quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Abade Daiju Bitti doa estátua histórica para o Daissen Ji



Idaten é a deidade que se coloca na cozinha dos mosteiros zen, esta figura ideal representa a vontade de conseguir alimento para os futuros Budas que estão em treinamento.  Assim diz-se que ele corre por toda a terra em busca dos ingredientes necessários. Também onde há um problema lá ele está para ajudar a resolver. Nos monastérios chineses ocupa uma assento no vestíbulo dos guardiões, no Japão está no altar da cozinha e para ele todas as manhãs se recita um sutra e se oferece incenso. 

No último dia do Nambei Sesshin 2014 ( Retiro de treinamento de monges) o abade Daiju Bitti do Mosteiro do Morro da Vargem http://www.mosteirozen.com.br/  Enkoji, um homem que há quarenta anos constrói um monastério, parte dele edificado com o produto de sua mendigação nas ruas japonesas, me olhou do outro lado da mesa e perguntou se tínhamos, em Florianópolis, a estátua de Idaten, disse que não, que usávamos uma imagem de Buda na cozinha, ele levantou-se e trouxe a estátua que depois de estar no Japão foi dedicada por Iko Roshi para Enkoji, havendo ficado 15 anos no altar da cozinha onde conversávamos. Preciosamente entalhada em madeira esta obra de arte já recebeu milhares e milhares de reverências. Entregou-a a nós e embrulhou cuidadosamente em tecido para a viagem. Fiquei emocionado e todos em volta perceberam quanto aquele momento selava nossa amizade e confiança no crescimento do Dharma de Buda. Jikihô San fez uma foto desta doação memorável.




terça-feira, 21 de outubro de 2014

Retiro Zen de treinamento da América do Sul


Foto inicial do Nambei Sesshin, retiro que reuniu no Mosteiro do Morro da Vargem em Ibiraçu ES  os professores do zen da América do Sul e quase meia centena de monges e postulantes. Esta a razão de não postar no blog nos últimos dias. Bem ao centro o grande mestre zen Saikawa Roshi de quem tenho a honra de ser aluno. A sua direita o inacreditavelmente realizador Abade Daiju que há quarenta anos se dedica a construir a excelente instalação por onde já passaram dezenas de milhares de pessoas.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Não se voa com uma asa só


 (continuação)
Uma vez eu encontrei um homem que me disse ser muito interessado no budismo. Ele abriu a sua pasta e, lá, havia cinco livros budistas. Era um professor de universidade, e logo me falou que tinha uma biblioteca com 200 livros sonbre o Dharma. Eu disse: “Magnífico. Eu tenho só uns 30 lá em casa”. Nós íamos viajar de avião, estávamos numa sala aguardando o embarque, e ele me disse que tinha muito problema em voar. “É porque não pode fumar, e eu preciso!”, me contou. “Eu não posso fazer viagens longas e ficar sem fumar o meu cigarro, me dá um desespero”. Então eu falei que ele teria que fazer meditação, e ele disse que não poderia meditar, pois não pode [ao mesmo tempo] fumar. Então não tem solução para ele. Ele sabe muito, mas não pratica nada. E isso é a mesma coisa de alguém dizer “eu sei muito sobre natação”, eu li muitos manuais sobre natação. “Mas o senhor já entrou numa piscina?”. “Não, não. Eu tenho medo d’água”.

Então esta pessoa não sabe sobre natação, ela sabe sobre os manuais. A mesma coisa acontece no budismo, e por isso não adianta elaborar teoricamente demais.  Assim como estudar arte é interessante, saber é interessante. Mas não me diga que sabe música porque você leu uma enciclopédia sobre o assunto, mas se lhe derem um instrumento você não toca. Você tem que usar o conhecimento “e” praticar. Só com essas duas asas é que você consegue voar. Não se consegue voar com uma asa só.

Por isso é tão importante nós sentarmos em zazen. Quando nós sentamos é que nós vemos os problemas reais. Nesse processo, vocês conseguem ficar parados? Conseguem aquietar o corpo? Conseguem respirar? A mente não para? É isto que está ocorrendo? Se sim, então precisa de uma prática mais intensa. Nos mosteiros, por exemplo, nós começamos a meditação todos os dias de madrugada. Nos levantamos às 4h, às 4h20 temos que estar na sala (zendô), e daí fazemos 1h30 de meditação, sendo 40’ de zazen (sentados) 10’ de kinhin (meditação andando) e mais 40’ de zazen em seguida. Só a partir daí é que começa o dia. Depois vem cerimônia, café da manhã e depois vem o trabalho (samu). O dia tem que começar assim, e  o dia termina assim também.
(continua com perguntas)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Como um tropel de cavalos desembestados



(Transcrição de palestra em zazenkai, decupada da gravação por Sonielson San)

Quem conseguiu ficar aqui, durante a meditação, por todo o tempo? Ninguém, não é? Natural, porque a mente está em movimento. Mas no segundo período [de 30 minutos] não foi mais fácil? Porque no primeiro momento vem aquele monte de apresentações de problemas, um atrás do outro, como um tropel de cavalos desembestados. Vem à tona um problema do passado, ou aquela conta que tenho que pagar depois de amanhã. E daí eu me pergunto: “Eu vim fazer este zazenkai para me livrar dos problemas, e eles permanecem todos aqui?!”. Mas claro! Você os trouxe na sua mente! E como é, então, que você “esvazia”? Parando o corpo e não alimentando em nada a mente, pois não adianta o problema se apresentar e você querer resolvê-lo. Você vai poder sentar aqui 100 dias, e não vai resolver. Não é com elaboração de raciocínios que se sai do círculo de associações infindável.

O que você tem que fazer é perceber que o passado é uma fantasia sobre registros, o futuro também é uma fantasia, uma expectativa. Os registros na memória são todos falsos. Nós pensamos que eles são reais, mas se acontecer qualquer evento aqui, e nós pedirmos para as diferentes pessoas relatarem este evento, cada uma terá uma versão diferente, porque viu uma coisa um pouco diversa. Então, desta forma, não existe a mesma versão do evento. Assim, a memória não é um registro confiável do passado. Desta forma, não adianta nós sentarmos em zazen para tentarmos resolver os problemas do passado. Tudo que vier à mente do passado, simplesmente você deve perceber como algo que não é para ser considerado, rememorado, nada...isso vale para culpas, coisas boas, prazeirosas, nada interessa.

