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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Os inquietos



Pergunta – Gostaria que o Senhor falasse sobre a transformação da mente. Nesse processo existe sofrimento, porque algumas vezes,  a gente sabe e entende, mas a grande questão  - é a prática, a convivência, a atitude da pessoa. Entre a teoria e a prática há um sofrimento de querer  chegar a esse ponto, não é assim?

Monge Genshô – O simples fato de haver desejo - o desejo de se libertar - implica nesse sofrimento. Na realidade, todos os professores que eu conheci foram homens inquietos, com grandes desejos de se libertar que se entregaram a uma profunda e sofrida busca. Você tem toda a razão. Moryama Roshi, ficou vinte anos dentro de um mosteiro e passou alguns anos, completamente sozinho nas montanhas, sem energia elétrica e tendo que carregar água. Ele costumava dizer que tomar banho era uma tarefa de três horas, pois tinha que carregar a água e fazer uma fogueira para aquecê-la.
 Nós estávamos em uma palestra e alguém perguntou a ele, “Mestre, o que o senhor aprendeu com tantos anos de retiro solitário?” ao que ele respondeu, “Bem, na primeira noite em que fiquei sozinho, na hora de dormir, eu não conseguia, porque sentia medo. Pensava que poderia ser surpreendido por um assaltante ou por um animal selvagem, visto estar em um local deserto, então, não conseguia dormir por medo. Depois desses anos sozinho, descobri que essa era a grande lição que tinha que aprender: eu tenho medo”.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A inquietude mobilizadora


P. A flor de lótus só pode nascer...
R. Na lama. A flor de lótus não nasce na areia branca e límpida da praia, ela nasce num lago com lama.

P. A gente pode dizer que esta inquietude é uma força mobilizadora que movimenta as pessoas a buscar...
R. Com certeza. Só vem praticar zazen e permanece quem tem angústia e inquietação e esta é a história dos mestres também, mesmo a história de Buddha, só porque tinha percepção do que era angústia, velhice, doença e morte é que ele procurou a solução disto tudo, sem o sofrimento não haveria esta busca, esta noção de insatisfação em relação à vida porque a palavra dukka, do páli, que é traduzida por sofrimento, ela não expressa exatamente o que Buddha falou, porque dukka significa não satisfatório, muitas vezes ensina-se budismo dizendo isto – a vida é sofrimento, não, não é assim, a vida contém sofrimento e felicidade, mas como é impermanente, isto sempre é insatisfatório, nunca há nada permanente, nada que a gente agarre, você vê o filho brincando e é um momento muito feliz, maravilhoso, mas este mesmo filho um dia fica doente ou mesmo cresce e fica um “aborrecente” e não é mais a mesma coisa, depois ele deixa de ser adolescente, amadurece e volta para você com grande carinho, ah é outro momento feliz, mas aí vai embora para outro país e assim por diante, nunca é permanente, é sempre fluido e por isto mesmo insatisfatório, a maioria dos prazeres da vida dura muito pouco tempo, a mais gostosa refeição num restaurante fino ( depois do sesshin vamos...), esta maravilhosa refeição dura uma hora e meia, comendo caprichadamente, vocês podem imaginar agora, um pequeno aperitivo, depois uma entrada leve, depois um prato principal saboroso, talvez apimentado, depois uma maravilhosa sobremesa doce, bebendo vinho junto para ressaltar o sabor, temperando como queiramos e no fim, comi demais e não quero nem ver comida, e aí nós vemos como é, este prazer é caro e curto embora quando eu estive falando aqui agora algumas bocas tivessem saliva porque agora para nós parece hum...delicioso, afinal sentamos na frente do oryoki e vem só três alimentos, não vem bebida nenhuma para ajudar, só pode comer uma coisa de cada vez e todo mundo gosta de misturar arroz com feijão e tem que comer uma colherada de arroz, mastigar e engolir, depois uma colherada de feijão, mas certamente vocês nunca sentiram tão nitidamente aqueles sabores porque estão separados e como tem que prestar atenção em todos os  detalhes a mente não viaja para fora dali, esta é a maravilha da prática do oryoki, prática muito certa para o sesshin, porque ensina  como fazer as coisas durante a vida,  isto que vocês tem que fazer quando saírem do sesshin, quanto do que fazemos com o oryoki eu consigo levar para a minha atividade, aqueles pequenos princípios, elegância, concentração no que está fazendo, fazer com as duas mãos, cultivar um  sentimento de agradecimento por aqueles que nos servem. Estes dias eu vi um ditado que dizia assim: para escolher um amigo, não preste atenção em como ele é gentil com você, mas em como ele trata um garçon, isso fala sobre o fundo da pessoa, não é como ela trata as pessoas importantes, mas como ela trata as pessoas que não são importantes para ela, isso é muito, muito importante, muito,...e vocês tem que prestar atenção dentro de si como tratam as pessoas humildes que servem e não como tratam as pessoas superiores com quem tem contato, isso é que diz sobre o nosso verdadeiro caráter...
 É o primeiro caminho, o primeiro passo, todos começam a praticar pelas suas angústias pessoais e isso de querer se dedicar aos outros só vem depois, eu não vejo os praticantes chegarem no centro do Dharma e dizerem – eu quero praticar para todos os seres, não eles querem praticar para si e está bastante bom, pratique para si, quando chega um momento que a pessoa não sabe mais porque está praticando aí é que é o momento de dizer pense nos outros, não pense mais em si mesmo, pense o que eu posso fazer para outras pessoas aproveitarem o pouquinho que eu aprendi e quando este sentimento surge é o início da mente de bodicita, da mente compassiva e aí o caminho se abre muito, começa a ficar mais poderoso e muito mais cheio de emoção e de compensação, nós sofremos muito, achamos que estamos perdidos, mas estamos perdidos só por nós mesmos por coisas que só nós  acreditamos ou sobre que tínhamos expectativas, sobre nossa realização, mas não há muito para realizar na verdade, o que nós precisamos realizar é só esta mente que esvaziada  de preocupações, de apegos, sai e acha tudo muito, muito lindo. Esta mente que quando vê a emoção nos outros automaticamente a sente , então esta percepção partilhada é porque a mente está suficientemente vazia para poder sentir os outros, sentir o que acontece no resto...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Inquietude


