sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Recebendo os Passos de Buda




Aluna: Monge, eu vejo que todos esses elos, o melhoramento da vida ou de qualquer coisa depende necessariamente de uma educação, de uma parte intelectual. E quem não tem isso? Eu, por exemplo, levei tantos anos para chegar aqui para me dar conta disso e olha que eu nem sou tão ignorante assim. Mas se eu não tenho alguém que me dê um caminho eu não vou sozinha.

Monge Genshô: Não seria impossível para uma pessoa descobrir o Dharma sozinha. De certa forma, o Dharma, a sabedoria, está presente. Nós poderíamos, pensando, decodificá-la. Mas como você disse, o esforço para isso é imenso e precisa de uma espécie de mente genial para se chegar lá. Então quando nós consideramos sobre Buda, Shakyamuni Buda foi um gênio. Realmente, um homem genial.

Mas quando as pessoas perguntavam para ele, ele dizia que tinha vivido centenas de vidas como Bodhisatva antes de ser Buda. Antes de despertar completamente. Na prostração que vocês veem na cerimônia, o oficiante ajoelha-se e coloca as mãos assim [acima da cabeça]. Vocês sabem de onde vem? Esse gesto é como se fosse uma ponte. Eu vou receber os passos de Buda para ajudar os outros seres. Mas ele vem de uma antiga história de que um Buda de outra era, chamado Buda Dipankara, o Buda anterior a Shakyamuni Buda, estava andando no caminho e tinha um buraco com lama. E um jovem foi lá, atiruou-se no buraco e fez a prostração para que o Buda andasse sobre ele, para servir de ponte para que o Buda continuasse andando. E o Buda Dipankara fez isso. Pisou nas mãos dele, nas costas dele, saiu do outro lado e se virou. O jovem Bodhisatva olhou para Dipankara Buda, e este disse: “daqui a quinhentas vidas você será um Buda”. O jovem era Shakyamuni quinhentas vidas atrás.

Essa história gera a nossa cerimônia da prostração. Há várias lições dentro dela, e uma delas é que leva muito tempo para você conseguir aprender, transformar-se e extinguir-se como um Buda. Você precisa ter muitas vidas como Bodhisatva, ajudando os outros seres. Você precisa estudar e aprender muito.




[Trecho extraído de palestra proferida em Florianópolis, 23/08/2016, por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Não Há Ninguém Lá Fora




Onde existe sofrimento surgem bodhisatvas, e assim novos Budas podem vir a surgir. Então todos os seres na realidade são Budas em potencial, mas aquele Buda histórico, Shakyamuni, ou cada um dos Budas históricos que já aconteceram antes, por definição, estão extintos. Por isso não oramos para Buda ou pedimos coisas para um Buda, como por exemplo para que ele nos socorra, nos ajude, porque não existe esse tipo de condição no budismo, um ser lá fora que vai nos ajudar. Somos nós que temos que mudar as nossas marcas cármicas com a ajuda daqueles que puderem nos ensinar a nos alterarmos. Mas não adianta pedir uma graça externa, pois as graças externas simplesmente não existem.


Ruim isso, não é? Nós ficamos pensando assim: “eu gostaria tanto de ter alguém lá fora para me ajudar”. Esse na realidade é um pensamento infantil porque, em primeiro lugar, ele provém do fato de que nós tivemos pais e mães e de que na nossa infância nós pedíamos ajuda para eles. Então nós queremos a repetição. Queremos um pai que nos ajude. 

A segunda consideração a esse respeito é: se existe um ser de compaixão, você não precisa pedir nada para ele. Se ele puder ajudar você ele ajuda. Assim como quando você era criança e caía no chão, seu pai não ficava esperando que você pedisse “me ajude”. Ele ia lá e ajudava você, sem que você pedisse, e sem esperar qualquer agradecimento. Cada um de vocês aqui que tem filho sabe perfeitamente como é isso.

Se seu filho se machuca você fica assim: “peça com fé que eu vou ajudar” ? Você vai lá e ajuda na hora. Você diz: “coitadinho…”. Você não pede nada para ele para dar a graça da sua ajuda. Então se Buda fosse um ser fora de nós e ele pudesse nos ajudar, ele ajudaria sem que nós pedíssemos. Uma divindade qualquer que exige que peçamos ajuda é menos compassiva do que qualquer um dos pais e mães aqui presentes.

  [Trecho extraído de palestra proferida em Florianópolis, 23/08/2016, por Meihô Genshô Sensei]