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terça-feira, 2 de dezembro de 2014
O sexto preceito
6. Eu decido não falar sobre as falhas de outros, mas sim ser compreensivo e solidário.
Este preceito deriva de nossos esforços para construir harmonia social e compreensão mútua. Declarações falsas e maliciosas, por sua própria natureza, são atos de alienação que originam-se de uma percepção ilusória de oposição entre “eu” e “outros”. Geralmente a injúria traz como consequências a dor para os outros, e a fragmentação para a Sangha. Quando surgir a intenção de injuriar, esforçar-se para compreender as raízes deste impulso.
De: http://monjaisshin.wordpress.com
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Boas intenções
Pergunta: Mas seria negativo, por exemplo, na hora que sentamos pensarmos assim: “Aqui e agora me sento em meditação em benefício de todos os seres.” Ter uma intenção?
Monge Genshô: Isso não é zazen. Não é que seja uma coisa ruim você fazer uma dedicação assim, mas, não é zazen. “Estou sentado em benefício de todos os seres”. “EU” estou aqui, beneficiando os “OUTROS” seres. Que sujeito maravilhoso que eu sou! Compassivo, eu sou extraordinário! Beneficiando todos os seres! Depois eu me levanto e vou comer um frango (risos).
Interessante. Isso não tem muito sentido. Então, melhor que você se esvazie. Se tiver que comer o frango, então teria que não ter nenhum pensamento de frango. Teria que ser só alimento ali, mais nada. Onde se introduzir qualquer pensamento do tipo, “ah, este é outro ser, ah, mataram para mim, ah, como é que foi a morte dele?”, aí está tudo perdido, porque você colocou tudo ali, todos os seus conceitos, então vai ficar impossível. Esse ato só é possível quando não há pensamento. Quem realmente pensa, não pode. No sesshin, o que a gente faz? A comida não tem carne, é vegetariana, mas, se você pensa “comemos aveia de manhã”, mas quando a aveia foi cultivada, muitos seres foram mortos. Então, está cheia de sofrimento a comida que você come. Cheia. Foram colocados agrotóxicos, a terra foi arada, minhocas foram partidas ao meio, etc e tal. Tem muito sofrimento em tudo o que você faz. Então você tem que dedicar e comer, como dizemos, “inumeráveis esforços para que esse alimento chegue até nós”. Você tem que saber que é assim. Deveria ter imensa gratidão e reverência por tudo o que aconteceu para que tivesse na sua frente aquele alimento. Mas você não vai conseguir comer sem causar sofrimento, sem matar. Não vai conseguir. Disso nós temos que estar conscientes.
Nós, esses corpos, somos corpos de predadores. Nós não somos esses seres maravilhosos que nós pensamos. “Somos à imagem e semelhança de deuses.” Nós não somos. Nós somos predadores muito eficientes. Tudo que passou pela nossa frente na história da humanidade nós destruímos. Basta que surja o pensamento “diferente de mim”, e começa a destruição.
Vocês estão vendo no Iraque agora. É o mesmo povo, mesma raça, tudo igual. Mas um colocou o rótulo em si: ”eu sou sunita” e o outro: “eu sou xiita”. Então, agora é guerra civil. Na Ucrânia, a mesma coisa: “Eu sou russo, eu sou ucraniano. Nós temos línguas um pouco diferentes”. Então, guerra civil. Por quê? Porque nossa tradição é matar o diferente, acabar com o diferente. Aqui não tem nenhum índio, né? Nós só temos descendentes de europeus aqui? Há sangue de índio misturado aqui. Eu também tenho. Mas, na verdade, o que os nossos antepassados europeus fizeram foi chegar aqui e eliminar os diferentes. Foi assim. Então vejam que isso está muito impregnado dentro de nós, e para que nós nos sentemos e tiremos de dentro de nós esse “eu” que se sente diferente, separado, é um imenso trabalho. Porque nossa civilização está construída em cima do extermínio do diferente.
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Carma, base do pensamento moral
Pergunta – Mas não existe alguma piora, como no caso da TV, por exemplo?
Monge Genshô – Isto é uma aparência, nós podemos analisar por outro ângulo também. Há apenas 100 anos atrás não existia eletricidade. Para ouvir música, você teria que ver um instrumentista tocar. A medida que nós criamos a eletricidade e os instrumentos eletrônicos, hoje podemos tocar e gravar música usando computadores, etc… Logo, muitos começaram a fazer música. Agora, o gosto geral não é bom, de modo que houve uma vulgarização, por ser um meio de acesso geral. Vou dar um exemplo mais flagrante. Antigamente você abria um jornal e lia as notícias. Uma agência de notícias, coloca a disposição de um jornal, por dia, centenas de notícias. Quantas notícias você vai publicar? Dez, doze, não muito mais que isso. De modo que o editor vai escolher as matérias que endossam a sua linha editorial. Ele não precisa mentir, apenas escolher. Publica-se aquilo que apóia o pensamento do editor. Agora temos a internet. Na internet, qualquer pessoa com um teclado pode escrever. Portanto, agora temos todo tipo de notícia, você abre a internet e vê o que está disponível. Sem editores, você não tem mais o filtro, ou seja, qualquer tolice ou mentira será publicada. Não era assim no passado? Era, mas não existia a disponibilidade de colocar isso na mão de todos. Hoje temos bilhões de novos textos todos os dias na internet. Conclusão: a humanidade sempre foi medíocre, o que acontece é que agora a mediocridade ganhou voz.