Descarte [estas lembranças] e volte para cá, para a única realidade verdadeira, que é este momento de agora, este exato momento. Esta é uma técnica razoavelmente simples, mas como vocês devem ter notado, não é nem um pouco fácil de ser executada mas, se vocês conseguirem isso, haverá um resultado veloz, e aí vocês começam inclusive a se questionar onde estavam aqueles problemas todos que até então vinham lhe afligindo. Na verdade, eles “não estavam”. Tratava-se, apenas, de um emaranhado dentro da mente.

O que mais não resolve os nossos problemas? Erudição não resolve. Estudar os sutras, estudar o budismo e conhecer todos os seus detalhes, os nomes, como é que é isso, como é que é aquilo... nada disso resolve. Você pode estudar a vida inteira e continuar sendo o quê? Um erudito. E um erudito não é alguém que resolveu a vida.

Uma vez havia num templo um monge muito burro, ele não conseguia aprender nada. Então o mestre deu a ele uma vassoura e disse: “Você agora vai varrer o chão. Não assista palestra, aulas, nem nada. Apenas varra. E quando você estiver varrendo, pense: ‘limpa’, ‘limpa’, ‘limpa’. Só isso”. E de tanto repetir este “limpa, limpa, limpa”, o monge acabou por “limpar” a mente. Então isso quer dizer que uma pessoa pode ser ignorante (no sentido acadêmico da coisa) e ter acordado das ilusões. Tradicionalmente se diz que se um monge é muito erudito, muito inteligente, ele levará  muito tempo para conseguir despertar porque sabe demais. Então toda questão que se apresenta a ele, ele quer raciocinar.
(continua)

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Minimizar o sofrimento que causamos ao viver


Pergunta – Usando o exemplo que o senhor deu sobre alguém entrar aqui com a intenção de matar alguém ou todos. Eu venho por trás dele e o mato antes, como fica meu carma?

Monge Genshô – São dois eventos diferentes, no primeiro você salvou a vida de todos e no outro você matou alguém. A família dele vai odiar você e há nisso uma retribuição cármica.  Mas por outro lado há o bom carma pelo fato de teres salvado muitas vidas. Essa é uma historia clássica no Zen, a do Boddhisatva que matou um homem para salvar quinhentas vidas. Ele assume o carma ruim para beneficiar quinhentas pessoas.

Pergunta – Ela também poderia atrair um carma pela omissão, não é?

Monge Genshô – Sim. Na verdade é uma situação sem saída. Se faz algo como matar o homem, produz um carma, se não faz nada e as pessoas morrem, produz outro carma. Você deve escolher. Mas não existe a escolha de viver sem problemas. Assim é a vida, você não conseguirá evitar todo o sofrimento. Nos tempos de Buddha os Jainistas, faziam oposição ao budismo e o desejo deles era evitar todo o tipo de sofrimento. Alguns chegam a não usar roupas, pois para isso tem que plantar algodão e com isso matar insetos, logo, eles andam vestidos de vento, não usam roupas. Quando caminhavam varriam o chão à sua frente para não pisar em nenhum ser vivo e coavam a água com o mesmo objetivo, que toda e qualquer forma de vida fosse salva do sofrimento. É impossível evitar todo o sofrimento, veja nosso corpo, por exemplo, ele está constantemente matando vidas microscópicas para que você possa estar bem de saúde. Se você tentar levar sua vida a esse extremo, não poderá continuar vivo, pois viver implica em causar sofrimento. O que podemos fazer é minimizar o sofrimento que causamos pelo simples fato de existirmos.

Pergunta – No meu modo de entender o Zen, é como se ele fosse na veia, direto. Já estive em outras escolas, e lá existem vários tipos de meditação. O senhor poderia explicar melhor essa diferença entre as escolas?

Monge Genshô – Existem diferentes métodos porque existem pessoas diferentes com diferentes necessidades. Para algumas pessoas o Budismo Tibetano é melhor. Isso é tão claro e evidente que quando você entra numa Sangha Tibetana e entra numa Sangha Zen, consegue perceber a diferença pela expressão facial das pessoas, o sistema de treinamento as vai alterando. Isso é para tudo, não só para os Tibetanos ou Zen Budistas, serve para evangélicos, católicos ou protestantes. O Zen é chamado Caminho Direto e não é uma prática destinada à todos. Foi concebida como uma prática monástica e para os poucos que desejavam se retirar para montanhas e treinar com mestres extremamente exigentes. Um grande mestre, Bodhidharma, deixava os pretendentes a alunos esperando no lado de fora de sua caverna, na neve, e não os recebia. Só recebeu Taiso Eka, porque este cortou seu braço. É natural que sejamos poucos.
(Final da palestra, decupada da gravação por Chudô San em 2013)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Só se prega sobre o que há dúvidas



Pergunta – Então tudo está em nossa mente, mesmo os reinos dos famintos, deuses, humanos etc.? Não existem como algo físico?

Monge Genshô – Pode ser, há tantas dimensões... E se existir um mundo infernal para onde uma pessoa que viveu uma vida de maldades vá para pagar por seus erros? Não posso lhe responder, pois ainda estou vivo. Só há uma garantia, boas ações resultam em bom carma, más ações resultam em mau carma. É nisso que você deve confiar, pois tudo que vier depois só pode redundar das ações praticadas. Do bem nasce o bem e do mal nasce o mal.

Temos muitas coisas sobrenaturais em nossa vida. Você caminhar é algo sobrenatural, poder pegar água para beber é algo extraordinariamente sobrenatural. Imaginem a vida sem água? Temos coisas sobrenaturais aos montes em nossas vidas que são verificáveis e saímos à procura de coisas não verificáveis. Posso afirmar para vocês que água e plantas dão origem ao chá, isso é extraordinário e sobrenatural e facilmente comprovável. Vocês nunca ouvirão pregadores desejando que vocês acreditem que água existe, eles só pregam coisas sobre as quais os humanos têm dúvidas, por isso tem que falar todas as semanas e renovar sua crença, “Tenham fé, acreditem!”.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O budismo não é a religião do acreditar. É a religião de despertar.


