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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Olhar Crítico aos Textos Sagrados



Aluno: a própria bíblia em si, algumas partes dela são compostas de fatos históricos, mas ela também tem muita interpretação dos fatos, não?

Monge Genshô: na verdade, a bíblia é constituída de 60 e poucos livros de muitos e diferentes autores. A palavra bíblia vem de "biblos", que em grego quer dizer "os livros". Então, é uma reunião de textos que não estavam juntos antes - eles foram consolidados muito depois, inclusive os evangelhos foram escolhidos entre 40 diferentes, e todos os outros foram declarados apócrifos e aqueles 4 escolhidos no famoso conselho de Niceia.

Bom, evidentemente a bíblia é então um documento histórico interessante e com muitas referências. Algumas serão contraditórias, outras serão enganos. Por exemplo, lemos que há um objeto grande dentro do templo e que a sua circunferência é 3 vezes o seu diâmetro. Na realidade é só uma aproximação, pois nós sabemos que pi é 3,14 de diâmetro, e não 3 vezes. Mas no tempo da escrita do livro não se sabia dessa relação, de modo que ela é colocada errada no texto. Há muitas coisas deste tipo dentro dos textos históricos.



Mas vamos nos referir aos textos budistas, que também não fogem dessa característica. O Sutra de Lótus, que é um dos muitos famosos, originalmente teve menos capítulos. Hoje ele tem 28 capítulos e isso é uma quantidade importante de interpolação de textos, porque cada vez que alguém compilava dizia: "Poxa, mas faltou alguma coisa", e acrescentava. 

Quando o budismo chega na China, os chineses ficam meio horrorizados porque budistas não davam muita atenção para essas coisas de "meu pai", "minha mãe", "minha avó", "antepassados", e os chineses reverenciavam os antepassados, ponto importante no confucionismo. A China daquela época era toda baseada em respeito filial aos pais. O Sutra do Lótus não falava disso, mas hoje tem um capítulo só sobre pais e filhos, que é originário desse momento na China. 

Também os textos budistas necessitam uma certa desconfiança: “isso aqui é um pensamento original de Buda?”, porque pode não ser. Você tem que verificar se ele é coerente no contexto geral, porque pode ser contraditório. Eu já vi um texto atribuído a Bodhidharma que dizia que não seria errado matar opositores. Como um alguém coloca algo tão sectário e odioso dentro de um texto budista?”. Evidentemente que isso foi escrito por alguém que estava dentro de uma briga feia com outro grupo budista e atribuiu a fala a Bodhidharma somente para ter crédito.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Falácias em "pesquisas e estudos"

Fotos de visita, no Japão, de Kyô Hô San (Rachel) a Saikawa Roshi, acompanhada de Shutetsu San.

A foto é de pessoas budistas que procuram a lucidez, o que me fez lembrar do problema, cada vez mais frequente na internet, de pessoas divulgando pesquisas que  "provam" as coisas mais disparatadas. Vamos tomar uma como exemplo, nela se diz que "Uma sessão diária de leitura com duração de 30 minutos. De acordo com um estudo da Universidade de Yale, dos Estados Unidos, é disso que você precisa para viver 23 meses a mais do que quem não tem o hábito de ler livros."  (Publicada em vários órgão de imprensa e viralizada na internet).
Sou um leitor contumaz, leio em média um livro por semana há mais de 50 anos, adoraria que isto fosse verdade, a questão é que este tipo de pesquisa costuma pegar uma correlação estatística sem considerar outros fatores, a pesquisa faz crer que é o ato de ler que aumenta a longevidade média. Ocorre que as pessoas que lêem mais tem em média melhor educação, também tem em média uma renda mais alta, melhor acesso a atendimento médico de qualidade etc... podemos listar vários outros fatores associados em média ao ato de leitura diária.
Ora, concluir daí que a leitura prolonga a vida é isolar um fator real e atribuir a ele um efeito difícil de isolar, uma falha de metodologia estatística. Por esta razão citei um economista brilhante que observou que "os números suficientemente torturados dirão qualquer coisa", coisa de largo uso na propaganda política.
Oro que os budistas tenham o discernimento de nada aceitar sem considerar e pensar, sem examinar, conselho dado 2500 anos atrás por Buda no seu sermão aos Kalamas.

terça-feira, 10 de março de 2015

As duas asas



Aluno: o ensinamento pode ser um gatilho para um insight?

