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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Não Procure a Iluminação



Nossa respiração e nossa postura têm que ser focadas em uma boa prática. Se eu troquei de posição, então vou tentar manter minha coluna ereta, vou respirar pausada e profundamente, vou confiar na postura e na prática que os patriarcas deixaram. Não haverá resultados maravilhosos tão cedo e você tem que assumir isso também. Você não vai iluminar-se hoje, embora teoricamente seja possível você obter uma grande iluminação hoje. Poderia ser agora durante a palestra, ou quando você sair e tropeçar. Pode ser a qualquer momento. Mas não procure isto, porque a experiência espiritual vem sem ser esperada, quando sua mente não está procurando.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Mantendo o Foco




(Continuação da Palestra de Monge Komyô em Goiânia, outubro/2014):

Eu falei hoje mais cedo que o ZEN é muito direto e não finge, não disfarça as coisas. Então as dificuldades, os nossos sofrimentos e obstáculos, eles não devem disfarçados, nós temos que saber enfrentá-los, encará-los com uma mente atenta. É possível fazer isso e manter o foco. Aqui, na nossa capelinha linda, tá cheio de mosquitinho, tô vendo um ninho aqui, mas eu tomei banho. Eu estou limpinho. Muitos mosquitinhos estão entrando no meu ouvido, estão aqui, às vezes, tem que tomar cuidado para não engolir um, ou entrar no meu nariz. Eu fico, aqui, espantando. É assim a vida. A vida é impermanente. As coisas acontecem, a gente não planeja. Só que a mente condicionada, pode começar a ficar muito preocupada com os mosquitinhos e aí ficar irritada, e se desconcentrar, para vocês talvez, seja até um trabalho mais intenso se alguém tiver com esses mosquitinhos em volta. Vocês estão ouvindo. Eu estou trabalhando aqui a minha atenção para falar, isso ajuda um pouco mais, talvez. Mas isso pode acontecer lá no zazen, pode ser um mosquitinho, ou outra coisa. E, qualquer elemento externo pode ser um fator que faça com que a nossa mente condicionada, o nosso eu, pule para fora. Ops. Mosquitinho, mosquitinho, mosquitinho, mosquitinho, né. É possível manter o foco, seja com uma dor física, seja com mosquitinho. Mesmo espantando os mosquitinhos. Mesmo os mosquitinhos entrando no ouvido. 

 O foco é um exercício de reestruturação, reeducação de nossa consciência, de nossa percepção. O sentar e meditar ou praticar a plena atenção à respiração, em todas as ações é a forma de trabalhar a nossa mente para chegar a esse ponto. Com o tempo, a mente consegue lidar com as situações com um grau cada vez menor de stress. Como eu falei de manhã, os problemas irão continuar a acontecer, os mosquitinhos vão continuar. Eles não entendem simplesmente que eles estão errados. Eles estão funcionando dentro do instinto deles, são insetos, o que está errado com o mosquitinho? Ele não está fazendo isso de propósito.   

Durante a prática, a melhor forma a trabalhar essas questões, pensamentos desviantes, desconcentrações, a dificuldade de manter o foco, é continuar trabalhando a concentração, a atenção à respiração. A respiração determina grande parte das nossas emoções, nos nossos modos de ação. Se nós estivermos desbalanceados, a tendência da nossa respiração é ser muito rápida. Observem se vocês conseguirem, quando estiverem irritados, como a respiração fica mais intensa. Quando nós estamos excitados a respiração fica mais intensa. A experiência do zazen é fazer com a mente aprenda a se concentrar dentro de contextos que são claros e diretos no agora, as coisas como elas são.  Não há subterfúgios, não há ilusões. Se uma pessoa, por exemplo, gosta muito de futebol, gosta muito, é fanático por futebol, essa pessoa pode ir a um estádio assistir um time que gosta, e ficar lá horas atenta à bola no campo, sem qualquer esforço maior, mesmo que seja de uma forma distorcida, a mente consegue entrar num nível de concentração. Mas é uma concentração falsa porque ela é baseada na excitação. Daí que, experiências de foco a partir da excitação e de aspectos passionais, tende a levar à emoções intensas e, em geral, ao stress. 

