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segunda-feira, 18 de junho de 2018

É Possível Mudar



Há uma história de um monge, amigo meu, que foi assaltado e a esposa perdeu o filho na ocasião. Nunca mais tiveram filhos. Depois do acontecimento ele disse: “que bom que eu não tinha uma espada”, porque ele seria um assassino naquela hora, se tivesse esse recurso. Então, numa sociedade como a nossa há um enorme desperdício e pobreza por causa dessa cultura, da falta do agradecimento e do respeito ao outro. 

Esses princípios foram impregnados na cultura japonesa através dos séculos pelo budismo. Os livros mostram que antigamente havia muitos assaltantes nas estradas japonesas, lá era um país cheio de guerras civis, e agora tudo mudou. Portanto, se eles mudaram, nós podemos mudar também, mas para isso precisamos pensar de outra forma, enxergar esses mitos ancestrais que nos prejudicam e colocar outros valores na sociedade.

As crianças são uma grande chave para essa transformação: se nós as ensinarmos, teremos uma geração nova, capaz de pensar diferente. Esses ensinamentos de Buda, essa maneira de ver de Buda, criou sociedades muito pacíficas.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Agressores também merecem compaixão

Aluno: Cotidianamente eu lido com crianças que sofrem violências de diferentes formas e isso tem se tornado algo que me causa profundo sofrimento, porque eu me vejo cada vez mais intolerante com quem provoca essas injustiças, mas ao mesmo tempo não quero me afastar disso porque acho que ajudar é importante. Tenho duas perguntas sobre isso, a primeira é como lidar com essa intolerância que cresce dentro de mim? E a segunda é como reconhecer o momento de aceitar e o momento de agir contra?

Monge Genshô:
A segunda pergunta eu não posso responder porque você vai ter que solucionar caso a caso para saber como e em que medida reagir. Nós não estamos no mundo para não reagir, nós temos que agir determinadamente contra a agressão.

Sobre a primeira pergunta: os agressores também merecem compaixão, isso é difícil de ver, mas aqueles que cometem os crimes também têm péssimo carma e vão viver enormes sofrimentos pela frente, eles só não percebem isso ainda. Ele vai nessa vida causar sofrimento e na próxima vai ser vítima, porque vai vir para um mundo que é assim, que tem essas características e ele não pode escapar disso.

Eu conheci uma Mestre budista da África do Sul com quem eu fiz um retiro que incluía  24 horas sem dormir. Era um retiro da escola Son coreana. O pai dela foi assassinado com catorze facadas e ela foi ao julgamento ver os rostos das pessoas que o esfaquearam. Me contando depois, ela disse: “não conseguia ver nada, nenhuma consciência do que faziam”, então ela foi trabalhar na penitenciária para acordar essas pessoas que estão nesse sonho, nesse pesadelo. Eles sequer veem os sofrimentos que causam. Existem mães que batem nos filhos, que maltratam, que estão mergulhadas numa cultura de sofrimento e acham que é assim que as coisas devem ser.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Palestra em Goiânia [02/11/2015] - Parte 2



Eu pertencia a um grupo de tarefas com mais quatro Monges e tinha um Monge que eu não sabia se era Monge ou Monja, porque não estava no dormitório dos homens. Então eu perguntei para outra pessoa e essa pessoa me respondeu: “ele é transexual, era um homem e se descobriu mulher e já que é assim tem nome de mulher e fica num quarto no dormitório feminino”. E depois disso nunca mais ouvi nenhum comentário a respeito e nós sempre trabalhamos juntos sem ninguém fazer distinção nenhuma. Esse é o ensinamento real do Zen. No momento em que você faz distinção e diz: branco, negro, índio, homossexual ou qual for a outra distinção, é nesse momento que você cria o problema. Se todos nós não diferenciarmos, se todos nós não pensarmos dessa forma, pensarmos apenas como manifestações humanas, hoje é assim, depois não, somos apenas bolhas dentro da garrafa de champanhe, sem necessidade de distinguir, não haverá problema.

É claro que existem considerações a fazer no caso de injustiças, por exemplo, você tem que dizer que essa violência praticada contra alguém por raça, gênero, etc, tem que ser coibida agora. Do ponto de vista budista não tem porque cobrir uma mulher porque ela provoca desejo nos homens, os problemas não estão nela, estão na cabeça daquele que se sente perturbado. A mutilação genital que se pratica na África, assim como as violências cometidas contra os homens que são muitas e que a sociedade admite sem discutir, nada disso é compartilhado pelo budismo. Vemos os noticiários falando de mortes de mulheres e crianças como desastres e mortes masculinas com descaso. Os homens são descartados, podem morrer, mesmo que seja um ser valioso para a sociedade, que seja um cientista, que seja um jovem, acabam salvando, nos naufrágios, mulheres de 80 anos e deixando jovens de 20 anos morrerem porque são homens. Isso é claramente errado para o próprio interesse social. A origem dessa cultura de salvar as mulheres prioritariamente era para salvar a espécie, porque afinal de contas um homem pode fazer filho com várias mulheres. A violência contra os homens não é falada e os homens ficam calados porque são ensinados a não falar, então ficam quietos sobre a violência que sofrem com outros meninos porque vão dizer que ele foi o covarde que apanhou, por exemplo. Enormes violências são escondidas.