Pergunta – O budismo acredita que possa existir algum tipo de entidade, como essa do mal?

Monge Genshô – O budismo não é a religião do acreditar. É a religião de despertar. Você tem evidências da existência dessa entidade?

Pergunta – Sim, dessa não, mas tive experiências de contato com entidades.

Monge Genshô –  Você teve, mas essa experiência é intransmissível, portanto, para os outros tanto faz, é irrelevante para o despertar. Se você não mostra evidências da existência ou não de entidades, isso não tem a menor importância. Mas mesmo que você prove que existem essas entidades, esse fato continua irrelevante para a prática budista.

O mesmo pode ser dito a respeito de deuses, eles existem ou não? Não existe nenhuma evidência, nenhuma forma de verificação. Se você acredita está bem e se não acredita também está tudo bem. Não faz diferença para o praticante do Zen. As vezes as pessoas estão cheias de sabedoria e vem à Sangha com suas convicções tentando convencer as outras pessoas. Isso mostra o quanto ela tem dúvidas de seus conhecimentos, o quanto lhes falta de certeza. Por que tenta convencer os outros? Para que mais pessoas pensem como você? Se você tem certeza e sua experiência for válida, não será preciso convencer ninguém de nada. A forma como as pessoas chegam à Sangha se assemelha a história do aluno que pede explicações para o mestre, mas não para de falar, então o mestre o convida para um chá e começa a encher sua xícara até transbordar. Ao ver que o mestre não vai parar o aluno diz, “Mestre, já está cheia, não cabe mais nada”. “Igual a sua mente, você sabe muito, não cabe mais conhecimento nela”. Não se pode colocar nada em uma mente cheia, é necessário se esvaziar primeiro. Você deve sentar para meditar e assumir sua ignorância, esse é o grande sábio.

 O Zen é muito simples, rico, mas simples. Como na historia do mestre que caminhando com seu aluno lhe pergunta; “Ouves o riacho?”, “Sim.”, responde o aluno. “Então não tenho mais nada pra te ensinar”, diz o mestre.  Quem faz retiro na Pousada Passarim sabe o que quanto é difícil escutar o riacho que passa ali perto.

Pergunta – Não sei se é a isso que o senhor se refere, mas as vezes na vida ficamos preocupados com verdades transcendentais e deixamos de lado o aqui e o agora, como na história de Budha em que há uma pessoa ferida com uma flecha e todos ficam se perguntando quem atirou a flecha, de onde veio, onde ele estava etc. e se esquecem de ajudar o ferido.

Monge Genshô – Sim, é verdade.

Pergunta – Ainda sobre a existência ou não de espíritos ou entidades. Há uma historia de Chico Xavier em que uma pessoa acusada de assassinato é absolvida porque Chico Xavier psicografou uma carta do assassinado dizendo que o réu não era culpado.

Monge Genshô – Sim, o que aconteceu foi que os jurados aceitaram uma carta escrita por Chico Xavier, onde o suposto assassinado dizia que aquela pessoa não era culpada pela sua morte. Mas você sabe se a carta era ou não verdadeira? O que sabemos é que os jurados, baseados em sua fé, aceitaram aquela carta e a consideraram uma evidência. É a evidência de que? Da fé dos jurados em Chico Xavier.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Regras e relativismo moral


Pergunta – Estou fazendo um curso de filosofia e frequentemente aparece o termo “mal radical” e segundo Kant se esse mal existisse seria algo sobre humano, quase diabólico. Existe esse conceito no budismo?

Monge Genshô – Nietzsche dizia que “se um deus controla o demônio, ou o mal, esse deus é cúmplice”, por outro lado completa, “Se não controla, não é onipotente”. Sempre houve na historia essa tentativa de dividir o mundo em um deus do mal e um deus do bem. Analisando bem é uma tentativa de fazer com que deus não seja responsável pelo mal, pois quando você admite a existência de alguém que é responsável pelo mal, automaticamente absolve deus de ter criado o mal. Estas são dificuldades filosóficas praticamente intransponíveis. Sob o ponto de vista budista isso é dualidade. Bem ou mal, ruim ou bom são conceitos aceitos pelo budismo somente no mundo relativo, não no absoluto. Para o budismo temos dentro de nós o potencial para realizar ambas as coisas. O fato de nos horrorizarmos com as coisas já demonstra que compreendemos o mal.

Na tentativa de dividir o mundo em claro e escuro percebemos que ele é na realidade um pouco cinza, por exemplo, não conheço uma pessoa integralmente boa ou totalmente má. Tudo é um tanto confuso e misturado e somos participantes de ambas as coisas. Muitas vezes não vemos o mal, simplesmente não o enxergamos. Sempre recebo e-mails das pessoas e um dia destes me escreveu um rapaz e deu para perceber claramente que o que ele deseja são preceitos, algo para ele se agarrar, do tipo, “Isso pode, aquilo não”, “faça isso, mas não aquilo outro”. Ele deseja regras claras. Como monge budista não posso dizer para uma pessoa que isso ou aquilo é certo ou errado de forma absoluta. Isso não existe no Zen Budismo. Os preceitos que seguimos são faróis guias para evitarmos o sofrimento e não declarações absolutamente precisas. Imaginem alguém que cumpre os preceitos a risca.  Um dos mais básicos diz para não enganar. Um criminoso entra aqui na sala agora procurando pelo Marcos, antes de ele entrar o Marcos saiu e se escondeu no banheiro. O assassino chega e pergunta pelo Marcos, o que devemos fazer? Indicar que está escondido no banheiro? Essa seria a resposta correta? Ou seria melhor mentir dizendo que ele já saiu faz mais de tantas horas? Nessa situação o correto é mentir para evitar o sofrimento.