 Eu costumo comentar que até mesmo o sujeito que está pulando carnaval lá atrás do trio elétrico, embora ele pareça que esteja lá realmente muito feliz e alegre, ele não está! A mente dele está em grande foco de insatisfação. O que há ali é um aspecto de experiência, extremamente excitante e passional, mas não há tranquilidade na mente. Aquela alegria ali, é aparente. 
(continua)



terça-feira, 4 de novembro de 2014

É sempre o agora


 (continuação)
 Monge Kômyô:   Como diz o mestre Thich Nhat Hanh do zen vietnamita, fala alguma coisa que não quer falar, mas acaba falando. Faz alguma coisa que não quer fazer, mas acaba fazendo. O exercício não é apenas se prender ou recriminar o outro, mas tentar enxergar o que nós podemos fazer ou deixar de fazer para que, no futuro, isso ou não se repita mais, ou se torne mais... menos intenso. Eu reluto aqui em falar assim porque certas aprendizagens e descobertas, certas transformações e curas ocorrem em camadas. A coisa tinha uma intensidade. Através da prática diminuiu essa intensidade um pouco. Ainda ocorre, mas com pouco menos intensidade. Com o tempo e com o esforço, vai diminuindo. Aquela energia, aquela relação não saudável vai se curando. Um retiro é um primeiro passo para que nós possamos estabelecer a mente de forma que, aos poucos, saibamos encontrar meios hábeis para lidar com nossos problemas. Os problemas não vão acabar. Não há no Zen nenhum tipo de afirmação assim: pratique o Zen por três meses e seus problemas se acabam. Não existe isso. Na vida sempre existem problemas. A questão não está no problema, mas na mente. Como nós vamos entender, como nós vamos lidar com o problema. Por pior que seja. Tudo é uma questão de como nós estabelecemos a nossa mente diante dos acontecimentos, das realidades que se manifestam em nossas vidas. Daí, o ensino de Buda ser muito direto em certos pontos. Não finja que não sofre. Procure observar até mesmo para poder descobrir se você realmente está sofrendo ou se você imagina que está sofrendo. “Meu trabalho é horrível. É uma agonia. É o pior lugar do mundo”. Pode ser que seja realmente um lugar difícil, tenso. Mas é bem provável que grande parte desse aspecto ruim do seu trabalho se manifeste na sua mente. Você não consiga enxergar meios para qualificar melhor o ambiente em que você vive, trabalha. É possível.
Buda também ensinou que, usando termos modernos, sempre existe uma saída. Pode não ser uma saída que a nossa expectativa queira, mas sempre existe uma saída. É claro que na vida existem circunstâncias intensas, às vezes até perigosas. Mas, de novo, o ensinamento é ter a mente tranqüila para poder lidar o melhor possível com essas situações. Durante a prática do zazen, eu sei que para muitos a postura é ruim, é uma luta. Como falei ontem, nós precisamos encontrar um caminho do meio, um meio termo. Nós não devemos nos exigir de maneira cruel. Mas não podemos permitir que a nossa mente condicionada, o nosso eu arranje uma desculpa para não tentar se esforçar na prática. Aquelas pessoas, eu repito, que se sentirem com uma dificuldade física muito grande, entrem em contato, que tentaremos ver uma cadeira para melhorar a prática. Aos outros que conseguem manter a postura, mas que, com a continuidade do zazen pode ficar mais difícil, tentem estabelecer o melhor possível a atenção à respiração como forma de sustentar o esforço. A respiração é muito importante no zazen. Ela não só é uma âncora, é um sustentáculo, é um apoio para que nós possamos lidar com os desafios físicos, emocionais, psicológicos de você sentar para meditar. A respiração também é a forma de fazer com que nossa mente se mantenha no agora. Todo o ensinamento zen se estabelece no agora. O porquê que a respiração é tão importante para isso... Como eu ensino lá em Niterói, a respiração é o grande elemento para levar a mente ao momento presente, porque nós não respiramos no futuro. Nós não respiramos no passado. Nós só respiramos no presente. Vocês agora estão respirando e à medida que vocês expiram e inspiram, o fenômeno só se manifesta agora. O interessante é que: o que é o agora? É um constante vir a ser. Aonde está o agora? Como a gente pega o agora? Não se pega o agora. Aí está a grande dinâmica da experiência contemplativa. A mente que se mantém no agora é uma mente que se mantém flexível e una com a dinâmica das coisas que acontecem. Porque tudo que está se manifestando nesse momento se manifesta num fluxo de agora. Não são agoras. É sempre o agora.      (continua)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Deixe o vento soprar


