sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Versão em inglês de "O Pico da Montanha é onde estão os meus pés"

Livro "O Pico da montanha é onde estão os meus pés" disponível em inglês na Amazon: http://www.amazon.com/Mountain-Peak-Where-Am-ebook/dp/B00PWGVK74/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1416585570&sr=8-1&keywords=monk+gensho

Os três refúgios



Os Três Refúgios

1. Eu tomo refúgio no Buda.
Refugiamo-nos em Buda porque ele é nosso grande mestre. Ao tomar refúgio no Buda, nós reconhecemos a Natureza Búdica de todos os seres. Embora haja diferentes níveis de autoridade administrativa e religiosa na sangha, nós reconhecemos que todos nós somos, igualmente, a expressão da Natureza Búdica.

2. Eu tomo refúgio no Dharma.
Refugiamo-nos na Lei porque é um bom remédio. Ao tomar refúgio no Dharma, nós reconhecemos a sabedoria e a compaixão do modo de vida Budista. É através do Dharma que nós exprimimos e tornamos acessíveis os ensinamentos de Buda tal como nos foram transmitidos através da linhagem de nossos professores. O termo “Dharma” é freqüentemente traduzido como “Lei”, e nesta perspectiva nós podemos ver os ensinamentos de Buda como diretrizes para nosso comportamento em todas as áreas de nossas vidas.

3. Eu tomo refúgio na Sangha.
Refugiamo-nos na Comunidade Budista porque é composta de excelentes amigos. Ao tomar refúgio na Sangha, nós reconhecemos o importante papel que a vida comunitária na sangha desempenha na nossa prática. A fim de que a Sangha seja um refúgio, nós aspiramos criar um ambiente inclusivo, com espaço para compreensão e aceitação de nossas diferenças.

 http://monjaisshin.wordpress.com/os-preceitos-do-bodisatva/

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Koun Ejo


Shobogenzo Zuimonki - Livro I


Koun Ejo (Tradução da monja Ivone Jishô, feita a partir da versão em inglês editada pela Sotoshu Shumucho, traduzida do japonês pelo Rev. Sohaku Okumura).
Numa palestra à noite Dogen disse:
Não use linguagem suja para repreender ou injuriar os monges. Mesmo que eles sejam ruins ou desonestos, não nutra rancor contra eles nem os ofenda descuidadamente. Primeiro de tudo, não importa o quanto eles sejam maus, quando mais de quatro monges estão reunidos, eles formam uma sangha, que é um tesouro sem preço do país. Isto deveria ser objeto do mais alto respeito e honra. Se você é um abade ou monge superior ou mesmo um mestre ou professor, se seus discípulos estão errados, você precisa instruí-los ou guiá-los com um coração parental(1) e compassivo. Ao fazer isso, entretanto, quando você bate naqueles que devem receber um tapa ou repreende quem deve ser repreendido, não permita a você mesmo difamá-los ou despertar sentimentos de ódio ou aversão.
Quando meu último mestre Nyojo era abade do Mosteiro Tendo, enquanto os monges estavam sentados em zazen no sodo (sala dos monges), ele batia com sua sandália ou os repreendia com palavras ásperas com o objetivo de mantê-los atentos. Ainda assim cada um deles era grato por serem batidos e o respeitavam muito.
Uma vez, em uma palestra formal ele disse: “Eu me tornei velho. Eu já devia ter me retirado do mosteiro e me mudado para um eremitério para cuidar de minha saúde em minha velhice. Apesar disso, eu sou o abade e vosso professor, cujo dever é quebrar as delusões de cada um de vocês e transmitir o Caminho; por isso, eu às vezes uso palavras duras para repreendê-los, ou bato em vocês com a vara de bambu. Eu lamento ter que fazer isso. Entretanto, esta é a maneira para fazer com que o Dharma floresça na terra do Buda. Irmãos, pro favor tenham compaixão por mim e perdoem-me por minhas ações”.
Ao ouvir estas palavras, todos nós vertíamos lágrimas. Somente com um tal espírito você pode ensinar e propagar o dharma. Mesmo que você seja um abade ou monge superior, é errado dirigir a comunidade e ofender os monges como se eles fossem seus pertences pessoais. Além disso, se você não está nessa posição, você não deveria apontar os erros dos outros ou falar mal deles. Você deve ser muito cuidadoso.
Quando você percebe os erros dos outros e acha que eles estão errados, e deseja instruí-los com compaixão, você precisa encontrar uma maneira eficaz para evitar despertar a ira deles, e fazer isso como se estivesse falando sobre outro assunto qualquer.

 
(1) A tradução da palavra coração possui também o sentido de mente, uma vez que Shin ou Kokoro pode ser usado para referir-se a ambos, que são considerados como uma só unidade. Mente aqui no sentido de consciência que é entendida como habitando o coração. A palavra usada no texto, Robashin, é referida pelo tradutor como literalmente significando a mente de uma velha mulher. No Tenzô Kyokun Dogen menciona três tipos de mente: kishin (mente feliz), roshin (mente parental) e daishin (mente magnânima). Ele diz: “Roshin é a mente ou atitude dos pais. Da mesma maneira que os pais cuidam de seu único filho, mantenha os Três Tesouros em seu coração”.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Zazengi




(ZAZENGI)

Dogen Zenji

Tradução de José Fonseca



Estudar zen significa praticar zazen. Para praticar zazen escolha um lugar calmo,
sem umidade nem vento, e um tapete grosso. Imagine que o lugar onde está é o Assento do Diamante, pois usamos a mesma postura de Sakiamuni ao ser iluminado. Alguns monges praticam em grandes pedras e outros seguem a prática dos sete budas, de sentar em almofadas de capins.
 No local do zazen não deve haver escuridão, mas brilho moderado noite e dia. Deve ser morno no inverno e fresco no verão. Mantenha corpo e mente em descanso - corte toda atividade mental. Não pense sobre tempo e circunstâncias, nem se amarre em bons ou maus pensamentos. Zazen não é nem consciência de si nem auto-contemplação. Jamais tente se tornar um buda. Desligue-se das noções de deitar ou sentar. Coma e beba moderadamente. Não perca tempo. Atente para sua própria prática de zazen. Aprenda com o exemplo do quinto patricarca Konin de Monte Obai. Todas as suas ações, todos os dias, eram prática de zazen.
 Quando praticar, use um kesa e uma pequena almofada redonda. Sente-se não no meio da almofada, mas na parte posterior dela. Cruze e pouse as pernas no tapete. A almofada deve estar em contato com a base de sua espinha. Esta é a postura básica transmitida de buda a buda, patriarca a patriarca.
 Use a postura de lotus, meia ou completa. Em lotus completo, o pé direito vai sobre a coxa esquerda e o pé esquerdo sobre a coxa direita. Mantenha as pernas horizontais e a coluna perfeitamente reta. Em meio lotus, o pé esquerdo é posto na coxa direita e o pé direito sob a coxa esquerda.
Folgue sua roupa alinhe-se para cima. Mão direita no pé esquerdo, mão esquerda no pé direito. Os polegares retos tocam-se levemente. Ambas as mãos devem estar contra o abdomem, o dorso dos polegares alinhados no nível do umbigo. Lembre-se de manter a espinha dorsal reta o tempo todo. Evite inclinar-se para frente ou para trás, esquerda ou direita. Alinhe as orelhas com os ombros. O nariz e o umbigo também devem estar no mesmo plano. Coloque a língua contra o céu da boca. Respire pelo nariz e mantenha seus dentes e lábios juntos. Os olhos ficam abertos naturalmente. Ajuste o corpo, inicialmente, com uma respiração profunda. A forma de seu zazen deve ser estável como uma montanha. Pense "sem pensar". Como? Usando "não-pensar".  Este é o esplêndido caminho do zazen. Zazen não é um meio de iluminar-se, ele é a ação completa do Buda. O próprio zazen é natural e pura iluminação.

