sofre tanto com a imobilidade e com essa mente continuamente viajando de pensamento em pensamento, quantos devem pensar, “joguei fora esse zazen inteiro, por causa da dor não fiquei aqui um só momento, viajei para o passado e futuro, imaginei coisas e novos acontecimentos, sonhei”.

Perdemos então, a oportunidade de, mais uma vez, simplesmente ouvir esse pássaro, ouvir o rumor do mar. Mesmo quando ouvimos o som da festa, é uma grande lição, não deve ser desperdiçada, não devemos pensar que estão estragando nosso retiro, na verdade estão nos dando uma visão clara de outro mundo em que muitas pessoas estão mergulhadas, muito mais que uma dúzia de pessoas que estão aqui no sesshin, centenas e centenas de pessoas estão lá porque parece muito mais interessante.

Nós podemos alcançar alguma coisa no sesshin, mas o quê ? Clareza, nitidez, escapar do sonho. Quando estamos pensando, imaginando e recordando não estamos mais que reforçando nosso sonho. Sentamos aqui para sofrer e escapar dos sonhos, para isso é necessário grande esforço para voltar para cá constantemente. Não desperdiçar tanto sofrimento, porque não somos masoquistas, aqui ninguém gosta de sofrer. Então por que fazemos isso? Alguma coisa dentro de nós nos empurra, nos traz para cá, mesmo que digamos que não queremos vir, porque dentro de nós algo desconfia que estamos perdidos em um sonho e que desejamos despertar, queremos ser Budas, pois desconfiamos que Buda livrou-se de toda agonia e sofrimento e teve grande felicidade, alegria e contentamento com sua clareza e sabedoria de ver as coisas com nitidez.

Na realidade, quando despertamos, mesmo que um pouco, todas as perguntas parecem que tem resposta. Você é capaz de responder qualquer pergunta sobre a vida, não a pergunta “quais átomos estão contidos nessa cadeira?” Mas a sabedoria da vida. Eu desejaria ser capaz de despertar os outros seres, mas, infelizmente, não somos capazes de fazer isso, cada ser tem que despertar sozinho. A força da ilusão é muito forte.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Entreter e divertir, os verbos da ilusão



Esse contraste com que estamos fazendo é imenso, estamos no sesshin (retiro) o som do mar já é forte, os pássaros cantam muito alto, já ouvimos com nitidez, não é um som abafado que está presente em nós. Estamos procurando clareza e presença, nosso corpo dói. Não se enganem em pensar que os monges não sofrem, ficar parado, imóvel, provoca dores no corpo, muito desconforto, mas esse desconforto nos traz uma extrema consciência de que eu tenho um corpo, estou vivo, quero um momento qualquer que seja mais confortável que isso, um samu (trabalho comunitário), a caminhada, uma palestra.

Então, nós estamos a procura da clareza em contraste com a loucura do mundo, esse embrutecimento, o não ver com clareza nossa verdadeira natureza e mergulhar mais fundo na ilusão. Na verdade nós estamos dentro do sesshin mergulhados na ilusão. Na ilusão de nossa própria manifestação pessoal. Somos ondas de irregularidade na superfície do universo, nós pensamos que somos, esse pensamento de que somos um eu, é nosso sonho, nossa ilusão. Despertar dele é muito difícil, mais ainda quando sentimos dor, nesse momento nos sentimos ainda mais presentes, sentimos “eu estou aqui”.

Mas você sente a sua ilusão com clareza, quem vai para a festa tenta esquecer tudo, é como se jogasse fora a oportunidade da vida, como se não estivessem se abrindo e vendo as coisas como realmente são e mergulhados no inebriar-se para esquecer, por isso as palavras são entreter, divertir. Essas palavras significam, sair do seu centro e ir para fora, algo diverso, diferente. Dessa forma, com esse jogar-se na embriaguez do movimento, do som e do prazer, perde-se a nitidez e nossa própria percepção.
(continua)

terça-feira, 30 de abril de 2013

A loucura do mundo I



Nós praticantes, temos que enfrentar uma coisa chamada A loucura do Mundo. Nesse sesshin tivemos a oportunidade de sentir esse contraste, durante toda a noite e pedaço da manhã, ouvimos o som de uma festa rave, uma festa que ocorre a quilômetros de onde estamos. Podemos imaginar o espírito que anima essa festa, todos nós já estivemos em alguma festa com som alto.