Pergunta: Então, no zazen, que eu estou tentando entender, não focamos na respiração ou alguma outra coisa? Poderia me explicar um pouquinho?

Monge Genshô:  Você senta em zazen, esvazia seu pulmão, deixa uma respiração natural se instalar, conserva a postura e fica aqui. Sua mente vai querer um objeto qualquer. Cada vez que ela se focar num objeto, volte pra cá. Apenas ouça esse vento. A cada momento ele é novo. Esqueça o vento que já passou. Não espere o vento que vai vir a seguir. Fique com esse vento de agora. Só. Agora, agora, agora...qualquer elaboração mental, retorne pra cá. Não significa “não pensar”. Significa estar aqui, sentado com todos os outros, quieto. Mais nada. Não procure nada, não treine nada, não ambicione nada. Samadhi é realmente ficar aqui, de verdade. É bastante difícil.

Aluno: Mas esse “estar aqui” não está incluída a percepção da respiração, talvez, como estar percebendo o som. Mas aí não estaria então focado no som?

Monge Genshô: Não observe o som. Só ouça o som. Não é para “eu estou aqui ouvindo o som do vento”. Na verdade, você é o vento. O som do vento deve atravessar você. Entrar de um lado e sair do outro, mas sem deixar traços.

Aluno: Assim, você não está atento à experiência do som, ele surge de você?

Monge Genshô:  Deixe ele surgir e se manifestar livremente. Passar através de você. Não pense “mais forte, menos forte, vem agora, vai parar, não vai...” Não pense. Não faça isso. Só ouça. Fique aqui ouvindo. Só isso.

Aluno: E no momento que tem uma dorzinha no joelho?

 Deixe doer. Aí você se torna, digamos, um com a dor, você não nega a existência do que acontece.
Agora, se ela se tornar muito intensa, se ela incomodar, troque de posição, porque o que vai acontecer é que você vai acabar só pensando nisso, na dor e ficar esperando o sino. “Quando é que vai tocar o sino? Quando é que acaba isso?” E isso não é bom. Então, prefiro que você troque de posição, alguma dor, não é problema. Muita dor é problema. Alguma dor, algum desconforto você vai ter, porque a posição não é natural, e nem ficar parado tanto tempo é natural. Por isso, o corpo reclama.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Desistir para poder alcançar


1) Me parece que a respiração tem uma ligação com o despertar. Até que ponto que ela influencia?

