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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Samu


 (continuação)
Monge Kômyô:  O samu uma forma de estabelecer o zazen através do trabalho, da ação que tem como objetivo contribuir para melhorar o nosso espaço. O samu não é trabalho escravo. É zazen. Eu ouvi uma história muito interessante, de uma grande amiga minha... ela costumava ir no retiro de um dia  lá em São Paulo. E numa vez que ela foi, havia uma pessoa, uma moça, que era a primeira vez que tinha ido, estava muito interessada em praticar o Zen, etc. Teve o zazen e aí chegou o momento do samu. Aí a moça perguntou para o monge: “Espera aí, tem que trabalhar?” Ele explicou, é o samu. Faz parte da prática. Nós ajudamos a organizar o espaço, a limpar. Nós usamos o espaço e respeitamos o espaço, limpamos, etc. Mas a moça ficou indignada. Ela achou que não tinha que trabalhar. Ela estava ali para praticar. E foi embora do sesshin. Essa não é uma história incomum. Algumas pessoas se surpreendem com o samu. Algumas acham, por exemplo, em um retiro... ela vai pensar assim: “não, eu estou pagando pelo retiro, eu tenho que trabalhar? Não. Eu estou aqui para usufruir.” Essa é a mentalidade do lucro, do ganho. É quando uma mente não saudável entende que em tudo que ela oferece dinheiro, acha que ela tem direito de receber em troca, ela só recebe. Ela acha que o dinheiro é tudo. O dinheiro é uma doação. Mas o trabalho contemplativo se estabelece em aprimorar, intensificar a aprofundar a nossa capacidade de agir em grupo. Isso é o sangha. Vocês me desculpem porque eu chamo o sangha. A sangha não está errado. É que eu estudei sânscrito durante muito tempo, aí eu acabei me acostumando. Sangha é um termo masculino em sânscrito. É como o dharma, o sangha.
A comunidade então é um trabalho contemplativo de integração. Nós praticamos juntos, nós trabalhamos juntos. E o trabalho é uma forma de estabelecer o zazen, a atenção plena em uma ação construtiva para favorecer o próprio ambiente do sesshin. Ninguém está querendo se valer do trabalho de alguém para limpar o ambiente. Ao mesmo tempo, o samu – eu acho muito importante, justamente por esse aspecto –, ele nos dá uma oportunidade de compreender a humildade. Não tem empresário que ganha milhões, não tem um lixeiro... Em um retiro, qualquer um, todos nós, qualquer que seja o nosso nível financeiro, social, no samu, fazemos as mesmas coisas: lavamos pratos, varremos o chão, lavamos banheiro. Aprendemos a valorizar esses atos, de tal forma que com o tempo eles deixam de ser atos cotidianos chatos e se tornam atos maravilhosos de zazen. Bem, talvez seja assim meio chique ou místico lavar prato em um retiro. Mas e na casa de vocês? E na nossa casa? Quando nós retornarmos às nossas casas, voltarmos às nossas vidas, ao nosso dia a dia? Vamos continuar tendo que lavar louça, lavar roupa, lavar banheiro, varrer o chão. Bem, em geral, na vida, na sociedade moderna, contratamos alguém para fazer isso. Mas eu aconselho a vocês todos que, mesmo que vocês, nas suas casas, tenham pessoas, empregados,  que façam, nunca deixem de, de vez em quando, todos os dias, em algum momento que vocês tenham oportunidade, de fazer o mesmo trabalho também. Aquele trabalho que o empregado ou a empregada faz. Prestem atenção nisso.
 Observem que o mesmo mecanismo de interpretação daquela moça, que ficou indignada e saiu do sesshin, pode ocorrer conosco. “Eu estou pagando essa moça, ela que tem que trabalhar. Ela que tem que lavar a louça, tem que varrer o chão, lavar o banheiro. Eu não.” Não é assim. Nós precisamos saber estabelecer nas nossas vidas pessoais o regime de um sesshin, mas adaptado ao cotidiano. O trabalho pode ser muito. Provavelmente todos vocês têm famílias e, às vezes é um trabalho mais intenso. A pessoa que nós contratamos nos ajuda. Mas isso não significa que nós não devamos, de vez em quando, pegar na vassoura para varrer o chão, lavar o banheiro. “Hoje eu vou lavar o banheiro. Hoje eu vou lavar a louça”. Todos. Homens, mulheres. Eu estou falando para todos. O estabelecimento de uma prática que vise nos dar uma perspectiva mais simples e humilde ajuda a colocar a nossa mente na realidade das coisas como elas são. Ajuda a diminuir o condicionamento e a ilusão das nossas mentes. De que as coisas existem para nos favorecer. Nós favorecemos também. A natureza – a humanidade vive isso já há muito tempo, mas a hiper-modernidade está tornando isso pior e até mais intenso – a natureza pode ser usada para nos favorecer, mas nós temos que saber favorecer a natureza, senão ela acaba. Essa é a mentalidade exploratória. O Abhidharma chama de mente vikalpa. É a mente que entende as coisas separadas. A árvore agora me dá sombra. Me dá essa brisa extremamente refrescante. Mas, eu comprei esse terreno e vou construir uma casa. Ah, essa árvore está incomodando, ela é muito grande. Suja o chão. Eu já vi muita gente falando que folha suja o chão.
 Existe uma história zen. Havia dois mosteiros, dois templos. Um, um pouco mais bonito, um pouco mais elaborado, maior. No templo do lado – mais humildezinho – vivia um monge que já era bem velhinho. No outro templo, havia uma cerquinha baixa, que separava os dois templos. E ocorreu que, num dia desses, o monge velhinho do templo menor estava encostado no muro assim do templo dele e vendo um outro (um monge jovem) do outro lado, num templo grande, que tinha um jardim zen bonito. Esse monge estava empenhado em limpar o jardim. Então ele trabalhou, andou a manhã inteira catando as folhas, arrumando e passando ancinho na parte do jardim zen que tem os seixos com as rochas. No final de uma manhã cansativa de trabalho, ele foi até o muro e se encostou junto com o monge velhinho, cansado, suando e falou: “Agora sim está bonito e está lindo”. Aí o mongezinho, o velhinho falou: “Só está faltando uma coisa.” Aí ele pulou a cerca. No meio do jardim lindo tinha uma árvore. Ela estava no período de troca de folhas. Era uma árvore bonita. Aí o mongezinho foi lá até aquela árvore – não era uma árvore grossa, – ele segurou a árvore e sacudiu a árvore. Caíram folhas ali. “Agora está bonito. Agora está perfeito.”
Então, o conceito de harmonia, beleza precisa ser entendido dentro da integração do ambiente que nos favorece e nós favorecemos a ele. É a compreensão do movimento natural das coisas. As folhas caem! Isso é tão bonito. Talvez alguns aqui saibam que eu tenho uma formação em Arte. Sou artista. Mas também... sou biólogo. Sou artista plástico e sou biólogo. E esses dois aspectos da minha vida, se compõem muito bem nessa idéia de saber compreender o movimento da beleza nas coisas. Entender o que realmente é o lixo e o que é na verdade uma composição natural do ambiente. Uma folha de uma embalagem plástica de um chocolate, amassada e jogada aqui, isso seria um lixo. Nós iríamos retirar e levar. Se for possível reciclar, se for um papel, ótimo. Se não for, temos que retirar e colocar no lixo. (continua)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O ódio só cessa com o amor