Quais são as características das festas? Nos embriagamos, tentamos não pensar, tudo é feito para que as pessoas escapem da clareza e percepção da vida como ela é, de como sentimos e percebemos a vida na sua natureza intrínseca, sua finitude, a questão dos desejos e prazeres, daquilo que nós procuramos e que normalmente embrutece os homens. Em geral os prazeres exigem certa cegueira, exigem que você ignore o sofrimento alheio, quando comemos algo prazeroso, esquecemos que mesmo quando comemos arroz grande sofrimento aconteceu para que ele chegasse até nós, foi necessário que muitos seres, pequenos seres na terra fossem sacrificados. Foi necessário, inundar campos, usar herbicidas, ou seja, mesmo quando comemos algo que nos parece inocente, não é assim.

Então, quando fazemos a pratica do Oryoki, (refeição ritual zen) a fazemos com grande respeito e não desperdiçamos nem um grão, pois temos que pensar no sofrimento que acontece por existirmos. Nas festas as pessoas bebem, ou mesmo usam drogas. Ao fazerem isso elas embrutecem suas mentes e tentam não enxergar nada, perdendo desta forma, algo muito difícil de conseguir, a clareza. Esquecemos também, o resto do mundo, o sofrimento que irá causar a alguma pessoa o fato de estarmos ali.

Nas festas há também grande procura pelo prazer sensual, uma das grandes motivações das festas é o desejo de encontrar parceiros para a sensualidade. Nessa mera procura, há sofrimento. Pois há escolha, há a recusa, há traição, uma série de coisas. E também porque essa procura pode ser de um prazer momentâneo, que começa agora e logo que se realiza as pessoas querem se afastar, porque o impulso que levou àquele prazer era momentâneo, não era profundo. Milan Kundera, no seu livro “A insustentável leveza do ser”, diz “amar não é fazer sexo, amar é querer dormir abraçado depois”. Esse é o significado de não estar a procura do mero prazer sensual, mas sim de estar junto, de compartilhar. Então esse é um significado totalmente diferente da fugacidade que normalmente se procura nas festas.

Outra coisa que acontece numa festa como a que ouvimos, são os sons muito altos, eles significam, “Não estamos aqui para conversar, para entender o outro, não estamos aqui para ouvir alguém, queremos abafar todo pensamento racional e mergulhar na pura sensualidade”, e o ritmo também é muito forte, por quê? Porque é para apressar o batimento cardíaco, para pular e ficar como um louco, então, essas são as loucuras do mundo, o embrutecimento pelas drogas, o som alto, a procura do prazer sensual, sacudir-se, suar e o esquecimento do que aconteceu. Ou seja, o que acontece aqui e agora não tem importância pois vou esquecer amanhã. As pessoas até dizem as vezes, “Eu estava muito louco” como se isso fosse glorioso.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O construtor da jaula



Pergunta - Estou vivendo um certo conflito. Normalmente eu consigo meditar. E através de minha técnica consigo alcançar um estado que me traz serenidade, que me coloca num estado de melhor consciência do que se passa comigo ou ao meu redor, os fenômenos começam a se esclarecer. O choque desse processo zen com minha técnica, tem impedido que eu consiga alcançar o que alcanço normalmente. E segundo o que foi colocado, isso é feito de propósito, a fome, o cansaço, as dores do sentar imóvel. Sei que isso tem um objetivo, embora ainda não tenha entendido qual, vim para cá com objetivo de melhorar minha meditação e não estou conseguindo. Talvez isso seja um aprendizado mais profundo do que eu possa compreender.

Monge Genshô – Quem está tentando conseguir algo?

Aluno – Aquele que busca alguma coisa.

Monge Genshô – Quem é este que busca alguma coisa?

