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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Quem tem Olhos, Vê





Os mestres são raros, essa é a realidade. É um grande privilégio encontrar um mestre. Mas, por alguma razão, algumas pessoas são atraídas por essa chama, estão procurando aquela chama e vão encontrá-la. E quando os mestres olham para as pessoas, também reconhecem nos olhos daqueles que estão procurando. E os olhos daqueles que estão procurando são também difíceis de encontrar.

Mas se você desenvolve esta mente que está procurando, você de alguma maneira é direcionado para encontrar e para reconhecer. Há um texto famoso de Dogen cujo título é “Só um Buda reconhece Buda”. Porque aqueles que estão mergulhados na ignorância não veem a sabedoria. Eles acham a sabedoria tola ou careta ou qualquer coisa. Um exemplo dentro da nossa cultura ocidental são os soldados romanos que chicoteavam Cristo, pois eles não viam quem era Cristo. Como você poderia chicotear um Boddhisatva? Você não poderia fazer isso… Mas se você tem uma mente obscurecida, você não enxerga nada. Passa um Buda no meio de nós e é um homem comum. Essa é que é a verdade.

Agora se você tem olhos, você olha e no meio da multidão você vê. Você vê um Buda. Isso acontece mesmo no meio dos monges ou dentro dos mosteiros. Não se engane. A gente não entra dentro de um mosteiro e todo mundo é maravilhoso. Mesmo dentro de um mosteiro é raro encontrar um mestre. É muita sorte quando você encontra um mosteiro que tenha um mestre real. Alguém que valha a pena. Você tem que ter os olhos abertos para ver isso.

[Trecho extraído de palestra proferida em Florianópolis, 23/08/2016, por Meihô Genshô Sensei]

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

SHIKANTAZA



Aluno – De onde viria a motivação para sentar?

Monge Genshô – No início você vem sentar por causa do sofrimento, porque tem alguma angústia existencial, ou porque demanda alguma coisa, uma procura. Mas esse é o primeiro movimento das pessoas, elas vêm com uma mentalidade aquisitiva. Mas com o tempo a prática de Shikantaza é apenas sentar, sem tentar adquirir nada, porque “adquirir” é um tipo de materialismo espiritual. Assim como nós queremos adquirir coisas na vida, acabamos querendo adquirir coisas espirituais. Então as pessoas vêm até nós e dizem, “ah, eu queria ter mais serenidade, eu queria ter paz, eu queria ter felicidade’. Querem adquirir uma coisa, e isso sempre tem esse sentido de comprar: eu faço e vou receber algo em troca.

Este é um impeditivo para o despertar, porque você trouxe a mentalidade aquisitiva para a prática espiritual, e a verdadeira prática espiritual é uma desistência. Então é muito bom quando o aluno diz “eu não sei mais por que eu estou sentando, eu só venho e sento, sei lá, tô viciado, se eu não me sento eu não me sinto bem, se eu não pratico não me sinto bem”. Isso é um bom momento na prática. Isso é muito sutil, porque pensamos que vamos praticar para obter algo, ou um mérito qualquer. O imperador Wu perguntou a Bodhidharma: “eu construí mosteiros e templos para o budismo, que méritos eu acumulei nos céus por causa disso?”. E Bodhidharma respondeu: “mérito nenhum, majestade”. A "majestade" está acostumada a comprar, todo o tempo, ele queria adquirir. Ele constituiu templos, mosteiros, e tudo o mais, “louvou” Buda, alimentou monges, etc, para acumular méritos, acumular tesouros. No Zen isso é materialismo espiritual.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O mundo da perambulação


(Palestra em Goiânia)
Tathagata,  é um dos nomes de Buda. Significa aquele que assim como vai, assim ele vem. Isso tem um significado para nós meditarmos, porque nós vivemos em mundos de perambulação, em que estamos continuamente alterando a nós mesmos. Nós mesmos nos alteramos internamente e os mundos em volta se alteram junto conosco. Chamamos o perambular, o mundo da perambulação de samsara, o mundo do samsara.