Hoje temos 200 a 300 canais de TV, mas com tudo isso temos a sensação de não ter nada para assistir. Temos que filtrar muito bem algo que não apele para os sentimentos médios, que são baixos. As pessoas dizem “a culpa é da mídia, que divulga apenas crimes”. Quando eu era diretor de um jornal do RS, nós fizemos uma pesquisa. Qual a página mais lida do jornal? Horóscopo. Quais as matérias mais demandadas? Polícia e Futebol. Qual a página menos lida? Editorial, com 4%. Porque você liga a televisão e não acha um concerto de alta qualidade para assistir? Os canais que disponibilizarem tal coisa não vão ter audiência. Por que os jornais e TV têm tantas matérias de criminalidade? Se você colocar algo deste tipo, várias pessoas vão ligar a TV para assistir e abrir o jornal para ler. Tendo sido um diretor na área, posso dizer que não é a mídia que dita o que as pessoas vão ler. Quem pauta o que as pessoas vão ler ou assistir algo é o público. Quando as pessoas assistem algo, dão ibope. Com ibope pode-se vender anúncios e isso dita o interesse da mídia.
Como os budistas devem agir? Os budistas devem mudar as próprias mentes. Se você mudar sua mente estará mudando o mundo. No dia que mudarmos nossas mentes teremos um povo diferente, com um comportamento diferente. Por acreditarmos no poder, no dinheiro como valores principais, nos tornarmos a sociedade que somos e nascemos aqui pois temos karma para isso. Há uma explicação para esta sociedade ser como é, a mania que temos de atribuir a outro (demônios, políticos, mídia, sistema econômico) é uma maneira fácil, como se o problema não fosse nosso. A culpa é sempre nossa. O que eu faço para que isso aconteça? Como geramos karma para nossos problemas acontecerem? Esta é a essência do nosso pensamento moral.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Satori
(continuação)
No entanto esta experiência "iluminada" se perde com grande facilidade e qualquer pequeno incidente faz com que ela desapareça. Por isso fazemos uma distinção entre o “kenshô” que é fugaz e a iluminação verdadeira que chamamos “Satori”. “Satori” é ter atingido um estado tal em que esta experiência está disponível sempre. Você pode chamar quando quiser e ela irá lhe invadir. Não que isso seja algo sobrenatural, apenas você aprendeu como fazer a sua mente se comportar daquela forma e quando você faz isso, se dissolvem as distâncias entre sujeito e objeto, entre “eu” e os outros ou entre mim e as coisas. Passa a existir uma identidade entre o “eu” e todas as coisas e é como se o “eu” tivesse desaparecido e essa sensação de totalidade e plenitude é profundamente feliz.
Essa sensação possui algumas características interessantes, como por exemplo, ao atingir esse estágio nenhuma pergunta fica sem resposta, não existem dúvidas, dissolvem-se as divisões sectárias entre religiões ou crenças onde todas parecem ter um aspecto apreciável e compreensível e por isso surge grande paciência, tolerância e compreensão. Nós praticamos zazen porque é a prática de nossa linhagem, que é focada na iluminação. Já falei algumas vezes que mesmo em nossa escola essa prática não é a mais comum, pois algumas pessoas estão focadas nas cerimônias e demais práticas formais, julgando ser isso todo o verdadeiro Zen. ( O dito "a prática é a iluminação" tem sido distorcido para significar que quem executa cerimônias está fazendo tudo e neste ato está vivendo a própria iluminação e de resto pode viver como quiser.)As práticas formais são técnicas ou métodos para despertar um espírito que facilite o surgimento desta percepção, mas esta exige um treinamento da mente e por isso treinamos uma forma de meditação que pode até ser desconfortável para o corpo, mas o despertar não virá sem este acesso. Não se trata de fé ou crença e sim de experiência, portanto tudo que posso lhes dizer é que testem e experimentem e, se vocês tiverem uma pequena experiência, saberão que a grande experiência é possível. Nosso foco é a grande experiência.
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sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Treinados para ter um eu
2) Continuando nessa linha do sofrimento, o sofrimento físico está de certa forma dentro do esperado e estou conseguindo suportar, mas o que está me afligindo mais é a mente. O que posso fazer para apaziguar esse turbilhão?