Existe um relativismo moral, por exemplo, uma vez estive na Bolívia com um grupo consultores e me convidaram para jantar e me levaram para comer um prato típico. Era uma espécie de marreco ou pato, como sou vegetariano, e eles sabiam disso, não comi. Então um dele me disse, “mas já está morto, pode comer”. Minha resposta foi que esse argumento serve também para comer criancinhas. Você mata, esquarteja, assa e serve, por que não vai comer, se já está morto? O relativismo moral sempre tem isso, sempre existe uma situação pior, mas um erro não justifica o outro. O meu argumento é de que não preciso comer, minha vida não depende disso, pior, se eu pago e como, estarei incentivando ou financiando essa indústria, foi um caminho que escolhi, (antes que alguém pergunte não é uma regra budista). O que faço não é muita coisa, mas é o que posso fazer. Temos que admitir que nossos atos tem repercussões e não são facilmente distinguíveis em certo e errado. Não consigo fazer o melhor de tudo, mas faço um pouco do bom e do que me é possível, não faço perfeito, mas faço algo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Você pensa por isso pensa que existe


Pergunta – O senhor pode falar mais um pouco sobre forma e vazio?

Monge Genshô – Forma é vazio e vazio é forma. Todas as coisas são vazias de um “eu”, não no sentido de não terem nada dentro, mas sim que não possuem um “eu” inerente. Todos somos vazios de um ”eu” inerente, mas nos manifestamos como pessoas. Toda a forma é vazia, mas se tirarmos a forma não sobra nenhum vazio, não existe algo que resta, pois a forma é vazio e vazio é forma.

Pergunta – Sobre o momento de estar presente. O pensamento sempre vem e nos leva junto. Depois de algum tempo é possível ficar presente sem ser levado pelos pensamentos? É possível segurar os pensamentos e não deixar que eles nos arrastem?

Monge Genshô – Porque você acha que é diferente de seu pensamento? Você e seu pensamento são uma única manifestação. Você só pensa que é você porque pensa. Você pensa por isso pensa que existe, Descartes estava enganado.

Pergunta – Então um peixe não sabe que existe?

Monge Genshô – Exatamente por isso, porque não sabe, é que ele está presente. Aquele que pensa que sabe não está presente, pois está pensando. “Os peixes são verdadeiramente peixes, pássaros são verdadeiramente pássaros, somente os homens não são verdadeiramente homens”.

Pergunta – É verdadeiro dizer que o Zen tem uma espécie de aversão à razão?

Monge Genshô – Pode, mas não significa que você esteja certo.

Pergunta – Uma vez que já somos e apenas não percebemos que somos, o despertar não é algo que tenha que ser atingido, mas sim realizado. Se já somos e já estamos onde deveríamos estar, não há nada a ser feito que demande tempo, pois o tempo e o espaço também são uma ilusão. Certo?

Monge Genshô – Já estamos, de certa maneira, despertos. Todos temos a condição de despertar. Podemos dizer que todos somos Budas e, apenas ainda não o somos completamente, porque ainda estamos vivendo num mundo de sonhos, um sonho muito nítido que nos ilude. A vida é um sonho nítido.

Pergunta – Se um peixe não sabe que existe e por isso é um desperto, ele se compara a um Buda? Existe uma semelhança?

Monge Genshô – Embora o peixe não esteja perdido, tem a obscuridade de um animal, lhe faltam sabedoria e clareza. O homem ganha o pensamento e o raciocínio e neles se perde. Perde a vida, o momento presente e tem medo da morte. Por isso não é um iluminado, mas quando um homem desperta, sua clareza ilumina o universo inteiro. Todo o universo que ele olha se ilumina junto.

Pergunta – Quando um animal se vê ameaçado, rapidamente foge. De certa maneira tem um medo instintivo que o alerta. Também possuímos esse medo, com a diferença que vivemos agarrados a ele. Um animal através desse sentimento, pode também ter um sentimento egóico, ou temos o mesmo sentimento deles, pois também possuímos um mundo animal dentro de nós?

Monge Genshô – Nós somos animais também, apenas gostamos de pensar que somos especiais. Não somos nada além de um primata que evoluiu um pouco mais e tem um cérebro melhor. Mas também porque pensamos, temos uma angústia existencial, pois descobrimos que vamos morrer. Essa é a essência da angústia humana. Foi esse questionamento que levou Buda a abandonar o palácio onde vivia e se perguntar - “Por que existe velhice, doença e morte”? Qual é o sentido da vida? Somos diferentes dos animais porque temos essa percepção do futuro que nos aguarda - velhice, doença e morte - e exatamente por isso sofremos. Por isso os homens criaram as religiões, pois querem escapar desta angústia, por isso procuram crenças. O Zen é a oportunidade de destruir as crenças, não existe no Zen qualquer tipo de dogma, é como disse Buda: “Não acreditem em mim, testem”.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O sofrimento é ilusão mas é real


Pergunta – Na cerimônia há uma passagem que diz que “transferimos os méritos desse sutra...” como que é isso?

Monge Genshô – Se todos somos um e estamos todos ligados, tudo que fazemos atinge todas as pessoas, não é necessária nenhuma transferência. Tudo que você faz atinge todos os seres, todas as coisas do universo. Você e o universo são uma única coisa. Atingidos pela ilusão de estarmos num corpo, olhamos as coisas e nos vemos separados. Tudo que fazemos, de bom ou ruim, contamina todos os seres.

Pergunta – Qual o pensamento do Budismo sobre reencarnação?

Monge Genshô – Não existe alma ou mesmo um “eu”, portanto, se não existem almas ou espíritos e se o “eu” é uma ilusão construída por nossa mente, o que existe para reencarnar?

Pergunta – Se vida e morte são uma coisa só, por quê é errado matar?

Monge Genshô – Mesmo que o sofrimento seja parte integrante da vida e mesmo que seja parte de um sonho, ele é real. Quando você vê uma pessoa tendo um pesadelo, é apenas um sonho, mas ele está sofrendo. Se você tem compaixão e não deseja que os seres sofram, você não irá causar sofrimento. Embora seja ilusório, ele é realidade. Quando você vê os pontos em forma de pessoas, em certo sentido é ilusão, mas são seres e sofrem. Vida e morte são partes integrantes de uma única coisa, como dois lados de uma moeda. Nascimento e morte são a própria vida. Nenhum ser, mesmo ilusório, deseja sofrer e morrer, por isso matar é errado e isso se estende a todas as formas de vida.

