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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Leigo, Noviço, Zagen - Uma longa caminhada


Por que fazer a renovação dos votos?

Monge Genshô – Porque a gente esquece. Existe uma regra - não fale das faltas alheias, mas todos os dias comentamos sobre os erros das pessoas. É preciso muita força para cumprir as regras. Às vezes é necessário falarmos alguma coisa, por exemplo, hoje falei sobre a decadência dos monges, mas isso é necessário, mas precisa ter discernimento.  O verdadeiro espírito da regra é não falar das falhas dos outros elevando-se a si mesmo, colocando-se em destaque, por exemplo, tal pessoa faz isso, mas eu não. Precisamos renovar os votos todos os dias, pois ninguém é perfeito, cometemos erros o tempo todo.

Depois de fazer os votos de noviço o que acontece, quais as obrigações?

Monge Genshô – Após tornar-se noviço a pessoa representa menos que um leigo, pois o leigo tem certa liberdade, pode manifestar sua opinião e pode discordar do professor. O noviço entra num caminho diferente, e após sua ordenação você ouve seu Sensei sem protestar. Se o Sensei aponta para o armário de madeira e diz que é feito de ferro, o noviço aceita que é feito de ferro. O noviço faz um voto de obediência, de silêncio e de esforço constante, caso contrário, pode perder seu manto ou será cozinhado na posição de noviço até perder seus defeitos principais e isso pode durar tanto tempo que ele nunca saia da posição de noviço.

Quando você se torna noviço a regra é: “cale a boca e limpe o chão”. É uma situação difícil, mas porque alguém é aceito como noviço? Porque ele tem algumas virtudes como trabalho, esforço, mas ao mesmo tempo apresenta outras dificuldades que precisarão ser trabalhadas. Neste contexto, o noviço será muito pressionado para superar suas dificuldades para que possa vir a se graduar e passar a “Zagen”. Quando o noviço atinge um nível de compreensão, seu mestre poderá convidá-lo a fazer o “Combate do Dharma”, uma palestra pública onde irá responder perguntas de qualquer pessoa. Após a batalha ele se torna Monge Aprendiz, “Zagen”, e aí ficará até que seu mestre lhe dê a transmissão do Dharma. 

Em minha opinião isso não é correto, a transmissão só deveria ser dada para alguém que atingiu alguma realização espiritual, que atingiu pelo menos um aspecto da iluminação, de modo que o mestre possa dizer que o aluno é seu sucessor. Este deveria ser um caminho restrito, mas em um Budismo decadente, acaba-se levando a pessoa que se deseja graduar a uma determinada graduação, mesmo que esta não seja verdadeira. Já ouvi de um monge japonês a declaração de que sua graduação no Japão não tem a mesma representatividade que no Brasil, pois ele recebeu a transmissão por ser filho de monge e precisava receber. Ele busca um mestre para obter uma realização espiritual e receber uma verdadeira transmissão do Dharma.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Cale a boca e limpe o chão


Quadro de Eduardo Salinas
Pergunta – Ainda, no tema anterior, no Sutra de Lotus quando eles colocam Buda no pico do abutre e vêm um monte de deuses escutar o que Buda estava falando, isso também tem um componente político da época ?

Monge Genshô - É evidente, certamente. São estratégias locais não é? Quando começa a estatuária budista, existem as chamadas “marcas de perfeição”, que são uma saliência em cima da cabeça, um sinal no meio da testa, etc, mas, de onde é que vêm as 32 marcas da perfeição? Na realidade são do hinduísmo, são anteriores, vem dos vedas. Então o que aconteceu? Traz-se para a estátua de Buda uma série de características que estavam nos vedas porque eles estavam vivendo num meio hindu e queriam legitimar Buda como um ser perfeito, então a verdade é esta. Buda era uma pessoa perfeitamente normal, nós podemos deduzir isso pelos textos. Não tem nada a ver com as marcas de perfeição dos vedas, que aliás, se você ler atentamente e tentar reproduzir, vai ser um ser muito estranho! Os braços vão até os joelhos, os dedos tem todos o mesmo comprimento, tem 50 dentes, etc., então essas coisas todas também refletem uma ignorância da época. Se nós lermos os filósofos da época, Aristóteles registra em seus livros que um homem tinha 50 dentes. A falta de atitude científica de dizer assim: “peraí, quantos dentes tem um homem? Abra a boca, vamos contar”, ninguém, fez isso, então se escreveu: “50 dentes”. Assim, temos que olhar tudo sem jamais perder nosso olhar crítico.

