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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Mantendo o Foco




(Continuação da Palestra de Monge Komyô em Goiânia, outubro/2014):

Eu falei hoje mais cedo que o ZEN é muito direto e não finge, não disfarça as coisas. Então as dificuldades, os nossos sofrimentos e obstáculos, eles não devem disfarçados, nós temos que saber enfrentá-los, encará-los com uma mente atenta. É possível fazer isso e manter o foco. Aqui, na nossa capelinha linda, tá cheio de mosquitinho, tô vendo um ninho aqui, mas eu tomei banho. Eu estou limpinho. Muitos mosquitinhos estão entrando no meu ouvido, estão aqui, às vezes, tem que tomar cuidado para não engolir um, ou entrar no meu nariz. Eu fico, aqui, espantando. É assim a vida. A vida é impermanente. As coisas acontecem, a gente não planeja. Só que a mente condicionada, pode começar a ficar muito preocupada com os mosquitinhos e aí ficar irritada, e se desconcentrar, para vocês talvez, seja até um trabalho mais intenso se alguém tiver com esses mosquitinhos em volta. Vocês estão ouvindo. Eu estou trabalhando aqui a minha atenção para falar, isso ajuda um pouco mais, talvez. Mas isso pode acontecer lá no zazen, pode ser um mosquitinho, ou outra coisa. E, qualquer elemento externo pode ser um fator que faça com que a nossa mente condicionada, o nosso eu, pule para fora. Ops. Mosquitinho, mosquitinho, mosquitinho, mosquitinho, né. É possível manter o foco, seja com uma dor física, seja com mosquitinho. Mesmo espantando os mosquitinhos. Mesmo os mosquitinhos entrando no ouvido. 

 O foco é um exercício de reestruturação, reeducação de nossa consciência, de nossa percepção. O sentar e meditar ou praticar a plena atenção à respiração, em todas as ações é a forma de trabalhar a nossa mente para chegar a esse ponto. Com o tempo, a mente consegue lidar com as situações com um grau cada vez menor de stress. Como eu falei de manhã, os problemas irão continuar a acontecer, os mosquitinhos vão continuar. Eles não entendem simplesmente que eles estão errados. Eles estão funcionando dentro do instinto deles, são insetos, o que está errado com o mosquitinho? Ele não está fazendo isso de propósito.   

Durante a prática, a melhor forma a trabalhar essas questões, pensamentos desviantes, desconcentrações, a dificuldade de manter o foco, é continuar trabalhando a concentração, a atenção à respiração. A respiração determina grande parte das nossas emoções, nos nossos modos de ação. Se nós estivermos desbalanceados, a tendência da nossa respiração é ser muito rápida. Observem se vocês conseguirem, quando estiverem irritados, como a respiração fica mais intensa. Quando nós estamos excitados a respiração fica mais intensa. A experiência do zazen é fazer com a mente aprenda a se concentrar dentro de contextos que são claros e diretos no agora, as coisas como elas são.  Não há subterfúgios, não há ilusões. Se uma pessoa, por exemplo, gosta muito de futebol, gosta muito, é fanático por futebol, essa pessoa pode ir a um estádio assistir um time que gosta, e ficar lá horas atenta à bola no campo, sem qualquer esforço maior, mesmo que seja de uma forma distorcida, a mente consegue entrar num nível de concentração. Mas é uma concentração falsa porque ela é baseada na excitação. Daí que, experiências de foco a partir da excitação e de aspectos passionais, tende a levar à emoções intensas e, em geral, ao stress. 

 Eu costumo comentar que até mesmo o sujeito que está pulando carnaval lá atrás do trio elétrico, embora ele pareça que esteja lá realmente muito feliz e alegre, ele não está! A mente dele está em grande foco de insatisfação. O que há ali é um aspecto de experiência, extremamente excitante e passional, mas não há tranquilidade na mente. Aquela alegria ali, é aparente. 
(continua)



terça-feira, 19 de junho de 2012

A necessidade de um mestre



Pergunta: Alguns autores que eu li falam da necessidade de ter um mestre. Seria pelo fato de que mesmo para uma prática aplicada, diligente, disciplinada em algum momento aparecem obstáculos que podem afastar da prática? 

Monge Genshô: Pode ser assim. E também pode acontecer outra coisa. Alguém pode, por exemplo, ver o desencanto, ver o sofrimento e mergulhar numa profunda consciência daquele sofrimento e como alguém que está preso em um redemoinho não sair mais. Ele chegou até um determinado ponto de percepção. Foi um crescimento espiritual, mas quando chegou naquele ponto houve uma estagnação. É necessário chegar até o mestre ou um bom amigo espiritual, um professor, se você tem confiança nele e fizer uma pergunta e receber um pequeno empurrão isto pode ser suficiente para sair daquele redemoinho e começar a trilhar o caminho de novo. Às vezes uma frase pode nos tirar de um grande sofrimento espiritual, de uma grande estagnação espiritual.