 Dito aos monges de Kipoji em novembro de 1243.
(Capítulo 11 do Shobogenzo , Olho e Tesouro da Verdadeira Lei, edição traduzida por Kosen Nishiyama, Tokyo, 1988)

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Há hierarquia entre os seres



Pergunta – O carma pode ter um peso menor conforme o nível de esclarecimento da pessoa? Por exemplo, duas pessoas cometem erros que irão gerar carma, o mesmo tipo de erro, porém uma é mais esclarecida, seu nível de consciência é maior, o carma sofrido pelo mesmo tipo de ato será pior, vamos dizer assim, para a pessoa mais esclarecida?

Monge Genshô – As consequências serão diferentes. Quanto mais consciência, mais culpa e mais a pessoa terá a tendência a se punir. Quanto mais inconsciência, menos consequências morais. Um índio, por exemplo, que vive na floresta e necessita caçar para alimentar sua família, é diferente de uma pessoa da cidade. Mas o ato em si tem um peso por si mesmo, ou seja, mesmo que você não esteja consciente que seu ato é errado, ele gera consequências. Pode não ser a mesma consequência de alguém que se sinta culpado, mas o ato gera consequência da mesma forma. Outra coisa importante é que o fato de você não se lembrar do ato, não significa que não sofrerá as consequências.
Há um detalhe que parece difícil para as pessoas entenderem, existe hierarquia entre os seres. É diferente você matar um médico que salva vidas ou matar um estuprador. Tanto maior é seu crime, quanto maior o prejuízo que você causa à sociedade ou ao mundo como um todo. Algumas pessoas pensam que matar é igual, não é. Por exemplo, quando você vai ao banheiro e lava suas mãos está matando bactérias. Qual o peso dessa sua ação? Baixíssimo, pois é mais importante que você tenha suas mãos limpas para não contaminar outras pessoas. Por isso existe uma relação de grandes crimes que causam grande marca carmica, matar o pai, matar um Buda, ferir um Buda ou um Bodhisattva e causar cisão na sangha.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Buddha se entristeceu



Pergunta – O que deve aprender o ser humano quando perde a pessoa que ama?

Monge Genshô – O grande problema de nossa mente, e que é fonte de grande sofrimento, é o apego.  Nos agarramos a todas as coisas e desejamos que sejam permanentes. Desejamos que as pessoas que amamos não mudem e sejam eternas. Todas as pessoas mudam, envelhecem e mudam também suas idéias. Nada e ninguém é permanente e todos iremos desaparecer um dia. Se nos agarrarmos muito às coisas e colocarmos nosso coração aí, sofreremos. A vida tem em si, grande sofrimento, pois é quase impossível você viver sem amar e sem criar grandes laços. Mesmo os grandes mestres sofrem com suas perdas, sejam elas de familiares, amigos ou discípulos.  Buddha teve muitos discípulos e um deles era Shariputra, que era mais velho que Buddha. Quando Shariputra morreu, Buddha se entristeceu.  Naturalmente sofreremos com nossas perdas, mas temos que entender que o sofrimento faz parte da vida. O que temos que fazer é tentar expandir nosso amor, abranger cada vez um numero maior de pessoas, é isso que você deve fazer, espalhar seu amor.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Dê um passo de cada vez



Pergunta – O senhor falou sobre o Dharma e confesso que ainda não encontrei verdadeiramente esse caminho. De onde tirar forças para não perder a esperança?

Monge Genshô – Não se preocupe em ter forças seja para alcançar algo ou para continuar no caminho. O melhor é não ter objetivos. Agora temos duas pessoas indo para o Japão para um período de treinamentos e eu sei que é difícil se manter estimulado a continuar. O segredo é não pensar no dia de amanhã e viver só por hoje, pensar, “Só hoje até o fim do dia irei tentar ficar”. Se acontecer um erro, não há problema, errar é normal, não devo exigir demais de mim e muito menos ter grandes esperanças. Apenas aceite o momento. Para andar na vida, não pense em ser forte, apenas dê um passo de cada vez. É como quando estamos em retiro e começamos uma sessão de Zazen. Se ficarmos pensando em todos os Zazen que teremos pela frente, que em geral são doze em um dia de retiro, nossa mente pode não suportar. Devemos pensar, “Vou ficar sentado até tocar o sino e terminar esse Zazen”.  Quando você faz assim, rapidamente chega o final do retiro e a sensação muda, você quer que continue, não deseja mais ir embora. Não se preocupe em ter forças, apenas dê um passo de cada vez.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A mente que se prende


(continuação)
Monge Kômyô:  Quando nós somos capazes de superar o impulso egoísta, nós vamos ser capazes de enxergar o que nós consideramos nosso inimigo e ter compaixão por ele. Enxergar aquelas coisas que nós não gostamos, compreender essas coisas. Nós temos o direito de ter critérios, podemos gostar de certas coisas e não gostarmos de outras, mas mesmo ao se ter um critério, não é necessário que você crie apegos e aversões. Isso é uma sutileza, mas nós podemos exercitar isso.
O exercício vem através da Quarta Nobre Verdade, o caminho do meio, o caminho óctuplo – agir, viver, com profunda atenção, profunda paciência para aprender para compreender, para reconhecer, descobrir as origens e, no que diz respeito às outras coisas e às outras pessoas, ter o dom de se colocar no lugar do outro, de conseguir enxergar a ignorância do outro, aquela pessoa que nos fez sofrer. Aquela pessoa que nos magoou, essa pessoa sofre muito, ela é profundamente ignorante, nós temos a nossa ignorância, ela tem a dela. Certamente foi a profunda ignorância dela que fez com que ela agisse ou deixasse de agir de certa forma, e nos fizesse sofrer.
Compaixão significa você compreender a natureza daquela pessoa que te fez sofrer. Compreender. Não é condescender. A pessoa pode ter feito um grande mal, ela pode por exemplo ter batido em você, ela pode ter matado, dado um tiro em você, uma coisa horrível e agora você perdeu um olho por causa disso. Ainda assim, é possível fazer surgir a mente Bodichitta, é possível ter compaixão por essa pessoa, ainda que reconheça, que ela cometeu um ato de grave violência.
Eu temo que talvez eu não esteja conseguindo explicar corretamente este contexto, porque é uma experiência muito intensa, muito delicada, de equilíbrio no exercício de compreensão dos aspectos cruéis e não saudáveis que existem e a compreensão profunda dos mecanismos que levam a essas crueldades e injustiças, ódios, etc.
Todos nós aqui somos praticantes, cada um de vocês assumiu uma responsabilidade de prática. E ao praticante é necessário aprender a trabalhar a si mesmo para evitar cada vez mais se deixar intoxicar pelos aspectos não saudáveis da natureza da mente. A mente quando se perde na distorção egóica, age com uma identificação mesmo que ilusória, muito intensa. Faz parte do mecanismo distorcido da mente, se prender a coisas, mesmo que ela não precise se prender.
O grande ensinamento de Buda, é que nossa mente é livre, nós não estamos presos a nada e a ninguém. “Em essência”, ninguém, nem nada, nos faz mal. A ideia de que alguém ou alguma coisa nos faça mal, é uma ilusão. É uma aparência. Uma mágica. Nós experimentamos essa mágica como se ela fosse muito concreta, às vezes vira uma dor física, mas é a sua mente construindo aquela dor. O mundo continua o mesmo, nós é que estamos em conflito com o mundo. A mente fica presa.
Existe uma historia Zen de um homem que gostaria de praticar o Zen, estava muito interessado, procurou ler algumas coisas, e finalmente ouviu falar em um grande Mestre, um grande professor do Zen, e foi até o local onde havia a prática e bateu na porta. Abriu um velhinho comum, um monge Zen e o rapaz disse que gostaria de praticar, que procurou se preparar lendo muito sobre a prática, e que queria que o monge o introduzisse. O velhinho olhou pra ele e disse: “você quer praticar o Zen? Então ok. Vá para casa e pratique apenas uma coisa: não pense em macacos. Volte amanhã”. O homem foi embora, agradeceu. Duas horas depois ele volta, bate à porta, desesperado: “Monge, eu não consigo deixar de pensar em macacos!”
É assim a mente, o objeto que a mente se prende, ele em si, não tem relação direta com a mente, mas existe um estímulo, algo que desencadeia uma mente condicionada, uma relação de envolvimento ilusório com a ideia, e ai a mente começa a criar todo um universo de ilusão em torno daquilo.
Apesar desse impulso egoísta ser muito arraigado em função dos nossos condicionamentos, ainda assim existem aspectos na nossa vida, na nossa existência pessoal que favorecem a superação de qualquer apego. A resposta para a superação de apegos ou aversões se encontra nos vários aspectos belos da vida, que não tem a ver com os macacos. Está na capacidade de compreender que, ao haver uma experiência, nós nunca estamos realmente presos a ela, nós somos sempre livres. Fazer o zazen não é um problema. Caminhar lá fora e praticar respiração também não é um problema. As mosquinhas em torno da gente também não é um problema. Perder pessoas que nós amamos não é u problema. Lidar com problemas em nossa vida, em si, não é um problema. O problema é o desafio, o que nós entendemos de “problemas” nas nossas vidas são, na ótica da prática contemplativa, desafios. Como vamos lidar com esses desafios?
O trabalho ou o esforço para libertar a mente tem uma dinâmica particular, de cada um de vocês e cada um de nós lida a seu tempo e da melhor forma possível. Mas o caminho para a superação do egoísmo está no favorecimento da mente compassiva, no favorecimento de nossa capacidade, nem que seja aos pouquinhos, de começar a compreender melhor o sofrimento ou a ignorância daquele outro, daquela outra coisa, do objeto que aparentemente nos faz sofrer tanto. Compreender a natureza do objeto, o copo é o copo, o copo não sou eu. Se eu esperava beber água pura no copo mas bebi algo amargo, que me desagradou, não é culpa do copo. É uma circunstância. É um acontecimento, é um desafio. E o desafio é saber lidar com a circunstância e não se perder nela. Eu esperava água pura, mas bebi líquido amargo. Vou tentar praticar, para tentar encontrar meios de não ficar com raiva do copo ou do próprio líquido amargo porque ele não atendeu as minhas expectativas e, quem sabe, conseguir água pura em outro lugar. (Final)

