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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Símbolos e Rituais




Aluno: O zen mostra uma visão desiludida das coisas (desiludida de sem ilusões). Eu comprei isso aqui (um colar com símbolo), e gostaria na verdade de uma leitura sobre os símbolos ou signos.

Monge Genshô: Como você mesmo disse, não é relevante. Os símbolos e os rituais são linguagem para o inconsciente. Nós sonhamos com signos, e eles nos atingem de alguma forma. Nós montamos um altar, colocamos uma estátua, colocamos flores porque é bonito. Colocamos vela, que é o símbolo da iluminação. Acendemos incenso, etc. Nós fazemos essas coisas, mas elas não são o budismo. São o que nós chamamos de upaya, meios hábeis: são meios para criar um clima, para ajudar as pessoas que se sentem impactadas pelo ambiente, mas não são realidade alguma e não são essenciais. 

Por isso nós contamos a história do monge Zen que estava com frio, pegou a estátua de madeira de Buda, partiu em pedaços, fez lenha e fez uma fogueira. Daí os outros monges que apareceram de manhã disseram: “oh, você queimou o Buda!”, e ele retrucou: “é mesmo? Cadê os ossos? (sariras)". O que ele quis dizer é que era só madeira; naquele momento era madeira: eu estava precisando e pronto, acabou. 

Então, o símbolo ou qualquer coisa que você goste e use pode ser inspirador, mas se alguém me pergunta e diz: “ah, eu queria fazer uma tatuagem de Buda para mostrar que sou budista”, eu digo: “não faça isso! Você quer ser diferente das outras pessoas?”. Tudo o que fazemos para nos diferenciar, nos atrapalha. É um reforço egóico.

[N.E.: trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei] 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Distante das Certezas




O budismo, em sua origem, é despido de todas as aparências. Nós as usamos (as aparências), pois, se as retirarmos, o budismo fica muito mais difícil de ser explicado e vivenciado. É preciso rituais, zafu e uma porção de coisas para que se crie um clima que os humanos apreciam. Contudo, em última análise, precisaria? Não, mas precisaria de um ser humano muito especial que não precisasse de templo, ritos, ensinamentos, nem nada, e que conseguisse despertar das ilusões sozinho. 

Quando olhamos para história da humanidade, percebemos que a nossa paixão por mitos é muita intensa, muito forte. Não admira que as pessoas lutem tanto com as questões filosóficas, políticas, etc., porque elas não se baseiam em racionalidade, mas em paixões. As pessoas apaixonam-se por uma ideologia, pelas ideias, e daí descartam qualquer outra, e por isso não são capazes de enxergar as outras coisas. 

Quando alguém quer dizer algo, podemos demolir a ideia através de argumentos. Esse era o processo no tempo de Buda, semelhante ao seu contemporâneo, Sócrates. Se você apresenta uma ideia, vamos debatê-la, vamos ver se ela sobrevive ao confronto dos argumentos. É isso que ele faz, mas não é isso que nós vemos, por exemplo, no nosso país hoje. Por quê? Porque mergulhamos em paixões. Então, agarramo-nos a uma ideologia qualquer, e, depois que você se agarrou na ideologia, todas as outras coisas não são nem consideradas, porque você ama demais sua ideia, ou seja, sua ideia transformou-se em um novo prolongamento do seu eu. 

Por isso foi tão valorizada a conduta do "não sei" no Zen: "quem é você?", "não faço ideia"; "de que você tem certeza?", "nada" - Porque tudo são crenças, nada além do que eu acreditava
Monge Genshô

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Meios hábeis

As indicações dadas nos ensinamentos são: “olhe é por aqui”, “treine assim”, “faça assim”, “procure aqui e se você fizer desta forma terá condições de alcançar o despertar”, mas quando alcançar o despertar para que servem os mantos? Os símbolos, as roupas e o bastão? Eles são apenas meios hábeis. Eu estava dando uma palestra para 30 padres e um deles me perguntou “o que é isso na sua mão?” e eu disse “originalmente é um bastão para coçar as costas”. Com o tempo, como tinham Mestres sempre o usando, ele se transformou no símbolo do Mestre. Mas não é diferente do báculo do bispo católico, então eu disse “é um instrumento litúrgico” e os padres começaram a rir compreendendo. Mas o que é mesmo? É meio hábil. O manto é meio hábil, as pessoas fazem reverência para quem está usando o manto e por causa disso elas acreditam mais em quem está usando o manto. O que é o bastão? Um pedaço de madeira. O que é o manto? Embora maravilhoso, é um pedaço de pano. Na realidade é isso. Mas por causa das nossas condições humanas e das nossas ideias sobre características, então eles têm influência. É muito interessante isso. Nós usamos esses meios, mas na verdade são só o que aparentam.(continua)

segunda-feira, 21 de março de 2016

Além de qualquer ilusão

(Continuação palestra de Goiânia)

Muitos anos atrás eu estava sentado na prática de zazen que a gente faz 24h seguidas, não vai dormir e fica sentado. Começa de manhã e avança até 6h da manhã seguinte, então de noite você está acabado. Alterna entre ficar sentado e o kinhin; senta 15, levanta, caminha, 15 minutos, senta novamente, e não aguenta mais. Então, quando você senta basta fechar os olhos e os sonhos vêm, e na hora você pode usar a mente para fazer perguntas. Então perguntei a mim mesmo “quem sou eu?”, e imediatamente apareceu uma árvore e um casaco sem ninguém dentro, não tinha cabeça, nem nada, o casaco caía lentamente entre os galhos de uma árvore e abri os olhos porque você pode fechar os olhos, abrir os olhos e está aqui, se você tiver esse cansaço. E anos depois eu contei esse sonho, e uma pessoa me escreveu, e me mandou uma página de um livro de Jung, “O homem e seus símbolos”, e lá dentro em uma página tem a figura do casaco sem cabeça e a explicação de que esse símbolo é frequentemente usado como representação da perda do seu próprio eu. Lembrei de uma história também, de um mestre que sonhou que não tinha cabeça e a partir desse sonho nunca mais sonhou, nunca mais se iludiu, quer dizer, a partir do momento que viu a si mesmo sem cabeça, ele compreendeu que sua identidade era vazia. 

Espero que vocês tenham achado interessante esta abordagem. Levem o zazen bem a sério, a possibilidade do insight dentro do zazen é muito maior do que a gente imagina a primeira vista; é proposital a gente ficar com sono, cansado, com fome no sesshin. No mosteiro, como contei para vocês, fiquei 3 meses lá, perdi 16kg, estava sempre com fome, acordando de madrugada, sempre com fome, sempre com sono, não tinha soneca depois do meio dia, isso é camaradagem daqui (risos). E como sempre tinha trabalho, você está sempre cansado. (continua)