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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Voltaremos para onde nos sentimos atraídos
4) Mas nesse caso a vergonha não estaria no ato de matar o cachorro em si, mas sim na condição que leva o homem a matar o cachorro? O quanto ele foi rejeitado e abandonado até chegar a essa condição? Onde entra a compaixão nisso?
Monge Genshô – A compaixão nasce justamente de sair de dentro de si e sentir como o outro se sente. Sobre a notícia, a revolta era pelo fato de terem matado cães e gatos e tem esse lado especista de colocar uma espécie como privilegiada. Cães não são melhores que bezerros. Algumas pessoas se sentem horrorizadas porque em alguns países se matam cães para comer, e dai? É só uma questão cultural. Para cultivar a compaixão é necessário que a pessoa saia de si e veja como o outro, homem ou animal, se sente. Existem sofrimentos tão inimagináveis no mundo que tornam os nossos absolutamente tolos, claro, se conseguíssemos vê-los. Vocês conseguem imaginar o que acontece em um país como a Síria? As notícias não são de pais que enterram filhos ou esposas que enterram maridos, são números, "morreram cinco mil pessoas em bombardeios". O sofrimento é tão grande que não pode ser individualizado, é olhado como estatística. É mais ou menos o que acontece no Brasil, onde ocorrem cento e quarenta assassinatos por dia. Todos os dias cento e quarenta famílias lidam com a morte de alguém. Uma pergunta que devemos fazer é: “que tipo de vida vivemos e que mente tivemos para virmos nos manifestar em mundo como esse”? Estamos aqui porque fomos atraídos por nossos impulsos e desejos. Só há uma maneira de sair desse mundo, mudando o carma, caso contrário voltaremos sempre para cá, para onde nos sentimos atraídos.
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sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Treinados para ter um eu
2) Continuando nessa linha do sofrimento, o sofrimento físico está de certa forma dentro do esperado e estou conseguindo suportar, mas o que está me afligindo mais é a mente. O que posso fazer para apaziguar esse turbilhão?
Monge Genshô – Volte sempre para cá. Ouça o barulho do mar, os pássaros e cada vez que sua mente viajar volte para cá. Não há nada lá fora e se você repetir isso mil vezes a cada instante que ela viajar para passado e futuro, ela acabará se acalmando. Você pode passar o sesshin inteiro pensando no que faria com o dinheiro da loteria, mas estará jogando fora uma ótima oportunidade de obter clareza. Isso é só uma fantasia sobre o futuro, você pode acalentar fantasias sensuais durante cada zazen o sesshin inteiro, isso se chama naraku* zazen. Naraku é inferno, zazen dos infernos, inferno não no sentido Bíblico de céu e inferno, mas significando desordem, balbúrdia, agitação. Você mergulhado em imaginar prazeres vai perder seu zazen. Isso é um enorme desperdício de tempo, dinheiro e sofrimento, pois você investiu tudo isso para vir ao sesshin e uma vez sentado permite que sua mente viaje para futuro e passado. Volte sempre para cá.
3) Gostaria de entender melhor sobre o ego, como ele nasce? Sinto que às vezes estou conseguindo ir fundo no zazen e de repente algo me puxa de volta, acredito que esse algo seja o ego, como funciona isso?
Monge Genshô – Somos treinados para ter um ego e necessitamos dele para operar no mundo. É como uma fantasia que vestimos para podermos transitar pelo mundo, ele é necessário. Veja por exemplo essa fantasia que estou usando, um manto, uma ordenação de Monge, um título de Sensei, o que é isso tudo senão uma construção? Não é uma realidade dentro de si mesma, está apenas operando dentro de uma cultura, a cultura do Zen, inseridos nessa cultura podemos operar como professor, Monges, noviços ou leigos. Isso é uma soma de agregados que são construídos desde a primeira infância quando nossos pais nos ensinam a linguagem e junto vem o “eu”. É preciso dizer “eu tenho fome”, “eu tenho sede”, então desde a infância existe uma identificação com algo abstrato chamado “eu” e que é ensinada pelos pais. Mesmo os animais têm essa identificação, pois sentem medo, paixão, ciúmes.
A linguagem é uma maravilhosa ferramenta e ao mesmo tempo em que aprendemos que temos um “eu” e aprendemos o oposto das coisas, certo e errado, também a linguagem permite que ensinemos o Dharma, ou seja, desconstruir tudo e permitir que você entenda que tudo não passa de uma construção de sua mente. A resposta à sua pergunta é que o ego é construído paulatinamente através de ferramentas poderosas e é essencial para operarmos no mundo. Por isso ele é um obstáculo tão gigantesco, pois a cada momento que desejamos operar no mundo sem isso e com uma noção maior de unidade de todos os seres, temos dificuldades, pois estamos voltados para nós mesmos, para nossos umbigos. Temos que olhar para fora e perceber o sofrimento das outras pessoas. Estamos tão auto-focados que não percebemos o que sentem as outras pessoas.
O ego é também uma maneira de não enxergarmos mais o mundo e não compreendê-lo, pois olhamos só para nós mesmos. Como funciona a mente de um psicopata ou estuprador? É uma mente que não enxerga o outro e seus sentimentos. Ele não vê na sua vítima um pai de família, uma criança ou uma pessoa incapaz de se defender e tão pouco percebe o sofrimento que está causando. Isso é percebido pelos homens, não é verdade? Todos percebem a doença dessa pessoa, mas a sociedade ainda está cega para o sofrimento de outros seres ignorando-os completamente, uma atitude claramente especista.
Vi outro dia uma notícia de pessoas escandalizadas, pois moradores de rua haviam matado cães e gatos para comer. Mas qual a diferença de matar um cão ou gato para comer e matar um boi, porco, galinhas ou peixes? Não existe diferença. O que acontece é que queremos privilegiar uma espécie que pensamos ser amiga do homem. É perfeitamente legítimo que uma pessoa morrendo de fome na rua mate um cão para comer. Ele não é diferente de vocês que vão ao açougue comprar um pedaço de boi ou porco para comer. São cegueiras humanas, pois estamos centrados em nós mesmos e não vemos o sofrimento dos outros seres.
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