P: Minha inquietude está acima da minha capacidade de me concentrar...

R: Já aprendi que não adianta ficar dando argumentos para olharmos melhor o mundo do samsara. Melhor instruir sobre meditação, ela permite resolver tudo de que você falou, mas notei algumas coisas que precisam de instrução:
Você falou que está tentando se concentrar, não faça isto, simplesmente sente com aquela mente turbulenta e deixe que ela se manifeste, olhe a turbulência, os pensamentos e agitações surgindo, a cada momento que eles se manifestem diga a si mesmo: ah! aí está como surge meu sofrimento! isto agora foi mera ansiedade, preocupação com o futuro, ah este outro é vaidade! ah ! este é ambição, este apego! e a cada momento em que se der conta, retorne para a respiração e o solo, a parede e o momento. Faça isto os 40 minutos a que se propôs, sem levantar por mais agitado que fique, aguente firme, não se levante porque a meditação está ruim. Faça-a somente. Não pense em capacidade, ou coisas semelhantes, apenas sente, não tente controlar, a mente não pode controlar a mente!
Haverá efeito, em um sesshin pode levar dois dias até que tudo passe, de tanto se apresentar, corcovear, a inquietação cansa e o samadhi naturalmente começa a ter seus momentos.
Na verdade com tanta inquietação é preciso aumentar a frequência, duas vezes por dia fica melhor. Se possível faça um sesshin, se puder, para encontrar outro patamar também.
(2003, resposta em correspondência)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Inquietude


P:Chego em casa com a cabeça a mil todos os dias e quando vou tentar me sentar, parece que alguma coisa me expulsa, não consigo me concentrar, não consigo acalmar minha mente. Acho que isso é simples questão de inércia, minha mente está muito turbulenta e está sendo necessário um esforço sobre humano pra acalmá-la, coisa que está acima da minha capacidade pelo visto. Minha inquietude está acima da minha capacidade de me concentrar.

R: Já aprendi que não adianta ficar dando argumentos para olharmos melhor o mundo do samsara. Melhor instruir sobre meditação, ela permite resolver tudo de que você falou, mas notei algumas coisas que precisam de instrução:
Você falou que está tentando se concentrar, não faça isto, simplesmente sente com aquela mente turbulenta e deixe que ela se manifeste, olhe a turbulência, os pensamentos e agitações surgindo, a cada momento que eles se manifestem diga a si mesmo: ah! aí está como surge meu sofrimento! isto agora foi mera ansiedade, preocupação com o futuro, ah este outro é vaidade!
Ah ! este é ambição, este apego! E a cada momento em que se der conta, retorne para a respiração e o solo, a parede e o momento. Faça isto os 40 minutos a que se propôs, sem levantar por mais agitado que fique, aguente firme, não se levante porque a meditação está ruim. Faça-a somente. Não pense em capacidade, ou coisas semelhantes, apenas sente, não tente controlar, a mente não pode controlar a mente!
Haverá efeito, em um sesshin pode levar dois dias até que tudo passe, de tanto se apresentar, corcovear, a inquietação cansa e o samadhi naturalmente começa a ter seus momentos.
Na verdade com tanta inquietação é preciso aumentar a frequência, duas vezes por dia fica melhor. Se possível faça um sesshin, para encontrar outro patamar também.