Quando fazemos nossos votos prometemos proteger todas as formas de vida e não somente as humanas. Não somos os reis da criação. Não fomos feitos a imagem e semelhança de um Deus, ou somos todos deuses ou não existem deuses. Essa é a visão budista.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Se você tem uma ambição não conseguirá



Pergunta – Esses sutras ou mantras recitados na cerimonia têm algum significado em português?

Monge Genshô – O mantra mais longo que recitamos é o Dai Shin Darani e os Darani não têm significado textual embora seus ideogramas possa ser traduzidos e você tenha uma espécie de poema. Depois de milênios repetindo o mesmo som é como se ganhassem força, mas na realidade isso acontece na nossa linguagem do dia a dia. As pessoas começam a repetir muito uma palavra e ela ganha um significado, por exemplo, amor, e, de tanto repetir uma palavra ela ganha um poder.

Com um insulto acontece o mesmo, de tanto ser repetida a palavra ganha tamanho significado que quando você usa para uma pessoa, ela se sente ofendida e reage. Os mantras através de sua longa história de repetições têm essa capacidade também. No Zen os mantras são incorporações de outras escolas, como a Escola Tendai e Shingon onde a prática do mantra é importante para criar uma condição pessoal, mas esse não é foco do Zen. Na Escola Terra Pura por exemplo, não fazem meditação sentada e sua prática central é a recitação de “Namu Amida Butsu”, que significa “Salve o Budha Amida”, é uma forma de meditação com outra técnica.

Como falei, isso não existe no Zen, onde a prática principal é a meditação sentada. Vocês podem observar que o Zen não é fácil, pois o objetivo do zazen é controlar a mente que é extremamente rebelde, se parece com um macaco bêbado pulando de galho em galho e, trazer a mente para o momento presente e suportar a imobilidade física,  que é uma exigência bem difícil. O Zen é a escola do esforço próprio, assim como fez Buda, que se esforçou sozinho para atingir o despertar e esse esforço é o centro da prática. O Zen é muito regrado e exige muita disciplina para praticar. Em algumas escolas acredita-se que o homem não possui condições para se iluminar e deve, portanto, orar para renascer numa terra pura onde aí sim poderá alcançar a iluminação, mas no Zen acreditamos em nós mesmos e na nossa capacidade de iluminação, pois somos iguais à Buda - homens, e se ele fez algo, também podemos fazer, uma outra forma de pensar, embora quando você se dá conta de que a ambição de alcançar algo é um obstáculo importante começa a entender o sentido da prática de pura entrega sem objetivos de outras formas de praticar o budismo. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Cortar a raiz



5) Eu vejo muita dificuldade em cortar a raiz.

Saikawa Roshi – Eu vi num noticiário que há um conflito no Paquistão. Alguém deu um coração da filha morta para transplante. Se você assim o desejar pode dar o coração para qualquer pessoa, mesmo seu inimigo. O problema é o conceito de inimigo que o impede.

** Comentário de Monge Genshô – O que Roshi está querendo dizer é que se amanhã judeus e palestinos perdessem suas memórias, seus conceitos, tudo estaria resolvido, pois quando se olha para uma pessoa sem saber sua nacionalidade ou religião, elas são iguais.

Os ensinamentos de Buda tentam disseminar paz e harmonia ensinando a ver a realidade, ver a raiz da realidade. Costumamos dizer que nascemos, nós não nascemos, é a vida que nasce, porem a vida não nasce do nada, é pura transmissão, na verdade sua vida é infinita. É difícil viver no mundo dessa maneira, as pessoas não entenderiam, pois esse mundo é dualista. Por isso dizemos “eu nasci em tal data”.

6) Eu não entendo muito bem essa parte, nós já existíamos antes como parte do todo, ou passamos a existir a partir da união dos pais?

Roshi – Shakyamuni Buda foi perguntado sobre passado e futuro e ele não deu resposta. Algumas poucas vezes ele respondeu em outras ficou em silêncio. Para nós o que importa é esse momento, prestar atenção somente a esse momento é o que realmente importa.

** Comentário de Monge Genshô – Sua pergunta seria, “eu existia separado antes de meus pais”? Esse é o desejo do ego, ter existência própria. Ter existido antes e continuar a existir depois.

A separação existe, eu sou separado de Genshô e ele é separado de mim e de vocês. E somos todos diferentes. Esse mundo é dualístico. Mas ao ver a divisão você perde de vista a unidade.

7)  Embora já existíssemos antes, o momento da concepção é quando se juntam pai e mãe, então, como é isso de verdade? Existíamos antes, mas passamos a existir de fato no momento da concepção, como isso funciona?

Roshi – Essa idéia de eu e os outros é que não é boa. Não há eu e os outros, começo ou fim. Se você entende como nascimento, você irá morrer. Mas no círculo não existem nascimentos ou mortes, em todos os pontos há nascimento e há morte, então de verdade não há nascimento ou morte, vida ou destruição.

** Comentário de Monge Genshô – O que ele está explicando é que na dimensão histórica existem nascimento e morte, vida e destruição, certo e errado, bom e ruim. Mas na dimensão suprema não, é como ele acabou de explicar no Sutra do Coração, na parte em que nega a existência de tudo, no mundo do Dharma nada é puro ou impuro, nada nasce ou morre, justamente para que não surja esse tipo de pergunta, não existe começo ou fim. Onde estava você antes das duas células se juntarem?

O koan, “qual a sua face antes de seus pais nascerem?” parece falar sobre passado e futuro, mas não é isso. Quase todos os koans não podem ser respondidos através da mente racional e dualística. É impossível. Se você se concentrar nesse koan não conseguirá respondê-lo com sua mente racional. Para respondê-lo você deve entrar no mundo não dual. O koan irá guiá-lo para o mundo não dual.

** Comentário de Monge Genshô – De certa forma, seus avós e seus pais estão aqui.  Roshi please, Do you understand? It’s ok?

Roshi – Anyway it’s ok, I don’t understand. (De qualquer jeito está bem, eu não entendo mesmo)
(Final)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Além dos apegos está a liberdade


1) O senhor falou em células, a diferença entre uma célula e outra se dá somente no nível energético?