Monge Genshô – Volte sempre para cá. Ouça o barulho do mar, os pássaros e cada vez que sua mente viajar volte para cá. Não há nada lá fora e se você repetir isso mil vezes a cada instante que ela viajar para passado e futuro, ela acabará se acalmando. Você pode passar o sesshin inteiro pensando no que faria com o dinheiro da loteria, mas estará jogando fora uma ótima oportunidade de obter clareza. Isso é só uma fantasia sobre o futuro, você pode acalentar fantasias sensuais durante cada zazen o sesshin inteiro, isso se chama naraku* zazen. Naraku é inferno, zazen dos infernos, inferno não no sentido Bíblico de céu e inferno, mas significando desordem, balbúrdia, agitação. Você mergulhado em imaginar prazeres vai perder seu zazen. Isso é um enorme desperdício de tempo, dinheiro e sofrimento, pois você investiu tudo isso para vir ao sesshin e uma vez sentado permite que sua mente viaje para futuro e passado. Volte sempre para cá.
3) Gostaria de entender melhor sobre o ego, como ele nasce? Sinto que às vezes estou conseguindo ir fundo no zazen e de repente algo me puxa de volta, acredito que esse algo seja o ego, como funciona isso?
Monge Genshô – Somos treinados para ter um ego e necessitamos dele para operar no mundo. É como uma fantasia que vestimos para podermos transitar pelo mundo, ele é necessário. Veja por exemplo essa fantasia que estou usando, um manto, uma ordenação de Monge, um título de Sensei, o que é isso tudo senão uma construção? Não é uma realidade dentro de si mesma, está apenas operando dentro de uma cultura, a cultura do Zen, inseridos nessa cultura podemos operar como professor, Monges, noviços ou leigos. Isso é uma soma de agregados que são construídos desde a primeira infância quando nossos pais nos ensinam a linguagem e junto vem o “eu”. É preciso dizer “eu tenho fome”, “eu tenho sede”, então desde a infância existe uma identificação com algo abstrato chamado “eu” e que é ensinada pelos pais. Mesmo os animais têm essa identificação, pois sentem medo, paixão, ciúmes.
A linguagem é uma maravilhosa ferramenta e ao mesmo tempo em que aprendemos que temos um “eu” e aprendemos o oposto das coisas, certo e errado, também a linguagem permite que ensinemos o Dharma, ou seja, desconstruir tudo e permitir que você entenda que tudo não passa de uma construção de sua mente. A resposta à sua pergunta é que o ego é construído paulatinamente através de ferramentas poderosas e é essencial para operarmos no mundo. Por isso ele é um obstáculo tão gigantesco, pois a cada momento que desejamos operar no mundo sem isso e com uma noção maior de unidade de todos os seres, temos dificuldades, pois estamos voltados para nós mesmos, para nossos umbigos. Temos que olhar para fora e perceber o sofrimento das outras pessoas. Estamos tão auto-focados que não percebemos o que sentem as outras pessoas.
O ego é também uma maneira de não enxergarmos mais o mundo e não compreendê-lo, pois olhamos só para nós mesmos. Como funciona a mente de um psicopata ou estuprador? É uma mente que não enxerga o outro e seus sentimentos. Ele não vê na sua vítima um pai de família, uma criança ou uma pessoa incapaz de se defender e tão pouco percebe o sofrimento que está causando. Isso é percebido pelos homens, não é verdade? Todos percebem a doença dessa pessoa, mas a sociedade ainda está cega para o sofrimento de outros seres ignorando-os completamente, uma atitude claramente especista.
Vi outro dia uma notícia de pessoas escandalizadas, pois moradores de rua haviam matado cães e gatos para comer. Mas qual a diferença de matar um cão ou gato para comer e matar um boi, porco, galinhas ou peixes? Não existe diferença. O que acontece é que queremos privilegiar uma espécie que pensamos ser amiga do homem. É perfeitamente legítimo que uma pessoa morrendo de fome na rua mate um cão para comer. Ele não é diferente de vocês que vão ao açougue comprar um pedaço de boi ou porco para comer. São cegueiras humanas, pois estamos centrados em nós mesmos e não vemos o sofrimento dos outros seres.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Vencer os outros
Pergunta – Hoje está chovendo e muitas pessoas dizem que é um tempo feio. Isso simboliza mais ou menos o que o senhor estava dizendo, pois muitas vezes em nossas vidas as coisas não acontecem como se espera. Aceitar as coisas como realmente são é aceitar a imperfeição?
Monge Genshô – Essa noção de perfeito e imperfeito, bonito ou feio, certo ou errado, do ponto de vista do Zen não acontece. Só percebemos o bonito porque existe o feio. Eles são interdependentes e não estão separados. As coisas tais como são, são integradas. Dividir as coisas em certo e errado, bom e ruim, perfeito e imperfeito, implica em uma mente dualista.