O que caracteriza o mundo do samsara é a procura incessante. Nós queremos achar algo que nos falte. Na verdade, nós todos estamos aqui porque vivemos no mundo do samsara, senão, não iríamos ouvir uma palestra. Se tudo estivesse perfeito, completamente perfeito, não tinha porque ouvir uma palestra. Temos que nos conscientizar – ah, eu vivo no mundo da perambulação. Nós perambulamos procurando felicidades, vamos a uma banca de revista e vemos a revista dos “felizes”.  As pessoas vão lá, lêem esse tipo de revista sobre famosos, que têm dinheiro, vivem em ilhas, têm iates ou qualquer coisa assim, achando que a felicidade é alcançada através da prosperidade, que vão alcançar a felicidade através de ter coisas. Mas isto é o próprio mundo do Samsara. Perambulo atrás de uma coisa a mais. Aquela coisa que vejo não é suficiente. Então procuro aquela outra coisa.

Qualquer pessoa que está nesse mundo de perambulação olha em volta e se compara com os que estão em volta. Os que estão na favela olham em volta e vêem os outros da favela. E ele vai se sentir próspero, vai se sentir melhor se tiver mais do que o vizinho. Então compra uma televisão melhor do que a do outro, assim então ele acha que se destacou do grupo. Só que se ele continua crescendo e sai da favela, tem outro grupo, outro grupo e outro grupo.

Uma vez tive a oportunidade de passar em Mônaco. Mônaco tem um porto e nesse porto estão estacionados iates. Mas quem tem um iate de 15 metros é um pobretão, coitado dele. O cara não é ninguém, tem apenas um iate de 15 metros. Ao lado há um iate de um sheik de 150 metros, 3 vezes maior, muito mais alto, com torneiras de ouro. Ele se vê pequeno no mundo da comparação. Então o que acontece quando vemos essas revistas por onde comecei, é que as pessoas olham para a revista para se comparar. Elas olham e vêem a comparação. Olham e imaginam que existe um outro mundo. Um mundo mais abundante do que o seu mundo próprio. E atrás de coisas materiais as pessoas fazem isso. Mas as pessoas fazem isso em outras áreas também.

As pessoas dizem - ah se eu tivesse um amor. A pessoa perambula de amor em amor. Este amor não deu certo, esse não é suficiente, essa pessoa não tem tudo que eu queria. Tem falhas nessa pessoa. Aí ela vai  para outra, outra pessoa, outra pessoa. Isto é também um perambular. Perambula achando que logo a seguir vai achar. É como se andasse sem rumo num mundo de um lado para o outro, procurando algo que fosse, enfim, o satisfatório. Agora o que o mundo do samsara ensina para nós é que não existe na verdade o satisfatório. Foi isso que Buda ensinou. Essa é a primeira nobre verdade, não existe o satisfatório. O satisfatório é inalcançável, pois a característica da vida é Dukkha, é ser insatisfatória. (continua)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Por quê atraídos?



Pergunta – Uma coisa muito difícil de eu entender é a questão do carma. Eu já andei por alguns caminhos de busca espiritual e finalmente, no Zen, eu encontrei um local de paz, um local que eu posso chamar de casa, minha pergunta é por que algumas pessoas encontraram, assim como eu, esse local e outras não? Por que alguns percebem e outros não?

Monge Genshô – As pessoas recebem o que procuram. Você se sente atraída por esse local, sentiu-se atraída pelo Dharma e pelo budismo e veio até aqui. Você ouve as palavras, as palestras e aquilo parece exatamente o que você queria ouvir. É como se fosse uma lembrança antiga, como se você tivesse chegado em casa e essa sensação é porque existe em você uma marca cármica anterior. No passado, muito provávelmente em outra vida, você ouviu o Dharma e por isso ele lhe é familiar. Você perguntou por que algumas pessoas sentem-se atraídas e outras não? Algumas vem, ficam por um tempo depois vão embora, isso é bastante natural, porque para treinar por longo tempo é necessário marca cármica forte e uma grande vontade.