Monge Genshô: Com certeza. São as duas asas. Você não voa com uma asa só. Alguns  ficam lendo livros e ficam fascinados intelectualmente com a profundidade filosófica do budismo e do Zen. Há muito livro escrito. Mas a linguagem é falha para comunicar. Estou falando aqui, em que medida estão todos me entendendo mesmo, de verdade? Todos, obrigatoriamente, estão me entendendo parcialmente pois estão me lendo dentro de seu próprio background cultural. Estão lendo a partir de sua própria experiência etc, sempre com pequenas diferenças em relação aquilo que quero dizer. Se eu digo “árvore”, qual é a sua árvore?

Aluno: Mangueira.
Aluna: Ipê.
Aluna Pinheiro.
Aluna: Jacarandá.

Monge Genshô: estão vendo? Eu digo “árvore”, mas cada pessoa vê uma. Então há uma dificuldade com a linguagem. Você tem um símbolo que intermedia a compreensão e que é decodificado por cada receptor. Então você vai tentando ensinar, mas, você está usando símbolos e as decodificações vão alterando a interpretação, de modo que o ensinamento não é perfeito. A prática tem uma virtude de não ser intermediada pela linguagem. Assim como expliquei nos casos dos rituais, você pode ter um insight direto, intuitivo a partir de um ritual. Essa compreensão é mais profunda e melhor do que a explicada.

Por isso às vezes as pessoas pedem uma explicação de uma coisa como essa e eu digo que não vou dar explicação. Vai ouvindo, se daqui a cinco anos você entender, esse entendimento é melhor do que eu explicar. Estava falando desse assunto uma vez com o Roshi e ele disse: "E por que então usamos a linguagem? Porque é tudo que nós temos".  Sento aqui para dar uma palestra, o que posso usar? A linguagem. Por isso os mestres escrevem livros, fazem palestras, por isso eles ensinam, só por isso.

Agora, quando alguém só quer o ensinamento e não quer sentar, praticar, tem uma ação  inútil. É como alguém que diz que quer aprender a nadar e fica lendo manuais de natação. Todo mundo sabe que isso é absurdo. "Ah, li vinte manuais de natação, sei tudo sobre natação.", "Sabe? Vou te jogar na piscina", "não, não, piscina não, porque tenho medo de água". É igual no Zen.

(Palestra decupada por Pedro San e revisada por Kyô Hô San)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Não se voa com uma asa só


 (continuação)
Uma vez eu encontrei um homem que me disse ser muito interessado no budismo. Ele abriu a sua pasta e, lá, havia cinco livros budistas. Era um professor de universidade, e logo me falou que tinha uma biblioteca com 200 livros sonbre o Dharma. Eu disse: “Magnífico. Eu tenho só uns 30 lá em casa”. Nós íamos viajar de avião, estávamos numa sala aguardando o embarque, e ele me disse que tinha muito problema em voar. “É porque não pode fumar, e eu preciso!”, me contou. “Eu não posso fazer viagens longas e ficar sem fumar o meu cigarro, me dá um desespero”. Então eu falei que ele teria que fazer meditação, e ele disse que não poderia meditar, pois não pode [ao mesmo tempo] fumar. Então não tem solução para ele. Ele sabe muito, mas não pratica nada. E isso é a mesma coisa de alguém dizer “eu sei muito sobre natação”, eu li muitos manuais sobre natação. “Mas o senhor já entrou numa piscina?”. “Não, não. Eu tenho medo d’água”.

Então esta pessoa não sabe sobre natação, ela sabe sobre os manuais. A mesma coisa acontece no budismo, e por isso não adianta elaborar teoricamente demais.  Assim como estudar arte é interessante, saber é interessante. Mas não me diga que sabe música porque você leu uma enciclopédia sobre o assunto, mas se lhe derem um instrumento você não toca. Você tem que usar o conhecimento “e” praticar. Só com essas duas asas é que você consegue voar. Não se consegue voar com uma asa só.

Por isso é tão importante nós sentarmos em zazen. Quando nós sentamos é que nós vemos os problemas reais. Nesse processo, vocês conseguem ficar parados? Conseguem aquietar o corpo? Conseguem respirar? A mente não para? É isto que está ocorrendo? Se sim, então precisa de uma prática mais intensa. Nos mosteiros, por exemplo, nós começamos a meditação todos os dias de madrugada. Nos levantamos às 4h, às 4h20 temos que estar na sala (zendô), e daí fazemos 1h30 de meditação, sendo 40’ de zazen (sentados) 10’ de kinhin (meditação andando) e mais 40’ de zazen em seguida. Só a partir daí é que começa o dia. Depois vem cerimônia, café da manhã e depois vem o trabalho (samu). O dia tem que começar assim, e  o dia termina assim também.
(continua com perguntas)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Ensinamento é útil mas não é o zen



P: Qual o papel da arte no pensamento Budista?