Pergunta – Se tenho a intenção de fazer algo bem feito, mas não consigo realizar desta maneira, qual o julgamento disto?
Monge Genshô – O perfeito depende do imperfeito, não podemos pensar em perfeito, pois o perfeito tem dentro de si o imperfeito. É como o jardim bem varrido. A perfeição do jardim bem varrido está no fato de existirem algumas folhas caídas. É como alguém que não quer ter um gramado porque ele está sempre crescendo, tem que cortar a grama mensalmente, tem formigas, ervas daninhas, então para resolver esse problema ele manda cimentar o pátio, desta forma ele tem realmente um pátio perfeito. Horrível, mas perfeito.
Pergunta – Eu entendo que passa a ser totalmente mecânico, por exemplo, uma busca por marcas em nível de competições, como fica esse aspecto da imperfeição numa competição?
Monge Genshô – Esse aspecto de competição esconde algo muito ruim, que é um grande ego, um desejo de ser melhor e de destaque. Isso como temos visto, pode levar a uma grande doença. Vejam as olimpíadas que começando como atividade essencialmente amadora tornou-se uma competição de tal nível que os atletas desde crianças são preparados sob um treinamento rigoroso que beira uma verdadeira tortura para chegarem aos primeiros lugares. Drogas são ilegalmente usadas para melhorar desempenho. Então, o que começou como disputa totalmente amadora tornou-se uma disputa egóica entre países e pessoas. Muitas pessoas perderam suas vidas, como acontecia na Alemanha Oriental onde as atletas eram submetidas a tratamento com hormônios masculinos, transformando totalmente e de forma definitiva seus organismos. O ganhar, o vencer os outros, tem dentro de si uma doença. É uma manifestação doentia do egoísmo. Esta não é uma busca de perfeição desejável, pois leva a uma loucura. Tudo tem um limite. O que todos deveriam estar fazendo é se perguntado o que é a felicidade? Como é ter uma vida feliz? Mas mesmo isso tem um limite. A busca da iluminação é algo desejável, mas sentar-se no zafu até que suas pernas percam as funções e você ficar paralítico é loucura. Desejar tornar-se uma pessoa perfeita também é loucura. Não estamos atrás de um jardim cimentado. Estamos atrás de algo belo, uma expressão da vida e isso inclui perfeição e imperfeição. Para o zazen é necessário uma postura firme e ereta, mas se alguém cansa e se curva, dorme ou troca de posição, não devemos falar nada. Somos seres humanos e desta forma devemos nos expressar, isso significa que somos imperfeitos e essa imperfeição é muito bonita.
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segunda-feira, 15 de julho de 2013
O compromisso cria bom carma
P: A impressão que tenho é que antes de praticar eu não tinha muitas escolhas, parece que eu era conduzido...
Monge Genshô – Isso é verdadeiro. No brasão de São Paulo tem uma frase em latim, “Non Ducor Duco”, que significa “Não sou conduzido, conduzo”. Isso serve para nós. Temos que passar a conduzir. Isso significa ganhar a liberdade da escolha. Se somos escravos de nossos impulsos, nós só os reforçamos. Temos que criar condições para que eles mudem. Como estava falando para o Monge Tokushi, você “escolhe” ser Monge, então cria um carma que arrasta você, não pode mais fazer certas escolhas, se quiser fazer o que quiser, deixe de ser Monge. Agora que colocou o manto, tem obrigação de ir à Sangha, tem que assumir compromissos, tem que estar nos sesshins. Se falhar em seus compromissos eu o repreenderei, pois ele assumiu o compromisso, não pode falhar.
Essa é a maneira de criar o carma que ele pediu. O leigo que costura seu Rakusu é a mesma coisa, fez os votos, não fez? Então como você fala mal dos outros? Ou observa os defeitos dos outros em vez de olhar os seus próprios? Está lá, o voto diz explicitamente que você deve evitar falar das falhas dos outros, que você se comprometeu a ajudar a Sangha e seu professor nas dificuldades e não procurar erros e comenta-los, você disse na frente de seu mestre, “eu me comprometo”.
Quando você faz os votos, cria carma, colocar o Rakusu, cria carma. Você pode ignorar, mas você se comprometeu.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
O céu dos outros
Siddharta sentiu-se angustiado com um problema que todos sentem. O problema é: eu estou falando para uma platéia de pessoas condenadas à morte. Todos aqui tem uma doença terminal, que chama-se vida. Termina inevitavelmente em velhice, doença e morte. Nós tentamos fingir que não é assim, tentamos não pensar no assunto.
O que aconteceu com Siddharta foi que isto pareceu-lhe extremamente importante. Esse assunto tirava todo o sentido da vida. “De que adianta eu ser príncipe, ter concubinas, esposas, filhos, luxo, riquezas, vou ser Rei depois, mas, de que adianta tudo isso se essa historia toda termina com uma morte abjeta, esse corpo que a gente tem que sustenta a vida simplesmente apodrece’?