As escrituras antigas dizem assim, “treinar como se seus cabelos estivessem pegando fogo”. Ou seja, com desespero pelo despertar, como foi o caso de Buda, ele desesperadamente queria encontrar a resposta, então treinou duramente para isso. As histórias dos mestres antigos são as mesmas, longo tempo de procura e treinamento duro, árduo. Por que você não desiste? Porque cria uma marca cármica profunda que faz você persistir na busca. Se essa marca não fosse suficientemente forte você ficaria um pouco e iria embora, mesmo assim a semente fica e em outra vida se manifestará. Mas isso poderá levar muito tempo. Como Buda falou, “Em outra vida quando eu ainda era um bodhisatva...”. Existe uma historia mítica que diz assim, “um Buda do passado vinha caminhando e havia uma poça de lama, então um jovem atirou-se na poça, curvou-se e colocou as mãos para cima, de forma que o Buda pôde pisar sobre suas mãos e costas e atravessar a poça, então se virou para o jovem e disse, daqui a quinhentas vidas você será um Buda”. Esse jovem era Shakyamuni Buda. Há quinhentos anos ele já era capaz de jogar-se aos pés de uma pessoa para ajuda-la a atravessar uma poça, mesmo assim levou quinhentas vidas como bodhisatva. Assim nasceu a prostração budista com as palmas para cima afim de receber os passos de Buda.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Os inquietos



Pergunta – Gostaria que o Senhor falasse sobre a transformação da mente. Nesse processo existe sofrimento, porque algumas vezes,  a gente sabe e entende, mas a grande questão  - é a prática, a convivência, a atitude da pessoa. Entre a teoria e a prática há um sofrimento de querer  chegar a esse ponto, não é assim?

Monge Genshô – O simples fato de haver desejo - o desejo de se libertar - implica nesse sofrimento. Na realidade, todos os professores que eu conheci foram homens inquietos, com grandes desejos de se libertar que se entregaram a uma profunda e sofrida busca. Você tem toda a razão. Moryama Roshi, ficou vinte anos dentro de um mosteiro e passou alguns anos, completamente sozinho nas montanhas, sem energia elétrica e tendo que carregar água. Ele costumava dizer que tomar banho era uma tarefa de três horas, pois tinha que carregar a água e fazer uma fogueira para aquecê-la.
 Nós estávamos em uma palestra e alguém perguntou a ele, “Mestre, o que o senhor aprendeu com tantos anos de retiro solitário?” ao que ele respondeu, “Bem, na primeira noite em que fiquei sozinho, na hora de dormir, eu não conseguia, porque sentia medo. Pensava que poderia ser surpreendido por um assaltante ou por um animal selvagem, visto estar em um local deserto, então, não conseguia dormir por medo. Depois desses anos sozinho, descobri que essa era a grande lição que tinha que aprender: eu tenho medo”.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Os dez passos em busca do Boi





Os dez passos em busca do Boi - parte I

Vamos estudar um texto muito famoso do zen e também os comentários feitos a respeito por Katsuki Sekida. Trata-se do texto “Os dez passos em busca do boi.” Temos aqui o boi, simbolizando o que seria a mente.

O primeiro passo é “Começando a buscar o boi”. Na literatura budista se compara o boi com nossa própria natureza verdadeira, assim, buscar o boi é investigar esta natureza, e o primeiro estágio é o começo dessa investigação. Consideremos um jovem no umbral do caminho: sua imaginação espera muitas coisas do futuro. Umas vezes, alegre, outras pensativo, espera que a vida tenha destinado para ele algo, mas não sabe o que ocorre na realidade, pois, na verdade, ele mesmo não sabe bem o que deseja da vida. A imagem é um homem no caminho. Ele não enxerga o boi que está procurando, ele poderia abrigar a idéia de trabalhar para os demais negando a si mesmo, se sacrificando. Pode ser que pense assim: “Quero fazer algo grande, quero saber como se constitui o mundo e que papel há de ser o meu, quem sou eu, que posso esperar de mim”. Então ele poderá iniciar seus estudos em algo que possa levá-lo a cumprir seus objetivos e sonhos, e em qualquer direção que vá tende a encontrar-se com uma intrincada rede de tráfego, uma espécie de grande labirinto. Trabalhando numa situação que não havia previsto originalmente, vai andando e, de repente, apesar do caminho estar fixado, surge-lhe a sensação de que algo falta. É nesse momento que as pessoas procuram uma religião.