Saikawa Roshi – Mesmo as pedras têm diferença de energia. Tudo é diferente, nada existe da mesma forma.

2) Até onde vai nosso esforço, não só na busca da iluminação, mas mesmo para se manter sentado, onde é o limite?

Roshi – Sim, limites existem. Nós estamos navegando em causa e efeito como a correnteza de um rio, em momentos ele é rápido em outros é lento. Um rio forte pode destruir muitas coisas pela frente. Naturalmente se existem diferentes níveis de energia, existem diferentes níveis de limites, é da natureza da vida.

3) O conhecimento tem vários estágios. Primeiro não sabemos que não sabemos. Depois, sabemos que não sabemos. Quando a gente sabe muito, até esquece, pois faz tudo automaticamente. De onde vêm esses insights súbitos que temos? Por exemplo, saber ou conhecer algo que nunca havíamos visto antes?

Roshi – Isso também vem da correnteza de causa e efeito. Quando se reunirem as condições para o insight, ele acontecerá.

4) Voltando ao exemplo do café. O café que trouxe sensações boas por estar relacionado com coisas boas, ou o contrário? Como isso repercute no futuro? Por exemplo, em vinte anos se eu sentir o cheiro do café isso me trará boas ou más recordações? Como lidar com situações tão distintas para evitar o sofrimento?

Roshi – Isso é sobre o sofrimento ou sobre o café? Você sabe a resposta não é? Apenas observe, sem comparações, sem considerações, sem julgamentos. Memórias trazem muitos apegos, muitas energias associadas às coisas trazidas pela memória. Se você livrar-se dos apegos obtém a liberdade.

** Comentário do tradutor, Monge Genshô – existe uma historinha Zen, uma anedota, o aluno pergunta para o mestre: “Mestre, como posso ser livre?”, e o mestre responde: “Quem te prendeu”?

Sob ponto de vista relativo, minha opinião, minhas idéias e meu corpo existem. O senso de eu, meu e minha do ponto de vista de Buda são projeções do eu, é o eu quem agrega essas coisas. Todas essas coisas são criadas condicionalmente. Meu carro, minha casa, minha esposa, minhas filhas, todas essas coisas existem cem por cento no mundo relativo. Mas nada disso você pode segurar porque do outro lado é como se fosse um espelho, as coisas aparecem e somem e o espelho não diz nada, nada julga. Nós usamos simbolicamente a palavra espelho, mas o espelho também não existe independentemente, também é uma construção, tudo isso realmente existe, mas se você cortar a raiz do conceito, tudo bem. Qual a raiz dos problemas, das coisas ou sentimentos? Se você encontra a raiz e corta, passa a não mais se importar se perder as coisas, perder um amor, ou até mesmo um sentimento de sofrimento não o agride mais. A raiz é o apego, o meu, o minha.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Chegando a outra margem


 (continuação)
Saikawa Roshi: - O ensinamento de Buda é sobre a realidade além de nossas atividades mentais. A filosofia ocidental funciona somente com atividade mental e dualismo, branco e preto, ganhar e perder, isso é muito limitado. Com palavras e linguagens só podemos pensar de uma única forma. Buda se comunicava com palavras ininteligíveis para os seres normais, ensinava sobre grandes coisas, não o que está visível para nós, em frente aos nossos olhos, mas coisas impensáveis. No lugar de algo linear com começo e fim, temos um círculo onde em cada ponto é começo e fim. De um lado da moeda temos esses ensinamentos impensáveis, do outro temos a dualidade da vida diária. Se vocês começarem a pensar com um lado e o porquê de nascerem assim ou assado, não encontrarão a resposta, a realidade é que as coisas são como são. A resposta está aqui.

Os ensinamentos de Buda são sobre o outro lado da moeda, um ensinamento imensamente amplo. Em “MUKU SHU METSU DO” ele nega o fim das coisas, sem ignorância, sem fim da ignorância, sem velhice e morte, sem fim da velhice e morte, ele nega também as Quatro Nobres Verdades. Do outro lado da moeda essas coisas que são próprias do ensinamento budista também são negadas. Se você praticar poderá acabar com o sofrimento, pois ele tem uma causa e se existe uma causa ela pode ser eliminada, então mesmo isso ele nega ao dizer que não há sofrimento e nem fim do sofrimento. Dessa forma os Bodhisattvas seguindo a prática do Prajna Paramita, ficando com suas mentes livres ficam sem medo, sem obstáculos, além das delusões e podem atingir o nirvana, obtendo a sabedoria completa. Prajna Paramita é o grande mantra.

A parte final “GYA TEI GYA TEI HARA GYA TEI HARA SOWA GYA TEI” não aparece em muitas traduções, mas uma tradução é “eu fiz, eu fiz, eu atingi a outra margem, até o fim eu alcancei, viva”. Outra tradução é “juntos, juntos, vamos juntos para o mundo do nirvana”. Nessa tradução o título está no fim do Sutra e não no começo como é de costume. Como essa tradução é de um texto indiano, o título se repete no fim que é como é tradição nos textos Indus. (Fim)(continua com perguntas e respostas do mestre)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Eu sou vida, vida não nasce, só continua


 (continuação)
Saikawa Roshi: -  A parte do Sutra “Fu-sho Fu-metsu, Fu-ku Fu-jo, Fu-zo Fu-gen”, significa que nesse mundo do Dharma nada surge ou desaparece, nada é puro ou impuro, nada cresce ou diminui, como eu falei antes, o mundo é como é e vai além de nossas estimativas ou julgamentos. Todo o universo é assim, não surge nem desaparece, só se transforma, a energia fundamental é a mesma.