Vocês podem evitar que os vermes comam suas mãos, sua carne, sendo cremados. Aí a gente pega as cinzas e espalha. É tudo o que se pode fazer. Em qualquer das duas hipóteses, nós viramos adubo. Então, Siddharta disse: “Eu! Eu, Príncipe, vou virar cinza! Vou adoecer, envelhecer e morrer. Então, que sentido tem a vida?”
Isto foi o problema que angustiou Siddharta. Deveria angustiar todos os homens. Na verdade, só não angustia quem não pensa e à medida que a humanidade pensou, ela tratou de achar alguma solução para isso.
As soluções, normalmente se expressavam sob a forma de alguma crença, algum sistema, em que todas as pessoas começavam a acreditar ou eram convencidas pela sociedade e o entorno a acreditar. A civilização antiga mais conhecida é a egípcia. Temos 3.000 anos de história antes de Cristo na civilização egípcia e eles deduziram que a coisa seria conservar o corpo. Então pega-se o corpo, tira-se as vísceras, enche-se de alcatrão, enrola em bandagens, coloca junto com coisas para auxiliar a vida do outro lado, comida, carruagens, espadas, etc, quanto mais rico o homem mais ele levava. No início levava seus empregados também para ajuda-lo do outro lado. Então, não era um bom negócio você ser um empregado do Faraó, pois se o faraó morresse, você seria enterrado vivo, junto com o Faraó.
Mas assim, eles estavam garantindo uma vida no “pós-morte”, com o mesmo corpo. Tá certo que o corpo das múmias que a gente olha não está servindo pra grande coisa, mas, era uma “solução”.
Depois fomos partindo pra outras soluções, idéias sempre em caráter “não morte”. Por exemplo: eu posso quem sabe ressuscitar? Então, a promessa é: se você morrer dentro de determinadas condições, então você vai ressuscitar depois com um corpo novinho em folha. E aí, viveria numa terra perfeita pra sempre.
Os gregos gostavam muito de fazer o quê? Conversar na praça de cidades que se chamava “Ágora”. Então, os gregos pensavam, como seria o nosso Céu, depois da morte? Então os homens bons iriam para o “ Hades”, que era a terra dos mortos, os bons para um lugar que era uma ilha paradisíaca, onde as regras eram de que a comida viria pronta, caía das árvores, as roupas também, você não precisava trabalhar para fazer nada. Tinham regatos límpidos, temperatura maravilhosa e você podia conversar sobre filosofia. Não é um céu para gregos? Conversar , debater.
Os muçulmanos nasceram entre os árabes, os descendentes de Ismael, filho bastardo de Agar, escrava de Abraão, expulsa por Sara, quando Issac nasceu. Então, é uma história filha do ciúme, e os descendentes de Ismael, os árabes e os descendentes de Issac, os israelitas, estão brigando até hoje. Nós tínhamos que conversar com Sara, voltar no passado e dizer: “Sara, não faz isso”! Mas ela pediu a Abraão que expulsasse Agar e Ismael de sua casa. Os árabes estavam no deserto e acabaram criando uma sociedade que tinha um indivíduo que era o privilegiado total. O sultão. O sultão tinha uma coisa que todos os homens queriam, e ninguém tinha: um Harém! Então, pronto, resolvido: no céu islâmico, cada homem que morre bem, vai pra lá e ganha 72 mulheres! As huris, bonitas, sempre jovens, e não trazem sogras.
E assim vamos percorrendo a história. Os vickings: faziam guerras, eram conquistadores, como na tirinha do Hagar, o horrível. Então eles têm um céu especial, chama-se “Valhalla”. Se você for um homem valente, vai pro “Valhalla” e lá você vai poder guerrear e saquear para sempre.
Tão vendo como são os céus? A gente ri não é? A gente ri das crenças e culturas “dos outros”. Elas nos parecem ridículas. As nossas não.
(continua)
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Pensamentos que vão e vem
P. Durante o zazen às vezes olho para a janela ou para fora e me defronto com pensamentos que vem, vejo que são fantasias...
Monge Genshô: É adequado. É um primeiro pensamento adequado. Muitas pessoas não se dão conta, muitas pessoas ou todas as pessoas sofrem de alguma infelicidade ou de um sentimento que surge, eles deixam de ver as outras pessoas em volta como seres e começam a ver estas pessoas carregadas de um sentimento projetado por nós, é a pessoa que projeta um pensamento sobre a outra e diz assim eu não gosto dela ou ela tem tal defeito, essa pessoa age assim ou essa pessoa não enxerga, esta pessoa está perdida também e tem dificuldades, tem aquele sentimento de aversão, e este sentimento ignora que aquela pessoa tenha a mesma natureza original, na verdade está perdido dentro do seu eu olhando o outro, e perde todo o sentimento de compaixão, quando perde este sentimento de compaixão então tem aversão, tem raiva, tem ciúme, então não consegue mais exercer a bondade.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Cigarrras e os outros

P. Aqui no zazen quando os pensamentos vão se extinguindo, tem a parede, escuto as cigarras e daqui a pouco parece que estou lá junto com as cigarras cantando. Este é um caminho?