Monge Genshô – A arte é uma expressão humana. As artes foram e ainda são muito influenciadas pelo Zen. As artes marciais, artes plásticas e tantas outras sofreram forte influência do Zen. No Japão isso é muito marcante no Ikebana, nas artes marciais etc. todos fortemente influenciados pelo Zen. Muitas dessas artes foram introduzidas por mestres Budistas como meio hábil para ensinar o Zen usando a estética, usando algo palpável.

O Zen é muito influente principalmente nas artes chinesas e japonesas. Existe uma grande procura por espontaneidade. A arte dessa camiseta, por exemplo, é facilmente identificável, um homem sentado meditando frente à lua. Esse tipo de arte é feita num único traço onde não existe espaço para correções, tem que ser uma pincelada perfeita. A arte Zen é assim, espontânea e minimalista, tentando mostrar uma mente se expressando em um momento único, sem correções e disfarces.

P: Isso é como o sumi-ê. Quando fiz um curso de sumi-ê a professora disse que não pode haver correções, os traços devem ser únicos e firmes. Então perguntei como fazer para não cometer erros? Ela disse: treinando.

Monge Genshô – Exatamente, treinar até conseguir expressar sem correções. É como uma palestra sobre Zen como essa, ela não foi preparada, não existem perguntas elaboradas e ensaiadas para que as respostas saiam certas. As respostas devem sair naturalmente. Ou está pronto ou não está.

P: Mas existem métodos, como hoje fizemos zazen...

Monge Genshô – Exato, o Budismo em sua essência é um método. Cada escola tem o seu. O Zen enfatiza o método do sentar em silêncio, logo, o método predominante do Zen é o zazen, a meditação sentada e silenciosa. Se você tirar o zazen, deixa de ser Zen. Muitas pessoas pensam que sabem muito sobre o Zen porque leram muito livros, mas não sabem nada. Isso é como alguém que diz que sabe piano. Quando perguntado se toca ele responde, “Não, mas já li muitas partituras e biografias dos compositores”. O Zen é assim, você senta e faz o Zen, a explicação é interessante, mas não é o Zen.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O ódio só cessa com o amor



Pergunta – O senhor poderia falar um pouco sobre a violência?

Monge Genshô – A violência é a continuação da palavra por outros meios, e a palavra é a continuação dos pensamentos por outros meios. Onde nasce a violência? O grande teórico da guerra Clausewitz escreveu que “A guerra é a continuação da política por outros meios”, ou seja, quando os homens não conseguem o que desejam apelam para meios que lhes pareçam satisfazer suas ambições e isso sempre começa com o pensamento do desejo. Quando se tem desejos e não se consegue realiza-los a primeira tentativa é pela palavra com pedidos ou ameaças. Se com as palavras não der resultado então parte-se para ações, então, pode surgir daí a violência.

O que interessa sob o ponto de vista Budista é que em qualquer desses estágios há consequências. Os pensamentos geram consequências ao formar uma mente ambiciosa e violenta. Uma mente assim produz palavras do mesmo tipo, palavras e teses para justificar-se ambicioso ou violento. Após isso vem então as ações e mesmo para estas conseguem-se justificativas. Normalmente justifica-se o uso da violência para combater a violência, como uma pessoa foi violenta com outra ela acha-se no direito de reagir também de forma violenta e isso cresce sem limites. A cada passo dado parece um caminho sem volta, cada degrau escalado, você só sobe, vai cada vez mais alto. Mas isso não é só de pessoa para pessoa, as nações também justificam-se da mesma forma.

Não faz tanto tempo que nações iniciaram uma guerra por quererem o território de outras. A tese e justificativa nazista para a Segunda Guerra foi o “Espaço vital” e para ter aquele território valia matar todos seus ocupantes. Se formos olhar na Bíblia, Livro de Números, capítulo trinta, está escrito que o Senhor Deus de Israel manda que seja tomada uma cidade e que sejam mortos todos os homens, mulheres, animais, crianças com uma única exceção, as meninas com menos de doze anos que deveriam ser poupadas para usufruto dos conquistadores. Isso foi bem antes de Jesus Cristo, mas mostra como é a mentalidade de conquista do ser humano. Houve tempo que isso era tão legitimo que estava nos livros sagrados. Ora, para Buda, 2 600 anos atrás, a consideração era "o ódio não cessa com o ódio, o ódio só cessa com o amor".