Pergunta – Quais são as características para se ser monge no Zen, se existem pré requisitos, tem que fazer algum curso? Os Monges podem casar, todos trabalham?

Monge Genshô - Existem alguns Monges que conseguem viver da sua comunidade.  Assim, alguns monges no Brasil conseguem viver da sua comunidade, mas para isso você precisa reduzir várias coisas, ter família por exemplo é difícil. Caracteristicamente, essas que estamos falando são pessoas sozinhas, aí você pode morar no templo, e depender da sangha para viver.

Mas qual é a característica, a diferença entre monge e leigo, no Zen hoje é assim: o Dharma é prioridade. Quando alguém vai se ordenar monge eu digo: “você é monge, então não tem mais que dizer que tem que resolver um problema na sua casa”. Eu preciso que você faça isso, você faz. Então, é claro que tem um pouco de acordo quanto a isso, não é absoluto, mas deve ser colocado como prioridade a vida no Dharma, essa é a promessa que o monge faz. Os outros passam a ser sua prioridade, não ele.

Não só no Zen mas em todo o budismo, a ordenação de noviço – Shukke Tokudo – é o início do caminho e não o fim. Imagine, é como se você entrasse na ordem para ser treinado e o treinamento acaba demorando muito tempo, porque você tem que fazer períodos em monastério, tem que ficar junto de um professor responsável.

Por exemplo, Tokushi San é Monge noviço, mas ele tem um emprego público que impede que ele saia meses para passar num monastério. Então estamos esperando que ele se aposente. Enquanto isso, ele trabalha dedicadamente, tem um zendo pequeno na sua própria casa, cuida de um outro zendo aqui na zona sul de Florianópolis, vai na sangha, recebe encargos, isso é levado como parte importante da sua vida, mas, ele tem família e tem seu emprego para cuidar, e eu entendo isso. Se eu digo: “gostaria que você fosse a um sesshin”, e ele diz que foi convocado no trabalho como policial militar e não pode, é claro que eu tenho que entender este fato, assim como meu Mestre tem que entender as restrições familiares ou financeiras que eu tenho porque na realidade, a ordem não dá nada para o monge, nós temos que prover tudo. A única coisa que a ordem dá, é estadia no monastério, mas até chegar no monastério, você tem que ir por seus próprios meios, suas roupas você tem que comprar, mas, uma vez no monastério, você tem casa e comida. Mas não tem nada no Brasil, estamos sempre mandando monges para fora. Nós já estamos com estrutura física para treinar monges no Brasil, mas ainda não temos uma “chancela” oficial para isso.

Aluno – Mas os Monges passam por algum treinamento teórico formal?

Monge Genshô - Isso não é exigido dos monges. Ao monge noviço principalmente é exigido que cale a boca e limpe o chão. Não é exigido do monge que seja um professor, poucos monges chegam a professor. Ele tem que fazer um esforço de estudo sozinho, e caracteristicamente algumas pessoas se destacam por sua habilidade de estudar, mas isso é uma questão pessoal, a maioria dos monges não ensina, então, mesmo no Brasil, nós temos poucos Senseis, poucos professores autorizados.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Samadhi



Devemos confiar nos sons dos instrumentos. Cada som significa que algo irá ocorrer, não espere, dirija-se rapidamente para o local. Nos horários de zazen, sempre temos dois sinais, o primeiro é para chamar, “atenção, haverá zazen!” o segundo é para que todos entrem no zendô. Devemos entrar, sentar, ajeitar-nos na posição, respirar e nos propormos a fazer um zazen verdadeiro. O sesshin é sofrido e cansativo, é assim de propósito. O sesshin é uma crise. Sem comunicação, pouca comida, pouco sono e sozinhos. Mas o sesshin está longe de ser uma lavagem cerebral, ninguém lhe dirá o que você deve sentir e pensar. As instruções são, observe sua mente, traga-a de volta para cá. Essa é sua prática, seu treinamento. É um método. O professor não é um Deus, um profeta, um ser perfeito e nem tem nenhuma comunicação direta com algo superior. Ele simplesmente é mais antigo na prática.