Monge Genshô: Este é um excelente caminho, que é o caminho dos sons, ele é muito bom, alguns mestres ensinam como o melhor caminho o dos sons, você ouvindo e ouvindo todos estes sons como a voz do Buddha, sendo um com todos eles, com toda a sua manifestação, você mesmo, você desaparece e se você desaparece e está com tudo isto então é uma grande libertação e um sentimento de paz, não é uma felicidade eufórica mas muito verdadeira, muito, muito verdadeira.
P. O objetivo do zazen é descartar pensamentos, emoções, sentimentos, mas quando nós somos tomados por um sentimento de compaixão por outros também devemos descartar isto?
R. Quem é que tem compaixão? Lembre-se deste sentimento quem é este que tem compaixão? Ele está aqui e os seres que de ele se compadece estão lá fora? Veja, quando nós temos compaixão temos compaixão pelo outro ser, ainda existe eu aqui e o outro ser de quem eu me compadeço. A compaixão é um caminho, um método, mas ele ainda está dentro do caminho individual porque na verdade quando Buddha vai ensinar aos outros seres não há outros seres para ensinar, este é um problema que você tem que resolver, se tenho compaixão pelos outros seres, mas não há outros seres para ensinar, porque entre você e eles não existe esta distância, enquanto houver esta distância ainda é o eu que está falando. Há uma dualidade.
sexta-feira, 30 de março de 2012
Vendo a natureza original

P. Quer dizer que somente o nosso consciente faria parte do fluxo do meio. A única preocupação que eu deva ter é lapidar, não posso lapidar o meio, mas eu tenho que participar dele e respeitá-lo, respeitar o fluxo do meio.
Monge Genshô: O que você pode alterar é o seu canal de interpretação, o seu programa, nós já temos os sentidos, os olhos, os ouvidos, nós percebemos o mundo em volta mas tudo isto é interpretado por programas cerebrais. Estes programas que nós temos na nossa mente são influenciados pelos nossos hormônios, eles nos dão mensagens e reagem de determinadas maneiras que nos estão incutidas pela nossa própria formação biológica, pela nossa cultura, por tudo que nós aprendemos. A questão é quão verdadeira é a nossa interpretação desse mundo através destes sentidos, não é? Nós olhamos uma fruta vermelha numa árvore e sabemos que ela está madura, não só nós, os macacos também sabem, isto está embutido na nossa programação há milhões de anos e nós gostamos da cor vermelha no meio do verde e quando nós vamos ao supermercado as embalagens são vermelhas, amarelas, de cores quentes porque elas usam este condicionamento que nós temos de nos sentirmos atraídos pelas cores que significam comida madura e doce, temos todos estes condicionamentos dentro das nossas mentes e tudo isto nos impede de ver a realidade tal como ela é. É útil isso? Sim, é útil, serve para nossa operação no mundo, assim como nosso corpo serve para nossa operação no mundo, mas a clareza da mente original não é esta interpretação condicionada. Ela está além disto, quem está sentado aqui pode ouvir a cigarra e pensar ah, eu associo as cigarras com o natal e daí o som das cigarras me faz feliz, e outra pessoa, eu associo cigarras com insônia, com uma experiência desagradável que eu tive numa fazenda onde eu fiquei e aquelas cigarras me incomodavam e quando ouve cigarras se sente incomodado, onde está esta interpretação? O som em si não está na mente, só a interpretação.