Não podemos nos admirar que hoje exista violência, até bem pouco tempo, setenta anos atrás era o instrumento de conquista da Alemanha na Europa. Toda a história de invasão do Tibete nos anos cinquenta pela China nada mais é do que a tentativa de apoderar-se de um território, não interessa seus moradores, isso é de tal forma poderoso, que hoje existem mais chineses que tibetanos no Tibete. Os tibetanos insatisfeitos foram expulsos ou mortos e oito milhões de chineses deslocados para dentro do país. Na verdade o uso de violência com fins de conquista territorial ou de bens materiais continua até nossos tempos. Isso é tão forte que os países, no caso da China, que são seus aliados comerciais, não se pronunciam contra essa violência.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Textos confiáveis


P. Como seria visto a ficção Matrix no Zen?
R. Bom, naquele filme tem muitas coisas misturadas, elementos Budistas foram usados no primeiro episódio do filme Matrix, principalmente a questão ser um ilusório reproduzido na sua mente, mas estas abordagens podem atrapalhar também porque quando nós misturamos as coisas, coisas boas vem junto com concepções errôneas, temos muitos livros sendo vendidos também nas livrarias que misturam conceitos Budistas com outras coisas e na realidade eu sempre digo é melhor não ler isto porque é difícil distinguir o que está certo do que está errado, vem misturado, então este tipo de espiritualidade perturba, melhor ler mestres comprovados não os livros de auto-ajuda ou coisa assim, é claro que textos como estes que a gente está lendo aqui são mais difíceis do que os livros de auto-ajuda ou os livros escritos assim desta espiritualidade fast-food, espiritualidade rápida, o grande problema é a falta de acuracidade nas afirmações.

P. Então a leitura destes mestres iluminados também dá discernimento para saber o que é certo e o que é errado...
R. Sim, os grandes textos, e eles não são tantos assim e você tem na biblioteca da Sangha textos selecionados e nunca deixo entrar textos duvidosos então você pode ler estes livros sem problemas mesmo quando são autores que não são Budistas, mas são autores sérios, por exemplo, Thomas Merton que nós temos aqui, que era um monge trapista católico ele escreve seriamente sobre espiritualidade...

domingo, 27 de maio de 2007

Como escolher o que vale a pena

Um problema muito interessante porque o problema é da edição, a palavra editar significa escolher, quantos livros se lê na vida? Dois mil livros? Dá para ler um livro por semana facilmente. A questão é a seguinte, se você só tem capacidade para ler dois mil livros na vida razoavelmente, quem vai escolher os dois mil que valem a pena? Este é o problema, o problema é de edição, dentro de um livro, considerado lixo, tem coisa boa, mas o melhor é você ler os livros do mais alto nível, pelo menos é mais garantido do que você ler um monte de coisa. Depois que você ler dois mil livros você conseguirá deduzir quais valem a pena, lendo apenas as orelhas. Por que precisamos de bons e cultos professores/editores? Alguém que chegue para você e diga ...leia este, aí se você formar uma boa base você tem capacidade crítica para escolher os melhores, senão você fica perdido, não são só os livros de auto ajuda que são lixo em sua maioria, se você entra nas livrarias 99% é lixo, e isso também ocorre com a televisão e qualquer outro meio de difusão.

Nós temos a internet hoje, são bilhões de páginas disponíveis, surge uma nova necessidade, é necessário saber distinguir o que vale a pena do que não vale a pena, por isso a gente vê este crescimento de mensagens na internet sem profundidade, piegas, às vezes são tão sem profundidade que alguém ainda escreve lá embaixo, Shakespeare, Dalai Lama, por exemplo, eles sabem que não tem profundidade e precisam de um grande nome para enganar as pessoas que não tem senso crítico. Isso é o que acontece agora, porque nós temos uma abundância de informação muito grande. Hoje não dá mais para supor ser um Uommo Universale do tempo de Leonardo Da Vinci e ter conhecimento de todas as obras, hoje não dá, hoje você tem bilhões...para escolher, nunca os professores foram tão necessários.

(Trecho de debate sobre o filme "Quem somos nós", íntegra disponível em www.chalegre.com.br/zendo secção Textos. A maior parte destes textos foi digitada, revisada e decupada de gravações por Jane Denkô)