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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Os piolhos de Ryokan



Aluno: É correto também pensar que com essa prática,  conseguirei não ser influenciado pela dualidade?

Monge Genshô: Isso é muito bom. Porque as coisas são como são. O mundo é como é. Há uma história  Zen de uma mulher que estava sempre sofrendo, porque um filho era fabricante de guarda-chuvas. Então quando havia sol, ela ficava infeliz. E o outro filho era fabricante de guarda-sóis. Então quando havia chuva, ela ficava triste. Ela estava sempre infeliz, em qualquer das situações. Ela fala com um mestre Zen e o mestre diz "é tão simples. Quando chover, você fica feliz por causa do seu filho que vende guarda-chuva. Quando fizer sol, você fica feliz pelo seu filho que faz guarda-sol". É uma questão de perspectiva, de como é que se olha. Até perder tudo, pode ser maravilhoso. Mas que libertação! É uma libertação imensa.

Alguns dos grandes mestres Zen eram pessoas que nada tinham. Um famoso mestre Zen, Ryokan, foi um grande calígrafo e não viveu tanto tempo atrás, uns duzentos anos somente (Nasceu em 1758, em Izumozaki, na província de Echigo (atual Niigata), e faleceu em 1831). Ele morava em uma cabana com quatro tatames. Significa que a cabana tinha dois metros por menos de quatro. Essa era a casa dele. Ele vivia ali na montanha. Não tinha absolutamente nada, mas tinha uma mente diferente. Diz-se que uma vez ele estava tirando piolhos e colocando numa folha de papel. Aí olhou para os piolhos e pensou - "está tão frio, coitados dos piolhos." Pegou-os e  os colocou de novo no corpo. Esse foi Ryokan.

Uma vez um ladrão passou na cabana, não tinha nada para roubar e roubou o manto de monge dele. A polícia pegou o ladrão e trouxe de volta com o manto, pois sabia que o manto era do mestre. E o mestre disse "Não, não é. Quando ele passou aqui e ia embora eu disse que não tinha nada, mas leve esse manto para se aquecer pois está muito frio. E ele levou, foi um presente que eu dei para ele". E esse ladrão foi libertado mas voltou depois de uns dias, se ajoelhou na frente do mestre e pediu para ser seu aluno.