Aluno – É esse que tem o sentido da existência.

Monge Genshô – Quem é esse que tem o sentido da existência?

Aluno – É o ser.

Monge Genshô – Quem é esse ser?

Aluno – É esse processo de busca através da introspecção.

Monge Genshô – Quem está sendo introspectivo?

Aluno – Esse ser que tem a vontade da libertação pois se sente preso.

Monge Genshô – E quem o prendeu?

Aluno – Eu mesmo. Através de meus pensamentos, da minha mente me tornei um escravo...onde se forma esse ego...

Monge Genshô – Se foi você quem se prendeu, onde está esse “se libertar”? Quem construiu a gaiola e quem faz com que a gaiola exista?

Aluno (Guimarães)– Exatamente esse estado de ilusão e ignorância que me faz viver esse sonho.

Monge Genshô – Se você percebe que seu eu construiu a prisão, se você simplesmente abandona-lo, desistir dele, o que significa desistir de procurar, desistir de se libertar, desistir de alcançar algo, desistir de ganhar alguma coisa, você estará no caminho. O problema é que você sentou para conseguir melhorar a sua meditação. Meditação de quem? De Guimarães. Você tem que esquecer Guimarães, se você conseguir esquecer e sentar sem nenhum objetivo, no momento que você desistir, e talvez esse sesshin não seja suficiente pois você fica sofrendo dores e cansaço. Normalmente não se explica as coisas, esperamos que a dor e o cansaço vençam você de tal forma que você desanime e desista. Essa é uma experiência real. Quando você desistir e só não sair da sala pois não pode abandonar seus colegas, quando estiver derrotado estará perto de se livrar do construtor de sua jaula, e o nome dele é Guimarães, livre-se dele.

Decupada da gravação por Chudô San, palestra em Sesshin na Reserva Passarin.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Consciente, inconsciente, mantras



Pergunta – Mas o inconsciente também não seria um instrumento do ego?

Monge Genshô – Não usamos no zen, como se usa na psicologia, essa nomenclatura. É um pouco diverso. Não usamos inconsciente ou consciente, dizemos a mente, está tudo junto, seu inconsciente é acessível através da prática, da técnica. Sua mente está integrada. Pode ser útil usar as palavras inconsciente ou consciente dentro do terreno da psicologia ou até mesmo numa análise do zen. Mas na verdade estamos falando de “a mente”. Para os mestres do zen consciente e inconsciente são acessáveis. Como expliquei sobre o surgimento de imagens e coisas desse tipo dentro do zazen, isso acontece pois está acessível.

Pergunta – Vou reformular a pergunta então. A mente, que é o foco do zazen, não vem a ser o ego, ela é um instrumento, que pode ser do ego ou da essência? E vez ou outra pode haver esse conflito interno onde a mente é só o campo de batalha?

Monge Genshô – O ego é uma construção assim como o eu é uma construção. Por que ele está operando? Porque ele lida com memórias, com um corpo, com sentidos, então ele cria a noção de um eu. Mas temos pessoas hoje aqui com mais experiência nessa área, pessoas formadas em psicologia, mais acostumadas com esses termos e podem falar melhor sobre as diferenças entre eu e ego. Seigaku san, como você definiria essa diferença entre eu e ego sob o ponto de vista da psicanálise?

Seigaku San – Bom, posso falar sob a ótica da psicanálise. Não existe diferença entre eu e ego. O eu é uma construção imaginária que tem base inconsciente.

Monge Genshô – E o que seria ego?

Seigsaku San – O ego é uma tradução para o eu.

Monge Genshô – Alguém de outra linha que queira falar sobre isso?

Pablo San – Sou formado em Gestalt terapia. Para a Gestalt o que se entende por ego envolve a questão de personalidade. A Gestalt divide o ser em ID, ego e personalidade. Personalidade é o personagem social, eu tenho um nome, uma idade e tudo que envolve minha pessoa para agir no mundo. Para a Gestalt o ego são as ações no mundo, ações sensório-motoras. O foco da terapia é fazer o ego se desenvolver. Quando o ego se desenvolve a personalidade oscila. O ID seria o mais primitivo, as apetites, a fome, os desejos.