Monge Genshô – A respiração faz parte do método e é uma atividade corporal que tem dois aspectos. Ela é automática, mesmo que você não preste atenção você respira e por outro lado você tem controle sobre ela, podendo variar seu ritmo da forma que desejar. Desta maneira, esse controle permite que você interfira no funcionamento da mente, por exemplo, se você está invadido por pensamentos que não cessam, pode interromper por alguns segundos a respiração, esse ato quebra o ciclo do pensamento invasivo. Você pode seguir fazendo isso cada vez que um pensamento invadir sua mente, passando a ter um mecanismo que lhe permita interferir na sua mente que parece incontrolável e corre como um cavalo desembestado, mas que através desse exercício, você pode colocar-lhe rédeas. Ser senhor de sua mente é extremamente importante. As pessoas costumam dizer que não conseguem parar determinados sentimentos como raiva ou rancor e não conseguem parar a agitação, mas isso não é verdade, sua mente pode ser controlada e o mais acessível mecanismo é a respiração. Depois que você aprende a controlar sua mente no Zazen, pode vir a controlar também na vida diária e isso é muito importante. No Zazen quieto olhando para a parede é mais fácil, embora percebamos ser muito difícil. Mas, mesmo assim, ainda é mais fácil que na vida diária.
 A dificuldade dessas experiências é que elas não são transmissíveis com palavras, são pequenos insights que surgem à medida que vamos praticando e que vão abrindo condições para novos insights. Criar condições para ter insights é muito importante, pois existem pessoas que nunca têm insights de nenhum tipo, desta forma, elas não aprendem coisas que estão disponíveis na vida, que são perceptíveis. 

2) O Satori é um estado sempre presente e nós é que não conseguimos acessá-lo?

Monge Genshô – Está sempre disponível. Depende de você e poderia existir, no entanto, não é nem um pouco fácil ganhar esta habilidade. Na verdade é uma habilidade. Se você tiver vários insights vai chegar o dia em que terá um “kenshô”, então terá vários “kenshôs” cada vez mais longos e mais profundos. Se você conseguir treinar desta forma e atingir um estado de estar em Zazen em torno de 40% realmente presente, estará amadurecendo a mente de tal modo que o Satori torna-se possível.

Isso não é um milagre e mesmo que atingido esse estágio não significa que a pessoa tornou-se alguém especial e sim que ela conseguiu enxergar algo, mas ela pode se comportar ainda de maneira bem errada. Ela tem a habilidade, mas para que a habilidade penetre na sua vida completamente, ainda leva muito tempo de treinamento. O que normalmente se diz para essa pessoa é que o caminho começa agora e que ela necessita praticar mais e de forma mais intensa. Ter o insight não significa ter terminado o caminho e sim tê-lo iniciado.

Funciona mais ou menos da seguinte maneira: você nunca teve nenhum insight e tê-lo parece ser maravilhoso. Quando você tem o primeiro, não parece mais tão maravilhoso, pois ainda falta muita coisa, então você tem mais e mais insights e cada vez que você olha para trás percebe que tudo que você teve não era nada. Quando consegue um esclarecimento ou despertar, percebe que ainda se sente decepcionado consigo mesmo, pois você não é nada daquilo que pensava que deveria ser. Mas você continua praticando e tentando chegar mais fundo e esse caminho é praticamente infindável.

Porém existe um grande problema aqui, dado o fato de que quando você senta para conseguir algo está manifestando uma mente aquisitiva, quer algo para si, o simples fato de desejar impede que este objetivo seja atingido. Assim a instrução sempre foi "apenas sentar-se", ou mesmo, "sentar-se já é iluminação", de modo a desarmar este obstáculo. Por isto é preciso de certa forma desistir da iluminação para poder alcança-la.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O caminho da luz


P:  Me parece que a respiração tem uma ligação com o despertar. Até que ponto  ela influencia?

Monge Genshô – A respiração faz parte do método e é uma atividade corporal que tem dois aspectos. Ela é automática, mesmo que você não preste atenção você respira e por outro lado você tem controle sobre ela, podendo variar seu ritmo da forma que desejar. Desta maneira, esse controle permite que você interfira no funcionamento da mente, por exemplo, se você está invadido por pensamentos que não cessam, pode interromper por alguns segundos a respiração, esse ato quebra o ciclo do pensamento invasivo. Você pode seguir fazendo isso cada vez que um pensamento invadir sua mente, passando a ter um mecanismo que lhe permita interferir na sua mente que parece incontrolável e corre como um cavalo desembestado, mas que através desse exercício, você pode colocar-lhe rédeas. Ser senhor de sua mente é extremamente importante. As pessoas costumam dizer que não conseguem parar determinados sentimentos como raiva ou rancor e não conseguem parar a agitação, mas isso não é verdade, sua mente pode ser controlada e o mais acessível mecanismo é a respiração. Depois que você aprende a controlar sua mente no Zazen, pode vir a controlar também na vida diária e isso é muito importante. No Zazen quieto olhando para a parede é mais fácil, embora percebamos ser muito difícil. Mas, mesmo assim, ainda é mais fácil que na vida diária.
 A dificuldade dessas experiências é que elas não são transmissíveis com palavras, são pequenos insights que surgem à medida que vamos praticando e que vão abrindo condições para novos insights. Criar condições para ter insights é muito importante, pois existem pessoas que nunca têm insights de nenhum tipo, desta forma, elas não aprendem coisas que estão disponíveis na vida, que são perceptíveis. 

