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segunda-feira, 27 de outubro de 2014
O Sutra do Oceano
(continuação da palestra de Ven. Dhammadipa em Florianópolis)
O Buddha falou para monges que eram completamente dependentes dos outros. Apenas quando estiverem satisfeitos com pouco e com poucos desejos, eles serão verdadeiros monges. Caso contrário, tornar-se-ão um fardo para outros. Isso também está vinculado à incapacidade de ouvir o próximo e ser obediente. Portanto, todas as virtudes estão interligadas, são de fato um contínuo.
A próxima virtude é appakicco, ele será uma pessoa com poucos desejos. A fim de obter sucesso na meditação, expliquei tal virtude como um pré-requisito.
A próxima é sallahukavutti, o seu modo de vida deve ser leve. Ele não deve estar sobrecarregado por suas responsabilidades e deveres, senão tornar-se-á frustado, logo como poderá praticar meditação no amor?
A próxima virtude, caso obtenha-se as já mencionadas, será aquele com suas faculdades pacificadas. A pacificação das faculdades é, de fato, a essência de toda prática. Ela é o início, o meio e o fim da prática. O Buddha explicou o controle das faculdades como sendo a essência de toda prática.
No Samyutta Nikaya há um sutra denominado “Sutra do Grande Oceano”. Na verdade esta é a essência do Zen, portanto vou falar um pouco sobre este sutra. Chama-se Samudda Sutta, o Sutra do Oceano. Aqui nesta cidade, vocês são muito afortunados de estarem sempre próximos ao oceano, logo, peço que contemplem este sutra. O Buddha explicou aos bhikkhus: o olho é o oceano. As ondas são em forma de cores que chegam aos olhos. Aquele capaz de tolerar, neste oceano do olho, as ondas na forma de cores, poderá cruzar o grande oceano do olho. Da mesma forma, os ouvidos são o oceano, e os sons são as ondas neste grande oceano. Aquele capaz de perceber as ondas na forma de som deste grande oceano poderá cruzar o oceano dos ouvidos. O mesmo para o nariz, para a língua, para o corpo e, finalmente, os fenômenos são as ondas no oceano da mente. Aquele capaz de perceber estas ondas na forma de dharmas – objetos mentais – cruzará o grande oceano da mente. Por favor, tentem contemplar este sutra. Caso tenham sucesso, seus sentidos estarão pacificados e a prática do amor ou amizade a todos irá ficar muito fácil.
Logo, a próxima virtude é appagabbho, appagabbho significa não ser imprudente, não insultar ninguém. Você apenas pode fazê-lo quando está em plena atenção e com seus sentidos pacificados. A prática da plena atenção é a essência da prática dos sentidos pacificados. De acordo com o Budismo, a prática da plena atenção consiste no não-apego aos sinais dos objetos. Nossa mente torna-se instável porque apega-se aos sinais dos objetos que chegam aos seis sentidos. Este também é o significado do Sutra do Oceano. Quando você torna-se Iluminado, não é capaz de apegar-se a nenhum sinal de nenhum objeto. Então será de fato Zen. (continua)
segunda-feira, 4 de junho de 2007
A árvore sem raiz
Para explicar isso melhor tem aquela história da carroça escrita por Nagasena. Ele pergunta ao rei Milinda, o que é isso? E ele diz: uma carroça. E ele pergunta: as rodas são a carroça? O eixo é a carroça? O estrado é a carroça? Nada é a carroça, mas tudo junto composto daquela maneira é a carroça, então onde existe a carroça se nada que está ali é a carroça? Os carros nossos ali fora, o ferro, os bancos são os carros? O motor é o carro? O aço, a borracha etc... O carro existe como uma organização da nossa mente. A casa também, nada é a casa em si, são só pedaços que juntos numa determinada forma nós olhamos e dizemos é...na verdade, não tem raiz. Todos os dharmas são sem raiz, mas quem são vocês? Dharmas. Vocês são fenômenos. Todos nós somos fenômenos. Onde está nossa raiz? Na vacuidade? No vazio? Então não tem raiz. Então quando perguntamos quem sou eu? Temos que considerar este aspecto. Eu sou fenômeno, eu sou dharma, não tenho raiz. Como, se minha raiz é na vacuidade, como eu posso desaparecer? Como eu verdadeiro, a minha verdadeira natureza pode desaparecer porque aquilo que eu penso, sou eu, é como carro, pedaços reunidos, fenômeno, mas na verdade eu mesmo sou vacuidade, manifestação na vacuidade, não é? Por isso o Cipreste no Jardim é uma Árvore sem Raiz. Então todos os dharmas são sem self. Em outras palavras todos os dharmas nada são se não a Árvore sem Raiz. Todos os dharmas não possuem self, não possuem existência intrínseca. São todos pedaços funcionando, somos nós ali sentados no zazen. Vejam que o que nós pensamos que somos nós, são só pensamentos se sucedendo em nossas mentes e porque os pensamentos se sucedem na nossa mente nós dizemos eu existo. Quando não há pensamento em funcionamento ou atividade mental, pergunto para vocês: onde estão vocês? Quando não há atividade mental, quando não há pensamento, quem existe? Se nós penetrarmos estas coisas e respondermos verdadeiramente, nos libertamos, mas o ensinamento disso parece confuso, paradoxal e sem sentido porque é muito profundo.
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