A origem de tudo isso é que temos que pensar como seres humanos e não diferenciar por raças, orientação social, classe social e outras classificações várias. Deveríamos olhar para o outro com outro olhar. Essa é a grande lição de Buda, dada 2600 anos atrás. É incrível que há 2600 anos, vivendo numa sociedade que mal tinha começado a escrever, Buda tenha abolido toda a noção de distinção, inclusive entre homens e mulheres. Se até hoje nós não superamos isso, é incrível que já tenha sido proposto há tanto tempo. Das grandes religiões a única que considera homens e mulheres iguais é o budismo. As outras preservam o sacerdócio para apenas um gênero, não sendo necessariamente o masculino, no candomblé apenas mulheres são sacerdotisas, os homens são meros auxiliares. Eu gostaria que vocês levassem com vocês a noção de que a classificação é o problema original. De novo, não estou propondo que nós esqueçamos as injustiças porque a realidade é que existe classificação na nossa sociedade, mas é importante ter claro dentro de si que a classificação é o problema. (Final)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Dilemas morais



Pergunta – Nós que temos então, que pesar entre o absoluto e o relativo, uma vez que não existe o certo e o errado?

Monge Genshô – Dependendo da circunstância as coisas mudam. Matar é errado, mas se para salvar cinquenta vidas você tiver que matar um terrorista, por exemplo, isso é certo ou errado? A princípio matar é errado, mas para produzir arroz há que matar, pois para cultivar o campo você vai matar alguns animais que estão na terra. Não é tão simples. Nos dilemas morais você pode aplicar um princípio que é: “qual o menor mal, para o maior numero de pessoas”? Sempre deverá haver um critério.

Por exemplo, estamos num barco e para que o barco não afunde e todos sobrevivam uma pessoa deve pular na água, quem será? Qual o critério? Pode ser, por exemplo, o mais velho. Esse tipo de problema existe há muito tempo, não é verdade? Normalmente salvam-se primeiro mulheres e crianças. Por quê? Porque crianças têm mais tempo de vida e mulheres são progenitoras, são as que geram a vida, homens sempre foram vistos como mais descartáveis pois bastava um para garantir a sobrevivência da tribo, até hoje quando morrem homens são contados como números enquanto a expressão “mulheres e crianças” parece se referir a inocentes, como se eventualmente os homens não o fossem e suas mortes em guerras também não devessem causar horror. Nessas decisões sempre pesa um valor que sirva para toda a sociedade e não apenas para um indivíduo é isto que está por trás destas tradições. Não há resposta fáceis e um budista tem que saber que tem que decidir e arrostar o carma correspondente sem regras “fechadas”.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Histórias de Vovô Tetsuo



"Histórias de Vovô Tetsuo"
Texto: Ricardo Sasaki e J. Carino
Ilustrações: Marcelo Andreo
ISBN: 978-85-7671-100-1
20 páginas – 17×25 cm
R$ 20,00
€ 6.60

"Um avô japonês, que viveu inclusive os dias terríveis da destruição de Hiroshima e Nagasaki, aproveita questões do dia-a-dia vividas por crianças e adolescentes para transmitir ensinamentos cuja fonte são textos milenares da sabedoria oriental. Diante das questões levantadas por seus netos, o avô Tetsuo conta histórias irresistíveis que contribuirão para a formação de pessoas felizes e éticas".

Acompanhe a sabedoria do Vovô Tetsuo e suas histórias a partir de situações cotidianas de seus dois netos, Luísa e Tiago. Com ilustrações coloridas e histórias baseadas nos tradicionais jatakas indianos.
Peça o seu aqui

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Crianças e adultos por Myanmar

Enquanto caminhamos tentando aumentar a consciência mundial, a Agencia Estado Noticia:

"Mianmá tem dia de novos protestos
Multidão reuniu 10 mil civis e coincidiu com chegada de enviado da ONU, que tentará negociar com os militares
Manifestantes voltaram ontem às ruas de Rangum, maior cidade de Mianmá, a antiga Birmânia, para protestar contra a ditadura. Segundo a rede de TV britânica BBC e a agência de notícias EFE, as passeatas começaram com 2 mil pessoas, mas chegaram a reunir cerca de 10 mil no fim do dia. Soldados do Exército lançaram bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão.Apesar de o governo não ter divulgado informações sobre vítimas, a rádio birmanesa Mizzima, que opera no exílio, afirmou que uma criança morta e duas pessoas atingidas por tiros deram entrada em um hospital da cidade.Os protestos de ontem foram organizados por civis. O cerco militar aos mosteiros continuou impedindo que os monges budistas, que lideraram as mobilizações desde o dia 17 de setembro, participassem das passeatas. O serviço de internet, que na sexta-feira esteve cortado, foi restabelecido parcialmente. A televisão, controlada pelo Estado, transmitiu o movimentos de tropas em Rangum durante todo o dia.Desde quarta-feira, quando o regime militar de Mianmá começou a reprimir violentamente os protestos e a proibir concentrações públicas, pelo menos 16 pessoas morreram, cerca de 200 ficaram feridas e mais de mil foram detidas, entre elas 800 monges. Grupos de dissidentes exilados e diplomatas estrangeiros, no entanto, afirmam que o número de vítimas é muito maior.Um dos mais preocupados com a crise em Mianmá é Gordon Brown, primeiro-ministro da Grã-Bretanha, que colonizou o país. 'Temo que a perda de vidas seja bem maior do que o que vem sendo informado', disse após conversar por telefone com o presidente americano, George W. Bush, e com o premiê chinês, Wen Jiabao."