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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Não cometa tal erro


Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete, 1910 – Butão, 1991)
Um explorador que descobre uma ilha de tesouros pode encher seu navio de ouro, diamantes, safiras, rubis e esmeraldas. Mas sua boa fortuna nem se compara com a vida humana, que nos oferece algo muito mais precioso que qualquer ouro ou pedras preciosas — a chance de refletir e praticar o Dharma, dando sentido a nossas vidas. [...]
É agora, enquanto você desfruta de todas as condições favoráveis da vida humana, que você tem a liberdade necessária para praticar o Dharma. Ignorar tal oportunidade seria como um mendigo que pega uma jóia e, tomando-a como um pedaço de vidro, joga-a de volta na sujeira.
Pior ainda seria realmente compreender o valor da vida humana e desperdiçá-la conscientemente em distrações e a perseguição de ambições mundanas — essa é a epítome da ilusão. O explorador que retorna da ilha de tesouros de mãos vazias teria cruzado os oceanos em vão. Não cometa tal erro.
“The Hundred Verses of Advice”, v. 78
(Os Cem Conselhos de Padampa Sangye)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

No Espelho da Morte (2)



(continuação)
Refletindo sobre a morte, perceberemos que podemos morrer a qualquer momento. Então precisamos estar prontos. Afinal de contas, morrer é na verdade bem simples: expiramos e então não inspiramos – pronto, é só isso! Muito simples e muito direto.

A morte está em cada momento de nossa vida. Viver com a presença imediata da morte, ou encarar diretamente a morte, nos ajuda a purificar, simplificar nossas vidas e estabelecer nossas prioridades.
O "passar a vida toda diante dos olhos" do momento da morte – que tantas religiões e pessoas que passaram por experiências em que quase morreram descrevem – não estará um pouco atrasado no momento da morte?
Essencialmente, então, o que os ensinamentos nos dizem é que
refletindo sobre a morte e a impermanência podemos nos preparar para a morte agora, em vida.

Enquanto refletimos sobre a vida, percebemos que tudo na vida é impermanente. Normalmente planejamos nossas vidas, organizamos e cuidamos de tudo, mantendo as coisas mais seguras e previsíveis
possível. Ainda assim nossa segurança cai por terra quando a
impermanência se manifesta – frequentemente de uma forma inesperada.
Então não temos idéia de como lidar com aquilo porque não planejamos nada para aquela circunstância particular. Então, se desejamos ter um plano seguro para nossa vida, precisamos nos preparar num plano mais profundo e encontrar um refúgio interno. Quando temos esse refúgio interno, mesmo que tudo ao redor caia em pedaços, há algo por dentro que nunca nos abandona e nunca nos decepciona. Isso é o que os ensinamentos proporcionam.

Frequentemente me pergunto, "Por que tudo é impermanente? Por que as coisas sempre mudam?" E somente uma resposta me vem, "É assim que é a vida." A vida é impermanente; a descontinuidade é uma parte da
continuidade fundamental. Por exemplo, se um relógio não faz
tique-taque – não muda – é porque não está funcionando, está morto. Se seu coração não está batendo constantemente, você está morto.

É a mudança que mantém a vida viva e nos permite a possibilidade de mudar. Mas acima de tudo o que a impermanência nos ensina é que devemos abandonar a fixação, a ânsia e o apego, que apenas nos causam dor e sofrimento. A razão pela qual ficamos tão fortemente apegados às coisas – de nossas emoções, idéias e opiniões a nossas posses e outras pessoas – é porque não internalizamos a impermanência em nosso coração. Uma vez que possamos aceitar que a impermanência é a própria natureza da vida e que todos sofrem, incluindo nós mesmos, nas mãos da mudança e da morte, então abrir mão torna-se a única coisa natural a fazer – de fato, a única coisa que funciona. Então nosso apego a nossa dor é aliviado e a impermanência torna-se consoladora, nos trazendo
paz, confiança e destemor. E, o mais importante, podemos ver
claramente quão fútil é agarrar-se a algo que simplesmente não pode ser agarrado.

Apesar de sabermos que tudo é por sua própria natureza impermanente, de alguma forma ainda assim não aceitamos isso. Então tentamos trapacear este processo natural, o que é impossível porque é contra as próprias leis da natureza. Como resultado disso, nos machucamos. E assim tudo que temos que fazer é aceitar a impermanência de uma vez por todas. A coisa extraordinária é que quando você aceita a morte e a impermanência, você percebe que você não está perdendo qualquer coisa.
De fato, você está ganhando tudo. É como se você estivesse perdendo as nuvens e ganhando o céu.

Rinpoche, o senhor poderia falar sobre o momento da morte?