O zazen é o treinamento para converter-se em Budha, para voltar a ser um Budha, posto que a pessoa não perceba que é um desde o princípio. Então ele encontra-se no estágio de iniciar a “busca do boi.” Essa é praticamente, a descrição de todos que chegam a uma prática espiritual - aconteceu algo, parece que a rede da vida não é suficiente ou está incompleta, não nos realizamos completamente.
(continua)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Busca


"O macaco busca a lua na água
Até que a morte o encontre, não desistirá
Se apenas abandonasse o galho e sumisse no lago profundo
O mundo inteiro brilharia com surpreendente claridade"

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Mestre



"Boatos espalharam-se por toda a região acerca do sábio Homem Santo que vivia em uma pequena casa sobre a montanha. Um homem da vila decidiu fazer a longa e difícil jornada para visitá-lo. Quando chegou na casa, ele viu um simples velho dentro que o recebeu, abrindo a porta.

'Eu gostaria de ver o sábio Homem Santo,' disse ele ao outro. O velho sorriu e permitiu-o entrar.

Enquanto eles caminhavam ao longo da casa, o homem da vila olhava ansiosamente em torno, antecipando seu encontro místico e divino com um homem considerado um verdadeiro Santo. Mas antes que pudesse dar pela coisa, ele já havia percorrido a extensão da casa e levado para fora. Ele parou e voltou-se para o velho:

'Mas eu quero ver o Homem Santo!'

'Já o fizeste.' disse o velho. 'Todos que tu encontras em tua vida, mesmo se eles pareçam simples e insignificantes... veja cada um deles como um sábio Homem Santo. Se fizeres deste modo, então quaisquer que sejam os problemas que trouxeste aqui hoje, serão resolvidos.'

E fechou a porta."

Conto Zen

Quem não procura um mestre, um guia, um orientador? De certo modo estamos todos nesta busca, ou já estivemos em algum momento, até que a decepção do cotidiano sem mágica dominasse nosso coração. Já na infância (quem sabe justamente por causa dela) ansiosamente sonhávamos encontrar o herói ou heroína que possuiria o maravilhamento e dignidade mágica dos seres perfeitos. Queríamos estar próximos desta personagem luminosa e bela, e de muitas formas também queríamos ser como ela. De início, imaginamos o Mestre nas figuras imaginárias e celestiais, nas fadas-madrinhas, nos magos poderosos, nos seres maravilhosamente inefáveis que povoam as nossas mentes infantis. Lutavam contra dragões, contra os monstros que espreitavam nossos sonhos.


Logo depois surge a possibilidade do Mestre existir em nosso pai, nossa mãe; para aqueles em cuja infância esta possibilidade era impossível, o Mestre era todo aquele que nos transmitisse a promessa de força e orientação - para melhor ou para pior: um professor, nossos avós, quem sabe? À medida que crescemos e o mundo se torna cada vez mais difícil de definir apenas através dos contos e sonhos da infância, recriamos a concepção do mestre através das nossas muitas e variadas projeções e expectativas pessoais, nossa educação religiosa, nossa cultura. Em determinado momento o mestre se dilui no amplo deserto de concretude, racionalismo e rotina que muitas vidas se tornam. O poderoso sonho de infância, aquela potencialidade valiosa que toda criança carrega consigo e que poderia fazer surgir em cada ser humano toda a sua beleza e sabedoria, se esvai no processo endêmico de inconsciência e falta de discernimento das sociedades. A angústia da solidão da alma espreita os corações cotidianos, fazendo nascer crentes ou céticos, românticos ou cínicos, mas poucos buscadores conscientes.


Assim a idéia do mestre passa para outros universos, e o ideário do orientador e guia é direcionado para o mundo político, social, religioso ou místico menos leve e mais prático da idade adulta. Neste momento o desejo humano de realização psico-espiritual se espraia para um grande espectro de
possibilidades: alguns mantém a beleza potencial da infância e sabem amadurecer esta busca em si mesmos, mas a maioria sucumbe à frieza do cotidiano, à praticidade cética do intelecto ou às futilidades pessoais e simplesmente troca o simbolismo do mestre sensível pelo do mestre vazio, ideológico ou artificial; mais alguns se perdem nas fantasias distorcidas, fanatismos religiosos ou misticismos exacerbados e anseiam pelo encontro com algum ser fantástico, extraordinário ou extraterrestre, que representará em maior ou menor grau aquilo que secretamente esperam encontrar - ou eles mesmos encarnarem.