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O apego


 (continuação)
Monge Kômyô:  O ensinamento de Buda é muito frequentemente tratado como medicinal, e ele mesmo se chama em alguns discursos, como um médico que vem trazer uma medicina, um remédio para curar as nossas mentes e por isso o Buda é frequentemente tratado como médico.
Na iconografia simbólica budista existe o Buda da medicina, que é apenas a “entronização” do simbolismo medicinal que o Buda manifesta. Ele vem trazendo um remédio, e esse simbolismo é interessante, porque ele procura mostrar que o ensinamento de Buda  é uma profilaxia, ele serve para que nós todos nos preparemos para enfrentar as situações que nos levam ao orgulho, ao ódio, ao desespero, à incompreensão, aos conflitos. Neste momento, todos nos estamos vivendo situações assim, mas a prática e o que o Buda ofereceu, é uma medicina, é uma cura, e como toda medicina, ela precisa ser tomada com regularidade, para que a “doença” possa ser curada propriamente.
O egoísmo é a doença.
A primeira nobre verdade de Buda é de que a vida, a forma como nos captamos e experimentamos a vida, se caracteriza pela insatisfação.  Cada um de nós se observar, e fizer uma avaliação pessoa, vai descobrir insatisfações em nossas vidas. A nossa mente é insatisfeita. A insatisfação leva à frustração, ao stress.
A segunda nobre verdade, é que o processo de insatisfação da mente se manifesta devido à ignorância, a esse vidro sujo, e somos insatisfeitos, porque não conseguimos enxergar a existência de maneira clara, e aquilo que nós percebemos não se adequa às expectativas do nosso eu, nós nos frustramos e nos tornamos insatisfeitos.
A terceira nobre verdade do Buda, em termos mais modernos, é que nós podemos cessar esse processo doentio em nossas mentes, não é impossível superar as situações. O campo de identificação profunda com aspectos egoístas é muito forte nas nossas mentes condicionadas, parece extremamente forte. A experiência que todos nós temos parece definitiva, mas não é, isso pode ser superado. Isso pode ser curado.
Eu me lembro quando eu era adolescente, eu me apaixonei por uma menina, nós namoramos por um tempo mas logo depois ela não quis mais o namoro. A experiência de dor era intensa, eu mal conseguia respirar. Era como se aquela dor não fosse acabar nunca mais. Era uma frustração e uma dor tão profundas que repito, eu tinha dificuldade de respirar. E eu olhava o quarto à minha volta e parecia que ia desabar sobre mim.
Todas as coisas que eu fazia, todos os lugares em que eu ia, eu pensava nela. E por consequência, como que um processo de sincronicidade, volta e meia aconteciam coisas que pareciam quase místicas, como alguém que passava por mim, falava um nome e era o nome dela, ou entrava em algum lugar, via uma cor, e era a cor que ela gostava.
Essa é a experiência do apego, do egoísmo. O meu desespero não era pela menina, mas com o fato de que as minhas expectativas foram frustradas. A projeção de paixão, a ideia de afeto, que pode ser no sentido de um namoro ou em qualquer sentido, tudo que nós vivemos é um afeto, o trabalho, a família, aqui na prática do retiro.
A minha mente em grande parte imatura, naquela parte não praticava nada, projetava intensamente. Eu queria aquela menina para mim, o meu “eu” queria que ela fizesse parte de mim mesmo. Mas isso não acontecia. Tenho 52 anos, e hoje em dia quando lembro daquele momento: nada. Mas naquela época, eu ia morrer.
É assim que trabalha a mente. Quando ela está perdida num espiral de identificação egóica, apego ou aversão, é como se o mundo inteiro se resumisse naquilo. Quando nós perdemos alguém que nós gostamos, entramos em desespero por isso. O que existe por trás desse desespero não é apenas o amor, dificilmente é o amor por aquela pessoa, mas é a vontade ou desejo do nosso “eu”, de fazer com que aquela pessoa continue viva para nós. Nós queremos que aquela pessoa não vá embora. Isso não é amor. O amor por alguém que nós perdemos, tem como resultado a tristeza, não o desespero. O desespero é egoísmo. A tristeza, a lamentação, faz parte do amor. Amamos, lamentamos. Mas não o desespero.
Existe um conto Zen, de uma Monja, uma grande Mestra muito respeitada por sua sabedoria, pela sua equanimidade e equilíbrio interior, e um certo dia ela soube que uma sobrinha dela tinha morrido. Ela soluçava de chorar. Os alunos dela chegaram até ela e disseram: “Mestra, a senhora está chorando tanto, e o desapego, o equilíbrio, a compreensão de que todas as coisas morrem”? A Mestra olhou para os alunos e falou: “Eu gostava muito dessa minha sobrinha, eu a amava”. Ela não estava em desespero, ela chorava, de tristeza.
Quando aprendemos a superar o apego, nós compreendemos a justa medida entre o sentimento de afeto e o desvio, o desespero, e sabemos viver todas as coisas, com a plenitude emocional saudável e natural. Não nos perdemos. (continua)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

As portas da percepção


(continuação)
Monge Kômyô:  O egoísmo é a atitude que nós tomamos, pensando apenas em nosso benefício, não preocupados com mais nada, com mais ninguém. E fazemos isso porque a ação que nós estamos fazendo é interpretada pelo nosso eu como parte dele mesmo. Por exemplo, estamos nos alimentando, e temos digamos, uma comida que é para todos, ai vem uma pessoa e pega a metade do bolo para ela, por exemplo, e vai embora. Ela quer metade do bolo, ela não se importa com os outros, nem se vai ter bolo para as outras pessoas. Ela quer favorecer a ela mesma primeiro.

Percebam que a atuação egoísta, frequentemente,  ocorre sem que nos percebamos, por isso é egoísmo. Se nos tivéssemos consciência que somos egoístas, não seriamos egoístas, o egoísmo é uma distorção.  Eu costumo dar a imagem de que, nós temos uma janela de percepção, vocês agora todos nesse momento, têm o campo de percepção de vocês. É o campo visual, auditivo, campo de cheiros, odores, paladar e tato. Esse complexo de campos, ao “ayatanas”, as portas de percepção, estão atuando neste momento, vocês estão captando o ambiente com isso. Costumo dar a ideia de que esse campo de percepção é como se fosse um vidro de uma janela, e o que esta sendo captado é uma paisagem que estamos vendo, mas esta janela não está limpa, está suja, em algumas partes, em alguns pontos do nosso campo de percepção há mais sujeira que em outros.