P: O Satori é um estado sempre presente e nós é que não conseguimos acessá-lo?

Monge Genshô – Está sempre disponível. Depende de você e poderia existir, no entanto, não é nem um pouco fácil ganhar esta habilidade. Na verdade é uma habilidade de voltar ao kenshô quando se deseja. Se você tiver vários insights vai chegar o dia em que terá um “kenshô”, então terá vários “kenshôs” cada vez mais longos e mais profundos. Se você conseguir treinar desta forma e atingir um estado de estar em Zazen em torno de 40% realmente presente, estará amadurecendo a mente de tal modo que o Satori torna-se possível.

Isso não é um milagre e mesmo que atingido esse estágio não significa que a pessoa tornou-se alguém especial e sim que ela conseguiu enxergar algo, mas ela pode se comportar ainda de maneira bem errada. Ela tem a habilidade, mas para que a habilidade penetre na sua vida completamente, ainda leva muito tempo de treinamento. O que normalmente se diz para essa pessoa é que o caminho começa agora e que ela necessita praticar mais e de forma mais intensa. Ter o insight não significa ter terminado o caminho e sim tê-lo iniciado.

Funciona mais ou menos da seguinte maneira: você nunca teve nenhum insight e tê-lo parece ser maravilhoso. Quando você tem o primeiro, não parece mais tão maravilhoso, pois ainda falta muita coisa, então você tem mais e mais insights e cada vez que você olha para trás percebe que tudo que você teve não era nada. Quando consegue um esclarecimento ou despertar, percebe que ainda se sente decepcionado consigo mesmo, pois você não é nada daquilo que pensava que deveria ser. Mas você continua praticando e tentando chegar mais fundo e esse caminho é praticamente infindável.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Contar é estratégia inicial no Soto Zen


(Cerimônia de Jukai, praticantes fazem votos tradicionais perante um mestre e a comunidade)