Força? Poder? Fama? Assombro ou sabedoria mística? Qual será a grande sedução do mestre? Qual será a mágica adulta que nos fará seguir este ou aquele, qual inspiração a figura do líder nos provoca? Pois acredite, todos nós seguimos ou buscamos seguir alguém que nos inspire. Mesmo aqueles que sucumbiram à frieza do dia-a-dia sem mágica ainda desejam ouvir palavras que lhes façam sentir melhor o ritmo da vida, apesar de nem mesmo saberem disso.
Mesmo os racionalistas, determinados a jamais admitir sua subordinação aos sonhos, também abrigam secretamente no coração o anseio pelo encontro com a sabedoria (talvez travestida em intelectualismo empírico) e seguem atentamente os seus mestres do conhecimento ou da retórica.


Assim, o que estamos buscando realmente? O que desejamos do mestre? Na verdade, todos queremos um pai. Até porque a mãe, mesmo a mais fria e cruel, não pode nos negar o fato de que habitamos seu útero, e com ela compartilhamos carne e sangue. Mas o pai... onde está nosso pai? Como atingi-lo, tocá-lo em sua intimidade, ser uno com ele? Onde está o útero paterno dentro do qual podemos nos forjar homens e mulheres íntegros e sábios? Eis o porque da busca pelo mestre ser uma busca de natureza yang, masculina, criativa; de uma certa forma buscamos a comunhão com o pai, queremos conhecer um modo de também unir nossa carne e sangue com a face masculina da vida. Pois apesar da aparente ditadura paternalista das sociedades humanas, somos muito mais órfãos do toque firme das sábias mãos paternas do que do suave embalar do amoroso colo materno. Por que? Porque a Mulher se define em si mesma, é íntegra em sua profunda união com a terra, é a representação da Raiz do Mundo. Mas o Homem se perde em muitas batalhas, está sempre imerso em uma peregrinação eterna para encontrar sua própria tradução, representa o inefável e fugidio Coração do Céu. Sempre temos a Grande Mãe próxima de nossas mãos e corações; já o Grande Pai, este temos de alcançar por esforço próprio, pois jamais estará no mesmo lugar duas vezes; o mestre não nos espera, ele caminha pela margem do rio, apontando sempre para a verdadeira meta: a margem oposta. Realmente, o Pai se move por caminhos misteriosos...



Mas quando esta constatação nos escapa, quando o vinho do místico não atinge nossos lábios com a força necessária, esquecemos o sentido da busca e queremos apenas um mestre que corrobore nossas metas, que nos diga aquilo que queremos ouvir, e que seja como nossas fantasias pessoais imaginam. Na tradição Taoísta, assim como na Zen-buddhista, há uma importante lição sobre o mestre, lição esta que aprendi no início de minha prática e que se provou completamente pertinente ao longo de meus anos de estudos e esforços: quase sempre subestimamos o verdadeiro mestre.


Essa é uma lição amarga. Certa vez, um amigo me confessou que ele realmente busca encontrar alguém que encarne o poder místico de um mestre; alguém que transmitisse alguma "luz" ou energia transcendente, alguém que emanasse o poder da sabedoria através de fenômenos psíquicos, manifestações de poder mental. Assim, seria fácil ele dizer para si mesmo com convicção: "Sim! ESSE é um verdadeiro mestre!". Quantos de nós pensam exatamente o mesmo? Quantos entendem a força de caráter e sabedoria como algo que só pode ser transmitido de forma mágica, divina, não-humana?


E no entanto, o mestre possui o coração simples e a mente clara dos seres de bom senso. O mestre não precisa levitar, não transforma o chumbo em ouro, não carrega em si uma necessária magia sedutora. Gostaria de encontrar um mestre? Eu tenho a lhe oferecer duas boas possibilidades, ambas facilmente
alcançáveis: a primeira, observe sua família e amigos; no seio de seus semelhantes mais rotineiros está a face de um mestre poderosíssimo. Este é um mestre implacável e duro, porque ele não é condescendente com nossas vaidades, mimos ou fantasias ignorantes. Em meio às pessoas que povoam nosso cotidiano, pessoas que menos valorizamos como sábias e coerentes, pode-se ouvir o sussurro de uma linguagem sutil de aprendizagem e sabedoria. Mas este mestre exige muita atenção e prática para ser visto e ouvido; normalmente é o mais acessível e o menos perceptível. Afinal, se fôssemos conscientes de que nossa fonte mais profunda de humildade e sabedoria reside justamente nos aspectos menos inusitados da vida, não seriamos estes homens e mulheres tão tensos e insatisfeitos que somos, não é mesmo? Muita tristeza e muitas mágoas seriam evitadas se todos nós soubéssemos enxergar o Mestre no cotidiano de nossas relações familiares e fraternas, nas faces de nossos inimigos e nos gestos de nossos semelhantes.