A pessoa do nosso lado também olha por uma janela, a mesma janela, é um vidro, e o vidro também é sujo do lado dela. E nos dois olhamos uma paisagem, e pode ocorrer que eu olhando para aquela paisagem, em meio à sujeira, eu consiga enxergar uma árvore, lá no meio do campo, na paisagem, e eu chego para a pessoa do meu lado e digo: “olha que árvore interessante, bonita”. Só que no ângulo de visão e de percepção daquela pessoa, o campo de sujeira e anuviamento da percepção é outra, e justamente onde ela poderia ver a árvore, ela não a vê, porque tem uma grande mancha de sujeira ali. Mas ela consegue enxergar uma rocha, que no meu ângulo de visão eu não vejo, porque esta sujo, e ela diz: “Que árvore? Não tem árvore nenhuma ali! Tem uma rocha, muito forte e sólida”. E eu olho para ela e digo: “Que rocha? Não tem rocha nenhuma ali, você está louca, tem uma árvore”. E aí entra o conflito.

Uma mente percebe e capta de uma forma, outra mente percebe e capta de outra forma, e quando não há uma integração, surge o conflito. Da mesma forma, internamente conosco, diante de situações e objetos de percepção, nós podemos enxergar esse objeto claramente ou não enxergar esse objeto de todo, e quando isso ocorre, a frustração, o ciúme, o medo, o ódio, a incompreensão, se manifestam.
Num retiro, nós trabalhamos a plena atenção e procuramos atuar com profundo cuidado e observação daquilo que nós fazemos. Estamos focados em nós mesmos, na nossa prática, mas como falei no primeiro dia, estamos unidos. Então em tudo que fazemos, fazemos para trabalhar a nossa atenção profunda e clara, mas sempre procurando estar atento ao fato de que existem outros que estão também praticando. Num retiro nos tentamos minar cada um dentro da sua possibilidade, o profundo domínio do egoísmo em nossas mentes.

Nas nossas vidas, as situações que nos frustram, que nos causam sofrimento, que são difíceis, elas assim são, porque nós estamos lidando com elas,  de forma excessivamente egoísta. Entendam que, a descrição do fenômeno egoísta no contexto budista, não é acusatória, o objetivo é despertar nas mentes, a compreensão mais clara de nós mesmos. (continua)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O egoísmo


 (Continuamos com palestras do Monge Kômyô no sesshin de Goiânia 2014)
Monge Kômyô:  Na nossa conversa de hoje eu gostaria de falar sobre dois temas muito importantes no estudo e na pratica budista, mas são dois temas antagônicos: egoísmo e compaixão.
Na tradição budista, o exercício da compaixão é uma experiência fundamental. No contexto contemplativo, o desenvolvimento das compaixão está associado ao que se chama de desenvolvimento de uma “Mente Bodichita”.
O sustentáculo da compaixão na ótica budista, é a compreensão. Nós praticamos para poder reconhecer e compreender a nós mesmos. Compreender a nós mesmos abre margem para que nos possamos superar os aspectos de nossa natureza que projetam conflitos, frustrações, e raivas e rancores. A superação da frustração, da raiva e do rancor, só vai se dar através de profunda compreensão.
Situações podem ocorrer nas nossas vidas que criem problemas graves, criem sofrimentos, decepções, situações difíceis. Quando a mente não consegue compreender plenamente o mecanismo não saudável que atua neste processo, a mente projeta rancores, medos, raivas.
Um assunto muito difícil é a questão da não violência. A questão da compaixão, também mobiliza. Nós vivemos em uma sociedade que tende a achar ou confundir a compaixão com condescendência. Isso não é verdade no campo da experiência contemplativa. A compaixão só pode ocorrer e a mente Bodichita só pode se manifestar quando nós aprendemos a superar qualquer projeção egóica. Portanto, eu hoje vou falar de compaixão e egoísmo, que são elementos antagônicos, mas no fundo interligados.
Na descrição budista, o egoísmo é uma projeção, aspectos emocionais, pensamentos, sentimentos, formações mentais, nível da consciência, que formam a nossa ideia de identidade pessoal. Entrando através dos nossos sentidos nesses quatro campos, existem experiências, aprendizagem, ancestralidade, cultura, e tudo isso vai forjando e consolidando a ideia de um “eu”. O “eu” desenvolve posturas, atitudes, desenvolve opiniões, concepções.
A grande questão é, como esse “eu “é constituído? O que o alimenta? O que o alimentou no passado para ser o que ele é agora? Independentemente disso, todo indivíduo, todo ser humano que tem a ideia de si mesmo, pode trabalhar a identidade pessoal para transformar e curar os aspectos negativos e valorizar os aspectos positivos, os “vassanas”.
Mas no campo fundamental do eu, existe um processo de distorção intensa das coisas que nós vivemos, entendemos, conhecemos, e aí nós criamos toda uma complexidade de comportamentos, atitudes, opiniões, interpretações.
O egoísmo é a distorção deste processo, mais intensa. O “eu”, no campo do samsara, tem uma função de manter o equilíbrio da mente, a mente imediata, a mente concreta, a mente que funciona no mundo. Se nós aniquilarmos o eu, ficamos loucos. Mas o eu condicionado, é uma distorção intensa, que faz com que o processo de projeção e expectativa se torne muito forte e, infelizmente, muito doentio.
O mecanismo do egoísmo é: eu projeto expectativas, desejos, opiniões, conceitos sobre um objeto. Objeto no conceito budista pode ser o objeto concreto, um pensamento, um sentimento, uma pessoa, qualquer coisa. Quando nós projetamos isso, o que nos estamos fazendo é transferir a ideia de que parte do nosso eu, é agora, o objeto. O construto do meu eu, agora engloba o objeto. E se esse objeto sou eu, ele tem que fazer, tem que agir, tem que existir, como “eu” quero, como eu projeto, como eu imagino que o mundo deva ser. Se esse objeto começa a agir ou existir de uma forma como eu não projetava,  eu começo a me frustrar, começo a tentar controlar esse objeto, “ele é meu” e se alguém vem aqui e pega isso, eu fico com ciúme, com raiva. É “meu”, é meu, não é seu.
Quando nos dizemos “é meu”, nós queremos dizer “sou eu”. E eu não vou permitir ser tomado por qualquer outra coisa. De uma maneira simbólica, simples, essa é a forma como o mecanismo do egoísmo se manifesta.(continua)

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O silêncio é uma oportunidade


 (continuação)
Monge Kômyô:  No Zen, muitos monges zen vem das artes marciais. Não é incomum. O monge Tokushi, por exemplo, é um professor de Aikidô. Genshô Sensei também teve uma origem, quando mais jovem, em artes marciais. Eu entrei no Zen pela arte: a poesia, a pintura. Então quando eu falo da prática zen, estou falando de arte. Para mim, Zen é uma arte. A arte aqui é a arte de estabelecer a capacidade de enxergar as coisas de forma mais clara possível, mais consciente. Para terminar, mais um aspecto do sesshin, que é a alimentação. Ao nos alimentar, também estamos fazendo zazen.

O silêncio, como eu falei para vocês, é uma oportunidade. E qual é o fundamento dessa oportunidade? É a chance de nós praticarmos a respiração, a atenção plena a tudo o que nós fazemos. Então quando vocês forem comer, cada bocado de comida, não precisa ser devagar, mas façam com atenção à respiração e com o máximo de cuidado possível. Observem o bem estar dos nossos companheiros, todos nós. Mesmo sem falar, nós podemos ajudar uns aos outros. Repito para vocês mais uma vez que o silêncio se estabelece como uma forma de nos ajudar a perceber as coisas com mais intensidade. Mas isso não impede que nós possamos nos comunicar uns com os outros de uma forma mais sutil.