De um ponto de vista espiritual, o momento da morte é considerado como sendo o momento mais importante de nossa vida. A mensagem fundamental dos ensinamentos budistas é que se estamos preparados, há tremenda esperança, tanto na vida quanto na morte. Para alguém que se preparou e praticou, a morte vem não como uma derrota, mas como uma vitória, o momento mais glorioso e que coroa a vida. O momento da morte é uma oportunidade tremenda se entendemos claramente o que está acontencendo e nos preparamos bem durante a vida. Pois, no exato momento da morte, a mente egóica pensante morre na essência. E nesta verdade, a iluminação ocorre. Se nos familiarizamos com a verdadeira natureza da mente através da prática enquanto ainda estamos vivos, então ficamos mais preparados para ela quando ela se revela espontaneamente no momento da morte. O reconhecimento então se segue naturalmente como uma criança que corre para o colo da mãe. Permanecendo neste estado, estamos liberados.

O que os ensinamentos revelam são as maravilhosas "boas novas" de que quando o corpo morre, a mente comum e todas as suas ilusões morrem.
Todos os pensamentos e emoções ligados à raiva, desejo e ignorância morrem. O que se revela no momento da morte é a base derradeira do ser, a natureza búdica – a natureza de nossa mente, algumas vezes chamada de Luminosidade Base ou Clara Luz. Para um praticante cristão, poder-se-ia quase chamar isto de retornar a Deus, já que é ir de volta a nossa natureza primordial. Esta natureza essencial da mente é a base da totalidade vida-morte, como o céu que encobre todo o mundo em seu abraço.

No momento da morte, há duas coisas que valem: o que quer que tenhamos feito em nossas vidas e que estado mental temos naquele momento. Mesmo que tenhamos acumulado muitas ações prejudiciais em nossas vidas, se naquele momento somos capazes de mudar nosso coração, isso pode decisivamente influenciar nosso futuro e transformar nosso carma, porque o momento da morte é uma oportunidade excepcionalmente poderosa para purificar carma. Se morremos num estado mental positivo, podemos melhorar nosso próprio renascimento. Isto significa que a última
emoção e pensamento que temos antes de morrer têm um poder
extremamente determinante sobre nosso futuro imediato.

É por isso que os mestres enfatizam que a qualidade da atmosfera ao nosso redor quando morremos é crucial. Com nossos amigos e parentes, devemos fazer tudo que podemos para inspirar emoções positivas e sentimentos sagrados, tais como o amor, a compaixão e a devoção, e fazer tudo que podemos para deixá-los livres de fixação, ânsia e apego.

Como deveríamos praticar na hora da morte, Rinpoche?

O grande mestre Padmasambhava, fundador do Budismo Tibetano e
revelador do Livro Tibetano dos Mortos, deu o seguinte conselho para o momento da morte:

Agora que o bardo da morte nasce em mim,
Abandonarei toda a fixação, ânsia e apego,
Entrarei sem distrações na límpida sabedoria do ensinamento,
E ejetarei minha consciência no espaço da Rigpa não-nascida;
Enquanto abandono este corpo composto de carne e sangue
Saberei que ele é uma ilusão transitória.

Ou mais simplificadamente:

Abandone o apego e a aversão.
Mantenha sua mente e coração puros;
Unifique sua mente com a mente de sabedoria dos budas;
Repouse na natureza da mente.

Rinpoche, como posso ajudar alguém que está morrendo a fazer como Padmasambhava explica, e abandonar a fixação, a ânsia e o apego?

Você o fará através do cuidado emocional e do apoio que você dá a pessoa que está morrendo, e a presença e amor que você dá a eles, que é inspirada pela sua própria prática. Se chegamos a entrar em contato com a natureza de nossa mente, estabilizamos isso através de nossa prática espiritual, e integramos isso em nossas vidas, então o amor que temos para só poderá ser mais profundo, porque vem de uma fonte mais profunda: nosso ser mais íntimo, o coração de nossa natureza iluminada. Têm o poder especial de liberar a nós e a pessoa moribunda.

Este tipo de amor, além de todo apego, é como amor divino. É o amor de todos os budas, o amor de Cristo, o amor de Deus. Neste estado, sem planejar e sem nem mesmo pensar, podemos sentir a presença do Buda ou de Cristo, sem esforço. É como se nos tornássemos seus embaixadores, seus representantes, nosso amor sustentado por seus amores e infundido com suas bênçãos e compaixão. O amor que flui verdadeiramente da natureza da mente é tão abençoado que tem o poder de dissipar o medo do desconhecido, dar refúgio com relação à ansiedade, garantir serenidade e paz, e trazer inspiração na morte e além dela. É assim que podemos ajudar a pessoa moribunda a "abandonar a fixação, a ânsia e o apego".