O segundo meio de buscar o mestre pode ser encontrado no contato com pessoas de bom senso e coerência. Elas existem, podem acreditar. Mas o problema é que frequentemente elas não estão na TV, em templos ou oferecendo palestras grandiosas. O segredo para conhecer este mestre é: aprenda a ouvir atentamente, refletir cuidadosamente, e comprovar por prática direta se aquilo o que é dito é saudável e possui fundamento. Simples não? Nem tanto.
Estamos muito cheios de si para abaixar a nossa guarda e enfrentar as opiniões e idéias com a mente vazia, a mente no não-eu. Aquilo que ouvimos do mundo atinge nosso entendimento após passar pelo filtro de nossas próprias expectativas, nossos anseios, nosso egoísmo. Assim, nem sempre o que entendemos como "saudável" o será realmente. Deste modo, como as tradições zen e taoísta procuram demonstrar, o mestre quase sempre nos passa despercebido, às vezes até menosprezado.


Muitos de nós são profissionais em se posicionarem independentes e alheios a qualquer mestre. O argumento é o mesmo: devemos buscar o mestre em nós mesmos, e não externo a nós. Ora, de fato este argumento tão difundido carece de um detalhe, em geral esquecido: aquilo que sustenta nossa capacidade de auto-organização e auto-orientação depende fundamentalmente daquele mestre externo, sem nome e sem corpo definido, encarnado nos seres extraordinários que passam por nós em certos momentos, apontando o caminho através de suas ações coerentes e candura de espírito. A vida possui uma fantástica capacidade de nos apresentar o místico através do comum. Ela faz isso todo o tempo, sem cessar. Ás vezes conhecemos grandes pessoas, ouvimos advertências e orientações valiosíssimas de seres aparentemente sem nenhuma importância religiosa, social, política ou espiritual, e serão neles que o Mestre vai se manifestar. Só depois, muito depois, poderemos ouvir o mestre interior. Jamais pretenda negar o valor da vida externa na pretenção de atingir seu mestre interno.


Mas e o mestre físico, aquele homem ou mulher palpável junto ao qual podemos nos sentar e ouvir as palavras de conforto e otimismo que irão nos curar as feridas da alma? Bem, estes na verdade são apenas arautos do verdadeiro mestre. Surgem e desaparecem com o tempo, seguindo as marés da vida humana.
São místicos e transcendentais? Isso não tem a mínima importância, os mestres reais são apenas honestos e verdadeiros, e condutores de uma sabedoria claramente amadurecida e equilibrada que pode curar-nos de nós mesmos. Se podem levitar ou lançar raios pelos olhos, será irrelevante.


Como podemos reconhecer o grau de coerência de um pretenso mestre? Para isso, é preciso uma grande dose de disciplina e prática contemplativa, e muita energia de discernimento e atenção. Vivemos um tempo onde muita informação é oferecida, e pouca paciência é praticada para ponderar sobre sua validade. Mas não se iluda com seu mestre, se acha que já o encontrou:
ele também passará. Mesmo o homem ou mulher mais sábio não será o mestre definitivo, eles apenas indicam um caminho de atenção e prática constante, de forma a que reconheçamos finalmente a face e a voz do mestre real em todas as coisas do mundo. Eis porque é dito no zen: se encontrares o Buddha, mate-o. Pois, afinal, não há maior professor e mestre do que este: a liberdade da mente.


Deixo para o final deste ensaio o anúncio da maior busca possível: a busca pela liberação de si mesmo. Quando passamos pela vida olhando cada canto e esquina à procura do santo, do divino e do sábio, devemos aprender a lição de que o ensinamento mais precioso é a simples capacidade de viver sem apegos, sem aversões, sem indiferenças. E quando compreendermos a arte da felicidade através da ótica de consciência, a porta da busca se fecha. O quê mais haveria para procurar?"

Tam Huyen Van – Novembro, 2005 – Ano Buddhista de 2549