A idéia de nós não nos cumprimentarmos no retiro não é para evitar o cumprimento em si. Mas é porque... o macaco louco dentro da nossa cabeça ainda está muito ensandecido. E até mesmo a pequena distração de olhar para alguém e falar “olá, bom dia”, já pode tirar a nossa mente do lugar. Quando você consegue estabelecer bem a sua mente, aí você pode cumprimentar. Mas o cumprimento também é zazen. Estamos aqui agora conversando. Estou tentando falar algumas coisas. Estou praticando a respiração aqui. Eu estou praticando o zazen. Aproveitem e pratiquem também.  (Final)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Samu


 (continuação)
Monge Kômyô:  O samu uma forma de estabelecer o zazen através do trabalho, da ação que tem como objetivo contribuir para melhorar o nosso espaço. O samu não é trabalho escravo. É zazen. Eu ouvi uma história muito interessante, de uma grande amiga minha... ela costumava ir no retiro de um dia  lá em São Paulo. E numa vez que ela foi, havia uma pessoa, uma moça, que era a primeira vez que tinha ido, estava muito interessada em praticar o Zen, etc. Teve o zazen e aí chegou o momento do samu. Aí a moça perguntou para o monge: “Espera aí, tem que trabalhar?” Ele explicou, é o samu. Faz parte da prática. Nós ajudamos a organizar o espaço, a limpar. Nós usamos o espaço e respeitamos o espaço, limpamos, etc. Mas a moça ficou indignada. Ela achou que não tinha que trabalhar. Ela estava ali para praticar. E foi embora do sesshin. Essa não é uma história incomum. Algumas pessoas se surpreendem com o samu. Algumas acham, por exemplo, em um retiro... ela vai pensar assim: “não, eu estou pagando pelo retiro, eu tenho que trabalhar? Não. Eu estou aqui para usufruir.” Essa é a mentalidade do lucro, do ganho. É quando uma mente não saudável entende que em tudo que ela oferece dinheiro, acha que ela tem direito de receber em troca, ela só recebe. Ela acha que o dinheiro é tudo. O dinheiro é uma doação. Mas o trabalho contemplativo se estabelece em aprimorar, intensificar a aprofundar a nossa capacidade de agir em grupo. Isso é o sangha. Vocês me desculpem porque eu chamo o sangha. A sangha não está errado. É que eu estudei sânscrito durante muito tempo, aí eu acabei me acostumando. Sangha é um termo masculino em sânscrito. É como o dharma, o sangha.
A comunidade então é um trabalho contemplativo de integração. Nós praticamos juntos, nós trabalhamos juntos. E o trabalho é uma forma de estabelecer o zazen, a atenção plena em uma ação construtiva para favorecer o próprio ambiente do sesshin. Ninguém está querendo se valer do trabalho de alguém para limpar o ambiente. Ao mesmo tempo, o samu – eu acho muito importante, justamente por esse aspecto –, ele nos dá uma oportunidade de compreender a humildade. Não tem empresário que ganha milhões, não tem um lixeiro... Em um retiro, qualquer um, todos nós, qualquer que seja o nosso nível financeiro, social, no samu, fazemos as mesmas coisas: lavamos pratos, varremos o chão, lavamos banheiro. Aprendemos a valorizar esses atos, de tal forma que com o tempo eles deixam de ser atos cotidianos chatos e se tornam atos maravilhosos de zazen. Bem, talvez seja assim meio chique ou místico lavar prato em um retiro. Mas e na casa de vocês? E na nossa casa? Quando nós retornarmos às nossas casas, voltarmos às nossas vidas, ao nosso dia a dia? Vamos continuar tendo que lavar louça, lavar roupa, lavar banheiro, varrer o chão. Bem, em geral, na vida, na sociedade moderna, contratamos alguém para fazer isso. Mas eu aconselho a vocês todos que, mesmo que vocês, nas suas casas, tenham pessoas, empregados,  que façam, nunca deixem de, de vez em quando, todos os dias, em algum momento que vocês tenham oportunidade, de fazer o mesmo trabalho também. Aquele trabalho que o empregado ou a empregada faz. Prestem atenção nisso.
 Observem que o mesmo mecanismo de interpretação daquela moça, que ficou indignada e saiu do sesshin, pode ocorrer conosco. “Eu estou pagando essa moça, ela que tem que trabalhar. Ela que tem que lavar a louça, tem que varrer o chão, lavar o banheiro. Eu não.” Não é assim. Nós precisamos saber estabelecer nas nossas vidas pessoais o regime de um sesshin, mas adaptado ao cotidiano. O trabalho pode ser muito. Provavelmente todos vocês têm famílias e, às vezes é um trabalho mais intenso. A pessoa que nós contratamos nos ajuda. Mas isso não significa que nós não devamos, de vez em quando, pegar na vassoura para varrer o chão, lavar o banheiro. “Hoje eu vou lavar o banheiro. Hoje eu vou lavar a louça”. Todos. Homens, mulheres. Eu estou falando para todos. O estabelecimento de uma prática que vise nos dar uma perspectiva mais simples e humilde ajuda a colocar a nossa mente na realidade das coisas como elas são. Ajuda a diminuir o condicionamento e a ilusão das nossas mentes. De que as coisas existem para nos favorecer. Nós favorecemos também. A natureza – a humanidade vive isso já há muito tempo, mas a hiper-modernidade está tornando isso pior e até mais intenso – a natureza pode ser usada para nos favorecer, mas nós temos que saber favorecer a natureza, senão ela acaba. Essa é a mentalidade exploratória. O Abhidharma chama de mente vikalpa. É a mente que entende as coisas separadas. A árvore agora me dá sombra. Me dá essa brisa extremamente refrescante. Mas, eu comprei esse terreno e vou construir uma casa. Ah, essa árvore está incomodando, ela é muito grande. Suja o chão. Eu já vi muita gente falando que folha suja o chão.
 Existe uma história zen. Havia dois mosteiros, dois templos. Um, um pouco mais bonito, um pouco mais elaborado, maior. No templo do lado – mais humildezinho – vivia um monge que já era bem velhinho. No outro templo, havia uma cerquinha baixa, que separava os dois templos. E ocorreu que, num dia desses, o monge velhinho do templo menor estava encostado no muro assim do templo dele e vendo um outro (um monge jovem) do outro lado, num templo grande, que tinha um jardim zen bonito. Esse monge estava empenhado em limpar o jardim. Então ele trabalhou, andou a manhã inteira catando as folhas, arrumando e passando ancinho na parte do jardim zen que tem os seixos com as rochas. No final de uma manhã cansativa de trabalho, ele foi até o muro e se encostou junto com o monge velhinho, cansado, suando e falou: “Agora sim está bonito e está lindo”. Aí o mongezinho, o velhinho falou: “Só está faltando uma coisa.” Aí ele pulou a cerca. No meio do jardim lindo tinha uma árvore. Ela estava no período de troca de folhas. Era uma árvore bonita. Aí o mongezinho foi lá até aquela árvore – não era uma árvore grossa, – ele segurou a árvore e sacudiu a árvore. Caíram folhas ali. “Agora está bonito. Agora está perfeito.”
Então, o conceito de harmonia, beleza precisa ser entendido dentro da integração do ambiente que nos favorece e nós favorecemos a ele. É a compreensão do movimento natural das coisas. As folhas caem! Isso é tão bonito. Talvez alguns aqui saibam que eu tenho uma formação em Arte. Sou artista. Mas também... sou biólogo. Sou artista plástico e sou biólogo. E esses dois aspectos da minha vida, se compõem muito bem nessa idéia de saber compreender o movimento da beleza nas coisas. Entender o que realmente é o lixo e o que é na verdade uma composição natural do ambiente. Uma folha de uma embalagem plástica de um chocolate, amassada e jogada aqui, isso seria um lixo. Nós iríamos retirar e levar. Se for possível reciclar, se for um papel, ótimo. Se não for, temos que retirar e colocar no lixo. (continua)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Mantendo o foco


(continuação)
Monge Kômyô: Uma memória do passado, ou um planejamento, ou uma expectativa do futuro, isso nós podemos prender algo e pensar e focar naquilo. Podemos pensar num momento que nós vivemos no passado e ficar presos nisso. Podemos projetar alguma coisa que nós queremos no futuro e ficarmos presos nisso. Esse é o problema de se deixar levar pelo passado ou pelo futuro. Quando a nossa mente faz isso, perdemos o estabelecimento da concentração e da clareza. E estamos agora perdidos em lembranças do passado, anseios pelo futuro. Durante o zazen, é muito comum. Estamos lá e aí começa a sentir algum incômodo, alguma dor... Quase sempre, grande parte das pessoas pensa assim: “Pô, esse sininho não vai tocar logo? Cadê, cadê? Acabou o tempo não?” Quando isso se manifesta em nossas mentes, não se sintam culpados. Isso é natural. Mas observem. É um sinal de que a mente de vocês já se desconcentrou. Vocês já não estão mais no agora. No agora, não tem sininho ou não sininho. Não tem fim de tempo ou início de tempo do zazen. Só tem o agora. Agora. Agora. Agora. Quando nós perdemos esse foco, os nossos fardos, os nossos condicionamentos entram pra dominar. E aí a prática se torna muito mais difícil.