Pergunta: Quando faço zazen começo contando a respiração e me parece que ela modifica um pouco, na Índia há mestres que proíbem a contagem...
Monge Genshõ: Contar é uma estratégia inicial para ter um foco. Na Índia há um milhão de diferentes abordagens. Na Escola Soto Zen nós sentamos, começamos com uma respiração abdominal, começamos com uma respiração profunda, proposital, umas três vezes para esvaziar os pulmões. É possível fazer assim também (inclina o corpo para a frente, relaxando). Essa última técnica  Saikawa Roshi ensinou. E depois disso não ficamos tentando fazer uma respiração especial. Saikawa Roshi mesmo me comentou que algumas técnicas de respiração podem provocar efeitos muito perturbadores. Nós podemos dar explicações fisiológicas para isso também. Se vocês quiserem tentar uma respiração assim...(profunda e rápida) dentro de 20 segundos estarão tontos -hiperventilação. E continuando mais um pouco podemos ter alucinações. Isso é possível conseguir simplesmente com hiperventilaçao e dá mal estar generalizado no corpo. Isso muitas vezes acontece com pessoas que estão muito nervosas e começam a respirar (ofegantemente) e se sentem muito mal, nauseadas. Para corrigir a gente dá um saco de papel para colocar no rosto e diz - respire aqui dentro. E a pessoa nervosa respira um ar viciado dentro do saco e começa a se sentir melhor muito rápido também, porque o que havia era excesso de oxigenação no sangue – hiperventilação. Então, voltando para o zazen, isso que eu acabei de explicar é unicamente fisiológico. Às vezes coisas que são fisiológicas são usadas em práticas ditas espirituais para fazerem as pessoas acreditarem que a prática em si tem algum valor. É só um efeito químico no caso.
No zazen simplesmente esvaziamos e depois deixamos que esta respiração que é natural, é a maneira como os nenês respiram, se estabeleça. Relaxamos o abdômen e respiramos assim porque esta é a respiração natural. Com roupas apertadas, cintos, tensão nervosa, as pessoas às vezes estabelecem a respiração levantando os ombros o que provoca dores nas costas e é uma respiração pouco efetiva, há partes do pulmão que colapsam, deixam de funcionar.
 Não basta praticar zazen, fazer práticas espirituais. Você tem o corpo como instrumento e deve fazer atividade física. Os monges durante muitos séculos tinham que trabalhar no mosteiro, trabalhar na lavoura, rachar lenha, carregar pedras, então não precisavam uma atividade física especial. Então as pessoas faziam exercícios naturalmente. No último século nós fomos ficando muito sedentários, tudo ficou muito fácil e isso está prejudicando esse aspecto dos nossos corpos, embora a saúde em geral tenha melhorado por causa da melhor alimentação etc. Mas os monges Zen nos mosteiros com alimentação frugal, correta, com trabalho e meditação, tornaram-se famosos por sua longevidade com lucidez. Longa vida lúcida. Já falei tantas vezes mas nosso atual superior na ordem Miyazaki Zenji abade do mosteiro de Eihei-Ji está com 106 anos(nasceu em 1900)  e está ainda como abade e em atividade. É claro, é um caso excepcional. Joshu (um famoso mestre Zen) é tido como vivido 116 anos e quando ele estava morrendo um aluno perguntou: mestre diga-nos alguma coisa. Ele disse: eu não tenho nada para dizer. Mas diga-nos alguma coisa. Ele disse: - a vida é um sonho - e morreu. Cento e dezesseis anos.

 (Miyazaki Zenji morreu em 2008 com 108 anos, o texto desta palestra é anterior em dois anos)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tudo construímos


P. A consciência constrói a realidade o tempo todo, não a realidade, mas as relações,e sintonias...
R. Nada acontece que você de alguma forma  não esteja merecendo, as coisas acontecem porque de certa maneira construímos condições para isto, mas muitas coisas que nós interpretamos como negativas não o são, parecem ser naquele momento, mas são oportunidades maravilhosas que se abrem depois, você tem que esperar, parar para ver, agora isto é só da nossa ótica porque se a todo instante você tivesse uma mente clara, a todo momento você estaria apenas vendo a beleza, deste momento tal como ele é.

P. Qual é a orientação sobre a respiração na recitação do Sutra do Coração?
R. Como a gente não para na recitação, se você não toma ar então você vai ter que pular uma sílaba para tomar ar, mas o grupo todo está recitando, então você tem que confiar que o grupo continua, então confie no grupo e não em você, é mais um dos exercícios das recitações, prestem bem atenção, nós não sabemos prestar atenção, o ritual todo tem significados simbólicos e toda a maneira de fazer tem ensinamento incluso. O ensinamento não é expresso, não é explicado, eu explico muito e esta não é a maneira tradicional. Saikawa Roshi disse que ele se sente culpado por explicar demais e não dar oportunidade para o aluno descobrir por si mesmo. Façam um esforço para descobrir coisas por si mesmos e vocês vão descobrir coisas que vão me ensinar e vai ser muito bom.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Confiar na postura


P: Há uma certa posição em que o zazen parece se tornar auto-sustentado, isto é, parece não ser necessário esforço para mantê-lo "pacífico", como um esforço sem esforço. Seria essa situação ilusória?

