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quarta-feira, 2 de março de 2016

Liberdade é essencial para o progresso espiritual

Aluno: Quando o discernimento se torna um julgamento?

Monge Genshô:
Esse é um problema que às vezes acontece com o budismo. Nós dizemos: sente, faça zazen e não julgue. As pessoas começam a dizer: “fulano roubou a estátua de Buda e levou para casa” e o outro diz: “não julgue”. Não é assim. Ele é ladrão mesmo. Nós temos que pedir a estátua de volta, temos que agir contra o mal. Nós passamos o nosso tempo no mundo tendo que fazer julgamentos, julgamos se um programa de televisão é bom ou ruim para assistir e assim por diante.

Na minha casa tenho regras e uma delas é que lá não se compra nada de carne, mas temos um cachorro e sempre que eu compro a ração eu penso sobre como ela é feita, faço o julgamento, mas compro. Outro dia cheguei e um filho meu tinha passado de visita, comprou mortadela e pôs dentro da geladeira. Quando abri e vi aquilo dei para o cachorro. Quando ele chegou veio procurar a carne e expliquei que dei para o ser não consciente da casa. Temos outras regras lá em casa também, uma delas é não dizer palavrões. Já me perguntaram o que eu digo quando martelo o dedo. Digo: “burro”, porque é isso que tenho que ser para fazer isso, claramente eu não estava prestando atenção no que estava fazendo. Então você vai criando determinados comportamentos e regras e assim você vai mudando. Existem comportamentos que o próprio ambiente diz que estão errados, assim como nós estamos aqui no sesshin e ninguém fica conversando. O mundo é mutável, mas eu não posso impor as minhas regras na casa do vizinho, só posso fazer isso dentro de um ambiente limitado e com pessoas que concordem comigo. Mesmo com os meus filhos, eu não posso impedi-los de fazerem o que querem. As decisões são deles e as consequências também. A liberdade é essencial para podermos ter progresso espiritual. Julgar faz parte do caminho da virtude, faz parte de saber o que é certo e errado, é impossível agir certo o tempo todo, nós só tentamos.

Tive um mestre nos Estados Unidos que me contou que um dia lhe perguntaram: “eu estou lendo aqui como devo praticar, mas não consigo me reconhecer no texto de Dogen. O que o senhor tem a dizer sobre isso?”. E ele respondeu: “nós lemos isso todos os dias e todos os dias fazemos coisas erradas, nós somos seres humanos, nós não conseguimos, podemos apenas tentar”. Todos os nossos votos são impossíveis. Fazemos votos de não matar, mas quantos insetos matamos hoje, pisando? Posso tentar evitar, mas é impossível. Temos sistema imunológico, se eu coloco fungicida na unha eu mato o fungo. Isso faz parte do conjunto da vida, mas há outros pensamentos inclusos nisso tudo, temos a prática, queremos ampliar a nossa mente e queremos não nos manifestar nesse tipo de mundo e sim num mundo melhor. Para isso temos que mudar o nosso carma. (continua)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Agressores também merecem compaixão

Aluno: Cotidianamente eu lido com crianças que sofrem violências de diferentes formas e isso tem se tornado algo que me causa profundo sofrimento, porque eu me vejo cada vez mais intolerante com quem provoca essas injustiças, mas ao mesmo tempo não quero me afastar disso porque acho que ajudar é importante. Tenho duas perguntas sobre isso, a primeira é como lidar com essa intolerância que cresce dentro de mim? E a segunda é como reconhecer o momento de aceitar e o momento de agir contra?

Monge Genshô:
A segunda pergunta eu não posso responder porque você vai ter que solucionar caso a caso para saber como e em que medida reagir. Nós não estamos no mundo para não reagir, nós temos que agir determinadamente contra a agressão.

Sobre a primeira pergunta: os agressores também merecem compaixão, isso é difícil de ver, mas aqueles que cometem os crimes também têm péssimo carma e vão viver enormes sofrimentos pela frente, eles só não percebem isso ainda. Ele vai nessa vida causar sofrimento e na próxima vai ser vítima, porque vai vir para um mundo que é assim, que tem essas características e ele não pode escapar disso.

Eu conheci uma Mestre budista da África do Sul com quem eu fiz um retiro que incluía  24 horas sem dormir. Era um retiro da escola Son coreana. O pai dela foi assassinado com catorze facadas e ela foi ao julgamento ver os rostos das pessoas que o esfaquearam. Me contando depois, ela disse: “não conseguia ver nada, nenhuma consciência do que faziam”, então ela foi trabalhar na penitenciária para acordar essas pessoas que estão nesse sonho, nesse pesadelo. Eles sequer veem os sofrimentos que causam. Existem mães que batem nos filhos, que maltratam, que estão mergulhadas numa cultura de sofrimento e acham que é assim que as coisas devem ser.