 Em relação ao kinhin, (meditação andando)    é uma coisa muito comum... Durante o kinhin, muitas pessoas tendem a achar que o conceito fundamental do kinhin em um espaço fechado... significa muito lento ao caminhar. Mas não é isso. O ritmo do kinhin é o ritmo da nossa respiração. Porque também o kinhin é zazen. Também estamos praticando o agora. Então no kinhin, nós estamos lá na postura... inspiramos, damos um passo. Expiramos, jogamos o peso do corpo. Inspiramos, damos o outro passo. Expiramos, soltamos o peso do corpo. Colocamos o corpo para frente, para manter o equilíbrio. E assim nós continuamos. Não é necessário ser muito lento e passar várias respirações em um passo. Na verdade, o kinhin ideal seria uma respiração, um passo. À medida que nós nos concentramos na respiração e no passo, o nosso caminho se torna naturalmente tranqüilo. Não lento. É tranqüilo. Ao fazer o kinhin, é preciso mostrar à nossa mente condicionada que nós não temos que chegar a lugar nenhum. Ninguém tem que ficar ansioso para chegar a algum lugar. Mas também não é para ficar parado, com medo de andar. Mais uma vez é o caminho do meio.

 Quando você dá o primeiro passo, você pensa “eu cheguei”. Quando você completa o segundo passo, o próximo passo, você pensa “eu estou em casa”. E assim você vai. Eu cheguei, eu estou em casa. A idéia é colocar a mente focada que a cada passo nós já chegamos. Não há nenhum lugar para se chegar, não há nenhuma meta. A cada passo, nós já chegamos onde nós temos que estar.  Durante o trabalho meditativo em si, seja no zazen sentado, no kinhin, seja durante todas as outras nossas atividades, a atenção, a observação dos nossos gestos, nossos pensamentos, nossos sentimentos é o foco. E aí nós entramos em outros aspectos do sesshin que também são zazen. (continua)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

É sempre o agora


 (continuação)
 Monge Kômyô:   Como diz o mestre Thich Nhat Hanh do zen vietnamita, fala alguma coisa que não quer falar, mas acaba falando. Faz alguma coisa que não quer fazer, mas acaba fazendo. O exercício não é apenas se prender ou recriminar o outro, mas tentar enxergar o que nós podemos fazer ou deixar de fazer para que, no futuro, isso ou não se repita mais, ou se torne mais... menos intenso. Eu reluto aqui em falar assim porque certas aprendizagens e descobertas, certas transformações e curas ocorrem em camadas. A coisa tinha uma intensidade. Através da prática diminuiu essa intensidade um pouco. Ainda ocorre, mas com pouco menos intensidade. Com o tempo e com o esforço, vai diminuindo. Aquela energia, aquela relação não saudável vai se curando. Um retiro é um primeiro passo para que nós possamos estabelecer a mente de forma que, aos poucos, saibamos encontrar meios hábeis para lidar com nossos problemas. Os problemas não vão acabar. Não há no Zen nenhum tipo de afirmação assim: pratique o Zen por três meses e seus problemas se acabam. Não existe isso. Na vida sempre existem problemas. A questão não está no problema, mas na mente. Como nós vamos entender, como nós vamos lidar com o problema. Por pior que seja. Tudo é uma questão de como nós estabelecemos a nossa mente diante dos acontecimentos, das realidades que se manifestam em nossas vidas. Daí, o ensino de Buda ser muito direto em certos pontos. Não finja que não sofre. Procure observar até mesmo para poder descobrir se você realmente está sofrendo ou se você imagina que está sofrendo. “Meu trabalho é horrível. É uma agonia. É o pior lugar do mundo”. Pode ser que seja realmente um lugar difícil, tenso. Mas é bem provável que grande parte desse aspecto ruim do seu trabalho se manifeste na sua mente. Você não consiga enxergar meios para qualificar melhor o ambiente em que você vive, trabalha. É possível.
Buda também ensinou que, usando termos modernos, sempre existe uma saída. Pode não ser uma saída que a nossa expectativa queira, mas sempre existe uma saída. É claro que na vida existem circunstâncias intensas, às vezes até perigosas. Mas, de novo, o ensinamento é ter a mente tranqüila para poder lidar o melhor possível com essas situações. Durante a prática do zazen, eu sei que para muitos a postura é ruim, é uma luta. Como falei ontem, nós precisamos encontrar um caminho do meio, um meio termo. Nós não devemos nos exigir de maneira cruel. Mas não podemos permitir que a nossa mente condicionada, o nosso eu arranje uma desculpa para não tentar se esforçar na prática. Aquelas pessoas, eu repito, que se sentirem com uma dificuldade física muito grande, entrem em contato, que tentaremos ver uma cadeira para melhorar a prática. Aos outros que conseguem manter a postura, mas que, com a continuidade do zazen pode ficar mais difícil, tentem estabelecer o melhor possível a atenção à respiração como forma de sustentar o esforço. A respiração é muito importante no zazen. Ela não só é uma âncora, é um sustentáculo, é um apoio para que nós possamos lidar com os desafios físicos, emocionais, psicológicos de você sentar para meditar. A respiração também é a forma de fazer com que nossa mente se mantenha no agora. Todo o ensinamento zen se estabelece no agora. O porquê que a respiração é tão importante para isso... Como eu ensino lá em Niterói, a respiração é o grande elemento para levar a mente ao momento presente, porque nós não respiramos no futuro. Nós não respiramos no passado. Nós só respiramos no presente. Vocês agora estão respirando e à medida que vocês expiram e inspiram, o fenômeno só se manifesta agora. O interessante é que: o que é o agora? É um constante vir a ser. Aonde está o agora? Como a gente pega o agora? Não se pega o agora. Aí está a grande dinâmica da experiência contemplativa. A mente que se mantém no agora é uma mente que se mantém flexível e una com a dinâmica das coisas que acontecem. Porque tudo que está se manifestando nesse momento se manifesta num fluxo de agora. Não são agoras. É sempre o agora.      (continua)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O caminho da transformação