R: Não é ilusão, a primeira coisa é confiar na postura, procurar a posição corporal correta, a espinha ereta, a cabeça equilibrada, os olhos abertos, os joelhos pressionando o chão, a respiração abdominal e profunda, a mente sem convidar o passado nem imaginar o futuro, continuamente retornando ao momento presente cada vez que ela é movimentada por pensamentos. Depois de algum tempo um estado de estabilidade se instala e somos o universo inteiro ali sentado.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Voltar à Paz



P: Na maior parte das vezes que me sento, não fico verdadeiramente em zazen, fico remoendo problemas, medos e angústias.

Sabe, quando volto de um retiro, parece que consigo "tocar a face de Buda", contudo, conforme os dias vão passando a "cegueira" volta tão intensa quanto antes. Estar imerso num mundo de objetos, sensações, pensamentos e pressões (externas e internas) me impedem de manter a paz que encontro por ocasião de um seshim. Que fazer?


R: Creio que todos somos como você descreve, temos dificuldade em manter o que conseguimos nos retiros, mas para que zazen seja zazen é preciso esforço, ou seja a cada momento em que os pensamentos e emoções surgem é preciso retornar ao zazen, ou seja ao momento presente, se recuse a remoer os problemas, agarre-se a respiração.
Uma técnica possível é a do bambu, significa interromper a respiração a cada vez que um pensamento ou emoção surgem, como os nós do bambu a expiração fica entrecortada pelas interrupções conscientes. Isto ajuda a controlar o fluxo mental e retornar continuamente ao agora. Tente.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O equilíbrio fundamental



"Durante zazen, a respiração é essencial. É tranquila e estabelece um ritmo lento, forte e natural. A expiração é longa e profunda. Muitas vezes os mestres comparam-na ao mugido da vaca.
A inspiração, mais curta, vem naturalmente. Esta expiração lenta, calma e profunda varre as complicações do mental.
O espírito torna-se claro como um céu sem nuvens. No nosso mundo perturbado, praticar zazen significa regressar à verdadeira dimensão do ser humano
e encontrar o equilíbrio fundamental da sua existência."

Taisen Deshimaru

quarta-feira, 18 de março de 2009

Respiração


(As fotos do Rio Bonito são gentileza de Cássia)


P: Minha respiração fica muito superficial na meditação, que faço?

R: Durante algum tempo (isto é provisório) você vai prestar atenção na respiração, faça uma inspiração profunda, abdominal, e deixe que a expiração seja lenta, mais longa, mas controlada, expire até o fim e então deixe que surja a inspiração, teste isso até ser automático, depois deixe que uma respiração natural se instaure, ela vai ficar menos superficial.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Em que nos concentramos no zazen?


Se EU ficar concentrado, como é que me libertarei deste EU? Se há alguém observando quem é este que observa? Como nos libertaremos do eu se estamos reforçando-o lhe dando um papel?

Eis porque o zazen não tem foco nem concentração em nada, porque isto serve como âncora para um eu se solidificar.

Naturalmente, no início da prática várias técnicas são usadas para ajudar a obter estabilidade, tais como contar respirações, no entanto este ainda não é o zazen propriamente dito. Abaixo um texto de 750 anos atrás explica melhor. (Atualmente o termo Hinayana não é mais usado por não haver mais nenhuma escola sobrevivente a que ele possa ser aplicado, a palavra Hinayana reflete um conflito existente 2000 anos atrás entre diferentes propostas de prática budistas. Dogen indica também que o zen não se enquadra como método Mahayana )

"Dogen Zenji (1200-1253) diz no Eihei-koroku (Coleção Formal de Discursos e Poemas de Dogen Zenji), vol.5: “Em nosso zazen, é de fundamental importância sentar-se na postura correta. A seguir, regular a respiração e se acalmar. Na Hinayana, há duas formas básicas (para a prática do iniciante): uma é contar as respirações, e a outra é contemplar a impureza (do corpo). Em outras palavras, um praticante Hinayana regula sua respiração ao contá-la. A prática dos budas e ancestrais, porém, é completamente diferente da prática Hinayana. Um mestre ancestral disse: ‘É melhor ter a mente de uma raposa enganosa do que seguir o caminho de auto-controle Hinayana’. Duas das escolas Hinayana (praticadas) no Japão hoje são a Shibunritsu (a escola dos preceitos) e a Kusha (a escola baseada no Abhidharma-kosa).

