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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Competições





(Continuação)
As guerras só existem porque os homens acreditam nelas, e acreditam na maldade do outro. Eu não vou dizer que essa maldade não exista, mas o que a sustenta  é a crença na identidade. Se não houvesse crença nas identidades, não haveriam guerras. Não precisaríamos temer os outros, bastaria esquecer que somos diferentes. As identidades de raça, de religião, xiitas, sunitas, cristãos, basta as esquecer e as guerras terminariam. Se entrarmos em guerra contra a Argentina, e houver invasões, essa guerra só existiria porque acreditamos que somos brasileiros e eles acreditam que são argentinos, o que é absolutamente tolo, não tem sentido nenhum. A guerra das Malvinas foi assim, entre Argentina e Inglaterra, “eu quero essas ilhas”. E a Inglaterra não queria ter seu orgulho desafiado e a Argentina queria possuir aquelas ilhas, e, por causa disso, morreram centenas de pessoas inutilmente, por pura vaidade e orgulho. Absolutamente desnecessário.

Mesmo se nós entrarmos nas religiões e mesmo no Zen, vamos ver pessoas que dizem “meu aluno”, “meu grupo”. Monges que caem nessas armadilhas, “minha escola”, “minha linhagem”, não é? Isso é bobagem, completa tolice, porque não pode existir um “minha” aqui neste mundo, nem um “meu”. É inútil. Competição sem sentido.

 Então na realidade, temos que concordar com o outro. Ah, ele acha que tem o “Deus verdadeiro”. Ah, sim. Qual é a resposta budista se alguém diz “meu Deus é verdadeiro”? A resposta budista é: “Ah sim, na minha terra tem muito isto de Deus verdadeiro.” “Não, mas o MEU Deus é verdadeiro”. “Ah, aqui no budismo também ocorre isto de o NOSSO é verdadeiro.” “Não mas o meu é o ÚNICO verdadeiro”. “Ah, nós também temos muitos deuses ÚNICOS e verdadeiros.” Até o interlocutor achar que está falando com um louco não é? “Você é louco”. “É, realmente, às vezes me sinto assim mesmo. Não tem problema.” E fim. (continua)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Satori


 (continuação)
No entanto esta experiência "iluminada" se perde com grande facilidade e qualquer pequeno incidente faz com que ela desapareça. Por isso fazemos uma distinção entre o “kenshô” que é fugaz e a iluminação verdadeira que chamamos “Satori”. “Satori” é ter atingido um estado tal em que esta experiência está disponível sempre. Você pode chamar quando quiser e ela irá lhe invadir. Não que isso seja algo sobrenatural, apenas você aprendeu como fazer a sua mente se comportar daquela forma e quando você faz isso, se dissolvem as distâncias entre sujeito e objeto, entre “eu” e os outros ou entre mim e as coisas. Passa a existir uma identidade entre o “eu” e todas as coisas e é como se o “eu” tivesse desaparecido e essa sensação de totalidade e plenitude é profundamente feliz.

Essa sensação possui algumas características interessantes, como por exemplo, ao atingir esse estágio nenhuma pergunta fica sem resposta, não existem dúvidas, dissolvem-se as divisões sectárias entre religiões ou crenças onde todas parecem ter um aspecto apreciável e compreensível e por isso surge grande paciência, tolerância e compreensão. Nós praticamos zazen porque é a prática de nossa linhagem, que é focada na iluminação. Já falei algumas vezes que mesmo em nossa escola essa prática não é a mais comum, pois algumas pessoas estão focadas nas cerimônias e demais práticas formais, julgando ser isso todo o verdadeiro Zen. ( O dito "a prática é a iluminação" tem sido distorcido para significar que quem executa cerimônias está fazendo tudo e neste ato está vivendo a própria iluminação e de resto pode viver como quiser.)As práticas formais são  técnicas ou métodos para despertar um espírito que facilite o surgimento desta percepção, mas esta exige um treinamento da mente e por isso treinamos uma forma de meditação que pode até ser desconfortável para o corpo, mas o despertar não virá sem este acesso. Não se trata de fé ou crença e sim de experiência, portanto tudo que posso lhes dizer é que testem e experimentem e, se vocês tiverem uma pequena experiência, saberão que a grande experiência é possível. Nosso foco é a grande experiência.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O Buda Mahavairochana


Kanzeon, a que ouve os lamentos do mundo


Qualquer coisa, todas as coisas são uma manifestação
de Mahavairochana Buda.

Maha vocês sabem é grande, Vairochana é um dos Budas transcendentes, Buda de sabedoria normalmente é apresentado fazendo gesto de sabedoria. Literalmente Mahavairochana quer dizer como um sol. Aqui é bem uma questão etnocêntrica. A gente fala Mahavairochana Buda e as pessoas dizem: quem é este Buda? Como é a estátua dele? Ele é devoto de Mahavairochana Buda, por exemplo. Mas é apenas um dos aspectos de manifestação de Buda, não é um ser em particular.(Comentário de Monge Genshô)

Isso é Mu-Ji.
Isso é dharmakaya.
Por isso é que entoamos
puro darmakaya  Vairochama Buda.
Nós não estamos apenas balbuciando palavras.
Elas têm implicações muito claras!
Darmakaya, isto é, Um.

Darmakaya é toda essa manifestação absoluta. É darmakaya se manifestando e esse é também um dos aspectos de Buda. Nós recitamos na oração das refeições – Darmakaya Vairochana Buda.(Comentário de Monge Genshô)

E Mu parece ser
o Buda Mahavairochana,
e Mahavairochana Buda parece ser
uma centena de gramas,
e cachorros também.

É por isso que Dogen Zenji diz, no Fascículo de Kannon, que o
Bodisatva Avalokiteshvara
É o Thatagata com o nome de Sho-Bo-Myo,
Iluminação do Dharma Correto.

E de fato, todos vocês
tem a sabedoria e compaixão de Kanzeon.
Isso é o que apreciamos juntos
e fazemos mais e mais iluminados.
Iluminados, não de um modo brilhante, pomposo,
mas iluminados através da nossa ação!
A maneira como fazemos uma reverência,
a maneira como fazemos gassho,
a maneira como andamos,
a maneira como servimos.

(Maezumi Roshi)


Pergunta: Mas Monge, como sabemos se estamos agindo da maneira correta?
M. Genshô: É simples. Quando você pensa a partir de si mesmo é uma ação egóica, quando você pensa nas necessidades dos outros seres você pensa na unidade. É como a relação entre amigos, como você sabe quem é um verdadeiro amigo? Aquele que estiver ao seu lado quando tudo estiver contra você, quando a sorte ou a fortuna o abandonam, estes são os reais amigos. Os que estão com você quando tudo está bem, quando há glória ou recursos abundantes são amigos da glória e do dinheiro. Então  a ação correta é aquela que não parece fácil e óbvia. 


(Palestra em sesshin, decupada da gravação por Denkô San em 2007)