Na próxima parte do Sutra aparece algumas vezes a expressão “MU”, os cinco skandas são um, ou seja, não há sensação, percepção, conceituação etc., não existem também os sentidos, tato, visão, audição, paladar, olfato e também a mente, nem corpo, nem forma, nem conhecimento, nem cor, cheiro ou sabor. “MUMYO” é então o mundo da delusão, logo, na parte “MUMUMYO”, ele nega a existência da delusão. Na minha interpretação, esse “mu” é como se estivéssemos usando um espelho, tudo que aparece, mesmo esse som (bate na mesa) é refletido, sem preferência ou julgamento. Da mesma forma, não importa se você gosta ou não de todas essas sensações, elas surgem e desaparecem. Esse som (bate na mesa) agora existe, mas no segundo seguinte não existe mais, para onde foi? A atividade mental também é assim. Aquilo que pensamos ser real e que agarramos desaparece em instantes. Ao mesmo tempo que ele diz que não existe delusão, a delusão não tem fim, porque a existência dos seres humanos depende da delusão. Não há delusão mas não há como ficar além da delusão, porque nascemos como seres humanos e os seres humanos precisam de palavras e linguagens como uma ferramenta para pensar e resolver problemas.

A realidade é que não nascemos, mas usamos expressões como “eu nasci em tal dia e tal mês de determinado ano”. Mas eu sou vida e vida não nasce, vida só continua, então eu sou uma continuação de meus pais que são uma continuação de seus pais. Eu não nasci. Uma única molécula não possui vida, mas combinadas podem formar uma célula, porém não existe uma linha clara separando vida de não vida. Do ponto de vista de uma mente ampla, todo o universo tem vida, porque não podemos dividir, não há fronteiras, logo, um nada existir é o mesmo que tudo existir. Forma é vazio e vazio é forma, é o mesmo que dizer branco é preto e preto é branco, nada é tudo e tudo é nada.
(continua)

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Tradução para o inglês do livro "O Pico da Montanha é onde estão os meus pés"

Traduzido por L. James Gross 

“Shari, você entendeu? Forma é vazio, vazio é forma”


 (continuação)
Saikawa Roshi: -  Neste Sutra Shakyamuni Buda está falando para seu discípulo Shariputra sobre o Bodhisattva da Compaixão, Kanon. Em algumas traduções Kanon aparece como “Kanjizai Bosatsu” ou “Kanzeon Bosatsu”. “Kan” significa observação, “Kanzeon” significa observação dos lamentos do mundo.

Os lamentos do mundo podem ser as orações, os pedidos, as vozes do mundo. Em outra tradução, “Kanjizai, Jizai” é livre, então, Kanjizai Bosatsu é o Bodhisattva que observa a libertação desse mundo.

O Bodhisattva Kanon diz que praticando profundamente, viu o vazio dos cinco agregados, essas cinco condições ou agregados dizem respeito ao corpo e mente. Porque estamos falando sobre corpo e mente? Porque da cabeça aos pés nós criamos sofrimento. Muitos dos Sutras têm Shakyamuni Buda falando sobre corpo e mente. Seiscentos volumes do Praja Paramita também falam sobre corpo e mente. Esses cinco agregados dividem o corpo e a mente em quatro e em cinco maneiras de analisar a mente - sensação, conceituação, discriminação, consciência e formações mentais. Numa outra forma de analisar, não há olhos, ouvidos, nariz, língua, tato e mente, nesse caso o corpo é dividido em cinco partes ou sentidos e a mente, portanto seis sentidos, diferente da primeira interpretação que cita o vazio dos cinco agregados.

O vazio é como se transplantássemos nossos órgãos, qualquer pessoa pode receber um órgão nosso se houver compatibilidade. Na vida diária dizemos meu corpo, meu coração, meu sangue, mas se fizermos um transplante de órgãos, estes deixarão de ser nossos. As expressões meu sangue, meu corpo e minha pele são condicionadas pelo uso, não são expressões verdadeiras. Da cabeça aos pés tudo é sem fronteiras. As pessoas não conseguem entender que tudo que elas chamam de “meu” é recebido dos outros, nada é realmente seu, mas, coisas como “minha preferência”, “gosto disso e não daquilo”, também é condicionada, por exemplo, quando experimentei café pela primeira vez eu estava amando, o gosto era delicioso, então hoje eu adoro café. Mas se eu tivesse experimentado café pela primeira vez em uma situação em que tivesse perdido um amor, com certeza o gosto do café teria sido horrível, teria sido um gosto amargo como a vida.

A preferência é uma coisa muito condicionada. Não fui eu quem decidiu, as situações ao meu redor condicionaram minha impressão. Não somente café ou chá, mas muitos pensamentos, idéias e tendências de pensamentos vêm de fora. Não saíram de mim, eu recebi através da televisão, jornais, experiências e conversas com outras pessoas. Mas o que fazemos é dizer “minha opinião”, “minha idéia”, mas isso não é verdade e muda muito. Se você dá sua opinião ou idéia para os outros hoje, amanhã elas podem mudar. Nossa mente e nosso corpo também são sem fronteiras.
Observando essas coisas Kanzeon Bodhisattva livrou-se de todas as dores e sofrimento. E Buda diz para Shariputra - “Shari, você entendeu? Forma é vazio, vazio é forma”. Assim também todas as coisas o são, concepção, discriminação, conceituação, percepção, todas são vazias.

**Comentário do tradutor, Monge Genshô – O que o Roshi está querendo explicar é que vazio significa que nenhuma destas coisas, concepção, discriminação etc., possui um “eu” inerente, nenhuma coisa é sua ou de alguém, o coração também não tem um “eu”, pode passar de corpo para corpo e funcionar em outros corpos, por isso esse coração é vazio, vazio de que? Vazio de um “eu” inerente.
(continua)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Sutra do Coração da Sabedoria


Pirogravura realizada por Cassio Dias, Saikawa Roshi à esquerda.


Saikawa Roshi: Durante o zazen eu falei um pouco sobre o Sutra do Coração da Sabedoria. Sei que alguns de vocês estão fazendo sesshin (retiro) pela primeira vez e outros são bem mais iniciantes no Zen, por isso eu gostaria de falar sobre esse texto básico. No título “Maka Hannya Haramita Shingyo”, “Maka” significa grande, mas não como oposição a pequeno.

Quando falamos em “grande” no Budismo, estamos nos referindo ao infinito, sem fronteiras, sem limites. “Hannya” é o mesmo que “Prajna” que significa sabedoria, mas não a sabedoria da vida diária. Na vida diária uma pessoa sábia é uma pessoa que parece ter bastante conhecimento e é muito inteligente. No budismo sabedoria é saber como somos no momento presente, você abrir seus olhos e perceber-se um com todo o universo. Isso é sabedoria para o budismo.

