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segunda-feira, 14 de março de 2016

Nunca percam o senso crítico


Palestra em Sesshin de Goiânia [novembro de 2015 - parte 4]
Buda não pode ajudar as pessoas, assim não tem sentido pedir coisas para Buda, nem para ninguém. O único jeito de mudar nossas vidas é mudando nossas mentes, isso que é a verdadeira mudança. É isso que é o budismo. Claro que não estamos dizendo que o apoio mútuo seja insignificante. Não é isso! A Sangha é um dos tesouros do budismo. No entanto, é importante perceber que as estátuas, os rituais, as roupas, as tradições são só meios hábeis... não sou nenhum tolo, eu sei que quando coloco a roupa de monge, embaixo da roupa aqui tem só um homem velho, não tem nada de especial, mas porque eu uso as roupas de monge, eu ganho poder. Esse poder, essa respeitabilidade que vem de todo trajeto das cerimônias, dos certificados, dos reconhecimentos, todo esse conjunto de coisas, acaba criando uma espécie de poder mágico que permite que você consiga fazer coisas que sem isso não conseguiria. Por isso, nas entrevistas, acontecem muitas vezes de as pessoas se emocionarem. O que eu tenho a dizer? Que eu sou como você, tenho os mesmos defeitos, os mesmos anseios, eu compreendo porque eu também vivi essas coisas, perdas, decepções, todas essas coisas. O que isso quer dizer? Que sou homem comum, todos os monges são homens comuns, todos os mestres são homens comuns. Meu mestre é um homem comum, mas ao mesmo tempo ele é profundamente incomum. É preciso tentar entender estes paradoxos. 

Não podemos nos iludir, como aconteceu com um homem que foi entrevistado pelo Jô Soares um tempo atrás ( se autointitulou um dos mais inteligentes e sábios do mundo). Na verdade ele era um louco, um psicopata, e enganou algumas pessoas. No programa seguinte foi um delegado para dizer que ele era um psicopata, um louco. E foi desmascarado em público, foi fácil. Mas às vezes não é tão simples assim, e loucos podem enganar povos inteiros e levar nações inteiras ao desastre. Nós temos muitos exemplos de loucos que fizeram coisas assim, porque as pessoas simplesmente querem acreditar. Então eu tento dizer para meus alunos que nunca percam seu senso crítico, não se enganem. E eu não quero enganar fingindo ser o que eu não sou. Então temos que entender que nós todos somos seres comuns. Por sua vez, seres comuns podem despertar, tem natureza búdica e se eles podem despertar, eles podem ser extraordinários. (Continua)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Invisível para os olhos comuns


3) Imaginando que entrasse nessa sala agora um ser totalmente desperto, nós conseguiríamos perceber?

Monge Genshô – No século XX o cientista mais reconhecido talvez tenha sido Albert Einstein. Ele era uma pessoa brilhante desde criança, porém um de seus professores disse que ele não seria ninguém na vida, foi reprovado em um vestibular embora suas notas altas em exatas. Foi recusado como professor de física na Universidade de Berna porque não tinha diploma universitário, tinha apenas um diploma de técnico do curso que havia feito na Escola Politécnica de Zurique. Trabalhava no sistema de Patentes e era um funcionário de terceira classe. Em 1905, ainda como funcionário de terceira classe, escreveu cinco trabalhos e entre eles estava a “Teoria da Relatividade”, um artigo sem notas de referência a ninguém, um trabalho totalmente novo.

Descreveu também o “Efeito Foto Elétrico”, o Movimento Browniano onde explicava porque as partículas não param de se movimentar. Qualquer desses trabalhos era suficiente para ganhar o Prêmio Nobel, fato que aconteceu para o Efeito Foto Elétrico. Em 1917 ele escreveu a Teoria Geral da Relatividade. Antes de todos esses trabalhos ele não havia tido qualquer tipo de reconhecimento. Seu trabalho sobre a Teoria da Relatividade não recebeu o prêmio Nobel, pois não foi compreendida integralmente pela Academia Sueca que cogitaram a possibilidade de que ela estivesse incorreta, por isso ele recebeu o prêmio pelo Efeito Foto Elétrico, era algo que eles conseguiam entender.

Hans Kilian, famoso cirurgião alemão, conta em sua autobiografia que era um adolescente muito alto, acima do normal e seu professor de latim sempre o ridicularizava e o chamava de burro “sic longus, sic stultus” (tão alto, tão tolo). Quando pensamos no caminho espiritual, se eu lhe perguntasse se você concorda que Jesus Cristo foi um grande líder espiritual, o que você diria? Sim, não é? E o que fizeram os soldados romanos? Você acha que se eles vissem que ele era uma pessoa iluminada o teriam tratado daquela forma? Bodhidarma esteve frente a frente com o Imperador Wu, mas este não o reconheceu como um grande mestre, até que escreveu um poema que dizia: “Eu o vi, sem ver”.

Havia pessoas que chegavam a desafiar Buda e até quem tentasse matá-lo. Se ao olhar para uma pessoa fosse claro ou houvesse uma espécie de luz dourada em volta, isso não aconteceria.  Só consegue ver a iluminação quem é iluminado. Aos olhos de alguém que conseguiu uma realização espiritual, quando surge uma pessoa que também obteve uma realização, ele consegue perceber. As vezes a própria pessoa ainda não percebeu.

Saikawa Roshi uma vez me disse que estava na Espanha e durante uma entrevista encontrou uma pessoa iluminada. Ela sentou-se à sua frente no dokusan e lhe disse: “uma vez eu morri”. Através de uma série de perguntas ele pode confirmar que aquela pessoa havia despertado. O despertar precisa ser testado e só quem pode fazê-lo é quem sabe, quem já passou pela experiência. Muitas outras experiências também são assim, se você já amou e uma pessoa vem lhe falar de amor você imediatamente sabe do que ela está falando.