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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O Movimento Mahayana (Parte 03)



Daí surge um Sutra muito importante que é o Sutra de Vimalakirti, que é sobre um comerciante. Esse é um Sutra do Séc. I e marca o momento em que o budismo mahayana se distancia do movimento anterior, porque transforma em herói, em iluminado, em melhor que os monges, um comerciante. O Sutra diz que todos podem ser Bodhisattvas, inclusive os deputados, senadores, etc. Se quiserem, se tiverem a conduta adequada podem ser Bodhisattvas e beneficiar todos os seres. Não é intrínseco ao papel de leigo uma dificuldade, mas o que importa é a sua atitude.

Vimalakirti diz aos discípulos de Buda: “meu mosteiro é na cidade, o seu é na montanha, mas o meu é lá onde estão as pessoas que precisam de dinheiro e de comida, é lá que eu trabalho”. Ao fazer isso, ele acusa implicitamente os discípulos de Buda, os monges, de serem parasitas sociais e de estarem apenas recebendo da comunidade sem alimentá-la, sem retribuir a ela com o seu trabalho, o que é diferente do que ele faz. Esse é o grande momento do Sutra.

Então é um Sutra combativo na sua declaração, e depois dele vem uma conciliação, através do Sutra do Lótus, que tenta acalmar essa situação dizendo que os monges têm um papel, que os leigos têm outro papel e que nós podemos conciliar isto. Esse Sutra também se torna muito importante dentro do movimento mahayana.


A essência de tudo isso que estamos falando é de que a prática budista é possível dentro do mundo, dentro do trabalho, e isto é uma marca da nossa própria comunidade budista Daissen-Ji, porque eu mesmo, que a fundei, ainda trabalho hoje. Trabalho como monge e trabalho como consultor de empresas para poder viver, então não vivo do que a sangha dá, e sim baseio a minha sobrevivência num trabalho profissional. Estou inserido no mundo, então o nosso modelo é o de Vimalakirti, esse grande personagem deste Sutra histórico.

Ao mesmo tempo, nós tentamos conciliar o trabalho dos monges com o trabalho dos leigos, que é um trabalho importantíssimo, porque sem os leigos nós não conseguimos fazer as sanghas funcionarem. Os monges são muito poucos dentro de um modelo como esse e isso exige um enorme sacrifício, que é o de trabalhar duplamente.
 



[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Movimento Mahayana (Parte 02)



O ideal anterior era o Arhat, aquele que ilumina a si mesmo, como um asceta que vai para a montanha, medita, liberta-se, morre e está liberto. Derrotou todos os inimigos e todas as paixões. Mas isso é para ele.

O mahayana tem outro ideal: o ideal do mahayana é o Bodhisattva, não é o Arhat, não é o herói solitário. O ideal do mahayana é o barqueiro, aquele que transporta os outros de uma margem para a outra no rio da ignorância, que atravessa o rio para a margem da sabedoria. Por isso “maha prajna paramita”. “Maha” quer dizer “grande”. “Pranja” quer dizer “sabedoria”. “Paramita” quer dizer “da outra margem”. E esse é o título de uma importante coleção de Sutras.

Os Sutras Prajna Paramita são aproximadamente 600. Nenhum deles é do tempo de Buda, todos eles são posteriores, portanto não entram na coleção do cânone das escolas fundamentais, mas entram em todo o movimento mahayana que se espalha pela China, Japão, Tibete e ocidente agora.

O ocidente é produto deste grande movimento que se volta para os leigos e diminui o papel dos monges. Como? Dizendo que os leigos podem se iluminar da mesma forma que os monges, quando a ideia anterior para um leigo era: “eu apenas dou comida para um monge, numa próxima vida talvez eu venha a ser monge e possa me iluminar, enquanto nesta vida sou só um leigo, no máximo eu posso apoiar a sangha budista”.

Por isso, no conceito da escola Theravada, por exemplo, que é a única sobrevivente que se baseia no canon páli, sangha é só a sangha dos monges. Você se apoia na sangha dos monges, enquanto que todos os outros grupos não são sangha. Já no Zen a gente diz “a sangha” para toda a comunidade e não só para os monges, então incluímos os leigos. Essa grandes distinções marcam essa diferença entre um momento do budismo, o momento em que a sangha dos monges era a mais importante, para o momento da expansão do papel dos leigos e do seu crescimento.

(CONTINUA) 

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]