Os ouvidos podem ser um com o som, o nariz pode ser um com o aroma, a língua pode ser um com o sabor, não importa se você gosta ou não, seja um. O corpo pode ser uno com o suave, duro, quente ou frio e a atividade da mente também pode ser uma com tudo que aparece, esse tipo de percepção é chamado de sabedoria, é “Prajna”. 

“Paramita” significa ir para o outro lado, a outra margem. Historicamente esse lado e o outro lado são uma representação simbólica. O outro lado é o nirvana. O caractere para “Shingyo” é mente, mas pode ser lido de outras maneiras e, portanto ter outros significados como, por exemplo, essência.

O Sutra “Hannya Shingyo” é normalmente traduzido como o Sutra do Coração, mas na verdade eu traduzo como o “Sutra da Essência da Coleção dos Sutras do Prajna Paramita”. O Sutra Prajna Paramita é uma coleção de seiscentos volumes. Aquele Sutra que eu recitei na purificação do Dojo é o quinquagésimo septuagésimo oitavo (578°) Sutra. O Sutra do Coração fala sobre a essência de passar para o outro lado.

**Colocação do tradutor, Monge Genshô - “O Roshi (venerável mestre) está explicando que os ideogramas têm muito mais significados em cada símbolo do que lemos na tradução, então, quando lemos em português o “kanji Shin”, temos que entender que por trás da tradução simples que fazemos, no caso mente, existem outras possíveis como sentimento, coração, essência etc., logo, o sutra quando lido no seu original com ideogramas, tem mais interpretações do que em um idioma fonético.” (continua)

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sabedoria é melhor que crença.


Pergunta – Quando estamos sentados meditando e acontece, como o senhor falou, um sonho, isso seria um estado de transe?

Monge Genshô – Não, é dormir mesmo.

Pergunta – Mas pode?


Monge Genshô – Não, não é para dormir quando se medita. Mas naquela ocasião estávamos vinte e quatro horas sem dormir, sentando em zazen e levantando para meditação andando e isto ocorre naturalmente.

Pergunta – O Budismo acredita em espíritos?

Monge Genshô – O Zen Budismo não é a religião do acreditar.

Pergunta – Mas acredita em vidas passadas.

Monge Genshô – Mas não do mesmo eu. O Zen Budismo não é a religião do acreditar. É a religião do despertar das ilusões. Você não é obrigado a acreditar em nada, nem no que eu digo. Você pode, através do treinamento da meditação, testar se o que eu digo serve ou não para você. Através deste treinamento você pode adquirir sabedoria e isso é muito melhor que qualquer tipo de fé.  O que desejamos no Zen é saber.

Pergunta – Minha pergunta é em razão do carma...

Monge Genshô – Carma é ação e consequência, tudo que você faz tem uma consequência. Isso afeta não somente essa como quaisquer vidas que venham depois. Essas vidas que vêm depois não serão você, pois não existem almas ou espíritos. Muito menos “eus” permanentes, aliás, nada existe de permanente.  ( Final das perguntas em palestra em 2013, Florianópolis, decupada por Chudô San)

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sonhos


Pergunta – Segundo Cassirer, o homem é um ser simbólico e Sartre diz que somos livres. O Zen de certa forma fala a mesma coisa quando, por exemplo, o senhor fala do carma e de quanto somos capazes de mudá-lo. O senhor poderia falar um pouco sobre essa nossa liberdade de poder fazer diferente?

Monge Genshô – Somos aparentemente livres. Temos a capacidade de mudar nosso carma, mas na prática o que acontece é que somos arrastados por ele e não mudamos facilmente. A maior parte do tempo somos arrastados pela corrente. É claro que uma pequena decisão tomada hoje, dentro de um fluxo de tempo de dez anos pode gerar uma mudança muito significativa. Mas essa é uma liberdade aparente. Veja o exemplo de Jikiho San, há cinco anos quando ela começou a frequentar a sangha ainda se chamava Bia a chef e, tenho certeza, não esperava que sua vida fosse tomar o rumo que tomou. De pequenas em pequenas decisões ela hoje está de malas prontas para ir treinar em um mosteiro Zen no Japão como monja noviça. Nós temos a capacidade de mudar nosso carma, dá trabalho, mas é possível.

Pergunta – O senhor falou dos sonhos como uma ferramenta, poderia falar sobre os sonhos lúcidos?

Monge Genshô – Com o treinamento da meditação você se tornará cada vez mais capaz de influir nos seus sonhos e até mudá-los. O próprio conteúdo dos sonhos vai mudando conforme sua prática fica mais constante. Eu tenho muitos sonhos Dhármicos. Estou tão envolvido com isso que sonho que estou falando sobre o Dharma. Estou tão envolvido com o Dharma que é com isso que alimento minha mente e desta forma meus sonhos giram muito em torno disso.

Há alguns anos quando eu viajava muito de avião e era comum ter sonhos que o avião estava caindo e esse era um momento de grande angústia. Em uma ocasião estava em Congonhas tinha uma passagem  da TAM, para o vôo 1792, lembro até hoje, um cliente me ligou pedindo que eu fosse vê-lo em Suzano. Como ele disse que era importante, fui até Suzano. Quando cheguei lá esse cliente estava na calçada do Diário de Suzano e me disse: “Soube o que aconteceu? O avião da TAM caiu, morreram todos”. Guardei aquela passagem muito tempo como uma lembrança. Por isso eu tinha sonhos com desastres de aviões, mas um dia em um sonho desses eu estendi a mão para um amigo e sorri, me veio então uma sensação de tranquila felicidade e a partir deste dia meus sonhos mudaram. Os sonhos podem ser um bom instrumento para você testar a qualidade de sua prática. Se você em um sonho, em vez de brigar com alguém, você o perdoa, isso é maravilhoso, pois você mudou a raiz do seu inconsciente. Acordado você poderia pensar que está mentindo para si mesmo mas se acontece no sonho, serve para alertá-lo que não é falso, realmente a prática esta funcionando.