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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Sobre Transmissão e Sincretismo


 
Keizan Jokin Daioshô (1268-1325)


Quando um monge recebe a transmissão, o título dele passa a ser "Osho". Por exemplo “Genshô Osho”. Quando esse monge morre, e tem linhagem, ou seja, transmitiu o Dharma, normalmente se escreve Daioshô (Grande Mestre). A ordem monástica geralmente é assim: Rikidô San é postulante à monge, então ele fica sofrendo nas mãos do professor até a ordenação a Jôza, que é noviço. Depois da ordenação a Jôza, o noviço, se indicado, vai fazer o combate do Dharma ou Hossenshiki,  que é a candidatura atual do Monge Komyô, que já está sendo instruído para fazer esta graduação.  A partir daí ele torna-se Zagen, e se receber a transmissão torna-se Osho. Daí a importância de quando recitamos os nomes dos Grandes Mestres - “Daioshô” - na recitação da manhã, pois nos relembra a história da transmissão da lâmpada, a transmissão da luz.



Keizan Jokin Daioshô é um grande mestre para nós porque, ao passo que  Eihei Dogen trouxe o Soto Zen da China para o Japão, Keizan foi aquele que efetivamente espalhou o Zen por todo aquele arquipélago. Muitos monges de outras ordens, das escolas mais variadas passaram a ser alunos de Keizan, e trouxeram com eles seus templos, e então o Zen cresceu.  

Keizan fez uma adaptação do Zen de Dogen, que era muito puro, ligado à prática dos tempos de Shakyamuni Buda, como estamos fazendo aqui: zazen, ensinamento e, na realidade, muito pouca cerimônia. Keizan adaptou o Zen às demandas cerimoniais do povo japonês, que tinha muitas ligações, muitos rituais para os mortos e deidades xamânicas, e assim surgiu a forma que é chamada de Shinto Budismo. Trata-se do budismo japonês, que tem muitos elementos que vêm do xintoísmo, que estão na prática, grandemente expurgados na nossa prática ocidental porque eles não têm nada a ver conosco. Mas teria a ver conosco usar elementos da cultura brasileira ou das crenças brasileiras se houvesse uma necessidade de um sincretismo. Contudo, ao menos na mentalidade do nosso povo de hoje, não há essa demanda de sincretismo, de trazer os santos, etc. e outros elementos das religiões presentes no Ocidente para dentro do Zen.

N.E.: transcrição de palestra proferida por Monge Genshô Oshô em novembro de 2016, Florianópolis.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

As vestimentas


Aluno – Qual a explicação para as diferentes cores nas roupas dos monges?

Monge Genshô – Quando você faz a Cerimônia de Jukai, antes você costura um rakusu para poder participar desta cerimônia e fazer os votos dos 16 preceitos. Na nossa sangha você usa uma cor preta, que é a cor da humildade, eu não vou aparecer, eu vou desaparecer, quanto menos aparecer melhor.

Quando você se ordena como Monge Noviço, você usa a cor preta. O kimono é branco, o Koromo é preto, e o manto é preto. Em 2008 eu fiz o Hossenshiki, que é uma cerimônia em que você se gradua como monge, você deixa de ser noviço e passa a ser Monge Aprendiz, “Zagen”. Aí você pode fazer limitadamente certas coisas se o mestre autorizar você. O Hossenshiki é um exame público em que o monge é interrogado por todas as pessoas e tem que responder sem exitar. Nós fizemos um aqui em 2008. Mas você continua usando preto, não muda nada de cores.

Em 2010 Saikawa Roshi me deu a transmissão, então eu deixei de ser “Zagen”, Monge Aprendiz, para ser “Osho”, que significa "mestre". A partir desse momento, você pode usar algumas cores, em geral marrom. Agora vou ao Japão para mais uma graduação e então vou poder usar um manto amarelo, que  a cor do manto de Buda. Vou ser Abade dos Mosteiros de Eihei-Ji e Soji-Ji por 1 dia, aí recebo esse reconhecimento da Escola Sotoshu. É por isso que as cores mudam.

Isso também pode causar perturbação, porque algumas pessoas acabam gostando muito, e esse aspecto institucional ou de carreira pode ser perturbador para o “eu”, então você tem que tomar muito cuidado com isso. Então, mesmo que em 2010 eu comecei a ser chamado de “Sensei”, aqui na sangha ninguém foi autorizado a me chamar de “Sensei” por 1 ano, eu não deixei, até que veio alguém de fora e me chamou de Sensei na frente de todo mundo, aí então isso começou a acontecer. Esse rakusu colorido eu ganhei de presente. Só usam rakusus coloridos na nossa linhagem os  graduados, em outras sanghas pode ser diferente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Leigo, Noviço, Zagen - Uma longa caminhada


Por que fazer a renovação dos votos?

Monge Genshô – Porque a gente esquece. Existe uma regra - não fale das faltas alheias, mas todos os dias comentamos sobre os erros das pessoas. É preciso muita força para cumprir as regras. Às vezes é necessário falarmos alguma coisa, por exemplo, hoje falei sobre a decadência dos monges, mas isso é necessário, mas precisa ter discernimento.  O verdadeiro espírito da regra é não falar das falhas dos outros elevando-se a si mesmo, colocando-se em destaque, por exemplo, tal pessoa faz isso, mas eu não. Precisamos renovar os votos todos os dias, pois ninguém é perfeito, cometemos erros o tempo todo.

Depois de fazer os votos de noviço o que acontece, quais as obrigações?

Monge Genshô – Após tornar-se noviço a pessoa representa menos que um leigo, pois o leigo tem certa liberdade, pode manifestar sua opinião e pode discordar do professor. O noviço entra num caminho diferente, e após sua ordenação você ouve seu Sensei sem protestar. Se o Sensei aponta para o armário de madeira e diz que é feito de ferro, o noviço aceita que é feito de ferro. O noviço faz um voto de obediência, de silêncio e de esforço constante, caso contrário, pode perder seu manto ou será cozinhado na posição de noviço até perder seus defeitos principais e isso pode durar tanto tempo que ele nunca saia da posição de noviço.

Quando você se torna noviço a regra é: “cale a boca e limpe o chão”. É uma situação difícil, mas porque alguém é aceito como noviço? Porque ele tem algumas virtudes como trabalho, esforço, mas ao mesmo tempo apresenta outras dificuldades que precisarão ser trabalhadas. Neste contexto, o noviço será muito pressionado para superar suas dificuldades para que possa vir a se graduar e passar a “Zagen”. Quando o noviço atinge um nível de compreensão, seu mestre poderá convidá-lo a fazer o “Combate do Dharma”, uma palestra pública onde irá responder perguntas de qualquer pessoa. Após a batalha ele se torna Monge Aprendiz, “Zagen”, e aí ficará até que seu mestre lhe dê a transmissão do Dharma. 

Em minha opinião isso não é correto, a transmissão só deveria ser dada para alguém que atingiu alguma realização espiritual, que atingiu pelo menos um aspecto da iluminação, de modo que o mestre possa dizer que o aluno é seu sucessor. Este deveria ser um caminho restrito, mas em um Budismo decadente, acaba-se levando a pessoa que se deseja graduar a uma determinada graduação, mesmo que esta não seja verdadeira. Já ouvi de um monge japonês a declaração de que sua graduação no Japão não tem a mesma representatividade que no Brasil, pois ele recebeu a transmissão por ser filho de monge e precisava receber. Ele busca um mestre para obter uma realização espiritual e receber uma verdadeira transmissão do Dharma.