Monge Genshô – Como podemos observar, a linguagem é uma forma de tentar organizar e compreender uma coisa complexa. Vemos então, a psicanálise com uma determinada visão, a Gestalt terapia com outra, outras palavras e outras classificações, mas essas classificações não mudaram o homem. O homem continua sendo o mesmo. Só a linguagem tentou compreender colocando em escaninhos, dividindo e classificando, isso é o que fazemos com a linguagem.

Por isso o zen tantas vezes recusa o uso da linguagem ou usa de paradoxos para quebrar a mente conceitual. Por isso tantas respostas completamente delirantes dos mestres. Na verdade o que eles desejam é isso, quebrar. Antigamente não existiam banheiros nos mosteiros, usavam-se latrinas, que deveriam ser limpas constantemente, e para isso usava-se pás. Uma vez um mestre zen saía do banheiro e um monge lhe pergunta, “O que é Buda?”. Ele então olha para o lado e vê a pá que era usada para limpar as latrinas e responde, “esterco seco na pá”. O que ele tentou nesse momento? Detonar essa mente classificatória do discípulo.

Uma vez eu estava fazendo uma palestra sobre o zen para um grupo de praticantes tibetanos. E eles costumam recitar mantras. Nós também temos mantras no zen, como o do final do Sutra do Coração da Sabedoria em que dizemos Gyate Gyate, hara gyate, hara so gyate, bodi sowaka. Que quer dizer, “Idos, ou chegados à outra margem, todos juntos, o despertar, salve” que é a margem da sabedoria ou iluminação. Os tibetanos ao usarem os mantras acreditam que estão influenciando o mundo com esses sons. Então um aluno perguntou, “qual o mantra mais sagrado?”. Eu poderia dizer que é o do final do sutra do coração. Mas como ele fazia a pergunta preso a essa questão de sons sagrados e rezas, eu lhe respondi, “quando você vai ao banheiro e usa o vaso sanitário e ouve o ruído...Pluf...esse é o mantra mais sagrado”. Como todos ficaram congelados eu expliquei, veja bem, o universo é uno, todos os sons são a voz de Buda, são voz búdica, é o universo se manifestando. A manifestação do universo. Quando você pensa esse som é sagrado e esse não é, é sua mente classificatória que está funcionando, uma mente que separa bom e ruim, bonito e feio. Quando você for ao banheiro e ouvir esse som como se fosse a voz de Buda então você superou sua mente classificatória, sua mente conceitual e realmente viu tudo, então, esse é o mantra mais sagrado. Por isso as respostas dos mestres podem parecer aparentemente malucas, mas tem sentido.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Os ingredientes constroem a mente



Pergunta – Monge, gostaria de saber sobre a prática, as vezes e aqui mesmo no retiro, sinto muito sono, as vezes sinto que estou consciente mas não estou, sempre vem palavras ou imagens...elas vem e vão o tempo todo...isso é um sonho?

Monge Genshô – Você está quase dormindo, está muito cansado. Basta você fechar os olhos e as imagens virão. Você está com um déficit de sono, ora, isso é proposital, nós acordamos cedo para que todos fiquem com um déficit de sono, isso ajuda a crise. A cozinha tem ordem de fazer comida simples. Um oryoki faz com quem você coma pouco. Em geral em sesshin todos emagrecem, existe um déficit de alimentação também. Passamos muitas horas sentados, quietos, não precisamos de muita comida. A sexualidade é diminuída ao máximo. Embora sentado em zazen você possa ter fantasias, tentamos nos distanciar de tudo isso. Essas fantasias estragarão seu zazen, pois são invasivas e ficarão rodando na sua cabeça, mesmo com esse tipo de pensamentos, devemos voltar sempre para o momento presente, não se trata de ser bom ou ruim, é simplesmente natural do ser humano. Essas imagens que vão surgindo por que você está no limiar do sono, são interessantes, pois você tem acesso ao seu inconsciente, que normalmente em vigília você não tem. Como você está prestes a adormecer, mas não se pode permitir, tem que ficar presente. Por isso a instrução, não feche os olhos, fique atento, se você fechar os olhos é mais fácil adormecer.