 (continuação)
Monge Kômyô: O treinamento também propõe que, à medida que nós conseguirmos, através da prática, reconhecer, clarificar melhor as nossas energias de hábito, esse composto que nós chamamos “eu”, nós partimos para compreender a nós mesmos. Compreender as raízes de nossos hábitos. Saber perceber em nós mesmos as energias de hábito que são saudáveis e saber detectar as energias de hábito que não são saudáveis. E sobre os aspectos não saudáveis, nós fazemos uma investigação para encontrar a origem daquilo. E aí caímos no terceiro passo: transformação. Somente iremos conseguir transformar a nós mesmos a partir do momento em que tivermos uma visão bem clara dos fundamentos dos nossos comportamentos, das nossas ideias, das nossas opiniões, das nossas atitudes, da caracterização e do estabelecimento das energias não saudáveis.
Graças a essa clareza, essa energia de consciência que permite essa clareza, nós vamos começar um processo de transformação. A própria experiência de perceber com clareza as raízes dos hábitos em nossa mente já promove naturalmente um mecanismo de transformação. As raízes dos hábitos não saudáveis em nosso comportamento se estabelecem e até se aprofundam porque nós não temos consciência desse fundamento. Eu sou ciumento e o meu ciúme eu sei que acontece porque minha namorada passeia  e os homens ficam olhando.  Eu estou usando aqui uma referência masculina, mas o ciúme se estabelece de várias formas. Mas de fato não é isso. Não é a namorada, ou como ela se veste, ou circunstâncias externas que realmente fazem surgir as energias não saudáveis. São aspectos profundamente arraigados em nossa natureza que dão margem à possibilidade de, através de um estímulo externo, essa semente,  surgir na superfície da consciência e se estabelecer. O trabalho investigativo da contemplação é saber reconhecer isso. Não é tentar mudar de namorada, ou reprimir a pessoa com quem você se relaciona, ou bater nas pessoas de quem você tem ciúme. Nenhuma ação externa vai realmente levar à transformação e ao quarto passo que é a cura - ao fim do domínio dessa energia não saudável na nossa mente.
Eu acho que dá para perceber por todos, não é uma tarefa de um dia. Ela exige um empenho e um compromisso de uma vida inteira. Eu comentei que eu pratico, procuro praticar há muitos anos, muitas décadas. E ainda, sim... tive grandes experiências. A minha experiência é a minha experiência. Outros monges, outros praticantes terão experiências próprias, com características próprias. Eu falo aqui para vocês sobre a minha experiência. E grande parte das minhas aprendizagens na vida não foram devido aos meus acertos, mas ao contrário, foram devido aos meus erros. Numa palestra lá em Niterói, com  Genshô Sensei, um rapaz perguntou para ele como poderia fazer para praticar. Ele falava: “A minha vida é muito difícil. Eu tenho muitos problemas, muitas dificuldades. Eu me sinto assim com grande dificuldade de estabelecer a prática.” E  Genshô Sensei, do jeito dele, olhou para o rapaz e falou: “Olha, eu faço votos que você continue sofrendo muito, sofra até mais.” Quem ouve assim pensa: “Nossa, essa história de Zen é muito deprimente. Querer que uma pessoa sofra.” É preciso compreender bem o ensinamento. Ao contrário do que se pensa, o budismo, os ensinamentos de Buda, são extremamente positivos e vivos. O que o Buda procurou demonstrar é: não finja que você não sofre. Todos nós sofremos, passamos por dificuldades. O elemento é: aprenda através da sua experiência. Não tente encontrar algum mecanismo para disfarçar os seus erros, a sua relatividade. Aceite. Observe. Não se recrimine. O budismo não é uma questão de culpa. Apenas de responsabilidade. Há um aspecto no budismo que se chama honestidade interior. Se nós cometemos um erro, ao invés de ficar dizendo: “não, não, não fui eu não. Foi aquilo ali, ou aquilo lá, ou aquele outro que, por acaso levou a isso e eu fiz...” Não arranje um bode expiatório. Observe o erro. Respire. Procure compreender a sua parcela de responsabilidade no erro, nas relações humanas, nas relações com a família, relações afetivas. Nós temos situações em que é exigido de nós um empenho mais intenso. E às vezes a pessoa de quem a gente gosta nos magoa. (continua)

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O trabalho árduo do descondicionamento



Monge Kômyô é um noviço no zen, porém vem de uma longa trajetória no zen vietnamita (Thien) e nas artes plásticas e nas típicas do zen como o origami, a ikebana, o sumyê e a caligrafia. Ele haver-se colocado como meu aluno diz muito mais sobre suas qualidades do que das de seu orientador.
Estou  postando suas palestras gentilmente decupadas pelos alunos dos grupos de estudo do zen para proveito de todos, não são palestras oficiais do Dharma mas os praticantes entenderão a qualidade de sua partilha sobre a prática do zen.

Goiânia 2014
Monge Kômyô: Eu gostaria, nessa conversa primeira do dia, retomar um pouco alguns comentários sobre a prática.   O esforço, a experiência que nós temos num sesshin é um treinamento para todos, eu inclusive. O treinamento fundamental é conseguir estabelecer a mente de forma consciente, clara. Isso não é muito fácil. E não é fácil apenas pelos aspectos externos da vida. É essencialmente exigente, devido à natureza da mente condicionada, nossa mente.

Ontem eu comentei que todos nós carregamos uma bagagem. No contexto da psicologia budista, do Abhidharma, todos nós estabelecemos nas nossas vidas, a partir do padrão de nossas vidas, vasana. Vasana é energia de hábito. Cada um de nós possui um agrupamento de energias de hábito que caracteriza quem nós somos. Num retiro, mesmo que nós nos esforcemos para que ele seja organizado, adequado para que todos pratiquem, no retiro continua atuando um fenômeno, uma lei fundamental, que é a impermanência. Nunca há ambiente perfeito. Nesse momento nós temos um exemplo: temos aqui um som lindo, mas temos uma musiquinha também em algum lugar aí. Às vezes pensamos “Poxa, que chato essa música. Queria ficar aqui ouvindo as cigarras. Mas o treinamento está em aprender a estabelecer a mente, para poder aprender a lidar com todas as coisas sem conflito. A mente condicionada, essa mente que se caracteriza por muitas energias de hábito, é uma mente que, essencialmente... como se diz no Zen,  é como um macaco louco dentro de uma casa. Nossa mente, nossa cabeça é a casa. E aqui dentro há um macaco louco. Quando nós tentamos estabelecer um regime de auto-observação mais intenso, o macaco louco não gosta. A tradição Zen lida com os paradoxos.

A experiência zen,  em geral se manifesta para dar uma rasteira na gente. Por que isso? É alguma perversidade? Não. O objetivo no Zen é tentar desestabilizar a falsa idéia que o nosso eu tem de que está no controle e que tudo tem que se adaptar às nossas expectativas. O trabalho contemplativo é um trabalho árduo de descondicionamento. Portanto, num retiro, o primeiro convite que eu faço a todos é: simplesmente observem a si mesmos. Diante dos desafios, das situações, do próprio movimento durante o sentar e fazer zazen, observem a si mesmos. Não tentem controlar, até porque vocês não vão conseguir. Observem. Esse é o primeiro passo. O primeiro passo é reconhecer a si mesmo. O silêncio, a introspecção, ela ajuda a estabelecer esse meio, para que possamos reconhecer melhor quem nós somos. Sem culpa, sem recriminação, sem crítica, só reconhecer. Já aí temos um grande desafio.
(continua)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A disciplina da plena atenção



 (Final da palestra do Ven. Dhammadipa no DaissenJi em Florianópolis)
A seguir temos a importância da plena atenção. Buddha ensina que apenas teremos sucesso na prática se praticarmos quatro posturas. Praticar nas quatro posturas significa praticar enquanto sentado, enquanto em pé, enquanto andando e enquanto deitado. O sutra explica que a única forma de obter claridade é praticar com devoção e ininterruptamente. Esta é a prática da plena atenção. Caso consiga praticar a plena atenção nas quatro posturas ininterruptamente, estará plenamente Iluminado. Devemos praticar nessa direção enquanto estivermos conscientes. Caso permaneça neste tipo de plena atenção, está vivendo no Brahmaloka – no paraíso – mesmo estando aqui.

Temos agora a última e curta parte, abordando a sabedoria. Então, ao praticar neste sentido, você deverá “ditthiñca anupaggamma”, deverá abandonar todas as visões. Você deve ser sīlavā, deve ser disciplinado. Como abandonar todas as visões? E como ser verdadeiramente disciplinado? Ambas as virtudes serão atingidas quando compreendermos a originação dependente com intimidade. Tudo que existe, existe em relação a algo. Existir em relação a algo significa ser impermanente. A impermanência apenas existe onde há vazio, pois se algo permanece na sua experiência é, então, imutável. De acordo com o budismo, devemos entender a impermanência a fim de compreender o que está além da impermanência. Tudo muda por não ter uma natureza própria. Apenas pode mudar por conter o vazio. Se algo possui natureza própria, não é capaz de mudar. Logo, a única coisa que possui natureza própria é o vazio em si. É por isso que o Sutra do Coração ensina que a forma, os sentimentos, os cinco agregados são de fato o vazio, não diferentes do vazio em si. Caso consiga ver isso, você é “dassanena sampanno”, aquele com o darśana, a visão direta. Com isso, “kāmesu vinaya gedham”, você estará livre de todos os apegos e não mais retornará ao samsara.