Em segundo lugar, Padmasambhava diz, "Entre sem distrações na límpida sabedoria dos ensinamentos." Se você é um praticante realizado, é aqui que você repousa na natureza da mente. Como vimos antes, a culminação do seu treinamento meditativo é chegar à natureza essencial da mente e ser capaz de repousar naquele estado de Clara Luz. E como já dissemos antes, quando esse corpo morre, a mente comum e todas as suas ilusões morrem; todos os pensamentos e emoções ligados à raiva, desejo e ignorância morrem, e a natureza da mente – a Clara Luz – é revelada.

Agora, abandone todo o apego e aversão e permaneça em meditação, na límpida sabedoria do ensinamento que seu mestre apresentou a você e que você reconheceu e integrou através da prática. No momento da morte, você pode entrar naquela Clara Luz da natureza da mente, e a liberação está assegurada.

Ou, se você não realizou completamente a natureza derradeira da mente, então você apenas lembra o ponto mais importante dos ensinamentos.
Repasse os ensinamentos muitas e muitas vezes. Colha sua essência e através da prática, deixe-os tornarem-se o próprio coração e núcleo e corpo da sua compreensão, de forma que se torne "a límpida sabedoria dos ensinamentos". Então, quando você morrer, você pode morrer com aquela sabedoria em seu coração. É isso que se chama "morrer conscientemente".

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

No Espelho da Morte


No Espelho da Morte
Sogyal Rinpoche


(Trecho)
"APRENDA A MORRER E APRENDERÁS A VIVER. Ninguém aprenderá a viver se não tenha aprendido a morrer." Estas palavras, escritas centenas de anos atrás no antigo Livro da Arte de Morrer, vêm a minha mente frequentemente quando penso sobre nossa compreensão da morte e de seus relacionamentos com a vida. Se apenas pudermos aprender a como encarar a morte, então teremos aprendido a lição mais importante da vida: como encararmos a nós mesmos, e assim nos resolvermos com nós mesmos no sentido mais profundo possível, como seres humanos.

Nesta era moderna, não olhamos para a vida e a morte como um todo.
Como resultado, ficamos muito apegados a esta vida, e rejeitamos e negamos a morte. A morte torna-se nosso pior medo, a última coisa que queremos encarar. Frequentemente digo às pessoas, "se você está preocupado com a morte, não se preocupe; todos nós morreremos, nisso com certeza seremos bem sucedidos." Então por que tememos tanto a morte? Por trás de nosso medo de morrermos há um medo de olharmos bem para nós mesmos, porque o momento da morte é o momento da verdade. De fato, a morte é como um espelho no qual o verdadeiro sentido da vida se reflete.

Infelizmente, na vida moderna as pessoas vêem a morte como um tipo de perda ou derrota. Porém, de um ponto de vista espiritual, a morte não é uma tragédia a ser temida, mas uma oportunidade para transformação.
A morte é nossa maior professora. Ela nos desperta de forma que não nos tornemos desleixados, preguiçosos ou ingênuos. O problema conosco é que mesmo que saibamos que morreremos um dia, porque não sabemos quando ou como acontecerá, pensamos que temos usufruto ilimitado da vida, e então procrastinamos.

Lembro de falar sobre isso com um de meus professores, Dilgo Khyentse Rinpoche, um dos maiores professores das últimas décadas e um dos professores de Sua Santidade o Dalai Lama. Ele veio ao ocidente algumas vezes durante a segunda metade de sua vida, e em uma dessas visitas perguntei a ele o que ele percebia em particular com relação aos ocidentais. Ele respondeu, "Bem, eles têm um interesse enorme nos
ensinamentos, mas desperdiçam tanto tempo!" Fiquei surpreso e
perguntei a ele, "Como o senhor pode dizer que eles perdem tempo?
Estão sempre tão ocupados." Ele me respondeu que era exatamente porque estamos sempre tão ocupados que perdemos tempo, porque esquecemos a coisa mais importante – a morte – e a vida também, por conseqüência.

A preguiça tem muitas formas diversas. No mundo moderno, a mais praticada é a "preguiça ativa". Mantemos-nos tão ocupados que não temos tempo para pensar ou cuidar das coisas mais importantes. E assim iludimos a nós mesmos. Como se diz, "A mente é criativa nos jogos da ilusão".

A morte, por outro lado, nos mostra que acabou a brincadeira.
Resolver-se com a morte então é de fato resolver-se com a vida. Ainda assim parece que, muito frequentemente, só começamos a pensar sobre a morte logo antes de morrermos. Mas não é um pouco tarde demais? Os ensinamentos nos mostram que deveríamos nos preparar para a morte agora, quando estamos bem e num estado mental feliz. É em particular nos momentos em que somos naturalmente levados à introspecção que começamos a ver a vida e a morte de uma forma mais inspirada e profunda.