Esclarecimentos ou respostas para Koans podem surgir nesse tipo de situação, problemas que você não consegue resolve, de repente, por ter acesso ao seu inconsciente, você pode alcançar a solução. Técnicas como associação livre já foram tentadas na psicologia, mas você, com esse déficit de sono no zazen, tem acesso ao seu inconsciente de forma direta. Qual o conteúdo do seu inconsciente? É o que esta surgindo agora, é o retrato de sua mente agora. Quem fez essa mente? Você, sempre surgem as coisas que você colocou pra dentro. A receita do bolo sai de seus ingredientes, e os ingredientes são coisas que você assiste, lê, pensa, escuta ou pensamentos que você costuma cultivar. Agora você tem a oportunidade de limpar e reconstruir sua mente. Essa é uma instrução de Buda, “cultive o bem, evite o mal e seja senhor de sua mente”. Estamos tentando uma coisa que a maioria das pessoas não é, senhores de suas mentes. Você pode até ser senhor de seus próprios sonhos, você pode governar isso. Essa é uma habilidade que pode ser treinada e desenvolvida. Muito útil, tanto para resolver problemas como para enxergar o resultado de seu treinamento.

Pergunta – O senhor poderia comentar sobre as técnicas de contagem. Contagem de respiração, elas ajudam bastante, mas é problemático ficar um zazen inteiro contando?

Monge Genshô – Mestre Dogen dizia que contar ou qualquer outra técnica não é a prática essencial dos Budas. Nós temos hoje uma abordagem um pouco mais tolerante, se você tem grande dificuldade, pode começar contando, conte as respirações até dez. Pode recomeçar sempre que necessário. O problema é que isso não é zazen. Isso não é shikantaza, isso é uma técnica para ficar sentado e focado em alguma coisa. Mas porque não é shikantaza? Porque não é zazen? Por que tem alguém contando, tem um observador que conta, tem alguém que se perde e diz, vou voltar ao numero um, tem alguém que diz, agora é sete, depois oito e assim por diante. Tem alguém que diz, cheguei ao dez, volto ao um. Existe um observador e enquanto ele existir você não pode mergulhar na unidade, pois na unidade não existe observador. Não veto, como no tempo de Dogen, o uso de técnicas de contagem para auxiliar a meditação, mas insisto, zazen não é contagem, não é isso. Shikantaza significa apenas sentar, sentar junto com todos os seres. Alguém espirra na sala durante o zazen, Quem espirrou? A Sangha espirrou, o grupo espirrou, o grupo se mexeu. É o nosso zazen, não existe meu zazen. Alguém quebrou uma xícara, nós quebramos uma xícara. Todos esses pensamentos do tipo, não fui eu, foi o outro, fui elogiado, fui criticado, são pensamentos de ego.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A maravilhosa linguagem é insuficiente




Pergunta – Eu gostaria de saber se o budismo tem alguma explicação para o pensamento, por que tenho pensamentos que eu quero ter ou não gostaria de ter? Pensamentos dualísticos, ao mesmo tempo em que quero pensar o bem, penso em coisas ruins.

Monge Genshô – Nós organizamos o mundo através da linguagem e ela é uma ferramenta muito útil, tanto que construímos toda tecnologia e todas as coisas usando a linguagem. Mas a linguagem tem um mecanismo dual. Desde pequeno você aprende entre certo e errado, em cima e embaixo, direita e esquerda. Embora isso no fundo não tenha muito sentido, essa é minha esquerda, mas aí pra você é sua direita. Aqui, agora é em cima, mas para os japoneses do outro lado do mundo é embaixo. Nós usamos a linguagem e organizamos o mundo, dessa forma podemos entendê-lo. Os homens para entender o mundo costumam classifica-lo. Você sempre encontrará as pessoas divididas em tipos, coisas como horóscopos onde se separam as pessoas conforme personalidades supostas, essas coisas são um esforço da mente para tentar colocar ordem numa coisa na qual ela não consegue ver ordem.