P. Voltando um pouco, aceitar o outro é fácil, o problema está em a gente se aceitar...
R. Acho que são dois problemas, não é? Sartre escreveu uma frase famosa que era: o inferno são os outros. É uma frase do existencialismo. E do outro lado também nós olhamos para nós mesmos e sentimos coisas assim e às vezes para escapar da própria vida tem gente que se suicida, se mata, não aceitação extrema, e às vezes a não aceitação do outro leva a que? Ao crime, a morte do outro etc. Ora, a questão é que estas aceitações em si não são diferentes, tanto faz os outros ou eu porque esta distinção também é uma distinção falsa e ela só existe porque nós acreditamos nesta individualidade e é por isto que a gente sofre tanto com a perspectiva da morte porque nós acreditamos que isto é o fim de uma coisa preciosa que é a nossa individualidade. Imaginem cada um de vocês no seu leito de morte, pensem um pouco, estou ali e vou morrer. Esta perspectiva nunca parece agradável e a humanidade tenta arranjar alguma fantasia para escapar disso e estamos cheios de fantasias nas nossas culturas para escapar desta realidade da morte. A principal delas é a existência de uma alma que sobreviva a morte e que seja eu mesmo e que este corpo seja só uma casca e aí então está tudo solucionado porque eu passo a ser eterno e só morre o corpo e não tem problema ou eu ganho um outro corpo novinho em folha sem os problemas deste aqui que já envelheceu, mas eu continuo, sou preservado. Esta maneira de pensar é nada mais do que uma tentativa de escapar da realidade. O Budismo não olha as coisas assim, ele diz , não é isto, não é a morte que é um problema, é o nascimento que é um problema. Na verdade esta realidade última que nós estamos procurando encontrar na meditação está além de nascimento e morte porque se penetrarmos nesta realidade última, nesta natureza original não existe nascimento e morte, nem tempo, e tudo isto que nós estamos olhando aqui agora e queremos conservar, essa existênciazinha e este euzinho é apenas uma bolha, manifestação da realidade última. Nesta natureza original não existe isto. Penetrar na natureza original é tornar-se, em outros termos, a própria divindade, a própria vacuidade, além de tempo, além de espaço, além de início, além de fim e é por isso que quando a gente ouve isso pode entender claramente como é verdadeiro, porque não tem engano, não tem nenhum truque de dizer eu vou sobreviver a esta morte com a alma e o espírito, ir para o céu, o paraíso ou o inferno ou qualquer coisa assim, não é nada disto, a natureza original está além da própria existência deste universo tal como nós o vemos, tal como ele se manifesta. A nossa natureza original é ela que manifesta este universo e é isto que na realidade nós somos e sendo assim não há nascimento nem morte.
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quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Quando morrer você vai entender
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Kodo Sawaki Roshi
Para você: depoimentos Zen reunidos
"7. Para você que gostaria de deixar seus rivais na poeira.
Nós freqüentemente nos perguntamos quem é realmente melhor? Mas não somos todos nós feitos do mesmo amontoado de barro?
Todos deveriam sentar-se firmemente ancorados no lugar onde não há melhor ou pior.
Por toda sua vida você está completamente louco porque você acha ser óbvio que exista um ''eu'' e ''os outros''. Você representa um papel para sobressair-se em uma multidão, mas na realidade não há nem ''você'' nem ''os outros''.
Quando morrer, você vai entender.
Buddha-dharma significa ausência de costura. Que costura corre entre você e eu? Mais cedo ou mais tarde nós todos acabamos agindo como se uma costura separasse amigo e inimigo. Quando nos acostumamos muito com isso, nós acreditamos que essa costura realmente existe.
Pobre e rico, importante e não importante - nada disso existe. É somente brilho nas ondas. Ainda assim há alguns que amaldiçoam buddha porque eles estão presos na infelicidade ou porque alguém é mais feliz do que eles.
Felicidade e infelicidade, importante e não importante, amor e ódio - o mundo todo dá grande importância a essas coisas. O mundo onde nada disso existe: este é o mundo de hishiryô.
Não há nada no mundo com o que nós precisemos quebrar nossa cabeça já que está claro que nossos pensamentos deludidos e discriminações são absolutamente inúteis.
Quando o chefe de departamento estava doente, um subordinado passou por cima dele no plano de carreira. Ele estava se recuperando, mas com essa notícia sua febre surgiu novamente. Você realmente não precisa pegar uma febre por causa de algo assim.
Você diz, ''Eu vou te mostrar!'' Mas você nem sabe quanto tempo vai viver.
Você não tem alguma outra coisa para fazer?
No Oeste eles dizem, "O homem é o lobo do homem". O primeiro passo na religião deve ser que os lobos parem de morder uns aos outros.
O que nós temos aprendido desde nossos dias de infância é nada mais do que como fingir sermos importantes. O mundo chama isso de educação. E o que nós tentamos fazer mais tarde na vida? Nós lutamos como demônios, fazemos sexo como animais e nos alimentamos como os fantasmas famintos. É isso.
O mundo inteiro oscila em pernas cambaleantes: como empurrar os outros para o lado só para chegar na frente. No buddha-dharma você não deve ser tão injusto.
O buddha-dharma significa ter sucesso no fracasso. A mente do buddha-dharma é ''sentar-se em zazen por éons sem atingir o caminho de buddha.'' [Sutra do Lótus]
As pessoas fazem uma cara de sono se não há uma luta ou competição acontecendo. Elas estão sempre querendo galopar à linha de chegada. Mas isto é uma corrida de cavalos? Ou elas nadam como lontras, querendo estar um nariz a frente. No final, elas brigarão umas com as outras, como gatinhos por uma bola de lã.
Quando a questão não é ganhar ou perder, amor ou ódio, riqueza ou pobreza, as pessoas colocam uma cara de sono.
