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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Os Perigos das Certezas




Vejam que as maiores tragédias que aconteceram no século XX foram provocadas por pessoas cheias de idealismo: revolucionários que queriam destruir o Estado porque ele seria a fonte de todo mal; então, para fazer isso tinham que explodir bombas, ou cometer assassinatos, como mataram Alexandre II, o Czar da Rússia; como mataram Ferdinando, Arquiduque da Áustria, e desencadearam a Primeira Guerra Mundial. Foram todos pessoas que queriam fazer o bem.

E, da mesma forma, podemos citar os piores criminosos do século, todos eles tinham um discurso idealista: “Ah, eu vou fazer o nacional-socialismo, libertar minha nação da tirania dos outros, e vou fazer um mundo perfeito que vai durar mil anos”. Este foi o discurso de Adolf Hitler. E a história se repete com Stalin.

A tentativa de fazer os outros se dobrarem à nossa vontade, à nossa ideologia, à nossa maneira de pensar, pode ser extremamente perigosa. O budismo não sobreviveu praticamente em lugar nenhum ao longo do tempo. Na Índia, o budismo praticamente desapareceu. Sobrou um sistema cripto-budista, o Vedanta, dentro do hinduísmo, cheio de ideias budistas; e muito parecido com o zen, muito bonito, o Advaita Vedanta. Mas eles surgiram uns mil anos depois do surgimento inicial do budismo. A universidade Nalanda foi destruída, os monges foram mortos, etc. Porque a invasão islâmica no século XIII também se encarregou de fazer um grande extermínio, porque eles tinham o certo. Eles tinham a verdade, então eles tinham que destruir o que fosse mentira. 

Nós temos muita gente maravilhosa, cheia de ideais, que quer fazer o bem, e que acaba fazendo um mal terrível. Por isso  sempre tenho receio das pessoas que sabem o que é certo para os outros e que querem impor o seu certo. Sempre deu na mesma coisa. Aqui no Brasil nós temos o mesmo exemplo, mas felizmente não fomos tão fundo nisso...


[N.E.: transcrição de Palestra realizada por Meihô Genshô Sensei em 26/09/2016]




segunda-feira, 24 de julho de 2017

Distante das Certezas




O budismo, em sua origem, é despido de todas as aparências. Nós as usamos (as aparências), pois, se as retirarmos, o budismo fica muito mais difícil de ser explicado e vivenciado. É preciso rituais, zafu e uma porção de coisas para que se crie um clima que os humanos apreciam. Contudo, em última análise, precisaria? Não, mas precisaria de um ser humano muito especial que não precisasse de templo, ritos, ensinamentos, nem nada, e que conseguisse despertar das ilusões sozinho. 

Quando olhamos para história da humanidade, percebemos que a nossa paixão por mitos é muita intensa, muito forte. Não admira que as pessoas lutem tanto com as questões filosóficas, políticas, etc., porque elas não se baseiam em racionalidade, mas em paixões. As pessoas apaixonam-se por uma ideologia, pelas ideias, e daí descartam qualquer outra, e por isso não são capazes de enxergar as outras coisas. 

Quando alguém quer dizer algo, podemos demolir a ideia através de argumentos. Esse era o processo no tempo de Buda, semelhante ao seu contemporâneo, Sócrates. Se você apresenta uma ideia, vamos debatê-la, vamos ver se ela sobrevive ao confronto dos argumentos. É isso que ele faz, mas não é isso que nós vemos, por exemplo, no nosso país hoje. Por quê? Porque mergulhamos em paixões. Então, agarramo-nos a uma ideologia qualquer, e, depois que você se agarrou na ideologia, todas as outras coisas não são nem consideradas, porque você ama demais sua ideia, ou seja, sua ideia transformou-se em um novo prolongamento do seu eu. 

Por isso foi tão valorizada a conduta do "não sei" no Zen: "quem é você?", "não faço ideia"; "de que você tem certeza?", "nada" - Porque tudo são crenças, nada além do que eu acreditava
Monge Genshô