Pergunta – O senhor poderia falar um pouco sobre a violência?

Monge Genshô – A violência é a continuação da palavra por outros meios, e a palavra é a continuação dos pensamentos por outros meios. Onde nasce a violência? O grande teórico da guerra Clausewitz escreveu que “A guerra é a continuação da política por outros meios”, ou seja, quando os homens não conseguem o que desejam apelam para meios que lhes pareçam satisfazer suas ambições e isso sempre começa com o pensamento do desejo. Quando se tem desejos e não se consegue realiza-los a primeira tentativa é pela palavra com pedidos ou ameaças. Se com as palavras não der resultado então parte-se para ações, então, pode surgir daí a violência.

O que interessa sob o ponto de vista Budista é que em qualquer desses estágios há consequências. Os pensamentos geram consequências ao formar uma mente ambiciosa e violenta. Uma mente assim produz palavras do mesmo tipo, palavras e teses para justificar-se ambicioso ou violento. Após isso vem então as ações e mesmo para estas conseguem-se justificativas. Normalmente justifica-se o uso da violência para combater a violência, como uma pessoa foi violenta com outra ela acha-se no direito de reagir também de forma violenta e isso cresce sem limites. A cada passo dado parece um caminho sem volta, cada degrau escalado, você só sobe, vai cada vez mais alto. Mas isso não é só de pessoa para pessoa, as nações também justificam-se da mesma forma.

Não faz tanto tempo que nações iniciaram uma guerra por quererem o território de outras. A tese e justificativa nazista para a Segunda Guerra foi o “Espaço vital” e para ter aquele território valia matar todos seus ocupantes. Se formos olhar na Bíblia, Livro de Números, capítulo trinta, está escrito que o Senhor Deus de Israel manda que seja tomada uma cidade e que sejam mortos todos os homens, mulheres, animais, crianças com uma única exceção, as meninas com menos de doze anos que deveriam ser poupadas para usufruto dos conquistadores. Isso foi bem antes de Jesus Cristo, mas mostra como é a mentalidade de conquista do ser humano. Houve tempo que isso era tão legitimo que estava nos livros sagrados. Ora, para Buda, 2 600 anos atrás, a consideração era "o ódio não cessa com o ódio, o ódio só cessa com o amor".

Não podemos nos admirar que hoje exista violência, até bem pouco tempo, setenta anos atrás era o instrumento de conquista da Alemanha na Europa. Toda a história de invasão do Tibete nos anos cinquenta pela China nada mais é do que a tentativa de apoderar-se de um território, não interessa seus moradores, isso é de tal forma poderoso, que hoje existem mais chineses que tibetanos no Tibete. Os tibetanos insatisfeitos foram expulsos ou mortos e oito milhões de chineses deslocados para dentro do país. Na verdade o uso de violência com fins de conquista territorial ou de bens materiais continua até nossos tempos. Isso é tão forte que os países, no caso da China, que são seus aliados comerciais, não se pronunciam contra essa violência.