Na verdade as pessoas são todas diferentes. Você coloca-las em prateleiras e dividi-las em escaninhos pode ajudar a entendê-las. Mesmo numa fantasia, como é o caso dos horóscopos, mas não ajuda você a olhar a realidade de que cada pessoa a sua frente é um indivíduo maravilhosamente diverso de todos os outros. A sua mente faz isso, pois ela foi treinada para fazer isso, pois ela só consegue pensar com esse instrumento, a linguagem e a classificação. Mas quando peço para você sentar, eu digo não elabore, não julgue, não existe certo ou errado, deixe os pensamentos virem e irem, não o analise, não o agarre, não raciocine sobre ele, você só pode fazer isso com a linguagem e a ela não vai dar a você a percepção pura do universo. Essa percepção não pode ser alcançada com as palavras. As palavras são insuficientes.

Um dia desses na Sangha, uma mulher me perguntou, “como é a iluminação?”. Então perguntei quem já havia comido lichia. Perguntei se ela já havia comido lichia, ela respondeu que não, então pedi à outra pessoa que já havia comido que explicasse o gosto da fruta. A linguagem é absolutamente insuficiente para explicar algo aparentemente tão simples, você consegue colocar a fruta na boca e automaticamente saber o gosto, mas uma descrição disso não é nada. O samadhi que acabei de descrever, quando vocês experimentarem, saberão o que é, aí poderão falar com outra pessoa que já experimentou. Se alguém já teve uma experiência iluminada, poderá sentar com alguém que também já teve a experiência, um instantaneamente sabe do que o outro está falando, mas as pessoas que não tiveram essa experiência não conseguem conversar sobre isso, se está fora de sua experiência a linguagem é inútil.

Estamos procurando algo mais fundo que pensamentos. Mas então por que os professores do zen acabam falando, por que o senhor está dando uma palestra? Porque é a única coisa que tenho para me comunicar com vocês, ainda bem que temos a maravilhosa linguagem, mas ela é insuficiente.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A vida é como é



Pergunta – Como um psicólogo pode lidar com o que é levado até ele?

Monge Genshô – Bom, o psicólogo tem suas próprias técnicas. Ele trabalha num outro âmbito. Ele trabalha com “eus”, com a relação de um indivíduo com o mundo, tenta construir um ego estruturado que possa se relacionar bem no mundo. Mas não é assim que o zen trabalha. O objetivo de um mestre zen é na verdade destruir. É tirar o tapete de baixo do eu. Deixa-lo solto, sem nada onde se agarrar. É um processo completamente diverso e não é para ser aplicado para qualquer um, somente para aqueles que queiram se libertar, para uma pessoa que já apresente algum tipo de problema pode ser perigoso.

Então a prática do zen é uma prática para pessoas que estejam razoavelmente equilibradas, pois serão apresentadas à uma crise onde você não tem suporte. De repente você perde os deuses aos quais os homens sempre se agarraram. Se você tentar se apoiar no seu professor, ele não o apoiará, ele o apresentará à uma crise ainda mais aguda, colocando você em problemas mais difíceis, ou mesmo fazendo perguntas que você tem muitas dificuldades em responder.

Esses dias um homem me escreveu perguntando sobre a ordem subjacente do universo. Porque a matéria se organizava de maneira a fazer vidas, “eus” e coisas assim, um mundo como o nosso perdido dentro de uma imensa galáxia, que é apenas uma dentro de bilhões de galáxias, parece tudo sem sentido, ele queria uma ordem subjacente, e eu lhe perguntei, “uma ordem criada por quem, com qual objetivo?” Na verdade ele não vai encontrar o sentido ou objetivo, porque afinal esse próprio universo irá se dissolver com o tempo em entropia, as estrelas se apagarão, a matéria irá se desorganizando, a energia vai se espalhando de formas não aproveitáveis de modo que um dia esse universo se apagará, e você quer um sentido? Uma resposta zen é, “a vida é como ela é e as coisas são como são”.