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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

A Lâmpada


Na transmissão, o Mestre ritualmente entrega ao Monge a lâmpada. Então é a história da transmissão da luz ou da transmissão da lâmpada. O Monge passa a ficar encarregado de prosseguir com aquela lâmpada, tentando levar a luz às outras pessoas, clareando o caminho. Então, ser discípulo requer uma atitude diferente da do aluno, porque as três qualidades do discípulo são: obediente, silente e não resistente. O discípulo tem que entregar seu caminho para o Mestre. Ele escolhe o Mestre e segue o caminho, mesmo que não entenda. Se o Mestre disser: "suba aquela montanha e me traga uma pedra lá do topo", ele vai lá e traz a pedra. O Mestre pega a pedra e joga dentro do rio, sem dizer nada. O discípulo não pode achar isso idiota, não pode contestar, ele tem que procurar saber o porquê disso, o que o Mestre está tentando dizer, o que ele está ensinando. Então, discípulo não questiona nada. 
Na tradição tibetana há um ditado que diz: “examine seu professor durante oito anos antes de aceitá-lo como Mestre”. Você só deve aceitar ser discípulo do seu Mestre depois de olhá-lo muito bem durante tempo suficiente para você ter a coragem de entregar seus destinos às instruções dele.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Os Seis Reinos: Os Reinos Animal e Humano



O terceiro reino é o reino animal, que é o reino da obscuridade, da ignorância, da atenção só para os seus desejos. Você age como um cão: se tem fome, briga por um osso. Comeu, então deita para dormir e não pensa mais. Não constrói nada, não faz mais nada, simplesmente vive atrás dos seus instintos, só isso. Passa uma cadela no cio, então pula o muro, vai atrás, briga com outros cachorros, faz qualquer coisa atrás do instinto. Essa é a característica do reino animal.

Depois, vem o reino humano, que é o da turma aqui: tudo é “mais ou menos” no reino humano. Às vezes você corre atrás dos instintos, às vezes você é ambicioso como um fantasma faminto, às vezes você tem ódio e raiva como no reino dos infernos. Você pode passar um dia e transitar por todos os mundos, porque está tudo ali. 

Mas essa é a vantagem do reino humano: você pode conhecer o Dharma e sente vontade de escapar do mal, sente atração para a felicidade e para o bem. Você pode procurar de maneira errada e se enterrar mais ainda no sofrimento, mas você quer a felicidade. Existem impulsos que levam o ser humano para outro nível. Então, num nível mais alto de existência, às vezes você é como um anjo, um deus, cheio de bondade, compaixão, todo mundo é misturado nesses sentimentos. Você pode diminuir sentimentos ruins e deixar os outros bons crescerem. Sentimentos de compaixão crescem e os instintos baixam, esse é o trabalho da prática.

(Continua)

[Trecho da palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O Reconhecimento da Realização




Outro caso interessante é o caso de Punyayasas (Funayasha Daioshô em japonês), que é o 11º patriarca na nossa recitação. Ele se achava de pé com as mãos unidas, frente ao venerável Parsva (Barishiba Daioshô em japonês):

-          De onde vens? - perguntou-lhe Parsva.
-          Minha mente não vai nem vem.
-          Onde moras então? - perguntou o venerável.
-          Minha mente não se move, nem tampouco permanece quieta.
-          Estás seguro disso? - Insistiu o patriarca.
-          Em isso coincidem todos os Budas, contestou Punyayasas.
-       Mas tu não és todos os Budas, e por outra parte a expressão “todos os Budas” é um erro.   Asseverou Parsva.

Ao escutar isso, Punyayasas empreendeu uma prática ininterrupta durante 21 dias: ele retirou-se e foi sentar-se por 21 dias até chegar a alcançar a compreensão do estado não originado de todas as coisas. Estado não originado de todas as coisas o é porque todas as coisas dependem umas das outras: isso existe porque aquilo existe; todas as coisas estão conectadas como num círculo sem fim. Não existe uma coisa que você diga: “ah, esse é o início de todas as coisas”. E então ele dirigiu-se ao venerável e disse-lhe:
          
- “Todos os Budas” é uma expressão equivocada, mas eles não são o venerável.  Eles não são o  senhor.

Então Parsva reconheceu sua iluminação e transmitiu-lhe o verdadeiro Dharma. 

Eu estou contando essas histórias para que entendamos a transmissão. Houve um diálogo e uma luta, e o aluno sentiu que não estava preparado para enfrentar o patriarca, o mestre. Então ele volta, pratica mais 21 dias sem parar, e, seguro da sua capacidade de responder, visto o estado não originado de todas as coisas, ele vai até o mestre e aí lhe diz o que tem que ser dito, com certeza.



Existe uma grande diferença em dizer, “Eu penso que…”, e dizer com certeza absoluta uma coisa. Punyayasas vai até o mestre e diz que ele não é todos os Budas, e o mestre não só ouve as palavras, porque não adianta só repetir essas palavras. Ele vê o discípulo e o reconhece, reconhece sua realização.

N.E.: transcrição de palestra realizada por Monge Genshô Oshô em Florianópolis, novembro/2016.