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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O Mestre não lhe dá nada








Buda havia transmitido a Mahakashyapa uma compreensão superior, um entendimento além das palavras. Diz-se então que o Zen é uma transmissão além dos textos e das palavras, porque as palavras não têm a capacidade de transmitir verdadeiramente uma experiência.
Portanto, o budismo é experiencial: em vez de você explicar algo para uma pessoa, é necessário que ela prove e experimente. Não se trata em absoluto de acreditar nas palavras do mestre, pois elas são meros guias. O que um mestre pode fazer? Ele pode dizer: “olha, na minha experiência as coisas funcionam assim e assim, o caminho é este, você tem que seguir por aqui, haverá curvas e pedras, é melhor você levar um calçado bom para caminhar por causa do terreno, leve um cantil com água, aí quando você chegar no fim dessa trilha tem uma fonte de água pura, límpida e você pode beber”. Mas o mestre não pode caminhar na trilha para você, não pode ver a paisagem por você, não pode sofrer as agruras do caminho por você e não pode beber a água da fonte por você. 
Então, no fundo, um mestre não pode dar nada a você além de contar da sua própria experiência. É por isso que as linhagens de transmissão no budismo são sutilmente diferentes uma da outra - elas enfatizam a experiência daquele mestre. Essa nossa linhagem aqui, a linhagem de Saikawa Roshi, é uma linhagem que enfatiza a experiência da iluminação. É isso que é importante para nós. Não são os rituais, não são as roupas, nada assim. O que nós temos que transmitir é o caminho do despertar.

[N.E.: trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

As Falsas Iluminações




Gostaria de falar sobre o caso da transmissão de Shakyamuni Buda para Mahakashyapa, que historicamente inaugura o Zen.  Mahakashyapa, portanto, foi o primeiro patriarca.

Em certa ocasião, o Venerado por Todo o Mundo - uma maneira de se referir a Buda - levantou uma flor e pestanejou. Surgiu um sorriso no rosto de Mahakashyapa, e então o Venerado disse:

 - Tenho comigo o tesouro do olho do verdadeiro Dharma e a maravilhosa mente do nirvana, e o transmiti a Mahakashyapa.

Em outras versões desta história, Buda levanta a flor, Mahakashyapa sorri e Shakyamuni Buda diz: “Mahakashyapa foi o único que entendeu”. E isto é a certeza de Buda sobre a realização espiritual de Mahakashyapa, a certeza de que Mahakashyapa já havia se iluminado. 

Então, essa questão da transmissão, que é o cerne dessa palestra de hoje, é que a transmissão é um reconhecimento, por parte do mestre, da realização espiritual do aluno. O mestre não dá a transmissão, ou dá a iluminação a um aluno. Não é isto. O aluno tem que trabalhar sozinho, sentado na sua almofada negra. Ele tem que trabalhar, fazer a sua mente como eu descrevi ontem, naqueles passos de samadhi, kenshô e satori, e quando ele atinge alguma compreensão ou tem alguma experiência significativa, ele vai até o mestre e mostra, descreve a sua experiência. E cabe ao mestre chancelar ou não; dizer: “ah, isto é só ilusão”, ou “isso é fisiológico”, ou qualquer coisa assim. 

Uma vez Moriyama Roshi contou-me que estava sentado em zazen no monastério e viu nascer uma flor na frente dele. Nasceu uma flor na frente dele e ele: “estou iluminado”.  Foi até o mestre, na época. Contou para ele a história, e o mestre gritou com ele: “seu idiota! Vá embora daqui com sua ilusão! Volte lá para o seu zafu!”, e o mandou embora, porque era uma fantasia dele; isso não é experiência espiritual. Às vezes, algumas pessoas vêm me contar que viram na parede manchas coloridas, etc. e tal, e eu digo: “cansaço na retina... Você cansou os olhos, e, quando muda o olhar de um lugar para o outro, vê manchas coloridas. Isso não é nada senão os seus olhos cansados; não é coisa alguma.

N.E.: transcrição de palestra realizada por Monge Genshô Oshô em Florianópolis, novembro/2016. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

ALÉM DAS PALAVRAS


Pergunta – O Zen é meditação, certo? Ele é um corte, axiológico do próprio budismo. Só que ele tem um caminho próprio dele, o senhor falou aí no aspecto da ortodoxia. Inclusive o Zen é uma divisão, e o senhor fez uma analogia entre o judaísmo e o cristianismo, só que o cristianismo tem um livro próprio, e seus próprios princípios cristãos, que foram escritos, etc, então porque o Zen ainda é indexado ao budismo, se ele manteve a linha própria dele?  Porque ele tem fundamentações para andar sozinho. O Senhor mesmo colocou que os papéis são simplesmente coisas explícitas, escritas, e o tácito, o não escrito, é a base do Zen, então porque o Zen Budismo, não é somente o Zen?

Porque o Zen, do ponto de vista do Zen, é budismo. Eihei Dogen, fundador da nossa escola no Japão disse: isso é budismo, esses são os ensinamentos de Buda. Quando Buda ensinou, ele não escreveu textos. Os textos só foram escritos 3 séculos depois da morte de Buda por compilação de memorização oral, embora muito cuidadosa. Aliás, esses grandes líderes espirituais do passado, têm essa semelhança.  Cristo também não escreveu nada. Os evangelhos foram escritos décadas depois da morte dele em língua diferente da que ele falou, praticamente todos eles foram escritos em grego.

O budismo diz que o Zen consiste na transmissão de Buda para Mahakashiapa, porque ele levantou uma flor, numa assembleia sem dizer uma palavra e Mahakashiapa sorriu, e então ele disse: “Mahakashiapa foi o único que entendeu” o verdadeiro ensinamento, a verdadeira transmissão, é uma transmissão além das escrituras.

O Zen tem muitos textos? Tem, mais que qualquer outra escola. Os professores estão sempre falando? Sim, sempre falando, e dando palestras. Eu perguntei para meu mestre, “por que falamos tanto”? E ele disse: “porque isso é tudo que nós temos”. Não temos outra maneira de transmitir, além da palavra, dos livros, dos ensinamentos. Então o Zen quer dizer: “nós somos o ensinamento, aquele de Buda para Mahakashiapa”.

Surgiram muitas escolas, dos mais variados tipos, elas têm sentido? Tem, porque as pessoas são diferentes. Há pessoas devocionais, há pessoas estudiosas, há pessoas que querem se remeter ao significado das palavras originais, todas essas escolas têm suas virtudes. O Zen também tem suas virtudes ao querer voltar à prática original de Buda - Buda sentou em zazen, então nós vamos sentar em zazen. Se Buda sentou nessa postura, então vamos sentar nessa postura, porque nós vamos imitar Buda. Essa é a essência do Zen. Mas ela serve para todo mundo? Não, não serve para todo mundo. As escolas budistas são necessárias porque as pessoas são diferentes. As outras religiões também são necessárias, porque as pessoas são diferentes. Existem pessoas que precisam trilhar aquele outro caminho, e por isso essa diversidade não é pobreza, é riqueza.

Porque o Zen precisaria seguir o seu caminho, afinal de contas cada mestre segue o seu, os alunos seguem o mestre que querem! Então já existem múltiplos caminhos, certo?