Existe também a maneira Mahayana para regular a respiração. E essa é saber que uma respiração longa é longa, e que uma curta é curta. A respiração atinge o tanden e se inicia ali. Apesar da inalação e da exalação serem diferentes, ambas passam pelo tanden. Quando você respira através do abdômem, é fácil perceber a transitoriedade (da vida), e harmonizar a mente.

Meu falecido mestre Tendo disse: ‘O ar inspirado atinge o tanden; porém, não é que esse ar venha de algum lugar. Por esse motivo, ele não é curto, nem longo. O ar exalado sai do tanden; porém, não é possível dizer para onde esse ar vai. Por esse motivo, ele não é longo, nem curto’. Meu professor explicou dessa forma, e se alguém me perguntasse como fazer para harmonizar a repiração, eu responderia dessa maneira: apesar de não ser Mahayana, é diferente da Hinayana; e apesar de não ser Hinayana, é diferente da Mahayana. E se eu fosse questionado mais além em relação ao que é em última instância, eu responderia que inalar ou exalar não são nem longos, nem curtos.”

Mais detalhes no site oficial da Soto Zen aqui

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O que é Samadhi ?


“Samadhi é o estado de profunda concentração. É obtido na prática de meditação. Com o corpo imóvel, a respiração profunda e inicialmente observada, a expiração lenta sob tensão do abdomen, a musculatura relaxada, o corpo como uma estátua, a mente 'como um leão prestes a saltar', em completa atenção, longe de qualquer fantasia, criam-se as condições para o samadhi. Quando ele surge nada mais é observado, a mente se torna livre de pensamentos obsessivos e invasivos, de seqüências associativas, a percepção do mundo em torno fica cada vez mais nítida.”

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Zazen


Quando praticamos zazen, nossa mente sempre segue a respiração. Quando inalamos, o ar entra em nosso mundo interior. Quando exalamos, o ar sai para o mundo exterior. O mundo interior não tem Limites e o mundo exterior também é ilimitado. Nós dizemos "mundo interior" e "mundo exterior", mas, na verdade, só há um único mundo. Nesse mundo sem limites, a garganta é uma espécie de porta de vaivém, O ar entra e sai como alguém passando por uma porta de vaivém. Se você pensa "eu respiro", o "eu" está a mais. Não há um você para dizer "eu". O que chamamos "eu" é apenas uma porta de vaivém que se move quando inalamos e exalamos. Ela simplesmente se move, eis tudo. Quando sua mente está pura e calma o suficiente para seguir esse movimento, não há nada: nem "eu", nem mundo, nem mente, nem corpo. Só uma porta que vai e vem.

Assim, quando praticamos zazen, tudo o que existe é o movimento da respiração e, no entanto, estamos cônscios desse movimento. Não devemos nunca nos distrair. Mas estar consciente do movimento não significa estar consciente do eu pequeno, e sim da nossa natureza universal, ou natureza de Buddha. Esta consciência é muito importante porque em geral somos unilaterais. Nossa compreensão habitual da vida é dualista: você e eu, isto e aquilo, bom e mau. Na realidade, tais discriminações são, elas próprias, a consciência da existência universal. "Você" significa estar consciente do universo na forma de você, e "eu" significa estar consciente do universo na forma de eu. Você e eu somos portas de vaivém. E necessário este tipo de compreensão; porém, nem sequer deveria chamar-se compreensão já que é, isto sim, a verdadeira experiência da vida através da prática do Zen.
Shunryu Suzuki