Em japonês, sensei , professor, significa aquele que veio antes. Mas não é necessário aceitar irrestritamente o que o professor diz. O budismo ou zen, não são doutrinas baseadas na fé ou crença, é necessário apenas experimentar, treinar, vivenciar. Quando conseguimos a vivência, podemos experimentar algo. O que seria a experiência? A primeira experiência que estamos procurando é samadhi. Samadhi é um estado de profunda concentração em que você está além do pensar e não pensar e está realmente aqui. Se você mergulhar apenas nesse sentimento, estou sentado e ouço os sons, não estou longe por um fio de cabelo, não penso em ontem nem amanhã, só em agora. Se conseguir ficar nesse agora completamente, é samadhi, é isso que temos que cultivar no zazen. Não caiam na tentação de sentar e dizer, “estou cansado e por isso irei criar uma fantasia e rodar um filme na minha mente”. Isso seria um completo desperdício desse sacrifício no sesshin, cada vez que você se vir viajando, volte para cá. Retorne simplesmente, retorne para esse momento. Não se culpe, não se julgue, não pense que esta fazendo um zazen horrível, volte mil vezes. Acalme-se. Se você conseguir não viajar para passado ou futuro e conseguir ficar somente no agora, isso é profundamente sereno. Não existe nenhuma ameaça, nada. No máximo você sentirá cansaço, sono, dor, aproveite, é o cansaço do agora, o sono do agora, a dor do agora, apenas aproveite, o sino irá tocar, vai terminar.

Embora pensemos, “o jikidô deve estar dormindo, esqueceu de tocar o sino”, isso deve ocorrer na cabeça de todos. A função dele é ser responsável por cuidar do tempo do zazen, isso é um sacrifico enorme, pois atrapalha o seu zazen. Apesar de estar de frente para vocês e poder observar e saber que ele já olhou no relógio, também penso, “deve ter passado, ele esqueceu”. Mas também já penso em outro momento, “o que aconteceu, faz só dez minutos que sentamos e o sino já tocou!” . Isso mostra como foi o zazen. O melhor zazen é assim, você sentou e plim...acabou. Guarde esse zazen, esse foi precioso. O tempo não existe. Quando acontece isso você percebe como o tempo pode ser relativo, elástico, como os quarenta minutos podem ser muito longos e sofridos, mas também podem ser muito curtos.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Como se usa o termo "Sensei" ? E "Roshi"?


Cerimônia com noviços, monges, senseis e roshis no Templo Busshinji em 2009.

Explica Coen Sensei em seu texto "A Ordem Monástica da Escola Sôtô Shû e Sua Adaptação na Comunidade Zen Budista Zendo Brasil" :

“Sensei” (先生) são exclusivamente os Monges que receberam Transmissão de Darma.
“Rôshi” e “Dai-oshô” (大和尚) são títulos reservados aos Monges Titulares que tenham demonstrado, por sua prática e empenho, o merecimento. Na tradição Soto, é preciso que haja a recomendação de outro monge titular para que seja oficialmente reconhecido como digno de ser assim chamado. Nota: Na tradição Rinzai, quando o Monge recebe “Inka” (a conclusão do estudo sistemático de koans e a aprovação como professor do Darma), passa a ser chamado de “Rôshi”.


Notas do blog:
Literalmente "Sensei" significa "mais antigo" e é usado na língua japonesa para qualquer pessoa em posição de ensinar,(como um mestre escola por exemplo) no zen o uso é mais estrito e normalmente se usa para o monge graduado como "Oshô" (和尚)(que recebeu a transmissão) quando este tem alunos.
A palavra Oshô significa literalmente Mestre. No Soto Zen, Oshos usam manto amarelo mas para serem Sensei tem que ter alunos e trabalho de liderança em uma Sangha.
Dai quer dizer grande, Dai-oshô, grande mestre, se usa sempre para os mestres ancestrais na recitação das linhagens.
Roshi, traduz-se como "velho mestre" é um tratamento honorífico sem um registro especial ou cerimônia.