Você deve compreender que este sutra foi proferido a 500 bhikkhus determinados a tornar-se aharants. Caso deseje seguir o caminho do boddhisatva, deve entender claramente o estado de existência de um aharant. Devido a sua compaixão, o boddhisatva não se torna um aharant. Este é o caminho do boddhisatva.
(Traduzido na palestra por Hakudô San e decupado posteriormente da gravação)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O amor ilimitado



 (continuação da palestra de Ven. Dhammadipa)
A próxima parte do sutra explica que todos os seres estão inclusos, não há possibilidade de exceções. Quando pratica-se o verdadeiro amor, você deve estender seu objeto a todos os seres. Quebrando a barreira entre você e o próximo, entre você e aquele de que gosta, entre você e aquele que não gosta e entre você e aquele que você é indiferente. Você deve ver todos os seres em um e um ser em todos. Este é o significado do amor como um incomensurável. Quando você abre seu coração, ao mesmo tempo abre sua mente. Uma mente limitada significa sentimentos limitados, como uma mente ilimitada significa sentimentos ilimitados. De fato, todas as fronteiras da mente estão conectadas às fronteiras dos sentimentos. Pelo fato de nos apegarmos ao prazeroso e termos aversão ao não prazeroso, nossa mente torna-se limitada.

A fim de reverter essa tendência, que é a causa do sofrimento, Buddha ensinou amor ilimitado, compaixão ilimitada, alegria ilimitada e equanimidade ilimitada. Como o amor torna-se ilimitado? Na medida em que você observa um ser em todos e todos em um. Este é o segredo do amor ilimitado, que está fundado na sua determinação de desejar o bem a todos os seres. Este é o verdadeiro significado da amizade. O amor no budismo é apresentado como amizade. Você sabe porquê? Porque o verdadeiro amigo é aquele capaz de sacrificar-se pelo próximo. Este é o significado do amor genuíno, quando nos tornamos capazes de louvar igualmente todos os seres. Com isso, você torna-se amigo de todos os seres. O Buddha explica em outros trechos, o amor como não enganar seus amigos. Ele explica que a virtude mais importante no sutra do amor está relacionada a ser direto. Quando você é direto com os outros, será capaz de amá-los, bem como a si. Somente assim será capaz de beneficiar-se nos outros. O desejo que os outros sejam felizes é o desejo de beneficiar-se nos outros. Isso também está vinculado à tolerância. Quando alguém ama, possui tolerância. E o Buddha explica que não há nada mais elevado que a tolerância. Portanto, é assim que pratica-se a tolerância: você deve desejar que todos os seres estejam a salvo e sejam felizes.

E quem são todos os seres? Ele explica “Ye keci pānabhūtatthi, tasā”, não importa se são grandes, médios ou pequenos. Até os seres microscópicos, invisíveis. Os seres que não podemos ver são muito mais que aqueles que podemos ver. De acordo com o Budismo, temos em nosso corpo 8000 famílias de diferentes organismos microscópicos. Todos eles devem ser incluídos. Até quando estamos escovando os dentes matamos alguns organismos microscópicos, por isso devemos fazê-lo com amor. Não importa se estão longe ou perto, se são visíveis ou invisíveis, todos devem ser incluídos em seu amor. Mesmo aqueles em processo de nascimento, todos esses devem ser incluídos em seu amor. A seguir, vale lembrar que tais desejos e, de fato, a prática do amor compassivo devem ser ativos, não só passivos. Buddha explica que não se deve enganar o próximo, rebaixar o próximo. Devemos sempre ter a mais alta estima por todos os seres. Devemos sempre desejar que nenhuma resistência, ódio e aversão surja na mente de nenhum ser.

Então tem-se uma comparação muito famosa, que vocês já devem ter ouvido. Buddha diz que, tal como a mãe protege com a vida seu único filho, assim devemos estender nosso cuidado a todos os seres. Devemos estender esse cuidado nas quatro direções, aonde quer que tais seres estejam, sem impor nenhuma resistência. Há um sutra na coleção dos discursos “médios”1 que alguns podem achar um exagero, mas demonstra uma importante atitude. É o sutra da “Analogia da Serra”2. Buddha supõe que houvesse dois homens fortes com uma serra e que tais homens tentassem cortá-lo ao meio. Caso surja qualquer resistência ou aversão para com eles, Buddha diz que você não é um discípulo dele. Então, podemos achar um pouco difícil nos tornarmos discípulos de Buddha, mas não tomem isso literalmente. Buddha apenas quer mostrar a importância da não-resistência. A não-resistência é, de fato, uma das mais nobres forças. Aquele que obtiver tal força terá sucesso em tudo. Portanto, o modo de obtê-la está explicado exatamente neste sutra. (continua)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Sobre o não apegar-se



(Ven. Dhammadipa prossegue)
Praticar o Zen significa tornar-se Zen. E tornar-se Zen significa ter seus sentidos totalmente pacificados. Extamente por não haver nada a apegar-se, é que a pessoa realiza a não necessidade de ter apego.

Com isso, a última virtude exposta é kulesvananugiddho, ele não se apega à família. Caso os monges tivessem apego à família, seria muito difícil manter sua mente pacificada. Então os monges são sempre amigáveis à sua família e sempre praticam o amor para com seus familiares. Mas eles não devem apegar-se a eles.

Então essas são as virtudes para a prática do amor. Caso consiga mantê-las, sua prática do Zen tornar-se-á muito fácil. Isso explica o que alguém deve fazer. A próxima sentença explica o que não devemos fazer. Ela diz “Na ca khuddamācare kiñci, yena viññū pare upavadeyyum”, ele não deve praticar aquilo que os homens sábios repudiam. Ele especifica claramente homens sábios e não qualquer homem, não o estúpido. O comportamento daqueles que praticam meditação por vezes não condiz com o comportamento socialmente convencionado. Contudo, pode ser um comportamento bom e benéfico. Pode ser criticado pelos outros, mas caso sua motivação for o amor e a compaixão, os sábios irão compreender e apoiar tal comportamento. Logo, devemos nos comportar de forma que os sábios fiquem satisfeitos e os não-sábios, os estúpidos, não fiquem, mas sem preocupar-se muito. Caso pratiquemos as virtudes expostas, a seguir inicia-se a explicação sobre a concentração.

O Buddha primeiro dá instruções da meditação no amor. “Sukhino va khemino hontu, 
sabbasattā bhavantu sukhitattā”, é o desejo que todos os seres estejam a salvo. Estar a salvo quer dizer, de fato, estar liberto. Logo, a real salvação é apenas alcançada quando alguém obtém completa compreensão, o pleno despertar.

De acordo com o abhidharma-kosa, há de fato dois tipos de meditação. A primeira meditação é baseada na “determinação” e a segunda é a meditação baseada no “ver as coisas como realmente são”. A meditação no amor é baseada na determinação. Você determina que é feliz e que todos os seres são felizes e contempla você e todos os seres como sendo felizes. Apenas quando sua mente for forte e determinada você será capaz de obter sucesso nesta prática.

A maneira tradicional de obter uma mente forte é através da prática da concentração profunda. Caso obtenha uma concentração profunda, o que quer que determine acontecerá de acordo com tal determinação. Caso determine que todos os seres são felizes, de fato poderá beneficiar a todos os seres com sua felicidade e não-aceitação da frustração alheia. Foi assim que Buddha conseguiu transformar seus piores inimigos em seus discípulos e amigos. Ele simplesmente ignorou os atritos e penetrou através deles com amor compassivo e bons desejos. Logo, a meditação no amor terá sucesso quando você for capaz de determinar que todos os seres são felizes e são beneficiados por este amor.
(continua)