No buddha-dharma a questão não é ganhar ou perder, amor ou ódio.
Alguns querem exibir-se com seu "satori". Contudo está claro que algo que você pode usar para exibir-se não tem nada a ver com satori."
Kodo Sawaki Roshi
Para você: depoimentos Zen reunidos
Tradução de Flávio Gevieski
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
"Depressão budista"

"Plena de encanto é a vida"
P: Estava conversando com um amigo sobre a depressão "budista", que como não vemos mais verdadeira felicidade nas coisas externas a nós, nas pessoas, objetos, lugares , as situações perdem muito de seu atrativo, causando assim um desinteresse por elas. Como não buscamos mais a felicidade/satisfação no mundo e sim em nós, não conseguimos nos empenhar com real vontade na busca por coisas mundanas, além do que precisamos para sobreviver, nem traçar objetivos, sem que enxerguemos neles um enorme vazio.
Assim há um grande desinteresse pelo mundo e por outro a difculdade de se vivenciar a atenção plena, ainda mais quando se está emocionalmente mal e se quer uma solução mais imediata, pelo menos para abrandar um pouco essa "depressão". O senhor poderia falar algo sobre isso?
R: Este mundo é o que nós temos, tenho profundo interesse por ele e por realizar coisas novas e mais significativas, é por isso que continuo na carreira de monge, estou praticando para ajudar mais pessoas, e me comprometo a libertar todas que puder. Este é um grande trabalho e uma tarefa plena de profundo encanto e compensações de alegria.
Se for necessário ganhar dinheiro, fazer empresas, viajar para mais aprender, qualquer coisa ligada ao mundo e a vida, para melhor realizar o Dharma, farei isso. Só há vazio se olharmos só para nosso umbigo esquecendo todos as seres que nos rodeiam e procuram escapar desta roda.
A vida é plena de maravilha e encanto, suave e bela desde que nos voltemos para as necessidades de libertação dos outros seres.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Árvores juntas crescem retas

Acho que preciso aclarar que existe o budista cultural, o budista de convicção, o budista de formação familiar e o que já pertenceu a uma Sangha quando esteve num mosteiro. Porem, se ele não pratica junto a um grupo, ele não é um budista no conceito de refúgio, que é mais exigente. Mesmo que não gostemos é exatamente por isso que precisamos estar junto a um grupo. Há duas imagens fortes para isso: o arroz é pilado junto com outros, para perder suas cascas, é o atrito que faz isto. Na Soto Zen o símbolo do monge é uma folha de pinheiro, porque os pinheiros crescem retos se estão juntos com outros, assim, com estes pode se fazer mastros de navios, retos e direitos, os pinheiros que nascem isolados ficam tortos. Assim, os praticantes que acham que podem crescer sozinhos desprezam a ajuda que a crítica e desconforto dos outros produz em nós.
Acham melhor não pertencer a grupos e permanecer sozinhos, nada é mais característico da dificuldade de perceber a unidade, e nada marca mais o sentido de separação, de individualidade, “eu aqui, os outros, esses pertubadores” que fiquem lá,como desenvolver uma mente tolerante e paciente evitando a comunidade?
É claro, que os praticantes budistas, os budistas de verdade, são poucos, e 90%, ou mais, dos budistas do mundo pouco sabem dos ensinamentos de Buddha, são budistas como 90% dos cristãos, nasceram e se sentem cristãos, mas não seguem os mandamentos e só relembram de Deus quando estão em crise, não são praticantes, são pessoas com um senso de pertencimento a algo. É interessante notar que, originalmente, só os que adentravam na Sangha eram os discípulos de Buddha, os outros eram os simpatizantes, o movimento Mahayana ampliou isso, podemos chamar os simpatizantes de budistas, mas pertencentes a Sangha só os que tomam refúgio nela, estes sim, são os praticantes budistas.
Assim repito que Buddha tinha sérios motivos para fazer seus monges viverem em comunidade, e há um grande motivo para as Três Jóias serem o Buddha, o Dharma e a Sangha, e o refúgio ser recitado em todas as cerimônias, se tirarmos uma destas três coisas podemos ter um budista, mas não um praticante budista no modelo de Buddha. Podemos até obter um iluminado pela prática solitária, porem a ele falta uma ação extremamente prezada no Zen, a atitude compassiva, que entende que ajudar os outros com sua presença e enfrentar os problemas de estar em comunidade é a grande prova da prática real.
Conta-se que um monge praticou sozinho, durante anos, numa montanha, achou-se iluminado e desceu até uma cidade, na praça do mercado, aqueles seres sonhadores, que ele olhou com superioridade. De repente, no aperto da multidão, um homem lhe pisou o pé com um tamanco de madeira, o monge sentiu-se invadido pela dor e raiva e empurrou o homem com ódio. Naquele momento ele percebeu que sua prática budista só era suficiente na solidão dos montes.
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